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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Entre ruínas, hotéis históricos e paisagens: turismo, memória e meio ambiente nas cidades costeiras brasileiras


Hotel Tambaú, João Pessoa/PB


Há algo de profundamente simbólico em hotéis abandonados, estruturas inacabadas e antigos empreendimentos turísticos espalhados pelo litoral brasileiro.

Alguns ainda resistem parcialmente ativos. Outros transformaram-se em ruínas modernas. E existem aqueles que permanecem apenas como esqueletos de concreto diante do mar, carregando décadas de silêncio, abandono e memória coletiva.

Mas talvez nenhum desses lugares seja apenas um prédio.

Eles são fragmentos materiais de diferentes épocas do Brasil.

Ao observar casos como o Hotel Tambaú, em João Pessoa, ou o antigo Hotel Panorama, em Niterói, percebe-se que o debate ultrapassa arquitetura, turismo ou meio ambiente. O que está em jogo é a forma como a sociedade contemporânea lida com heranças urbanas produzidas por paradigmas antigos de desenvolvimento.

Durante boa parte do século XX, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980, o Brasil enxergava grandes hotéis, rodovias, aterros e empreendimentos costeiros como símbolos quase incontestáveis de progresso.

A lógica dominante era integrar economicamente regiões, expandir o turismo, atrair investimentos, modernizar cidades e projetar uma imagem de desenvolvimento nacional.

A consciência ambiental contemporânea ainda estava em formação. Muitas obras hoje consideradas problemáticas surgiram num contexto em que o debate ecológico possuía outro peso cultural, jurídico e político.

Por isso, analisar esses empreendimentos exige contextualização histórica.

O Hotel Tambaú, por exemplo, talvez não deva ser visto apenas como uma construção que hoje geraria questionamentos ambientais por ocupar faixa costeira sensível. Ele também representa um marco da arquitetura modernista brasileira, um símbolo afetivo de João Pessoa e um elemento que ajudou a construir a identidade turística da capital paraibana.

Seu valor contemporâneo talvez já não esteja no luxo ou na sofisticação hoteleira, mas em sua dimensão histórica, cultural, afetiva, arquitetônica e simbólica.

Mais do que um hotel, o Tambaú tornou-se parte da memória urbana da cidade.

Algo semelhante ocorre com o antigo Hotel Panorama, em Niterói. A diferença é que ali o simbolismo nasce justamente da incompletude.

A estrutura abandonada por décadas no alto do morro tornou-se uma espécie de ruína moderna brasileira. O prédio deixou de ser apenas um empreendimento fracassado e passou a integrar o imaginário coletivo da cidade.

Ruínas urbanas exercem um efeito psicológico profundo sobre a população.

Elas representam promessas interrompidas, decadência, projetos não concluídos, expectativas frustradas e limites históricos de uma sociedade.

Quando uma gestão pública anuncia a revitalização de um “esqueleto urbano”, não está lidando apenas com engenharia ou turismo. Está também disputando o imaginário coletivo da cidade.

A narrativa simbólica é poderosa: “aquilo que permaneceu abandonado por décadas finalmente voltou a ter vida.”

Em cidades costeiras, isso possui impacto ainda maior porque a paisagem não é apenas um cenário físico. Ela faz parte da identidade emocional da população.

Mas o debate contemporâneo também exige cautela.

A própria evolução do ordenamento jurídico brasileiro ajuda a compreender essa transformação de percepção. 

Muitos empreendimentos costeiros surgiram antes da consolidação do atual regime constitucional ambiental inaugurado pela Constituição de 1988 e antes do fortalecimento de instrumentos como o licenciamento ambiental, os estudos de impacto ambiental (EIA/RIMA), o zoneamento ecológico-econômico, o Estatuto da Cidade e a Lei da Mata Atlântica.

A partir da redemocratização, o meio ambiente deixou de ser visto apenas como obstáculo ao crescimento econômico e passou a integrar o próprio conceito de desenvolvimento. 

O artigo 225 da Constituição Federal consolidou a proteção ambiental como dever do poder público e da coletividade, ao mesmo tempo em que princípios como a função social da propriedade e da cidade passaram a influenciar o planejamento urbano e costeiro.

Isso significa que muitos empreendimentos turísticos passaram a ocupar uma posição juridicamente ambígua: nasceram sob paradigmas antigos de ocupação territorial, mas hoje precisam coexistir com exigências ambientais, urbanísticas e sociais muito mais rigorosas.

Essa discussão também envolve uma complexa rede institucional. A revitalização de grandes empreendimentos costeiros raramente depende apenas da vontade de investidores privados ou de prefeitos locais.

Em geral, estão envolvidos municípios, estados, órgãos ambientais, Ministério Público, conselhos de patrimônio, comunidades locais, proprietários privados, órgãos de turismo, Poder Judiciário e, em determinados casos, instituições federais como IBAMA e ICMBio.

Frequentemente, os conflitos decorrem justamente da fragmentação dessas competências: enquanto setores econômicos defendem dinamização turística e geração de empregos, órgãos ambientais alertam para riscos ecológicos, comunidades locais questionam impactos sociais e instituições de controle buscam responsabilização por danos passados ou garantias de sustentabilidade futura.

Nesse contexto, a revitalização de ruínas urbanas e hotéis históricos transforma-se menos em um simples problema imobiliário e mais em um desafio de governança territorial.

A revitalização de antigos empreendimentos não pode simplesmente reproduzir modelos predatórios do passado.

Hoje a exploração econômica da paisagem precisa dialogar com preservação ambiental, participação comunitária, compensações ecológicas, sustentabilidade e função social do território.

A própria paisagem costeira deixa de ser percebida apenas como ativo econômico ou cenário turístico, passando também a ser compreendida como patrimônio coletivo, elemento identitário e bem cultural compartilhado.

Nesse sentido, revitalizações conduzidas sem diálogo social frequentemente produzem conflitos relacionados à elitização do território, aumento do custo de vida, deslocamento indireto de moradores tradicionais e privatização simbólica da paisagem.

Por isso, audiências públicas, consultas comunitárias, conselhos participativos e mecanismos de transparência decisória tornaram-se instrumentos fundamentais para conferir legitimidade social às intervenções urbanas e ambientais.

Em regiões costeiras historicamente marcadas por comunidades caiçaras, pescadores artesanais e pequenas economias locais, ignorar essas dimensões pode transformar projetos de revitalização em novas formas de exclusão territorial.

Ao mesmo tempo, nem toda inadequação ambiental histórica conduz automaticamente à destruição completa da obra.

O direito ambiental contemporâneo trabalha cada vez mais com proporcionalidade, razoabilidade, ponderação de interesses, recuperação ambiental e reutilização adaptativa de estruturas já consolidadas.

Na prática, essa compatibilização costuma depender de instrumentos concretos de gestão ambiental e urbanística. Entre eles estão o licenciamento ambiental, os estudos de impacto ambiental e de vizinhança, as medidas mitigadoras, as compensações ecológicas, a recuperação de áreas degradadas, as condicionantes operacionais, os planos de manejo, o monitoramento contínuo, os termos de ajustamento de conduta e limites de capacidade de carga turística.

Em muitos casos, a questão central deixa de ser simplesmente “preservar” ou “demolir”, passando a envolver cenários intermediários de adaptação, limitação de uso, recuperação ambiental progressiva e redefinição da função social do empreendimento.

Há situações em que recuperar um empreendimento existente pode gerar menos impacto do que abrir novas áreas de ocupação ou simplesmente demolir.

Talvez o desafio esteja justamente em ressignificar esses espaços.


Hotel Panorama, Niterói/RJ

Um hotel histórico pode tornar-se centro cultural, polo ecológico, espaço de educação ambiental, equipamento turístico integrado à paisagem ou lugar de memória urbana.

Isso exige abandonar tanto a romantização acrítica do passado quanto a ideia simplista de apagar completamente marcas históricas produzidas por outros paradigmas de desenvolvimento.

Na Costa Verde fluminense, essa discussão torna-se especialmente relevante.

Mangaratiba, Itacuruçá, Angra dos Reis e Paraty viveram durante décadas ciclos intensos de turismo ligados a hotéis, marinas, excursões, turismo náutico e passageiros de cruzeiros.

Muitos empreendimentos fecharam ou passaram a enfrentar questionamentos ambientais e urbanísticos. Em vários casos, o encerramento dessas atividades não representou apenas perda econômica.

Significou também esvaziamento simbólico, perda de empregos, redução da circulação turística, enfraquecimento do comércio e deterioração da autoestima urbana.

Na Costa Verde, o fechamento progressivo de hotéis e antigos empreendimentos turísticos coincidiu com mudanças importantes no próprio modelo econômico regional. 

A redução do fluxo de passageiros de cruzeiros, a concorrência do turismo informal e de plataformas digitais de hospedagem, as dificuldades regulatórias e ambientais, além da deterioração de parte da infraestrutura urbana e náutica, contribuíram para o enfraquecimento de cadeias econômicas ligadas ao turismo tradicional.

Os impactos ultrapassaram a hotelaria. Comércio, restaurantes, transporte marítimo, serviços turísticos, empregos sazonais e arrecadação municipal passaram a sentir os efeitos da retração econômica em determinadas localidades.

Em municípios como Mangaratiba, Itacuruçá e Angra dos Reis, a eventual recuperação sustentável de empreendimentos históricos pode representar não apenas revitalização paisagística, mas também reativação parcial de circuitos econômicos regionais ligados ao turismo, à gastronomia, à navegação e à economia cultural.

Por isso, a eventual recuperação de hotéis históricos ou antigos empreendimentos turísticos pode produzir efeitos que vão além da economia.

Ela pode gerar a sensação coletiva de que a cidade voltou a “respirar turismo”.

O caso do Hotel Pierre, na Ilha de Itacuruçá, parece apontar justamente para essa possibilidade de reinterpretação contemporânea do turismo regional.

Talvez o futuro da Costa Verde não esteja em reproduzir grandes modelos massificados de ocupação costeira, mas em construir um turismo ambientalmente integrado, paisagisticamente respeitoso, culturalmente autêntico e conectado à identidade local.

Mas revitalizar não significa apenas reabrir hotéis ou recuperar estruturas físicas.

Sem planejamento institucional, garantias de manutenção, sustentabilidade financeira e controle ambiental permanente, projetos de recuperação podem transformar-se em falsas soluções: empreendimentos reativados de forma precária, dependentes de subsídios permanentes ou incapazes de evitar o retorno da degradação.

Por isso, modelos híbridos vêm ganhando relevância em diversos países: parcerias público-privadas com cláusulas socioambientais, uso misto entre turismo, cultura e educação ambiental, economia criativa, turismo ecológico controlado, equipamentos científicos e culturais e projetos integrados à paisagem e às comunidades locais.

A verdadeira revitalização talvez dependa menos da reconstrução física de edifícios e mais da capacidade de reinventar sua função contemporânea de maneira socialmente legítima, ambientalmente responsável e economicamente viável.

A força da região da Costa Verde talvez não esteja no luxo padronizado dos resorts globais, mas exatamente na singularidade da paisagem onde montanha, Mata Atlântica e mar convivem de forma rara.

No fundo, debates sobre hotéis históricos, ruínas urbanas e empreendimentos costeiros revelam algo maior: como sociedades escolhem lidar com as marcas físicas do seu próprio passado.

Nem toda ruína deve ser demolida. Nem toda obra histórica deve ser preservada integralmente. Nem todo projeto de revitalização representa progresso.

Cada caso exige ponderação técnica, histórica, ambiental e coletiva.

Processos de revitalização também exigem segurança jurídica, transparência institucional e definição clara de responsabilidades.

Em muitos casos, a recuperação de empreendimentos degradados envolve passivos ambientais, disputas fundiárias, controvérsias urbanísticas e necessidade de garantias permanentes de manutenção e financiamento.

Sem mecanismos de controle, fiscalização e continuidade administrativa, projetos de revitalização podem transformar-se em intervenções efêmeras ou em novas formas de degradação territorial disfarçadas sob o discurso do desenvolvimento sustentável.

Porque cidades não são feitas apenas de sucessos urbanísticos.

Elas também são compostas por interrupções, excessos, ruínas, memórias e tentativas inacabadas de imaginar o futuro.

O verdadeiro desafio contemporâneo não é simplesmente preservar ou demolir empreendimentos históricos costeiros, mas construir modelos institucionalmente legítimos, ambientalmente compatíveis, economicamente sustentáveis e socialmente participativos de reocupação da paisagem.

Porque, no fim, a forma como uma sociedade decide lidar com suas ruínas talvez diga tanto sobre seu futuro quanto sobre seu passado.

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