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domingo, 21 de dezembro de 2025

Verão



Inspirado no Verão de Giuseppe Arcimboldo — em que a estação aparece como rosto feito de frutos maduros —, a estação no Brasil e no Hemisfério Sul também pode ser lida como um retrato coletivo: uma soma de tempos, afetos, excessos e promessas.


Aqui, o verão começa em dezembro, quando o ano ainda pulsa com as ruas lotadas de consumidores indo às compras. É estação que não chega sozinha: vem acompanhada do encerramento do calendário escolar, das férias, das malas improvisadas, das estradas cheias, dos aeroportos lotados. O calor não é apenas climático; é social. O país desacelera em alguns setores e acelera em outros. A rotina se reorganiza.


O verão brasileiro é inseparável do Natal e do Ano Novo — datas que, sob o sol forte, ganham outro sentido. As mesas se abrem, as famílias se reúnem, mesmo entre ausências e silêncios. Há reencontros, há conflitos, há tentativas de recomeço. Entre rabanadas e frutas geladas, o ano se despede e outro se anuncia, como se o calor ajudasse a dissolver o que ficou pesado demais.


Janeiro chega com cara de promessa. Para muitos, é tempo de viagem, de praia, de pés na areia e sal na pele. Para outros, é tempo de trabalho redobrado, de cidades vazias e transporte irregular. O verão, como em Arcimboldo, é abundante — mas desigual. Enquanto uns desfrutam, outros resistem às ondas de calor, às contas altas, à falta de sombra e de água.


Fevereiro traz o retorno gradual da rotina e, com ele, o Carnaval. A estação então se torna corpo em movimento: música, rua, suor, fantasia, crítica e alegria misturadas. O verão brasileiro é também expressão cultural, ocupação do espaço público, invenção coletiva de felicidade — ainda que breve.


Em março, o verão se despede oficialmente. As aulas retornam, o calendário volta a se impor, mas o calor insiste. Ele se prolonga até abril, lembrando que os ciclos naturais nem sempre obedecem às datas formais. Como na vida, as transições são difusas.


E quando as primeiras chuvas mais constantes chegam, ecoam versos conhecidos:

São as águas de março fechando o verão…

A canção de Tom Jobim traduz o sentimento nacional: o verão não termina de forma abrupta; ele se dissolve. Leva consigo excessos, cansaços, amores rápidos, promessas não cumpridas — e deixa a expectativa de recomeço.


Assim como no quadro de Arcimboldo, o verão no Brasil é feito de múltiplos elementos: natureza, tempo, corpo, política, afeto e memória. É estação de plenitude, mas também de desgaste. De alegria e de alerta. Um rosto coletivo composto de sol, suor, música, festa e desigualdade — belo, intenso e, inevitavelmente, passageiro.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Bora na posse?!



Seja uma tarde ensolarada ou não, desejo muito estar na próxima quarta-feira, dia 1° de janeiro, na Praça Robert Simões, no Centro de Mangaratiba, prestigiando a posse do prefeito eleito Luiz Cláudio Ribeiro, do vice-prefeito eleito Lucas Venito e dos treze vereadores eleitos ou reeleitos. 

Que os novos gestores e legisladores possam levar em conta os interesses e o bem-estar do Município, consigam impor ordem nesses dias tumultuados de alta temporada, lembrem-se dos jovens com suas aspirações, dos idosos com as suas várias necessidades, e não lhes falte vontade de proporcionar dias melhores para todos nós, população de Mangaratiba. Afinal, é muito bom quando o lugar que a gente tanto ama é tratado com tanto carinho e respeito, sendo que a Princesinha da Costa Verde hoje carece de uma alta dose de cuidado.

Vamos nessa?! 

Lembrando que faltam só três dias para que haja um novo recomeço aqui a partir de 2025...

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

As metas para o futuro



 

"Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas." (Jesus de Nazaré, Evangelho de Mateus 6:33; NVI)


É bem comum, nessas épocas de passagem de ano, fazermos as nossas reavaliações pessoais e traçarmos metas para o novo período de 365 dias que se inicia. Muitos fazem logo uma lista de desejos alcançáveis tipo dar entrada numa casa nova, arranjar um novo emprego, abrir um negócio, aumentar suas vendas, quitar as dívidas, iniciar uma faculdade, comprar um carro, viajar, casar, ter um filho, etc. 


Confesso que nada tenho contra tais planejamentos. Aliás, muito pelo contrário pois, na vida, a melhor maneira de alcançarmos resultados é avaliando condições e possibilidades, verificando previamente quais esforços podem ser feitos para conseguirmos isso ou aquilo, ainda que nem sempre possamos estar no controle de todos os eventos que se sucedem.


Pois bem. Estava na semana passada pesquisando no Google uma frase que fosse inspiradora para essa época quando, por acaso, deparei-me com o citado dito atribuído a Jesus no célebre Sermão da Montanha, uns dos mais belos discursos bíblicos e que ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus, primeiro livro do chamado Novo Testamento. No contexto da passagem, o Mestre vinha falando sobre a apreensão que o ser humano muitas das vezes sente pela sua própria vida, geralmente no que diz respeito às nossas preocupações cotidianas.


Por certo, o modelo de vida ensinado por Jesus diferencia-se dos projetos que costumamos elaborar. Isto é, das motivações que geralmente temos, as quais acabam por coincidir com aquilo que ele advertiu os discípulos que o ouviam sobre não acumularem riquezas sobre a terra, "onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam" (verso 19).


Inegavelmente, a sua mensagem é profunda porque envolve questões sobre os nossos interesses particulares, a doentia ansiedade quanto ao nosso sustento futuro (necessidades básicas como alimento e vestuário), quais os valores que devemos ter, mas nos impõe uma pequena dose de fé para crermos num cuidado divino sobre nossas vidas.


Buscar o Reino de Deus e a sua justiça não pode se resumir à ideia de ganharmos um visto de residência para a morada celestial quando morrermos, mediante à aceitação de um conjunto de crenças ofertado numa pregação religiosa. Pois o que Jesus estava falando ali seria a promoção de uma realidade bem mais abrangente, revolucionária, de relações amorosas, solidárias, distributivas, sadias, restauradoras e inclusivas.


Entender o que é o Reino de Deus, por sua vez, não pode se resumir a meros conceitos teológicos e nem se confundir com a forma monárquica de governo, muito bem utilizada como metáfora por Jesus para expressar o desejo de que toda a humanidade se torne uma bem-aventurada família praticante do amor ao próximo. Isso significa nos tornarmos súditos não de homens e sim da vontade divina consistente na prática do bem.


Obviamente a passagem bíblica não vai nos responder de imediato quais as metas específicas que cada um precisa adotar para o futuro e não me parece que Jesus tenha proibido os seus discípulos de fazer um planejamento para o amanhã que fosse adequado segundo os justos valores. Contudo, suas sábias palavras norteadoras poderão nos ajudar a definir o nosso caminhar em qualquer tempo, conforme as nossas necessidades e responsabilidades, no sentido de sabermos estabelecer com profundo alicerce sobre a rocha a verdadeira prioridade: o Reino de Deus e a sua justiça.


Que Deus nos abençoe em 2024 e sempre!


OBS: Imagem acima referente à pintura do artista dinamarquês Carl Heinrich Bloch (1834 - 1890), O Sermão da Montanha.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Fogos barulhentos no Ano Novo, NÃO!


 


Pessoal, li uma notícia no jornal O DIA e fiquei preocupado. Será que a prefeitura vai gastar o nosso dinheiro no ano novo soltando fogos e perturbando o sossego das pessoas? Segundo a matéria:


"O evento começa às 19h do dia 31 em todos os locais. As orlas de Itacuruçá, Conceição de Jacareí, Muriqui, Praia do Saco e o centro de Mangaratiba, vão receber os artistas nos palcos dos eventos, que prometem animar a virada do ano com um show pirotécnico que vai iluminar o céu da região e dar boas vindas ao novo ano que se inicia. Entre as atrações; Gabby Moura, Lili Andrady, Sandro Martins, Renatinho e Nosso Querer. Imperdível."

https://odia.ig.com.br/mangaratiba/2023/12/6764703-tudo-pronto-para-o-reveillon-em-mangaratiba.html


Ora, no dia 15/12, efetuei um registro sob o número 144/2023, na Ouvidoria da Prefeitura, justamente questionando sobre a soltura de fogos, tendo apresentado a seguinte solicitação até o momento não respondida:


"Solicito informações sobre quais as medidas a Prefeitura de Mangaratiba pretende adotar para impedir a queima de fogos com ruído nas festividades de fim de ano? Embora o capítulo VIII do nosso Código Ambiental que trata da poluição sonora e visual não fale expressamente sobre os fogos de artifício, eis que a Lei Municipal n.º 931/2014, ao permitir a soltura de balões artesanais, desde que sem fogos, deixa entendido que o legislador local optou por banir essa fonte de perturbação do sossego. Sendo assim, além da Prefeitura ser proibida de usar fogos de artifício de estampido e de qualquer artefato pirotécnico de efeito sonoro ruidoso, a mesma tem o dever de impedir essas práticas pelo particular, razão pela qual solicito as informações sobre quais medidas serão adotadas para proteger o sossego público no Município"


Considerando que o Município já possui uma lei que proíbe a soltura de balões com fogos, seu texto dá a entender não ser também possível, nas festas de final de ano em Mangaratiba, a soltura de qualquer artefato pirotécnico de efeito sonoro ruidoso.


Portanto, vamos ficar de olho se vão soltar fogos no Ano Novo e também se a Secretaria de Ordem Pública estará atuando efetivamente para evitar essa conduta lesiva pelos particulares, sendo fundamental tomarmos medidas preventivas a fim de proteger o sossego público na nossa coletividade, considerando que os fogos de artifício afetam pessoas autistas, crianças recém nascidas, idosos, pacientes acamados e animais de estimação.




Ótima quinta-feira a tod@s!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Começando 2021 e a terceira década do século XXI...



Pois é, meus amigos. Hoje, dia 01/01/2021, inicia-se não só mais um ano como também uma década, com os seus 3.652 dias, considerando neste cálculo que 2024 e 2028 serão bissextos.


Mas o que pensar a respeito de um período tão longo?! Será que ainda estaremos vivos até 31/12/2030?!


Confesso que, mesmo se estivesse hoje com 80, 90 ou 100 anos de idade, não deixaria de planejar a minha próxima década de vida, ainda que fosse a última e não a completasse. Pois, como nunca conhecemos o nosso amanhã, devemos ter sempre um plano "B" nas mangas. Até porque existem umas poucas pessoas sobre a face da Terra que vivem mais do que 110 anos, não é mesmo?


Fato é que precisamos ser ao mesmo tempo previdentes, sem deixarmos de viver com intensidade o nosso momento como se fosse o último. E, em se tratando de pessoas jovens (ou de meia idade como já seria hoje para mim), em tese temos é muito chão pela frente, sendo que, no meu caso, faltam 21 anos, quatro meses e doze dias para poder me aposentar e ter uma pequena renda extra do INSS para ajudar nas futuras despesas pessoais durante o começo da minha terceira idade em 2041.


Todavia, não chegaremos a lugar algum nas nossas vidas, sem tomarmos as atitudes necessárias. Seja quanto às metas projetadas para 2030, 2025, 2022, ou ainda durante o curso do corrente ano.


Meditando acerca dos conselhos dos sábios, lembrei-me dessa interessante passagem bíblica que se acha no capítulo nono do livro de Eclesiastes:


"Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com coração contente o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras. Em todo o tempo sejam alvas as tuas roupas, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol. Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma." (Ec 9:7-10; ACF)


Certamente que, neste em em outros conselhos, o "pregador" (termo como o autor da obra de refere a si mesmo) inspira atitudes que trazem resultados práticos para a vida como um todo a exemplo de contentar-nos com as conquistas presente, agirmos com integridade, curtirmos a vida em família com a esposa e aproveitarmos decisivamente as oportunidades para realizar os nossos projetos pessoais.


Deste modo, não restam dúvidas de que precisamos agir com foco, vontade e disposição a fim de que os objetivos sejam alcançados, o que ajuda a explicar o significado do fazer "conforme as tuas forças". E aí caberá sempre o uso equilibrado do discernimento acerca do momento, uma vez que "há tempo para todo o propósito debaixo do céu" (Ec 3:1).


Finalmente, ressalto sobre a importância de sermos sempre solidários em nossa caminhada, por mais que vivamos num mundo individualista e ingrato. Pois, em nossa semeadura, precisamos também investir em pessoas a nossa volta, o que significa também compartilhar um pouco dos nossos recursos, em certa medida, com o próximo.


"Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra. Estando as nuvens cheias, derramam a chuva sobre a terra, e caindo a árvore para o sul, ou para o norte, no lugar em que a árvore cair ali ficará. Quem observa o vento, nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará. Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão, porque tu não sabes qual prosperará, se esta, se aquela, ou se ambas serão igualmente boas" (Ec 11:1-6)


Portanto, meus leitores, desejo a todos um feliz 2021 e que tenhamos atitudes sábias para sermos bem sucedidos na nossa caminhada de vida.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Graciosamente novo


Foi mais um ano que passou e eis aí um outro que começa seguindo o calendário solar da civilização do Ocidente.

Geralmente, nesta época, as pessoas costumam fazer suas reflexões e elaborar planos para um novo período de suas vidas, às vezes com futuras metas a serem alcançadas. Também é comum elas desejarem boa sorte umas às outras para que os seus sonhos se concretizem, sendo que alguns têm o hábito de fazer simpatias, enquanto outros dão três pulos para frente na hora dos fogos, ou acreditam que serão bem sucedidos se comerem romã ou uva à meia noite, dentre outras superstições.

Ao lado das comemorações de feliz ano novo, creio ser indispensável refletirmos permanentemente sobre o bem e o mal que praticamos, removendo do nosso comportamento tudo aquilo que é capaz de gerar desconexões com a vida. Ou seja, precisamos arrancar coisas que só envenenam o nosso ser, as quais trazem tristezas, solidão, separação, amargura, inimizades, desilusões e morte.

A Bíblia nos ensina sobre todos esses contrastes, usando figuras como “luz” e “trevas”, “bem” e “mal”, “vida” e “morte”. Seus autores também nos falam no “novo” e no “velho” que se aplica a diversas situações, sob pontos de vista diferentes em cada passagem, mas que conduzem numa mesma direção: a vida, a eternidade, a união, a reconciliação, a paz, o amor, a alegria, a compreensão, a aceitação, a verdade, o nosso próximo e Deus.

Num mundo onde todos envelhecem, a Bíblia diz sobre sermos algo que inova (ou se renova), mesmo que, aparentemente, morra. Sua proposta é que internamente sejamos sempre jovens e revitalizados, não deixando que as situações do cotidiano façam de nós pessoas frustradas e que carregam consigo infelicidades. Porém, ao invés de sermos desgastados pelo tempo, somos convidados por Deus para nos tornarmos crianças novamente “porque o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas” (Mateus 19.14; NVI).

Como alguém pode nascer, sendo velho?” - perguntou o mestre Nicodemus a Jesus, quando o Senhor havia lhe declarado que “ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. E, nesta passagem do Evangelho, Jesus estava dizendo a um notável estudioso das Escrituras que ele e os demais doutores da Bíblia precisavam nascer outra vez.

Todavia, a verdade é que o nosso estado de desconexão requer uma radical desconstrução afim de podermos enxergar a Vida, o que Jesus chamou de “novo nascimento”. E, certamente, aqui o Senhor não se referiu à re-encarnação, sobre alguém passar pela experiência ritual do batismo ou muito menos a pessoa tornar-se membro de uma igreja evangélica. Pois, estudando João 3.3 no seu idioma original (o grego koiné), pode-se verificar que o editor do quarto Evangelho tentou transmitir aquele ensino através da palavra “anóthen” que também significa “do alto” que, por sua vez, representa um nascimento que vem de Deus, conforme uma citação anterior que se acha logo no início do livro:

Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural (gr. de sangues), nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus.” (João 1.12-13; NVI)

Certamente que o nascer de novo não depende do nosso próprio esforço. É fruto gerado pelo Espírito Santo através da santa semente plantada em nossos corações – a Palavra de Deus. Logo, o novo nascimento só pode decorrer da mais pura graça, sendo um presente dos céus dado aos homens, os quais, mesmo envelhecendo na idade, resolvem retornar para a escola da vida e serem alunos outra vez. São homens que deixam o Espírito agir em seus corações sem oferecer resistência a Deus.

O segredo do novo nascimento está no acolhimento da Palavra de Deus como uma criança, conforme nos ensinou Jesus:

“Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam. Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: 'Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele'. Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou”. (Marcos 10.13-16; NVI)

Com a mesma inocência humilde de um pequenino, Jesus, o Verbo encarnado, foi recebido em seu tempo pelas prostitutas, publicanos e pecadores. Porém, os religiosos, os caras cultos, os estudiosos das Escrituras e os homens poderosos tornaram-se cegos à presença do Messias. Só que a tais pessoas a escola da vida reprovou.

Finalmente quero compartilhar que o novo nascimento não pode ser compreendido como algo pronto e acabado a ponto do homem gerado pela semente espiritual não precisar submeter-se mais a um processo de desconstrução e reconstrução.

Muito pelo contrário!


O novo nascimento é também o contínuo processo que, figurativamente podemos comparar a um rio cujo mover das águas não cessa. É o que Paulo nos ensina nestes versículos da carta à Igreja em Éfeso para que os seus destinatários se revestissem do “Homem Novo”:

“Assim, eu lhes digo, e no Senhor insisto, que não vivam mais como os gentios, que vivem na inutilidade dos seus pensamentos. Eles estão obscurecidos no entendimento e separados da vida de Deus por causa da ignorância em que estão, devido ao endurecimento do seu coração. Tendo perdido toda a sensibilidade, eles se entregaram à depravação, cometendo com avidez toda espécie de impureza. Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo. De fato, vocês ouviam falar dele, e nele foram ensinados de acordo com a verdade que está em Jesus. Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade prevenientes da verdade.” (Ef 4.17-24; NVI)

Este Homem Novo do qual Paulo fala é ao mesmo tempo o Messias e o protótipo da nova humanidade recriada. Uma nova criação que se faz na pessoa de Jesus, em sua morte e ressurreição, de modo que nos tornamos também a “nova criatura” de 2 Coríntios 5.17, sendo chamados para viver em justiça e santidade da verdade.

Ninguém que ainda se encontre neste mundo está imune ao pecado. Porém, aí está a grande diferença da nova criatura para a velha. Pois, mesmo sem alcançar perfeição, quem é nascido de novo edifica-se em santidade através da verdade, abrindo o seu interior para o tratamento de Deus porque nada pode ser ocultado aos olhos do Eterno. Assim, a autêntica santificação deve ser buscada pela sinceridade sem o fermento da religiosidade que é a hipocrisia, conforme ensinou Jesus:

“Nesse meio tempo, tendo-se juntado uma multidão de milhares de pessoas, ao ponto de se atropelarem umas às outras, Jesus começou a falar primeiramente aos seus discípulos, dizendo: 'Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido. O que vocês disseram nas trevas será ouvido na luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados'”. (Lucas 12.1-3; NVI)

Deus quer que sejamos uma nova massa sem o nocivo fermento da religiosidade, a qual corrompe o homem impedindo-o de ser sincero e de apresentar-se sem máscaras. Pois, enquanto a pessoa esconde-se por trás de um falso comportamento religioso, o seu interior permanece fechado em trevas e ela mesma impede a iluminação da Divina Luz. Então, tal homem não se encontra mais num estado de permanente renovação e volta a envelhecer espiritualmente, fingindo apenas ter a aparência de quem um dia brilhou. E seu verdadeiro rosto passa a ficar encoberto para que os outros não vejam mais suas humanas expressões.

Não é por menos que Jesus exortou seus discípulos a ficarem atentos quanto ao fermento dos fariseus (leia-se hoje em dia a realidade). Conhecendo a natureza humana mais do que ninguém, o Senhor sabia o quanto somos capazes de transformar o seu Evangelho numa perniciosa doutrina legalista e que nega a graça salvadora. E a história do cristianismo está aí para provar o quanto a injustiça da Igreja excedeu em muito a dos fariseus, dos saduceus e dos herodianos juntos. Uma Igreja que até hoje vem assassinando de diversas maneiras os seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus, pelos quais Cristo morreu, mas se vangloria em de intitular a si mesma como “santa”. E tais homicídios ainda ocorrem quando tentamos impor sobre as pessoas um evangelho de culpas, ensinando mandamentos de homens e roubando a verdadeira adoração ao Eterno, a qual deve ser celebrada com a sinceridade de João 4.23-24, como o louvor das pequeninas crianças.

Seremos uma nova massa se tirarmos de nós o velho fermento, tornando-nos aquilo que de fato somos. Pois, em sua essência, o homem foi criado puro como um pão asmo e ficou levedado pela adição do corruptível ingrediente do pecado. Mas agora, em Cristo, somos chamados para uma nova vida de pureza interior sem nada a ocultar, sabendo que estamos amparados pela graça salvadora de Deus, o qual aceita-nos como somos, não pelo que temos ou fazemos.

Ora, é no caminho da graça que devemos sempre estar para que sejamos renovados a cada momento. Compreendendo o que é a graça, o homem pode sempre continuar sua trajetória, corrigir rotas, levantar-se de cabeça erguida, retornar ao seu ministério e adorar o Eterno Criador com total liberdade, sem nenhuma culpa.

Que neste 2011 que se inicia possamos verdadeiramente andar assim, amparando-nos na divina graça e permitindo que o Eterno nos ilumine interiormente.

Caminhemos na novidade da graça! E, como dizem os judeus, Shanah Tovah Umetukah.