(Conto ambientado no Rio — 11 e 12 de abril de 1976)
O sol de outono entrava mansamente pelas janelas do pequeno apartamento na Rua Comendador Martinelli, no Grajaú, iluminando o sofá de tecido bege e o tapete de lã comprado na Casa Sloper, já um pouco puído pelo tempo. Lúcia, grávida de nove meses, despertou antes do marido, sentindo aquele peso conhecido que a acompanhava desde fevereiro. O médico dizia que o bebê viria “a qualquer instante”, e a expressão ganhava novos ecos a cada manhã.
O marido, Antônio, acordou ao som distante de um ônibus 454 subindo pela Rua Barão do Bom Retiro, direção Grajaú – Copacabana, ainda com o rugido robusto dos motores da CTC que pareciam marcar as horas do bairro. Era domingo, 11 de abril de 1976, e o Rio ainda acordava devagar após uma semana de notícias pesadas, com jornais comentando inflação, futebol e as movimentações discretas do governo que ensaiava uma abertura política tímida.
No rádio Philips da sala, deixado baixo para não incomodar o sono leve de Lúcia, tocava “Ovelha”, de Rita Lee com os Mutantes, uma das músicas mais ouvidas naquele mês. O mundo parecia dividido entre a psicodelia tardia e as baladas românticas que ecoavam nas vitrolas — de Roberto Carlos a Odair José.
O Flamengo, aliás, tinha jogado no sábado, e os comentaristas ainda discutiam o desempenho do time no Carioca de 76, que prometia ser disputado. As rádios repetiam as tabelas com entusiasmo esportivo — como se o país, em plena ditadura, precisasse daquela euforia para respirar.
O bairro naquela manhã
A Rua Comendador Martinelli, sempre inclinada como uma ladeira paciente, estava tranquila naquele domingo.
A inclinação era tanta que as crianças raramente arriscavam pedalar ali: levavam suas bicicletas Caloi ou Monark para a Praça Edmundo Rego, onde o chão plano permitia corridas, ou então para trechos mais nivelados da Engenheiro Richard, onde a brincadeira era mais segura e menos vertiginosa.
As árvores de tamarindo, que marcavam aquele trecho do Grajaú, balançavam preguiçosamente no vento das 9 da manhã. Alguns senhores saíam cedo rumo à missa na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, já tradicional na Praça Edmundo Rego, onde a mãe de Antônio morava num apartamento antigo, com varanda gradeada e piso de tacos encerados com Parquetina.
A mãe de Lúcia e sua avó preparavam o almoço na casa de vila da Rua Engenheiro Richard, um conjunto de residências geminadas, de muros baixos e pátios compartilhados, onde vizinhos conversavam pelas janelas e trocavam café fresco em xícaras de ágata.
E, acima de tudo, havia o Grajaú Country Club, ainda movimentado aos domingos, com suas quadras de tênis, piscinas e conversas sobre política em voz baixa — porque naquele tempo ninguém sabia onde estava o ouvido do Estado.
O domingo do casal
Antônio e Lúcia desceram para comprar pão na padaria próxima, ainda embalada pelo aroma de pão francês saindo do forno e pelas vitrines com biscoitos Piraquê, rosquinhas São Luiz, caixas de leite CCPL e garrafas retornáveis de Guaraná Antarctica. Compraram também um pote de sorvete Kibon, promessa para a sobremesa da tarde.
Voltaram para casa e passaram a manhã vendo televisão. Na tevê em preto e branco, a Rede Globo reprisava trechos do Fantástico, e anúncios de Varig, Eletroradiobraz, TV Sharp e café Melitta lembravam que o Brasil queria parecer moderno. No entanto, a tensão política ainda espreitava: falava-se discretamente da sucessão militar, e jornais destacavam discursos sobre “distensão lenta, gradual e segura”.
Lúcia riu, mas por dentro sentiu um arrepio.
A noite chega
Ao voltar para o apartamento, o vento já trazia um ar mais frio. Antônio preparou chocolate quente com Nescau, e eles assistiram ao início do Fantástico, que mostrava trechos de filmes que faziam sucesso em 1976, como “Rocky” e “Taxi Driver”, e reportagens sobre a chuva no Sul. Em seguida, passou um anúncio do recém-lançado Fiat 147, símbolo da nova fase industrial.
— Antônio… agora sim.
Ele não precisou perguntar. Correu para pegar a bolsa com os documentos, a muda de roupa, o sabonete Phebo e os paninhos que a mãe costurara. Pegaram um táxi amarelo com placa azul, que os levou pela Barão do Bom Retiro, cruzando ruas quase vazias — exceto por um ônibus 226 voltando para a Praça Saens Peña.
O destino: Casa da Mãe Pobre, no Rocha.
A travessia para o nascimento
O táxi seguia pela noite carioca, iluminada por postes amarelos de luz fraca. Passaram pela Rua Frei Pinto, onde a antiga instituição — mistura de maternidade e obra social — exalava um cheiro de desinfetante e lavanda. Um letreiro desbotado ainda dizia “CASA DA MÃE POBRE – MATERNIDADE”.
Eram 00h17 do dia 12 de abril de 1976 quando Lúcia foi levada para a sala de parto. O médico, cansado mas atento, disse que seria rápido. E foi.
Antônio ouviu o choro poucos minutos depois — um choro que parecia estremecer as paredes antigas e conferir nova vida ao prédio. A enfermeira surgiu com um sorriso:
— Menino. Forte. Nasceu bem. Parabéns, papai.
Ele respirou fundo. Naquele instante, nada mais existia — nem inflação, nem censura, nem o mundo lá fora. Só aquela criança, que chegava ao Rio de Janeiro em uma madrugada de outono, enquanto a cidade ainda sonhava com dias melhores.
Lúcia segurou o bebê pela primeira vez e disse, com os olhos marejados:
— Seja bem-vindo, meu amor. O mundo é grande, mas começa aqui… entre o Grajaú e o Rocha.
Naquele quarto simples, com paredes descascadas, cheiro de álcool, luz branca alta e o murmúrio distante da madrugada carioca, nascia não apenas uma criança — mas uma história que começaria naquele 12 de abril de 1976, no coração do Rio de Janeiro.

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