“Não consigo compreender Deus!”, disse ela. E prosseguiu em seus questionamentos indagando “como Deus permite alguém chegar a um torturante estado terminal de vida ao invés de levar a pessoa logo de uma vez sem maiores sofrimentos?”
Acho que, nestas horas, qualquer tentativa de explicar doutrinariamente o sofrimento alheio torna-se uma atitude inadequada. Afirmar que a dor do outro é um “carma”, um “tratamento divino para o pecado”, ou ainda uma “oportunidade de conversão a Cristo” seria um tremendo desrespeito, um falível julgamento por meio de uma argumentação generalizadora, reducionista e que reprime o direito de reflexão de cada ser humano concedido pelo Criador. Aí talvez a resposta mais honesta nestas situações seria o ouvinte concordar que também é incapaz de entender na totalidade aquilo que se passa.
Ora, como pode o homem compreender o Deus que enche todo o Universo sem limites de espaço e de tempo?
Onde está o “céu” quando muitos pacientes em seus leitos hospitalares vivem um tormentoso inferno ainda na Terra sem nem ao menos saberem quando que tudo aquilo terminará?
Até que ponto o CTI de um hospital não tem um pouco de uma sala de tortura policial da época da ditadura militar e de inúmeros regimes totalitaristas da história recente?
Creio que, na nossa impossibilidade de compreendermos o Eterno, devemos ao menos prestar a atenção nas coisas visíveis e na obra prima de sua criação (o homem), o qual é a “imagem” do Deus invisível, conforme nos ensina o verso 27 do primeiro capítulo de Gênesis. E aí não podemos também ignorar a visão do panteísmo quando os orientais dizem que “tudo é Deus”, considerando que o Criador utiliza corpos e elementos materiais para explicar à humanidade as coisas mais evidentes da existência.
Sem dúvida que é surpreendente vermos como o Onipresente e o Onipotente deixa a sua glória para se manifestar a nós através das situações mais simples, despindo-se também da sua onisciência. É o que podemos compreender tanto nas tradições bíblicas sobre a criação, quando Deus vinha visitar o homem no jardim (Gn 3.8) como na crença cristã da encarnação do Verbo divino. Ou seja, são dois acontecimentos que nos transmitem a ideia do desejo divino de desenvolver uma intimidade conosco.
Em sua epístola aos filipenses, Paulo escreveu sobre a kenose de Cristo (Fp 2.6-11). O texto nos diz que o Messias entregou o seu estado original que o igualava a Deus e entrou humildemente no mundo, na semelhança com os homens, tornando-se um servo sofredor e foi obediente até à humilhante crucificação. Logo, podemos dizer que o filho do homem manifesta o Deus que também escolhe ser terrivelmente torturado e experimentar a vergonhosa morte que, na visão da época, seria uma punição pelo pecado como se lê em alguns livros apócrifos tipo Henoc, 4 Esdras, 2 Baruc e Sabedoria de Salomão (este existe no cânon católico).
“Deus criou o homem para a incorruptibilidade
e o fez imagem de sua própria natureza;
foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo:
experimenta-na aqueles que lhe pertencem.”
(Sb 2.23-24; BJ)
Embora o autor possa ter se referido à morte em seu duplo aspecto (espiritual e física), penso que sua visão de mundo dualista tornou-se segregadora ao dividir a existência entre bem e mal, vida e morte, trevas e luz, um Deus santo e os homens pecadores. Pois é certo que a morte física sempre existiu, mas o homem só tomou consciência dela quando se tornou um dualista, passando criar um conflito dramático que antes não havia, inventando para o si o mal e o fim existencial.
Mas é interessante perceber que a ideia sobre a entrada de Cristo no mundo foi justamente para romper a separação que a sociedade antes impunha a ela mesma. Já que todos sofremos e morremos, o messiado de Jesus apresentou-se para o mesmo fim, mostrando ser tudo bem natural. Aliás, até as piores dores ele experimentou na cruz igualando-se a um enfermo em seu estado terminal com dieta zero no CTI, achando-se sedento por molhar a boca com água, mas recebendo soro (ou aquele vinagre dado pelos soldados romanos) para manter-se vivo por mais tempo. Com a diferença, é claro, que, num hospital, os enfermeiros estão ali para diminuir o sofrimento do paciente.
Verdade é que jamais compreendemos a infinita extensão tanto do sofrimento quanto da alegria. Tão pouco conseguimos saber qual o motivo desta alternância entre os dois polos, coisa que Deus não respondeu a Jó quando lhe apareceu no redomoinho (capítulos 38 e seguintes). Porém, acho satisfatório e consolador saber que o amor divino é imenso nos momentos mais difíceis sendo que Jesus, nas palavras de Helmut Richard Niebuhr (1894-1962), possibilita-nos “reconstruir nossa fé”. Ou, como conclui Philip Yancey comentando sobre este valioso teólogo norte-americano:
“Podemos confiar em Deus porque confiamos em Jesus. Se duvidarmos de Deus, ou se o julgamos incompreensível, o melhor remédio é olharmos fixamente para Jesus, a Pedra de Roseta da fé”.
Sabemos o quanto é duro estar num CTI, mas será que a cruz dos romanos suportada por Jesus não pode nos dizer algo?
E o altruísmo daqueles que, depois dele, também tomaram parte nesta cruz e foram injustamente presos, espancados, torturados, exilados e mortos? Por acaso os mártires recentes como Martin Luther King, Nelson Mandela, Benigno Aquino, Aleksandr Isayevich Solzhenitsyn, Václav Havel, Chico Mendes e tantos outros não apresentaram para nós em repetidos exemplos a opção de Deus pelo sofrimento como parte integrante da exisência humana?
É dentro desta visão que Jesus em seu messiado na Terra nos faz conhecer o Pai em sua pessoa, tornando-se o caminho que conduz ao Pai. Sem prestarmos a atenção no limitado filho do homem, como poderemos compreender o grandioso Deus invisível?
Compartilho a seguir este belíssimo vídeo encontrado no Youtube com uma música belíssima (Bem mais que tudo) na voz deliciosa de Aline Barros e que nos fala bem forte do amor de Deus na histórica que conhecemos acerca de Jesus:
Uma boa semana a todos!
