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domingo, 12 de abril de 2026

🌿 O Domingo em que o Tempo se Abria



(Conto ambientado no Rio — 11 e 12 de abril de 1976)


O sol de outono entrava mansamente pelas janelas do pequeno apartamento na Rua Comendador Martinelli, no Grajaú, iluminando o sofá de tecido bege e o tapete de lã comprado na Casa Sloper, já um pouco puído pelo tempo. Lúcia, grávida de nove meses, despertou antes do marido, sentindo aquele peso conhecido que a acompanhava desde fevereiro. O médico dizia que o bebê viria “a qualquer instante”, e a expressão ganhava novos ecos a cada manhã.

O marido, Antônio, acordou ao som distante de um ônibus 454 subindo pela Rua Barão do Bom Retiro, direção Grajaú – Copacabana, ainda com o rugido robusto dos motores da CTC que pareciam marcar as horas do bairro. Era domingo, 11 de abril de 1976, e o Rio ainda acordava devagar após uma semana de notícias pesadas, com jornais comentando inflação, futebol e as movimentações discretas do governo que ensaiava uma abertura política tímida.

No rádio Philips da sala, deixado baixo para não incomodar o sono leve de Lúcia, tocava “Ovelha”, de Rita Lee com os Mutantes, uma das músicas mais ouvidas naquele mês. O mundo parecia dividido entre a psicodelia tardia e as baladas românticas que ecoavam nas vitrolas — de Roberto Carlos a Odair José.

Lúcia respirou fundo.
— Antônio… acho que hoje não vai, mas está perto.

Ele sorriu, ainda meio sonolento:
— Vamos com calma. Hoje a gente passeia, come algo gostoso… quem sabe o Flamengo não vence mais uma?

O Flamengo, aliás, tinha jogado no sábado, e os comentaristas ainda discutiam o desempenho do time no Carioca de 76, que prometia ser disputado. As rádios repetiam as tabelas com entusiasmo esportivo — como se o país, em plena ditadura, precisasse daquela euforia para respirar.


O bairro naquela manhã

A Rua Comendador Martinelli, sempre inclinada como uma ladeira paciente, estava tranquila naquele domingo.

A inclinação era tanta que as crianças raramente arriscavam pedalar ali: levavam suas bicicletas Caloi ou Monark para a Praça Edmundo Rego, onde o chão plano permitia corridas, ou então para trechos mais nivelados da Engenheiro Richard, onde a brincadeira era mais segura e menos vertiginosa.

As árvores de tamarindo, que marcavam aquele trecho do Grajaú, balançavam preguiçosamente no vento das 9 da manhã. Alguns senhores saíam cedo rumo à missa na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, já tradicional na Praça Edmundo Rego, onde a mãe de Antônio morava num apartamento antigo, com varanda gradeada e piso de tacos encerados com Parquetina.

A mãe de Lúcia e sua avó preparavam o almoço na casa de vila da Rua Engenheiro Richard, um conjunto de residências geminadas, de muros baixos e pátios compartilhados, onde vizinhos conversavam pelas janelas e trocavam café fresco em xícaras de ágata.

E, acima de tudo, havia o Grajaú Country Club, ainda movimentado aos domingos, com suas quadras de tênis, piscinas e conversas sobre política em voz baixa — porque naquele tempo ninguém sabia onde estava o ouvido do Estado.


O domingo do casal

Antônio e Lúcia desceram para comprar pão na padaria próxima, ainda embalada pelo aroma de pão francês saindo do forno e pelas vitrines com biscoitos Piraquê, rosquinhas São Luiz, caixas de leite CCPL e garrafas retornáveis de Guaraná Antarctica. Compraram também um pote de sorvete Kibon, promessa para a sobremesa da tarde.

Voltaram para casa e passaram a manhã vendo televisão. Na tevê em preto e branco, a Rede Globo reprisava trechos do Fantástico, e anúncios de Varig, Eletroradiobraz, TV Sharp e café Melitta lembravam que o Brasil queria parecer moderno. No entanto, a tensão política ainda espreitava: falava-se discretamente da sucessão militar, e jornais destacavam discursos sobre “distensão lenta, gradual e segura”.

À tarde, após o almoço na casa da mãe e avó de Lúcia, eles caminharam até a Praça Edmundo Rego. O coreto ainda recebia crianças que corriam atrás de balões, e um vendedor ambulante oferecia picolés Guri. A mãe de Antônio, sempre protetora, acariciou a barriga de Lúcia e disse:
— Vai ser esta noite, meu filho. Mãe sabe.

Lúcia riu, mas por dentro sentiu um arrepio.


A noite chega

Ao voltar para o apartamento, o vento já trazia um ar mais frio. Antônio preparou chocolate quente com Nescau, e eles assistiram ao início do Fantástico, que mostrava trechos de filmes que faziam sucesso em 1976, como “Rocky” e “Taxi Driver”, e reportagens sobre a chuva no Sul. Em seguida, passou um anúncio do recém-lançado Fiat 147, símbolo da nova fase industrial.

Foi quase no final do programa que Lúcia pôs a mão na barriga.
Um silêncio.
Um sopro.
Um estalo.

— Antônio… agora sim.

Ele não precisou perguntar. Correu para pegar a bolsa com os documentos, a muda de roupa, o sabonete Phebo e os paninhos que a mãe costurara. Pegaram um táxi amarelo com placa azul, que os levou pela Barão do Bom Retiro, cruzando ruas quase vazias — exceto por um ônibus 226 voltando para a Praça Saens Peña.

O destino: Casa da Mãe Pobre, no Rocha.


A travessia para o nascimento

O táxi seguia pela noite carioca, iluminada por postes amarelos de luz fraca. Passaram pela Rua Frei Pinto, onde a antiga instituição — mistura de maternidade e obra social — exalava um cheiro de desinfetante e lavanda. Um letreiro desbotado ainda dizia “CASA DA MÃE POBRE – MATERNIDADE”.

Eram 00h17 do dia 12 de abril de 1976 quando Lúcia foi levada para a sala de parto. O médico, cansado mas atento, disse que seria rápido. E foi.

Antônio ouviu o choro poucos minutos depois — um choro que parecia estremecer as paredes antigas e conferir nova vida ao prédio. A enfermeira surgiu com um sorriso:

— Menino. Forte. Nasceu bem. Parabéns, papai.

Ele respirou fundo. Naquele instante, nada mais existia — nem inflação, nem censura, nem o mundo lá fora. Só aquela criança, que chegava ao Rio de Janeiro em uma madrugada de outono, enquanto a cidade ainda sonhava com dias melhores.

Lúcia segurou o bebê pela primeira vez e disse, com os olhos marejados:

— Seja bem-vindo, meu amor. O mundo é grande, mas começa aqui… entre o Grajaú e o Rocha.

Naquele quarto simples, com paredes descascadas, cheiro de álcool, luz branca alta e o murmúrio distante da madrugada carioca, nascia não apenas uma criança — mas uma história que começaria naquele 12 de abril de 1976, no coração do Rio de Janeiro.

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