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sexta-feira, 1 de maio de 2026

O 1º de Maio de 2026 e o legado em disputa do trabalho no governo Lula 3



Na noite de 30/04, por ocasião do pronunciamento em cadeia nacional no Dia do Trabalho de 2026, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva não apenas reiterou compromissos históricos com a agenda social. O discurso revelou, com nitidez, um movimento mais profundo: o deslocamento do eixo de atuação do governo do plano institucional para o plano social, em um contexto de simultânea pressão legislativa e erosão eleitoral.

A compreensão adequada dessa fala exige a integração de quatro vetores que, isoladamente, poderiam parecer desconexos, mas que, juntos, formam um quadro coerente: (i) a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal pelo Senado em 29 de abril; (ii) a derrubada de veto presidencial pelo Congresso no dia seguinte quanto ao PL da dosimetria; (iii) o encurtamento da vantagem eleitoral nas pesquisas mais recentes para o adversário Flávio Bolsonaro; e (iv) a reintrodução, no discurso público, da proposta de superação da escala de trabalho 6x1.


1. A semana que antecede o discurso: sinais de fragilidade institucional

O fim de abril de 2026 produziu dois eventos politicamente relevantes e de natureza convergente.

De um lado, o Senado rejeitou a indicação de um jurista para o Supremo Tribunal Federal — fato que, no presidencialismo brasileiro, transcende o resultado específico e projeta dúvidas sobre a capacidade de articulação política do Executivo. De outro, o Congresso Nacional derrubou veto presidencial em matéria sensível, com placar expressivo, evidenciando uma base legislativa fragmentada ou insuficientemente coesa.

Mais do que sinais políticos, esses episódios produzem efeitos concretos: reduzem a capacidade do Executivo de influenciar a composição institucional do Estado e de controlar o conteúdo final das normas jurídicas, impactando diretamente a governabilidade e a previsibilidade da ação estatal.

Não se trata, portanto, de eventos isolados, mas de manifestações de um fenômeno recorrente em ciclos políticos avançados: a perda relativa de controle da agenda legislativa pelo Executivo, com efeitos tangíveis sobre a capacidade de governar.


2. O dado eleitoral: liderança sem margem de conforto

As pesquisas mais recentes, especialmente levantamentos como o da AtlasIntel amplamente repercutido na imprensa, acrescentam um elemento adicional à análise.

Embora o Presidente ainda lidere cenários de primeiro turno, o segundo turno apresenta quadro de empate técnico com o principal adversário. Mais relevante do que os números pontuais é a tendência:


  • redução da vantagem anteriormente observada;
  • crescimento do adversário direto;
  • manutenção de níveis elevados de rejeição;
  • dificuldade estrutural de expansão de base.


Esse cenário cinco meses antes do pleito de outubro configura o que, em análise política, se reconhece como competitividade real, e não apenas formal.


3. O discurso de 1º de Maio: conteúdo social, função política

É nesse contexto que o pronunciamento de Lula ganha sua dimensão mais significativa.

À primeira vista, trata-se de um discurso tradicional, centrado na valorização do salário mínimo, na geração de empregos, nos programas de transferência de renda e na proteção social.

No entanto, a leitura integrada revela outra função: o discurso atua para esvaziar o desgaste institucional, contornar o bloqueio parlamentar e recompor capital político fora do Congresso.

A ausência de confronto direto com o Legislativo, combinada com o foco em pautas de apelo social, não é apenas uma escolha — é uma resposta.

Trata-se de uma estratégia de reação política à perda de tração institucional, que desloca o centro do debate para a arena social, onde o governo possui maior capacidade de mobilização.

Não por acaso, o próprio registro audiovisual do pronunciamento reforça esse movimento. Em determinado momento, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirige-se diretamente à câmera, apontando para o espectador. 

O gesto, longe de ser meramente retórico, sintetiza a estratégia adotada: deslocar o centro da interlocução do Congresso para o cidadão, transformando o trabalhador não apenas em destinatário, mas em potencial agente da agenda política.


4. A escala 6x1: de pauta trabalhista a instrumento político

É nesse ponto que a proposta de superação da escala 6x1 assume centralidade.

Mais do que uma simples reivindicação trabalhista, a pauta opera em três níveis simultâneos:


(i) Simbólico:

A redução da jornada representa melhoria direta na qualidade de vida do trabalhador, com alto potencial de mobilização social.


(ii) Político:

Trata-se de um tema capaz de reengajar a base histórica do lulismo — especialmente trabalhadores urbanos e setores de serviços.


(iii) Estratégico:

A proposta permite ao Executivo reabrir a agenda pública em terreno favorável, deslocando o debate de temas institucionais adversos para pautas sociais de maior adesão.

Não por acaso, a discussão já se encontra em curso no Congresso, com diferentes modelos — do gradual ao mais disruptivo — em disputa. O discurso presidencial, nesse contexto, não inaugura a pauta, mas busca influenciar seu desfecho político e narrativo.


5. O legado em disputa: entre a materialidade e a narrativa

O governo Lula 3 parece, assim, ingressar em uma fase em que o legado passa a ser construído em duas dimensões distintas, porém interdependentes:


(i) Dimensão material:

  • políticas de renda;
  • emprego;
  • programas sociais;
  • eventual reforma da jornada de trabalho.


(ii) Dimensão narrativa:

  • reconstrução da centralidade do trabalho;
  • reafirmação do papel do Estado como indutor de inclusão;
  • reposicionamento político diante de limitações institucionais.


A proposta de superação da escala 6x1 sintetiza essas duas dimensões: é, ao mesmo tempo, política pública potencial e símbolo de um projeto de país.


6. Conclusão: o deslocamento como estratégia — e o papel do trabalhador

A leitura conjunta dos eventos permite uma conclusão que vai além do episódio: o discurso do Dia do Trabalho de 2026 não é apenas comemorativo, mas expressa uma estratégia de deslocamento do eixo de atuação do governo — do plano institucional, onde enfrenta dificuldades concretas de governabilidade, para o plano social, onde o presidente busca recompor legitimidade e capacidade de agenda.

Nesse movimento, o trabalhador retorna ao centro da narrativa governamental — não apenas como destinatário de políticas públicas, mas como ator potencial na definição da própria agenda.

A proposta de superação da escala 6x1 revela que o legado em construção não será definido apenas no interior do Congresso ou no poder de articulação do Executivo, mas também na capacidade de mobilização social em torno de pautas concretas.

Se esse protagonismo se consolidará — transformando discurso em mudança estrutural — dependerá menos da retórica e mais da capacidade de organização e pressão dos próprios trabalhadores.

quarta-feira, 4 de março de 2026

O fim da escala 6×1 é possível? Caminhos para reorganizar o comércio e valorizar o trabalhador



Nos últimos meses ganhou força no debate público brasileiro a proposta de superação da escala de trabalho 6×1, modelo em que o trabalhador tem apenas um dia de descanso semanal. A discussão tem mobilizado sindicatos, parlamentares, economistas e empresários.

De um lado, há quem veja nessa mudança uma medida necessária para melhorar a qualidade de vida do trabalhador brasileiro. De outro, surgem preocupações legítimas sobre o impacto econômico da proposta, especialmente em setores como comércio varejista, bares, restaurantes e serviços.

A pergunta central, portanto, não é apenas se o fim da escala 6×1 é desejável — mas se ele é viável dentro da realidade econômica brasileira.

Dados da PNAD Contínua do IBGE indicam que uma parcela significativa da força de trabalho brasileira atua regularmente aos fins de semana, especialmente em setores como comércio e serviços. Nesses segmentos, entre cerca de 30% e 40% dos trabalhadores exercem atividades aos domingos, dependendo do trimestre analisado.

A resposta, embora mais complexa do que slogans de rede social, é clara: sim, é possível, desde que a mudança seja acompanhada de uma reorganização gradual do funcionamento do comércio e das relações de trabalho.


O dilema do comércio brasileiro

Uma das principais objeções ao fim da escala 6×1 vem justamente do setor de comércio e serviços.

Farmácias, mercados de bairro, lojas de roupas, bares, lanchonetes e restaurantes dependem fortemente do fluxo de clientes ao longo do dia. Diferentemente da indústria, onde a produtividade pode aumentar com tecnologia e reorganização de processos, no comércio o trabalhador precisa estar disponível quando o cliente aparece.

Um vendedor não pode “produzir clientes”.

Esse aspecto ajuda a explicar por que jornadas distribuídas ao longo de vários dias da semana se tornaram comuns no setor. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, o comércio e os serviços concentram parte relevante dos trabalhadores que exercem atividades aos domingos e feriados, o que evidencia a necessidade de cobertura contínua de horários nesses segmentos.

Por isso muitos estabelecimentos permanecem abertos por longos períodos, às vezes das oito da manhã às dez da noite, ou até mais, chegando a 70 ou 80 horas semanais de funcionamento.

Esse modelo acabou levando à consolidação da escala 6×1 como forma de garantir cobertura de horários sem elevar demais os custos de pessoal.

No entanto, reconhecer essa realidade não significa que o modelo atual seja imutável.


Um modelo que cobra um preço alto

A escala 6×1 foi construída ao longo do tempo como solução prática para o funcionamento do comércio, mas também produz efeitos sociais importantes.

Para muitos trabalhadores do varejo, isso significa:


  • apenas um dia de descanso semanal;
  • dificuldade de convívio familiar;
  • desgaste físico e mental;
  • maior rotatividade de emprego.


Embora a jornada média semanal no Brasil gire em torno de 39 horas, segundo dados recentes da PNAD Contínua do IBGE, a forma como essas horas são distribuídas ao longo da semana tem grande impacto sobre a qualidade de vida do trabalhador. Escalas com apenas um dia de descanso podem dificultar a recuperação física e a convivência familiar, especialmente em atividades que também exigem trabalho aos domingos.

Em um país que já convive com jornadas extensas e longos deslocamentos urbanos, essa situação acaba ampliando o desequilíbrio entre vida profissional e vida pessoal. Por isso o debate sobre novas formas de organização do trabalho é legítimo e necessário.


Reestruturar o comércio brasileiro é possível

A superação da escala 6×1 não depende apenas de uma mudança legal. Ela pode ocorrer por meio de uma combinação de ajustes organizacionais e econômicos.

A própria Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já prevê instrumentos que permitem maior flexibilidade na organização da jornada, como compensação de horários e banco de horas (art. 59), além da garantia do descanso semanal remunerado (art. 67). Esses mecanismos podem servir de base para modelos de jornada mais equilibrados.

Estudos de entidades de pesquisa do mundo do trabalho, como o DIEESE, indicam que mudanças na organização da jornada podem ser absorvidas pelas empresas quando acompanhadas de negociação coletiva, reorganização de turnos e melhorias na gestão da produtividade.

Algumas alternativas já discutidas em diversos países — e que poderiam ser adaptadas ao Brasil — incluem:


Escalas de trabalho mais flexíveis:

Em vez da escala rígida 6×1, setores do comércio poderiam adotar modelos como:


  • 5×2 com turnos rotativos
  • jornadas distribuídas em dois turnos diários
  • escalas híbridas negociadas por convenções coletivas.


Restaurantes e bares, por exemplo, poderiam organizar turnos distintos para almoço e jantar, evitando jornadas excessivamente longas.


Ajuste gradual dos horários de funcionamento:

Outro ponto raramente discutido é que o comércio brasileiro permanece aberto por muitas horas, mesmo quando o movimento é reduzido.

Uma reorganização gradual de horários — concentrando o funcionamento nos períodos de maior demanda — poderia reduzir a necessidade de jornadas extensas.

Esse modelo é comum em várias cidades europeias, onde o comércio opera em horários mais compactos.


Uso crescente de tecnologia:

A digitalização do varejo já está em curso e pode contribuir para melhorar a organização do trabalho.

Exemplos incluem:


  • autoatendimento em supermercados
  • pagamentos digitais
  • pedidos eletrônicos em restaurantes
  • gestão automatizada de estoques.


Essas ferramentas não eliminam necessariamente empregos, mas podem reduzir cargas de trabalho repetitivas e melhorar a eficiência operacional.


Negociação setorial:

Outro caminho importante é fortalecer a negociação coletiva entre sindicatos e empresas.

A própria legislação trabalhista brasileira reconhece a importância desse instrumento. O artigo 611-A da CLT estabelece que acordos e convenções coletivas podem prevalecer sobre a legislação em diversos aspectos relacionados à organização do trabalho, o que abre espaço para soluções adaptadas às características de cada setor econômico. 

Esse mecanismo tem sido amplamente utilizado em diversos setores da economia brasileira para ajustar jornadas, turnos e formas de compensação de horas.

Nem todos os setores da economia funcionam da mesma forma. O comércio de bairro, um grande supermercado e um restaurante de shopping possuem realidades muito diferentes.

Por isso, a definição de jornadas pode ser mais eficaz quando ocorre por setor econômico, permitindo soluções adaptadas a cada atividade.


O papel da sociedade

Também é importante reconhecer que mudanças no mundo do trabalho frequentemente exigem ajustes culturais e urbanos.

Cidades com longos deslocamentos, consumo fragmentado e horários comerciais muito extensos acabam demandando jornadas mais longas no comércio.

Se a sociedade deseja melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, isso envolve também refletir sobre:


  • organização das cidades
  • mobilidade urbana
  • hábitos de consumo.


Um debate que precisa sair da polarização

O tema também vem ganhando espaço no debate legislativo. Propostas de emenda constitucional e projetos de lei em discussão no Congresso Nacional buscam reavaliar a organização da jornada de trabalho no país, incluindo iniciativas que tratam da redução da jornada semanal e da reorganização das escalas de trabalho. Independentemente do formato que essas iniciativas venham a assumir, elas indicam que a questão da qualidade de vida no trabalho passou a ocupar lugar relevante na agenda pública brasileira.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 não deve ser tratada como um confronto simplista entre trabalhadores e empresários.

O desafio real é encontrar um ponto de equilíbrio entre eficiência econômica e dignidade no trabalho.

Experiências internacionais mostram que mudanças na organização da jornada são possíveis quando ocorrem de forma gradual, negociada e adaptada às características de cada setor.

O Brasil, como tantas vezes ao longo de sua história, terá que encontrar um caminho próprio.

De qualquer modo, o debate em si já representa um avanço importante, pois coloca no centro da agenda pública uma pergunta essencial para o século XXI: como produzir riqueza sem sacrificar a qualidade de vida de quem trabalha?

Em um ano eleitoral como 2026, é provável que esse tema ganhe espaço no debate público nacional — e ele precisa ser enfrentado com seriedade, responsabilidade e profundidade.


📝 Nota sobre dados e fontes

Os dados mencionados neste artigo baseiam-se principalmente em estatísticas da PNAD Contínua do IBGE, que indicam participação significativa de trabalhadores atuando aos fins de semana em setores como comércio e serviços. A jornada média semanal no Brasil gira em torno de 39 horas segundo os levantamentos mais recentes da pesquisa. Estudos sobre organização da jornada e relações de trabalho também são frequentemente analisados pelo DIEESE.

No plano jurídico, a CLT prevê instrumentos de flexibilização da jornada, como banco de horas e compensação de horários (arts. 59, 67 e 611-A).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Como a Revolução de Trabalho da Ford em 1914 Inspira o Debate Atual sobre a Jornada de Trabalho no Brasil



No dia 5 de janeiro de 1914, a Ford Motor Company protagonizou uma das mudanças mais marcantes na história das relações de trabalho industrial: o anúncio de uma jornada diária de 8 horas de trabalho e salário mínimo de US$ 5 por dia para seus operários — mais que o dobro do salário médio da época.

Esse passo foi visto não apenas como um gesto generoso, mas como uma decisão estratégica de negócio que redesenharia o conceito de produção em massa. A empresa enfrentava uma rotatividade de pessoal extremamente alta: até 380% ao ano, segundo cálculos da época — ou seja, era necessário contratar mais de 50 000 trabalhadores por ano apenas para manter a força de trabalho em níveis estáveis.

Ao aumentar o salário e reduzir a jornada de nove para oito horas, Ford conseguiu estabilizar sua força de trabalho, reduzir custos com turnover e treinar melhor seus funcionários, ao mesmo tempo que aumentava a produtividade e seus lucros. Ao dobrar seus lucros em apenas dois anos após a mudança, a prática virou referência e muitos concorrentes acabaram adotando práticas semelhantes.


As Lutas dos Trabalhadores Antes de 1914

O movimento por uma jornada de trabalho mais humana é bem anterior a Ford. Desde o século XIX, trabalhadores em países industrializados lutavam por limites à exploração — jornadas que chegavam a 12–14 horas diárias, sem descanso adequado.

As mobilizações incluíram greves massivas, como a greve por 8 horas nos EUA em 1872, e movimentos organizados que culminaram em jornadas legalmente mais curtas no início do século XX. Esses conflitos colocaram a pressão social e sindical sobre empregadores e governos, pavimentando o caminho para mudanças que só seriam legalizadas décadas depois.

Assim, embora a iniciativa de Ford tenha sido uma decisão empresarial, ela nasceu em um contexto de intensa pressão social e luta coletiva por melhores condições — e também contribuiu para que essas reivindicações ganhassem mais força e legitimidade social.


O Debate Atual no Brasil: Escala 6×1, Jornada de 36 h e Novas Propostas

Hoje, mais de um século depois, o Brasil vive um momento semelhante de contestação da lógica de trabalho tradicional. A pauta que mobiliza trabalhadores, sindicatos e parte do Parlamento é a redução das jornadas exaustivas e o fim da chamada escala 6×1 — aquela em que o trabalhador labora seis dias seguidos para apenas um de descanso.


📌 O que está sendo debatido no Congresso

Uma das propostas mais avançadas no Congresso Nacional é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT‑RS), que visa reduzir gradualmente a jornada semanal de 44 horas para 36 horas sem redução salarial, extinguindo a escala 6×1.

A PEC já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, com o compromisso de transição em quatro etapas — começando com 40 horas semanais e reduzindo para 36 ao longo de quatro anos. O próximo passo é a votação no Plenário do Senado.

Outras propostas na Câmara dos Deputados, como projetos de lei que propõem 40 horas semanais e fim da escala 6×1, também avançam nas comissões, recebendo debates públicos que envolvem representantes de patrões, trabalhadores e o próprio governo.

Esse movimento se insere no longo processo de lutas por direitos trabalhistas — um eco contemporâneo das demandas por condições de trabalho dignas que marcaram as décadas anteriores a 1914, e que agora voltam ao centro da discussão no Brasil.


Experiências Internacionais: A Semana de Trabalho de 4 Dias e a Escala 4×3

Enquanto o Brasil debate sua proposta legislativa, muitos países e empresas ao redor do mundo já estão experimentando modelos alternativos de organização do tempo de trabalho que buscam maior equilíbrio entre vida e emprego — sem perdas salariais ou queda de produtividade.


🌍 Experimentos e adoções da semana de trabalho de 4 dias


🔹 Reino Unido: um dos maiores testes realizados contou com mais de 60 empresas, envolvendo quase 3 000 trabalhadores, no qual se concluiu que jornadas reduzidas podem melhorar bem‑estar, reduzir absenteísmo e manter ou até aumentar a produtividade.


🔹 Bélgica: o país aprovou legislação que permite aos trabalhadores condensar sua semana de trabalho em quatro dias sem redução salarial.


🔹 Islândia e países europeus: extensos testes com redução de horas de trabalho mostraram que essa mudança melhora o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e aumenta a satisfação no emprego, sem prejuízo para a produção.


Embora nenhum país tenha adotado universalmente a escala 4×3 (quatro dias de trabalho com três dias de descanso) como regra nacional, esses experimentos mostram que modelos alternativos são possíveis e benéficos tanto para trabalhadores quanto para empregadores — algo que a discussão brasileira pode aproveitar como inspiração.


Por Que Essa História Importa Hoje?




O exemplo de Ford de 1914 nos lembra que mudanças aparentemente radicais podem gerar benefícios simultâneos para trabalhadores e empresas:

✔️ Trabalhadores ganham melhores condições de vida e menor fadiga.

✔️ Empresas conseguem mais produtividade e menor rotatividade de pessoal.

✔️ A sociedade — no longo prazo — ganha um mercado consumidor mais forte e maior satisfação social.


No Brasil, a luta atual pelas 36 h semanais ou pela adoção de esquemas como o 4×3 é uma continuação dessa tradição de questionar modelos antigos e construir um trabalho mais humano, produtivo e sustentável — devidamente apoiada em experiências internacionais e em projetos legislativos que avançam no Congresso com lideranças como Paulo Paim e outros protagonistas da pauta.


Conclusão



A história nos ensina que direitos trabalhistas conquistados como a jornada de 8 horas nasceram de lutas longas e muitas vezes dolorosas — e que, quando empresas ousaram ir além das normas vigentes, isso gerou ganhos concretos para todos os lados. Hoje, no Brasil e no mundo, há um novo capítulo dessa história se escrevendo: o da reconfiguração do tempo de trabalho para fazer sentido no século XXI.

Que possamos, portanto, olhar para o passado com aprendizado e para o futuro com imaginação — construindo modelos que valorizem tanto a dignidade humana quanto a eficiência produtiva.


OBS: imagens históricas da produção do Model T em 1914, extraídas de Model T Ford Fix, extraídas de https://modeltfordfix.com/the-1914-model-t-ford/

sábado, 13 de dezembro de 2025

A redução da jornada de trabalho e o legado de um senador comprometido com a dignidade humana

 


A aprovação da PEC 148/2015 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado representa um marco relevante no debate sobre o futuro do trabalho no Brasil. Trata-se de uma iniciativa que não surge do acaso, mas do acúmulo histórico de lutas sociais, de amadurecimento institucional e, sobretudo, do compromisso de parlamentares que jamais se afastaram da defesa da dignidade da classe trabalhadora.

Nesse cenário, é digno de reconhecimento o papel do deputado que, de forma coerente e firme, tem se posicionado publicamente em defesa da redução da jornada de trabalho, do enfrentamento à exaustiva escala 6x1 e da valorização do tempo de vida do trabalhador. Em um ambiente político frequentemente marcado pelo oportunismo e pela indiferença social, sua atuação reafirma que ainda existem representantes comprometidos com um projeto de país mais humano, justo e socialmente responsável.

A PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), propõe a redução gradual da jornada semanal de trabalho de 44 para 36 horas, sem redução salarial. O texto estabelece uma transição responsável e progressiva: inicialmente, a jornada é reduzida para 40 horas semanais e, nos anos seguintes, diminui-se uma hora por ano até alcançar o patamar de 36 horas. Trata-se de uma mudança estrutural, alinhada às transformações do mundo do trabalho, aos avanços tecnológicos e à necessidade de conciliar produtividade com saúde, convívio familiar e participação cidadã.

Mais do que um debate meramente econômico, essa proposta expressa uma verdadeira agenda de humanização do trabalho. Reduzir a jornada não significa produzir menos, mas produzir com mais qualidade, menos adoecimento físico e mental e maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. É reconhecer que o desenvolvimento não pode ser medido apenas por índices financeiros, mas também pelo bem-estar das pessoas.

A relevância dessa PEC também se explica pelo legado do senador Paulo Paim, que se despede da vida pública como uma das mais consistentes referências na defesa dos direitos humanos e sociais no Parlamento brasileiro. Sua trajetória é marcada pela coerência, pela escuta dos movimentos sociais e pela construção de normas jurídicas que transformaram realidades.

Entre as principais leis de sua autoria ou protagonismo legislativo destacam-se o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência – LBI (Lei nº 13.146/2015), a Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência no mercado de trabalho (Lei nº 8.213/1991), além de relevantes iniciativas no combate à discriminação, na proteção previdenciária e na valorização do trabalho. São marcos legais que expressam um mesmo eixo: colocar a dignidade humana no centro da ordem jurídica.

Ao encerrar sua trajetória parlamentar, o senador Paulo Paim deixa mais do que projetos aprovados. Deixa um legado ético, social e jurídico que continuará orientando o debate público e inspirando novas gerações de parlamentares. A PEC 148/2015 é a síntese desse percurso: uma proposta que reconhece o trabalhador não apenas como força produtiva, mas como ser humano pleno de direitos.

Valorizar essa iniciativa, reconhecer o legado do senador e apoiar parlamentares que seguem essa mesma trilha — como o deputado que hoje defende essa bandeira — é reafirmar que o Brasil precisa avançar não apenas em indicadores econômicos, mas em humanidade, justiça social e dignidade no trabalho.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Trabalhar até mais velho exige trabalhar melhor — Por que reduzir a escala (4×3) é uma urgência social e econômica



A proposta de pôr fim à escala 6×1 e avançar para modelos como a jornada 4×3 (36 horas semanais distribuídas em quatro dias de trabalho e três de folga) deixou de ser considerado um "devaneio ideológico" para entrar no centro de três debates públicos intimamente conectados: (1) saúde e qualidade de vida do trabalhador; (2) sustentabilidade do mercado de trabalho diante do aumento da idade de aposentadoria; e (3) risco fiscal e operacional para empresas e entes públicos. Neste artigo de opinião eu defendo que reduzir a escala é uma condição necessária para compatibilizar a exigência — cada vez mais provável — de trabalhar por mais anos com a preservação da saúde, da produtividade e da justiça social. Ao mesmo tempo, descrevo sobre ter regras de transição e salvaguardas para empresas e prefeituras, e fundo o argumento com evidências e posições políticas já públicas.


1. Por que a redução da escala é parte da solução quando a aposentadoria aumenta

Se o pacto social passar a exigir que, nas décadas futuras, o cidadão trabalhe até os 70–72 anos, não é razoável manter inalterado o desenho da jornada de meia-idade: a forma e a intensidade do trabalho ao longo da vida passam a ser determinantes da capacidade de o trabalhador chegar à aposentadoria em condições de saúde e empregabilidade. Trabalhar “6 dias por 1 de folga” por décadas produz desgaste físico e mental acumulado — mais faltas, mais afastamentos por doença e maior rotatividade — custos que recaem sobre o próprio empregador, o sistema de saúde e a Previdência. Reduzir a jornada e aumentar o descanso semanal diminui esse desgaste e torna crível a ideia de prolongar a vida ativa sem sacrificar a dignidade nem gerar custo social maior no futuro.


2. Evidências internacionais: a redução da jornada funciona (bem-estar e produtividade)

Os experimentos e pilotos globais não apenas atestam a viabilidade da semana reduzida: mostram ganhos concretos em saúde, retenção de trabalhadores e, em muitos casos, produtividade estável ou até maior.


  • No Reino Unido, o programa-piloto coordenado por organizações como 4 Day Week Global e pesquisadores acadêmicos reuniu dezenas de empresas e quase 3.000 trabalhadores; os resultados apontaram melhora significativa em indicadores de saúde mental, redução de burnout e queda do absentismo, com alta parcela das empresas decidindo manter o modelo.
  • Na Islândia, estudos envolvendo cerca de 2.500 trabalhadores demonstraram que a redução do tempo de trabalho trouxe ganhos de bem-estar e manutenção ou aumento da produtividade nos locais avaliados.
  • Experimentos empresariais como o da Microsoft no Japão mostraram aumentos relevantes de produtividade e forte melhora no equilíbrio vida-trabalho quando o modelo foi bem desenhado.


Esses achados — repetidos em países e setores diversos — reforçam que a redução não é, necessariamente, sinônimo de perda de produção: é um convite à reorganização inteligente do tempo e dos processos.


3. Benefícios concretos para a saúde física e mental e para as famílias

A literatura e os relatórios dos pilotos trazem efeitos consistentes:


  • queda do estresse e do burnout;
  • redução do absentismo e de licenças médicas;
  • melhora no sono e na capacidade de recuperação;
  • mais tempo para cuidados familiares (importante para trabalhadores que cuidam de filhos ou de idosos);
  • impacto positivo sobre saúde cardiovascular, distúrbios do sono e depressão — fatores que, a longo prazo, reduzem custos médicos e afastamentos.


Organismos técnicos que estudam saúde do trabalho no Brasil e no mundo indicam que a reorganização do tempo de trabalho deve caminhar junto com a proteção contra intensificação do trabalho (isto é: redução de horas sem ampliar a pressão por produtividade por minuto). No Brasil, Fundacentro e outras entidades defendem que a redução da jornada precisa ser implementada sem “intensificação” e com garantias de criação de empregos e manutenção salarial.


4. Políticos, sindicatos e empresários: posições em confronto e os pontos de convergência possíveis

O debate no Brasil reúne diferentes atores:


  • Setor político e proposições constitucionais: há proposições em tramitação que propõem a redução formal da jornada — por exemplo, propostas como a PEC 8/2025 (redução da jornada para quatro dias por semana) e a PEC 148/2015 (redução gradual para 36 horas). Parlamentares e alguns ministros manifestaram apoio ao debate.
  • Centrais sindicais e movimentos trabalhistas: parte da representação dos trabalhadores defende o fim da escala 6×1 e a adoção de jornadas com mais folga, em geral exigindo manutenção salarial e negociação coletiva ampla; por outro lado, há centrais mais cautelosas que temem demissões em atividades que dependem de turnos.
  • Entidades patronais (CNI, CNC, federações regionais): criticam a imposição legal de redução abrupta, alertando para impactos na competitividade, aumento de custos e riscos para pequenas empresas; pedem negociação setorial e transição.


Há, portanto, resistência do empresariado e receios sindicais em setores específicos, mas também uma maioria social favorável (pesquisas mostram apoio popular à agenda). A política pública sensata deve, por isso, conciliar: direito ao descanso e proteção da saúde + mecanismos de transição e compensação para setores e municípios mais vulneráveis.


5. Como proteger empresas e entes públicos (regras de transição e salvaguardas viáveis)

Uma redução de escala generalizada pode ser justa — desde que bem desenhada. Proponho um conjunto de medidas e mecanismos práticos compatíveis com o que já foi debatido em audiências e no Congresso:


A. Redução gradual com metas e prazos

Em vez de impor um corte imediato, definir fases (ex.: 44→40→38→36 horas em 3–5 anos) para que empresas, cadeias de produção e entes públicos adaptem organização, contratações e tecnologia. Esse modelo já consta em propostas de redução gradual.


B. Pilotos setoriais e incentivos para “empresas-pioneiras”

Financiar e apoiar programas nacionais de pilotagem (como já feito no exterior) que incluam apoio técnico, avaliação e compartilhamento de boas práticas. Empresas que comprovarem ganhos poderiam receber benefícios (capacitação, linhas de crédito específicas, prêmios de produtividade).


C. Regras específicas para micro e pequenas empresas

Criar período de transição mais longo e instrumentos fiscais e creditícios (linhas de crédito, diferimento de encargos) para as micro e pequenas empresas que precisarem ajustar a operação.


D. No setor público e municípios: mecanismos compatíveis com a LRF

A preocupação municipal é legítima: a LRF limita gastos com pessoal (percentuais sobre a RCL) e muitos municípios já trabalham próximos aos tetos. As alternativas práticas incluem:


  1. Transição gradual para servidores e adoção de regimes diferenciados por tipo de serviço (priorizando, por exemplo, áreas administrativas para início);
  2. Redução de horas extras e reprogramação de turnos para neutralizar impacto financeiro;
  3. Pilotos e estudos de impacto fiscal antes de qualquer mudança ampla;
  4. Negociação coletiva com cláusulas de proteção e contrapartidas;
  5. Articulação federativa (CNM/União/Estado): pleitear mecanismo legislativo temporário ou fundos de transição caso a redução seja nacional e obrigatória, evitando que municípios ultrapassem tetos da LRF sem meios de compensação. Essas medidas são as defendidas por associações municipalistas e por técnicos de finanças públicas.


E. Salvaguardas fiscais e cláusulas-gatilho

Se adotada uma transição que envolva aumento temporário de gasto (por exemplo, para viabilizar contratações), a lei pode prever cláusulas-gatilho: se a arrecadação cair X% o retorno automático ao limite anterior ocorre, ou medidas de ajuste imediato são ativadas. Transparência e auditoria por Tribunais de Contas diminuem risco de má gestão e melhoram a percepção externa.


6. E os mercados? Risco de “sinal negativo” — como minimizar

Alterações que elevem gastos com pessoal — sobretudo em entes que tomam empréstimos — são observadas por agências e credores. Por isso é fundamental combinar mudança trabalhista com:


  • Plano de transição fiscal claro, com indicadores, metas de retorno e prazos;
  • Mecanismos temporários de compensação (fundos, transferências condicionadas), se a mudança for nacional;
  • Medidas de produtividade e redução de custos (menos horas extras, digitalização) para reduzir a necessidade de aumento estrutural do quadro.


Se bem desenhado e transparente, o mercado tende a precificar o risco de forma menos adversa do que diante de um aumento permanente e imprevisível de gasto — a diferença está no plano e na previsibilidade.


7. Relação entre redução da escala e a reforma da Previdência (por que um complementa o outro)

A reforma das regras de aposentadoria que aumenta idades-limite poderá viabilizar uma contrapartida social futuramente: aumentar o número de anos trabalhados sem acomodar as condições de trabalho é injusto e contraproducente. A redução do desgaste acumulado por meio de jornadas menos intensas pode:


  • Diminuir a prevalência de afastamentos por doença e, portanto, reduzir pressões sobre benefícios por incapacidade;
  • Manter o trabalhador mais empregável por mais tempo, reduzindo custo fiscal com benefícios e com políticas de reinserção;
  • Distribuir o trabalho (se houver criação de vagas para compensar redução de jornada), diminuindo desemprego estrutural.


Ou seja, a mudança da jornada tem papel instrumental para uma previdência sustentável socialmente aceitável: quem tem de trabalhar até os 70–72 anos precisa condições de saúde e jornada compatível.


8. Exemplo de modelo de implementação (resumo prático — executivo, legislativo, social)


  1. Legislar uma meta nacional (ex.: objetivo de 36 h/semana) com opção de transição e cláusulas setoriais;
  2. Fase 1 — Anos 1–2: pilotos nacionais, apoio técnico, linha de crédito para micro/pequenas;
  3. Fase 2 — Anos 3–5: redução gradual obrigatória em setores prioritários; exceções temporárias e ajustadas por convenção coletiva;
  4. Fase 3 — Auditoria e revisão: indicadores de saúde, produtividade, impacto fiscal; medidas de correção se metas não forem atendidas;
  5. Proteção ao setor público: estudos pré-implementação municipal, compensações federais provisórias, medidas de corte de horas extras e reorganização de turnos antes de aumentar quadro permanente.


9. Conclusão: a redução da escala é uma política de futuro — e de justiça

A discussão sobre fim da escala 6×1 e adoção de jornadas como 4×3 não é apenas “bom para o trabalhador”: é prudente do ponto de vista econômico quando encaixada em plano de transição, e é política pública coerente se o objetivo é ter cidadãos que trabalhem mais anos sem perder saúde, dignidade e produtividade. Negar a necessidade de adaptar a jornada ao aumento da idade de aposentadoria é ignorar que o trabalho é também tempo de vida.

Sim — haverá resistência e custos de transição. Sim — será preciso negociar com sindicatos, empresas, prefeitos e tribunais de contas. Mas a alternativa — exigir trabalho até idades mais avançadas sem transformar a estrutura do tempo de trabalho — é uma receita para sofrimento, afastamentos, maior gasto médico e uma Previdência menos sustentável.

O caminho razoável é reformar o tempo de trabalho e a Previdência em conjunto: reduzir a intensidade das jornadas, estabelecer regras de transição sensíveis ao porte e ao setor, proteger finanças municipais com mecanismos de compensação temporária e avaliar resultados com auditoria pública. Essa é a forma responsável de construir uma sociedade em que mais anos de vida ativa não signifiquem menos qualidade de vida.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Que termine logo a jornada 6x1!



O primeiro dia do mês de maio é geralmente marcado pela luta dos trabalhadores na defesa dos seus direitos e interesses, tendo sido o século XX marcado pelos grandes avanços históricos que promoveram importantes conquistas. 


No entanto, eis que os movimentos trabalhistas no Brasil estão precisando acordar novamente sendo de grande importância todos se unirem para aprovar a proposta de emenda constitucional em trâmite no Congresso que pretende por fim à escala 6x1, regime no qual o empregado folga apenas um dia após seis dias consecutivos de serviço.  


Para quem não sabe, a PEC em comento altera o inciso XII do artigo 7º da Constituição Federal, que passaria a vigorar com a seguinte redação: "duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e trinta e seis horas semanais, com jornada de trabalho de quatro dias por semana, facultada a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho". 


Jamais podemos nos esquecer que temos hoje novamente um governo dos trabalhadores. Inclusive, o nosso presidente Lula já se manifestou na data de ontem (30/04), durante o seu pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, defendendo profundar o debate sobre a redução da jornada de trabalho vigente no país: "Está na hora de o Brasil dar esse passo ouvindo todos os setores da sociedade para permitir um equilíbrio entre a vida profissional e o bem-estar de trabalhadores e trabalhadoras". 


Embora pareça ser difícil, pois, para uma PEC ser aprovada na Câmara dos Deputados, é preciso os votos de, no mínimo, 308 dos 513 deputados e deputadas, em dois turnos de votação, acredito na força da luta popular. Por isso, trabalhadores, sindicatos e a militância em geral não podem deixar de se mobilizar indo às ruas, movimentando as redes sociais, e pressionando os parlamentares em Brasília para que a proposta não fique engavetada no Congresso Nacional.


Rumo à vitória!

domingo, 18 de setembro de 2011

Resistindo à nova escravidão do trabalhador neste admirável mundo novo

O sociólogo italiano Domenico de Masi, autor da conhecida obra “O ócio criativo” (2000), defendeu em sua monografia que, com o avanço da tecnologia, o homem poderia dispor de mais tempo para atividades como o lazer, a convivência familiar, os cuidados com a saúde e investir na própria formação profissional. Ao invés de laborar as oito horas diárias, o trabalhador futuro realizaria a mesma produção em três ou quatro horas.

O futuro chegou e, de fato, a tecnologia gerou o esperado aumento de produtividade. Porém, as pessoas não têm trabalhado menos. Elas estão é se ocupando por mais horas em suas tarefas profissionais, sentindo-se mais estressadas do que no final do século XX.

Segundo o interessante artigo “A EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES DE TRABALHO”, escrito pela desembargadora do TRT de Campinas Tereza Aparecida Asta Gemignani e o bacharelando em Direito Daniel Gemignani, a situação atual do trabalhador neste “admirável mundo novo” pode ser explicada pelo fim da “distinção entre os tempos de trabalho e os tempos da vida privada, os tempos de atividade e os tempos de descanso”:


“O empregado passou a ser parte do sistema, passível de ser 'acessado' a qualquer hora, independentemente do período estipulado no contrato de trabalho. Além disso, diferentemente do apregoado por Domenico de Masi, volta a ser considerado apenas peça de uma engrenagem, e de maneira muito mais perversa e abrangente. Com efeito, enquanto nos primórdios do século passado essa engrenagem estava fixada num determinado espaço físico, e o trabalhador dela se libertava quando encerrava o expediente e as portas se fechavam, hoje ela tem existência virtual e, como tal, não para nunca, não fecha as portas, embora mantenha o velho esquema de limitar sua atuação a espaços compartimentalizados, sem ter a noção do conjunto, para que não haja a menor possibilidade de ocorrer perda de controle. Charlie Chaplin certamente ficaria surpreso ao descobrir que, apesar dos grandes avanços tecnológicos, os apertadores de parafuso e a velha bancada estão de volta, com a agravante de que agora não são os movimentos, mas a própria linha de produção que passa a acompanhá-lo para todo lugar, virtualmente, ampliando os espaços de sujeição” (extraído de http://www.trt3.jus.br/escola/download/revista/rev_80/tereza_aparecida_gemignani_e_daniel_gemignani.pdf)


Tal crítica é considerável e pode ser dirigida ao nosso modelo de economia desigual e que tem como seu princípio maior a busca da rentabilidade das empresas mesmo que em detrimento dos anseios básicos dos trabalhadores. Só que o capitalismo em si não pode ser considerado como a única causa do problema dessa fata de tempo visto que nós, como seres conscientes, permitimos a realização das nossas frequentes tarefas de forma automática sem prestarmos a atenção nos atos praticados. Nem mesmo às coisas que mais desejamos.

Em seu livro “Faster: the acceleration of just about everything” (Rapidez: a aceleração de quase tudo), o jornalista norte-americano James Gleick diz que os habitantes das cidades estão sofrendo daquilo que chamou de “doença da pressa”. Como resultado da tentativa de fazer uma quantidade maior coisas em menos tempo, nossas vidas estariam se tornando cada vez mais estressantes, o que poderá reduzir a longevidade da geração atual de trabalhadores em relação aos seus pais e avós nascidos entre as décadas de 20 e 40.

Como exemplo dessa vida apressada, podemos mencionar uma menor dedicação do tempo à leitura por parte das pessoas, as quais andam menos dispostas a ouvir seu semelhante durante um diálogo. Até na apreciação das artes, ou de obras num museu, um visitante já não se interessa tanto por contemplar um quadro como antigamente. Gasta-se nos dias de hoje menos segundos diante de uma pintura do que há uma década atrás.

São os novos tempos acelerados e não adianta apenas lamentarmos simplesmente pondo a culpa no sistema capitalista sem assumirmos uma postura pró-ativa diante da vida. Precisamos deixar de ser efeito dos acontecimentos externos para nos tornarmos a causa assumindo a direção das tendências mundiais. Deste modo, uma das ações a ser praticada por cada um é tomar a consciência daquilo que é feito automaticamente, o que tem a ver com o conhecimento de si próprio.

Pergunte cada um a si mesmo: Qual foi o prato que almocei hoje? Consigo recordar sobre como era o caminho que fiz indo de cada para o trabalho? O que dizia aquele artigo lido uns dias atrás na revista?

As indagações acima são exemplos de exercícios que nos ajudariam a tomar consciência dos atos realizados no cotidiano, despertando a nossa atenção em relação à vida. E, se pararmos para apreciar um pouquinho mais do dia, olhando para o ambiente natural, observando as pessoas na rua, ou degustando saborosamente os alimentos, certamente acrescentaremos mais qualidade de vida à nossa existência.

De acordo com as tradições hebraicas, os judeus devem reservar o sétimo dia da semana para o descanso absoluto. Trata-se do Shabat e que corresponde ao cumprimento do quarto mandamento do Decálogo. No sábado, devem repousar tanto o corpo quanto a alma, cultivando-se o regozijo e a elevação do espírito humano, devendo os homens imitarem o descanso do Criador do Universo abstendo-se de todo trabalho criativo tão logo o sol se põe na tarde de sexta-feira.

Por outro lado, o descanso semanal do ponto de vista hebraico é entendido como uma oportunidade para que a alma humana possa tomar alento, renovando suas forças, sendo também um instrumento de libertação do jugo imposto por qualquer sistema econômico:


“(...) o Shabat não é um simples dia de descanso, mas sim uma interrupção da banalidade, da futilidade cotidiana; o Shabat libera o judeu da mesquinhez pessoal, elevando-o às alturas sublimes desta vida. Os Mestres ensinam que o dia de descanso sabático foi estabelecido por Moisés ainda durante os anos da escravidão judaica no Egito, argumentando que, quando Moisés notou que os filhos de Israel não quiseram ouvi-lo “por causa da angústia do espírito e pela dura servidão”, compreendeu que essa letargia devia ser atribuída também ao cansaço físico, e introduziu o dia do Shabat. A motivação formal para pedir do rei um dia de descanso foi “para que os escravos judeus possam render mais trabalho”, mas no seu íntimo ele quis proporcionar aos seus infelizes e torturados irmãos um dia por semana de descanso, para poder convocá-los, congregá-los, para lhes expor a ideia da redenção que não tardaria, para despertar neles o ânimo do movimento libertador. Vê-se, pois, que o Shabat foi um dos mais importantes fatores a contribuir para a redenção do povo judeu”. (comentário bíblico a Êxodo 31.15, extraído da Torá – A Lei de Moisés. R. Meir Matzliah Melamed. São Paulo, Sêfer, 2001)


Que nós, brasileiros, também possamos fazer do nosso duplo descanso semanal um poderoso instrumento de liberdade. Tanto no aspecto individual como no coletivo. Crendo que, quando, aparentemente, “tá tudo dominado”, a vida proporciona uma formidável reviravolta:


"As forças vivas presentes na rede social deixam assim de ser reservas passivas à mercê de um monstro insaciável, para se tornarem positividade imanente e expansiva que os poderes se esforçam em regular, modular ou controlar (...) Nessa perspectiva, a produção do novo já não aparece como exclusivamente subordinada aos ditames do capital, nem como proveniente dele, muito menos dependente de sua valorização – ela está disseminada por toda parte e constitui uma potência psíquica e política." (Peter Pal Pelbart. A colonização do futuro in Filosofia Especial, nº 8, págs. 46-55)


Que possamos romper com as correntes da alienação do sistema econômico e construirmos algo novo!

Uma boa semana para todos!


OBS: A imagem acima refere-se à capa do livro de Domenico de Masi e foi extraída do site do Submarino em http://www.submarino.com.br/produto/1/91581/ocio+criativo,+o

domingo, 1 de maio de 2011

Pensamentos sobre o trabalhador no século 21


"Como será o amanhã
Responda quem puder
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser"

(João Sergio)


Na medida em que avançamos no tempo, perguntas começam a surgir sobre o que vai caracterizar as relações trabalhistas nas próximas décadas deste século cheio de incertezas.

Sem dúvida que há muitas tendências em curso não só quanto ao trabalho como também nas tecnologias, na educação, na família, nas habitações e na sociedade em geral. Algumas mostram-se otimistas enquanto outras são bem pessimistas. Contudo, muitas delas representam apenas mudanças sem nenhum ganho qualitativo podendo assim dizer.

Frequentemente ouço dizer que, na próxima década de 2020, haverá uma redução radical na jornada de trabalho. Fala-se, por exemplo, que mais pessoas trabalharão cerca de 25 horas por semana, significando que os empregados permanecerão nas suas empresas umas cinco horas diárias com mais tempo livre para dedicar-se à família, ou que, dependendo da atividade desenvolvida, o serviço prestado poderá limitar-se a apenas três diárias de oito horas sobrando quatro dias completamente livres para o lazer na semana.

Ora, este conto do país de Alice seria bom demais caso o empregado não estivesse levando tarefas para casa, o que está se tornando cada vez mais comum com a popularização da internet. Pois, embora seja justo e necessário que as empresas reduzam a jornada de trabalho dos seus funcionários afim de viabilizar a inclusão de mais gente no mercado de trabalho, sabe-se que isto é coisa difícil de acontecer na prática. Até porque, quando o patrão encontra um bom empregado, a empresa dá preferência aos eficientes serviços de uma só pessoa do que ampliar a equipe treinando e motivando mais pessoas.

Outrossim, mesmo que a tendência de redução da jornada de trabalho seja real no primeiro mundo, não acho que, nos países subdesenvolvidos ou emergentes, como é o Brasil, veremos as mudanças positivas acontecerem em tão pouco tempo. Pois, mesmo com o crescimento da nossa economia, sabe-se que as elites latino-americanas são muito atrasadas, os governantes extremamente corruptos e a maioria da sociedade sem uma consciência ainda desenvolvida para lutar em favor da ampliação de seus direitos.

Paralelamente a esta discussão, uma quadro mais preocupante vem sendo desenhado desde a década de 90 do século passado. Trata-se da estabilidade do trabalhador no seu emprego cada vez mais ameaçada e que tem interferido negativamente nas relações familiares e sociais de maneira drástica.

É fato que, atualmente, os contratos de trabalho têm durado cada vez menos, principalmente em países periféricos como o Brasil, como se o ser humano pudesse ser usado e depois descartado para a execução de uma determinada atividade. Então, se a economia está aquecida, o trabalhador encontra uma relativa oferta de vagas. Entretanto, quando há uma crise recessiva, milhões de homens e mulheres perecem sem opção empregatícia em seus países, perdendo o precioso tempo e sofrendo abalos psicológicos com o sentimento de não ter mais rumo certo.

Atualmente é assim que tenho visto uma grande parcela da população brasileira de meia idade ou que já se aproxima da velhice e ainda não preencheu os requisitos para aposentar-se ou ter acesso a benefícios assistenciais como o LOAS. Pois, vivendo num mundo em que o mercado de mão-de-obra é instável, o trabalhador precisa ser cada vez mais polivalente para adaptar-se às diferentes tarefas, sem que haja um programa de reciclagem ou atualização dos profissionais mais maduros. E aí, junto com esta tendência perversa, vem também o hediondo preconceito contra pessoas com mais idade que ainda é muito forte aqui no Brasil.

Dias angustiantes vivem tanto os trabalhadores quanto os aposentados, mas hoje são estes quem mais andam conscientes durante o breve instante de crescimento da economia do país, o qual pode não durar por muitos anos. Pois, enquanto a média salarial cresce diretamente proporcional ao aumento momentâneo da oferta de mão-de-obra, nossos idosos têm que enfrentar um custo de vida cada vez mais elevado com mais necessidades em relação à saúde e vendo os preços das coisas inflacionarem a cada ano (ou meses).

Não podemos esquecer que amanhã o Brasil poderá ser um país de idosos já que a taxa de fecundidade da mulher brasileira hoje é em torno de 1,8 filhos, o que é abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1 filhos por mulher. Só que para equilibrar esta situação e também cobrir o rombo praticado por décadas na Previdência Social, o governo foi concedendo reajustes nos benefícios do INSS sempre menores do que o percentual do aumento de salário, o que reduz o poder sensivelmente o poder de compra dos idosos e viola frontalmente a dignidade da pessoa humana.

Como poderemos nos posicionar diante de todas estas tendências negativas articuladas dentro dos gabinetes dos políticos e nos escritórios das poderosas instituições financeiras?

Sinceramente, não vejo outra saída senão uma mobilização de todos os trabalhadores do mundo, incluindo desempregados, aposentados, autônomos, profissionais, liberais, empresários de pequeno porte e funcionários públicos afim de que todos nós tenhamos mais influência sobre as decisões estatais (leis e medidas do governo), bem como em relação às demandas do mercado de mão-de-obra. E, embora hoje os tempos sejam outros e bem diferentes do contexto das revoluções socialistas que marcaram o século XX, mais do que nunca esta frase profética de Karl Marx e Friedrich Engels, expressa no Manifesto Comunista, permanece atual para os nossos tempos, bastando que se substitua o termo "proletários" por trabalhadores:

"Trabalhadores de todos os países, uni-vos!"


OBS: A foto acima de Karl Marx foi tirada em 1875 por John Mayall.