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quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Guerra do Século XXI e a Importância Estratégica da Costa Verde



"Control of the sea by maritime commerce and naval supremacy means predominant influence in the world." — Alfred Thayer Mahan


O artigo "O Brasil começou a entender a guerra do século XXI", publicado pelo Brasil 247, traz uma reflexão importante sobre as transformações da geopolítica contemporânea. A principal tese do autor, o jornalista Reynaldo José de Aragon Gonçalves, é que os conflitos modernos deixaram de estar relacionados exclusivamente à ocupação de territórios e passaram a envolver, cada vez mais, o controle e a proteção dos fluxos que sustentam a vida econômica das nações: energia, comunicações, dados, logística e transporte.

Essa análise não significa que o poder militar tenha perdido relevância. Pelo contrário. O que mudou foi a natureza das missões estratégicas. Se no século XX a imagem clássica da guerra estava associada à conquista de cidades, fronteiras e territórios, no século XXI a proteção de cabos submarinos, rotas marítimas, plataformas de petróleo, sistemas energéticos e cadeias logísticas tornou-se igualmente fundamental.

Nesse contexto, a posição geográfica do Brasil assume uma importância singular.

O país possui mais de sete mil quilômetros de litoral voltados para o Atlântico Sul, uma extensa Zona Econômica Exclusiva, grandes reservas petrolíferas offshore e uma presença que se projeta para além do continente por meio de arquipélagos como Fernando de Noronha, São Pedro e São Paulo, Trindade e Martim Vaz. Soma-se a isso a participação brasileira no Sistema do Tratado Antártico através da Estação Comandante Ferraz.

Essa percepção não decorre apenas de análises acadêmicas ou geopolíticas. O próprio Estado brasileiro, por meio do Livro Branco de Defesa Nacional e da Estratégia Nacional de Defesa, reconhece a importância estratégica da chamada Amazônia Azul, conceito que abrange as águas jurisdicionais brasileiras e os recursos econômicos, ambientais e científicos associados ao espaço marítimo sob responsabilidade nacional.

Não por acaso, cresce a importância estratégica da Marinha do Brasil. Embora parte da frota de superfície, especialmente antigas fragatas, corvetas e navios de apoio, enfrente desafios de renovação, a Marinha investe simultaneamente em programas estratégicos de longo prazo, como o PROSUB, a incorporação dos submarinos da classe Riachuelo e o desenvolvimento do futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear, um dos mais ambiciosos projetos tecnológicos da história da defesa nacional. Mais importante do que possuir meios de projeção global, como grandes porta-aviões, é garantir capacidade de vigilância, monitoramento e proteção da Amazônia Azul, espaço marítimo que concentra parte significativa das riquezas nacionais.

A expressão "guerra do século XXI", entretanto, exige algumas distinções. A guerra convencional continua existindo e permanece relevante, como demonstram os conflitos recentes envolvendo ocupação territorial, emprego de forças terrestres, navais e aéreas e o uso intensivo de drones e mísseis. Ao lado dela, porém, ganharam importância novas modalidades de conflito, como a guerra cibernética, a guerra econômica baseada em sanções e restrições comerciais, as campanhas híbridas que combinam operações de informação, pressão diplomática e ações indiretas, além das disputas pela segurança de infraestruturas críticas.

Os exemplos internacionais são numerosos. A sabotagem dos gasodutos Nord Stream no Mar Báltico evidenciou a vulnerabilidade das redes energéticas submarinas. Os episódios envolvendo cabos submarinos de telecomunicações na Europa demonstraram a dependência das economias modernas de sistemas invisíveis ao cidadão comum. As tensões em rotas estratégicas do comércio marítimo revelam como a interrupção de fluxos logísticos pode produzir impactos econômicos globais sem que haja necessariamente uma guerra declarada.

Sob essa perspectiva, a importância do poder naval não diminui. Pelo contrário. Ainda no século XIX, o almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan já sustentava que o poder marítimo constituía um dos pilares da projeção internacional dos Estados. 

O século XXI não invalidou essa visão; apenas ampliou seu significado. Além das rotas comerciais e das frotas mercantes, passaram a integrar essa equação os cabos de dados, as plataformas de petróleo, os sistemas energéticos offshore, os satélites e as redes digitais.

O Brasil possui ativos importantes nesse campo, como o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, a experiência operacional da Marinha no Atlântico Sul, o Complexo Naval de Itaguaí e a presença permanente na Antártida. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relevantes, entre eles a renovação da frota de superfície, a ampliação da vigilância marítima, a integração entre órgãos civis e militares e a necessidade de financiamento estável para projetos estratégicos de longo prazo.

É justamente nesse contexto de valorização das infraestruturas críticas e dos fluxos marítimos que a Costa Verde fluminense revela uma dimensão frequentemente subestimada no debate nacional.

À primeira vista, a região formada por Itaguaí, Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty reúne cerca de 370 mil habitantes, segundo os dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, número relativamente modesto quando comparado aos grandes centros urbanos brasileiros. No entanto, sua relevância não pode ser medida apenas pelo quantitativo da população residente.

Poucas regiões do país concentram tantos ativos estratégicos em um espaço geográfico relativamente reduzido.

Os números ajudam a dimensionar essa relevância. 

Segundo dados da ANTAQ, o Porto de Itaguaí movimentou aproximadamente 60 milhões de toneladas de cargas em 2024, figurando entre os principais complexos portuários brasileiros. Em uma economia cada vez mais dependente de cadeias logísticas integradas, estruturas desse porte deixam de ser apenas equipamentos econômicos e passam a integrar o conjunto das infraestruturas consideradas estratégicas para o funcionamento do país.

Além da relevância portuária, a região abriga importantes instalações da Transpetro, fundamentais para a logística energética nacional, reforçando seu papel como elo entre infraestrutura de transporte, segurança energética e comércio exterior.

No Complexo Naval de Itaguaí, instalado na Ilha da Madeira, são construídos os submarinos da classe Riachuelo e desenvolve-se o programa do futuro submarino de propulsão nuclear brasileiro, um dos mais ambiciosos projetos tecnológicos da história da defesa nacional.

Em Angra dos Reis, encontram-se a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, único complexo nuclear brasileiro de geração elétrica em operação comercial, composto pelas usinas Angra 1 e Angra 2, bem como o Colégio Naval, instituição responsável pela formação de futuros oficiais da Marinha.

Na Ilha da Marambaia, em Mangaratiba, localizam-se áreas de treinamento e formação do Corpo de Fuzileiros Navais. A região abriga ainda o Terminal da Ilha Guaíba (TIG), um dos principais pontos de exportação mineral do Brasil, além do histórico estaleiro Verolme e de projetos de expansão logística e portuária, como o chamado Porto do Meio.

Ao mesmo tempo, a Costa Verde concentra alguns dos mais importantes patrimônios ambientais do país, com extensos remanescentes de Mata Atlântica, centenas de ilhas, unidades de conservação e um dos mais expressivos polos turísticos do litoral brasileiro.

Essa combinação produz um desafio singular.

A Costa Verde é simultaneamente território habitado, destino turístico e espaço estratégico nacional. Nela convivem moradores, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores, turistas, empreendimentos portuários, instalações militares, usinas energéticas e áreas de preservação ambiental.

Por vezes, esses interesses entram em tensão. Questões como mobilidade regional, expansão portuária, preservação ambiental, uso do litoral, turismo e grandes projetos de infraestrutura exigem permanente busca por equilíbrio.

Mas essa mesma diversidade também demonstra a importância da região para o Brasil.

Se a soberania nacional no século XXI depende da proteção dos fluxos que sustentam a economia, a energia e as comunicações, então a Costa Verde não pode ser vista apenas como um belo trecho do litoral fluminense. Ela representa um dos principais corredores estratégicos do país.

É justamente por reunir, em um mesmo território, interesses ligados à defesa, à energia, à logística, ao meio ambiente e ao turismo que a Costa Verde se torna um caso particularmente ilustrativo dos desafios estratégicos enfrentados pelo Brasil contemporâneo.

Todavia, a existência de ativos estratégicos não produz, por si só, desenvolvimento regional ou segurança nacional. Esses resultados dependem de instituições capazes de coordenar interesses frequentemente distintos. Na Costa Verde, convivem competências federais, estaduais e municipais relacionadas à defesa nacional, meio ambiente, energia, transporte, planejamento urbano, patrimônio cultural e desenvolvimento econômico.

A governança desse território exige articulação entre a Marinha do Brasil, os órgãos ambientais, a ANTAQ, a ANP, os municípios, o Estado do Rio de Janeiro e a União. Trata-se menos de um desafio exclusivamente militar e mais de uma tarefa permanente de coordenação institucional.

A transformação dessa relevância estratégica em benefícios concretos para a população exige mais do que investimentos isolados. Pressupõe mecanismos permanentes de coordenação entre os diversos níveis de governo e instituições envolvidas. O fortalecimento da vigilância costeira, a integração dos sistemas de monitoramento marítimo, a proteção das infraestruturas críticas e a vinculação dos grandes empreendimentos logísticos e energéticos ao desenvolvimento local constituem caminhos possíveis para que a importância geopolítica da Costa Verde se traduza em prosperidade, sustentabilidade e cidadania.

A principal lição do debate contemporâneo sobre defesa e geopolítica talvez seja justamente esta: a presença de ativos estratégicos não produz, por si só, desenvolvimento regional nem segurança nacional. Portos, instalações militares, empreendimentos energéticos e infraestrutura logística podem coexistir com desigualdades, carências urbanas e déficits de infraestrutura se não houver planejamento, coordenação institucional e participação social.

Se a guerra do século XXI é cada vez mais uma disputa pela proteção de fluxos estratégicos, o desafio da Costa Verde consiste em assegurar que esses fluxos sirvam não apenas aos interesses nacionais, mas também ao desenvolvimento sustentável das comunidades que vivem nesse território. A importância da região não decorre apenas de sua localização geográfica ou da concentração de equipamentos de interesse nacional, mas da capacidade de transformar essa relevância em benefícios concretos para a população, conciliando crescimento econômico, preservação ambiental, segurança nacional e qualidade de vida.

Compreender a importância estratégica da Costa Verde é, portanto, compreender um dos desafios centrais do Brasil contemporâneo: harmonizar soberania, desenvolvimento e cidadania.

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