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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Paraguai: a queda de Santiago Peña e os desafios de uma democracia marcada pela hegemonia colorada



A crise política que levou o presidente do Paraguai, Santiago Peña, a anunciar sua renúncia em 5 de novembro de 2026 surpreendeu muitos brasileiros. Após pouco mais de três anos no poder, o economista que assumira a Presidência prometendo modernizar a economia e ampliar as oportunidades de desenvolvimento viu seu governo ser abalado pelo colapso de uma instituição financeira, por acusações de conflitos de interesses e pela perda de sustentação política dentro do próprio Partido Colorado.

O escândalo envolvendo o Ueno Bank, que deixou milhões de clientes sem acesso às suas contas e colocou sob questionamento a administração de recursos públicos e previdenciários, desencadeou manifestações populares e um processo de julgamento político no Congresso. Peña negou irregularidades, mas seu isolamento político tornou-se evidente quando dirigentes de seu próprio partido retiraram-lhe o apoio.

O anúncio da renúncia, entretanto, não encerrou imediatamente a controvérsia constitucional. A discussão sobre sua aceitação e o prosseguimento do julgamento político demonstrou que a crise envolvia não apenas a permanência de um governante, mas também a aplicação das regras de responsabilização e sucessão presidencial.

A queda de Peña merece atenção por suas circunstâncias imediatas, mas também pelo contexto histórico em que ocorreu. O Partido Colorado, que domina a política paraguaia há décadas, já enfrentou outras crises presidenciais e demonstrou considerável capacidade de reorganização e preservação de sua influência.

A memória mais conhecida entre os brasileiros talvez seja a destituição de Fernando Lugo, em 2012. Ex-bispo e representante de uma experiência política distinta, Lugo havia conquistado a Presidência em 2008, interrompendo 61 anos de governos colorados. Sua destituição, após um julgamento político extremamente rápido, provocou questionamentos internacionais e deixou marcas na história democrática do país.

Os dois episódios, separados por quatorze anos, apresentam diferenças fundamentais e não devem ser tratados como acontecimentos equivalentes. Contudo, permitem refletir sobre a força dos partidos, os limites do presidencialismo, as garantias constitucionais e a capacidade das instituições de enfrentar crises sem comprometer a continuidade democrática.

Há, ainda, uma dimensão pouco explorada no Brasil. Nos últimos anos, o Paraguai passou a ser frequentemente apresentado como exemplo de crescimento econômico, estabilidade e oportunidades de investimento. Atraídos por impostos reduzidos e custos empresariais competitivos, brasileiros passaram a olhar com crescente interesse para o país vizinho, por vezes descrito nas redes sociais como uma espécie de “Suíça sul-americana”.

Essa imagem, porém, não revela toda a realidade paraguaia. O crescimento econômico convive com desigualdades, pobreza, informalidade e limitações na proteção social. Além disso, a presença brasileira no país possui raízes muito anteriores à atual expansão empresarial, remontando à migração agrícola e aos conflitos fundiários que marcaram a história dos chamados brasiguaios.

O Paraguai também não pode ser compreendido isoladamente de seus vizinhos. Sua participação no Mercosul, as relações econômicas com o Brasil, a administração compartilhada de Itaipu e os vínculos diplomáticos com os Estados Unidos constituem interesses estratégicos que ultrapassam os mandatos presidenciais.

Diante disso, compreender a crise que atingiu Santiago Peña exige mais do que acompanhar as acusações e os desdobramentos de sua saída. É necessário examinar os resultados de seu governo, a história do Partido Colorado, a experiência política de Fernando Lugo, as transformações econômicas e sociais do país e as perspectivas de sua inserção internacional.

Afinal, a queda de um presidente não significa necessariamente a queda de seu partido, muito menos o enfraquecimento de todo um sistema político. Dependendo de como as instituições respondem à crise, a responsabilização de governantes pode representar justamente uma demonstração da resiliência democrática.


1. A queda e o governo de Santiago Peña

A crise que levou Santiago Peña a anunciar sua renúncia à Presidência do Paraguai, em 5 de novembro de 2026, encerrou politicamente, ao menos na avaliação de seus antigos aliados, um governo iniciado pouco mais de três anos antes, sob a promessa de modernização econômica, atração de investimentos e melhoria das condições de vida da população. O episódio surpreendeu não apenas pela gravidade do escândalo bancário que o desencadeou, mas também pela rapidez com que o presidente perdeu o apoio de seu próprio partido.

Peña havia assumido a Presidência em 15 de agosto de 2023, depois de vencer as eleições de abril daquele ano com aproximadamente 42,7% dos votos, derrotando o liberal Efraín Alegre. Como o Paraguai não adota segundo turno presidencial, a votação foi suficiente para assegurar sua eleição. Aos 44 anos, tornou-se o mais jovem presidente eleito a assumir o cargo no Paraguai desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner, em 1989.

Nascido em Assunção, em 16 de novembro de 1978, Santiago Peña Palacios tem atualmente 47 anos. Economista formado pela Universidade Católica de Assunção, com mestrado em Administração Pública pela Universidade Columbia, nos Estados Unidos, construiu sua carreira inicialmente como técnico do Banco Central do Paraguai, onde começou a trabalhar em 2000. Posteriormente, atuou no Fundo Monetário Internacional, em Washington, e retornou ao país para integrar a direção do Banco Central. Em 2015, foi nomeado ministro da Fazenda pelo então presidente Horacio Cartes. Originalmente vinculado ao Partido Liberal Radical Autêntico, aproximou-se do Partido Colorado e, em 2017, disputou sem sucesso a indicação presidencial da legenda. Cinco anos depois, venceu as eleições internas coloradas, apoiado pelo movimento Honor Colorado, liderado por Cartes, tornando-se candidato e posteriormente presidente da República.

Sua trajetória ajuda a compreender uma característica importante de seu governo: Peña chegou ao poder apresentando-se como um administrador de formação técnica, familiarizado com os organismos financeiros internacionais, mas politicamente dependente de uma estrutura partidária tradicional, fortemente influenciada pelo ex-presidente Horacio Cartes.

Essa combinação entre tecnocracia econômica e conservadorismo político marcou sua administração. O governo buscou transmitir aos investidores uma imagem de previsibilidade, responsabilidade fiscal e abertura econômica, preservando a orientação favorável à iniciativa privada que já caracterizava administrações anteriores.

1.1. Crescimento econômico e estabilidade macroeconômica

Um balanço do governo Peña não pode ignorar os resultados macroeconômicos favoráveis registrados durante seu mandato. Entretanto, é necessário distinguir os indicadores relativos ao período integral de sua administração daqueles referentes a 2023, ano em que assumiu a Presidência somente em 15 de agosto, sucedendo Mario Abdo Benítez.

Segundo os dados divulgados pelo Banco Central paraguaio e reunidos pelo jornal ABC Color, o Produto Interno Bruto cresceu 4,7% em 2023, repetiu essa expansão em 2024 e avançou 6,6% em 2025. Para 2026, antes do agravamento da crise bancária, as projeções apontavam crescimento em torno de 4% a 4,5%.

A inflação também permaneceu relativamente controlada. Depois de atingir 8,1% em 2022, recuou para 3,7% em 2023, 3,8% em 2024 e 3,1% em 2025.

Esses resultados contribuíram para reforçar a percepção de estabilidade da economia paraguaia, favorecida também por níveis relativamente moderados de endividamento público e pela obtenção de classificações internacionais de grau de investimento.

Durante seu terceiro informe de gestão ao Congresso, em julho de 2026, Peña destacou a criação de mais de 242 mil postos de trabalho, a incorporação de 134 mil trabalhadores ao Instituto de Previdência Social e o crescimento dos investimentos estrangeiros.

Esses números, entretanto, exigem duas ressalvas.

A primeira é que o crescimento econômico paraguaio não começou com Peña. O país já vinha desenvolvendo, havia anos, uma estratégia baseada na produção agropecuária, na exportação de energia elétrica, na atração de investimentos e em condições tributárias competitivas. Além disso, parte dos resultados registrados em 2023 corresponde a um período anterior à sua posse.

A segunda é que indicadores macroeconômicos favoráveis não demonstram, isoladamente, uma melhoria equivalente nas condições de vida de toda a população.

O próprio debate público paraguaio vinha chamando atenção para a distância entre o desempenho da economia e a experiência cotidiana de muitos trabalhadores e famílias.

1.2. Avanços sociais e problemas persistentes

Os indicadores de pobreza permitem reconhecer avanços concretos, sem ignorar os problemas estruturais do país.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística do Paraguai, a pobreza monetária atingia 16% da população em 2025, considerando a série estatística revisada. Isso representava aproximadamente 985 mil pessoas com renda inferior ao custo da cesta básica de consumo utilizada na metodologia oficial.

A situação permanecia mais grave no campo, onde 22,1% da população vivia em condições de pobreza, contra 13,6% nas áreas urbanas. A pobreza extrema alcançava cerca de 147 mil pessoas.

Outro indicador, o Índice de Pobreza Multidimensional, apontava que aproximadamente 830 mil paraguaios enfrentavam privações simultâneas relacionadas a trabalho, proteção social, moradia, saúde, ambiente e educação.

A redução da pobreza durante o governo Peña não deve ser desprezada. Parte desse resultado esteve associada à melhoria dos rendimentos do trabalho e à ampliação de programas sociais.

Entre as iniciativas de maior visibilidade esteve o programa Hambre Cero, destinado à alimentação escolar, que alcançou mais de um milhão de estudantes. O Banco Mundial reconheceu a importância dessa política e de outros programas de transferência de renda para a redução da vulnerabilidade social.

O governo também procurou ampliar o acesso à moradia por meio do programa Che Róga Porã, voltado ao financiamento habitacional.

Entretanto, a avaliação dessas iniciativas exige distinguir anúncios, contratos, unidades efetivamente entregues e famílias beneficiadas.

Em agosto de 2026, o jornal ABC Color apontava que, apesar das entregas realizadas, os resultados habitacionais permaneciam distantes das metas anunciadas na campanha eleitoral. O acesso ao crédito também encontrava obstáculos entre trabalhadores informais e famílias de menor renda.

O mercado de trabalho representava outro desafio. Apesar da criação de empregos, a informalidade continuava atingindo uma parcela expressiva da população economicamente ativa. Dados analisados pelo Banco Mundial indicavam que mais de 60% dos trabalhadores paraguaios estavam na informalidade em 2024.

Essa realidade ajuda a explicar por que a expansão econômica nem sempre se traduz em acesso à Previdência, estabilidade no emprego e proteção trabalhista.

Na saúde pública, persistiam dificuldades relacionadas à disponibilidade de medicamentos, ao atendimento hospitalar e à estrutura dos serviços. Reportagens paraguaias registravam reclamações de pacientes que precisavam recorrer a campanhas de arrecadação ou a medidas judiciais para obter tratamentos e insumos.

Também havia críticas à qualidade do transporte público e à lentidão das reformas prometidas.

Portanto, o governo Peña não pode ser caracterizado simplesmente como um fracasso econômico ou social. Houve crescimento, estabilidade monetária, investimentos e expansão de determinadas políticas públicas. Mas esses avanços conviveram com desigualdades, precariedade laboral e dificuldades na prestação de serviços essenciais.

A distância entre os indicadores macroeconômicos e a realidade cotidiana de parte da população constitui uma das principais contradições de sua administração.

1.3. O peso de Horacio Cartes e os limites da autonomia presidencial

A sustentação política de Santiago Peña esteve profundamente associada à influência de Horacio Cartes, presidente do Paraguai entre 2013 e 2018 e dirigente do Partido Colorado.

Cartes foi o principal patrocinador de sua ascensão presidencial. Seu movimento, Honor Colorado, desempenhou papel decisivo na escolha do candidato e na organização da maioria governista.

Essa relação conferiu a Peña uma importante base de apoio, mas também alimentou questionamentos sobre sua autonomia política.

O presidente precisava conciliar a imagem de dirigente técnico e moderno com os compromissos assumidos perante uma organização partidária marcada por disputas internas e pela influência de lideranças tradicionais.

A própria relação entre Cartes e os Estados Unidos apresentava contradições. O ex-presidente havia sido alvo de sanções norte-americanas por acusações de corrupção, enquanto Peña procurava manter relações próximas com Washington.

A crise de novembro de 2026 demonstrou a importância dessa dependência política.

Quando Cartes anunciou que o Partido Colorado apoiaria o julgamento político de Peña, a permanência do presidente tornou-se consideravelmente mais difícil.

A decisão evidenciou que o controle da Presidência não se confundia com o controle da estrutura partidária responsável por sua eleição.

1.4. O escândalo bancário e a ruptura política

O acontecimento que precipitou a crise foi a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, instituição financeira digital que havia experimentado rápida expansão e conquistado milhões de clientes.

A instituição mantinha relações com empresas e empresários ligados ao grupo controlador do banco, com o qual Peña tivera vínculos patrimoniais anteriores.

Segundo estimativas divulgadas pela imprensa internacional, o Ueno Bank atendia aproximadamente 2,9 milhões de clientes e mantinha cerca de US$ 850 milhões em recursos de entidades públicas, incluindo depósitos relacionados à Previdência Social. Esses valores devem ser compreendidos como informações sobre a dimensão da exposição financeira, e não como demonstração de perda definitiva de todos os recursos depositados.

A intervenção ocorreu após a identificação de graves problemas de solvência e de operações de crédito envolvendo empresas relacionadas aos controladores da instituição.

As dificuldades financeiras impediram numerosos clientes de movimentar suas contas e provocaram manifestações populares, ampliando rapidamente a repercussão política do episódio.

As investigações e acusações parlamentares passaram a questionar não apenas a administração do banco, mas também a atuação dos órgãos responsáveis por sua fiscalização.

Um dos aspectos mais sensíveis era a nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central, depois de sua passagem pela instituição financeira que antecedeu o Ueno Bank.

A existência de vínculos profissionais anteriores não demonstra, por si só, irregularidade. Entretanto, a situação levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e sobre a independência da supervisão bancária.

Peña negou envolvimento em práticas ilícitas e afirmou ter vendido, em março de 2025, sua participação societária no grupo empresarial anteriormente relacionado ao banco.

A responsabilização jurídica do presidente depende da demonstração de condutas concretas, não sendo suficiente a existência de relações empresariais pretéritas ou a proximidade política com dirigentes da instituição.

Ainda assim, a gravidade das consequências para os depositantes e a presença de recursos públicos no banco transformaram o episódio em uma crise de confiança que ultrapassou o setor financeiro.

A repercussão econômica também foi imediata. A imprensa internacional registrou desvalorização do guarani e queda nos preços de títulos paraguaios, demonstrando que o escândalo atingiu a percepção dos investidores sobre a estabilidade do país.

1.5. A renúncia e o julgamento político

A perda de sustentação partidária foi decisiva para o anúncio da renúncia de Santiago Peña, em 5 de novembro de 2026.

Em pronunciamento público, o presidente afirmou que sua decisão buscava preservar a estabilidade nacional, a paz social e as instituições democráticas. Também defendeu a proteção dos depositantes e a apuração das responsabilidades relacionadas à crise financeira.

Entretanto, a apresentação da renúncia não encerrou imediatamente o conflito constitucional.

A Câmara dos Deputados havia avançado no procedimento de julgamento político, enquanto parlamentares questionavam a possibilidade de o presidente deixar o cargo antes da conclusão do processo.

A controvérsia envolvia, entre outros aspectos, a previsão constitucional que permite aos ex-presidentes eleitos democraticamente ocupar a condição de senadores vitalícios, ressalvadas as hipóteses previstas na própria Constituição.

O Congresso não concluiu a aceitação da renúncia na sessão realizada em 5 de novembro, e o Senado convocou Peña para apresentar sua defesa no procedimento de julgamento político. 

Importante observar que a Constituição paraguaia, em seu artigo 202, inciso 16, atribui ao Congresso Nacional a competência para aceitar ou rejeitar a renúncia do presidente da República:


"Son deberes y atribuciones del Congreso: 

(...)

16. aceptar o rechazar la renuncia del Presidente de la República y la del Vicepresidente;"

 

Assim sendo simples apresentação do pedido não produz automaticamente a vacância definitiva do cargo. Como não houve deliberação conclusiva sobre sua aceitação na sessão de 5 de novembro, Peña permaneceu juridicamente investido na Presidência, sem que o vice-presidente Pedro Alliana pudesse assumir definitivamente o mandato apenas em decorrência do anúncio. A sucessão prevista no artigo 234 pressupõe a efetiva vacância presidencial, enquanto a destituição por julgamento político obedece ao procedimento autônomo estabelecido no artigo 225.

A distinção é juridicamente relevante: anunciar a renúncia, ter a renúncia aceita e ser destituído mediante julgamento político são acontecimentos diferentes, sujeitos a consequências constitucionais próprias.

A crise também atingiu o vice-presidente Pedro Alliana, igualmente integrante do Partido Colorado, embora a Câmara tenha rejeitado a tentativa de submetê-lo ao mesmo procedimento de destituição.

O episódio colocou em evidência a capacidade do partido governista de preservar sua posição política mesmo diante da possibilidade de afastamento do presidente que havia ajudado a eleger.

Mas seria precipitado concluir que toda a crise foi deliberadamente organizada para substituir Peña. A hipótese de uma reorganização interna do Partido Colorado é politicamente plausível, porém deve ser distinguida dos fatos comprovados.

1.6. Um governo que não pode ser reduzido à sua queda

A trajetória de Santiago Peña reúne elementos que tornam sua crise especialmente significativa.

Trata-se de um presidente relativamente jovem, com sólida formação econômica, experiência em organismos financeiros internacionais e um governo que apresentou indicadores macroeconômicos favoráveis.

Ao mesmo tempo, sua administração não conseguiu superar problemas estruturais de desigualdade, informalidade e insuficiência de serviços públicos. Politicamente, permaneceu vinculada à influência de Horacio Cartes e à estrutura tradicional do Partido Colorado.

A crise bancária colocou em questão justamente uma das áreas nas quais Peña possuía maior experiência profissional: o funcionamento do sistema financeiro e a responsabilidade das instituições encarregadas de sua fiscalização.

Isso não constitui prova de responsabilidade pessoal pelas irregularidades investigadas. Mas amplia a relevância política dos questionamentos sobre as decisões de seu governo.

A queda de Peña também não representa, necessariamente, o esgotamento do projeto político que o levou à Presidência. O Partido Colorado possui uma longa história de reorganização diante de crises e disputas internas, preservando sua influência sobre a política paraguaia durante grande parte das últimas décadas.

Para compreender essa capacidade de sobrevivência, é necessário recuar na história do país, examinar a formação de sua hegemonia partidária, a ditadura de Alfredo Stroessner, a redemocratização e a experiência de Fernando Lugo, cuja eleição em 2008 representou uma das mais importantes interrupções do domínio colorado.


2. A longa história do poder no Paraguai

Para compreender a crise política que atingiu Santiago Peña, é necessário conhecer a trajetória do Partido Colorado, organização que ocupa uma posição singular na história do Paraguai e cuja influência ultrapassa os limites dos governos que ajudou a eleger.

Fundada em 1887, a Associação Nacional Republicana (ANR), oficialmente denominada Partido Colorado, tornou-se uma das principais forças políticas paraguaias. Sua história, entretanto, não pode ser confundida integralmente com a ditadura de Alfredo Stroessner, embora tenha sido durante aquele regime que se consolidou uma das mais duradouras estruturas de poder partidário da América Latina.

O Partido Colorado chegou ao poder em 1947, em meio a uma guerra civil que aprofundou as divisões políticas do país. A partir daquele momento, estabeleceu uma hegemonia que atravessaria governos autoritários, a transição democrática e sucessivas eleições, somente interrompida na Presidência pela vitória de Fernando Lugo, em 2008.

Durante décadas, a presença colorada esteve associada não apenas à disputa eleitoral, mas também ao funcionamento da administração pública, à ocupação de cargos estatais, às relações com as Forças Armadas e à distribuição de oportunidades econômicas.

Essa influência contribuiu para a formação de redes de lealdade política e clientelismo que sobreviveram às mudanças institucionais.

Entretanto, seria incorreto considerar o Partido Colorado uma organização inteiramente uniforme. Ao longo de sua história, diferentes correntes disputaram sua direção, reunindo lideranças conservadoras, nacionalistas, setores empresariais e grupos com distintas concepções sobre a economia e o papel do Estado.

Essa diversidade interna ajuda a compreender sua capacidade de adaptação, inclusive diante de crises que provocaram a queda de presidentes pertencentes à própria legenda.

2.1. Alfredo Stroessner: 35 anos de ditadura

Em maio de 1954, o general Alfredo Stroessner liderou um golpe de Estado contra o presidente Federico Chaves, também colorado. Poucos meses depois, assumiu formalmente a Presidência, iniciando uma ditadura que se prolongaria até fevereiro de 1989.

Durante quase 35 anos, Stroessner governou mediante uma aliança entre as Forças Armadas, o Partido Colorado e setores econômicos beneficiados pelo regime.

Embora fossem realizadas eleições presidenciais periódicas, não existiam condições efetivas de competição democrática. A oposição enfrentava perseguições, prisões, exílio e restrições à liberdade de organização.

A repressão atingiu dirigentes políticos, sindicalistas, estudantes, camponeses e integrantes de movimentos sociais. O Paraguai também participou da Operação Condor, articulação repressiva entre ditaduras sul-americanas destinada a perseguir opositores além das fronteiras nacionais.

As violações de direitos humanos foram posteriormente investigadas pela Comissão de Verdade e Justiça, criada em 2004, já durante o período democrático.

A ditadura, entretanto, não se sustentou exclusivamente pela repressão. Também promoveu transformações econômicas importantes, ampliando a infraestrutura, incentivando a expansão agrícola e estreitando relações com países vizinhos, especialmente o Brasil.

Foi nesse contexto que, em 1973, os governos de Stroessner e do general Emílio Garrastazu Médici assinaram o Tratado de Itaipu, que estabeleceu as bases para a construção e a administração conjunta da usina hidrelétrica.

O empreendimento representou uma transformação econômica e territorial de grandes proporções, aproximando os dois países e estimulando investimentos, obras de infraestrutura e movimentos migratórios.

A expansão da fronteira agrícola paraguaia também atraiu milhares de brasileiros, especialmente para o leste do país. Esse processo contribuiu para o desenvolvimento de atividades produtivas, mas esteve associado à concentração fundiária, à apropriação irregular de terras públicas e a conflitos envolvendo comunidades camponesas e indígenas.

A história dos chamados brasiguaios, portanto, está profundamente relacionada às políticas econômicas e territoriais daquele período.

O crescimento econômico observado em determinados momentos da ditadura não pode ser separado de seus custos políticos e sociais. A modernização de setores produtivos conviveu com a ausência de liberdades democráticas, desigualdades e mecanismos de favorecimento político.

2.2. A queda de Stroessner e a redemocratização

A ditadura terminou em 3 de fevereiro de 1989, quando Stroessner foi derrubado por um golpe militar liderado pelo general Andrés Rodríguez, seu antigo aliado e integrante do próprio Partido Colorado.

A transição paraguaia apresentou, assim, uma característica particular: o fim do regime autoritário não resultou imediatamente na retirada do partido governante do poder.

Rodríguez assumiu a Presidência e promoveu uma abertura política que incluiu eleições, ampliação das liberdades públicas e mudanças institucionais.

Stroessner, por sua vez, encontrou refúgio no Brasil. O governo do presidente José Sarney concedeu-lhe asilo político, permitindo que o antigo ditador permanecesse em território brasileiro, onde viveu até sua morte, em Brasília, em agosto de 2006.

O episódio constitui uma das contradições históricas das relações entre os dois países: enquanto o Brasil consolidava sua própria redemocratização, acolhia o dirigente responsável por uma das mais longas ditaduras da América do Sul.

Em 1992, o Paraguai promulgou uma nova Constituição, que estabeleceu as bases de seu regime democrático contemporâneo, reconhecendo direitos fundamentais, fortalecendo a separação dos poderes e disciplinando os mecanismos de responsabilização e sucessão presidencial.

A Constituição também proibiu a reeleição presidencial, refletindo a preocupação em impedir a repetição da concentração pessoal de poder característica do período Stroessner.

No ano seguinte, Juan Carlos Wasmosy tornou-se o primeiro presidente civil eleito no período democrático após a ditadura.

Entretanto, a redemocratização não eliminou imediatamente as estruturas de influência do Partido Colorado.

A organização continuou vencendo eleições presidenciais, preservando sua presença na administração pública e exercendo considerável influência sobre o Congresso e as instituições estatais.

Isso não significa que a transição tenha sido irrelevante. A existência de eleições competitivas, partidos de oposição, imprensa independente e mecanismos constitucionais de controle representou uma transformação efetiva em relação à ditadura.

O desafio passou a ser converter a democratização das regras políticas em uma democratização mais ampla do acesso ao poder e das oportunidades sociais.

2.3. As crises de 1996 e 1999: a democracia posta à prova

A transição paraguaia enfrentou dificuldades importantes ainda durante sua primeira década.

Em 1996, o general Lino Oviedo resistiu à decisão do presidente Juan Carlos Wasmosy de afastá-lo do comando do Exército, desencadeando uma grave crise político-militar.

O episódio demonstrou que a subordinação das Forças Armadas ao poder civil ainda não estava plenamente consolidada.

Três anos depois, o Paraguai viveu uma crise ainda mais dramática.

Em março de 1999, o vice-presidente Luis María Argaña foi assassinado, provocando manifestações populares e confrontos violentos que ficaram conhecidos como o Março Paraguaio.

A crise atingiu diretamente o presidente Raúl Cubas Grau, também integrante do Partido Colorado, cuja proximidade com Lino Oviedo alimentava conflitos dentro da própria legenda.

Diante da pressão política e da possibilidade de destituição, Cubas renunciou à Presidência. Como o vice-presidente havia sido assassinado, a sucessão coube ao presidente do Senado, Luis Ángel González Macchi, conforme as regras constitucionais.

Esse episódio constitui um antecedente relevante para a crise de Santiago Peña.

Ele demonstra que o Partido Colorado já enfrentou situações em que um presidente de suas próprias fileiras perdeu as condições políticas de permanecer no cargo, sem que isso resultasse imediatamente na perda do controle do Executivo pela legenda.

Ao mesmo tempo, as manifestações de 1999 evidenciaram a capacidade de mobilização da sociedade paraguaia diante de ameaças à ordem democrática.

2.4. Fernando Lugo: o ex-bispo que interrompeu a hegemonia colorada

A mais importante alternância partidária da história democrática recente do Paraguai ocorreu em 20 de abril de 2008, com a eleição de Fernando Armindo Lugo Méndez.

Nascido em 30 de maio de 1951, no departamento de Itapúa, Lugo construiu sua trajetória inicialmente na Igreja Católica.

Integrante da Congregação do Verbo Divino, estudou teologia e exerceu atividades religiosas no Paraguai e no exterior. Em 1994, foi nomeado bispo da Diocese de San Pedro, uma das regiões mais pobres do país, marcada pela concentração fundiária e por conflitos agrários.

Sua atuação junto a comunidades camponesas e setores socialmente vulneráveis lhe conferiu a imagem de bispo dos pobres.

Ao longo dos anos, Lugo aproximou-se de movimentos sociais e passou a defender mudanças na estrutura econômica e política paraguaia, especialmente em relação à distribuição de terras, à redução da pobreza e ao fortalecimento dos serviços públicos.

Em 2006, afastou-se das funções episcopais para ingressar na política. Sua decisão provocou controvérsias na Igreja Católica, mas abriu caminho para sua candidatura presidencial.

Lugo tornou-se o principal nome da Aliança Patriótica para a Mudança, uma ampla coalizão que reuniu movimentos de esquerda, organizações sociais e partidos de oposição, incluindo o tradicional Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA).

Sua vitória, com aproximadamente 41% dos votos, encerrou 61 anos consecutivos de governos colorados.

A eleição teve significado histórico porque demonstrou que a alternância presidencial era possível dentro das instituições democráticas paraguaias, sem necessidade de uma ruptura da ordem constitucional.

Entretanto, a coalizão que sustentou sua candidatura reunia forças com projetos políticos distintos, o que se tornaria um dos principais obstáculos de seu governo.

2.5. O governo Lugo: reformas, avanços e limitações

Fernando Lugo assumiu a Presidência em 15 de agosto de 2008, prometendo combater a pobreza, ampliar os direitos sociais e enfrentar desigualdades históricas.

Sua administração buscou fortalecer a presença do Estado em áreas sociais, com destaque para a ampliação do acesso aos serviços públicos de saúde.

Uma das medidas mais relevantes foi a implementação da gratuidade de atendimentos e procedimentos em estabelecimentos públicos vinculados ao Ministério da Saúde, reduzindo barreiras financeiras para parcelas da população.

O governo também ampliou programas de transferência de renda, como o Tekoporã, destinado a famílias em situação de pobreza, e procurou fortalecer políticas de proteção social.

Na área econômica, o Paraguai experimentou forte crescimento em 2010, favorecido pela recuperação da produção agropecuária após a seca do ano anterior e pela expansão das exportações.

O desempenho, entretanto, foi irregular, refletindo a vulnerabilidade da economia às condições climáticas e às oscilações dos mercados internacionais.

Uma conquista diplomática importante ocorreu nas negociações com o Brasil sobre Itaipu.

Em 2009, Lugo e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva firmaram entendimento que abriu caminho para a elevação da compensação paga ao Paraguai pela energia de Itaipu cedida ao Brasil, posteriormente implementada após os procedimentos legislativos necessários.

O acordo demonstrou que governos de orientações políticas distintas poderiam negociar mudanças relevantes nas relações bilaterais sem comprometer a continuidade da cooperação energética.

Apesar desses avanços, Lugo enfrentou obstáculos expressivos.

Seu governo não dispunha de maioria parlamentar própria e dependia do apoio de partidos que divergiam de sua agenda social e econômica.

A reforma agrária, uma de suas principais bandeiras, encontrou forte resistência de grandes proprietários, organizações empresariais e setores políticos tradicionais.

Também surgiram conflitos dentro da coalizão governista, especialmente com dirigentes do Partido Liberal, ao qual pertencia o vice-presidente Federico Franco.

O governo enfrentou ainda controvérsias pessoais envolvendo o reconhecimento de paternidade de filhos concebidos durante a vida religiosa de Lugo, episódios explorados politicamente por seus adversários.

Essas dificuldades contribuíram para o desgaste de sua autoridade, mas não explicam isoladamente sua destituição.

Para compreender o desfecho de 2012, é necessário considerar a persistência dos conflitos agrários e a fragilidade da sustentação parlamentar de seu governo.

2.6. Curuguaty e o impeachment de 2012

Em 15 de junho de 2012, uma operação policial destinada à desocupação de terras em Marina Cué, na região de Curuguaty, terminou em confronto armado e provocou a morte de 17 pessoas: onze camponeses e seis policiais.

O episódio representou uma tragédia humana e expôs a gravidade dos conflitos fundiários paraguaios.

As circunstâncias das mortes, a atuação das forças de segurança e a situação jurídica das terras tornaram-se objeto de controvérsias e questionamentos.

Poucos dias depois, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura de um julgamento político contra Fernando Lugo, acusando-o de mau desempenho de suas funções.

O processo não se limitou a Curuguaty. A acusação parlamentar reuniu outros episódios, relacionados à segurança pública, a conflitos agrários e a decisões políticas do governo. 

O libelo acusatório reuniu cinco fundamentos: a utilização de instalações militares para um ato político em 2009; os conflitos agrários em Ñacunday; a alegada insuficiência das medidas de combate à insegurança pública e ao Exército do Povo Paraguaio; a assinatura do Protocolo de Ushuaia II; e a responsabilidade política atribuída a Lugo pelos acontecimentos de Curuguaty. A controvérsia jurídica não se limitou à possibilidade constitucional de julgamento por mau desempenho das funções presidenciais. A defesa questionou o prazo extremamente reduzido para examinar as acusações e preparar sua resposta, enquanto a amplitude dos fundamentos apresentados suscitou críticas à individualização das condutas e das provas.

Entretanto, a rapidez do procedimento tornou-se seu aspecto mais controverso.

Em 21 de junho, a Câmara aprovou a acusação por ampla maioria. No dia seguinte, o Senado concluiu o julgamento e destituiu o presidente por 39 votos favoráveis e quatro contrários.

A defesa recebeu aproximadamente duas horas para apresentar seus argumentos perante o Senado.

O processo, concluído em pouco mais de 24 horas, suscitou sérias dúvidas sobre a efetividade do contraditório e da ampla defesa.

Lugo contestou a legitimidade da destituição, classificando-a como um golpe parlamentar, mas não convocou uma resistência destinada a impedir sua substituição pela força.

O vice-presidente Federico Franco, do Partido Liberal, assumiu a Presidência.

É importante distinguir a existência de previsão constitucional para o julgamento político da maneira como esse instrumento foi concretamente utilizado.

A Constituição paraguaia admite a destituição de determinadas autoridades por mau desempenho de suas funções ou pela prática de infrações previstas no artigo 225. Entretanto, a legitimidade de um procedimento não depende exclusivamente da competência formal dos órgãos que o realizam, mas também do respeito às garantias processuais.

A destituição de Lugo foi juridicamente formalizada pelas instituições paraguaias, mas sua legitimidade democrática permaneceu objeto de controvérsia nacional e internacional.

A reação regional foi expressiva.

O Mercosul suspendeu a participação do Paraguai em suas instâncias políticas, considerando que o episódio comprometera a ordem democrática. A Unasul também adotou medidas de suspensão.

O Brasil, então governado por Dilma Rousseff, participou das articulações diplomáticas relacionadas à crise.

A suspensão paraguaia do Mercosul foi encerrada em 2013, no contexto da posse do novo presidente eleito, Horacio Cartes.

A experiência de Lugo demonstra que a alternância eleitoral, embora indispensável à democracia, não assegura por si só a estabilidade de um governo quando existem conflitos intensos entre os poderes e uma coalizão parlamentar fragmentada.

Também evidencia que o julgamento político, mesmo previsto constitucionalmente, pode gerar questionamentos democráticos profundos quando as garantias de defesa são insuficientes.

2.7. Fernando Lugo depois da Presidência

A história política de Fernando Lugo não terminou com sua destituição.

Apesar do desgaste e das controvérsias de 2012, ele permaneceu como uma das principais referências da esquerda paraguaia.

Em 2013, foi eleito senador pelo Frente Guasú, articulação política que reuniu partidos e movimentos progressistas.

Sua eleição demonstrou que, mesmo afastado da Presidência, Lugo conservava apoio eleitoral e capacidade de influência na oposição.

Foi reeleito para o Senado em 2018 e continuou participando dos debates nacionais, especialmente sobre desigualdade, direitos sociais e democracia.

Sua atuação, entretanto, passou a enfrentar limitações decorrentes de problemas de saúde.

Em agosto de 2022, quando exercia o mandato parlamentar, Lugo sofreu um acidente vascular cerebral que exigiu internação e tratamento prolongado.

Após receber atendimento no Paraguai, foi transferido para a Argentina, onde realizou parte de sua recuperação.

Retornou ao país em março de 2023, mas não recuperou plenamente suas condições anteriores de participação na vida política.

Em agosto daquele ano, recebeu a visita do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, com quem havia mantido relações próximas durante o período em que ambos exerceram simultaneamente a Presidência de seus países.

Desde então, Lugo tem permanecido relativamente afastado da atividade política cotidiana, dedicando-se ao tratamento e à reabilitação.

Afastamento, porém, não significa desaparecimento de sua influência histórica.

Em 5 de novembro de 2026, justamente quando o Paraguai acompanhava a crise de Santiago Peña, Lugo reapareceu nas redes sociais em uma fotografia ao lado de antigos colaboradores do Frente Guasú.

Entre os presentes estavam ex-senadores que haviam participado de sua trajetória política, incluindo Jorge Querey, Hugo Richer e Sixto Pereira.

A mensagem divulgada pelo ex-presidente informava que acompanhava atentamente os acontecimentos de seu país.

O reencontro adquiriu significado simbólico por ocorrer durante o novo processo de julgamento político de um presidente paraguaio, quatorze anos depois de sua própria destituição.

Há ainda uma questão jurídica pendente relacionada ao episódio de 2012.

Após tentativas frustradas de questionar sua destituição perante a Justiça paraguaia, Lugo levou a controvérsia ao sistema interamericano de direitos humanos.

Em dezembro de 2021, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos admitiu examinar sua petição contra o Estado paraguaio.

A admissibilidade não significa reconhecimento de que houve violação, mas permite o prosseguimento da análise internacional sobre as garantias aplicadas ao julgamento político.

Esse desdobramento demonstra que as consequências jurídicas e institucionais da destituição de Lugo continuam relevantes muito depois de encerrado seu mandato.

2.8. Lugo e Peña: crises diferentes, questões institucionais comuns

A comparação entre Fernando Lugo e Santiago Peña exige cautela.

Lugo chegou ao poder como candidato de uma coalizão oposicionista, interrompendo uma longa hegemonia partidária. Sua destituição ocorreu em meio a conflitos agrários, divergências dentro da base governista e um julgamento político marcado pela extrema rapidez.

Peña, ao contrário, foi eleito pelo Partido Colorado, apoiado por uma estrutura partidária tradicional e por uma maioria governista. Sua crise surgiu de um escândalo financeiro e de questionamentos sobre a atuação de autoridades responsáveis pela fiscalização bancária.

Em 2012, o Partido Colorado participou da articulação parlamentar que afastou um presidente de oposição. Em 2026, a mesma legenda retirou apoio de um presidente pertencente às suas próprias fileiras.

Os dois episódios não possuem as mesmas causas, tampouco autorizam conclusões idênticas sobre a responsabilidade dos governantes.

Entretanto, ambos revelam a importância das maiorias parlamentares, da influência dos partidos tradicionais e dos mecanismos constitucionais de responsabilização presidencial.

Também mostram que o Partido Colorado possui uma capacidade histórica de preservar sua presença no poder, mesmo quando crises atingem diretamente governos ou lideranças com os quais mantém relações.

Isso não significa que sua hegemonia seja permanente ou inevitável.

A eleição de Lugo demonstrou a possibilidade de alternância democrática. Sua destituição revelou as dificuldades enfrentadas por uma experiência governamental sem sustentação parlamentar suficientemente sólida.

Já a crise de Peña poderá demonstrar até que ponto o Partido Colorado consegue reorganizar suas lideranças sem perder o controle do Executivo, ou se o desgaste político abrirá espaço para novas forças eleitorais.

Em qualquer dessas hipóteses, a estabilidade das instituições não deve ser confundida com a permanência de determinado partido no governo.

A democracia pressupõe justamente a possibilidade de substituir governantes, responsabilizar autoridades e promover alternância no exercício do poder.

O Paraguai percorreu um caminho difícil desde o fim da ditadura de Stroessner. Suas instituições enfrentaram tentativas de intervenção militar, assassinatos políticos, renúncias presidenciais e julgamentos de destituição.

Essas crises revelam fragilidades, mas também demonstram que a sociedade paraguaia construiu mecanismos de disputa e resolução de conflitos que não existiam sob o regime autoritário.

A questão fundamental, portanto, não é saber se o Partido Colorado continuará governando indefinidamente, mas se as instituições democráticas serão capazes de assegurar que qualquer partido, inclusive aquele que historicamente dominou o Estado, esteja submetido à Constituição, à fiscalização pública e à vontade popular.


3. O país por trás das manchetes

Muito antes da crise que atingiu Santiago Peña, o Paraguai já despertava crescente interesse entre brasileiros que buscavam oportunidades de negócios, investimentos e melhores condições de vida. Nas redes sociais, multiplicaram-se relatos sobre a expansão econômica do país, sua carga tributária relativamente baixa, os custos competitivos de produção e a facilidade para abrir empresas. Alguns chegaram a descrevê-lo como uma espécie de “Suíça sul-americana”, sugerindo que o país vizinho teria encontrado um caminho de prosperidade superior ao brasileiro.

Essa imagem não é inteiramente desprovida de fundamentos. Nas últimas duas décadas, o Paraguai apresentou taxas expressivas de crescimento econômico, ampliou sua produção agropecuária, fortaleceu atividades industriais e comerciais e atraiu investimentos estrangeiros. Sua economia também se beneficiou da geração de energia hidrelétrica e da integração produtiva com países vizinhos.

Segundo o Banco Mundial, o crescimento econômico paraguaio aproximou-se de uma média anual de 5% nas últimas duas décadas, colocando o país entre os de expansão mais dinâmica da América Latina. No mesmo período, a pobreza, que atingia mais da metade da população, recuou para 16% em 2025.

Trata-se de uma transformação importante, que merece reconhecimento independentemente da orientação política dos governos responsáveis por sua condução.

O desempenho econômico, entretanto, não autoriza concluir que o Paraguai tenha alcançado padrões de renda e bem-estar semelhantes aos dos países europeus desenvolvidos.

Em 2025, o PIB per capita nominal paraguaio situava-se em aproximadamente US$ 7 mil, abaixo do brasileiro, que superava US$ 10 mil. Portanto, a afirmação de que a população paraguaia possui, em média, renda superior à brasileira não encontra respaldo nessa comparação.

Naturalmente, o PIB per capita não corresponde diretamente à renda disponível das famílias, nem permite avaliar sozinho o poder de compra. Diferenças de preços, impostos, salários e serviços públicos podem alterar significativamente as condições concretas de vida.

O Paraguai pode oferecer vantagens econômicas reais para determinados empresários, investidores e trabalhadores, sem que essas vantagens se estendam de maneira uniforme à população.

Também é necessário distinguir o crescimento da produção nacional da distribuição dos benefícios desse crescimento.

Uma economia pode ampliar suas exportações, atrair investimentos e aumentar a produtividade enquanto parcelas expressivas da população continuam enfrentando dificuldades para obter emprego formal, atendimento médico, moradia adequada e proteção previdenciária.

O desafio paraguaio não consiste apenas em produzir mais riqueza, mas em ampliar as possibilidades de participação social nos resultados desse desenvolvimento.

3.1 A redução da pobreza e seus limites

Os avanços sociais paraguaios são significativos e não devem ser minimizados.

Segundo os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística, a pobreza monetária atingia 24,5% da população em 2022, recuando para 21,6% em 2023, 19,6% em 2024 e 16% em 2025.

Essa redução demonstra que o crescimento econômico e determinadas políticas públicas contribuíram para melhorar as condições materiais de uma parcela importante da população.

O Banco Mundial destaca o aumento dos rendimentos reais do trabalho, especialmente entre os grupos de menor renda, como um dos principais fatores dessa transformação. Programas sociais também tiveram participação relevante.

Entretanto, a pobreza permanece distribuída de maneira desigual pelo território.

Em 2025, atingia 13,6% da população urbana e 22,1% da população rural. Embora a maioria das pessoas pobres residisse nas cidades, a probabilidade de viver em situação de pobreza continuava consideravelmente maior no campo.

A desigualdade aparece de forma ainda mais expressiva quando se consideram outras dimensões das condições de vida.

O Índice de Pobreza Multidimensional, divulgado em agosto de 2026, apontou que 13,5% dos paraguaios enfrentavam privações simultâneas relacionadas a trabalho, seguridade social, habitação, serviços básicos, saúde, ambiente e educação.

Nas áreas rurais, esse percentual alcançava 30,3%, contra 6,8% nas áreas urbanas.

Outro dado chama atenção: mais da metade das pessoas classificadas como pobres multidimensionais não eram consideradas pobres pelo critério exclusivamente monetário.

Isso significa que possuir renda acima da linha oficial de pobreza não assegura, necessariamente, acesso adequado a serviços públicos e condições dignas de vida.

A experiência paraguaia demonstra, portanto, que crescimento econômico e redução da pobreza monetária são conquistas relevantes, mas não esgotam o conceito de desenvolvimento.

3.2. Trabalho, Previdência e proteção social

Um dos principais contrastes entre a imagem de prosperidade econômica e a realidade social paraguaia aparece no mercado de trabalho.

Em 2025, aproximadamente 60,1% das pessoas ocupadas estavam na informalidade, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Isso correspondia a cerca de 1,66 milhão de trabalhadores.

A informalidade era especialmente elevada entre trabalhadores domésticos, autônomos, pessoas com baixa escolaridade e determinados grupos etários.

Entre os trabalhadores domésticos, aproximadamente nove em cada dez estavam em ocupações informais. Entre os trabalhadores por conta própria, a proporção aproximava-se de oito em cada dez.

Esses números revelam uma contradição importante: um país pode apresentar desemprego relativamente baixo e, ao mesmo tempo, manter grande parte de sua força de trabalho sem proteção previdenciária adequada.

A existência de ocupação remunerada não significa necessariamente estabilidade econômica, segurança em caso de doença ou garantia de renda na velhice.

O Paraguai dispõe de instituições previdenciárias e políticas de assistência social. O Instituto de Previdência Social, conhecido pela sigla IPS, oferece proteção a trabalhadores vinculados ao sistema contributivo, incluindo benefícios previdenciários e serviços de saúde.

Entretanto, a elevada informalidade limita a abrangência desse modelo.

O país também desenvolveu programas destinados à população vulnerável, como o Tekoporã, voltado a famílias em situação de pobreza, e o programa de proteção a pessoas idosas, além da expansão da alimentação escolar por meio do Hambre Cero.

Segundo o Banco Mundial, em 2024 o Tekoporã atendia mais de 170 mil famílias, enquanto o programa destinado a pessoas idosas alcançava mais de 300 mil beneficiários. O Hambre Cero já beneficiava mais de 1,1 milhão de estudantes.

Essas políticas demonstram que a proteção social paraguaia não é inexistente, como algumas comparações simplificadoras poderiam sugerir.

Contudo, sua estrutura, cobertura e capacidade de atendimento diferem das brasileiras.

O Brasil dispõe de um sistema público universal de saúde, o SUS, além de uma estrutura previdenciária e assistencial mais abrangente, embora também marcada por insuficiências, desigualdades regionais e dificuldades de acesso.

No Paraguai, a assistência à saúde é organizada por diferentes redes públicas e contributivas, com maior fragmentação e limitações de cobertura.

Essa diferença precisa ser considerada quando brasileiros avaliam a possibilidade de mudar de país.

Uma família que obtém redução de despesas tributárias ou comerciais pode, em contrapartida, precisar assumir diretamente custos relacionados à saúde, à educação, à Previdência e a outros serviços.

O balanço econômico individual depende, portanto, não apenas da renda ou dos impostos pagos, mas também dos direitos e serviços disponíveis.

Não se trata de afirmar que viver no Brasil seja necessariamente melhor do que viver no Paraguai. Trata-se de reconhecer que as condições variam conforme renda, profissão, composição familiar, local de residência e necessidades individuais.

3.3. O mito de que tudo é mais barato no Paraguai

A associação do Paraguai a preços baixos possui raízes históricas, especialmente no comércio de Ciudad del Este, destino conhecido de consumidores brasileiros interessados em eletrônicos, perfumes e mercadorias importadas.

Entretanto, o preço reduzido de determinados produtos não significa que o custo geral de vida seja necessariamente inferior em todas as situações.

As diferenças dependem da tributação, da origem das mercadorias, das taxas de câmbio, da concorrência, da localização e das condições de comercialização.

Produtos importados podem apresentar vantagens expressivas em relação aos preços brasileiros, enquanto alimentos, medicamentos, serviços e imóveis podem oferecer resultados bastante distintos.

Além disso, a comparação deve considerar qualidade, garantias, regularidade fiscal e custos adicionais.

O mesmo raciocínio vale para a atividade empresarial.

A carga tributária paraguaia pode ser competitiva em determinados setores, mas a instalação de uma empresa envolve outras variáveis, como infraestrutura, logística, disponibilidade de trabalhadores qualificados, acesso ao crédito, segurança jurídica e proximidade dos mercados consumidores.

A prosperidade econômica de um país não pode ser medida exclusivamente pela facilidade de abrir empresas ou pelo preço de produtos importados.

Uma avaliação mais completa exige observar o conjunto das condições de produção e de vida de sua população.

3.4. Os brasiguaios e a formação de uma sociedade de fronteira

A presença brasileira no Paraguai não começou com a atual procura por vantagens tributárias e oportunidades empresariais.

Suas raízes remontam a movimentos migratórios anteriores, intensificados especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970, quando a expansão da fronteira agrícola aproximou os dois países.

Durante a ditadura de Alfredo Stroessner, políticas de colonização e transformação produtiva estimularam a ocupação de áreas do leste paraguaio por agricultores brasileiros.

Parte desses migrantes buscava terras mais acessíveis do que aquelas disponíveis no Sul do Brasil. Outros haviam sido deslocados pela concentração fundiária e pela mecanização da agricultura brasileira.

Esse processo envolveu pequenos agricultores, trabalhadores rurais e grandes proprietários, cujas condições econômicas e interesses frequentemente eram muito diferentes.

A expressão brasiguaios passou a identificar uma população marcada por vínculos familiares, culturais e econômicos com os dois países.

Inicialmente associada também a brasileiros que retornavam do Paraguai em busca de terra e reconhecimento de direitos no Brasil, a denominação adquiriu significados mais amplos.

Não se trata de uma comunidade homogênea.

Há brasiguaios proprietários de grandes estabelecimentos agrícolas, pequenos produtores, comerciantes, trabalhadores assalariados e famílias que enfrentam dificuldades de documentação, acesso à terra e integração social.

Essa diversidade é indispensável para evitar duas generalizações igualmente equivocadas: apresentar todos os brasiguaios como empresários rurais privilegiados ou considerá-los indistintamente vítimas de perseguição.

A realidade histórica é mais complexa.

A expansão da agricultura mecanizada contribuiu para transformar o Paraguai em um importante produtor e exportador de soja, mas também provocou mudanças profundas nas relações fundiárias, no ambiente e na organização das comunidades rurais.

Em algumas regiões, o português tornou-se amplamente utilizado no comércio e na vida cotidiana, ao lado do espanhol e do guarani.

Formaram-se espaços sociais e econômicos nos quais as fronteiras nacionais coexistem com intensas relações familiares, produtivas e culturais.

Essa integração, entretanto, não eliminou os conflitos.

3.5. Terra, violência e desigualdade no campo

A questão agrária constitui um dos problemas históricos mais sensíveis do Paraguai.

Durante a ditadura de Stroessner, extensas áreas de terras públicas destinadas à reforma agrária foram distribuídas irregularmente a integrantes do regime, militares, políticos e pessoas economicamente influentes.

Essas propriedades ficaram conhecidas como tierras malhabidas, expressão utilizada para designar terras obtidas mediante procedimentos ilegítimos ou contrários às finalidades das políticas fundiárias.

Após a redemocratização, movimentos camponeses passaram a reivindicar a recuperação dessas áreas e sua destinação à reforma agrária.

O problema, entretanto, envolve situações jurídicas distintas, incluindo propriedades regularmente adquiridas, títulos contestados, ocupações antigas e conflitos entre diferentes grupos de agricultores.

A nacionalidade dos proprietários, por si só, não determina a legitimidade ou ilegitimidade da posse.

Pesquisas acadêmicas sobre a fronteira demonstram que tanto paraguaios quanto brasileiros podem figurar como proprietários, trabalhadores, ocupantes ou vítimas de processos de expropriação.

Na região de Canindeyú, por exemplo, estudos sobre a Colônia Marangatu identificaram denúncias de grilagem, falsificação documental, violência e expulsão de famílias camponesas paraguaias e brasiguaias.

A expansão da soja também trouxe consequências ambientais, especialmente relacionadas ao desmatamento, ao uso intensivo de defensivos agrícolas e à redução de espaços destinados à agricultura familiar.

Esses conflitos ajudam a compreender a importância da questão agrária na trajetória de Fernando Lugo.

Sua atuação religiosa e política esteve profundamente associada às reivindicações de comunidades rurais e à crítica da concentração fundiária.

A tragédia de Curuguaty, em junho de 2012, que deixou onze camponeses e seis policiais mortos, ocorreu justamente nesse contexto de disputas pela terra.

Embora o episódio tenha precipitado o impeachment de Lugo, suas causas históricas ultrapassavam amplamente aquele governo.

A violência agrária não surgiu com o ex-presidente, tampouco desapareceu após sua destituição.

A questão permanece relacionada à distribuição da propriedade, à segurança jurídica, aos direitos das comunidades indígenas, à proteção ambiental e às possibilidades de desenvolvimento rural.

3.6. Da fronteira agrícola à expansão das empresas brasileiras

Nas últimas décadas, a presença econômica brasileira no Paraguai passou por uma transformação importante.

A migração de agricultores e a atividade comercial de fronteira continuam relevantes, mas o interesse empresarial ampliou-se para a indústria, a logística, os serviços, a construção civil e o mercado imobiliário.

O Brasil tornou-se uma das principais origens do investimento estrangeiro direto no Paraguai.

Um dos instrumentos utilizados para atrair empresas é o regime de maquila, que oferece condições tributárias específicas para atividades produtivas destinadas principalmente à exportação, conforme as exigências legais aplicáveis.

Empresas brasileiras passaram a instalar unidades industriais no território paraguaio, aproveitando vantagens relacionadas à energia, à tributação, à localização geográfica e à integração das cadeias produtivas.

Essa movimentação não significa necessariamente o abandono completo das operações brasileiras. Em muitos casos, representa uma reorganização da produção entre estabelecimentos situados nos dois países.

Setores como confecções, autopeças, plásticos, alimentos e metalurgia passaram a integrar esse processo.

Em abril de 2026, a Câmara de Comércio Paraguai-Brasil destacou novos investimentos industriais brasileiros, incluindo projetos de empresas têxteis e fabricantes de componentes destinados a diferentes cadeias produtivas.

O movimento também se refletiu na procura por residência.

Segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai, foram registradas 47.687 solicitações de residência de estrangeiros em 2025, aumento superior a 63% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram concedidas 40.600 residências, das quais 23.526 a cidadãos brasileiros, correspondentes a aproximadamente 58% do total de concessões.

É importante observar que pedidos de residência não correspondem automaticamente a mudanças definitivas de domicílio, nem permitem concluir quantos brasileiros efetivamente passaram a viver no país.

Ainda assim, os números indicam o crescimento do interesse brasileiro pelo território paraguaio.

Em novembro de 2026, o jornal ABC Color chamou atenção para uma transformação particularmente expressiva em Ciudad del Este: os brasileiros já não atravessavam a Ponte da Amizade apenas para adquirir mercadorias, mas também para conhecer instalações industriais, avaliar terrenos, constituir empresas e realizar investimentos.

A antiga imagem da cidade como destino de compras passou a conviver com a de um centro de atividades industriais, comerciais e logísticas.

Essa transformação também trouxe novos desafios.

O crescimento da circulação de pessoas e mercadorias aumenta a pressão sobre a infraestrutura urbana, os serviços públicos, o trânsito e os mecanismos de fiscalização.

Além disso, a atração de investimentos não dispensa a necessidade de políticas trabalhistas, ambientais e urbanas capazes de assegurar que os benefícios econômicos sejam compartilhados pela sociedade.

3.7. Integração econômica não significa ausência de conflitos

As relações entre brasileiros e paraguaios são marcadas por interesses comuns, mas também por assimetrias econômicas e tensões históricas.

O Brasil possui uma economia muito maior, empresas com capacidade de investimento superior e forte presença comercial nas regiões de fronteira.

O Paraguai, por sua vez, oferece oportunidades produtivas e condições competitivas que podem beneficiar empresas dos dois países.

Essa complementaridade favorece a integração, mas exige atenção para evitar relações desequilibradas.

A presença de capitais brasileiros pode contribuir para a criação de empregos, a diversificação industrial e a ampliação da arrecadação paraguaia.

Entretanto, os resultados dependem da qualidade dos investimentos, das condições de trabalho, dos efeitos ambientais e da participação de empresas e trabalhadores locais.

Da mesma forma, a expansão agrícola pode gerar riqueza e exportações, mas também agravar conflitos fundiários quando não acompanhada de segurança jurídica e respeito aos direitos das comunidades atingidas.

A integração regional não deve ser confundida com a simples liberdade de circulação de capitais.

Ela também envolve direitos sociais, proteção ambiental, infraestrutura compartilhada, cooperação institucional e respeito à soberania dos países participantes.

O Mercosul constitui um espaço importante para desenvolver essas relações, embora sua atuação ainda enfrente limitações e contradições.

3.8. Um país que não cabe nos estereótipos

O Paraguai que emerge dessa análise é mais complexo do que aquele apresentado tanto pelas propagandas de prosperidade quanto pelas notícias sobre crises políticas.

O país alcançou resultados econômicos expressivos, reduziu a pobreza e ampliou sua participação nas cadeias produtivas regionais.

Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados à informalidade, à desigualdade territorial, à cobertura da proteção social e à concentração fundiária.

A presença brasileira constitui parte importante dessa realidade, mas não pode ser compreendida exclusivamente pela perspectiva dos investidores ou dos consumidores que atravessam a fronteira.

Ela envolve uma história de migrações, trabalho, conflitos, cooperação e formação de comunidades profundamente conectadas.

Por isso, a crise presidencial de novembro de 2026 não deve apagar as transformações que vinham ocorrendo no país, assim como os indicadores econômicos favoráveis não devem servir para ignorar suas dificuldades sociais.

A imagem de uma “Suíça sul-americana” simplifica uma realidade que merece ser conhecida em sua diversidade.

O Paraguai não precisa ser idealizado para que seus avanços sejam reconhecidos, nem desqualificado para que seus problemas sejam debatidos.

Para o Brasil, compreender essa realidade é especialmente importante. Trata-se de um país vizinho, parceiro comercial, integrante do Mercosul e coproprietário de uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo.

Seus caminhos econômicos e políticos possuem consequências que ultrapassam suas fronteiras.

É sob essa perspectiva que a sucessão presidencial e as relações internacionais paraguaias precisam ser examinadas: não apenas como resultado das preferências de seus governantes, mas como expressão de interesses históricos, econômicos e estratégicos que permanecem mesmo quando os presidentes deixam o poder.


4. O Paraguai depois de Peña 

O anúncio da renúncia de Santiago Peña à Presidência do Paraguai, em 5 de novembro de 2026, abriu uma nova etapa de incertezas políticas e institucionais. O escândalo envolvendo o Ueno Bank, que atingiu milhões de clientes e colocou sob investigação a administração de recursos públicos, provocou o rompimento entre o presidente e dirigentes do próprio Partido Colorado, responsável por sua eleição três anos antes.

Entretanto, a crise revelou algo que ultrapassa a situação pessoal de Peña: a capacidade de uma organização partidária historicamente dominante de reorganizar suas lideranças para preservar o controle do governo.

O vice-presidente Pedro Alliana, também integrante do Partido Colorado e politicamente próximo do ex-presidente Horacio Cartes, tornou-se o sucessor constitucional mais provável.

Sua eventual ascensão, porém, não representa uma alternância partidária. Pelo contrário, poderá assegurar a continuidade do mesmo grupo político que sustentou a eleição de Peña, ainda que mediante mudanças na composição do governo e na distribuição interna de poder.

A Constituição paraguaia estabelece, em seu artigo 234, que, diante da vacância definitiva da Presidência, cabe ao vice-presidente assumir o cargo. Como o mandato presidencial em curso termina em agosto de 2028, Alliana, caso empossado, deverá completar o período restante.

O problema imediato está na definição jurídica da própria vacância.

Embora Peña tenha anunciado e formalizado sua renúncia, o Congresso não concluiu sua aceitação na sessão de 5 de novembro. A Câmara dos Deputados, por sua vez, aprovou por unanimidade, com 78 votos, a acusação destinada a submetê-lo a julgamento político no Senado.

O procedimento fundamenta-se no artigo 225 da Constituição, que prevê a responsabilização política de determinadas autoridades por mau desempenho de suas funções, delitos cometidos no exercício do cargo ou crimes comuns:


"El Presidente de la República, el Vicepresidente, los ministros del Poder Ejecutivo, los ministros de la Corte Suprema de Justicia, el Fiscal General del Estado, el Defensor del Pueblo, el Contralor General de la República, el Subcontralor y los integrantes del Tribunal Superior de Justicia Electoral, sólo podrán ser sometidos a juicio político por mal desempeño de sus funciones, por delitos cometidos en el ejercicio de sus cargos o por delitos comunes. 

La acusación será formulada por la Cámara de Diputados, por mayoría de dos tercios. Corresponderá a la Cámara de Senadores, por mayoría absoluta de dos tercios, juzgar en juicio público a los acusados por la Cámara de Diputados y, en caso, declararlos culpables, al sólo efecto de separarlos de sus cargos, En los casos de supuesta comisión de delitos, se pasarán los antecedentes a la justicia ordinaria."


No caso de Peña, o debate ganhou uma dimensão adicional porque o artigo 189 da Constituição estabelece a condição de senador vitalício para ex-presidentes eleitos democraticamente, excluindo aqueles considerados culpados em julgamento político: "Los ex presidentes de la República, electos democráticamente, serán senadores vitalicios de la Nación, salvo que hubiesen sido sometidos a juicio político y hallados culpables. No integrarán el quórum. Tendrán voz pero no voto."

A oposição passou a questionar se a aceitação da renúncia poderia preservar prerrogativas parlamentares e dificultar uma eventual responsabilização criminal.

É necessário distinguir, entretanto, a destituição política da condenação penal. O julgamento político não substitui a investigação criminal, assim como a existência de acusações não afasta o direito de defesa e a presunção de inocência.

A controvérsia constitucional deverá ser resolvida mediante a aplicação das normas pertinentes, sem que a conveniência política de qualquer grupo se sobreponha às garantias do Estado de Direito.

A própria situação de Alliana também foi objeto de discussão parlamentar. A Câmara rejeitou, por 48 votos a 30, a tentativa de submetê-lo a julgamento político.

Essa decisão preservou sua posição na linha sucessória, mas não equivale a uma declaração judicial de inexistência de irregularidades.

O episódio demonstra que a continuidade institucional depende tanto da observância das regras constitucionais quanto da capacidade das autoridades de preservar a confiança pública.

4.1. O Partido Colorado diante de sua própria crise

A trajetória histórica do Partido Colorado ajuda a compreender por que a saída de Peña não significa necessariamente uma transformação da orientação política do Paraguai.

A legenda permaneceu no poder durante a ditadura de Alfredo Stroessner, atravessou a redemocratização e conservou sua influência durante grande parte das décadas seguintes.

Sua hegemonia presidencial foi interrompida pela vitória de Fernando Lugo, em 2008, mas o partido retornou ao Executivo em 2013, com Horacio Cartes.

A crise atual apresenta uma característica particular: a ruptura ocorreu dentro da própria estrutura governista.

Quando Cartes retirou seu apoio a Peña, a situação presidencial tornou-se politicamente insustentável. Entretanto, o afastamento do presidente não significou o abandono do projeto político colorado.

Alliana pertence ao mesmo partido e mantém vínculos com a liderança de Cartes. Sua eventual posse poderá representar uma tentativa de recuperar a credibilidade do governo sem promover mudanças substanciais em sua orientação econômica e diplomática.

Essa interpretação, embora plausível, não deve ser confundida com a afirmação de que a crise tenha sido planejada para substituir Peña.

O colapso bancário produziu consequências econômicas e sociais concretas. A reorganização partidária pode ser compreendida como uma resposta política a esses acontecimentos, sem que seja necessário presumir uma conspiração previamente articulada.

O futuro do Partido Colorado dependerá, em grande medida, da extensão das investigações e da capacidade de seus dirigentes de responder às demandas da sociedade.

Se as apurações alcançarem outras lideranças partidárias, o desgaste poderá ultrapassar a figura de Peña e comprometer a sustentação política do próprio partido.

Isso poderá favorecer divisões internas, o fortalecimento da oposição ou uma alternância eleitoral em 2028.

Entretanto, não significará necessariamente uma crise do sistema político paraguaio.

A eventual derrota de uma organização partidária historicamente dominante pode representar justamente o funcionamento dos mecanismos democráticos de responsabilização e alternância.

O sistema político compreende instituições, normas e procedimentos que não se confundem com os interesses de qualquer partido.

A continuidade democrática exige que essas instituições sejam capazes de funcionar independentemente de quem esteja no governo.

4.2. O Mercosul e a continuidade dos interesses regionais

A sucessão presidencial também desperta questionamentos sobre o futuro das relações internacionais do Paraguai.

Entretanto, seria equivocado imaginar que a saída de Peña produzirá automaticamente uma mudança de orientação em relação ao Mercosul.

O Paraguai é membro fundador do bloco, ao lado de Brasil, Argentina e Uruguai. Sua participação representa um interesse econômico e estratégico que ultrapassa os governos e as diferenças ideológicas entre seus presidentes.

A integração regional favorece o comércio, os investimentos, a circulação de mercadorias e a articulação de projetos de infraestrutura.

Para uma economia relativamente pequena e sem acesso direto ao mar, como a paraguaia, as relações com os países vizinhos possuem importância particular.

O acesso aos mercados regionais, as rotas de transporte, a navegação pela Hidrovia Paraguai-Paraná e os corredores logísticos constituem elementos fundamentais de sua inserção econômica internacional.

O governo Peña defendia a ampliação dos acordos comerciais do Mercosul e a abertura de novos mercados. Essa orientação não era incompatível com sua aproximação diplomática com os Estados Unidos.

Da mesma forma, um eventual governo Alliana poderá manter relações próximas com Washington e, simultaneamente, defender os interesses paraguaios dentro do bloco sul-americano.

A política externa não se resume a alinhamentos ideológicos. Ela envolve interesses econômicos, compromissos jurídicos, relações comerciais e necessidades estratégicas que permanecem mesmo quando os governos mudam.

A questão relevante não será simplesmente saber se Alliana é mais ou menos favorável ao Mercosul do que Peña, mas verificar se sua administração buscará fortalecer os mecanismos de integração regional, ampliar acordos comerciais e contribuir para a solução de divergências entre os países-membros.

A experiência histórica demonstra que o Mercosul também possui uma dimensão política e democrática.

Em 2012, a destituição de Fernando Lugo provocou a suspensão temporária do Paraguai das instâncias políticas do bloco, diante dos questionamentos sobre a observância das garantias democráticas.

O episódio revela que a integração regional não se limita ao comércio.

Entretanto, a crise de 2026 apresenta circunstâncias distintas, e não seria adequado presumir que o Paraguai esteja diante de uma ruptura democrática semelhante àquela alegada em 2012.

A avaliação dependerá do respeito às normas constitucionais, às garantias processuais e à continuidade das instituições.

4.3. O Brasil e o Paraguai: uma relação que ultrapassa os governos

Para o Brasil, a estabilidade política paraguaia possui importância econômica, diplomática e social.

Os dois países compartilham uma extensa fronteira, relações comerciais intensas e vínculos históricos que envolvem migração, agricultura, indústria, energia e infraestrutura.

A presença de brasileiros no Paraguai e de empresas brasileiras em diferentes setores econômicos torna essa relação especialmente próxima.

A crise bancária e a incerteza política podem afetar a confiança dos investidores, as condições de financiamento e as decisões empresariais, mas não eliminam os interesses que sustentam a integração bilateral.

O governo brasileiro deverá acompanhar os acontecimentos com atenção, respeitando a soberania paraguaia e evitando interferências indevidas em seus procedimentos constitucionais.

A proximidade política entre Lula e Fernando Lugo, assim como as diferenças ideológicas entre o presidente brasileiro e Santiago Peña, não impediram a continuidade das relações institucionais entre os dois países.

Essa experiência demonstra que a diplomacia precisa distinguir afinidades partidárias dos interesses permanentes dos Estados.

Para o Brasil, interessa que o Paraguai mantenha instituições e economia estáveis, respeite os compromissos internacionais e preserve condições favoráveis à cooperação econômica e social.

Também interessa que as relações bilaterais não se restrinjam aos benefícios empresariais.

A proteção dos trabalhadores, os direitos das populações de fronteira, a cooperação sanitária, a segurança pública, o combate ao crime organizado e a preservação ambiental são questões que exigem atuação conjunta.

A presença de comunidades brasileiras em território paraguaio torna ainda mais importante o diálogo entre os governos, especialmente diante de conflitos agrários, questões migratórias e necessidades de acesso a serviços públicos.

Uma eventual aproximação diplomática entre Lula e Alliana poderá ser positiva, mas não deve ser medida apenas pela cordialidade entre os presidentes.

Seus resultados concretos dependerão da capacidade de avançar em projetos de interesse comum.

4.4. Itaipu: uma parceria estratégica acima das disputas partidárias

Entre todos os vínculos econômicos e diplomáticos entre Brasil e Paraguai, Itaipu ocupa uma posição singular.

A usina hidrelétrica binacional foi concebida durante as ditaduras militares dos dois países, a partir do Tratado de 1973, mas continuou desempenhando papel estratégico após a redemocratização.

Sua existência demonstra como determinados compromissos internacionais atravessam diferentes regimes políticos e administrações presidenciais.

Itaipu representa uma fonte fundamental de energia, receitas e investimentos, além de constituir um dos principais instrumentos de cooperação entre os dois Estados.

Entretanto, a administração conjunta também envolve divergências sobre tarifas, distribuição de benefícios e comercialização da energia.

O Tratado de Itaipu estabelece, em seu Anexo C, as bases financeiras e de prestação dos serviços de eletricidade da entidade binacional.

O marco de cinquenta anos da entrada em vigor do Tratado de Itaipu, alcançado em 13 de agosto de 2023, não significou sua extinção nem a cessação automática das obrigações jurídicas da entidade binacional. O artigo VI do Anexo C estabeleceu a revisão de suas disposições financeiras e de prestação dos serviços de eletricidade após esse período. Assim, as operações de Itaipu tiveram continuidade, enquanto Brasil e Paraguai passaram a negociar eventuais alterações nas condições financeiras e comerciais aplicáveis à energia produzida.

Durante o governo Peña, Brasil e Paraguai chegaram a um acordo que estabeleceu a tarifa de US$ 19,28 por quilowatt-mês para o período de 2024 a 2026, ao mesmo tempo que anunciaram o início das negociações para revisar o Anexo C.

O governo paraguaio apresentou o entendimento como uma conquista que permitiria ampliar receitas e investimentos sociais, além de fortalecer sua capacidade de utilizar a energia elétrica para o desenvolvimento industrial.

Para o Brasil, as negociações envolvem preocupações relacionadas ao custo da energia, à sustentabilidade financeira da usina e às condições de fornecimento.

Esses interesses não são necessariamente incompatíveis, mas exigem negociação e equilíbrio.

O Paraguai procura ampliar os benefícios econômicos decorrentes de sua participação na produção energética, enquanto o Brasil busca preservar condições favoráveis de abastecimento e custos.

A revisão do Anexo C também poderá influenciar a possibilidade de maior comercialização da energia paraguaia e as estratégias de industrialização do país.

A sucessão presidencial ocorre, portanto, em um momento relevante para o futuro de Itaipu.

Entretanto, não há razão para presumir que a eventual chegada de Alliana ao poder representará uma ruptura automática com a posição negociadora anteriormente adotada por Peña.

Os interesses paraguaios na utilização da energia como instrumento de desenvolvimento possuem continuidade histórica.

Da mesma forma, o Brasil deverá conduzir as negociações considerando os interesses nacionais e a necessidade de preservar uma parceria duradoura.

A principal questão será saber se os dois governos conseguirão transformar as negociações energéticas em oportunidades de desenvolvimento compartilhado, evitando que Itaipu seja utilizada apenas como instrumento de disputas políticas internas.

4.5. Trump, os Estados Unidos e a política externa paraguaia

A relação do Paraguai com os Estados Unidos constitui outra dimensão importante da sucessão presidencial.

Durante seu governo, Santiago Peña cultivou proximidade com a administração norte-americana e adotou posições diplomáticas convergentes com Washington em diferentes temas internacionais.

O Paraguai mantém relações diplomáticas com Taiwan, em contraste com a maior parte dos países sul-americanos, que reconhecem a República Popular da China.

Também conserva vínculos estreitos com Israel, incluindo a transferência de sua embaixada para Jerusalém.

Essas posições refletem orientações diplomáticas anteriores ao governo Peña e demonstram que a política externa paraguaia possui continuidades próprias.

A eventual ascensão de Pedro Alliana não deverá significar, necessariamente, um afastamento dos Estados Unidos.

Ao contrário, Alliana já mantém interlocução direta com integrantes da administração Donald Trump.

Em agosto de 2026, visitou Washington e participou de encontros com o secretário de Estado Marco Rubio e outras autoridades norte-americanas.

Na ocasião, os dois países firmaram um memorando de entendimento sobre cooperação estratégica em energia nuclear civil, com a participação do vice-presidente paraguaio.

O relacionamento também envolve temas de segurança, combate ao crime organizado e cooperação regional.

Segundo informações divulgadas pela imprensa argentina após o anúncio da renúncia de Peña, integrantes do governo paraguaio indicaram que Alliana pretende preservar as relações estratégicas com Estados Unidos, Israel e Taiwan.

Essa perspectiva reforça a hipótese de continuidade diplomática.

Entretanto, a proximidade com Trump não significa que o Paraguai esteja obrigado a acompanhar todas as posições norte-americanas.

A diplomacia paraguaia precisa conciliar relações com Washington, interesses comerciais regionais, compromissos com o Mercosul e oportunidades de inserção em outros mercados.

A relação com a China representa um desafio particular.

Embora mantenha reconhecimento diplomático de Taiwan, o Paraguai participa de uma economia regional profundamente conectada ao mercado chinês, especialmente por meio das cadeias agroindustriais.

Essa situação exige escolhas diplomáticas complexas, que não podem ser explicadas exclusivamente por afinidades ideológicas.

A política externa de Alliana, caso assuma a Presidência, deverá ser avaliada por suas decisões concretas, e não apenas pela proximidade pessoal com lideranças internacionais.

Para o Brasil, uma relação cordial entre Assunção e Washington não constitui, por si só, um obstáculo à cooperação bilateral.

O desafio será preservar espaços de diálogo e interesses comuns, mesmo quando existirem diferenças nas orientações diplomáticas dos governos.

4.6. A democracia paraguaia diante de mais uma prova

A crise de Santiago Peña recoloca uma questão que acompanha a história política paraguaia desde a redemocratização: como assegurar que as instituições sejam mais fortes do que os governantes e os partidos?

A experiência do país demonstra que a transição democrática não eliminou imediatamente as estruturas de poder construídas durante décadas de hegemonia colorada.

Entretanto, também revela a existência de mecanismos constitucionais, eleições competitivas, mobilização social e instituições capazes de enfrentar conflitos políticos.

A vitória de Fernando Lugo em 2008 demonstrou a possibilidade de alternância eleitoral. Sua destituição em 2012, por outro lado, suscitou questionamentos sobre as garantias processuais e os limites do julgamento político.

A crise de 2026 apresenta características próprias.

O colapso de uma instituição financeira, as suspeitas de conflitos de interesses e a perda de sustentação parlamentar produziram uma situação na qual o presidente anunciou sua renúncia antes do encerramento do mandato.

O desafio das instituições paraguaias será assegurar a apuração das responsabilidades sem transformar o procedimento constitucional em instrumento de perseguição ou proteção partidária.

Isso exige respeito ao direito de defesa, independência das investigações, transparência na administração dos recursos públicos e proteção dos depositantes atingidos pela crise bancária.

Também exige distinguir responsabilidade política de responsabilidade criminal.

A perda de confiança parlamentar pode justificar consequências constitucionais próprias, mas não substitui a necessidade de comprovação de eventuais crimes perante as autoridades competentes.

Da mesma forma, a preservação da estabilidade política não pode servir de justificativa para impedir investigações que alcancem dirigentes do partido governista.

Se as apurações demonstrarem a participação de outras autoridades em irregularidades, a responsabilização deverá ocorrer independentemente de suas posições partidárias.

Isso poderá enfraquecer o Partido Colorado, provocar divisões internas ou favorecer uma futura alternância eleitoral.

Nenhuma dessas possibilidades significa, necessariamente, uma crise do sistema político.

Ao contrário, a capacidade de investigar e responsabilizar governantes, preservar as regras de sucessão e permitir a disputa democrática pelo poder pode representar um fortalecimento institucional.

A democracia não exige a ausência de crises políticas. Exige que essas crises possam ser enfrentadas mediante instituições legítimas, procedimentos transparentes e respeito aos direitos fundamentais.

4.7. O futuro do Paraguai não se resume ao destino de um presidente

A queda de Santiago Peña poderá marcar uma mudança importante na história política recente do Paraguai, mas seus efeitos ainda dependem de acontecimentos que estão em desenvolvimento.

A sucessão presidencial, o alcance das investigações, a capacidade de reorganização do Partido Colorado e a atuação da oposição influenciarão os rumos do país até as eleições de 2028.

Entretanto, a sociedade paraguaia continuará enfrentando desafios que não começaram com Peña e não desaparecerão com sua saída.

O crescimento econômico precisará ser acompanhado de maior inclusão social, ampliação da proteção previdenciária, melhoria dos serviços públicos e enfrentamento das desigualdades territoriais.

A expansão dos investimentos deverá conviver com políticas de proteção trabalhista, segurança jurídica, respeito aos direitos das comunidades rurais e preservação ambiental.

As relações com o Brasil, o Mercosul, os Estados Unidos e os demais parceiros internacionais continuarão exigindo decisões que conciliem interesses econômicos, soberania e desenvolvimento.

Itaipu permanecerá como símbolo dessa continuidade histórica: um empreendimento concebido durante regimes autoritários, preservado pelas democracias e cuja administração futura dependerá da capacidade de cooperação entre os dois países.

A experiência paraguaia também oferece uma reflexão mais ampla sobre a América do Sul.

Brasil e Paraguai compartilharam períodos de ditadura, enfrentaram processos distintos de redemocratização e continuam buscando formas de fortalecer suas instituições.

A democracia não se consolida simplesmente pela realização periódica de eleições, mas pela possibilidade efetiva de alternância, pela fiscalização do poder, pela proteção dos direitos e pela submissão de todos os governantes à Constituição.

Nesse sentido, a crise atual não deve ser interpretada antecipadamente como sinal de fracasso democrático, nem celebrada automaticamente como demonstração de fortalecimento institucional.

Seu significado dependerá da maneira como o Paraguai resolver as controvérsias constitucionais, proteger os cidadãos atingidos e assegurar que as investigações avancem sem privilégios ou perseguições.

A história do país demonstra que os governos passam, os partidos podem perder ou recuperar o poder e as orientações políticas se transformam.

O que precisa permanecer é a capacidade da sociedade de decidir democraticamente seu próprio futuro.

Para os brasileiros, conhecer melhor essa trajetória significa reconhecer que o Paraguai não é apenas um destino de compras, investimentos ou oportunidades empresariais, tampouco um país que merece atenção somente quando seus presidentes enfrentam crises.

É uma nação vizinha, com história própria, conquistas econômicas, desigualdades persistentes e instituições que continuam sendo construídas e aperfeiçoadas.

A queda de Santiago Peña poderá representar o encerramento de um governo. O futuro da democracia paraguaia, entretanto, será definido por algo muito mais importante: a capacidade de suas instituições e de sua sociedade de assegurar que nenhum governante ou partido esteja acima da lei, e que a continuidade do Estado não dependa da permanência de quem exerce temporariamente o poder.


5. Fontes e referências

5.1. Constituição da República do Paraguai (1992). Biblioteca e Arquivo Central do Congresso Nacional. Especialmente os artigos 189, 202, inciso 16, 225, 227, 229 e 234, relativos à organização do Congresso, à renúncia presidencial, ao julgamento político e à sucessão.

https://www.bacn.gov.py/archivos/9580/CO

5.2. Organização Mundial do Comércio (OMC). Santiago Peña Palacios — Presidente de la República del Paraguay. Biografia institucional apresentada no âmbito de evento da OMC, contendo informações sobre nascimento, formação acadêmica, atuação no Banco Central do Paraguai, passagem pelo Fundo Monetário Internacional e trajetória profissional.

https://www.wto.org/library/events/event_resources/pls_31012025/biography_president_s.pdf

5.3. Reuters. Daniela Desantis e colaboradores. Paraguay’s central bank chief resigns at president’s request as digital lender crisis deepens. 3 de novembro de 2026. Reportagem sobre a intervenção no Ueno Bank, o afastamento da direção do Banco Central, o número estimado de clientes e os recursos públicos administrados pela instituição.

https://www.investing.com/news/stock-market-news/paraguays-central-bank-chief-resigns-at-presidents-request-as-digital-lender-crisis-deepens-4996767

5.4. Reuters. Daniela Desantis e colaboradores. Paraguay President Peña resigns under mounting pressure from bank collapse. 5 de novembro de 2026. Cobertura da renúncia presidencial e da crise bancária.

https://www.reuters.com/world/americas/paraguay-president-pea-resigns-under-mounting-pressure-bank-collapse-2026-11-05/

5.5. Agência EFE. Santiago Peña renuncia a la Presidencia de Paraguay por crisis. 5 de novembro de 2026. Reportagem sobre o pronunciamento presidencial, a situação do Ueno Bank e os desdobramentos políticos.

https://efe.com/mundo/2026-11-05/presidente-paraguay-santiago-pena-renuncia-escandalo-ueno-bank/

5.6. Instituto Nacional de Estadística do Paraguai (INE). En Paraguay la Pobreza Monetaria total se ubicó en 16,0% en el año 2025. 27 de março de 2026. Divulgação oficial dos resultados da Encuesta Permanente de Hogares Continua (EPHC 2025), incluindo pobreza monetária nacional, urbana e rural, pobreza extrema e revisão metodológica da série 2022–2025.

https://www.ine.gov.py/ende/contenido.php?c=2806&title=En_Paraguay_la_Pobreza_Monetaria_total_se_ubic%C3%B3_en_16%2C0%25_en_el_a%C3%B1o_2025

5.7. Instituto Nacional de Estadística do Paraguai (INE). Índice de Pobreza Multidimensional — 2025. Publicação institucional sobre privações sociais e diferenças entre áreas urbanas e rurais.

https://www.ine.gov.py/publication-single.php?codec=333

5.8. Dirección Nacional de Migraciones do Paraguai. Residencias en Paraguay: 2025 cierra con cifras históricas y 2026 arranca con fuerte crecimiento. 26 de janeiro de 2026. Estatísticas oficiais sobre solicitações e concessões de residência, incluindo a participação dos brasileiros.

https://migraciones.gov.py/residencias-en-paraguay-2025-cierra-con-cifras-historicas-y-2026-arranca-con-fuerte-crecimiento/

5.9. UOL Notícias. Guilherme Balza. Saiba quais são as cinco acusações usadas para pedir o impeachment de Lugo. 22 de junho de 2012. Identificação dos fundamentos da acusação parlamentar e do procedimento de defesa.

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/06/22/acusacao-contra-presidente-lugo-se-baseia-em-cinco-pontos-para-pedir-impeachment.htm

5.10. Agência Pública. Natalia Viana. A destituição de Lugo, vista do palácio. 22 de novembro de 2012. Reconstrução jornalística do processo político e das controvérsias relacionadas ao direito de defesa.

https://apublica.org/2012/11/destituicao-de-lugo-vista-palacio/

5.11. Itaipu Binacional. Quincuagésimo aniversario de vigencia del Tratado de ITAIPU abre paso a la revisión del Anexo C. 13 de agosto de 2023. Explicação institucional sobre o prazo de cinquenta anos e o procedimento de revisão das bases financeiras e comerciais.

https://www.itaipu.gov.py/noticias/institucional/quincuagesimo-aniversario-de-vigencia-del-tratado-de-itaipu-abre-paso-a-la-revision-del-anexo-c

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