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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

De 2% a 11% em poucos dias: o que as pesquisas revelam sobre a ascensão de Augusto Cury



Duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira colocaram o escritor em novo patamar na disputa presidencial. A diferença em relação aos levantamentos realizados poucos dias antes, porém, recomenda cautela — e torna o fenômeno ainda mais interessante.


Até poucos dias atrás, Augusto Cury aparecia como um candidato periférico na disputa pela Presidência da República. Seus percentuais oscilavam na faixa dos poucos pontos e a eleição continuava sendo apresentada, essencialmente, como uma disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro.

Nesta segunda-feira, 31 de agosto, duas pesquisas obrigaram quem acompanha a eleição de 2026 a olhar novamente para esse cenário.

Na pesquisa BTG Pactual/Nexus, Cury chegou a 11% das intenções de voto, atrás de Lula, com 39%, e Flávio Bolsonaro, com 33%, no cenário estimulado analisado neste artigo. No levantamento anterior da Nexus, realizado apenas uma semana antes, o escritor aparecia com 2%.

Na AtlasIntel/Bloomberg, divulgada no mesmo dia, o movimento foi semelhante, embora de menor intensidade: Cury passou de 1,6% para 7,8%, ficando tecnicamente empatado com Renan Santos, que marcou 7,6%. Lula apareceu com 43,4% e Flávio Bolsonaro com 33,7%. A Atlas ouviu 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto.

Dois institutos diferentes, utilizando metodologias distintas, portanto, detectaram simultaneamente uma forte ascensão do candidato.

Isso torna difícil simplesmente descartar o movimento como uma anomalia estatística. Mas também seria precipitado concluir que Augusto Cury já possui 8%, 10% ou 11% de um eleitorado consolidado.

A razão está nas pesquisas realizadas poucos dias antes.


Uma mudança que parece ter ocorrido em questão de dias

O contraste é impressionante.

Na pesquisa PoderData/Aya, cujo levantamento foi realizado entre 23 e 26 de agosto, Augusto Cury aparecia com 4%.

Na Vox Brasil, que entrevistou eleitores entre 25 e 27 de agosto, tinha 2,6%. Lula registrava 37,1%, Flávio Bolsonaro 34,8%, Ronaldo Caiado 5%, Renan Santos 3,3% e Romeu Zema 2,8%. A pesquisa ouviu 2.100 pessoas e tinha margem de erro de 2,15 pontos percentuais.

Já a Indexa/Broadcast, com campo realizado entre 20 e 23 de agosto, encontrou Cury com 1% no cenário sem Pablo Marçal. No cenário com Marçal — o reproduzido em alguns cards que circularam nas redes — Cury não pontuou. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas, com margem de erro de 2,2 pontos.

Colocando os levantamentos em ordem cronológica, temos uma sequência bastante peculiar:


- Indexa/Broadcast (20 a 23/8): 0% a 1%, conforme o cenário

- PoderData/Aya (23 a 26/8): 4%

- Vox Brasil (25 a 27/8): 2,6%

- AtlasIntel (25 a 30/8): 7,8%

- BTG/Nexus (28 a 30/8): 11%


Não se deve construir uma série histórica misturando institutos diferentes. Cada pesquisa possui metodologia, amostragem e procedimentos próprios. Mas as datas de campo permitem formular uma hipótese que merece atenção.

Se houve efetivamente uma onda Cury, ela parece ter se acelerado nos últimos dias de agosto.


O debate pode ter sido o ponto de inflexão

Há um acontecimento que coincide temporalmente com essa mudança: o debate presidencial da Band, realizado em 23 de agosto.

A participação de Cury ganhou grande repercussão nas redes sociais nos dias seguintes. Em apenas uma semana, sua conta no Instagram saltou de aproximadamente 8,4 milhões para 10,8 milhões de seguidores, crescimento próximo de 2,5 milhões. Cortes de suas intervenções no debate também tiveram forte circulação digital.

Isso ajuda a compreender por que pesquisas realizadas em períodos tão próximos podem estar captando momentos diferentes.

A Indexa encerrou seu campo justamente no dia do debate. Já o PoderData começou a entrevistar naquele dia enquanto a Vox terminou no dia 27. E a Nexus, por sua vez, realizou todo o seu levantamento entre os dias 28 e 30, quando a repercussão digital já estava disseminada.

Não significa que a diferença entre 2,6% e 11% seja explicada exclusivamente pelo tempo. Certamente há também efeitos metodológicos. No entanto, existe uma sequência temporal suficientemente coerente para que a hipótese de crescimento real não possa ser ignorada.


Os 8% espontâneos talvez sejam ainda mais importantes que os 11%

Um dos dados mais interessantes do relatório completo da BTG/Nexus passou quase despercebido nas manchetes.

Na pergunta espontânea — quando o entrevistador não apresenta uma lista de candidatos e simplesmente pergunta em quem o eleitor votaria — Cury aparece com 8%.

Lula registra 37%, Flávio Bolsonaro 30%, Cury 8%, Ronaldo Caiado 2%, Renan Santos 2% e Romeu Zema 1%.

Esse resultado merece atenção porque reduz uma possível explicação para os 11%.

Augusto Cury é um escritor extremamente conhecido. Seria razoável imaginar que parte de seu desempenho na pesquisa estimulada decorresse simplesmente do reconhecimento do nome quando apresentado ao entrevistado.

Todavia, 8% espontâneos significam que uma parcela relevante dos eleitores já consegue lembrar dele como candidato presidencial sem qualquer estímulo. Isso sugere que, pelo menos para parte do eleitorado, sua candidatura começou efetivamente a entrar no debate político.


Quem é o eleitor que está levando Cury para cima?

O crescimento de Augusto Cury, entretanto, não se distribui de maneira uniforme pelo eleitorado.

Na BTG/Nexus, o recorte mais evidente é geracional. O candidato chega a 22% entre os eleitores de 16 a 24 anos e a 16% entre aqueles de 25 a 40 anos. Depois disso, sua votação cai significativamente: são 8% entre 41 e 59 anos e apenas 4% entre os eleitores com 60 anos ou mais. 

A escolaridade produz uma diferença igualmente expressiva. Cury registra somente 3% entre os entrevistados com ensino fundamental, sobe para 14% entre aqueles com ensino médio e alcança 17% entre os que possuem ensino superior. Entre as mulheres, aparece com 13%; entre os homens, com 9%.

Esse perfil mais jovem e escolarizado aparece também na AtlasIntel, embora utilizando metodologia e faixas etárias diferentes. Nesse levantamento, Cury chega a 19,8% entre os entrevistados de 25 a 34 anos e cai para apenas 0,3% entre aqueles com 60 anos ou mais. Entre eleitores que se declaram independentes, marca 19,2%.

Isso não significa, porém, que sua candidatura esteja confinada aos grandes centros ou às faixas superiores de renda.

Na Nexus, Cury registra 8% entre famílias com renda de até um salário mínimo, 11% entre aquelas que recebem de um a dois salários, outros 11% entre dois e cinco salários e 13% acima de cinco salários mínimos.

Regionalmente, aparece com 14% no Nordeste, 10% no Sudeste, 10% no Sul e 9% no Norte/Centro-Oeste. Também há pouca diferença entre capitais, regiões metropolitanas e interior: 10%, 12% e 11%, respectivamente.

Até no recorte religioso a votação se mostra relativamente distribuída: 9% entre católicos, 13% entre evangélicos, 11% entre outras religiões e 12% entre pessoas sem religião.

Os números sugerem, portanto, que Cury ainda possui um eleitorado socialmente assimétrico — especialmente jovem e escolarizado —, mas não parece limitado a uma única região, faixa de renda, religião ou tipo de município.

Esse ponto é importante porque diferencia uma candidatura nacional emergente de um fenômeno restrito a nichos altamente mobilizados nas redes sociais.


De onde estão vindo esses votos?

O relatório da Nexus permite avançar mais um pouco.

Quando o instituto cruza a intenção de voto atual com o voto declarado no segundo turno presidencial de 2022, aparece uma informação especialmente interessante.

Entre os entrevistados que dizem ter votado em Lula em 2022, 77% continuam com Lula, enquanto 7% aparecem agora com Cury.

Entre aqueles que declararam voto em Jair Bolsonaro, 68% estão com Flávio Bolsonaro, mas nada menos que 13% aparecem com Augusto Cury.

É preciso cuidado com a interpretação. Pois isso não significa que todos os pontos perdidos por Flávio Bolsonaro nas últimas semanas tenham migrado diretamente para Cury, mas demonstra que a candidatura do escritor está penetrando nos dois antigos eleitorados — e, até agora, proporcionalmente mais entre os eleitores de Bolsonaro.

Esse dado ajuda a compreender outro movimento observado na Nexus. Enquanto Cury passou de 2% para 11%, Lula recuou dois pontos e Flávio Bolsonaro quatro.

Não é possível estabelecer uma transferência automática entre essas variações. Porém, os cruzamentos mostram que a maior permeabilidade do antigo eleitorado bolsonarista a Cury não é apenas uma hipótese.


Uma ameaça maior a Flávio Bolsonaro?

Outro cruzamento ajuda a compreender melhor a composição desse crescimento — e mostra que chamar Cury simplesmente de candidato da “terceira via” talvez seja uma simplificação.

A Nexus divide o eleitorado em seis grupos, conforme sua relação com o lulismo e o bolsonarismo.

Cury alcança 19% entre os não polarizados e também 19% entre aqueles que se identificam simultaneamente como anti-Lula e anti-Bolsonaro. Entre lulistas convictos, porém, registra apenas 3%; entre bolsonaristas convictos, chega a 8%. 

Seu melhor resultado aparece em outro grupo: entre os eleitores classificados pela Nexus como aqueles para quem Bolsonaro é uma alternativa, Cury chega a nada menos que 26%. Trata-se de um segmento identificado com o antilulismo, mas sem a mesma vinculação ao antibolsonarismo que caracteriza o núcleo mais fiel ao ex-presidente.

Entre aqueles para quem Lula aparece apenas como alternativa, Cury tem 14%. O dado sugere que sua ascensão pode combinar pelo menos dois movimentos diferentes: a procura por uma candidatura fora da polarização e a existência de um eleitor antipetista que não está necessariamente comprometido com Flávio Bolsonaro.

A AtlasIntel, porém, encontra um desenho semelhante por outro critério. Cury chega a 19,2% entre independentes e a 11,6% entre eleitores de direita que não se consideram bolsonaristas, enquanto praticamente desaparece nos núcleos mais identificados com Lula ou Bolsonaro.

Isso aponta para uma possível vulnerabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Cury parece especialmente competitivo entre eleitores que rejeitam Lula ou não se identificam com o lulismo, mas que também não estão dispostos a transferir automaticamente para o filho do ex-presidente a preferência que tinham por Jair Bolsonaro.

Se essa tendência persistir, a ascensão de uma terceira candidatura poderá produzir um efeito aparentemente paradoxal: um candidato que se apresenta contra a polarização pode, num primeiro momento, causar mais dificuldades ao polo bolsonarista do que ao lulista.


Mas o eleitor de Cury não é simplesmente um bolsonarista procurando outro candidato

Há outro dado que impede uma interpretação simplista. A Nexus perguntou aos eleitores dos candidatos do primeiro turno o que fariam numa eventual disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Entre os atuais eleitores de Augusto Cury, aproximadamente 50% escolheriam Lula e 37% Flávio Bolsonaro, enquanto 12% tenderiam a branco ou nulo. Já entre os eleitores de Renan Santos, a situação é muito diferente pois 69% escolheriam Flávio Bolsonaro e 20% Lula. E, entre os eleitores de Zema, Flávio também levaria vantagem.

Isso demonstra que Cury está reunindo um eleitorado peculiar.

Embora encontre proporcionalmente maior penetração entre antigos eleitores de Bolsonaro, seus eleitores não constituem simplesmente uma reserva de votos para Flávio num eventual segundo turno.

Há ali eleitores de origens políticas diferentes unidos, ao menos momentaneamente, pela procura de outra alternativa no primeiro turno.


Existe realmente um eleitorado para uma terceira via?

Talvez esta seja a pergunta mais importante.

Durante boa parte da pré-campanha, diversos candidatos tentaram ocupar o espaço entre Lula e o bolsonarismo. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, cada um com perfil próprio, procuraram apresentar-se como alternativas aos dois polos.

O problema parecia não ser a inexistência desse eleitorado, mas sua fragmentação. Aliás, a própria Nexus fornece uma pista importante.

Quando o instituto pergunta quem o entrevistado preferiria que fosse eleito presidente, oferecendo alternativas políticas mais gerais, 38% escolhem Lula, 33% preferem Flávio Bolsonaro ou outro candidato indicado por Jair Bolsonaro e nada menos que 25% afirmam preferir alguém que não seja apoiado nem por Lula nem por Bolsonaro.

Um quarto do eleitorado, portanto, manifesta preferência por uma alternativa aos dois campos. E esse espaço já existia antes da ascensão de Augusto Cury.

A novidade, porém, pode estar em outra coisa. É que, pela primeira vez nesta campanha, um candidato parece estar conseguindo concentrar rapidamente uma parcela significativa dele. Obviamente que ainda é cedo para saber até onde essa concentração pode chegar.


Cury e Caiado apresentam problemas opostos

A comparação com Ronaldo Caiado talvez seja uma das mais interessantes desta eleição.

Caiado apresenta uma estabilidade impressionante no primeiro turno. Aparece com 5% na Vox, 5% na Indexa, 4% na PoderData e 5% na Nexus. Já na Atlas, tem 3,3%. Ou seja, é um candidato que, até agora, não consegue romper a barreira dos poucos pontos percentuais.

Entretanto, basta passar para as simulações de segundo turno para surgir um outro Caiado.

Na BTG/Nexus, Lula tem 45% contra 44% de Caiado — empate técnico. E, na PoderData/Aya divulgada na semana anterior, Caiado chegou a aparecer numericamente à frente: 44% contra 43% de Lula.

Temos, portanto, dois fenômenos quase inversos.

Cury começa a demonstrar capacidade de chegar ao segundo turno. Caiado demonstra capacidade de disputar o segundo turno, mas ainda não consegue chegar até ele.

Pode-se dizer que o desafio de Caiado é transformar sua elevada capacidade de agregação contra Lula em voto de primeiro turno.

Já o desafio de Cury é outro. Seria demonstrar que o eleitor que hoje experimenta sua candidatura permanecerá com ele quando a campanha entrar numa fase mais competitiva.

Além do mais, ainda falta uma informação fundamental. Nem Atlas nem Nexus testaram nesta rodada um eventual segundo turno entre Lula e Augusto Cury.

Depois dos resultados desta segunda-feira, essa simulação passou a ser uma das perguntas mais interessantes das próximas pesquisas.


Uma rejeição ainda baixa — mas falta medir o conhecimento

Crescer rapidamente em intenção de voto não basta, por si só, para transformar uma candidatura em alternativa competitiva.

Outro indicador relevante é a rejeição. Um candidato pode alcançar dois dígitos e, ao mesmo tempo, estar próximo de seu teto caso uma parcela muito grande do eleitorado declare que não votaria nele em nenhuma circunstância.

Nesse aspecto, a AtlasIntel apresenta um dado inicialmente favorável a Augusto Cury: sua rejeição aparece em 18,5%, a menor entre os principais nomes testados. Flávio Bolsonaro registra 52,7%, Lula 52%, Renan Santos 43,1%, Romeu Zema 33,9% e Ronaldo Caiado 28,5%.

À primeira vista, portanto, Cury não parece enfrentar uma barreira de rejeição semelhante à dos dois líderes.

Mas essa informação precisa ser lida com cautela.

Rejeição baixa pode significar espaço para crescer, mas também pode estar associada a menor conhecimento político do candidato. Uma pessoa sobre quem o eleitor ainda não formou opinião tende naturalmente a ser menos rejeitada do que figuras expostas durante muitos anos ao debate político.

E justamente aqui permanece uma lacuna importante.

Embora o relatório da BTG/Nexus possua uma seção específica sobre “potencial de voto e rejeição”, distinguindo quem considera determinado candidato sua única opção, quem poderia votar nele, quem não votaria de jeito nenhum e quem não o conhece, Augusto Cury não foi incluído nesse quadro. Foram testados Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Pablo Marçal, Renan Santos e Romeu Zema.

Assim, não é possível calcular pela Nexus desta rodada nem a rejeição de Cury nem a parcela que ainda afirma não conhecê-lo.

Pesquisas realizadas anteriormente à sua recente exposição ainda apontavam níveis elevados de desconhecimento eleitoral, mas os institutos divergiam bastante sobre a dimensão desse fenômeno. Depois do debate, da circulação massiva de vídeos e do crescimento de aproximadamente 2,5 milhões de seguidores em uma semana, uma nova aferição dessa variável seria particularmente importante.

Por isso, os 18,5% de rejeição encontrados pela Atlas são uma informação potencialmente relevante sobre o espaço de crescimento de Cury, mas ainda não permitem concluir qual seria seu teto eleitoral.

Falta saber quantos brasileiros já formaram uma opinião efetiva sobre sua candidatura — e quantos simplesmente ainda não a conhecem suficientemente para rejeitá-la ou apoiá-la.


Os 11% ainda são frágeis

O próprio relatório da Nexus contém a principal advertência contra uma interpretação exagerada de sua manchete.

Entre os eleitores de Lula, 85% afirmam que sua decisão de voto já está tomada e não deve mudar. Entre os de Flávio Bolsonaro, são igualmente 85% os que se consideram decididos. E, entre os eleitores de Augusto Cury, porém, somente 59% dizem que a escolha está definida enquanto outros 41% admitem que podem mudar de candidato até outubro.

A combinação entre baixa rejeição, crescimento rápido e elevada volatilidade descreve bem o estágio atual da candidatura: Cury parece ter espaço para conquistar novos eleitores, mas ainda não transformou boa parte da simpatia recente em voto firmemente consolidado.

Parte desses eleitores pode estar conhecendo Cury agora. Outra parcela pode estar manifestando entusiasmo após sua participação no debate. Alguns podem estar utilizando sua candidatura como forma de rejeitar momentaneamente os dois principais nomes.

Nada garante que todos permanecerão. O crescimento pode ser um típico impulso pós-debate, seguido posteriormente por acomodação, mas também pode produzir o fenômeno contrário.

Podemos dizer que pesquisas melhores geram cobertura jornalística enquanto a cobertura amplia o conhecimento do candidato. Por sua vez, maior conhecimento pode gerar novos eleitores e estes produzem pesquisas melhores, criando um círculo de retroalimentação política.

A repercussão nacional dos resultados desta segunda-feira demonstra que Cury já entrou nesse segundo estágio. 

Até poucos dias atrás, a pergunta era quem seria Augusto Cury como candidato. Agora, veículos nacionais e internacionais já discutem sua ascensão eleitoral.


Afinal, Cury tem 3%, 8% ou 11%?

Provavelmente essa é a pergunta errada.

Pesquisas eleitorais não são contagens antecipadas de votos. São fotografias produzidas por métodos diferentes, em momentos diferentes e sujeitas a margens de erro, composição amostral e efeitos próprios de cada metodologia.

Por isso, não seria metodologicamente correto colocar Vox, PoderData, Atlas e Nexus numa mesma linha e afirmar que Cury passou literalmente de 2,6% para 4%, depois 7,8% e finalmente 11%.

Não são rodadas do mesmo instituto.

O que podemos dizer é algo mais limitado — mas ainda politicamente importante.

Institutos que entrevistaram eleitores antes ou durante os primeiros dias posteriores ao debate encontraram Cury entre aproximadamente 1% e 4%. Dois levantamentos que alcançaram os últimos dias de agosto detectaram uma candidatura muito mais forte: 7,8% na Atlas e 11% na Nexus.

Ora, quando observamos cada série histórica separadamente, o movimento continua existindo. Na Atlas, Cury passou de 1,6% para 7,8%. E, na Nexus, ele passou de 2% para 11%.

Portanto, pode haver grande incerteza sobre a dimensão do crescimento de Cury, embora haja bem menos dúvida de que algum crescimento aconteceu.


Uma eleição que pode estar começando a mudar

Lula e Flávio Bolsonaro continuam sendo, com larga distância, os dois principais candidatos à Presidência.

Nada nas pesquisas desta segunda-feira autoriza afirmar que Augusto Cury esteja próximo de ultrapassar qualquer um deles.

Também seria prematuro falar em uma terceira via consolidada.

Entretanto, alguma coisa mudou.

Duas pesquisas diferentes detectaram, simultaneamente, forte crescimento de um candidato que até poucos dias atrás permanecia no grupo dos pequenos. A Nexus encontrou ainda 8% de voto espontâneo e revelou uma candidatura particularmente forte entre jovens e eleitores mais escolarizados, mas territorialmente distribuída entre regiões, capitais, periferias metropolitanas e interior.

Os cruzamentos mostram também que Cury penetra nos dois eleitorados da eleição de 2022 e encontra espaço expressivo entre não polarizados e entre eleitores antipetistas que não estão rigidamente vinculados ao bolsonarismo. Ao mesmo tempo, a Atlas registra rejeição de apenas 18,5%, enquanto a Nexus mostra que 41% de seus atuais eleitores ainda admitem mudar de voto.

É uma combinação eleitoral incomum: crescimento rápido, rejeição ainda baixa e voto pouco consolidado. Pode representar tanto um grande espaço para expansão quanto a fragilidade típica de uma candidatura que acaba de receber enorme exposição.

Ao mesmo tempo, as pesquisas imediatamente anteriores e a elevada volatilidade de seu eleitorado recomendam cautela.

Talvez estejamos assistindo apenas ao pico de um efeito debate.

Talvez os próximos levantamentos devolvam Cury à faixa dos 4% ou 5%.

Ou, talvez, Atlas e Nexus tenham sido as primeiras pesquisas a registrar uma mudança que ainda estava acontecendo enquanto os demais institutos encerravam seus trabalhos de campo.

É justamente essa incerteza que torna os próximos dias tão importantes.

Se novas pesquisas realizadas integralmente depois de 28 de agosto encontrarem Cury novamente próximo de 8%, 9% ou 10%, ficará muito mais difícil tratar o episódio como uma oscilação passageira.

E, se algum instituto passar a testar Lula contra Augusto Cury no segundo turno, teremos uma informação ainda mais importante: saberemos se o escritor está apenas reunindo o voto de protesto e de terceira via no primeiro turno ou se começa a ser percebido como uma alternativa efetivamente competitiva para a Presidência.

Por enquanto, duas conclusões parecem possíveis.

A primeira é que ainda não sabemos se Augusto Cury tem 8%, 11% ou algo significativamente abaixo disso.

A segunda é que já não parece prudente analisar a eleição presidencial de 2026 como se ele continuasse tendo apenas 2%.

A pergunta que as pesquisas desta segunda-feira deixaram para setembro não é mais simplesmente se Augusto Cury cresceu.

É até onde ele pode crescer — e se esse crescimento veio para ficar.


📝 NOTA: 

A margem de erro informa a incerteza estatística de cada levantamento isoladamente, mas não elimina diferenças produzidas por desenho amostral, modo de entrevista, formulação das perguntas, período de campo e composição da lista apresentada aos entrevistados.

Os institutos também não utilizaram necessariamente o mesmo conjunto de candidatos em todos os cenários.

A presença de Pablo Marçal, por exemplo, pode ser relevante para a distribuição do voto de protesto, da direita não bolsonarista e dos eleitores que buscam alternativas aos dois principais polos.

Na Indexa/Broadcast, Cury marcou 1% no cenário sem Marçal e não pontuou quando ele foi incluído. A própria BTG/Nexus, entretanto, permite um controle interessante desse possível efeito: Cury permaneceu com 11% tanto no cenário sem Marçal quanto naquele em que o candidato do PRTB aparece com 3%. AtlasIntel, PoderData/Aya e Vox Brasil também incluíram Marçal nos cenários aqui citados. A Nexus registra 11% para Cury no cenário principal e também 11% quando Marçal é incluído.

Portanto, as diferenças entre as pesquisas não podem ser atribuídas automaticamente à presença ou ausência de um único candidato. A comparação mais segura continua sendo a evolução dentro da mesma série e, quando possível, entre cenários com listas equivalentes.

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