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domingo, 10 de maio de 2026

Do Dia das Mães ao Afeto Algorítmico



Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.” (Guy Debord, da obra “A Sociedade do Espetáculo”)


O Dia das Mães talvez represente uma das maiores contradições emocionais da sociedade contemporânea.

Poucas datas conseguem reunir, ao mesmo tempo, afeto genuíno, memória familiar, saudade, consumo, publicidade, culpa, exposição pública e intensa mobilização emocional coletiva. Em nenhum outro período do ano as redes sociais parecem tão tomadas por homenagens, fotografias familiares, vídeos emocionantes, declarações públicas de amor e campanhas publicitárias cuidadosamente desenhadas para produzir identificação afetiva.

Mas talvez exista algo profundamente simbólico — e até irônico — na trajetória histórica da própria criação da data.

A idealizadora moderna do Dia das Mães, a ativista norte-americana Anna Jarvis, tornou-se, ela própria, uma das maiores críticas da mercantilização da celebração que ajudou a consolidar. O que começou como uma homenagem íntima às mães e ao valor humano do cuidado acabou, segundo sua própria percepção, absorvido progressivamente pela lógica comercial e publicitária.

Mais de um século depois, talvez Anna Jarvis sequer pudesse imaginar a dimensão que essa transformação alcançaria na era digital.

Em 2015, há exatos 11 anos, quando escrevi um texto no Blog sobre a mercantilização do Dia das Mães, o debate ainda aparecia muito associado às vitrines dos shoppings, à publicidade televisiva e à pressão social pelo consumo de presentes. Havia uma crítica relativamente tradicional à transformação dos sentimentos em oportunidade comercial.

Mas o cenário de 2026 parece qualitativamente diferente.

Hoje, a mercantilização não se limita mais aos produtos.

Ela alcança a própria circulação das emoções humanas.

As plataformas digitais passaram a estruturar economicamente a forma como os sentimentos são exibidos, compartilhados e consumidos socialmente. O afeto continua sendo humano — mas sua circulação ocorre dentro de sistemas algorítmicos desenhados para maximizar atenção, engajamento e monetização.

O Dia das Mães transformou-se também em um grande ritual algorítmico contemporâneo.

Fotografias familiares cuidadosamente selecionadas, vídeos de reencontros emocionantes, homenagens públicas, reels editados com músicas melancólicas, recordações de mães falecidas, hashtags comemorativas e campanhas emocionais de grandes marcas passam a disputar espaço em fluxos digitais organizados precisamente para estimular reação emocional.

E os algoritmos aprenderam algo fundamental sobre a natureza humana: emoção gera permanência.

Estudos recentes sobre comportamento digital e engajamento em plataformas como Instagram e TikTok vêm demonstrando que conteúdos emocionalmente intensos — ligados à família, memória, nostalgia e relações pessoais — tendem a produzir maior retenção, compartilhamento e interação algorítmica. 

Em outras palavras: quanto maior a carga emocional de uma publicação — ternura, saudade, nostalgia, culpa, comoção — maior tende a ser sua capacidade de retenção, compartilhamento e alcance dentro da lógica econômica das plataformas digitais.

O capitalismo contemporâneo parece ter atravessado uma fronteira nova: não comercializa apenas objetos; opera diretamente sobre os próprios circuitos emocionais das relações humanas. A economia digital descobriu que emoções geram dados, dados geram engajamento e engajamento gera valor econômico. 

O afeto converteu-se também em ativo algorítmico. Pela primeira vez talvez em escala tão ampla, experiências profundamente íntimas passaram a integrar estruturas permanentes de circulação, mensuração e monetização emocional.

Talvez resida aí uma das transformações mais profundas do nosso tempo.

Antes, muitas homenagens do Dia das Mães pertenciam quase exclusivamente ao espaço privado: um almoço em família, um telefonema, uma carta, um abraço, uma visita silenciosa.

Hoje, existe frequentemente uma expectativa implícita de exteriorização pública do afeto.

Em certos contextos, a ausência de manifestação pública quase passa a exigir justificativa social. Não postar uma homenagem pode até produzir estranhamento coletivo, como se o sentimento precisasse necessariamente tornar-se visível para ser validado.

Nesse contexto, o silêncio afetivo digital torna-se negativamente interpretável. É como se a experiência emocional sem compartilhamento ficasse desprovida de legitimidade coletiva.

As redes sociais criaram uma nova gramática emocional baseada na exposição.

O afeto passou a coexistir com a performance pública, a curadoria estética da própria vida, a comparação entre famílias, a necessidade de validação, e a transformação das emoções em linguagem de engajamento.

Isso não significa que os sentimentos expressos sejam falsos.

Ao contrário.

Talvez uma das características mais complexas da era digital seja justamente a convivência entre sinceridade emocional e lógica algorítmica.

Seria simplista, porém, ignorar os efeitos humanos positivos produzidos por essa transformação digital. Em países continentais como o Brasil — e especialmente após as experiências traumáticas de distanciamento social vividas na pandemia — as redes sociais passaram também a cumprir funções afetivas reais: aproximaram famílias separadas pela distância, permitiram reencontros, preservaram memórias familiares e criaram novas formas de convivência emocional entre gerações geograficamente dispersas.

As pessoas continuam amando suas mães de maneira autêntica. Continuam sofrendo perdas reais. Continuam tentando agradecer sacrifícios, reconstruir vínculos ou preservar memórias familiares.

O problema talvez não esteja na existência do afeto, mas no ambiente econômico e tecnológico que passou a organizar sua circulação.

E essa transformação alcança inclusive o próprio luto.

Hoje, mães falecidas continuam presentes em perfis digitais, fotografias reaparecem automaticamente em aplicativos, plataformas sugerem “memórias” de anos anteriores e algoritmos reapresentam imagens carregadas de significado emocional.

Em alguns casos, isso produz conforto. Em outros, cria uma espécie de automatização da saudade.

A memória afetiva tornou-se também um fluxo de dados.

Talvez este seja um dos aspectos mais delicados da sociedade contemporânea: a dificuldade crescente de preservar espaços emocionais completamente livres da lógica da exposição pública, da monetização e da mediação algorítmica.

O paradoxo é profundo.

As redes sociais democratizaram manifestações afetivas, aproximaram famílias distantes, permitiram homenagens sinceras e criaram novas formas de compartilhamento emocional. Mas, simultaneamente, inseriram essas experiências dentro de sistemas cuja lógica central não é humana, e sim econômica.

O sentimento permanece autêntico. O ambiente que o organiza, porém, responde a métricas.

Talvez Anna Jarvis percebesse justamente isso como a etapa mais extrema da mercantilização que tanto criticou: o momento em que não apenas os presentes, mas as próprias emoções passam a circular dentro de estruturas desenhadas para transformar afeto em engajamento, visibilidade e consumo.

No fundo, a questão talvez não seja abandonar as redes sociais ou negar a importância das homenagens públicas.

O verdadeiro desafio contemporâneo talvez seja outro: preservar a capacidade de sentir algo que ainda não precise necessariamente ser exibido.

Porque existe uma diferença silenciosa — e profundamente humana — entre viver um sentimento e performá-lo para o mundo.

Em uma época em que quase tudo precisa ser visto, talvez preservar certos sentimentos invisíveis seja também uma forma de resistência humana.

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