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segunda-feira, 1 de junho de 2026

O jogo que as pesquisas ainda não mostram: alianças, partidos e a sucessão presidencial de 2026



A pesquisa divulgada nesta segunda (01/06) pelo instituto Real Time Big Data sobre a sucessão presidencial de 2026 trouxe números que, à primeira vista, reforçam a percepção de uma disputa polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

Segundo o levantamento feito, o presidente Lula aparece liderando os principais cenários de primeiro turno, enquanto Flávio surge como principal nome do campo conservador. Outros candidatos testados, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury, Aécio Neves e Renan Santos, aparecem com percentuais significativamente menores. Ainda assim, por se tratar de uma pesquisa realizada antes da definição das chapas e do período das convenções partidárias, previstas para ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto, os números devem ser analisados com cautela, sobretudo porque parte dessas candidaturas pode não chegar efetivamente à disputa presidencial.

De acordo com as informações divulgadas pelo instituto, o levantamento foi realizado com abrangência nacional e está sujeito à margem de erro informada pela pesquisa. Como toda sondagem eleitoral realizada muitos meses antes do pleito, seus resultados devem ser compreendidos como um retrato do momento da coleta dos dados, e não como uma projeção definitiva do comportamento do eleitorado em outubro.

Também é preciso considerar que a dinâmica eleitoral não depende exclusivamente das convenções partidárias. O desempenho da economia, decisões judiciais, eventuais investigações, CPIs, crises institucionais, escândalos políticos, debates televisivos e a própria exposição dos candidatos na mídia podem alterar significativamente o cenário ao longo dos próximos meses. Essa volatilidade ajuda a explicar por que algumas lideranças, como Caiado, podem enxergar vantagens em permanecer na disputa por mais tempo, preservando espaço para crescimento caso ocorram mudanças relevantes no ambiente político nacional.

Mais do que medir uma disputa presidencial já consolidada, a pesquisa parece retratar um sistema político ainda em processo de reorganização.

Entretanto, talvez o aspecto mais interessante do levantamento não esteja propriamente nos percentuais atribuídos aos dois principais nomes da corrida presidencial, mas sim na situação das candidaturas alternativas e nos movimentos estratégicos que devem ocorrer até o período das convenções partidárias.

Em eleições presidenciais, pesquisas realizadas meses antes da definição formal das chapas costumam medir não apenas intenção de voto, mas também expectativas, simpatias e possibilidades ainda abertas dentro do sistema político.

Por isso, mais importante do que perguntar quem lidera as pesquisas neste momento é compreender quais candidaturas possuem incentivos reais para permanecer na disputa.

O caso do PSD e do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado talvez seja o exemplo mais interessante desse processo.

Com sua filiação ao PSD em 2026, Caiado não apenas passou a representar uma alternativa à polarização entre Lula e Flávio. Sua chegada também forneceu ao partido de Gilberto Kassab um ativo político de alto valor: um ex-governador com elevada aprovação estadual, forte presença junto ao agronegócio, liderança consolidada em Goiás e capacidade de dialogar com diferentes setores da centro-direita e da direita conservadora.

Além disso, os movimentos recentes da política goiana reforçam a posição estratégica de Caiado. Seu grupo político mantém competitividade na sucessão estadual e aparece em posição privilegiada na disputa pelo Senado, ampliando sua influência mesmo fora de uma eventual eleição presidencial.

Nesse contexto, o projeto político de Caiado possui um valor que vai além dos percentuais atualmente registrados nas pesquisas nacionais.

Sua simples permanência na disputa preserva a autonomia do PSD, evita definições prematuras e amplia o poder de negociação da legenda para os momentos decisivos da campanha.

A situação é diferente daquela enfrentada por outros nomes testados pelas pesquisas.

Romeu Zema representa uma necessidade mais evidente para o Partido Novo, que depende da candidatura presidencial para manter visibilidade nacional.

Renan Santos, por sua vez, exerce papel semelhante para o MBL através do Partido Missão, cuja presença eleitoral nacional está diretamente associada à exposição proporcionada pela disputa presidencial.

Já o psiquiatra e escritor Augusto Cury surge como um fenômeno distinto. Sem trajetória política tradicional, mas com enorme notoriedade nacional construída no mercado editorial e em segmentos cristãos, educacionais e ligados ao desenvolvimento humano, sua presença no debate político nacional procura ocupar um espaço específico: o eleitorado cansado da polarização.

Embora seus números atuais sejam modestos, uma eventual votação na casa de alguns milhões de votos poderia transformá-lo em ator político relevante, especialmente em um cenário de segundo turno apertado entre Lula e Flávio.

A situação de Aécio Neves talvez seja diferente de todas as demais. Ex-governador de Minas Gerais, ex-senador e candidato presidencial em 2014, ele retorna ao debate nacional apoiado sobretudo em sua experiência política e em sua capacidade de articulação. Entretanto, diante da fragmentação do espaço de centro e centro-direita, sua eventual candidatura parece enfrentar o desafio adicional de definir qual eleitorado pretende representar em um cenário já ocupado por nomes como Caiado, Zema e o próprio Augusto Cury.

Também chama atenção o desempenho de figuras já conhecidas do eleitorado, como Cabo Daciolo. Após surpreender parte dos observadores na eleição de 2018, sua presença nas pesquisas atuais sugere que a consolidação da polarização reduziu o espaço disponível para candidaturas de protesto e forte apelo personalista que prosperaram em ciclos eleitorais anteriores.

Mas a principal conclusão da pesquisa talvez seja outra.

O sistema político brasileiro ainda parece procurar uma alternativa viável entre Lula e Flávio Bolsonaro.

O PSD buscou essa alternativa em diferentes momentos com nomes como Ratinho Júnior, Eduardo Leite e o próprio Caiado.

Parte do empresariado e de setores do centro político continua observando a possibilidade de construção de uma candidatura capaz de reduzir a polarização.

Por outro lado, caso Flávio Bolsonaro consolide sua liderança dentro do campo conservador, figuras como Caiado poderão adquirir importância não apenas como candidatos, mas também como potenciais articuladores da governabilidade de um futuro governo.

Nesse cenário, uma das indagações mais relevantes talvez não seja apenas quem venceria a eleição presidencial se ela ocorresse hoje.

A verdadeira questão é quais candidaturas representam projetos políticos autônomos e quais existem sobretudo como instrumentos de negociação dentro do complexo processo de formação das coalizões que definirão o pleito de outubro.

É justamente nesse espaço entre as pesquisas e as convenções partidárias que o jogo político tende a se tornar mais decisivo do que os próprios números atualmente divulgados.

As próximas semanas provavelmente dirão menos sobre quem está na frente e mais sobre quem continuará efetivamente no tabuleiro. Entre convenções, alianças, desistências, crises políticas e mudanças de cenário, a eleição presidencial de 2026 ainda parece muito mais uma partida em construção do que uma disputa definida. Por isso, compreender os incentivos que movem partidos e candidatos talvez seja, neste momento, mais importante do que acompanhar isoladamente os percentuais divulgados pelas pesquisas.

Como lembrava o cientista político italiano Giovanni Sartori, sistemas partidários não se explicam apenas pelos votos obtidos, mas também pelas relações de competição e cooperação estabelecidas entre os atores políticos.

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