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domingo, 5 de abril de 2026

A ressurreição como processo: por que a história ainda não terminou



Há um detalhe pouco lembrado — mas profundamente revelador — no segundo evangelho da Bíblia.

Conforme observam exegetas como Bart D. Ehrman e Raymond E. Brown, os doze versículos finais do Evangelho de Marcos (Mc 16:9-20) não constam nos manuscritos mais antigos, sendo amplamente considerados uma adição posterior de tradição redacional. O texto original, ao que tudo indica, terminava de forma abrupta no verso 8, quando as mulheres deixam o túmulo vazio, tomadas pelo medo, e nada dizem a ninguém.


"Quando terminou o sábado, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus. No primeiro dia da semana, bem cedo, ao nascer do sol, elas se dirigiram ao sepulcro, perguntando umas às outras: "Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?" Mas, quando foram verificar, viram que a pedra, que era muito grande, havia sido removida. Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de roupas brancas assentado à direita, e ficaram amedrontadas. "Não tenham medo", disse ele. "Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou! Não está aqui. Vejam o lugar onde o haviam posto. Vão e digam aos discípulos dele e a Pedro: ‘Ele está indo adiante de vocês para a Galiléia. Lá vocês o verão, como ele lhes disse’". Tremendo e assustadas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas." (Marcos 16:1-8; NVI)


Sem dúvida, é um final estranho. Não há aparição triunfal, nem uma confirmação pública, e tão pouco um fechamento narrativo. Apenas o silêncio das três Marias.

Talvez não seja um defeito do texto — mas uma de suas chaves mais profundas.

Se a narrativa termina em aberto, é como se a ressurreição, embora anunciada, não estivesse plenamente apropriada no interior da narrativa, dependendo ainda de reconhecimento, de anúncio e de continuidade. Como se, de algum modo, a história permanecesse inacabada.

Ao longo dos séculos, não faltaram tentativas de preencher esse silêncio — seja pela tradição, pela teologia ou pela própria organização da vida social. Em muitos momentos, buscou-se transformar a promessa em estrutura, a esperança em sistema, a fé em ordem definitiva.

E, no entanto, a história insiste em permanecer ambígua: entre avanços e retrocessos, entre afirmações de vida e persistência de formas de morte, entre o que já se anunciou e o que ainda não se realizou.

Talvez a ressurreição não seja um ponto de chegada, mas um movimento que atravessa o tempo — algo que não se impõe como conclusão, mas que se oferece como possibilidade.


1. A tentação da ressurreição como estado

A história do cristianismo — e, de forma mais ampla, da própria civilização ocidental — revela uma tensão constante entre dois modos de compreender a ressurreição.

O primeiro é o da ressurreição como evento consumado, cuja consequência seria a possibilidade de organizar a realidade a partir de uma verdade já plenamente estabelecida. Nessa perspectiva, a história tende a ser interpretada como espaço de realização de um modelo previamente definido.

Foi essa lógica que, em diversos momentos, sustentou a ideia de sociedades ordenadas sob um horizonte religioso fechado — não apenas na Idade Média, mas também em experiências modernas que, embora seculares, reproduziram a mesma estrutura: a pretensão de encarnar, na história, um ideal definitivo.

Nesse ponto, a reflexão se aproxima da intuição de Walter Benjamin, para quem a história não é uma marcha linear de progresso, mas um campo de rupturas e interrupções, no qual a redenção não se identifica com a continuidade dos sistemas históricos.

O problema é conhecido.

Quando a promessa se transforma em sistema, a abertura desaparece. Quando o horizonte se converte em estrutura, a crítica perde espaço. E, quando a verdade se apresenta como plenamente realizada, o dissenso tende a ser percebido não como parte do processo, mas como ameaça a ser eliminada.

O resultado, em diversos contextos — especialmente quando religião e poder político se confundiram — foi, não raras vezes, a negação prática daquilo que se pretendia afirmar: a dignidade humana, a liberdade e a própria vida.

Não se trata de um fenômeno distante no tempo. Ainda hoje, sob diferentes formas, essa tensão se manifesta em realidades concretas: da exclusão social persistente à violência institucional, passando por conflitos fundiários e pressões sobre o meio ambiente, não são poucos os sinais de que a afirmação da vida continua sendo um desafio em aberto.


2. A ressurreição como processo: uma leitura possível

Uma segunda leitura — mais sutil e, talvez, mais fiel à própria estrutura dos textos — compreende a ressurreição não como estado, mas como processo.

Essa leitura encontra eco numa recente reflexão de Leonardo Boff, para quem a ressurreição não se limita a um evento encerrado no passado, mas se projeta como um processo histórico em que a vida se afirma contra as múltiplas formas de negação que atravessam a realidade.

Nesse sentido, a ressurreição não elimina a história, nem dissolve suas ambiguidades. Ao contrário, ela se manifesta dentro da história, como força que tensiona suas estruturas e aponta para além delas.

Essa leitura permite compreender por que, mesmo após quase dois mil anos de influência cristã, a humanidade não se transformou em um “mundo possível melhor” de forma plena.

Não se trata de fracasso da mensagem, mas de sua condição própria: a ressurreição não se impõe como realidade concluída — ela exige reconhecimento, mediação e, sobretudo, continuidade.


3. Do silêncio ao reconhecimento: o caminho de Emaús

Se o texto original do Evangelho de Marcos terminava em silêncio, o Evangelho de Lucas oferece uma resposta que não elimina, mas aprofunda esse enigma.

No festejado episódio dos discípulos no caminho de Emaús, dois homens caminham lado a lado com o ressuscitado sem reconhecê-lo. Conversam, interpretam os acontecimentos, expressam frustração — e, ainda assim, não percebem quem está com eles.

O reconhecimento só acontece mais tarde, no gesto simples de partir o pão.

E, no momento em que percebem, a presença desaparece.

Esse relato desloca completamente a compreensão do significado da ressurreição.

Ela não se impõe como evidência imediata.
Ela se revela no caminho.
Ela depende de um olhar que se forma ao longo da experiência.

E, sobretudo, ela não se fixa.

A presença que transforma é a mesma que escapa, impedindo sua captura definitiva.


4. Entre a promessa e a história

A articulação entre o silêncio de Marcos e o reconhecimento progressivo dos discípulos de Emaús permite uma leitura mais ampla da própria condição humana.

A história não é o lugar da realização plena da ressurreição — mas também não é um espaço vazio de sentido.

Ela é um campo de tensão permanente:


  • entre estruturas que reproduzem a exclusão e iniciativas que afirmam a dignidade;
  • entre sistemas que consolidam desigualdades e movimentos que buscam superá-las;
  • entre a destruição ambiental e a emergência de uma consciência ecológica;
  • entre o fechamento e a abertura.


A ideia de um horizonte aberto encontra ressonância na chamada “teologia da esperança”, desenvolvida por Jürgen Moltmann, inspirada, em parte, pela filosofia de Ernst Bloch, para quem a esperança não descreve o mundo como ele é, mas como ele pode vir a ser.

Nesse cenário, a ideia de uma “humanidade ressurreta” não pode ser compreendida como estado alcançado, mas como horizonte em construção.


5. A ressurreição como princípio crítico

Talvez a função mais profunda da ressurreição, quando compreendida nesse registro, seja a de operar como um princípio crítico permanente.

Ela impede que qualquer ordem histórica se declare definitiva.
Ela questiona estruturas que naturalizam a morte sob formas diversas.
Ela mantém aberta a possibilidade de transformação.

E, ao mesmo tempo, preserva a liberdade — porque não se impõe como conclusão, mas como um convite.


6. O desafio contemporâneo

Se essa leitura é correta, então a questão central deixa de ser teórica e se torna prática:


- onde, hoje, a vida ainda é negada?
- quais estruturas continuam produzindo exclusão, desigualdade e destruição?
- em que medida reconhecemos — ou deixamos de reconhecer — os sinais de transformação já presentes?


A resposta não está dada.

Como no final de Marcos, há silêncio.
Como em Emaús, há caminho.


7. Uma ressurreição a ser continuada

Talvez o ponto decisivo seja este: a ressurreição não é um evento a ser apenas celebrado, mas um processo a ser continuado.

Ela não se realiza por decreto, nem se encerra em estruturas.
Ela se manifesta onde a vida é afirmada — e se torna tarefa onde ela ainda é negada.

Nesse sentido, a pergunta final não é se a ressurreição aconteceu,
mas o que fazemos com ela.

Porque, se o relato permanece aberto, talvez isso não seja uma falha da narrativa — mas um inquietante convite. 
Um convite não apenas à reflexão, mas à responsabilidade histórica de reconhecer, no presente, onde a vida precisa ser afirmada — e de agir para que ela, de fato, prevaleça.

Feliz Páscoa a tod@s!


📝 Nota

A imagem que acompanha este texto é a obra As Mulheres Sagradas no Sepulcro de Cristo (1876), do pintor francês William-Adolphe Bouguereau
A cena retrata o momento descrito no Evangelho de Marcos (Mc 16:1-8), em que as mulheres encontram o túmulo vazio e recebem o anúncio da ressurreição.
Mais do que representar a vitória já consumada, a pintura capta o instante de transição entre o anúncio e o reconhecimento — marcado por perplexidade, silêncio e expectativa. 
Nesse sentido, o quadro dialoga diretamente com a ideia desenvolvida neste artigo: a ressurreição não apenas como evento, mas como realidade que se revela progressivamente na história e na experiência humana.

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