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domingo, 5 de abril de 2026

Recursos estratégicos, soberania e geopolítica: o reposicionamento da América Latina no século XXI



A América do Sul voltou ao centro da estratégia internacional das grandes potências. Não por acaso, o recente reposicionamento do Comando Sul dos Estados Unidos, evidenciado em declarações do general Francis L. Donovan perante o Congresso americano, revela uma mudança relevante: a região deixa de ser percebida como periferia geopolítica e passa a ser tratada como espaço estratégico, no qual segurança, economia e tecnologia se entrelaçam.

A narrativa oficial é conhecida. O foco recai sobre o combate ao narcotráfico, à criminalidade organizada e às chamadas “ameaças transnacionais”. Trata-se de uma agenda que, em si, possui legitimidade — afinal, o crime organizado é um fenômeno real, com impactos concretos sobre a estabilidade institucional e a vida cotidiana nos países da região.

No entanto, essa explicação, embora verdadeira, é insuficiente.

O que se observa, em uma leitura mais ampla, é a incorporação de temas econômicos e tecnológicos ao campo da segurança. Minerais críticos, cadeias produtivas, infraestrutura estratégica e a presença chinesa passam a ser tratados não apenas como questões de desenvolvimento, mas como variáveis de segurança hemisférica. É nesse ponto que emerge o fenômeno da securitização: quando questões originalmente econômicas ou políticas são reinterpretadas como ameaças à segurança, ampliando o espaço para respostas excepcionais.

Esse movimento não ocorre no vazio. Ele se insere em um contexto de rivalidade sistêmica crescente entre Estados Unidos e China, no qual a América Latina assume papel relevante por três razões principais: a disponibilidade de recursos estratégicos, a posição geográfica e a crescente integração econômica com a Ásia — aprofundada, inclusive, por iniciativas recentes de ampliação do BRICS+.

Diante desse cenário, a reação dos países latino-americanos não é homogênea. Ao contrário, revela um padrão sofisticado de comportamento.

Há casos de acomodação, como o do Peru, onde a exploração mineral e os investimentos estrangeiros têm se desenvolvido em ambiente de relativa abertura a interesses externos. Há situações de acomodação defensiva, como no Chile, que, embora mantenha relações econômicas profundas com a China, tem adotado maior cautela em projetos estratégicos diante da pressão norte-americana. E há, ainda, o padrão mais disseminado de cooperação seletiva, exemplificado pelo México, que combina integração econômica com os Estados Unidos com preservação de margens de autonomia em outras dimensões.

Esse último padrão parece ser o predominante. Ele revela uma racionalidade política que não é ideológica, mas pragmática.

No caso brasileiro, essa lógica se manifesta de forma clara. O governo federal tem sinalizado uma postura que pode ser descrita como resistência negociadora. Não há confronto aberto com os Estados Unidos, mas tampouco há adesão automática à lógica de securitização. Ao contrário, o Brasil tem insistido na necessidade de preservar a soberania sobre seus recursos naturais e, sobretudo, de evitar o papel de mero exportador de matéria-prima.

Essa postura encontra respaldo no próprio texto constitucional. A Carta Política de 1988, ao estabelecer no art. 225 o dever de proteção do meio ambiente e ao reconhecer os recursos naturais como bens de interesse coletivo, projeta uma lógica de gestão que não se limita à exploração econômica, mas incorpora dimensões de sustentabilidade, soberania e interesse público. 

Em articulação com os princípios da ordem econômica (art. 170), essa arquitetura normativa reforça a ideia de que a inserção internacional do Brasil — inclusive no campo dos minerais críticos — não pode ser reduzida a uma lógica extrativa ou subordinada, devendo refletir um projeto nacional de desenvolvimento que preserve capacidade decisória e controle estratégico sobre seus ativos.

A ênfase na agregação de valor, no processamento doméstico de minerais críticos e na construção de cadeias produtivas internas revela uma tentativa de reposicionar o país não como fornecedor periférico, mas como ator relevante na economia global.

Essa posição, no entanto, encontra um limite estrutural: a dependência econômica.

A relação comercial com a China tornou-se um dos pilares da economia brasileira. Em 2025, estimativas indicam que o país asiático absorveu cerca de 30% a 35% das exportações brasileiras, com destaque para commodities como a soja — responsável por aproximadamente um terço desse fluxo — e o minério de ferro, que responde por parcela significativa das vendas externas, segundo dados do Comex Stat. Essa dependência não é apenas estatística; ela molda decisões políticas, condiciona estratégias econômicas e impõe restrições concretas a qualquer tentativa de alinhamento geopolítico rígido.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. A América Latina como um todo aprofundou sua integração com a China, seja por meio do comércio, seja por investimentos em infraestrutura, energia e mineração. Ao mesmo tempo, já se observam sinais de tensões crescentes envolvendo cadeias de minerais críticos — como o lítio —, inserindo a região de forma ainda mais direta na disputa estratégica global.

Um exemplo emblemático desse processo pode ser observado nas disputas em torno do chamado “triângulo do lítio”, formado por Argentina, Bolívia e Chile, que concentram parcela expressiva das reservas globais desse recurso estratégico — frequentemente estimada acima de 50%. Mais do que uma questão de disponibilidade mineral, a região tornou-se espaço de competição entre modelos distintos de governança: enquanto a Bolívia adota um modelo de forte controle estatal, o Chile combina regulação com participação privada e a Argentina apresenta maior abertura ao capital estrangeiro, inclusive com presença relevante de empresas chinesas. Nesse contexto, a disputa não se limita à extração, mas envolve o controle das etapas de refino, industrialização e inserção nas cadeias tecnológicas globais — o que reforça a transformação dos recursos naturais em ativos de segurança estratégica.

Essa dinâmica regional projeta efeitos diretos sobre o Brasil, que, embora não integre o triângulo do lítio, possui reservas relevantes de minerais estratégicos — como nióbio, terras raras e grafite — e se insere no mesmo dilema estrutural: permanecer como fornecedor de commodities ou avançar na internalização de etapas tecnológicas e produtivas de maior valor agregado.

É nesse ponto que a análise ganha densidade.

Se, por um lado, os Estados Unidos buscam ampliar sua influência por meio da securitização de temas estratégicos, por outro, a realidade econômica da região impõe um freio objetivo a esse movimento. Não se trata apenas de vontade política, mas de estrutura econômica.

No plano interno brasileiro, essa tensão também se reflete no comportamento das forças políticas. No campo governista, há relativa convergência em torno da defesa da soberania econômica, da agregação de valor e do não alinhamento automático. Já na oposição, o cenário é mais fragmentado. Parte do campo político adota uma postura mais alinhada aos Estados Unidos e mais crítica à China, enquanto outra parcela — especialmente vinculada ao setor produtivo — reconhece a centralidade do mercado chinês para a economia nacional.

Essa divisão revela um dado fundamental: a geopolítica, no Brasil, não é apenas ideológica. Ela é profundamente condicionada pela economia política.

Diante disso, a tese de uma simples retomada da influência norte-americana sobre a América Latina mostra-se insuficiente. O que está em curso é algo mais complexo: uma disputa por influência em um ambiente de interdependência.

A securitização promovida por Washington amplia o espaço para pressão política e estratégica. Mas essa pressão encontra limites concretos na estrutura econômica da região, que hoje depende, em larga medida, da China.

O desafio para países como o Brasil não é escolher entre um polo e outro, mas construir uma estratégia que preserve autonomia em um cenário de competição entre potências.

A questão central, portanto, não é se haverá influência externa — ela já existe e tende a crescer. A questão é outra: em que medida os países sul-americanos conseguirão transformar essa disputa em oportunidade, sem abrir mão de sua soberania econômica e decisória?

Na nova geopolítica dos recursos, não há espaço para neutralidade ingênua: ou os países constroem estratégia, ou serão incorporados à estratégia de outros.

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