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segunda-feira, 12 de abril de 2021

Chegando a quatro décadas e meia de vida...



Num dos mais tumultuados aniversários da minha vida, chego hoje aos 45 anos, sendo este o segundo natalício "festejado" durante a pandemia.


Não posso falar que houve uma celebração, mas, sim, uma simples comemoração com a visita presencial de apenas um amigo, além de dois telefonemas convencionais me parabenizando e várias dezenas (ou quiçá centenas) de mensagens nas redes sociais de internet espalhadas pelo Facebook, WhatsApp, Messenger, etc.


Todavia, esse foi um dos mais agitados aniversários vivenciados em que passei parte da manhã no médico acompanhando a consulta da esposa, indo depois ao município vizinho de Itaguaí fazer uma grande compra de remédios para ela e, ao retornar para casa, encontrar a residência sem luz elétrica, situação essa que perdurou até o comecinho da noite. Também cheguei a fazer umas comprinhas de alimentos durante a tarde, ficando mais uma hora pela rua.


Aniversariar na pandemia para quem decide seguir as regras de prevenção da COVID-19 é algo que parece bem estranho, mas a gente acaba tendo que aceitar. Aliás, como a minha reduzida família hoje se encontra fisicamente distante, não encontrei tantas dificuldades para me acostumar. Pois, afinal, minha mãe, a irmã e o sobrinho vivem em Brasília, sendo que tenho um irmão no Uruguai, um avô de 87 anos em San José da Costa Rica, uma tia do lado materno em São Lourenço/MG e um tio em Nova York (EUA). E, do lado paterno, embora há quase 38 anos não tenha mais pai e praticamente nenhum contato com parentes próximos, restou apenas a segunda esposa do avô paterno falecido em 2005, a qual ajudou a me criar e reside em Juiz de Fora, encontrando-se hoje com seus saudáveis e ativos 93 anos.


Talvez não seja difícil "adivinhar" quem desse pequeno grupo de parentes possa ter telefonado e, de fato, me ligaram aqueles que chegaram a este planeta antes de nós, ainda na primeira metade do século XX, havendo testemunhado, ainda que de longe, os horrores da 2ª Guerra. E podemos afirmar que viveram num mundo bem diferente do que é hoje, principalmente quanto aos avanços tecnológicos das comunicações.


Entretanto, eu diria que completar 45 anos não é pouco. Nasci em meio aos tenebrosos dias da ditadura militar e assisti ao fim daquele regime (1964-1985) sem ainda participar da política. Vi o Brasil se redemocratizar através de empolgantes eleições, com a Constituição de 1988 depois promulgada e os primeiros presidentes escolhidos pelo povo empossados (1990, 1995) até o Lula (2003) e a primeira mulher a sentar naquela cadeira (2011). Também tive a oportunidade de comemorar a conquista de duas Copas de Futebol (1994 e 2002), ingressar na universidade, conhecer Núbia (1999), concluir o curso de Direito (2004), contrair matrimônio (2006), testemunhar a maior tragédia climática do país em Nova Friburgo (2011), passar por anos de dificuldades financeiras aqui em Mangaratiba a ponto de afastar-me da minha profissão (2012 a 2017) e, finalmente, retornar ao exercício da advocacia sobrevivendo dela.


Certamente eu teria muito mais coisas a incluir nessa lista de acontecimentos, mas prefiro encerrá-la por aqui considerando suficientemente representativas tais referências. E, para concluir a postagem, também quero agradecer a todos os que me parabenizaram pelo meu aniversário, sendo que ainda não tive a oportunidade de responder a cada um pelos comprimentos pois são muitas mensagens. Porém, gostaria, desde já, de retribuir publicamente a gentileza e o afeto demonstrado. 


Um forte abraço aos meus leitores e tudo de bom!

terça-feira, 6 de abril de 2021

O enfrentamento à COVID-19 em Mangaratiba precisa ser mais rigoroso!



Será que a Prefeitura de Mangaratiba, durante o período de 26/03 a 04/04/2021 tomou as medidas restritivas suficientemente adequadas quanto á circulação de pessoas no Município, com o objetivo de combater a expansão da pandemia do novo coronavírus no Município? 


Houve de fato o fechamento de estabelecimentos não essenciais? 


Lamentavelmente, a Administração Municipal não está se mostrando capaz de conter o avanço da pandemia no Município, ainda que as publicações do DOM informem indevidamente estar Mangaratiba na "bandeira azul" (pra mim deveria ser "vermelha" ou "roxa"), sendo que, no referido período, tivemos um aumento no fluxo de pessoas vindas da região metropolitana para a região da Costa Verde, como normalmente é verificado em situação de feriados prolongados. 


Assim sendo, é preciso que haja a adoção e o cumprimento de medidas restritivas de circulação de pessoas ainda mais rigorosas que aquelas previstas nos recentes decretos municipais. 


Além do fechamento dos estabelecimentos não essenciais, também há que se realizar um monitoramento de 24 horas das barreiras sanitárias mencionadas nas publicações oficiais, de forma a impedir o aumento desordenado do fluxo de pessoas no Município e seja intensificada a fiscalização do cumprimento das medidas restritivas, bem como reforçada a obrigatoriedade de utilização de máscara de proteção facial e demais medidas de proteção em todos os espaços, órgãos públicos, vias públicas e transporte público coletivo. 


Lutemos pela causa e que os nossos governantes tenham mais respeito pela vida, passando a tomar as medidas mais adequadas para o enfrentamento da pandemia.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Que possamos discernir o corpo partido e o sangue derramado!


 

"E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai." (Mateus 26:26-29)


Não dá para passar da noite de quinta para sexta-feira da Semana Santa sem nos lembrarmos desse conhecido trecho dos evangelhos onde Jesus celebra uma simbólica ceia com os seus discípulos, relacionando a partição dos alimentos (pão) com o seu corpo e agindo de modo semelhante com a bebida (vinho) quanto ao seu sangue. Em seguida, complementa estar realizando uma nova aliança (na citação "testamento"), por meio da sua morte, perdoando os pecados dos homens.


Certamente que essa passagem não deve fazer sentido para a humanidade inteira e nem todos os cristãos entendem do mesmo modo. Porém, quem estuda a célebre citação da Bíblia sempre busca compreender qual o significado profundo da representação desse momento tão reverenciado.


Tem-se evidenciado no texto em tela não só o fato de Jesus haver transformado a sua morte em um sacrifício de substituição em favor dos homens como também tornado os seus discípulos co-participantes do que estava prestes a ocorrer com ele. Mesmo que o entendimento daquele episódio só viesse mais tarde e, na hora da prisão do Mestre todos fugissem e um o negasse expressamente.


Sob certo aspecto, quando Jesus estava inspirando seus discípulos a pactuar com ele, tal decisão abrangeria o seguimento dos seus passos num projeto de amor e de vida para a humanidade que é o alcance do Reino de Deus. Romperiam com os valores do mundo na conformação com a morte do Senhor a fim de que, numa reunião futura e eterna com Cristo, haja então uma nova celebração com o consumo outra vez do "fruto da vide", significando um momento de grande júbilo coletivo.


Evidente que esse ato de Jesus estava impregnado de fé, em que o Mestre apostava tudo contra as circunstâncias, não sendo a morte que aguardava experimentar em questão de horas um impedimento para a futura e eterna reunião com os discípulos no Reino do Pai. Aliás, ele encarava aquele momento como a passagem (Páscoa) que a humanidade precisaria trilhar para uma transformação coletiva, de modo que o seu corpo e o seu sangue estavam também representando os corpos e os sangues dos seguidores de Cristo.


Ora, enfrentamos hoje uma pandemia que já matou mais de 322 mil brasileiros, conforme os números divulgados recentemente. Porém, as atitudes de grande parte dos cristãos são de envergonhar. 


Triste saber que muitos crentes nestes dias estejam se aglomerando em templos e ignorando as orientações sanitárias. Estarão participando de uma ceia simbólica, sem o verdadeiro discernimento, comendo e bebendo para a própria destruição, como o apóstolo Paulo já havia advertido há quase 2.000 anos aos coríntios em sua primeira epístola a eles:


"Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem." (1 Coríntios 11:17-30)


Pior ainda é quando vejo pastores demonizando a vacina! Pois usam a poderosa influência que têm a fim de conduzir pessoas para a morte, contrariando o ensino extraído do sacrifício de Jesus, o qual é representado como fonte de vida eterna.


Nessa Páscoa que celebramos num dos piores dias da pandemia no Brasil, não só podemos como devemos permanecer em nossas casas. Até porque não há necessidade de irmãos na fé estarem sempre todos juntos já que o próprio Jesus falou que onde estivessem dois ou três reunidos em seu nome, estaria no meio deles (Mt 18:20). E essa presença também não depende de um mesmo ambiente físico! Ainda mais quando se tem hoje em dia as tecnologias da comunicação, a exemplo das videoconferências, de modo que estar atento às interações é o que realmente deve importar.


Para finalizar, concluo que, nessa Páscoa, as pessoas pelas quais mais devemos orar e interceder seriam os fanáticos religiosos, pois não sabem o que fazem, visto que se tornaram grandes propagadores do coronavírus, precisando conhecer urgentemente qual a essência do Evangelho Cristo.


OBS: Foto  dos azulejos na igreja de São Mamede de Este, em Braga, Portugal, conforme extraído de https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Altima_Ceia#/media/Ficheiro:Azulejos_Sao_Mamede.JPG

terça-feira, 30 de março de 2021

A nossa Páscoa na pandemia



Judeus e cristãos comemoram a Páscoa cada um a seu modo, sendo essa uma antiga festa que relembra a vitoriosa saída dos israelitas escravizados no Egito rumo à Terra Prometida, sob a liderança de Moisés.


Entre os cristãos, a Páscoa ganhou novo significado com a ressurreição de Jesus, mas que se reporta à sua dolorosa morte na cruz. Daí surgiu a tradição de celebrar a chamada "Semana Santa", a qual inicia com a triunfal chegada do Mestre a Jerusalém, no Domingo de Ramos.


Em ambos os episódios, tem-se em comum a celebração de uma passagem, como nos ensina a própria etimologia do termo hebraico pessach (Páscoa). Pois, tanto na formação de um povo livre e soberano, chamado para ser "santo" (separado) entre as nações, quanto na vitória do Filho do Homem sobre os grilhões da morte, recebemos uma mensagem que se traduz em superação e em mudança de estado ou condição.


Acredito que sempre estamos de passagem e cabe ao ser humano tentar compreender qual o seu caminho a percorrer tanto no plano individual quanto no coletivo. Afinal, não queremos levar uma vida vazia, sem propósito e errante que, no fim das contas, acaba é produzindo separações/segregações ao invés de construções.


Nesta terceira década do século XXI, convivendo há mais de um ano com a pandemia, a humanidade foi confrontada com um grande desafio que nos impõe mudança de hábitos, mais compreensão, maior respeito pelo próximo e o enfrentamento de um inimigo invisível a olho nu, mas que causa verdadeiras tragédias.


Certamente que, em nossa primeira Páscoa durante a pandemia, não tínhamos ainda a consciência de quão grave esse problema seria para o mundo inteiro. Havia muitos negacionistas da doença e os ignorantes sentiam-se mais á vontade para discursar contra as medidas de afastamento social de prevenção à COVID-19. Sem falar nos áudios, memes e demais brincadeiras que circulavam pelas redes sociais de mensagens instantâneas.


Entretanto, o problema global tem mostrado a sua complexidade com sucessivas "ondas" de infecção do coronavírus e o surgimento das perigosas variantes do vírus. Apesar da chegada das vacinas, não há uma imunização totalmente eficaz. E hoje vivemos no nosso período mais mortal desde o início da pandemia, com recordes sucessivos do número de mortes e de casos de COVID-19, de modo que assumimos em março a liderança global do ranking de países com mais óbitos diários.


Por coincidência, a pandemia fez com que tivéssemos neste ano um longo período de descanso entre março e abril, apesar de nem todos estarem conseguindo paralisar suas atividades para desfrutar o momento. Pelo menos aqui, no Estado do Rio de Janeiro, os deputados aprovaram a criação de feriados circunstanciais, através da Lei n.º 9.224/2021, de maneira que, em tese, todos poderíamos celebrar por completo a Semana Santa, embora dentro das regras de afastamento social estabelecidas.



Mais do que nunca é preciso fazer a nossa passagem da morte para a vida e isso vai exigir de todos um certo grau de esforço e de atenção à ciência, incluindo uma postura de mais respeito às normas sanitárias. Pois adotar essa atitude saudável em toda a sua amplitude é a Páscoa que temos para viver em 2021!


Que nada será como antes, tenho total certeza disso, porém não duvido que a humanidade sairá machucada desse "deserto", com tantas perdas de parentes e amigos que têm nos deixado. Contudo, precisamos enfrentar a pandemia até que os sobreviventes celebrem a vitórias sabe-se lá quando.


Feliz Páscoa a todos!

segunda-feira, 8 de março de 2021

Secretários municipais não deveriam jamais presidir conselhos de participação!

 



Uma matéria recente do jornal O DIA, com o título MP recomenda que Cabo Frio modifique legislação que permite secretário de Saúde presidir o Conselho Municipal, despertou o meu interesse para verificar como estaria a situação desses organismos de participação aqui em Mangaratiba.


Diz a publicação que a 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo Cabo Frio expediu, no último dia 23/02, uma Recomendação para que o Chefe do Poder Executivo Municipal encaminhe à Câmara da cidade, em prazo máximo de 20 dias, projeto de lei para reformar a Lei Municipal 1.545, de abril de 2001, que estruturou o Conselho Municipal de Saúde (CMS).


Aqui em Mangaratiba, felizmente, sei que, há tempos, o Presidente do CMS é eleito entre os membros efetivos em reunião plenária específica, como previsto na Lei Municipal n.º 839, de 28 de dezembro de 2012, embora a Secretária de Saúde seja considerada "membro nato" do Conselho Municipal de Saúde no segmento governamental.


Todavia, o mesmo não ocorre com o nosso Conselho Municipal de Meio Ambiente!


A Lei n.º 1.209, de 06 de junho de 2019, do Município de Mangaratiba, que dispõe sobre o Código de Meio Ambiente do Município de Mangaratiba, ao alterar o artigo 1º da Lei Municipal n.º 1.012, de 21 de junho de 2016, previu, em seu artigo 17, que o secretário municipal de meio ambiente será o presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente.:


“O Conselho de Meio Ambiente do município será presidido pelo secretário municipal de Meio Ambiente, ao qual caberá a inclusão de pautas e integrado por dezesseis membros com direito a voto, nomeados pelo Prefeito municipal, mediante indicação dos respectivos órgãos assim definidos”


Pois bem. Até então o Conselho de Meio Ambiente do Município era presidido por um membro escolhido entre os próprios conselheiros, através de votação aberta com maioria simples e integrado por 16 (dezesseis) membros com direito a voto, como previa o referido dispositivo da norma anterior.


Ocorre que tem sido muito questionada a incompatibilidade entre as funções de gestor e a de presidente de conselho municipal, tendo em vista que a autonomia representativa do colegiado constitui premissa básica para as funções de fiscalização e controle de gastos, tal como bem se posicionou a 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo de Cabo Frio, ao expedir a Recomendação de n.º 03/2021, nos autos do Inquérito Civil n.º 78/19 (MPRJ n.º 2017.00535819) quanto à lei que estruturou o CMS de lá:


“(...) o exercício da presidência do Conselho pelo Secretário de Saúde acaba por esvaziar a ideia de democracia participativa, na medida em que impõe uma ingerência indevida dos governantes no espaço reservado pelo poder constituinte ao exercício direto do poder pela sociedade civil, comprometendo a própria cidadania”


Ora, o meio ambiente é direito de todos, devendo ser garantida a participação comunitária na proteção ambiental, inclusive através da democracia participativa no Conselho Municipal.


Dentre os vários tipos de democracia existentes (representativa, liberal, participativa), esta última é uma das mais relevantes, pois chama os cidadãos a contribuírem de alguma forma com as atividades do Estado que visam melhorar as condições de vida da população. Contudo, essa proposta democrática nem sempre ocorre a contento, sendo que o atual Código Ambiental do Município causou um inegável retrocesso capaz de gerar um esvaziamento e um descrédito institucional que beneficia o grupo político que hoje conduz a Prefeitura. 


Nesse sentido, vale aqui citar o historiador Eric Hobsbawm:


“O ato de expressar assentimento à legitimidade do sistema político, por meio do voto periódico nas eleições, por exemplo, pode ter importância pouco mais do que simbólica, e, com efeito, é um lugar-comum entre os cientistas políticos reconhecer que, em países de cidadania de massa, apenas uma minoria modesta participa constante e ativamente dos assuntos do Estado ou das suas organizações de massas. Isso é útil para os dirigentes e, na verdade, políticos e pensadores moderados há muito tempo mostram preferência por certo grau de apatia política.” (HOBSBAWM, Eric. Globalização, Democracia e Terrorismo. tradução José Viegas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pág. 103)


Lamentavelmente, a política ambiental municipal em Mangaratiba estabeleceu mais um obstáculo à integração dos movimentos sociais, os quais são cada vez mais enfraquecidos por valores individualistas, competitivos, monetários e egocêntricos. Em virtude disso, a participação comunitária e a cooperação entre os munícipes estão sendo cada vez mais reduzidas na atual gestão do senhor prefeito Alan Campos da Costa e enfraquecendo um importante organismo de participação que é o Conselho Municipal de Meio Ambiente.


Sendo assim, é de fundamental importância que o Núcleo de Angra dos Reis do Ministério Público proceda a instauração de inquérito civil e tome medidas idênticas em relação ao Conselho de Meio Ambiente do Município de Mangaratiba, sendo sugestivo ao Promotor expedir uma Recomendação a fim de que seja encaminhada mensagem à Câmara Municipal capeando projeto legislativo, em até vinte dias, para reformar a Lei n.º 1.209, de 06 de junho de 2019, do Município de Mangaratiba, a fim de que o secretário de meio ambiente deixe de presidir o colegiado e haja sempre eleições entre seus membros para a escolha do representante do órgão.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O desafio do ensino remoto para alunos carentes e a necessidade de um plano de educação diante da pandemia



Estiva lendo nesta semana que, de acordo com uma pesquisa feita no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, três em cada quatro alunos não têm computador em casa para acompanhar o ensino à distância implementado durante a pandemia de COVID-19.


"O RJ2 teve acesso com exclusividade ao resultado do levantamento, que mostra que estudantes moradores de favelas do Rio não têm condições de acompanhar o ensino a distância. A pesquisa foi realizada pela organização Redes da Maré com o apoio do Fundo Malala. Foram ouvidas 1.009 meninas estudantes de 6 a 17 anos. Todas são moradoras de uma das 16 favelas que formam o conjunto da Maré" - https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/02/24/3-em-cada-4-jovens-estudantes-da-mare-nao-tem-computador-em-casa-para-ensino-remoto-diz-pesquisa.ghtml


Outro dado importante, embora baseado em informações de moradores, é que o sinal de internet disponível na referida na comunidade é de má qualidade, de maneira que as famílias sentem dificuldades para arcar com os custos do serviço.


Fato é que, nos últimos dez anos, o computador, que nunca esteve em todas as casas brasileiras, foi se tornando um utensílio doméstico em desuso devido à aquisição dos aparelhos celulares com acesso á internet e várias funções. Logo, poucas são as famílias carentes que podem proporcionar meios adequados para os filhos terem acesso ao ensino remoto.



Tendo em vista a real impossibilidade de uma plena reabertura das escolas, precisamos de um plano educacional alternativo com ensino à distância ou semi-presencial que possa ser ministrado para os nossos alunos em todo o país. Assim, diante desse quadro, o MEC não pode deixar de formular estratégias que permitam aplicar metodologias e didáticas, tanto para o ensino infantil quanto para o fundamental e até mesmo o ensino médio.


Portanto, o MEC precisa firmar parcerias com os municípios nos estados, a fim de viabilizar uma melhor organização das atividades educacionais, o que precisa incluir políticas públicas de distribuição em massa de computadores e notebooks, tornando a internet no Brasil algo plenamente acessível para todos. E, deste modo, importa que os prefeitos comecem interagir com Brasília, marquem uma audiência com o ministro Milton Ribeiro, e apresentem reivindicações nesse sentido. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Um parente genial que nem meu avô conheceu...

 


Nem todos guardam suas histórias de família. Uns não dão o devido valor e outros tão pouco tiveram a oportunidade de que alguém as relatassem quando ainda eram criança.


Nesse ponto, agradeço muito ao meu saudoso avô paterno Sylvio, falecido aos 87 anos, no final de maio de 2005, por ter me contado um pouco da vida de seu pai, dos seus avós paternos e maternos, e até de um bisavô dele que nem mesmo chegou a conhecer. Porém, tratava-se do homem que, praticamente, foi o tutor do seu pai, Francisco Ancora da Luz (meu bisavô), devido ao falecimento precoce do avô dele, Francisco Carlos Ancora da Luz (1858 — 1888) que, segundo a versão da família, teria morrido antes de completar 30 anos, quando se encontrava construindo uma ferrovia em Minas Gerais, onde contraiu a letal febre amarela.


Entretanto, esse bisavô do avô, chamado Francisco Carlos da Luz (1830 — 1906), e que seria meu tetravô ou tataravô (corrijam-me se eu estiver errado), teve 75 anos de bastantes realizações, sendo uma figura histórica em Santa Catarina, seu estado de origem.


Pois é. Apesar de ter ido a Florianópolis numa única vez (e há 26 anos), tenho raízes familiares nesse belo trecho do litoral da Região Sul, em que os meus primeiros ascendentes teriam migrado dos Açores para o Brasil, por volta de meados do século XVIII. E foi na localidade de Praia Comprida, bairro do Município de São José, onde Francisco Carlos da Luz nasceu, havendo, tempos depois, representado a então Província de Santa Catarina na Câmara dos Deputados.


Conhecido mais pela sua alta patente no exército brasileiro, por haver chegado ao derradeiro posto de marechal e se reformado somente quando atingiu a compulsória, eis que a menção à carreira militar e aos seus mandatos como deputado geral, de certo modo ofuscam o brilhantismo de Francisco Carlos da Luz nos campos das ciências, da engenharia e das letras, visto ter sido ele também um professor de Matemática, um pesquisador de munições e construção de ferrovias, autor de alguns livros e de vários artigos para jornais sob o pseudônimo M.R., que seriam as iniciais de "Marechal Reformado".


O bom desempenho de Francisco Carlos da Luz como aluno foi notado desde o primeiro ano de seu ingresso na Escola Militar, em 1846, aos 16 anos. Em 1849, foi promovido a 2º Tenente, com carta de engenheiro e de bacharel em matemática, sendo que uma das suas primeiras atribuições como militar foi a de coordenar a implantação de pioneira indústria metalúrgica nacional (fábrica de ferro), em Ipanema, no interior do estado de São Paulo.


Suas promoções foram rápidas dentro do Exército e, ainda como 1º Tenente, na década de 50 do século XIX, chegou a dirigir o Imperial Laboratório Pirotécnico, em Campinhos, no Rio de Janeiro, dedicando-se à sua especialidade que era o fabrico de espoletas e foguetes de alta tecnologia, o que colocou o exército brasileiro em vantagem sobre as corporações militares dos países vizinhos, gerando resultados positivos nos combates da Guerra do Paraguai.


Sendo autor de livros, Francisco Carlos da Luz fez doações frequentes para a Biblioteca Pública de Santa Catarina, inaugurada em 1855. Tais publicações encontram-se no Setor de Obras Raras da instituição juntamente com outros escritores. 


Com o incentivo do pai, José Maria da Luz, o qual era um político regional em Santa Catarina, Francisco Carlos lançou a sua primeira candidatura para a Câmara dos Deputados, pelo Partido Conservador, tendo ficado como suplente. E, antes de terminada a legislatura, assumiu a cadeira na Casa Legislativa. Já, no pleito seguinte, saiu vitorioso e tomou posse como titular na Câmara de Deputados do Império.


Naqueles velhos tempos, os militares, quando ocupavam cargos eletivos, não se tornavam reservistas como ocorre atualmente, desde a diplomação do político. Logo, com o início da Guerra do Paraguai, Francisco Carlos da Luz retornou ao Exército, foi dirigir o Arsenal de Guerra no Rio de Janeiro e só retornou às atividades parlamentares com o fim do conflito armado.


Pode-se dizer que a sua contribuição naquele período crítico não foi nos campos de batalha confrontando-se com o adversário e sim como um cientista. Aliás, Francisco Carlos da Luz não deixou de lecionar, tendo sido regente de cadeira na Escola Superior de Guerra e comandou a Escola Militar onde havia se formado.


Antes de deixar o Exército, já na época republicana, Francisco Carlos da Luz ainda enfrentou um último conflito que foi defender a então capital federal contra os navios rebeldes na Revolta da Armada. Nessa ocasião, ele exerceu o comando geral da Artilharia, mostrando, assim, a sua lealdade ao novo regime.


Como militar reformado, suas últimas atuações foram os artigos políticos publicados no já extinto Jornal do Commercio (1827 — 2016), sempre usando o pseudônimo M.R., até que veio a falecer em 1906, no Rio de Janeiro, por motivo de complicações numa cirurgia.


Com o tempo, o velho marechal acabou esquecido no Rio, mesmo tendo vivido por muitos anos na capital do país e a defendido na Revolta da Armada. Porém, recebeu muitas homenagens em seu estado, dando nome a um forte situado em São Francisco do Sul, no qual foi inaugurado o busto das fotos desse artigo, na data recente de 15/12/2016. 



Uma curiosidade sobre minha família do lado paterno é que tanto o pai, quanto o avô e o bisavô de meu avô Sylvio tiveram o primeiro nome de Francisco. Meu pai manteve essa tradição e se chamava Francisco Carlos Ancora da Luz, havendo, por coincidência, falecido prematuramente aos 36 anos, em setembro de 1983. Dois anos depois, em 1985, passei a ser criado pelo meu avô.


Desde Francisco Carlos da Luz até o meu pai, todos se aplicaram à área das ciências exatas e apenas meu avô não foi engenheiro, mas cursou dois anos essa faculdade e depois passou para a antiga Escola Militar de Realengo, vindo a escolher a arma da artilharia. Já o meu pai, não desejou e nem pôde entrar nas Forças Armadas porque era diabético.


É possível que toda essa inclinação de meus antepassados próximos para a engenharia tivesse uma influência também do lado materno pois a esposa do marechal, Maria Bárbara de Moraes Âncora (1826 — 1905), era filha de outro engenheiro militar, o português Firmino Herculano de Morais Ancora (de 1790 — 1862), construtor do Palácio das Princesas, em Pernambuco. Logo, os genes devem ter se combinado juntamente com o ambiente doméstico propício ao estudo das exatas.


Quando estudante, confesso ter sido bom com os números e até fui selecionado pela escola para disputar uma Olimpíada de Matemática no primeiro ano do segundo grau (atual ensino médio), mais precisamente no segundo semestre de 1991. Não acertei nenhuma questão, mas valeu pela experiência. Ainda assim, não tive dificuldades nessa matéria quando cursei meus exames de vestibular, mas preferi casar-me com as ciências humanas. Aliás, de todas as disciplinas aprendidas antes da faculdade, preferi História, coisa que meu pai, engenheiro mecânico, também gostava.


OBS: Imagens acima extraídas de https://www.saofranciscodosul.sc.gov.br/noticia/3950/busto-em-homenagem-a-marechal-luz-e-inaugurado