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domingo, 14 de junho de 2026

As Copas que assisti



Esta é a minha décima segunda Copa do Mundo.

A primeira foi em 1978. Eu era uma criança muito pequena, com apenas dois anos de idade. Não sabia o que era a Seleção Brasileira nem entendia de futebol. Suponho que já tivesse alguma bola entre os brinquedos do meu quarto e uma identificação mínima com o escudo do Flamengo, já que meu pai, Francisco, era flamenguista apaixonado. Aliás, nas primeiras semanas de vida eu já usava uma fralda estampada com as cores do clube.

Em 1982, eu tinha seis anos. Meus pais haviam se separado entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980. Morava numa casa de vila no Grajaú, e todo o ambiente estava enfeitado de verde e amarelo. Lembro bem do Laranjito pintado no chão da vila e da música “Voa, Canarinho, Voa”, que tocava o tempo todo na televisão e nas rádios.

Recordo dos primeiros jogos, da euforia da vizinhança e de como minha avó materna, Marisa, comemorava os gols batendo numa velha geladeira que ficava na sala, já que a cozinha não tinha espaço para ela. Era a seleção de Falcão, Zico, Sócrates, Júnior e tantos outros maestros da bola. Infelizmente, fomos eliminados pela Itália na segunda fase do torneio. Paolo Rossi, autor dos três gols italianos, acabou se tornando tão conhecido no Brasil que seu sobrenome virou até apelido de gripe entre os torcedores mais bem-humorados.

Em 1986, eu morava em Juiz de Fora com meu avô paterno, Sylvio. Ele não gostava de futebol, mas outras pessoas da casa assistiam aos jogos, como sua esposa Diva e a cunhada Leonora. Se não me engano, sua sogra, dona Rita, ainda era viva naquela época. Também era um tempo em que ainda se jogavam tiras de papel picado pelas janelas durante as comemorações. Eu adorava fazer aquilo do décimo quarto andar do Edifício Excelsior, na Avenida Rio Branco, o mesmo prédio onde funcionava um antigo cinema de rua. Inclusive, ainda me recordo de ter assistido a algumas sessões ali.

Embora os torcedores depositassem menos esperança naquela seleção do que na de 1982, o Brasil avançou mais no torneio e acabou eliminado apenas nas quartas de final, nos pênaltis, diante da França. Foi também a Copa que revelou Tafarel como goleiro da Seleção. Mais uma vez, porém, eu ainda não veria o Brasil conquistar o título.

Em 1990, aos 14 anos, eu passava alguns dias na casa de minha avó Darcília, em Muriqui, no mesmo imóvel onde atualmente moro com Núbia, na Rua Primeiro de Maio. No entanto, o Brasil acabou eliminado logo nas oitavas de final pela Argentina de Diego Maradona. E olha que havíamos conquistado a Copa América pouco antes.

Eu diria que, entre a pré-adolescência e o início da juventude, foi o período em que mais acompanhei o futebol. Assumi definitivamente minha paixão pelo Flamengo e seguia os campeonatos com entusiasmo, embora, curiosamente, nunca tenha ido ao Maracanã. Também acompanhava com alegria as partidas da seleção de veteranos que disputava torneios de masters e que tantas vezes foram transmitidos pela Band, com narração de Luciano do Valle.

Contudo, foi Galvão Bueno quem mais me acompanhou nas transmissões das Copas do Mundo. Em 1994, aos 18 anos, finalmente chegou o tetra. Era a seleção de Romário, Bebeto e Tafarel. Comemorei intensamente aquele título na Avenida Rio Branco, em Juiz de Fora, quando a multidão tomou a principal via da cidade na altura do Bom Pastor, próximo ao McDonald's.

Na Copa de 1998, também torci bastante. O Brasil chegou à final, mas acabou derrotado pela França. Apesar da decepção, aplaudi os franceses e reconheci seus méritos. O futebol brasileiro vivia um novo grande momento e, em breve, Ronaldo consolidaria sua trajetória como o Fenômeno.

Em 2002, assisti a poucos jogos. Eu morava em Nova Friburgo e não fazia questão de ter televisão em casa. Namorava Núbia e, na manhã da final, estávamos hospedados em um hotel em Icaraí, Niterói. Assistimos ao jogo no refeitório e depois vimos a cidade explodir em festa com a conquista do pentacampeonato.

Na Copa de 2006, assistimos às partidas debaixo das cobertas na fria casa alugada onde morávamos no bairro Braunes, em Nova Friburgo. O Brasil acabou eliminado pela França nas quartas de final. Saí com a sensação de que faltou garra à equipe, embora também seja verdade que o adversário fez uma grande partida.

Em 2010, na primeira Copa realizada em solo africano, morávamos em um apartamento na Rua Farinha Filho, no Centro de Nova Friburgo. Fazia menos frio do que nas Braunes e era possível acompanhar os jogos com mais conforto, usando apenas pantufas, casaco e calça de moletom. Núbia já sofria com dores nos joelhos, mas aproveitamos bastante o torneio. Como em 2006 e também em alguns mundiais da minha infância, o Brasil voltou a ser eliminado na fase de mata-mata. Eu tinha 34 anos, quatro de casado e dividia a casa com Núbia e nossa gata tricolor, Sofia.

Em 2014, já estávamos morando em Muriqui, onde vinte e quatro anos antes eu havia assistido à eliminação do Brasil diante da Argentina. Vivíamos uma fase financeira difícil, mas conseguíamos seguir em frente. Assistimos aos jogos em casa, embora a atenção já começasse a se dividir entre a televisão e os smartphones. A histórica derrota por 7 a 1 para a Alemanha rapidamente se transformou em uma avalanche de memes e comentários nas redes sociais.

Eu diria que as Copas de 2018 e 2022 foram as mais frias que vivi. Depois que nossa televisão queimou, não tivemos iniciativa de comprar outra. A mudança do sinal e os constantes problemas de energia me desanimaram a investir em um novo aparelho. Lembro das polêmicas envolvendo a Copa da Rússia, dos protestos discretos contra a legislação considerada hostil à população LGBT+, do episódio constrangedor envolvendo torcedores brasileiros e uma jovem russa, além da curiosidade de ver o prefeito da cidade vizinha de Itaguaí aparecer em registros feitos no país durante o torneio.

Entretanto, a Copa de 2022, realizada no Catar, pareceu ainda mais fria. Disputada entre novembro e dezembro, logo após as eleições presidenciais brasileiras, encontrou muitos torcedores ainda absorvidos pelo clima político do país. Havia quem não aceitasse o resultado das urnas e, em muitos lugares, o entusiasmo típico das Copas parecia reduzido. Nas ruas, percebi pouca euforia. Na final, acabei torcendo pela Argentina e por Lionel Messi.



Agora, em 2026, espero que o povo aproveite mais uma vez a oportunidade para se divertir. Ainda não percebo o mesmo entusiasmo de outras épocas, mas acredito que o clima possa melhorar ao longo do torneio.

Ontem (13/06) aconteceu a estreia da Seleção Brasileira diante do Marrocos, e a partida terminou empatada em 1 a 1. Nas redes sociais, li muitas críticas à equipe, mas penso que ainda é cedo para julgamentos definitivos. Tratava-se do primeiro jogo da competição e o adversário não era qualquer um: o Marrocos foi semifinalista do Mundial anterior e vem se consolidando como uma das forças emergentes do futebol internacional. Creio que o desempenho pode evoluir ao longo da Copa e, quem sabe, o tão sonhado hexa finalmente venha desta vez.

Afinal, as Copas sempre foram mais do que futebol. Elas marcam momentos da nossa vida, ajudam a medir a passagem do tempo e despertam lembranças de pessoas, lugares e fases que nunca voltam exatamente da mesma forma.

Ao olhar para trás, percebo que cada Copa acabou se transformando numa fotografia afetiva de um período da minha existência. Mudaram as cidades, as casas, os familiares ao meu redor, os amigos, os hábitos e até a maneira de acompanhar os jogos. Algumas pessoas partiram, outras chegaram, e a vida seguiu seu curso. Talvez seja por isso que continuo gostando das Copas do Mundo: não apenas pelos resultados dentro de campo, mas porque elas me permitem revisitar quem eu era em cada etapa da caminhada.

Ao revisitar essas lembranças, percebo também que esta não é a primeira vez que escrevo sobre Copas do Mundo. Em 2010, antes da África do Sul, perguntei aqui no blog onde estaria a torcida depois da Copa

Em 2014, publiquei o artigo intitulado "Apesar de toda a gastança, quero torcer pelo Brasil". Naquele momento, entendia que era possível criticar os excessos e problemas relacionados ao evento sem abandonar a paixão pelo futebol. 

Em 2018, escrevi "Será esta a Copa da frieza?", quando já percebia mudanças na forma como os brasileiros viviam os Mundiais.

Depois do empate na estreia diante do Marrocos, continuo me perguntando se o entusiasmo das antigas poderá voltar ou se apenas aprendemos a torcer de outra maneira.

Apesar da impressão inicial de que esta Copa seria mais fria, alguns sinais apontam em outra direção. Em Mangaratiba, por exemplo, a Prefeitura lançou a campanha "Minha Rua na Copa", incentivando moradores a resgatar a tradição de decorar ruas e espaços públicos. Além da notícia oficial sobre estudantes ajudando a pintar vias do Centro, vi praças enfeitadas em bairros como Muriqui e Itacuruçá e soube de uma grande concentração de torcedores diante do telão montado para a transmissão dos jogos. Talvez o entusiasmo não seja exatamente o mesmo de décadas atrás, mas ainda existe. Apenas encontrou novas formas de se manifestar.


Registro feito pela Prefeitura de Mangaratiba 

Talvez seja justamente essa a principal diferença em relação às Copas da minha infância. As ruas já não são decoradas da mesma forma, a televisão deixou de ser o único ponto de encontro da família e as redes sociais passaram a disputar nossa atenção. Ainda assim, o desejo de torcer, celebrar e compartilhar emoções continua presente.

Hoje percebo que cada um daqueles textos registrava menos a história do futebol e mais as transformações do meu próprio olhar sobre o país, a sociedade e a passagem do tempo. Talvez seja justamente por isso que continuo gostando das Copas do Mundo: porque, a cada quatro anos, elas me ajudam a recordar não apenas os jogos que assisti, mas também a pessoa que fui em cada etapa da vida.

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