Neste sábado, 22 de agosto, tive a oportunidade de acompanhar, no Estádio Moça Bonita, em Bangu, o primeiro grande encontro da campanha presidencial de Lula no Rio de Janeiro. No palanque estavam: o prefeito da capital, Eduardo Cavaliere; Eduardo Paes, candidato ao Governo do Estado; os deputados federais Benedita da Silva e Pedro Paulo, candidatos ao Senado; a primeira-dama Janja; além de representantes de diferentes partidos e outras lideranças políticas.
Entre bandeiras, militantes de diferentes legendas e milhares de pessoas que chegaram à Zona Oeste carioca desde as primeiras horas da manhã, uma fala de Eduardo Paes me chamou particularmente a atenção.
Ao explicar sua presença no mesmo palanque do presidente Lula, Paes não procurou esconder as diferenças existentes entre eles. Fez justamente o contrário: reconheceu-as.
Em síntese, o ex-prefeito afirmou que o que os une hoje, respeitadas as diferenças, é o desejo de recuperar o Estado do Rio de Janeiro e a compreensão de que o Brasil também precisa de um Rio forte.
Há algo politicamente relevante nessa formulação. Em tempos de polarização, tornou-se comum imaginar que uma aliança somente seria coerente quando formada por pessoas que compartilham praticamente as mesmas posições. Paes apresentou uma lógica diferente: a unidade não decorreria da inexistência de divergências, mas da existência de um propósito comum considerado maior do que elas.
Aquela fala imediatamente me remeteu a uma reflexão que fiz há menos de um mês. No dia 28 de julho, depois de participar da Convenção Estadual do PDT, publiquei neste blog o artigo “Frentes amplas e a democracia: uma lição da Nova República para as eleições de 2026”.
Naquela ocasião, uma das intervenções que mais haviam despertado minha atenção foi a do ex-deputado Miro Teixeira, então apresentado como pré-candidato ao Senado pelo PDT e que, posteriormente, tornou-se primeiro suplente de Pedro Paulo.
Ao defender a união de diferentes forças do campo democrático, Miro recuperou experiências da redemocratização brasileira e chamou atenção para algo que muitas vezes esquecemos: a democracia não exige que aqueles que constroem juntos pensem da mesma maneira sobre tudo.
Foi daquela reflexão que surgiu uma frase que sintetizava o que eu havia compreendido da convenção: Frentes amplas não se constroem sobre unanimidades. Constroem-se sobre prioridades comuns.
Menos de um mês depois, em Moça Bonita, encontrei essa mesma ideia saindo do ambiente das convenções partidárias para ganhar as ruas.
Das convenções para as ruas
Há uma diferença importante entre o que presenciei na convenção do PDT, em julho, e o que vi neste sábado em Bangu.
Na convenção, a frente ampla ainda se apresentava principalmente em sua dimensão institucional e partidária. PSD, PDT, PSB, Federação Brasil da Esperança, Federação PSDB-Cidadania, MDB e outras forças políticas haviam decidido convergir em torno da candidatura de Eduardo Paes ao Governo do Estado.
Era uma composição ampla e, justamente por isso, heterogênea.
No entanto, toda coalizão eleitoral enfrenta, em algum momento, uma questão que não pode ser respondida apenas pela fotografia de seus dirigentes ou pela relação das siglas que a integram: afinal, o que justifica politicamente estarem todos juntos?
Essa pergunta é fundamental porque uma frente ampla não se legitima simplesmente por ser ampla. A quantidade de partidos reunidos não constitui, por si só, uma virtude democrática. Uma coalizão pode ser numerosa e ainda assim representar apenas conveniência eleitoral, distribuição de espaços ou soma de estruturas partidárias.
Para adquirir significado político, a amplitude precisa encontrar um propósito.
Em Moça Bonita, essa resposta começou a ganhar uma formulação pública mais clara.
Não estamos juntos porque passamos a concordar em tudo.
Estamos juntos porque, apesar das diferenças, identificamos determinados objetivos que consideramos maiores do que elas.
Esse princípio apareceu no discurso de Eduardo Paes e voltou a aparecer, depois do evento, em sua manifestação nas redes sociais. Ao lembrar sua relação de muitos anos com Lula, Paes reconheceu expressamente que pertencem a partidos diferentes e que não concordam sobre tudo.
Talvez justamente aí esteja a parte mais importante.
Uma frente ampla somente pode ser verdadeiramente ampla se houver diferenças dentro dela. Caso todos pensassem da mesma maneira, não estaríamos falando propriamente de uma frente ampla, mas da reunião de forças pertencentes a um mesmo campo político.
A questão, portanto, não é eliminar a diferença.
É descobrir o que pode ser construído apesar dela.
Divergir não impede construir
Existe uma tendência preocupante na política contemporânea de tratar qualquer aproximação entre antigos adversários como sinônimo de incoerência.
Naturalmente, alianças políticas devem ser examinadas criticamente. É legítimo — e necessário — perguntar quais objetivos as justificam, quais compromissos as sustentam, quais concessões foram realizadas e até onde diferenças relevantes poderão ser administradas no exercício do governo.
Uma frente ampla não deve significar um cheque em branco.
Entretanto, existe enorme distância entre exercer esse necessário espírito crítico e defender a ideia de que somente pessoas que concordam integralmente entre si possuem legitimidade para construir alguma coisa juntas.
A democracia é, por definição, o regime da pluralidade.
Partidos existem justamente porque a sociedade abriga diferentes concepções sobre economia, direitos, segurança, políticas sociais, desenvolvimento, papel do Estado e tantos outros temas. Eliminar essas diferenças não seria aperfeiçoar a democracia; seria eliminar uma das razões de sua própria existência.
O desafio democrático é outro: estabelecer procedimentos para administrar o dissenso e, quando necessário, encontrar consensos suficientes para agir coletivamente.
Foi isso que o movimento das Diretas Já demonstrou.
E foi também isso que a construção política da Nova República revelou.
Trabalhistas, liberais, socialistas, comunistas, democratas-cristãos e dissidentes das forças que haviam sustentado o regime militar encontraram, em determinado momento histórico, um objetivo que consideraram superior às divergências que continuavam existindo entre eles.
Não deixaram de ser diferentes.
Não apagaram suas trajetórias.
Não passaram a concordar sobre tudo.
Conseguiram, entretanto, caminhar juntos em torno de uma prioridade comum.
A história também ensina, naturalmente, que essas convergências possuem limites, contradições e prazo político. Frentes amplas não suspendem o conflito democrático para sempre. Superada determinada prioridade, diferenças antes colocadas em segundo plano podem voltar ao centro da disputa.
Isso não representa necessariamente o fracasso de uma frente.
Pode representar simplesmente o retorno à normalidade democrática.
Uma relação que começou pela divergência
O próprio presidente Lula trouxe ao encontro de Bangu uma história que ajuda a compreender essa lógica.
Ao recordar sua aproximação com Eduardo Paes em 2008, Lula contou que inicialmente não gostava dele e que provavelmente o sentimento era recíproco. Recordou a resistência inicial àquela aproximação e descreveu como o diálogo modificou sua percepção.
Dezoito anos depois, Lula descreve Paes não apenas como aliado político, mas como amigo, enquanto Paes recorda uma parceria que atravessou diferentes momentos de sua vida pública.
É uma história interessante justamente porque não começa pela afinidade.
Começa pela diferença.
E isso nos permite distinguir duas coisas que a política contemporânea frequentemente confunde: adversário e inimigo.
Adversários disputam projetos, eleições, ideias e poder. Podem discordar profundamente e continuar reconhecendo um no outro a legitimidade necessária para o diálogo democrático.
O inimigo, ao contrário, é aquele cuja própria presença no espaço político passa a ser considerada ilegítima.
Quando toda divergência transforma o outro em inimigo, o espaço para negociação desaparece. E, quando o diálogo passa a ser interpretado como traição, a democracia perde justamente um dos mecanismos que permitem seu funcionamento.
Não é necessário transformar a relação entre Lula e Paes em regra universal sobre alianças políticas. Mas ela demonstra algo elementar: adversários não precisam ser inimigos permanentes.
Pessoas podem divergir, conversar, construir relações institucionais e, em determinadas circunstâncias, descobrir objetivos comuns.
Os objetivos dessa frente ampla
É aqui que a reflexão deixa de ser apenas histórica e chega ao Rio de Janeiro de 2026.
Se em julho escrevi que frentes amplas se constroem sobre prioridades comuns, a fala de Eduardo Paes em Bangu acrescentou uma pergunta inevitável: qual é, afinal, a prioridade comum que justifica a frente formada no Rio de Janeiro?
A resposta apresentada no palanque foi a reconstrução do Estado, tendo em vista as mazelas deixadas por Wilson Witzel e Cláudio Castro.
Paes sustenta que funções fundamentais do poder público foram enfraquecidas e que recuperar o Rio exigirá articulação entre Governo do Estado, Governo Federal, Senado, municípios e diferentes forças políticas.
Pode-se concordar ou discordar desse diagnóstico — e as eleições existem justamente para que diferentes interpretações da realidade e diferentes projetos sejam submetidos ao julgamento popular.
Todavia, existe agora uma justificativa política mais claramente apresentada para a composição formalizada nas convenções.
A frente pretende dizer ao eleitor que não se reuniu simplesmente para somar partidos, tempo, estrutura ou votos. Sua tese é a de que a situação do Rio exige uma coalizão política suficientemente ampla para reconstruir a capacidade de atuação do Estado.
Essa distinção é importante.
Porque “frente ampla” não pode funcionar como argumento autossuficiente. A amplitude é um meio, não um programa de governo.
O verdadeiro teste começa quando a coalizão precisa transformar seu propósito comum em compromissos concretos: segurança pública, educação, saúde, transportes, desenvolvimento econômico, equilíbrio fiscal, combate às desigualdades e recuperação da capacidade institucional do Estado.
É nesse momento que a retórica da união precisa encontrar a realidade da administração.
E é esse argumento — não apenas a fotografia do palanque — que deverá ser submetido ao julgamento do eleitor durante a campanha.
A unidade não elimina a identidade
Existe ainda outro aspecto que considero fundamental.
Construir uma frente ampla não deveria exigir que PDT deixe de ser PDT, que PT deixe de ser PT, que PSD deixe de ser PSD ou que qualquer outra força política abandone sua história.
Ao contrário. A riqueza democrática de uma frente está justamente na possibilidade de diferentes tradições políticas contribuírem para um objetivo compartilhado sem dissolver suas identidades.
Isso também significa preservar o direito à divergência dentro da própria coalizão.
Uma frente democrática que exigisse silêncio absoluto de seus integrantes diante de qualquer diferença correria o risco de contradizer o princípio pluralista que utiliza para justificar sua existência.
Unidade não é uniformidade.
Talvez essa seja uma das distinções mais importantes para compreender não apenas as alianças de 2026, mas a própria democracia.
Da fotografia ao compromisso
O encontro de Moça Bonita produziu uma fotografia política poderosa: Lula, Eduardo Paes, Benedita da Silva, Pedro Paulo, Eduardo Cavaliere e representantes de diferentes forças dividindo o mesmo espaço.
No entanto, fotografias eleitorais são instantâneas. Governar exige muito mais.
Uma frente ampla somente demonstrará sua consistência se conseguir converter a imagem da diversidade em capacidade de diálogo; o diálogo em compromissos; os compromissos em políticas públicas; e as políticas públicas em resultados para a população.
Talvez esse seja o verdadeiro desafio colocado depois de Bangu.
A coalizão já mostrou que consegue reunir diferentes e poderá demonstrar o que pretende construir com essa diferença reunida.
Uma reflexão que continua
Quando deixei a convenção do PDT, no final de julho, escrevi que somente o tempo diria se as frentes amplas formadas em 2026 alcançariam seus objetivos eleitorais.
Continuo pensando exatamente da mesma maneira.
Quem decidirá se essa frente merece governar o Rio de Janeiro será o eleitor.
No entanto, o encontro de Moça Bonita acrescentou um novo capítulo à reflexão que comecei naquela noite na sede do PDT.
Em julho, vi diferentes partidos formalizarem uma convergência.
Em agosto, vi essa convergência começar a explicar publicamente a razão de sua existência.
Há uma diferença importante entre as duas coisas.
Uma aliança se forma quando partidos decidem caminhar juntos. Uma frente política adquire sentido quando consegue explicar à sociedade por que vale a pena caminharem juntos.
Talvez esteja justamente aí uma das questões mais interessantes destas eleições.
Uma frente ampla não precisa pedir que seus integrantes esqueçam suas histórias, abandonem suas convicções ou finjam concordar sobre aquilo em que efetivamente divergem.
Precisa, porém, responder permanentemente a uma pergunta muito mais exigente: o que somos capazes de construir juntos apesar das nossas diferenças?
Miro Teixeira, na convenção do PDT, buscou essa resposta nas lições da Nova República.
Eduardo Paes, em Moça Bonita, procurou respondê-la olhando para o futuro do Rio de Janeiro.
As circunstâncias são diferentes, mas a reflexão permanece atual.
Porque democracia não é apenas o direito de divergir.
É também a capacidade de conviver com a divergência, reconhecer a legitimidade do outro, construir pontes quando elas são necessárias e compreender que, em determinados momentos históricos, aquilo que temos em comum pode ser mais importante do que aquilo que nos separa.
Uma semana abençoada a tod@s!





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