Este blogue tem por objetivo divulgar aquilo que eu penso. Escrevo não somente assuntos jurídicos como também comento sobre política, religião, sexualidade, filosofia, questões locais da cidade onde moro e tudo o que me vem na cabeça. Quem desejar fazer seus comentários, fique a vontade. Aqui não tem censura!
quarta-feira, 17 de julho de 2013
É preciso ponderação diante dos protestos de branco
Tão logo o governo federal anunciou mudanças na saúde como, a contratação de médicos estrangeiros e o oferecimento de um salário de dez mil reais, começaram a surgir diversos protestos corporativistas no país dessa importantíssima categoria profissional.
A meu ver, é preciso que haja ponderação diante do que os médicos têm reivindicado e da maneira como ocorrerá a ampliação da oferta de profissionais no SUS. Deve-se considerar, a princípio de conversa, que o nosso Brasil tem um número de médicos relativamente baixo, na proporção de 1,8 para cada mil habitantes, o que é pouco se comparado com países desenvolvidos como a Inglaterra onde o índice é de 2,7. As faculdades de Medicina hoje existentes não conseguem dar conta da demanda! Para as 147 mil novas vagas no mercado de trabalho, surgidas nos últimos dez anos, apenas 93 mil profissionais foram formados neste período.
Além do mais, a distribuição de médicos pelo território nacional chega a ser bem desigual. Existem 1.900 municípios com menos de um médico por 3 mil habitantes. Sem esquecermos que, até nos próprios grandes centros urbanos, temos unidades com carência de profissionais nos bairros de periferia. Nem todos os formados estão dispostos a começar suas carreiras nos hospitais interior, o que é lamentável porque muitas regiões distantes e de expansão populacional acabam oferecendo serviços de saúde bem precários. Inconcebível para o nosso desenvolvimento sócio-econômico!
Por outro lado, os médicos não deixam de estar com a razão quando reclamam das condições de trabalho. Concordo que faltam mais leitos, equipamentos, meios de se fazer um bom diagnóstico e espaço adequado. Não basta o governo pagar um salário de dez contos mensais se falhar com os outros investimentos e com a gestão dos recursos achando que os doutores farão milagre. Só que um erro jamais justifica o outro!
Assim, penso que a sociedade deve observar tudo com o máximo ponderação. Não se resolverá o problema da saúde de uma maneira atabalhoada, mas também precisamos sempre desconfiar do excesso de corporativismo que muitas das vezes é capaz de se contrapor aos interesses do país e do próprio cidadão. Uma das soluções a serem buscadas, no meu ponto de vista, seria o governo investir em novos cursos de Medicina de qualidade nas instituições públicas de ensino, abrindo mais vagas nas universidades. Principalmente para que, ainda no final desta década, possamos contar com uma presença maior de profissionais brasileiros no mercado de mão-de-obra especializada dentro da área médica.
OBS: Imagem extraída do site da Agência Brasil em http://www.ebc.com.br/noticias/saude/2013/07/dilma-sanciona-ato-medico-com-vetos
"Não temas, crê somente"
O capítulo 8 de Lucas, depois de apresentar duas parábolas e uma curta narrativa sobre o encontro que a família de Jesus queria ter com ele, passa a tratar então da questão do medo e da fé em quatro episódios sequenciais.
Como escrevi nos dois artigos anteriores, tanto na tempestade acalmada quanto na cura do endemoniado geraseno, as pessoas foram controladas por seus temores. No barco, os discípulos acordaram o Mestre achando que iriam perecer (verso 24). Já em Gerasa, a comunidade local amedrontou-se diante das mudanças provocadas pela chegada do Reino de Deus, quando viram o homem curado aos pés de Jesus, e pediram ao Senhor que se retirasse daquela região (v. 37).
Ao retornar de sua viagem, dois novos milagres serão marcados dessa vez pelos sentimentos de coragem e de ousadia: a cura da mulher com hemorragia e a ressurreição da filha de Jairo. Em ambos, a fé prevalecerá sobre a aparência das circunstâncias através das atitudes de pessoas que, insistentemente, lutaram até o fim pelas coisas por elas desejadas.
Jairo foi um homem que não se conformou com nenhuma notícia ruim sobre o estado de saúde de sua filha adoentada. Tendo ele uma posição de destaque na sinagoga onde regia o culto e, consequentemente, na própria comunidade também, não se importou sobre o que iriam pensar ou dizer a seu respeito, caso não fosse abençoado. Quando procurou por Jesus, diz o texto que a menina "estava à beira da morte" (v. 42).
Jesus não se recusou a ir até sua casa curar a mocinha e, quando estavam a caminho, seguidos por uma multidão, aproximou-se uma mulher que sofria de uma hemorragia crônica há 12 anos e encostou nas vestes do Salvador. Imediatamente, ela ficou curada de sua doença e o Mestre percebeu que algo fora de comum acontecera. Aquele não fora um toque comum como os outros apertos da multidão em sua volta.
"Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder" (v. 46)
Segundo Levítico 25:15, o fluxo de sangue menstrual tornava tal mulher cerimonialmente impura, excluindo-a de vários relacionamentos dentro da sociedade judaica. Além de conviver com a doença, ela também lidava com a rejeição das pessoas. Quem tocasse em seu corpo, nas suas vestes, ou na cama onde dormia, tornava-se também temporariamente imundo.
Que ousadia teve ela ao tocar em Jesus! Sem dúvida que muitos líderes, pregadores, mestres da lei, levitas e, principalmente sacerdotes, deveriam evitar qualquer conato físico com ela. Se teve marido algum dia, este pode tê-la deixado ou então nunca se casara já que a cada ato sexual custaria-lhes um sacrifício no Templo, segundo as leis de purificação do judaísmo conhecidas através do Talmud Babilônico (M. Niddah 2:1b-5). De acordo com o texto de Lucas, ela tivera bens, mas gastou tudo com os médicos sem conseguir alcançar o resultado. Ainda assim, a sofrida mulher buscou forças para não desistir e foi atrás de Jesus.
Fico pensando sobre o que seria daquela mulher se, após tocar nas vestes, não fosse curada? Certamente, ela seria publicamente humilhada e mais rejeitada do que já era. Como havia uma multidão de pessoas atrás do Mestre, era mais provável que ninguém descobrisse nada. Só que ela percebeu a ocorrência de um milagre em seu corpo e se apresentou voluntariamente diante do Mestre. Até mesmo porque precisava obter o reconhecimento da cura para ser socialmente reabilitada. A declaração de Jesus era o que lhe faltava e foi preciso coragem e confiança naquele momento:
"Então, lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz" (v. 48)
Interessante que Jesus não atribuiu a si mesmo a causa da cura, mas sim à atitude daquela mulher. Ele mesmo sabia que o seu corpo servia apenas de canal para o Espírito de Deus agir. Todos poderiam exercer a fé independentemente de sua pessoa! Talvez, por motivo de infantilidade espiritual, muitos condicionassem a necessidade de um toque físico para a obtenção da cura. Porém, ao dizer que a fé da própria pessoa trouxe salvação, nosso Senhor estava ensinando o caminho da maturidade. Foi esta a mesma advertência dada aos discípulos anteriormente no barco após acalmar a tempestade:
"Onde está a vossa fé?" (v. 25)
Ao que parece, nem houve tempo de Jesus dizer mais coisas após a cura da mulher. Enquanto falava, veio alguém trazendo uma triste notícia da casa de Jairo. A filha deste acabara de falecer. São duras as palavras ditas na ocasião e capazes de produzir o mais profundo desânimo:
"Tua filha está morta, não incomodes mais o Mestre" (v. 49)
Que bomba! Jesus já estava a caminho da casa do chefe da sinagoga e este havia se humilhado suplicantemente para que o Senhor fosse curar a sua única filha. Com a notícia, ele tinha acabado de perder até a oportunidade de ficar ao lado da menina nos últimos instantes da vida dela, tendo que lidar com o seu sofrimento diante de um público sequioso em que cada qual parecia estar mais preocupado em resolver a própria situação através de Jesus. A multidão nem ao menos se comoveu.
A impressão que tenho seria que muitos viam Jesus como um objeto de cura para solucionarem os seus problemas imediatos. Formava-se uma fila de pessoas ansiosas para alcançarem bençãos, porém quase sempre desinteressadas das boas novas do Reino. Nessa busca pelo milagre, o amor talvez ficasse esquecido. Tanto é que o noticiante, por nem vislumbrar a possibilidade de uma ressurreição ocorrer, pede a Jairo para não incomodar mais o Mestre. A fila anda e outros tinham que ser atendidos!
Todavia, Jesus se importava com a dor daquele homem e de sua esposa. Os milagres que operava não tinham por finalidade provar algo grandioso a seu respeito para que o Mestre viesse a ser logo reconhecido como Messias. Antes eram sinais da chegada do Reino e atitudes de compaixão para com o próximo. Diante das palavras que Jairo acabara de ouvir, o Senhor o encorajou a manter a fé:
"Não temas, crê somente, e ela será salva" (v. 50)
Jairo passava a ter duas opções: aceitar a derrota ou crer na vitória. E, deparando-se com os fatos, ele preferiu ter fé acolhendo em seu coração aquelas palavras de ânimo. Sem saber o que estava para acontecer, levou Jesus para a casa e entrou com ele no local onde se encontrava o corpo, enquanto todos choravam. O Senhor, então toma a mesma atitude de consolo que teve no funeral da viúva de Naim (7:13), dizendo-lhes o seguinte:
"Não choreis; ela não está morta, mas dorme" (v. 52)
Além de consolar, Jesus estava ensinando ali que o evento conhecido como "morte" não passa de mera aparência. Algo que pode ser comparado a um sono visto que a alma de todos nós é eterna. E, neste sentido, as três ressurreições registradas no 3º Evangelho vem confirmar a extensão das boas novas do Reino, valendo lembrar da resposta dada a João Batista em 7:22 e das palavras que, no capítulo final de Lucas, serão ditas às mulheres quando foram levar aromas ao túmulo do Salvador (24:5-6).
Pessoas escarnecedoras começaram a caçoar de Jesus quando ouviram o que fora dito no verso 52. Nenhuma delas ali foi capaz de demonstrar fé e nem respeito pela dor dos pais. Embora o texto não diga quem eram aqueles sujeitos, supõe-se que estivessem no local pranteadores profissionais que eram remunerados para fazer lamentações em funerais, conforme os costumes culturais do antigo Oriente Próximo. Só que o nosso Senhor resolveu se opor ao ambiente de luto da mesma maneira como reagiu à notícia de derrota transmitida anteriormente a Jairo.
No exercício da nossa fé, muitas vezes iremos lutar contra a negatividade dos outros. Precisamos estar preparados para lidar com as palavras contrárias e não darmos crédito em nossos corações ao que dizem tais pessoas sem propósito. Nestas horas, devemos imaginar o Salvador do nosso lado incentivando-nos a ter fé e vencer o medo.
A terceira ressurreição registrada em Lucas será a do próprio Senhor que, definitivamente, ensinará sobre a eternidade do ser humano, cujo espírito sobrevive à destruição do corpo físico. Com isto, torna-se completa a mensagem das boas novas. Mas para aquele momento, bastava que a filha de Jairo fosse reunida ao seu corpo mortal como no acontecimento de Naim. E a diferença para a primeira ressurreição foi que, na casa de Jairo, somente os pais e os três discípulos mais íntimos testemunharam o ocorrido. Mais ninguém teria que saber daquilo.
Considerando que muitos sepultam seus parentes, cônjuges ou amigos e, raramente, acontecem milagres de restituição do espírito ao corpo já falecido (o que a ciência tem estudado ultimamente são as experiências de quase morte - EQMs), as palavras de Jesus precisam ser lembradas nos momentos de luto que enfrentamos. Para quem crê nas boas novas, ninguém que partiu daqui está mesmo morto! A alma continua viva e a ausência que sentimos da pessoa não passa de um simples sono. Um dia reencontraremos os nossos entes queridos e, quando chegar a hora de deixarmos esta morada terrena, não precisaremos temer. Apenas crer, e seremos salvos.
OBS: A ilustração acima refere-se à gravura Ressurreição da filha de Jairo do pintor e desenhista francês Paul Gustave Doré (1832-1883). Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:R%C3%A9surrection_de_la_fille_de_Jairus,_par_Gustave_Dor%C3%A9.jpg
terça-feira, 16 de julho de 2013
As prisões espirituais de uma comunidade
Escrever sobre os exorcismos de Jesus não costuma ser um dos temas preferenciais de um pensador liberal da Teologia. Porém, equivoca-se quem me rotula enquadrando-me numa ou em outra tendência, seja nos campos religioso ou político. Leio autores de todos os tipos e procuro chegar às minhas próprias conclusões. Assim, num estudo sequencial sobre o Evangelho de Lucas, iniciado desde junho do corrente ano de 2013, não vou simplesmente pular o episódio da cura do endemoniado geraseno (Lc 8:26-39) ainda que jamais consiga abordar suficientemente todos os detalhes de qualquer passagem bíblica comentada.
Após vencerem a tempestade de ventos no Mar da Galileia (8:22-25), como analisei no texto anteriormente publicado, Jesus e seus discípulos chegam à terra dos gerasenos, região identificada na geografia histórica de Israel como Decápolis. Eram, na verdade, dez cidades gregas dentro do território dos judeus onde gentios habitavam com certa autonomia administrativa reconhecida pelo Império Romano. Embora o Evangelho de Mateus identifique o lugar como Gadara, e não Gerasa, o que me parece mais lógico por causa da menor distância em relação à margem do lago, suponho ser um detalhe de pouca importância para a nossa reflexão. A meu ver, o autor do 1º Evangelho, situado numa localidade mais próxima da Palestina, pode ter corrigido um equívoco do anterior livro de Marcos do qual o texto de Lucas também dependeu, obviamente sem fazer tantas modificações.
A visita do grupo a uma região ocupada pelos gentios significou o anúncio prévio de que as boas novas viriam a ser pregadas a todos os povos após a morte de Jesus (24:46-47). Por outro lado, tendo o Senhor se concentrado ministerialmente no resgate das ovelhas perdidas da casa de Israel, sua passagem pelo território das Dez Cidades seria um apelo para os que habitassem no meio de seu povo também se tornassem co-participantes da nova realidade pregada pelo Mestre - o Reino de Deus. Afinal, a própria Lei de Moisés sempre foi inclusiva para com os estrangeiros peregrinos e exigia de tais pessoas uma conduta mais apropriada no meio da nação judaica. Sendo os israelitas dominados por Roma, Jesus só poderia integrar os que pisavam o seu país de uma outra maneira que seria sugestiva e nunca coercitiva.
O que Jesus encontrou logo de cara foi uma resistência. Assim que desceu da embarcação, veio ao seu encontro "um homem possesso de demônios" (8:27). Informa o escritor sagrado sobre a sua aparência, o qual "havia muito não se vestia, nem habitava em casa alguma, porém vivia no sepulcros". Também diz o texto que o espírito imundo "muitas vezes se apoderava dele" e que os moradores da região não conseguiam prendê-lo porque "tudo despedaçava e era impelido pelo demônio para o deserto" (verso 29).
O termo traduzido para o português por "demônio" tem uma ampla significação no idioma grego no qual foi escrito o Novo Testamento. Trata-se do mesmo vocábulo utilizado para "deuses" em Atos 17:18 bem como "seres sobrenaturais". Logo, podemos dizer que o autor referia-se a consciências não físicas, espíritos que estavam assediando o corpo e a mente de outra pessoa, cansando-lhe danos. No caso em tela, seria um distúrbio de ordem comportamental capaz de gerar um estado de inconsciência, nem que seja aparentemente por viciar a sua vontade.
Vários estudiosos da Bíblia com uma visão mais cética tentam identificar qual seria a doença do geraseno, relacionando-a muitas das vezes com a epilepsia. Dentro deste entendimento, o homem padeceria somente de males de ordem psíquica, diagnosticados na época como sendo de origem espiritual, mas que teria alcançado a cura para as suas emoções num encontro com Jesus. Só que o texto diz mais coisas que não autorizam uma conclusão agnóstica a partir do que está lá escrito.
De olho nesta lição, penso que devemos tomar precauções antes de afirmar cabalmente que algo seja de origem espiritual ou não. Erros podem ser cometidos por qualquer tipo de generalização. Um problema de saúde pode ter causa espiritual, psíquica, ou depender de ambas. Neste caso, o processo de cura vai requerer também a ajuda de um trabalho terapêutico com o acompanhamento de psicólogos e, quem sabe até, auxiliados por psiquiatras e/ou neurologistas. Só que a ausência do apoio espiritual pode tornar-se igualmente uma omissão capaz de manter o indivíduo doente preso a uma situação não diagnosticada pela ciência. Ou então, os médicos atribuirão um CID qualquer considerando a enfermidade como "incurável".
Quantos pacientes não vivem inconscientemente por aí como, na verdade, poderiam ser libertos através da assistência espiritual? É dever da Igreja de Cristo atuar também nesta área por meio de orações e atitudes de fé! Através da mesma autoridade dada por Deus ao nosso Senhor, podemos proibir o assédio de consciências extrafísicas sobre a vida das pessoas, tarefa esta que precisa ser realizada com discernimento e exclusiva orientação do Espírito Santo.
No caso do geraseno (não me importa se a memória registrada nos evangelhos seja histórica ou teológica), o espírito que o obcecava conhecia a autoridade do Mestre como acontecera no episódio de 4:34. As ações feitas por Jesus aqui na Terra ganhavam repercussões no mundo espiritual já que se trata de uma realidade só que apenas os nossos olhos limitados não enxergam. Contudo, assim que o homem veio na direção do Senhor, ele percebeu algo de sobrenatural, digamos assim, e a ação maligna foi repreendida. É iniciado um diálogo onde o demônio manifesta o desejo de entrar numa manada de porcos que por ali pastava ao invés de ser enviado para o "abismo" (vv. 31 e 32).
A presença de porcos em Israel era algo que demonstra contrariedade aos costumes de pureza dos israelitas. Seria até uma ofensa aquela criação de suínos pois se tratava de uma carne que não fazia parte da dieta judaica e o próprio cadáver do animal era entendido como fonte de contaminação cerimonial. Só que os moradores dessa região situada a Sudeste do Mar da Galileia eram estrangeiros vivendo na Terra Santa de modo que tal detalhe tem importância para todo o texto e, talvez, ajude a explicar o motivo de Jesus permitir que os demônios atacassem a manada.
Mas será que Jesus permitiu os demônios entrarem nos porcos apenas porque aquelas comunidades estrangeiras das Dez Cidades ofendiam frontalmente os costumes de seu povo?
Não haveria alguma relação entre o homem possesso de espíritos imundos e os demais gerasenos?
E estes não davam alguma legalidade no mundo espiritual para que o mal continuasse atuando no ambiente social?
Suponho que, por razões de ordem ética, toda a comuna estabelecia um relacionamento de prisão espiritual entre os seus membros. O homem liberto por Jesus até então atraía para si aquele mal refletindo uma situação que era coletiva. Ele era ao mesmo tempo um refém dos próprios compatriotas que jamais desejaram solucionar seu problema. Tentavam segurá-lo sem qualquer sucesso e fico a indagar se, no fundo, muitos não gostavam de tê-lo continuamente naquele estado.
Com a vitoriosa expulsão do mal, os gerasenos reencontraram o homem desta vez "vestido, em perfeito juízo, assentado aos pés de Jesus" (v. 35). Ninguém ali se alegrou com a sua restauração que é contrastada com o comportamento anteriormente descrito na narrativa bíblica. O sentimento que toma conta da mente daquelas pessoas passa a ser um medo aterrorizante. Por isso, pedem então a Jesus para se retirar do meio delas (vv. 35-37).
Afinal, o que os gerasenos temiam?
Seria o desconforto pelo rompimento daquilo que tanto os oprimia?
A liberdade proposta pelas boas novas do Reino em seu aspecto prático importaria para a comunidade a perda de algo ruim mas que os seus membros tanto estimavam?
Se refletirmos novamente na perda dos suínos, com estes simbolizando uma vida entregue ao pecado, podemos nos aproximar da resposta. Para uma pessoa ou comunidade tornar-se verdadeiramente livre, importa afastar-se do comportamento que a aprisiona. Certos tipos de condutas podem conceder legalidade à ação de espíritos malignos. A glutonaria assim como a embriaguez, a prostituição, a feitiçaria, a idolatra, os assassinatos e as injustiças sociais tornam-se portas de entrada para o mal. O praticante encontra algum prazer nestas coisas e os demônios também. Como consequência de um envolvimento coletivo, alguns membros da comunidade passam a manifestar com maior intensidade a mesma realidade da qual todos participam sem nunca perceberem. O endemoniado de Gerasa, talvez, tivesse até um dom de se relacionar mais intimamente com o mundo espiritual, mas estava com a sua capacidade comprometida devido ao assédio extrafísico que sofria.
Para não me alongar demais a ponto de transformar suposições puramente hipotéticas em mais uma doutrina parapsíquica, indo além do texto em estudo, contento-me com as coisas ali reveladas. O Evangelho trás uma liberdade verdadeira com implicações espirituais, éticas e sociais. As boas novas do Reino propõe aos homens uma novidade de vida que requer um nível de comprometimento dos receptores da mensagem com a prática dos ensinamentos.
Ainda não tinha chegado o momento de Gerasa e as demais cidades gentílicas da circunvizinhança compreenderem o propósito do Evangelho. Jesus entende e respeita isso, abstendo-se de cometer um assédio às consciências daquelas pessoas. Eles pedem ao Mestre que saísse do meio onde viviam e o Senhor, em momento algum, impõe sua presença ou as ideias que expressava. Todavia, o que estivera endemoniado permanece na região de origem para testemunho do benefício a ele ministrado. Torna-se um seguidor de Jesus à distância e, ao mesmo tempo, um missionário que se reintegra à sua família e ao convívio social.
"Então, foi ele anunciando por toda a cidade as coisas que Jesus lhe tinha feito" (8:39b)
OBS: A figura usada acima trata-se de uma ilustração da época medieval sobre o episódio bíblico em comento - o exorcismo do geraseno. Extraí do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Healing_of_the_demon-possessed.jpg
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Ensinando a enfrentar o "mar"
"Onde está a vossa fé?" (Lucas 8:25)
O conhecido episódio dos evangelhos, em que Jesus acalma uma tempestade, é uma das mais interessantes narrativas do Novo Testamento sobre como lidarmos com as dificuldades enfrentadas no nosso ministério e também no cotidiano.
Na imagística bíblica (e também em outras literaturas míticas do antigo Oriente Próximo), os mares seriam representações do caos e da morte, sendo também figura comum para os homens maus e as poderosas nações pagãs inimigas de Israel - o "bramido dos grandes povos" (Isaías 17:12). Contudo, a agitação das ondas que ameaça a ordem criada é vencida por Deus, como se lê ricamente na poesia dos salmos a exemplo deste verso:
"Dominas a fúria do mar;quando as suas ondas se levantam, tu as acalmas"(Sl 89:9; ARA)
Em seu ministério, pode-se dizer que Jesus lutou constantemente contra esse "mar", sofrendo pressões, perseguições, tentações, rejeições e ataques do mundo espiritual. Tal como ele, seus discípulos precisariam aprender a lidar com a oposição que surgiria contra a Igreja quando passassem a proclamar as boas novas do Reino de Deus. Por isso o Mestre os treinava e aquela tempestade de ventos no lago de Tiberíades, por onde costumavam trafegar e pescar, formaria o cenário ideal para o ensino de nosso Senhor.
Sabe-se pela Geografia de Israel que o Mar da Galileia é um espelho de água doce que se encontra mais de 200 metros abaixo do nível dos oceanos. É cercado por montanhas, as quais canalizam o vento frio para lá podendo causar tormentas repentinas. E, pelo que se lê na passagem bíblica em estudo do 3º Evangelho, Jesus e seus discípulos estavam indo de uma margem a outra (Lc 8:22), de maneira que, talvez, tenham sido surpreendidos no meio da viagem.
Como você se sentiria numa situação semelhante a dos discípulos estando, quem sabe, alguns quilômetros de qualquer uma das margens do lago e com um vento forte agitando seu barco, mesmo sabendo nadar?
Quando o fenômeno aconteceu, Jesus estava dormindo na embarcação, mas os discípulos ficaram apavorados. Despertaram então o Mestre que, ao acordar de seu sono, "repreendeu o vento e a fúria da água. Tudo cessou e veio a bonança" (verso 24).
Pela admiração dos discípulos que se seguiu ao milagre, a ponto de levantarem indagações sobre a identidade de Jesus, suponho que não tivessem aprendido a lição ainda naquele momento. Pois, quando questionados sobre onde estaria a fé deles, entendo que o nosso Senhor não queria que os seus seguidores criassem uma dependência em relação à sua pessoa e nem entrassem em desespero diante de situações como aquela. Dias viriam em que a Igreja enfrentaria outros tipos de tormentas como as necessidades materiais, as perseguições, os castigos físicos, as prisões injustas, as ameaças de morte e até o martírio pela causa do Evangelho.
Na sequência dos acontecimentos narrados em Lucas, Jesus e os discípulos chegarão nos versículos seguintes à terra dos gerasenos onde vão se deparar com o caso de um homem "endemoniado", do qual sairá uma "legião" de espíritos impuros que o assediavam (versos 26-34). Uma situação que parece estar relacionada também com o ambiente sócio-espiritual do lugar. E, neste sentido, tornava-se necessário o exercício da fé para a Igreja dos primeiros séculos, destinatária do 3º Evangelho, também aprender a ser vitoriosa contra os poderes do mal. Logo, aquela tempestade de ventos prenunciou tanto o acontecimento literário posterior como a lutas do ministério apostólico e que são nossas também. E acrescentaria ainda que a narrativa da tempestade acalmada torna-se uma mensagem bem ampla capaz de alcançar os mínimos detalhes das nossas vidas:
Como é que enfrentamos as dificuldades?
Num primeiro momento, quando o problema se apresenta, entramos logo em desespero?
O sentimento angustiante de instabilidade chega a tomar conta dos nossos pensamentos e ações?
Você se lembra de orar durante as "tempestades" e consegue se recordar de que tem um Deus vivo ao seu lado?
Não importa como iremos responder a estas perguntas porque somos todos aprendizes da vida e temos um professor maravilhosamente compreensível chamado Jesus. Do mesmo modo como o Mestre ensinou aos seus discípulos, ele também ministra aos nossos corações hoje. Assim, ao se deparar com um problema, não se importe com a sua extensão. Precisamos encará-lo com o olhar da fé. Deve-se ter muita calma nessa hora, buscar entender as causas da situação, fazer uma análise sob todos os aspectos (inclusive o espiritual e o psicológico) e tomarmos a atitude eticamente correta, sempre levando a Deus todas as coisas por meio da oração.
"Então, na sua angústia, clamaram ao SENHOR.e ele os livrou das suas tribulações.Fez cessar a tormenta,e as ondas se acalmaram.Então se alegraram com a bonança;e, assim, os levou ao porto desejado."(Sl 107:28-30)
Nesse mundo pode haver aflições, mas estas não vão ocorrer o tempo inteiro. Também há instantes de bonança (principalmente dentro de nossos corações) e o Eterno não nos deixará perecer no caos. Sobre as muitas águas reina o Deus da glória cuja voz poderosa se faz ouvir em toda a Terra.
domingo, 14 de julho de 2013
O progresso no Reino de Deus e a família
"Vieram ter com ele sua mãe e seus irmãos e não podiam aproximar-se por causa da concorrência de povo. E lhe comunicaram: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te. Ele, porém, lhes respondeu: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam." (Lucas 8:19-21; ARA)
Os evangelhos não escondem o conflituoso momento experimentado por Jesus no relacionamento que teve com a família durante o período de seu ministério. Já em sua infância, segundo a tradição bíblica exclusiva de Lucas, seus pais "não compreenderam" os motivos da explicação do menino porque havia ele permanecido entre os doutores do Templo após o término da celebração pascal (Lc 2:50). E, provavelmente, os parentes do Senhor não conseguiram acompanhar a evolução espiritual que teve mesmo convivendo tão próximos debaixo de um mesmo teto.
A citada narrativa do 3º Evangelho sobre o conflito de Jesus com a família apresenta-e bem resumida se comparada com o texto paralelo de Marcos. Suponho que os leitores originais dos dois primeiros séculos talvez já conhecessem o episódio acima tal como relatado no 2º Evangelho, do qual Mateus e Lucas dependem. Por isso, o autor preferiu mencionar o polêmico fato numa perspectiva mais sequencial, no sentido de confirmar a necessidade do seguidor ouvir e praticar a Palavra de Deus. Como havia escrito no artigo anterior, Corações que podem dar muitos frutos, as parábolas do semeador e da candeia são organizadas em Lucas para que os ouvintes da mensagem pregada refletissem sobre como estavam recebendo as boas novas do Reino em seus corações. Por duas vezes o Mestre assim concluiu:
"A [semente] que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perseverança." (8:15)
"Vede, pois, como ouvis" (8:18a)
Assim, propositalmente, o escritor sagrado parece alterar o texto de Marcos onde Jesus considera como sendo seu parente "qualquer que fizer a vontade de Deus" (Mc 3:35). Ou seja, diz-se a mesma coisa mas com palavras diferentes aplicadas a um outro contexto literário.
Ao ler isoladamente a narrativa de Lucas, é certo que muitos se surpreendem por que teria Jesus tratado a mãe e os irmãos de uma maneira que nos parece até rude como se os familiares estivessem sendo repudiados. Penso, porém, que, se as antigas comunidades cristãs destinatárias do 3º Evangelho já conheciam Mc 3:21, onde se diz que os parentes do Mestre "saíram para o prender", fazia-se desnecessário o escritor bíblico entrar em maiores detalhes para não perder o foco do seu relato. Pois, neste caso, os leitores originais já entendiam com clareza que a obra do Reino deve ser colocada acima das relações de família quando estas tornam-se contrárias ao desígnio divino.
Sem compreenderem o serviço ministerial do Mestre, tal como havia ocorrido quando ele ainda menino fora achado entre os doutores do Templo, seus parentes ainda não estavam ouvindo corretamente a Palavra de Deus. Por isso, os dois episódios descritos em Lucas, envolvendo os conflitos familiares de Jesus, estão bem entrelaçados como integrantes de uma realidade só apresentada em todo o livro:
"Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu pai?" (2:49)
O recado já estava dado e se complementa também com um trecho do Magnificat (ver 1:51-53) e com as palavras do velho Simeão (2:34-35). A esta altura do seu ministério, Jesus já era alvo de contradição como profetizado a seu respeito. O acolhimento irrestrito dos pecadores era motivo de escândalo para os fariseus e deveria ser também para os integrantes da sua família. Até João Batista sentiu-se em dúvida quanto ao comportamento do Mestre (7:18-21). E, no texto em estudo, os familiares do Senhor ficaram mesmo de "fora". Tanto da casa onde Jesus ensinava como das obras de Deus que ele andava fazendo.
Não é assim que ocorre com muitos quanto decidem abraçar verdadeiramente a causa do Reino?
Por acaso os pais sempre compreendem e aceitam facilmente a escolha de um filho em servir a Deus quando as ações praticadas extrapolam os limites da normalidade medíocre?
Pois quando o revolucionário, que é um ser a frente de seu tempo, começa a contrariar poderosos interesses, sua atitude causa escândalos manchando a reputação de um clã atraindo incômodos para a vida comunitária de cada ente. Então, diante de circunstâncias semelhantes, é preciso ter atitude agindo com determinação e coragem. Pessoas nascidas para promover transformações sociais no planeta precisam realizar firmemente a vontade de Deus e nunca retrocederem por motivo de pressões familiares. Afinal, trata-se da causa do Reino, da responsabilidade para com a história humana e com o próprio progresso espiritual e ético a ponto de se tornar uma questão existencial.
Para terminar, acho importante dizer que, em nenhuma parte dos evangelhos, Jesus tratou os seus parentes com desamor ou com repúdio. Tão pouco ele teve uma atitude de fuga das responsabilidades para com a família como se evitasse ter relacionamento com a mãe e os irmãos. Na ocasião em que fora encontrado pelos pais no Templo judaico, entre os teólogos da época, informa o texto que o Senhor retornou para Nazaré "e era-lhes submisso" (2:51). Logo, todos os conflitos foram bem superados e os relatos todos do Novo Testamento harmonizam-se com a ideia de que, num momento posterior ao martírio da cruz, Maria e seus outros filhos deram continuidade às obras do Mestre, colaborando juntamente com os apóstolos.
"Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele." (At 1:14)
Os evangelhos não escondem o conflituoso momento experimentado por Jesus no relacionamento que teve com a família durante o período de seu ministério. Já em sua infância, segundo a tradição bíblica exclusiva de Lucas, seus pais "não compreenderam" os motivos da explicação do menino porque havia ele permanecido entre os doutores do Templo após o término da celebração pascal (Lc 2:50). E, provavelmente, os parentes do Senhor não conseguiram acompanhar a evolução espiritual que teve mesmo convivendo tão próximos debaixo de um mesmo teto.
A citada narrativa do 3º Evangelho sobre o conflito de Jesus com a família apresenta-e bem resumida se comparada com o texto paralelo de Marcos. Suponho que os leitores originais dos dois primeiros séculos talvez já conhecessem o episódio acima tal como relatado no 2º Evangelho, do qual Mateus e Lucas dependem. Por isso, o autor preferiu mencionar o polêmico fato numa perspectiva mais sequencial, no sentido de confirmar a necessidade do seguidor ouvir e praticar a Palavra de Deus. Como havia escrito no artigo anterior, Corações que podem dar muitos frutos, as parábolas do semeador e da candeia são organizadas em Lucas para que os ouvintes da mensagem pregada refletissem sobre como estavam recebendo as boas novas do Reino em seus corações. Por duas vezes o Mestre assim concluiu:
"A [semente] que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perseverança." (8:15)
"Vede, pois, como ouvis" (8:18a)
Assim, propositalmente, o escritor sagrado parece alterar o texto de Marcos onde Jesus considera como sendo seu parente "qualquer que fizer a vontade de Deus" (Mc 3:35). Ou seja, diz-se a mesma coisa mas com palavras diferentes aplicadas a um outro contexto literário.
Ao ler isoladamente a narrativa de Lucas, é certo que muitos se surpreendem por que teria Jesus tratado a mãe e os irmãos de uma maneira que nos parece até rude como se os familiares estivessem sendo repudiados. Penso, porém, que, se as antigas comunidades cristãs destinatárias do 3º Evangelho já conheciam Mc 3:21, onde se diz que os parentes do Mestre "saíram para o prender", fazia-se desnecessário o escritor bíblico entrar em maiores detalhes para não perder o foco do seu relato. Pois, neste caso, os leitores originais já entendiam com clareza que a obra do Reino deve ser colocada acima das relações de família quando estas tornam-se contrárias ao desígnio divino.
Sem compreenderem o serviço ministerial do Mestre, tal como havia ocorrido quando ele ainda menino fora achado entre os doutores do Templo, seus parentes ainda não estavam ouvindo corretamente a Palavra de Deus. Por isso, os dois episódios descritos em Lucas, envolvendo os conflitos familiares de Jesus, estão bem entrelaçados como integrantes de uma realidade só apresentada em todo o livro:
"Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu pai?" (2:49)
O recado já estava dado e se complementa também com um trecho do Magnificat (ver 1:51-53) e com as palavras do velho Simeão (2:34-35). A esta altura do seu ministério, Jesus já era alvo de contradição como profetizado a seu respeito. O acolhimento irrestrito dos pecadores era motivo de escândalo para os fariseus e deveria ser também para os integrantes da sua família. Até João Batista sentiu-se em dúvida quanto ao comportamento do Mestre (7:18-21). E, no texto em estudo, os familiares do Senhor ficaram mesmo de "fora". Tanto da casa onde Jesus ensinava como das obras de Deus que ele andava fazendo.
Não é assim que ocorre com muitos quanto decidem abraçar verdadeiramente a causa do Reino?
Por acaso os pais sempre compreendem e aceitam facilmente a escolha de um filho em servir a Deus quando as ações praticadas extrapolam os limites da normalidade medíocre?
Pois quando o revolucionário, que é um ser a frente de seu tempo, começa a contrariar poderosos interesses, sua atitude causa escândalos manchando a reputação de um clã atraindo incômodos para a vida comunitária de cada ente. Então, diante de circunstâncias semelhantes, é preciso ter atitude agindo com determinação e coragem. Pessoas nascidas para promover transformações sociais no planeta precisam realizar firmemente a vontade de Deus e nunca retrocederem por motivo de pressões familiares. Afinal, trata-se da causa do Reino, da responsabilidade para com a história humana e com o próprio progresso espiritual e ético a ponto de se tornar uma questão existencial.
Para terminar, acho importante dizer que, em nenhuma parte dos evangelhos, Jesus tratou os seus parentes com desamor ou com repúdio. Tão pouco ele teve uma atitude de fuga das responsabilidades para com a família como se evitasse ter relacionamento com a mãe e os irmãos. Na ocasião em que fora encontrado pelos pais no Templo judaico, entre os teólogos da época, informa o texto que o Senhor retornou para Nazaré "e era-lhes submisso" (2:51). Logo, todos os conflitos foram bem superados e os relatos todos do Novo Testamento harmonizam-se com a ideia de que, num momento posterior ao martírio da cruz, Maria e seus outros filhos deram continuidade às obras do Mestre, colaborando juntamente com os apóstolos.
"Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele." (At 1:14)
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Corações que podem dar muitos frutos
"A [semente] que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perseverança" (Lucas 8:15. ARA)
A Parábola do Semeador (Lc 8:4-8) é a única em todo o 3º Evangelho que vem acompanhada de uma posterior explicação (versos de 9 a 15). Somente na narrativa sobre o joio e o trigo, exclusiva de Mateus, é que se tem também um ensino secreto de Jesus, específico aos seus discípulos acerca da interpretação contada às multidões.
O "semeador", muitas vezes identificado com Jesus, é alguém que desempenha o papel de difundir as boas novas, mas não pode ser responsabilizado pelo que a "terra" vai produzir. Por mais que tente prover as necessidades dos vegetais cultivados, regando-os com frequência e ponto matéria orgânica no local para adubar, existirão variáveis alheias à sua ação e que determinarão o sucesso da futura colheita. Logo, no caso desta parábola, deve-se levar em conta também a resposta de cada tipo de solo ao plantio, isto é, a responsabilidade do próprio ouvinte, dotado de livre arbítrio, quanto ao que faz da instrução espiritual a ele ministrada.
Ainda no Sermão da Planície (Lc 6:20-49), Jesus havia concluído a sua pregação comparando o ouvinte praticante ao homem que construiu a sua casa sobre a rocha, enquanto o desobediente nem ao menos alicerçou a sua moradia sobre a terra, pelo que o edificado não suportou as águas da enchente. Já na Parábola do Semeador, quatro são as situações ou estágios mencionados acerca dos destinatários da mensagem do Reino:
1º) A semente caída à beira do caminho, pisada e comida pelas aves seriam os que têm a Palavra arrebatada de seus corações logo após ouvirem-na. O ensino nem chega a germinar dentro deles. Tudo permanece como antes. "Entrou por um ouvido e saiu pelo outro", como se costuma dizer popularmente.
2º) A semente caída em terreno pedregoso é identificada com os que recebem alegremente a Palavra mas, por não se radicarem na instrução, desviam-se quando provados por qualquer circunstância adversa. "Creem", ou demonstram ter fé, só por algum tempo enquanto as coisas vão bem.
3º) A semente caída entre "espinhos" (ervas daninhas resistentes e de crescimento rápido) representaria os que, no decorrer dos dias, após terem ouvido a Palavra, permitem-se sufocar "com os cuidados, riquezas e de deleites da vida" e, por isso, não geram frutos.
4º) A semente caída na boa terra, os que "frutificam a cento por um", corresponde aos que ouvem de bom e reto coração, retêm a Palavra e, com perseverança, produzem frutos. É o que está bem colocado no versículo 15 acima citado.
Ao que me parece, no quarto e último tipo de solo, estaria a orientação do Mestre para o ouvinte ser espiritualmente bem sucedido. Poderíamos identificar aí as seguintes ações (verbos) em que cada uma parece se opor a um dos três comportamentos anteriormente reprovados na respectiva ordem como foram narrados no Evangelho:
- Ouvir com bom e reto coração seria o antídoto para não perder a Palavra. Trata-se de criar no íntimo um ambiente receptivo para acolher o Evangelho sem mentirmos a nós mesmos. É desejar realmente o Reino e, por isso, o coração não pode virar uma terra dura e compactada como as estradas de chão;
- Reter a Palavra implica em remover as pedras existentes em nossas vidas para que o ensino do Reino possa criar raízes aprofundando-se no solo. O ouvinte assume a sua identidade e não vai se importar com o que os outros, sua família e amigos pensarão de suas escolhas de vida. Ele realmente se compromete com o Evangelho de Cristo!
- Frutificar com perseverança (ou paciência) significa lutar dia após dia contra pragas que tentam destruir a plantação - os espinhos daninhos. O ouvinte não fica acomodado e se empenha por praticar o bem. Esforça-se e vai desenvolvendo a sua espiritualidade por meio de orações, reflexões pessoais e atitudes. Além de dizer não a coisas erradas, ele procura exercitar-se no que é proveitoso e edificante para o próximo.
Os frutos corresponderiam justamente às obras de justiça do Reino de Deus em nossas vidas. O quarto tipo de solo significa o alcance de uma espiritualidade sadia. Ou melhor, decorre da insistência em superar os outros três estágios de fracasso na nossa caminhada com Cristo. Não importa o tempo que levamos, ou quantos tombos tivemos. Entendo que Jesus fala de um ouvinte que pode ter caído, levantado, corrigido seus erros, falhado novamente, arrependido e, com o ânimo recobrado, não desistiu do bem.
Por agir assim, com perseverança, o ouvinte atento da Palavra passa a provar em seu coração uma paz eterna. Ele encontra uma alegria verdadeira que nada neste mundo, nenhum prazer ou bem material pode proporcionar. Já não se importará com a rejeição dos homens porque se satisfará em agradar a Deus fazendo a vontade do Pai. Pois o ensino que recebeu do Senhor encontrou espaço completo dentro de si.
Em Lucas, a explicação da Parábola do Semeador é complementada com alguns ditos costumeiros de Jesus aplicados à maneira como se ouve a Palavra. Daí o Mestre valer-se da metáfora da candeia nos versos de 16 a 18.
Embora não seja nada fácil relacionarmos as duas parábolas, não podemos nos esquecer que, no texto em estudo, elas estão em sequência. Jesus diz que a luz deve ser colocada num ponto da casa capaz de clarear por completo o ambiente interno. Logo, podemos entender que, ao ouvir a Palavra, ela deve alcançar o ponto central de nossas vidas para que tudo o que há em nós fique iluminado. Ou seja a candeia acesa colocada no valador permitirá tratarmos dos nossos sentimentos, desejos, emoções e lembranças através da exposição dos mesmos numa tarefa de auto-exame. Quem os oculta não está recebendo o ensino do Mestre de uma forma correta e acaba caindo num auto-engano religioso.
Contextualizar o final da advertência constante no versículo 18 é ainda mais difícil. Fica claro que Jesus estava dando recomendações sobre prestarmos a atenção na maneira como se recebe a Palavra. Porém, qual o significado de "dar ao que tiver e retirar aquilo do que julga ter algo"?
Se refletirmos sobre a questão do auto-engano, talvez possamos compreender melhor. Pois, na verdade, nada é dado ou retirado. Os sujeitos simplesmente tinham ou não algo. Por isso, quando o ouvinte negligente depara-se com a realidade nua e crua da vida, ele descobre estar nu e privado de qualquer bem. E, em algum momento dessa multidimensional existência, haveremos de ser confrontados com nós mesmos e aí não será possível negarmos qual o conteúdo da verdade que temos.
Dura coisa é descobrir que os nossos frutos não são tão docinhos e saborosos quanto imaginávamos antes. É quando então percebemos que não somos lá tão bons pais, bons maridos, bons patrões, bons mestres, bons pastores e nem bons administradores de nós mesmos. Contudo, quando algo assim ocorre, não importa o quão doloroso seja. Devemos reconhecer o benefício da tomada de consciência e, a partir daí, praticarmos a árdua tarefa do auto-exame, conhecendo melhor a nós mesmos. Só assim nos tornaremos ouvintes verdadeiramente produtivos e que farão diferença na construção do Reino de Deus. Basta tratarmos bem do solo dos nossos corações. Como havia escrito no título deste artigo, creio que somos todos corações com potencial de dar muitos frutos.
OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro O Semeador do pintor francês James Tissot (1836-1902) que se encontra atualmente no Museu do Brookyn, em Nova York. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brooklyn_Museum_-_The_Sower_(Le_semeur)_-_James_Tissot_-_overall.jpg
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Demagogia e populismo barato no Estatuto da Juventude
Nesta última terça-feira (09/07/2013), o Plenário da Câmara dos Deputados aprovou o substitutivo do Senado ao PL n.º 4529/04 que institui o Estatuto da Juventude. O texto que define princípios e diretrizes nas políticas do Poder Público ainda aguarda sanção da presidente Dilma.
Os dois mais polêmicos pontos que foram aprovados pela Câmara seriam a garantia de meia-entrada em eventos culturais e esportivos para estudantes comprovadamente pobres, até o limite de 40% dos ingressos e o desconto de 50% nas passagens interestaduais também para estudantes. Segundo a deputada Manuela D'Ávila, do PCdoB gaúcho, as últimas manifestações justificariam tal posição quanto aos transportes que privilegiaria os jovens em detrimento dos demais passageiros:
"O Senado restringiu o meio passe para quatro lugares, dois livres e dois para carentes. Nós estamos devolvendo o meio passe para todos os estudantes, porque a conjuntura política mudou. Porque hoje nós temos mais deputados que concordam que, depois das grandes passeatas, os estudantes têm direito ao meio passe, e não a lugares restritos como o Estatuto do Idoso garante"
Sinceramente, não acho que a solução se passe por aí. Uma decisão como esta vai obrigar que empresas de ônibus e governos revejam os valores das altas tarifas hoje cobradas, para fins de equilibrarem economicamente os contratos de concessão, prejudicando o consumidor final ou criando mais motivos de subsídio para a iniciativa privada.
No meu ponto de vista, melhor seria haver um programa federal para conceder ajuda no transporte do aluno que, comprovadamente, necessitasse deslocar-se de um estado a outro por motivo de estudo. Em se tratando de pesquisa acadêmica, a própria instituição de ensino distribuiria recursos para os projetos.
Pode-se dizer que, infelizmente, o débil Parlamento brasileiro ainda não soube lidar com a dinâmica das últimas manifestações no intuito de satisfazerem as reais demandas das massas enfurecidas. Segundo uma análise feita pelo cientista político César Maia (DEM), ex-prefeito carioca,
"As palavras de ordem lançadas foram transformadas em decisões políticas, da redução de tarifas de ônibus, a derrubada da PEC 37 que reduzia o poder de investigação do MP, a lei dando caráter de crime hediondo à corrupção, a lei de aplicação dos royalties, reforma política com ou sem plebiscito... A expectativa era e é, que com isso se abasteça de satisfação o movimento de massas e esse esmoreça. Com isso, o sentido das manifestações foi parlamentarizado. A imprensa foi tabulando: demanda X, resposta Y do Congresso. E todo o debate sobre as características das manifestações, origem, lógica e dinâmica, das redes sociais, foi sendo abandonado (...) Essa parlamentarização, ao não tratar da dialética das redes sociais, ao deixar de lado seu caráter inovador, ou de ruptura, será a fórmula garantida de que as manifestações se tornem menos e menos administráveis. Tratar as manifestações de massa de hoje como um ciclo que volta, das grandes manifestações de massa de décadas anteriores é um equívoco grave, que será sentido de forma cada vez mais intensa. O tempo mostrará."
De fato, o tempo mostrará. Mas até que os deputados aprendam a lidar com essa nova dinâmica social impulsionada pelas redes da internet, a nossa economia poderá pagar bem caro. Minha preocupação é que acabe havendo um aumento de soluções populistas que não passam de frágeis paliativos. E, devido a isso, as pessoas formadoras de opinião da sociedade precisam acompanhar melhor as coisas que têm entrado na pauta do nosso Legislativo, exigindo aquilo que realmente precisa ser feito para que os transportes e a alimentação de cada dia tornem-se de fato acessíveis aos bolsos da grande maioria.
OBS: Ilustração acima extraída do site da Câmara dos Deputados.
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