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sábado, 2 de novembro de 2024

Consideração eterna pelos que já foram



"Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração." (Eclesiastes 7:2)


Nunca tive o costume de ir a cemitérios nesta época do feriado de Finados, comemorado mundialmente em 02/11. Contudo, fui aprendendo a ter a devida reverência pelos que partiram, sobretudo os nossos ancestrais, quer tenham sido familiares, amigos ou pessoas que deixaram uma importante contribuição para a coletividade.

Nascido numa família não religiosa, em abril 1976, passei a infância bem distante dos velórios, o que acho uma experiência necessária para todos. Porém, sem que as minhas emoções tenham sido expostas a isso, precisei aprender logo cedo com a impactante morte prematura de meu pai, em setembro de 1983, quando ele tinha seus 36 anos.

Além disso, fui privado de participar do velório. Contaram-me sobre o seu falecimento, dias depois do enterro, em que foi passada uma versão inverídica de como teria ocorrido o óbito. Isto é, primeiro o adoeceram num hospital em Minas Gerais para, então, depois de uns dias de internação, informarem sobre uma morte que, na verdade, já havia acontecido bem antes e de uma maneira repentina no apartamento que alugava no Leme.

Não sei se poderia chamar meu saudoso pai de "meu velho", como muitos filhos carinhosamente se referem aos seus genitores, pois ele era jovem quando se foi e jamais passou pela minha mente que ficaria órfão tão cedo. Porém, a nossa convivência cotidiana foi curta porque, em razão da separação dele e de minha mãe, por volta de 1979/1980, a companhia que antes era diária tornou-se uma visita de alguns fins de semana.

Até hoje a sua fisionomia de um homem moreno, magro e com barba acirrada não me sai da memória e tão pouco me esqueço dos passeios que fizemos juntos, quer ele estivesse ainda casado com minha mãe ou já separados. Costumávamos visitar os pontos turísticos do Rio como o Corcovado, Pão de Açúcar, o zoológico da Quinta da Boavista, o Jardim Botânico, algumas praias da Zona Sul, sem contar os dois clubes do Grajaú, o restaurante Planalto da Praça Malvino Reis, além dos cinemas e teatros, mais a casa da minha tia Lourdes em Copacabana, sua irmã.

Em todo caso, da criança que, até então, praticamente só se encontrava com o pai nos passeios de sábado ou domingo, nas festas de aniversário, bem como nas vezes quando ele vinha pessoalmente entregar o pagamento da pensão em mãos à minha mãe, apenas fui conhecer algo sobre sua personalidade posteriormente. Isto é, por meio dos relatos de meus avós e de minha mãe, sempre exaltando suas qualidades como a inteligência acima da média, a honestidade, a solidariedade com os mais necessitados, o idealismo político (era de esquerda e brizolista) e a capacidade de se posicionar em favor de algo/alguém independentemente de desagradar quem quer que fosse.

Logicamente que, com o tempo, fui descobrindo sobre ele traços de personalidade que uma criança não costuma valorizar uma vez que humaniza os seus heróis familiares. Ou seja, a sua tendência ao alcoolismo e ter sido um homem com momentos depressivos, coisas que muitas vezes os adultos escondem dos filhos ainda numa idade jovem.

Por certo, quando perdemos os nossos entes querido, preferimos exaltar mesmo as suas qualidades de modo que tornamos os seres reais que viveram entre nós em projetos arquetípicos, conforme as preferências do nosso inconsciente. As pessoas que nos importam se tornam mais do que elas foram (e não menos), sobretudo para atender à nossa necessidade de estabelecermos referenciais de vida por meio de ícones da mente.

Entretanto, se perdi logo muito cedo um pai que ainda era jovem quando partiu, supõe-se logo que me sobrassem os avós e, de fato, no ano de 1983, restavam-me os quatro ainda vivos (e com saúde), os quais ultrapassaram o século XX, estando um deles ainda vivo, com 91 anos, na cidade de San José, capital da Costa Rica. E tive também a oportunidade de conviver com uma bisavó, mãe da avó materna, e conhecer a mãe do avô paterno.

Pois bem. Enquanto muitos confundiam a minha avó materna com a minha mãe, já que as nossas diferenças de idade eram de apenas quarenta anos, a bisa encaixava-se na imagem daquela perfeita velhinha que morava numa casa de vila no Grajaú, sendo, aliás, a habitação mais humilde dentre as doze construções que hoje formam um pequeno condomínio no arborizado bairro da Zona Norte do Rio. Nunca soubemos exatamente a sua idade, mas conhecíamos a sofrida história de uma mulher que se tornou órfã de mãe logo no parto e veio do interior do Piauí para o Rio de Janeiro ainda nas primeiras décadas do século XX.

Certamente que, na primeira metade da década de 80, quase não se pensava num idoso brasileiro com mais de 70 anos levando a vida com autonomia, exercitando-se, ou trabalhando. Usava ela roupas antigas, quase não saía de casa, falava baixinho e educadamente, não bebia álcool (nem refrigerante ou chocolate), fazia alguns serviços domésticos, tinha um comportamento católico-religioso com vários santinhos no quarto, embora tivesse um pé no espiritismo, assistia a novela das seis e, sem demorar muito, recolhia-se para dormir sobre um velho colchão de palha numa cama dividida com meu tio.

Com essa bisa, cujo nome homenageava Maria de Nazaré, mãe de Jesus, convivi cerca de um ano, assim que minha mãe se separou do papai e saímos do apartamento na rua Comendador Martinelli, também no Grajaú. E, depois que passei por diversas outras casas, sempre a via quando vinha para uma visita, quer fossem férias, um feriado, um almoço em família, ou em outras oportunidades, até que um dia, sem que eu soubesse, ela partiu já no ano de 1989.

Não me recordo da última vez em que vi a bisa, porém a época da sua despedida coincidiu com um sonho, ocorrido antes da notícia de um real falecimento num hospital. De modo algum a vi morrendo, mas, sim, como se estivesse convivendo normalmente entre nós e já não me recordo mais de qualquer detalhe, havendo ocultado de todos tal experiência.

Quanto ao meu pai, nosso último e breve encontro tinha sido numa tarde chuvosa do mês de seu falecimento quando ele veio deixar a bicicleta Caloi Cross que eu tanto aguardava receber. Um veículo que nem sabia andar direito por falta das rodinhas de apoio, mas que aprendi a me equilibrar cerca de dois anos após quando já morava com meu avô paterno em Juiz de Fora, Estado de Minas Gerais.

Acerca deste avô, falecido no final de maio de 2005, dele tenho muito mais a dizer sobre sua pessoa pois convivemos por muitos anos, tanto no final da infância, durante toda a minha adolescência e na juventude adulta. Dele recebi muitos exemplos de vida, dos quais lamento profundamente não tê-los posto em prática na quase totalidade. 

Até o falecimento de meu pai, meu avô era só um ilustre visitante que, desde criança, fui habituado a chamar de "vovô mineiro", embora ele fosse mesmo carioca, nascido no bairro Todos os Santos. Aquela era uma maneira de distingui-lo do avô materno a quem me apresentaram como sendo o "vovô grego", por motivo de nacionalidade, apesar de nascido territorialmente no Egito.

Para melhor resumir, o vovô mineiro era homem de palavra, pontual, de bom porte físico (havia sido militar por mais de 35 anos), cumpridor de deveres, metódico, prestativo, sem vícios de cigarro ou de álcool, porém, ao mesmo tempo, muito emotivo e chegava a se aborrecer facilmente por qualquer reclamação a meu respeito da escola ou quando eu agia destemperadamente. Ele era entusiasta das ciências exatas, admirava o positivismo, não seguia nenhuma religião, mas sempre respeitava todas elas.

Politicamente, era o contrário do meu pai pois p seu pensamento convergia mais para a direita de modo que Lula e Brizola eram para ele uns dos piores candidatos no pleito presidencial de 1989. Só que meu vô nunca foi um cidadão participativo, pois poucas vezes votou na vida e nunca mais compareceu às urnas quando ficou livre dessa obrigação em razão da idade. Inclusive, os seus conselhos eram que eu nunca se metesse com eleições, partidos políticos, movimento estudantil, sindicatos, manifestações de rua, etc.

Confesso que, nos meus tempos de estudante do antigo "segundo grau" (atual ensino médio), fiz justamente o oposto. No ano seguinte ao impeachment de Collor (1992), tornei-me um frequentador e membro da diretoria da entidade que representava os secundaristas em Juiz de Fora. Escondido dele, viajei para fazer um protesto em Brasília e ainda participei de outros eventos semelhantes na cidade como passeatas pelo passe livre e a vez em que o então presidente Itamar Franco encontrava-se num show do cantor Caetano Veloso, sem que as carteiras da meia-entrada da UBES e da UNE estivessem sendo aceitas, além de ter militado nas eleições de vários grêmios escolares e apoiado candidatos no pleito geral de 1994.

Evidentemente, muitos me viam nessa época como uma espécie de ovelha negra da família pelas preocupações e contrariedades que sempre causava ao meu avô. Ele, por sua vez, temia que pudesse vir a morrer e deixar o neto economicamente desprotegido sem ainda  ter uma profissão e, com isso, sempre insistia para que eu fizesse um concurso público antes mesmo de ter um diploma universitário.

Não acho que fui um bom neto e, às vezes, por mais que me esforçasse, não conseguia mudar minha conduta que, em vários momentos, foi péssima no trato respeitoso com as pessoas e criava inúmeros problemas. Ainda que não considere negativo um estudante participar da vida política de sua sociedade, tenho consciência das falhas que muito o aborreceram em sua velhice quando frequentemente extrapolava.

Aos 22 anos, depois de muito ter aprontado, saí voluntariamente de Juiz de Fora e, por minha livre escolha, fui viver em Nova Friburgo, região serrana fluminense, onde dei continuidade ao curso de Direito que já havia iniciado em Minas. Vivendo lá, conheci Núbia, minha esposa, durante um passeio no Carnaval de 1999, mais precisamente num lugarejo de Macaé chamado Sana, próximo a Lumiar. 

Entretanto, foi nessa época que a vida me pregou uma peça. Cerca de um ano e meio depois, em meados de 2000, meu avô ficou inconsciente e não mais me reconhecia quando eu ia visitá-lo. Com isso, não mais conseguir conversar com ele tornou-se muito doloroso porque nem mais era possível falar-lhe de algo que traria algum contentamento.

Apesar de livrar-se de muitas internações no Hospital Militar de Juiz de Fora por motivo de saúde, meu avô passou seus últimos anos de vida num estado de inconsciência e vegetativo em que, no final, já não mastigava mais os alimentos e foi preciso instalar no seu corpo uma sonda pela qual a comida era conduzida até o estômago. Para que suas necessidades fossem atendidas, havia sempre uma cuidadora para lhe assistir a cada doze horas.

Quando chegou a época de sua partida, eu já tinha seis meses de formado e também me achava inscrito há cerca de trinta dias na OAB como advogado. Tive que interromper uma viagem de passeio na Bahia com Núbia quando soubemos da gravidade do seu estado e acabei ficando quase uma semana hospedado num hotel em Juiz de Fora, visitando-o diariamente no Hospital Militar, até que resolvi retornar para passar o último fim de semana no mês em casa, quando meu velho tinha demonstrando sinais de melhora.

De qualquer modo, não desejava que meu avô permanecesse naquele estado por mais tempo e imaginava que, mesmo num estado de inconsciência, ele ainda se mantivesse psiquicamente preso ao meu bem estar porque se preocupava com o futuro do único filho do seu filho prematuramente falecido. Se o vô precisasse partir, ainda que eu não houvesse alcançado independência financeira, preferiria que o seu sofrimento não fosse mais prolongado por minha causa.

A notícia de seu falecimento repentino fez com que eu desmarcasse imediatamente um compromisso agendado com um cliente em Friburgo e partisse com Núbia para Juiz de Fora outra vez a fim de comparecer ao velório e, no dia seguinte, ao enterro. Pela primeira vez, aos 29 anos, tive a oportunidade de despedir-me do corpo de alguém muito próximo, com quem houvesse convivido por um tempo considerável.

Estar num enterro ou velório de uma pessoa muito querida, por mais triste que seja, nos coloca mais perto da realidade da vida em que as distrações costumam perder todo o sentido. Ali choramos sem nos reprimirmos e ficamos desembaraçados para falar com as demais pessoas tudo o quanto precisamos dizer a elas sobre coisas que passaram.

Por outro lado, há quem nos olhe com sentimentos de julgamento e de condenação, querendo nos impor a prolongação de culpas por situações pretéritas. Nem todo mundo é acolhedor nessas horas enquanto outros são apenas educados quando transmitem as mensagens de "meus pêsames" ou "meus sentimentos".

Não passou uma década e eu ainda perdi minhas duas avós nos anos de 2011 e 2012, acerca das quais escrevi aqui no blogue nas postagens Adeus, vovó! e E vovó finalmente descansou. Com ambas, também convivi na infância, na adolescência e na idade adulta no Grajaú, tendo sido despedidas sofridas, embora menos dramáticas do que em relação ao pai e ao avô.

Atualmente, faltando menos de um ano e meio para completar a metade de um século de vida, quando já poderia ser pai e até avô, mantenho viva a memória dos nomes dessas cinco pessoas tão próximas, dando-lhes uma espécie de sobrevida em nossa meio: meu pai Francisco Carlos Ancora da Luz (1946-1983), minha bisavó Maria Nazareth de Albuquerque (????-1989), meu avô paterno Sylvio Ancora da Luz (1917-2005), minha avô paterna Darcília Ferreira da Silva Pinhão (1921-2011) e minha avó materna Marisa de Albuquerque (1935-2012).

Tive ainda outros bisavós, tios-avós e primos que faleceram, além do meu sogro, Francisco Cilense Neto (1941-2002) sobre quem ela mesma escreveu na postagem Lembranças de meu pai, em seu próprio blogue hoje em desuso. Dentre os bisavós, cheguei a conhecer uma bisavó que viveu até os 99 anos, dona Nadina Dietrich Ancora da Luz, mãe do meu avô paterno, nascida no final do século XIX, assim como todos os irmãos deste mesmo avô, os tios-avôs Arnaldo e Mário, bem como as tias-avós Ivete e Lucy, sendo que cheguei a visitá-los na rua Ibituruna, na Tijuca, quando passei a morar com vovô na segunda metade dos anos 80, sendo todos eles já idosos.

Assim termino o texto sobre os meus entes queridos que já foram, ciente que não foi possível falar acerca de todos os familiares falecidos com os quais convivi. E, como já não estão mais presencialmente aqui, resta-nos lembrar deles com gratidão e apenas cuidarmos melhor dos que hoje estão vivos, aplicando ao nosso coração a experiência de aprendizado obtida com o luto.

Que Deus nos ajude nessa tarefa diária, dando força, consolo, amor e sabedoria!


OBS: Foto de meu pai e eu na comemoração do aniversário de 5 anos, em 1981.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Um avô que completou 91 voltas ao Sol...



Nesta semana, mais precisamente na segunda-feira (27/05/2024), meu avô materno Georges completou 91 anos. 


Ele mora longe, em outro país, na cidade San José da Costa Rica, embora tenha nascido no Egito com nacionalidade de origem grega. Chegou ao Brasil por volta da metade do século passado, tendo vivido por longos anos no Rio de Janeiro onde nasceram mamãe e meus tios. 


Já não o vejo presencialmente desde a década passada, quando vovô veio visitar minha mãe em Brasília e já possuía mais de 85 translações ao redor do Sol. No entanto, graças à internet, recebi uma chamada de vídeo feita pela minha mãe que está passando uns dias com ele. 


Certamente é uma viagem que não dá para fazer sempre. Eu mesmo nunca fui até à América Central, embora tenha muita vontade de conhecer Costa Rica e também Cuba... 


De qualquer forma, sempre é uma benção termos pessoas idosas em nossas famílias sendo elas testemunhas de uma história que a maioria hoje não tem consciência. Esse avô, por exemplo, vivenciou a maior parte do século XX e praticamente um quarto do atual.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Retornando de uma agradável viagem



Neste mês de junho, tirei uns dias para passear e, desta vez, fiz uma viagem familiar, reencontrando algumas pessoas que há tempos não via.


Na última quarta-feira (21/06), saí de Mangaratiba e fui para a localidade de Arrozal, 3º Distrito do Município de Piraí. Lá fiquei na casa de uma chamada Cristina, que é "prima-irmã" de minha mãe, sobrinha do meu avô.


Já conhecia Piraí e, poucos meses atrás, havia passado pela cidade, voltando de Barra do Piraí. No entanto ainda não conhecia Arrozal e nem o valho casarão do século XIX que pertenceu à poderosa Breves. Trata-se de um imóvel que representa a prosperidade da época do ciclo do café, quando foi construído por Manoel de Souza Breves, por volta do ano de 1836 e que teve por finalidade servir de moradia na pavimento superior e comércio no térreo. Mais tarde veio a ser ampliado pelo Comendador Breves, por volta de 1856, passou por uma restauração na década passada, sendo hoje uma casa de cultura mas que que se encontra no momento fechada para a visitação.


Essa minha prima vive na localidade há uns vinte anos e chegou lá por volta do início dos anos 2000, quando veio morar lá com sua mãe e o padrasto, ambos já falecidos. Fiquei hospedado em sua casa onde dormi duas noites. Na quinta (22/06), aproveitamos para passear de modo que passamos a nossa tarde em Pinheiral, município vizinho a Piraí, distante pouco mais de 10 quilômetros de Arrozal.


Primeiro lugar visitado em Pinheiral foram as ruínas da Fazenda São José do Pinheiro, a qual foi outra propriedade do riquíssimo Comendador José Joaquim de Souza Breves, datada de 1851. Inclusive o imóvel chegou a ser uma das mais suntuosas e prósperas glebas do Vale do Paraíba fluminense, com escadarias de mármore que davam acesso à varanda em frente a sala de espera, adornada com retratos de suas majestades, o Imperador e a Imperatriz, sendo que, n salão nobre da fazenda, havia grandes espelhos de Veneza, ricos candelabros de prata, lustres, mobília, e demais adornos comuns aos palacetes da Corte, na capital do Império.


Dali, o motorista do UBER nos deixou no centro da cidade onde conhecemos a antiga estação de trem de Pinheiral cuja construção é datada de 1908. E, depois, seguimos caminhando até próximo à sede Prefeitura por onde almoçamos para retornar para Arrozal no fim da tarde. 




Na manhã de sexta-feira (23/06), parti para Volta Redonda e lá peguei outro ônibus rumo a Juiz de Fora, Minas Gerais, onde havia sido criado na infância e adolescência. Cheguei lá no final da tarde e deu para fotografar bem o percurso a partir da praça da estação ferroviária até à Avenida Rio Branco, passando pelo Parque Halfeld.


Achei o Centro de Juiz de Fora muito bem preservado com casas antigas convivendo com os altos edifícios. Vi logo mudanças na cidade com a transferência da sede da Prefeitura do prédio histórico que ocupava para outro local, sendo que o calçadão da rua Halfeld e a avenida Rio Branco mantinham basicamente as mesmas características.







Já no comecinho da noite, cheguei ao apartamento da Diva, viúva de meu avô, atualmente com 96 anos e bem de saúde. Em sua residência, morei durante partes das décadas de 80 e de 90, dormindo num quarto cuja janela se volta para a movimentada Avenida Getúlio Vargas. A maior parte desse tempo morei com ela e com meu avô paterno Sylvio, no edifício Excelsior, onde, no térreo, ficava um antigo cinema de rua que, por sua vez, deu nome ao prédio.


Da janela da frente do apartamento, ainda é possível ver o Morro do Cristo e, quanto à Avenida Rio Branco, inspirada em inteligentes modelos viários da Curitiba do Dr. Jaime Lerner (1937 - 2021), com os ônibus trafegando pelo meio, como já disse, não teve grandes mudanças. Já a Avenida Getúlio Vargas, também não reconheci muitas alterações, exceto pelo fim de um antigo casarão que existia ao lado do edifício e quanto à construção de um outro prédio, reduzindo o campo de visão que eu tinha da minha janela.



No sábado (24/06), tirei as horas da manhã para fazer uma compras de roupas a pedido da esposa já que em Juiz de Fora ainda tem muitas malharias cujos preços são mais acessíveis do que nas lojas do Rio de Janeiro ou de Itaguaí. E, depois de ter almoçado uma lasanha com a Diva, fiz uma caminhada até o Instituto Granbery, onde concluí meu ensino médio nos anos 90. Porém, o colégio Stella Matutina, no qual cursei parte do primeiro segmento do ensino fundamental, situado na Independência (atual Avenida Itamar Franco), já tinha sido ocupado por novas construções.



Passando outra vez pelo Parque Halfeld, curti um pouco das apresentações de umas bandas de rock e havia um considerável público ali de jovens e também de pessoas de meia idade, muitos até mais velhos do que eu. Também pude degustar a tradicional pipoca com queijo frito que os ambulantes vendem na rua e observei que a pastelaria móvel Mexicana, entre a Independência e a Rio Branco, continuava ali atendendo o público. 




Ainda no mesmo dia, porém de noite, fui até à pizzaria La Belle, no bairro Manoel Honório, e reencontrei Daniel que foi meu colega de turma na segunda série do Colégio Stella, mais precisamente em 1985. Atualmente, ele é músico, utiliza o nome artístico de Dan Ratz, e pude ouvi-lo tocar juntamente com seu parceiro nos eventos culturais.



Já o domingo (25/06), minha tarde foi na granja da Diva, localizada num bairro próximo à Grama. Estava fazendo sol e, embora fosse inverno, resolvi assim mesmo entrar na piscina. A água estava gelada! Almoçamos uma comida feita no fogão de lenha pela Sônia, esposa do seu sobrinho Paulo Roberto, e aproveitei para ver as flores e árvores do pomar.





Até depois de voltar do passeio na granja, fui visitar a Jurema, que foi minha terapeuta da fala e muito me ajudou na época quando me mudei pra Juiz de Fora em meados dos anos 80. Naquele tempo eu não sabia pronunciar corretamente o som das palavras com a letra 'r' quando este aparece no começo de uma sílaba entre vogais. Ficamos conversando até tarde relembrando os velhos tempos e das coisas que aprontava nos meus tempos de infância de modo que só retornei faltando quase 15 minutos para a meia noite.


Durante a estadia, não desperdicei a chance de registrar alguns objetos até hoje guardados no apartamento da Diva e que marcaram o meu tempo de infância e hoje são relíquias, como os quadros pintados pelo meu bisavô Francisco, pai de meu avô Sylvio, um relógio centenário que a mãe da Diva ganhou de casamento, uns termômetros da época do meu avô, o telefone antigo da casa e o velho Fuscão verde na garagem do prédio.










Posso dizer que o carro é mais velho do que eu! Pertenceu ao meu avô e foi fabricado no ano de 1972. Encontra-se em excelente estado de conservação e, desde que o veículo foi tirado novo da concessionária, até hoje nunca rodou o velocímetro e nem bateu, apesar de uns pequenos incidentes. Como estava num local fechado e com pouca luminosidade, não foi possível mostrar o carro por dentro, mas os bancos e toda a parte interna ainda são da época assim como o parachoque de metal, faróis e lanternas.



Enfim, retornei para Muriqui na segunda (26/06), pegando três conduções, passando pelas rodoviárias de Petrópolis e de Caxias. E, como disse, foi uma viajem mais para visitar pessoas que há muito tempo não via e lembrar das coisas do meu passado. Aliás, a última vez que vi a Diva foi em 2015 e a minha prima Cristina, acho que desde os tempos de criança nos anos 80...

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Chegando a quatro décadas e meia de vida...



Num dos mais tumultuados aniversários da minha vida, chego hoje aos 45 anos, sendo este o segundo natalício "festejado" durante a pandemia.


Não posso falar que houve uma celebração, mas, sim, uma simples comemoração com a visita presencial de apenas um amigo, além de dois telefonemas convencionais me parabenizando e várias dezenas (ou quiçá centenas) de mensagens nas redes sociais de internet espalhadas pelo Facebook, WhatsApp, Messenger, etc.


Todavia, esse foi um dos mais agitados aniversários vivenciados em que passei parte da manhã no médico acompanhando a consulta da esposa, indo depois ao município vizinho de Itaguaí fazer uma grande compra de remédios para ela e, ao retornar para casa, encontrar a residência sem luz elétrica, situação essa que perdurou até o comecinho da noite. Também cheguei a fazer umas comprinhas de alimentos durante a tarde, ficando mais uma hora pela rua.


Aniversariar na pandemia para quem decide seguir as regras de prevenção da COVID-19 é algo que parece bem estranho, mas a gente acaba tendo que aceitar. Aliás, como a minha reduzida família hoje se encontra fisicamente distante, não encontrei tantas dificuldades para me acostumar. Pois, afinal, minha mãe, a irmã e o sobrinho vivem em Brasília, sendo que tenho um irmão no Uruguai, um avô de 87 anos em San José da Costa Rica, uma tia do lado materno em São Lourenço/MG e um tio em Nova York (EUA). E, do lado paterno, embora há quase 38 anos não tenha mais pai e praticamente nenhum contato com parentes próximos, restou apenas a segunda esposa do avô paterno falecido em 2005, a qual ajudou a me criar e reside em Juiz de Fora, encontrando-se hoje com seus saudáveis e ativos 93 anos.


Talvez não seja difícil "adivinhar" quem desse pequeno grupo de parentes possa ter telefonado e, de fato, me ligaram aqueles que chegaram a este planeta antes de nós, ainda na primeira metade do século XX, havendo testemunhado, ainda que de longe, os horrores da 2ª Guerra. E podemos afirmar que viveram num mundo bem diferente do que é hoje, principalmente quanto aos avanços tecnológicos das comunicações.


Entretanto, eu diria que completar 45 anos não é pouco. Nasci em meio aos tenebrosos dias da ditadura militar e assisti ao fim daquele regime (1964-1985) sem ainda participar da política. Vi o Brasil se redemocratizar através de empolgantes eleições, com a Constituição de 1988 depois promulgada e os primeiros presidentes escolhidos pelo povo empossados (1990, 1995) até o Lula (2003) e a primeira mulher a sentar naquela cadeira (2011). Também tive a oportunidade de comemorar a conquista de duas Copas de Futebol (1994 e 2002), ingressar na universidade, conhecer Núbia (1999), concluir o curso de Direito (2004), contrair matrimônio (2006), testemunhar a maior tragédia climática do país em Nova Friburgo (2011), passar por anos de dificuldades financeiras aqui em Mangaratiba a ponto de afastar-me da minha profissão (2012 a 2017) e, finalmente, retornar ao exercício da advocacia sobrevivendo dela.


Certamente eu teria muito mais coisas a incluir nessa lista de acontecimentos, mas prefiro encerrá-la por aqui considerando suficientemente representativas tais referências. E, para concluir a postagem, também quero agradecer a todos os que me parabenizaram pelo meu aniversário, sendo que ainda não tive a oportunidade de responder a cada um pelos comprimentos pois são muitas mensagens. Porém, gostaria, desde já, de retribuir publicamente a gentileza e o afeto demonstrado. 


Um forte abraço aos meus leitores e tudo de bom!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Um parente genial que nem meu avô conheceu...

 


Nem todos guardam suas histórias de família. Uns não dão o devido valor e outros tão pouco tiveram a oportunidade de que alguém as relatassem quando ainda eram criança.


Nesse ponto, agradeço muito ao meu saudoso avô paterno Sylvio, falecido aos 87 anos, no final de maio de 2005, por ter me contado um pouco da vida de seu pai, dos seus avós paternos e maternos, e até de um bisavô dele que nem mesmo chegou a conhecer. Porém, tratava-se do homem que, praticamente, foi o tutor do seu pai, Francisco Ancora da Luz (meu bisavô), devido ao falecimento precoce do avô dele, Francisco Carlos Ancora da Luz (1858 — 1888) que, segundo a versão da família, teria morrido antes de completar 30 anos, quando se encontrava construindo uma ferrovia em Minas Gerais, onde contraiu a letal febre amarela.


Entretanto, esse bisavô do avô, chamado Francisco Carlos da Luz (1830 — 1906), e que seria meu tetravô ou tataravô (corrijam-me se eu estiver errado), teve 75 anos de bastantes realizações, sendo uma figura histórica em Santa Catarina, seu estado de origem.


Pois é. Apesar de ter ido a Florianópolis numa única vez (e há 26 anos), tenho raízes familiares nesse belo trecho do litoral da Região Sul, em que os meus primeiros ascendentes teriam migrado dos Açores para o Brasil, por volta de meados do século XVIII. E foi na localidade de Praia Comprida, bairro do Município de São José, onde Francisco Carlos da Luz nasceu, havendo, tempos depois, representado a então Província de Santa Catarina na Câmara dos Deputados.


Conhecido mais pela sua alta patente no exército brasileiro, por haver chegado ao derradeiro posto de marechal e se reformado somente quando atingiu a compulsória, eis que a menção à carreira militar e aos seus mandatos como deputado geral, de certo modo ofuscam o brilhantismo de Francisco Carlos da Luz nos campos das ciências, da engenharia e das letras, visto ter sido ele também um professor de Matemática, um pesquisador de munições e construção de ferrovias, autor de alguns livros e de vários artigos para jornais sob o pseudônimo M.R., que seriam as iniciais de "Marechal Reformado".


O bom desempenho de Francisco Carlos da Luz como aluno foi notado desde o primeiro ano de seu ingresso na Escola Militar, em 1846, aos 16 anos. Em 1849, foi promovido a 2º Tenente, com carta de engenheiro e de bacharel em matemática, sendo que uma das suas primeiras atribuições como militar foi a de coordenar a implantação de pioneira indústria metalúrgica nacional (fábrica de ferro), em Ipanema, no interior do estado de São Paulo.


Suas promoções foram rápidas dentro do Exército e, ainda como 1º Tenente, na década de 50 do século XIX, chegou a dirigir o Imperial Laboratório Pirotécnico, em Campinhos, no Rio de Janeiro, dedicando-se à sua especialidade que era o fabrico de espoletas e foguetes de alta tecnologia, o que colocou o exército brasileiro em vantagem sobre as corporações militares dos países vizinhos, gerando resultados positivos nos combates da Guerra do Paraguai.


Sendo autor de livros, Francisco Carlos da Luz fez doações frequentes para a Biblioteca Pública de Santa Catarina, inaugurada em 1855. Tais publicações encontram-se no Setor de Obras Raras da instituição juntamente com outros escritores. 


Com o incentivo do pai, José Maria da Luz, o qual era um político regional em Santa Catarina, Francisco Carlos lançou a sua primeira candidatura para a Câmara dos Deputados, pelo Partido Conservador, tendo ficado como suplente. E, antes de terminada a legislatura, assumiu a cadeira na Casa Legislativa. Já, no pleito seguinte, saiu vitorioso e tomou posse como titular na Câmara de Deputados do Império.


Naqueles velhos tempos, os militares, quando ocupavam cargos eletivos, não se tornavam reservistas como ocorre atualmente, desde a diplomação do político. Logo, com o início da Guerra do Paraguai, Francisco Carlos da Luz retornou ao Exército, foi dirigir o Arsenal de Guerra no Rio de Janeiro e só retornou às atividades parlamentares com o fim do conflito armado.


Pode-se dizer que a sua contribuição naquele período crítico não foi nos campos de batalha confrontando-se com o adversário e sim como um cientista. Aliás, Francisco Carlos da Luz não deixou de lecionar, tendo sido regente de cadeira na Escola Superior de Guerra e comandou a Escola Militar onde havia se formado.


Antes de deixar o Exército, já na época republicana, Francisco Carlos da Luz ainda enfrentou um último conflito que foi defender a então capital federal contra os navios rebeldes na Revolta da Armada. Nessa ocasião, ele exerceu o comando geral da Artilharia, mostrando, assim, a sua lealdade ao novo regime.


Como militar reformado, suas últimas atuações foram os artigos políticos publicados no já extinto Jornal do Commercio (1827 — 2016), sempre usando o pseudônimo M.R., até que veio a falecer em 1906, no Rio de Janeiro, por motivo de complicações numa cirurgia.


Com o tempo, o velho marechal acabou esquecido no Rio, mesmo tendo vivido por muitos anos na capital do país e a defendido na Revolta da Armada. Porém, recebeu muitas homenagens em seu estado, dando nome a um forte situado em São Francisco do Sul, no qual foi inaugurado o busto das fotos desse artigo, na data recente de 15/12/2016. 



Uma curiosidade sobre minha família do lado paterno é que tanto o pai, quanto o avô e o bisavô de meu avô Sylvio tiveram o primeiro nome de Francisco. Meu pai manteve essa tradição e se chamava Francisco Carlos Ancora da Luz, havendo, por coincidência, falecido prematuramente aos 36 anos, em setembro de 1983. Dois anos depois, em 1985, passei a ser criado pelo meu avô.


Desde Francisco Carlos da Luz até o meu pai, todos se aplicaram à área das ciências exatas e apenas meu avô não foi engenheiro, mas cursou dois anos essa faculdade e depois passou para a antiga Escola Militar de Realengo, vindo a escolher a arma da artilharia. Já o meu pai, não desejou e nem pôde entrar nas Forças Armadas porque era diabético.


É possível que toda essa inclinação de meus antepassados próximos para a engenharia tivesse uma influência também do lado materno pois a esposa do marechal, Maria Bárbara de Moraes Âncora (1826 — 1905), era filha de outro engenheiro militar, o português Firmino Herculano de Morais Ancora (de 1790 — 1862), construtor do Palácio das Princesas, em Pernambuco. Logo, os genes devem ter se combinado juntamente com o ambiente doméstico propício ao estudo das exatas.


Quando estudante, confesso ter sido bom com os números e até fui selecionado pela escola para disputar uma Olimpíada de Matemática no primeiro ano do segundo grau (atual ensino médio), mais precisamente no segundo semestre de 1991. Não acertei nenhuma questão, mas valeu pela experiência. Ainda assim, não tive dificuldades nessa matéria quando cursei meus exames de vestibular, mas preferi casar-me com as ciências humanas. Aliás, de todas as disciplinas aprendidas antes da faculdade, preferi História, coisa que meu pai, engenheiro mecânico, também gostava.


OBS: Imagens acima extraídas de https://www.saofranciscodosul.sc.gov.br/noticia/3950/busto-em-homenagem-a-marechal-luz-e-inaugurado 

terça-feira, 29 de maio de 2012

A causa do Reino e a família

“Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.26; ARA)

“Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10.37; ARA)


Em diversos momentos, estes e outros versículos dos evangelhos em que Jesus fala de uma oposição à família parecem-me mal interpretados. Tanto pelos críticos do cristianismo como pelos próprios crentes. Eu mesmo já fiz questionamentos aos ditos atribuídos ao Senhor sobre o polêmico assunto.

Será que Jesus estava pedindo de seus seguidores uma dedicação sectária e que o colocasse acima de todos os afetos?

Teria sido Jesus tão imaturo a ponto de querer impor um amor condicional capaz de gerar uma desajustada cristolatria no meio social?

Por acaso as suas intrigantes palavras devem inspirar ascetismo ou fanatismo?

Não podemos negar que foi com base em passagens bíblicas como esta que representantes do clero católico começaram a promover a defesa de um celibato disciplinar. Muitos padres ainda advogam a ideia de que o próprio Jesus teria encorajado outros homens a segui-lo e estabelecendo como preço o abandono dos compromissos familiares como se tais responsabilidades fossem incompatíveis com o exercício ministerial na Igreja.

Mas afinal de contas, o que a mensagem de Jesus quer mesmo nos dizer?!

Para responder a esta indagação, só posso buscar entendimento através da experimentação do Evangelho nos dias atuais por meio de pessoas que realmente dedicam-se à causa de transmitir as boas novas ao mundo.

Antes de mais nada, compartilho que, na minha visão, o compromisso da causa do Evangelho é bem mais sério do que simplesmente trabalhar para uma organização religiosa. A causa do Reino requer determinação e desprendimento do ministro eclesiástico afim de que ele contribua para a promoção de mudanças profundas na sociedade. E aí o comportamento adotado poderá desagradar a própria família em vários aspectos.

No século XIX, Friedrich Engels (1820-1895) estabeleceu bem a relação existente entre a propriedade e a família em seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884). Porém, muitos séculos antes do capitalismo moderno, Jesus teria chegado a considerações críticas não tão distantes do filósofo burguês comunista, percebendo o quanto a sociedade familiar é capaz de dificultar a ação de um membro que se propõe a se tornar um agente de transformação do Reino. Conta o Evangelho de Marcos que, após uma divergência com os fariseus, Maria e os irmãos do Senhor teriam vindo ao seu encontro porque entendiam que ele estivesse “fora de si” (Mc 3.21):

“E, quando os parentes de Jesus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si (…) Nisto chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo. Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura. Então, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Marcos 3.21, 31-34; ARA)

Ainda assim, recuso-me a aceitar a ideia de que Jesus encorajasse os seus discípulos a deixarem o relacionamento com seus pais e irmãos, mesmo que ele defendesse a mudança de conceito sobre a família que deveria deixar de ser nuclear para abranger toda a comunidade de Israel.

Ora, sem dúvida que a chegada do reino de Deus requer a tomada de atitudes existenciais, as quais, por sua vez, poderão contrariar os interesses medíocres da família. Ciúmes, preconceitos e apego à reputação de prestígio diante da sociedade são situações que podem conflitar com a vivência do Evangelho.

Baseando-me em minha própria experiência, confesso que tenho sentido um pouco desses conflitos sofridos por Jesus depois que vim morar no Rio de Janeiro ficando mais próximo da família. Até dezembro do ano passado, eu e minha esposa Núbia estávamos vivendo numa cidade onde éramos só nos dois. Mas aqui no prédio onde residimos, estando cerca de duzentos metros de minha mãe e irmãos, não demorei muito para envolver-me com a situação sócio-ambiental dos comunidades carentes no entorno do bairro. Comecei a trazer preocupações quando passei a caminhar por tais localidades, fazendo coisas que o carioca de classe média por motivo de medo, preconceito ou indiferença não costuma fazer. E quando alguém desse social sobe o morro, diz-se logo que foi para “comprar drogas”.

Realmente a maneira “escandalosa” como Jesus agia, pode ter gerado perplexidades em seu meio familiar. Voltando-se para os pobres, prostitutas, publicanos e criticando a hipocrisia dos estimados fariseus da Galileia, não demorou para que a sua própria família resolvesse tomar uma atitude quando, na certa, souberam que até escribas vindo de Jerusalém estavam acusando-o de agir possesso por Belzebu (Mc 3.22). Tanto é que Maria e seus demais filhos vieram para prender o Senhor.

Entretanto, creio que Jesus em momento algum desistiu de seus parentes. Segundo o Evangelho de João, Maria era uma das mulheres que estavam ao pé da cruz junto com o “discípulo amado” que veio a se tornar o “seu filho” (Jo 19.25-27). Entre os que perseveraram em oração nos dez dias após a ascensão e que antecederam ao evento do Pentecostes, sua mãe esteve novamente presente (At 1.14). E, pelo que se conclui a partir de outros escritos do Novo Testamento, Tiago e os demais irmãos do Senhor teriam abraçado a causa do Reino após o testemunho da ressurreição (comparar Jo 7.5; At 12.17; 15.13; 1Co 15.7; Gl 1.19).

Portanto, penso que nunca devemos deixar de lado as nossas famílias, mas também não podemos permitir que interfiram nas escolhas existenciais que fazemos, sendo certo que, mais cedo ou mais tarde, ainda seremos reconhecidos por decidirmos cumprir a vontade do Pai. Por isso, podemos crer que o discipulado de Jesus irá nos proporcionar muitos pais, mães, irmãos e irmãs através de uma vida na comunidade:

“Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.” (Mc 10.29-30; ARA)


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro retratando a crucificação de Jesus feito pelo artista italiano Gentile da Fabriano (1370-1427) que teria vivido no final da Idade Média.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Natal de 2010


Neste ano, acho que tive o Natal mais simples de minha vida e, pela primeira vez, passei a véspera, bem como o próprio dia 25, só na companhia de minha esposa (e de Deus é claro). Porém, no domingo, dia 26, reuni-me com os meus irmãos em Cristo na igreja no final da tarde.

Sempre fiquei com a família no Natal. Quando criança, esta era uma das épocas que eu mais gostava porque sempre ganhava presentes pela manhã. Às vezes, quando acordava, encontrava vários embrulhos de brinquedos no meu quarto. Diziam-me que foram deixados por um tal de “Papai Noel”.

Mesmo depois de ter descoberto por volta dos 7 anos que o Papai Noel não existia, continuava a receber presentes dos adultos. Desta vez, porém, eu já sabia quem eram os presenteadores. Alguns presentes começaram a chegar com um pouco de atraso porque nem sempre as pessoas da minha família estavam com dinheiro.

Quando morei com meu avô paterno, em Juiz de Fora (anos 80 e 90), costumávamos almoçar juntos no dia 25. Geralmente não se fazia muita coisa na véspera porque vovô sempre gostou de dormir cedo. Pois, assim que acabava o Jornal nacional, meu velho já começava a se preparar para dormir e o restante da casa costumava acompanhá-lo depois do final da novela das oito.

Assim, antes de meu avô Sylvio falecer, às vezes eu ficava com meus familiares no Rio de Janeiro, onde mora minha mãe e as duas avós. Ou, em outras ocasiões, viajava para Juiz de Fora. Porém, depois que já estava morando aqui em Nova Friburgo e tinha conhecido minha esposa Núbia, apenas por duas vezes recebi a sogra e a cunhada em minha casa, deixando de ir para o Rio.

Entretanto, quando descia para o Rio de Janeiro nesta época, eu acabava me separando por alguns dias de Núbia pois, enquanto ela estava com sua mãe em Niterói, eu ficava com a minha no outro lado da baía de Guanabara. E a nossa estadia não durava muito tempo pois, geralmente no dia 26, sempre voltávamos para a serra. No ano passado (2009), aproveitei para rever alguns irmãos da Primeira Igreja Batista de São Francisco Xavier de onde fui membro na época de adolescente e levei minha avó materna comigo afim de assistir uma linda cantata de Natal.

Em 2010, não foi possível irmos ao Rio e nem receber a sogra. Devido aos problemas reumáticos de Núbia, optamos por não sair da cidade (houve épocas este ano em que ela ficou tão incapacitada devido as dores nos joelhos que até para andar algumas centenas de metros até a clínica tínhamos que pegar táxi e não conseguia subir os degraus do ônibus). Então, resolvemos fazer o nosso Natal por aqui mesmo e convidar a sogra.

Infelizmente a mãe e a irmã de Núbia não puderam vir. Na semana do Natal, minha sogra ficou doente e telefonou dizendo que precisava ficar em Niterói. Aí, não tivemos outro jeito senão passar o Natal só nós dois, Deus e a gata Sofia que criamos desde o Natal de 2007.

Nossa ceia do dia 24 foi bem tropical e sem aquelas guloseimas típicas da festa. Por causa do severo regime de Núbia, evitei comprar coisas que pudessem prejudicar sua saúde. Preferimos comer pão árabe com pasta de grão de bico mais uma boa quantidade de frutas que não engordam tanto. Nada de panetone, peru, pernil, bacalhau, nozes, castanha portuguesa ou amêndoas. Desfrutamos de um delicioso abacaxi fatiado em rodelas e a única fruta seca ingerida foi a ameixa.

O tempo ficou instável, porém relativamente quente. Não aquele calorão do Rio pois aqui na serra, mesmo no verão, as temperaturas são mais amenas. Às vezes chovia e tinhas horas que o sol saía para aquecer o ambiente. Para aproveitar o tempo, alguei cinco DVDs de vídeo, dentre os quais um filme europeu, um japonês, duas comédias românticas norte-americanas para assistir com ela e uma produção religiosa sobre o relacionamento de um filho com o pai. De todos, gostei mais do drama japonês “A Partida”. Porém, o “Lemon Tree”, do diretor israelense Eran Riklis, também é imperdível. Principalmente para quem é advogado como eu (assistam o vídeo abaixo).

Mesmo desfrutando do sossego do Natal deste ano, senti um pouco a falta da companhia de outras pessoas. Então, no domingo, dia 26, fui com Núbia para a celebração na igreja, ocasião em que também fizemos uma ceia coletiva (não era a Santa Ceia) e um sorteio de amigo secreto que acabou sendo meu único presente do Natal de 2010 que considerei – alguns pares de meias. Durante o culto, compartilhei com meus irmãos qual o significado do nascimento de Jesus para mim, juntamente com outras pessoas.

No final, como previsto, foi aquela comilança em que cada família tinha ficado de contribuir com alguma coisa. Teve bastante bolo, panetone, um pudim, figos secos, ameixas e refrigerantes. Entretanto, o mais importante foi termos passado o Natal em união com meus irmãos louvando e cantando hinos para Deus. E, apesar de nosso encontro ter sido no dia 26, o Natal deve acontecer sempre. Aliás, foi o que escreveu em seu site o nosso irmão blogueiro Auriberto Feitosa e que também tem acompanhado esta minha página:

“O Natal ocorre todos os dias quando Cristo nasce no coração de alguém, quando alguém tem um encontro pessoal e salvífico com Ele” (artigo “Feliz Natal”,de 25/12/2010, extraído de http://auriberto.blogspot.com/2010/12/feliz-natal.html em 27/12/2010).

E aí? Conte-me como foi o seu Natal?

Para concluir, desejo que todos os dias você possa festejar o Natal em seu coração, com seus familiares, amigos e irmãos em Cristo, alegrando-se com os anjos sobre cada novo nascimento.

Segue um trailer de filme “Lemon Tree”, o qual a todos recomendo:.




Rodrigo Phanardzis Ancora da Luz

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O amor de uma grande família

- Muito bem, meu amigo. Do que é que vamos tratar hoje?
- Que tal falarmos de família?
- Família. - Refletiu por um instante. - Bom, a minha você está vendo nesta casa. - Indicou com a cabeça as fotografias nas estantes: ele, quando criança, com a avó; ele, quando rapaz, com o irmão, David; ele com a mulher, Charlotte; com os dois filhos, Rob, jornalista em Tóquio, e Jon, especialista em computador em Boston. - À luz de nossas conversas nestas últimas semanas, a família ganhou mais importância.
- A verdade é que não existe base - continuou -, não existe um fundamento sólido no qual as pessoas possam se apoiar hoje em dia, a não ser a família. Depois que adoeci, isso ficou claro para mim. Quem não tem o apoio, o amor, os cuidados de uma família, não tem muito com que contar. O amor é supremamente importante. Como disse o nosso grande poeta, Auden, "Amem-se uns aos outros ou pereçam".
- Amem-se uns aos outros ou pereçam. - Tomei nota. - Auden disse isso?
- Amem-se uns aos outros ou pereçam - Morrie repetiu. - É bom, não acha? E é tão verdadeiro. Sem amor, somos pássaros de asas quebradas. Se eu fosse divorciado, ou vivesse sozinho, ou não tivesse filhos, esta doença seria muito mais difícil de suportar. Nem sei se conseguiria. Claro que receberia visitas, amigos, colegas, mas não seria o mesmo que ter pessoas que não vão embora. Não seria o mesmo que ter uma pessoa atenta tomando conta da gente, cuidando o tempo todo.
- Isso é parte do que significa família - prosseguiu. - Não é só amor, é também fazer os outros saberem que tem alguém cuidando deles. Foi disso que senti tanta falta quando minha mãe morreu, falta do que eu chamo de "segurança espiritual", de saber que existe uma família cuidando sempre da gente. Nada substitui isso. Nem dinheiro. Nem fama. - Nesse ponto ele olhou para mim e acrescentou: - Nem trabalho.
Constituir uma família era um dos itens da minha listinha das coisas que agente quer alcançar antes que seja tarde. Comentei com Morrie o dilema da minha geração: ter ou não ter filhos, que geralmente considerávamos como entraves, como forças que nos empurram para o papel de "pai" que não queremos assumir. Admiti abrigar um desses sentimentos.
Mas, quando olhei para o meu velho professor, imaginei como suportaria o vazio se estivesse na situação dele, nas portas da morte e sem família, sem filhos. Ele criou seus dois filhos e fez deles entes amorosos e dedicados que, como o pai, não se envergonhavam de mostrar afeto. Se Morrie quisesse, os filhos largariam tudo para passar cada minuto dos meses derradeiros de seu pai ao lado dele. Mas Morrie não queria isso.
- Não interrompam suas vidas - disse-lhes ele. - Se interromperem, essa doença terá arruinado três pessoas, em vez de uma.
Assim, mesmo estando à beira da morte, ele mostrou respeito pela vida dos filhos. Não admira que, quando eles estavam com o pai, havia entre os três muita afeição, muitos beijos, muitas piadas, muito contato físico, muito enlaçar de mãos.
- Sempre que me perguntam sobre ter filhos ou não ter filhos, nunca digo o que devem fazer - disse Morrie olhando uma fotografia do filho mais velho. - Só digo que não existe emoção comparável à de ter filhos. Nada substitui essa experiência. Não se pode experimentá-la com um amigo. Não se pode experimentá-la com uma amante. Quem quiser experimentar a emoção de assumir responsabilidade total por outro ser humano, e aprender a se dedicar no grau mais alto, precisa ter filhos.

(trecho do livro "A última grande lição: o sentido da vida de Mitch Albom, traduzido por José J. Veiga e publicado no Brasil pela editora Sextante)


O diálogo transcrito acima conta a experiência real de um homem que, no final de sua vida, podia reconhecer a importância dos relacionamentos familiares.

Infelizmente, nem todas as famílias são unidas. Muitos pais, ao envelhecerem, são esquecidos por seus filhos ou colocados num asilo onde passam o resto de seus dias no meio de pessoas estranhas que nem sempre estarão dispostas a amá-los.

Por outro lado, embora isto não seja uma regra absoluta, muitos recebem dos filhos a retribuição daquilo que semearam nas vidas de seus descendentes. Pais que sempre foram incompreensivos, abandonaram suas crianças ou agiram com implicância (há sogros que destroem o casamento dos filhos), colhem na proporção que plantaram de modo que só a prática do amor pode por fim ao processo pecaminoso dentro das relações humanas.

Quando olhamos para as boas famílias nas quais há amor entre os seus entes, nem sempre somos capazes de ver a aplicação de princípios básicos de vida nas relações entre as pessoas. Porém, a partir do momento em que passamos a meditar no harmônico entrelaçamento que há entre a sequência de bons comportamentos, podemos também entender que a família é um plano de Deus para a humanidade.

Para o comunismo a família é vista como uma "instituição burguesa" contrária ao ideal de igualdade entre os homens, motivo pelo qual algumas revoluções socialistas do século XX chegaram a retirar os filhos do convívio dos pais para educá-los dentro dos valores do marxismo através de frias instituições estatais. Porém, o maior erro desta concepção esquerdista foi ter visto a família como uma instituição social integrante do modo de produção capitalista.

O relato bíblico sobre a criação de Adão e Eva, em que todos os seres humanos descendem de um só casal, nutre a ideia de que todos procedemos de uma só família. Logo, se não fosse pelo pecado, o mundo inteiro poderia ser hoje essa grande família em que todos se ajudariam.

Ainda no Livro de Gênesis, assistimos a humanidade se dividindo por várias vezes. Primeiramente foi Caim quem se apartou dos demais depois do assassinato de seu irmão Abel, afastando-se da presença de Deus (Gn 4.16). Depois do dilúvio, a humanidade manteve-se unida para um propósito ruim e foi dividida em diversas nações, passando a falar idiomas diferentes. Foi então que Deus resolveu criar um povo santo para si - os israelitas - que fosse capaz de amar.

Curiosamente, nem a nação de Israel, que recebeu a Torá de Moisés, conseguiu ser essa família unida. Além do reino se dividir em dois com a morte de Salomão, os israelitas viveram em condições de desigualdade durante quase todo o tempo, desamparando órfãos e viúvas, oprimindo o pobre e o estrangeiro, praticando a usura, a escravidão e a injustiça, conforme denunciaram os profetas.

Quando a Igreja surge na época apostólica, aquela comunidade de discípulos de Jesus formada em Jerusalém conseguiu, por certo tempo, viver como uma verdadeira família (Atos 2.42-47; 4.32-35). Todos tinham um só coração e se achavam unidos com um propósito positivo - amar pessoas. Viviam o Evangelho com sinceridade a ponto de se desfazerem de seus bens para distribuírem o produto da venda entre os necessitados. Anos depois, quando novas comunidades surgiram pelas diversas nações existentes no mundo romano, nem a distância foi capaz de segurar este amor como se vê nas ajudas que as igrejas faziam entre si nos tempos de dificuldades, enviando doações de um continente ao outro em épocas de fome. Inclusive, tanto o livro de Atos como algumas epístolas de Paulo falam sobre a ajuda que eram recolhidas em favor dos irmãos que viviam na província da Judéia.

Não acho que a Igreja de Atos fosse perfeita. Tratava-se de uma Igreja formada por gente igual a nós, pois todos eles eram pessoas sujeitas às mesmas tentações e falhas de caráter. As lideranças também se desentendiam e dentro das comunidades surgiam falsos mestres, hereges, homens gananciosos e adúlteros que resistiam ao arrependimento. Nas cartas às sete igrejas de Apocalipse, podemos perceber claramente que apenas duas não foram reprovadas por Jesus.

Para não perder o foco deste texto, dispenso comentários sobre os crimes hediondos praticados pelos que se diziam cristãos no decorrer da História, os quais não frustram o ideal de ser a Igreja a grande família de Deus. O sonho de Jesus de construir o Reino de Deus através de uma Igreja que se ama permanece vivo, pois basta que estejamos dispostos a nos amar de verdade como Cristo nos amou.

Neste sentido, acredito que a nossa família natural serve apenas como um símbolo do projeto de Deus para a humanidade. O primeiro sentimento que une os pais aos filhos é a afeição que se baseia num instinto de proteção da cria. E, no caso do amor entre os cônjuges, também o primeiro sentimento é a atração erótica que a mulher faz despertar no homem. Só que estas duas manifestações da emoção humana não superam o ágape que é o termo grego usado para o amor bíblico, algo que está além dos sentimentos pois se baseia numa escolha espiritual de querer amar o próximo incondicionalmente a exemplo do bom samaritano da parábola de Jesus que nem conhecia o moribundo caído na estrada.

"We must love one another or die" (Devemos amar uns aos outros ou morrer), disse o inglês Wystan Hugh Auden em seu poema "September 1, 1939" citado Mitch Albom em seu diálogo. Porém, se retirarmos a conjunção "ou" substituindo-a por "e", a frase certamente ficaria deste jeito: AMEMOS UNS AOS OUTROS E VIVEREMOS!

Sem dúvida que se o mundo inteiro resolver se amar (não se aprende o maior dos mandamentos do dia para a noite), conseguiríamos projetar uma imagem do Paraíso na Terra. Toda a humanidade poderia dormir com portas abertas. Viveríamos sem muros como uma única família, compartilhando nossos bens, talentos e conhecimento em benefício uns dos outros. Com isto, os bancos iriam à falência, existiria menos exploração do trabalho alheio e os policiais, bem como os soldados, precisariam ser aproveitados em outro setor do funcionalismo público.

Não acredito que, enquanto o amor ainda conflitar com o ódio toda a humanidade se tornará esta tão sonhada família. Acredito sim que a Igreja poderá refletir uma imagem desse grandioso amor num planeta onde ainda reina o pecado, cumprindo imperfeitamente a sua função de "sal da terra" e "luz do mundo". Então, consequentemente, o mundo poderá receber a influência desse amor cristão e conhecer a verdadeira Vida.