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domingo, 14 de junho de 2026

Entre a desconfiança e a necessidade de sentido: por que as teorias conspiratórias sobrevivem?


Mosaico romano do Minotauro, Conímbriga (Portugal).


Volta e meia surgem teorias segundo as quais governos, organizações secretas, grandes empresas ou grupos ocultos estariam controlando os acontecimentos do mundo. Algumas parecem inofensivas. Outras ganham enorme repercussão, influenciam debates políticos e chegam a mobilizar milhões de pessoas.

A expansão das redes sociais introduziu um elemento novo nesse fenômeno. Se no passado rumores e suspeitas circulavam de forma limitada, hoje algoritmos digitais podem amplificar conteúdos emocionalmente impactantes em escala global. Narrativas conspiratórias frequentemente oferecem histórias simples, dramáticas e fáceis de compartilhar, características que favorecem sua disseminação em ambientes digitais competitivos pela atenção do público.

A reação mais comum dos céticos diante desse fenômeno costuma ser classificá-lo como simples desinformação ou ignorância. No entanto, talvez essa explicação seja insuficiente.

As teorias conspiratórias não resultam de uma única causa. Elas emergem da interação entre predisposições psicológicas, memória histórica, ambiente informacional e níveis de confiança institucional.

A pergunta mais interessante não é se determinada teoria está correta ou equivocada, mas por que tantas pessoas estão dispostas a acreditar nela.

A história oferece uma pista importante: nem toda suspeita nasce da imaginação. Conspirações reais existiram e continuam existindo. Casos como o Watergate, a Operação Condor, o Escândalo Irã-Contras e os programas de vigilância revelados por Edward Snowden demonstram que governos, empresas e organizações já mentiram, espionaram e conspiraram em diversas ocasiões. Essa memória histórica alimenta uma desconfiança que não surge do nada.

O próprio futebol, em evidência durante esses dias da Copa, nos oferece um exemplo bastante ilustrativo. Durante anos, suspeitas de manipulação de resultados eram frequentemente tratadas como exagero de torcedores inconformados. Entretanto, o escândalo envolvendo o árbitro Edílson Pereira de Carvalho, em 2005, revelou a existência de um esquema criminoso ligado a apostas esportivas. Mais recentemente, a Operação Penalidade Máxima demonstrou que jogadores chegaram a ser aliciados para influenciar determinados lances em partidas do Campeonato Brasileiro.

Quando fatos como esses vêm à tona, fortalecem uma percepção compreensível: se já aconteceu antes, pode acontecer novamente.

Mas existe uma diferença importante entre reconhecer que conspirações existem e concluir que tudo é resultado de uma conspiração.

É nesse ponto que a reflexão filosófica pode oferecer uma contribuição valiosa.

O filósofo escocês David Hume questionou a confiança excessiva na razão pura e, em sua crítica ao raciocínio causal desenvolvida na obra Investigação sobre o Entendimento Humano, chamou atenção para o papel dos hábitos, crenças e expectativas na forma como compreendemos o mundo. Segundo o autor, grande parte das nossas expectativas não decorre de certezas lógicas, mas do hábito de associar acontecimentos que se repetem ao longo do tempo.

A psicologia cognitiva contemporânea parece confirmar, sob novas bases, algumas intuições de Hume. Os trabalhos de Daniel Kahneman e Amos Tversky sobre heurísticas e vieses cognitivos — posteriormente popularizados por Kahneman em Thinking, Fast and Slow — demonstraram que os seres humanos frequentemente recorrem a atalhos mentais para interpretar a realidade. 

Pesquisas recentes sobre comportamento digital e desinformação indicam que conteúdos emocionalmente carregados tendem a gerar maior engajamento e circulação nas plataformas digitais. Nesse ambiente, explicações simplificadas, moralmente polarizadas e capazes de despertar forte reação emocional encontram condições particularmente favoráveis para se difundir.

Talvez essa observação ajude a compreender por que as teorias conspiratórias encontram terreno tão fértil.

Os seres humanos parecem possuir uma necessidade profunda de atribuir sentido aos acontecimentos. Temos dificuldade em aceitar que fatos relevantes possam resultar da combinação de inúmeros fatores independentes, erros humanos, interesses conflitantes e até mesmo do acaso.

Uma narrativa conspiratória oferece algo que a realidade frequentemente não proporciona: uma explicação simples para problemas complexos.

Ela identifica responsáveis, estabelece relações de causa e efeito aparentemente claras e transforma eventos dispersos em uma história coerente. Em um mundo marcado por incertezas, isso pode gerar uma sensação de compreensão e controle.

Sob esse aspecto, as teorias conspiratórias não estão tão distantes de outras formas pelas quais as sociedades buscam interpretar a realidade. Mitos, lendas, religiões e ideologias também procuram responder perguntas fundamentais sobre a origem dos problemas, o funcionamento do mundo e o papel dos indivíduos na história.

Naturalmente, isso não significa que todas as explicações sejam equivalentes ou que a busca pela verdade deva ser abandonada. Pelo contrário. A existência de conspirações reais torna ainda mais importante o exercício do pensamento crítico.

Talvez o maior desafio contemporâneo seja encontrar um equilíbrio entre dois extremos igualmente problemáticos.

De um lado, está a ingenuidade de acreditar em tudo o que nos é apresentado. De outro, a tendência de enxergar manipulações ocultas por trás de qualquer acontecimento.

Entre esses extremos encontra-se o ceticismo saudável: a disposição para duvidar, questionar, investigar e exigir evidências antes de aceitar ou rejeitar uma hipótese.

Esse desafio possui consequências políticas relevantes. Nenhuma sociedade democrática é formada apenas por especialistas, acadêmicos ou técnicos. Governos e instituições precisam dialogar com cidadãos que carregam experiências pessoais, memórias históricas, medos, expectativas e diferentes graus de confiança nas estruturas de poder.

Por isso, simplesmente ridicularizar quem acredita em determinadas teorias raramente resolve o problema. Muitas vezes, por trás de uma narrativa equivocada, existe uma preocupação legítima que merece ser compreendida.

Afinal, o debate público não se limita apenas aos fatos. Ele envolve também percepções, valores e necessidades humanas profundas.

Talvez seja justamente essa a razão pela qual as teorias conspiratórias sobrevivem. Elas não persistem apenas porque algumas pessoas desconhecem determinados fatos. Subsistem porque oferecem respostas para uma necessidade humana antiga: a busca por sentido em um mundo que nem sempre parece fazer sentido.

E essa necessidade, ao que tudo indica, continuará existindo muito depois que as teorias da moda forem substituídas por novas versões da mesma inquietação humana.

Todavia, explicar por que uma crença surge não equivale a demonstrar que ela seja verdadeira. A necessidade humana de atribuir sentido aos acontecimentos ajuda a compreender a origem de determinadas narrativas, mas não substitui a necessidade de evidências para avaliá-las.

Compreender as motivações que levam uma pessoa a aderir a determinada narrativa não significa validar informações falsas nem relativizar a responsabilidade de grupos políticos, estruturas profissionais de desinformação, influenciadores digitais ou agentes econômicos que deliberadamente produzam ou disseminem mentiras capazes de causar danos individuais ou coletivos.

Além das motivações individuais, a confiança institucional desempenha papel decisivo. Em sociedades onde governos, tribunais, meios de comunicação e órgãos de controle desfrutam de maior credibilidade, teorias conspiratórias tendem a encontrar maior resistência. Já em contextos marcados por corrupção, opacidade administrativa ou sucessivos escândalos, a desconfiança pode tornar narrativas alternativas mais plausíveis aos olhos de parte da população.

Se a proliferação de teorias conspiratórias decorre tanto de fatores psicológicos quanto institucionais, sua mitigação exige mais do que simples correções factuais. Transparência administrativa, comunicação pública clara, fortalecimento dos mecanismos independentes de investigação, educação midiática e ampliação do acesso à informação confiável constituem algumas das estratégias capazes de reduzir o espaço ocupado por narrativas infundadas sem restringir o debate democrático.

Diversos estudos em ciência política sugerem que a confiança interpessoal e institucional constitui um ativo fundamental para o funcionamento das democracias. Nesse contexto, ganha relevância a ideia de "capital social", desenvolvida por Robert Putnam. Quando esse capital de confiança se deteriora, narrativas alternativas e explicações conspiratórias tendem a encontrar terreno mais fértil.

Em uma democracia, o problema não é que existam pessoas que acreditam em teorias conspiratórias. O problema surge quando deixamos de conversar com elas. Nenhuma sociedade é formada apenas por especialistas, acadêmicos ou técnicos. Governos, parlamentos e instituições precisam lidar com cidadãos reais, carregando medos, esperanças, memórias e desconfianças. Compreender essas percepções talvez seja mais importante do que tentar eliminá-las.

Isso exige, ao menos, quatro frentes de atuação. A primeira é ampliar a transparência pública e facilitar o acesso a informações verificáveis. A segunda consiste em fortalecer mecanismos independentes de investigação e fiscalização. A terceira envolve investir em educação midiática e pensamento crítico desde a escola. Por fim, torna-se necessário aperfeiçoar a comunicação pública, tornando-a mais clara, acessível e capaz de dialogar com diferentes segmentos da sociedade.


📝 Nota do autor:

Esta reflexão dialoga, entre outras referências, com a obra Investigação sobre o Entendimento Humano, de David Hume; com os estudos sobre heurísticas e vieses cognitivos desenvolvidos por Daniel Kahneman e Amos Tversky, especialmente apresentados em Thinking, Fast and Slow; com pesquisas sobre confiança institucional e capital social de Robert Putnam; e com estudos contemporâneos sobre desinformação digital produzidos por instituições como o Oxford Internet Institute e o Pew Research Center.

A imagem que acompanha este artigo reproduz o mosaico romano do Minotauro existente nas ruínas de Conímbriga, em Portugal. Na mitologia grega, o Labirinto era uma construção destinada a ocultar o Minotauro em seu interior, desafiando aqueles que buscavam encontrar a saída em meio a caminhos complexos e enganosos.

A metáfora dialoga com a reflexão desenvolvida neste texto. Diante da complexidade do mundo contemporâneo, os seres humanos continuam procurando explicações capazes de atribuir ordem, sentido e coerência aos acontecimentos. Nem sempre, porém, os caminhos mais simples conduzem necessariamente às melhores respostas.


📷: Créditos de imagem atribuídos a Manuel Anastácio, conforme disponibilizada sob licença livre no Wikimedia Commons. Fonte: Wikimedia Commons.

sábado, 9 de maio de 2026

A Sentinela da Gávea



“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda para contá-la.” — Gabriel García Márquez


Chegou o inverno de 2026 e o Rio de Janeiro parecia viver num estado permanente de exaustão.

A estação mais fria do ano chegara estranha ao Rio devido ao fenômeno do El Niño. O calor persistia sobre as praias enquanto helicópteros cruzavam o céu da Zona Sul. As redes sociais fervilhavam a cada nova crise política, cada escândalo, cada julgamento televisionado, cada indignação de vinte e quatro horas, além da desinformação circulando pelos grupos de internautas no WhatsApp sobre qualquer tema relacionado à corrida eleitoral. Mas havia algo diferente no ar — uma sensação difusa de cansaço moral, como se o país inteiro estivesse preso numa conversa interminável consigo mesmo.

A Pedra da Gávea, no entanto, observava tudo em silêncio.

Da janela da universidade, Helena costumava enxergá-la ao longe entre os prédios e a névoa marítima. Havia alguma coisa naquela montanha que a inquietava desde criança. Talvez o formato severo da pedra. Talvez a impressão de que ela não pertencia completamente à cidade.

Desde adolescente, Helena conhecia as histórias que cercavam a Pedra da Gávea.

Havia teorias sobre inscrições fenícias escondidas na rocha, lendas sobre túneis subterrâneos conectando a montanha ao oceano e até narrativas esotéricas que associavam aquele lugar à entrada de Agartha — o mítico reino subterrâneo presente em tradições ocultistas modernas.

Como estudante de História, sempre tratara essas histórias com ceticismo acadêmico. Ainda assim, havia algo inquietante na persistência daqueles mitos através das gerações.

Talvez certas montanhas produzissem lendas porque algumas paisagens pareciam grandes demais para caber apenas na realidade cotidiana.

Helena tinha vinte e três anos e estudava História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nos últimos meses, mergulhara obsessivamente em pesquisas sobre memória coletiva, mitologia indígena e a ideia de “portais simbólicos” nas civilizações antigas.

Enquanto colegas discutiam algoritmos, inteligência artificial e colapsos democráticos, ela passava horas lendo sobre passagens rituais maias, portas falsas egípcias, cavernas iniciáticas gregas e cosmologias indígenas brasileiras.

Quanto mais estudava, mais sentia que as sociedades modernas haviam perdido alguma coisa fundamental: a capacidade de atravessar.

Tudo agora parecia imediato: opiniões instantâneas, julgamentos instantâneos e revoltas instantâneas.

Mas nenhuma transformação verdadeira.

Numa sexta-feira de agosto, após uma madrugada inteira revisando textos sobre mitologia tupi, Helena decidiu subir a Pedra da Gávea sozinha.

Talvez precisasse de silêncio.

A trilha amanhecia úmida. A Mata Atlântica respirava lentamente sob a névoa. Gotas escorriam pelas folhas largas enquanto o som distante do oceano subia pelas encostas.

Por volta das sete horas, uma tempestade começou sem aviso.

Não uma chuva comum. Algo estranho.

O vento parecia circular em espiral entre as pedras. Os pássaros desapareceram subitamente. Até os insetos silenciaram.

Helena procurou abrigo perto de uma formação rochosa parcialmente encoberta por raízes antigas.

Foi então que viu algo que jamais estivera ali antes. Havia uma abertura estreita na pedra.

Ela tinha certeza absoluta de que aquela passagem não existia antes.

A entrada parecia natural e artificial ao mesmo tempo — como se a montanha houvesse sido aberta cuidadosamente por mãos invisíveis há milhares de anos.

Na superfície úmida da rocha, símbolos quase apagados surgiam sob a água da chuva.

Não eram letras conhecidas.

Mas Helena sentiu, inexplicavelmente, que compreendia o significado.

Passagem.

Memória.

Travessia.

Seu celular perdeu sinal. 

Depois desligou sozinho.

O vento cessou.

E um silêncio profundo caiu sobre a floresta.

Helena hesitou.

Toda sua formação acadêmica gritava cautela. Mas havia algo mais forte do que o medo: uma sensação estranha de reconhecimento.

Como se tivesse esperado aquela porta a vida inteira.

Corajosamente ela entrou.

O corredor era estreito e escuro no início, mas aos poucos uma luz âmbar começou a surgir das paredes.

Não havia tochas. Nem lâmpadas. A própria pedra parecia respirar luminosidade.

O túnel terminava numa enorme câmara circular.

E então Helena percebeu que não estava sozinha.

Do outro lado da caverna, entre sombras douradas, havia uma figura imóvel.

Alta. Magra. Coberta parcialmente por fibras, folhas e algo que lembrava galhos secos.

Os olhos brilhavam como brasas antigas.

E atrás da criatura havia um cervo branco.

Helena sentiu o corpo inteiro gelar.

Porque conhecia aquela imagem.

Era Anhangá, o espírito das matas. O guardião dos caminhos ocultos. A entidade que confundia caçadores, protegia animais e desorientava homens arrogantes na floresta.

Mas não havia monstruosidade na presença diante dela.

Havia tristeza.

Uma tristeza antiga demais para caber numa expressão humana.

— Você demorou — disse a entidade.

A voz não ecoava pelos ouvidos. Parecia surgir dentro da própria consciência de Helena.

— Isso é real? — perguntou ela, quase sem perceber.

Anhangá inclinou levemente a cabeça.

— O que vocês chamam de real muda a cada século.

A câmara começou a vibrar lentamente.

Então Helena viu.

As paredes transformaram-se em imagens vivas.

Primeiro, o Brasil colonial. Florestas queimando. Navios. Correntes. Ouro. Corpos indígenas. Corpos negros. Silêncios enterrados.

Depois vieram cidades infinitas. Concreto. Telas luminosas. Pessoas falando sem parar. Mas incapazes de se ouvir.

A velocidade aumentava.

Crises políticas. Fake news. Ódio. Algoritmos. Solidão. Fanatismos.

Tudo corria diante dela como uma correnteza impossível de deter.

— O que é isso? — perguntou Helena.

— Memória interrompida.

As imagens mudaram novamente.

Agora surgia outro Brasil.

Não perfeito. Nem utópico.

Mas diferente.

Cidades mais silenciosas. Rios recuperados. Escolas abertas à comunidade. Tecnologia integrada à natureza. Praças cheias com crianças brincando sem o medo da violência urbana. Pessoas discordando sem desejar destruição umas das outras.

Helena observava sem conseguir respirar direito.

— Isso… é o futuro?

— Não.

Anhangá aproximou-se lentamente.

— É apenas um dos caminhos.

A entidade tocou a parede de pedra.

Milhares de símbolos começaram a pulsar ao redor.

— Toda civilização abre portais.

Anhangá tocou lentamente a pedra.

— Algumas para a memória.

— Algumas para a sabedoria.

— Algumas para a destruição.

Helena sentiu um peso estranho no peito.

— E o Brasil?

Pela primeira vez, Anhangá pareceu cansado.

— O Brasil está diante de um portal há muito tempo. 

Anhangá ergueu lentamente os olhos.

— Mas esqueceu como atravessar.

O silêncio voltou.

Lá fora, muito distante, trovões cruzavam o céu sobre o Atlântico.

— Por que eu? — perguntou Helena.

Anhangá olhou para ela longamente.

— Porque ainda existem pessoas capazes de escutar. — Poucas. — Mas existem.

A luz da câmara começou a diminuir.

— O portal não mostra verdades. — Mostra responsabilidades.

A pedra inteira pareceu respirar.

— Nenhum país é salvo pela força. 

— Nem pela tecnologia. 

— Nem pelo medo. 

— Uma civilização sobrevive quando consegue lembrar quem é.

A última imagem surgiu então diante de Helena.

A própria Pedra da Gávea.

Imóvel. Observando séculos passarem. Impérios nascerem e desaparecerem. Governos. Guerras. Ideologias. Máquinas.

E permanecendo ali.

Como uma sentinela silenciosa entre floresta, cidade e oceano.

Quando Helena despertou, estava novamente na trilha.

O céu amanhecia limpo.

Seu celular funcionava normalmente.

Turistas passavam logo abaixo conversando alto. Nada parecia diferente.

Mas algo havia mudado.

Ao tocar a pedra úmida ao lado do caminho, Helena percebeu um pequeno símbolo gravado na superfície.

Um cervo.

E compreendeu, finalmente, que certos portais não existem para fugir do mundo.

Existem para devolver as pessoas a ele transformadas.

Quando Helena voltou o olhar para a montanha, por um breve instante teve a impressão de enxergar, muito acima da névoa, a silhueta imóvel de um cervo branco observando a cidade.

Depois, desapareceu.

A Pedra da Gávea permaneceu imóvel sobre a cidade.

Como se continuasse esperando.


📝 NOTA:

Anhangá é uma entidade presente em diversas tradições indígenas brasileiras, especialmente associada à cosmologia tupi.

Em algumas narrativas, aparece como espírito protetor das matas e dos animais, frequentemente associado à figura de um cervo branco de olhos flamejantes.

Ao longo da colonização, sua imagem foi parcialmente reinterpretada sob influências cristãs europeias, passando em certos contextos a ser associada de forma equivocada a uma figura demoníaca.

Neste conto, Anhangá é retratado como guardião simbólico da memória, da floresta e dos caminhos espirituais esquecidos.


📷: Karla F. Paiva/Wikimedia Commons

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

📸 Carnaval sem celular: quando desligar também vira gesto cultural



A Folha de S.Paulo noticiou que parte dos foliões tem optado por deixar o celular em casa durante o Carnaval, levando consigo apenas câmeras fotográficas — muitas vezes simples, antigas ou de baixo valor — como forma de registrar a festa sem o risco de furtos. A matéria descreve relatos de frequentadores de blocos que, diante do aumento recorrente de roubos de smartphones em grandes aglomerações, buscam alternativas práticas para preservar suas memórias e evitar prejuízos materiais.

A análise da reportagem confirma que o medo do furto é real e fundamentado. Dados de carnavais anteriores mostram que o celular se tornou um dos principais alvos de crimes patrimoniais durante a folia, o que explica a adoção de estratégias preventivas. Nesse sentido, a câmera aparece como solução funcional: registra imagens, custa menos, chama menos atenção e reduz a ansiedade associada à perda de um objeto central da vida cotidiana contemporânea.

No entanto, o gesto pode ser lido para além da segurança. Trocar o celular por uma câmera é também, ainda que não explicitamente, uma forma de desconexão consciente. O smartphone não é apenas um aparelho de registro: ele carrega consigo notificações, demandas, expectativas de resposta, trabalho, agenda, redes sociais e importunação. Ao deixá-lo em casa, o folião suspende — mesmo que por algumas horas — a lógica da disponibilidade permanente, abrindo espaço para uma experiência menos fragmentada da festa.

Na psicologia, Mihaly Csikszentmihalyi ajuda a compreender esse movimento. Seu conceito de "flow" descreve estados de imersão profunda, nos quais a atenção não é interrompida por estímulos externos constantes. O celular, com suas notificações, atua como um dispositivo de ruptura contínua da atenção. A câmera, ao contrário, favorece um olhar mais intencional e episódico, permitindo maior presença no aqui-e-agora da experiência carnavalesca.

Já Sherry Turkle, em Alone Together, aponta como a hiperconectividade produz sujeitos simultaneamente conectados e ausentes. Estar fisicamente na rua, mas mentalmente preso à tela, tornou-se um traço comum da vida urbana. Nesse contexto, deixar o celular pode ser interpretado como uma tentativa de restaurar o encontro presencial — com o outro, com o corpo, com o espaço público.

A psicanálise também ilumina esse gesto. Para Donald Winnicott, a experiência autêntica exige espaço para a espontaneidade. O celular, frequentemente, funciona como um objeto de preenchimento automático de qualquer vazio. Abrir mão dele, ainda que temporariamente, implica aceitar a imprevisibilidade da experiência — algo profundamente afinado com o espírito do Carnaval. Já em Jacques Lacan, o olhar do Outro estrutura o desejo. Fotografar com o celular tende a estar ligado à expectativa de publicação e validação. A câmera desconectada enfraquece, ainda que parcialmente, essa lógica performativa.

Do ponto de vista filosófico, Guy Debord, em "A Sociedade do Espetáculo", já alertava para a substituição da experiência vivida por sua representação. O smartphone intensifica essa dinâmica: a festa passa a existir como conteúdo antes mesmo de ser vivida. A câmera offline, por sua limitação técnica e simbólica, cria uma pequena fissura nessa engrenagem — registra, mas não transmite imediatamente, devolvendo a primazia ao vivido.

Essa leitura dialoga também com Byung-Chul Han, autor de "A Sociedade do Cansaço". Para ele, vivemos sob o imperativo do desempenho e da autoexploração contínua. O celular é uma das principais ferramentas dessa pressão silenciosa. Desligar-se, mesmo por poucas horas, torna-se um ato de resistência mínima — não revolucionária, mas significativa — em defesa do tempo livre e da experiência não produtiva.

Esse desejo de presença plena dialoga diretamente com o próprio samba e com a lógica ritual do Carnaval brasileiro, que sempre exaltaram a efemeridade do encontro. Em blocos como o Monobloco, onde o repertório atravessa décadas da música popular brasileira, o que se celebra não é a permanência do registro, mas a intensidade do instante coletivo — o canto em uníssono, o corpo em movimento, o agora que não se repete. O samba, como forma cultural, ensina que a experiência vale pelo momento vivido e compartilhado, não pela sua captura técnica. Nesse sentido, deixar o celular em casa pode ser lido como uma adesão silenciosa a essa ética do “aqui e agora”: viver sabendo que vai acabar, dançar sem a obrigação de provar depois que se esteve ali.

Assim, o gesto descrito pela Folha pode ser compreendido como algo maior do que uma simples precaução contra furtos. Ele revela um desejo difuso de viver a festa antes de mediá-la, de participar do Carnaval como ritual efêmero e não como arquivo permanente. Entre a multidão, o som dos blocos e o excesso de cores, deixar o celular pode significar aceitar que nem tudo precisa ser registrado, compartilhado ou preservado — algumas experiências existem apenas no momento em que acontecem. Nesse sentido, estar presente passa a ser, paradoxalmente, a forma mais intensa de memória.

Este blogueiro, que na juventude não cultivava especial entusiasmo pela folia, recorda-se, porém, de longas caminhadas em meio à natureza rural, sem celular e também sem câmera logo nos primeiros anos quanto foi morar em Nova Friburgo. Não havia ali a intenção de produzir memória, apenas de atravessar o tempo com atenção plena. A paisagem não precisava ser capturada para existir; bastava ser experimentada. Talvez o que hoje alguns foliões busquem ao deixar o smartphone em casa seja algo semelhante: a possibilidade de viver o instante sem a obrigação de registrá-lo, permitindo que a experiência — como o próprio Carnaval — seja intensa justamente por ser passageira.


📝 NOTA:

Levantamento da CNN Brasil baseado em informações do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostra que, no Carnaval de 2025, foram registrados cerca de 4.613 furtos e 2.469 roubos de celulares no estado do Rio de Janeiro, o que equivale a um aparelho subtraído em média a cada seis minutos durante a folia — um aumento em relação ao ano anterior. Já os dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, segundo matéria no UOL, indicam que 3.678 celulares foram furtados ou roubados durante o Carnaval de 2025 no estado de São Paulo, incluindo 2.395 furtos e 1.283 roubos entre os dias 28 de fevereiro e 4 de março.

📷: Tomaz Silva/Agência Brasil.