Páginas

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O favoritismo de Paes e as incógnitas da política fluminense



"A política consiste em transformar incertezas em decisões." — Karl Deutsch


A nova pesquisa do Instituto Paraná divulgada nesta quinta-feira (04/06) sobre a sucessão estadual fluminense produziu uma impressão inicial bastante clara: Eduardo Paes (PSD) aparece como favorito ao governo do Estado e surge, ao menos neste momento, em posição potencialmente capaz de vencer a disputa já no primeiro turno.

À primeira vista, os números parecem sugerir uma corrida eleitoral relativamente definida.

Mas essa leitura talvez seja precipitada.

Segundo os números divulgados, Paes aparece com 48,3% das intenções de voto, seguido pelo atual presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), com 12,6%, e pelo ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos), com 9,2%. A pesquisa ouviu 1.680 eleitores entre os dias 1º e 3 de junho, possui margem de erro de 2,4 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento, entretanto, foi registrado sem a divulgação pública do relatório tabulado completo, circunstância que recomenda cautela adicional na interpretação dos resultados.

No entanto, a própria conjuntura política do Rio de Janeiro continua marcada por uma crise institucional sem solução definitiva e por variáveis que dificilmente podem ser capturadas integralmente por levantamentos quantitativos realizados quando ainda faltam cerca de quatro meses para o primeiro turno.

Mais do que responder perguntas, a pesquisa talvez ajude a identificar quais perguntas continuam em aberto.


Um favoritismo que se mostra consistente

Mesmo sem acesso ao relatório tabulado completo, alguns elementos podem ser observados.

Eduardo Paes reúne vantagens difíceis de ignorar.

Mesmo após sua desincompatibilização da Prefeitura do Rio, o pré-candidato do PSD preserva um ativo político relevante: a continuidade administrativa e partidária de seu grupo na capital fluminense, atualmente governada por Eduardo Cavaliere. Ao mesmo tempo, vem consolidando alianças com prefeitos e lideranças regionais que até poucos meses atrás orbitavam a base política do ex-governador Cláudio Castro (PL).

Em um Estado marcado por forte influência das estruturas municipais, esse movimento possui relevância estratégica.

Os números divulgados tendem a reforçar a percepção de que parte significativa dos agentes políticos já começa a se posicionar em torno da hipótese de vitória de Paes.

Não se trata apenas de transferência de apoio eleitoral.

Trata-se também de reposicionamento institucional diante da possibilidade de mudança de ciclo político.


A disputa pela segunda colocação

Talvez o dado mais interessante esteja justamente atrás do líder.

Douglas Ruas aparece com cerca de 12,6%, enquanto Anthony Garotinho registra aproximadamente 9,2%. Considerando a margem de erro de 2,4 pontos percentuais, a distância observada recomenda cautela antes de se concluir pela consolidação definitiva da segunda colocação.

Garotinho continua demonstrando elevada capacidade de comunicação direta com setores do eleitorado, especialmente fora dos circuitos partidários tradicionais e em parcelas do eleitorado evangélico.

Por outro lado, Douglas Ruas conta com um ativo político relevante: a vinculação ao campo bolsonarista e às estruturas partidárias associadas ao PL e seus aliados.

Enquanto Garotinho depende fortemente de sua capacidade pessoal de mobilização, Douglas parece depender mais da força das redes políticas que o sustentam.

São estratégias eleitorais bastante distintas.


O espaço vazio entre a política tradicional e a renovação

Talvez o aspecto mais curioso da pesquisa esteja em outro lugar.

Nenhuma candidatura apresentada como alternativa à polarização estadual parece conseguir consolidar espaço relevante.

Os nomes de PSOL, NOVO e Missão permanecem com desempenhos modestos.

Isso sugere que o eleitorado fluminense continua preferindo figuras amplamente conhecidas, mesmo quando algumas delas carregam elevado desgaste político.

A constatação é relevante.

Ela pode indicar não apenas dificuldade de renovação, mas também uma espécie de ceticismo produzido pelas experiências recentes da política estadual.

O caso Wilson Witzel talvez continue exercendo influência silenciosa sobre parte do eleitorado.

A promessa de renovação absoluta deixou de produzir o mesmo entusiasmo observado em ciclos anteriores.

Um dado utilizado na composição da amostra ajuda a compreender esse fenômeno. Segundo a distribuição do eleitorado adotada no plano amostral registrado no TSE, 53% dos eleitores fluminenses têm mais de 45 anos de idade. Embora não constitua um resultado da pesquisa — mas uma característica demográfica considerada na construção da amostra —, o dado sugere um eleitorado no qual faixas etárias mais elevadas possuem peso expressivo. Isso ajuda a compreender por que figuras amplamente conhecidas continuam ocupando posições centrais na disputa.


O fator Ricardo Couto

Existe ainda uma variável pouco capturada pelas pesquisas atualmente disponíveis.

O governador interino Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, parece desfrutar de percepção pública favorável para alguém que sequer participa da disputa eleitoral.

Seu perfil institucional, marcado por discrição, previsibilidade administrativa e distanciamento das disputas partidárias, tem contribuído para avaliações positivas em diferentes segmentos.

O paradoxo é evidente: uma das figuras mais bem avaliadas da atual conjuntura não é candidata e nem pode disputar o pleito de 2026.

A impossibilidade não decorre apenas de uma escolha pessoal. O exercício da magistratura submete seus integrantes a regras constitucionais e eleitorais rigorosas de afastamento e desincompatibilização. 

Como Ricardo Couto chegou ao governo precisamente em razão de sua posição institucional no Poder Judiciário, sua eventual participação na disputa eleitoral de 2026 não se apresenta juridicamente viável no contexto atual. O resultado é um paradoxo político: uma das figuras mais bem avaliadas da atual conjuntura estadual encontra-se fora do universo de candidatos possíveis.

Mas suas características talvez revelem algo importante sobre as expectativas do eleitorado.

Parte dos fluminenses parece demonstrar preferência por estabilidade institucional, moderação e previsibilidade administrativa — atributos que nem sempre aparecem com clareza nas candidaturas atualmente colocadas.


As limitações da própria pesquisa

Aqui surge uma observação indispensável.

O relatório completo da pesquisa não foi disponibilizado ao público.

Sem as tabulações detalhadas, permanecem desconhecidos aspectos fundamentais:


  • distribuição regional das intenções de voto;
  • comportamento do eleitorado da capital, da Baixada e do interior;
  • índices de rejeição dos candidatos;
  • taxa de indecisos;
  • avaliação do governo interino;
  • percepção sobre a crise institucional fluminense.


Essas informações poderiam alterar significativamente a interpretação dos números divulgados.

A ausência dessas informações é particularmente relevante porque pesquisas realizadas com vários meses de antecedência costumam ser mais úteis para medir conhecimento público dos candidatos e tendências iniciais de posicionamento do eleitorado do que para antecipar o comportamento definitivo das urnas.

Por isso, qualquer análise responsável deve reconhecer os limites do material atualmente disponível, conforme divulgado pelos portais de notícias.


Uma eleição que continua dependente da crise institucional

Talvez a principal conclusão seja justamente esta.

A pesquisa oferece um retrato importante do momento.

Mas não necessariamente do desfecho.

A sucessão fluminense continua condicionada por fatores extraordinários.

A ADI 7942 permanece pendente de conclusão no Supremo Tribunal Federal, onde ainda deverá ser definida, entre outras questões, a modalidade de eventual eleição suplementar: direta ou indireta.

A Reclamação nº 92.644, da relatoria do ministro Cristiano Zanin, por sua vez, continua produzindo efeitos, mantendo na interinidade do governo o desembargador Ricardo Couto.

Desse modo, a definição sobre a natureza da vacância estadual ainda não foi encerrada.

E, além disso, os desdobramentos das investigações relacionadas ao antigo núcleo de poder estadual continuam produzindo repercussões políticas.

Em circunstâncias normais, uma pesquisa como esta poderia ser lida apenas como fotografia eleitoral desse início de junho.

No Rio de Janeiro de 2026, porém, ela talvez represente algo mais complexo.

Não apenas um retrato da disputa pelo futuro governo do Estado.

Mas também um retrato provisório de um sistema político que ainda aguarda o desfecho de sua própria crise institucional.

Nenhum comentário:

Postar um comentário