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| 📷: Halley Pacheco de Oliveira/Wikipédia, em 27/07/2010 |
“O poder não emana do povo; sobre ele se impõe.” — Raymundo Faoro
O dia 21 de abril de 2026 marca os 234 anos da execução do mártir da Inconfidência Mineira, Joaquim José da Silva Xavier (1746 - 1792). E, dentro de 15 dias, em 6 de maio, o Palácio Tiradentes completará 100 anos de sua inauguração.
A coincidência não é apenas simbólica — é reveladora.
Ela ocorre em um momento de tensão institucional no Rio de Janeiro, no qual a sucessão do Executivo deixou de ser um evento político linear para se tornar um processo complexo, distribuído entre Judiciário, Parlamento e múltiplos centros de decisão.
Nesse cenário, a estátua de Tiradentes diante da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro deixa de ser apenas um monumento histórico.
Ela passa a ser um critério silencioso de julgamento do presente.
⚖️ I. A sucessão sob controle: quando o sistema se fragmenta
Como já observado em análises recentes neste blog, o processo político fluminense entrou em uma nova fase: as decisões judiciais passaram a condicionar o ritmo da política, enquanto o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral assumem protagonismo indireto. Nesse contexto, o Legislativo fluminense amplia seu papel — ora como estabilizador, ora como parte da própria disputa.
O resultado é um arranjo institucional híbrido: há controle — mas também há dispersão de poder.
Essa dispersão produz efeitos conhecidos: eleva-se a legalidade formal, reduz-se a previsibilidade política e dilui-se a responsabilidade decisória.
🏛️ II. O Palácio Tiradentes como palco da crise
O Palácio Tiradentes não é apenas sede da atividade legislativa.
Ele é, historicamente, um lugar de inversão simbólica: onde antes existia a Cadeia Velha — espaço de repressão colonial, hoje funciona o Parlamento — espaço de representação política
Diante dele, Tiradentes permanece.
E isso produz uma tensão inevitável: o homem condenado pelo Estado observa, hoje, o funcionamento do próprio Estado.
Em tempos de estabilidade, essa presença é apenas evocativa. Porém, em tempos de crise, ela se torna incômoda.
🧭 III. Tiradentes como parâmetro — e não como homenagem
A leitura mais exigente da estátua não é celebratória.
Ela é normativa.
Tiradentes, enquanto símbolo, impõe três critérios ao presente:
- Independência institucional real
- Disposição para assumir custos políticos
- Clareza de posição em momentos críticos
Ele não representa neutralidade.
Representa decisão.
⚖️ IV. Entre o símbolo e a prática: o Parlamento sob tensão
A crise institucional no Rio expõe uma questão central: o Legislativo está exercendo protagonismo ou apenas administrando a incerteza?
O problema não é a existência de controle — ele é necessário.
O problema está no efeito colateral da fragmentação: decisões tornam-se difusas, responsabilidades se diluem e a política perde centralidade.
Nesse ambiente, o Parlamento corre um risco silencioso: funcionar — mas sem afirmar direção.
🧠 V. O centenário em perspectiva: resistência ou esvaziamento?
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| 📷: Augusto Malta/Instituto Moreira Salles, em 06/05/1926 |
O centenário do Palácio Tiradentes, em 6 de maio de 2026, pode ser lido de duas formas:
Leitura institucional: o edifício permanece; as instituições resistem.Leitura crítica: a forma permanece — mas o conteúdo político se fragiliza.
A diferença entre uma leitura e outra não está na arquitetura.
Está na prática.
🗿 VI. O passado julgando o presente
A ideia de que “o passado julga o presente” ganha aqui densidade concreta.
Não se trata de metáfora.
A estátua de Tiradentes opera como um precedente moral permanente.
Ela lembra que o poder pode errar, que decisões políticas produzem consequências históricas e que a legitimidade não é automática — ela precisa ser construída.
E, sobretudo, afirma: o Estado que um dia puniu a dissidência precisa hoje justificar cada ato que pratica.
🧭 VII. A questão central: legitimidade em tempo real
Em contextos estáveis, a legitimidade é presumida.
Em contextos de crise, ela precisa ser demonstrada continuamente.
Isso exige coerência institucional, decisões claras e responsabilidade política assumida.
Sem isso, ocorre um fenômeno conhecido: a legalidade permanece — mas a legitimidade se esvazia.
✒️ Conclusão — o silêncio que cobra
A observação de Raymundo Faoro, citado antes da introdução deste texto, permanece atual. Em momentos de crise, o poder tende menos a emanar e mais a se reorganizar — muitas vezes por sobreposições institucionais que escapam ao controle político direto
A coincidência entre os 234 anos da morte de Tiradentes, o centenário do Palácio Tiradentes e a crise institucional no Rio de Janeiro não é apenas histórica.
É reveladora.
Ela mostra que o desafio central não é a ausência de instituições.
É a dificuldade de alinhar a prática política aos símbolos que a legitimam.
E, talvez, a imagem mais forte seja justamente a mais silenciosa: Tiradentes permanece imóvel diante do Parlamento — não para celebrar o poder, mas para lembrar que ele pode falhar.
Se esse lembrete ainda produz efeito, o sistema respira.
Se deixa de produzir, o símbolo permanece — mas perde sua função.
Como dizia o nosso poeta Manuel Bandeira, “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
Entre o símbolo e a prática, talvez o risco maior seja este: que a política se transforme naquilo que poderia ter sido — e não foi.


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