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| Eu e meu pai num passeio ao Pão de Açúcar, talvez entre 1979/1980 |
Penso que o Dia de Finados tem muito mais a ver conosco, que permanecemos vivos, do que propriamente com aqueles que já partiram. Independentemente das crenças religiosas de cada pessoa, recordar nossos mortos, sobretudo aqueles com quem compartilhamos momentos importantes da existência, é também uma maneira de compreender nossa própria história.
Talvez essa necessidade de recordar se torne ainda maior à medida que envelhecemos. Afinal, quanto mais vivemos, mais pessoas conhecemos, mais experiências acumulamos e, inevitavelmente, mais despedidas precisamos enfrentar.
Hoje, aos 50 anos, já posso olhar para trás e reconhecer um número expressivo de familiares, amigos e conhecidos que deixaram de fazer parte da minha convivência. Alguns morreram muito idosos, depois de uma longa trajetória. Outros partiram prematuramente. E houve aqueles cuja morte representou não apenas uma perda afetiva, mas o encerramento de todo um período da minha vida.
Minha primeira grande perda aconteceu em setembro de 1983, quando meu pai, Francisco Carlos, faleceu aos 36 anos. Eu tinha apenas sete.
Nos primeiros anos da infância, morávamos num apartamento no Grajaú, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Guardo lembranças dele preparando meu mingau, levando-me para passear pelo Pão de Açúcar, Corcovado, Jardim Botânico, zoológico, praias, cinemas e teatros. Também passeávamos pelo próprio Grajaú, frequentando sua reserva florestal, clubes e casas de amigos.
Depois da separação dos meus pais, nossa convivência ficou limitada a alguns finais de semana. Ainda assim, continuávamos passeando ou, pelo menos, almoçando juntos aos domingos.
Até que, um dia, ele se foi.
Inicialmente, disseram-me que estava internado num hospital. Somente depois, enquanto eu brincava com meus brinquedos, minha mãe chegou e me contou que papai havia falecido.
Não participei de seu enterro no Cemitério do Caju. Aliás, durante toda a infância impubere, jamais estive presente num funeral.
Durante muito tempo, a ideia de nunca mais poder vê-lo foi extremamente dolorosa. Na escola, sentia que havia perdido algo que as outras crianças ainda possuíam. Preferia esconder a morte de meu pai, como se o silêncio pudesse tornar menos evidente aquela ausência.
Foi somente aos onze anos, quando passei a estudar em outro colégio, que comecei a falar mais abertamente sobre essa perda.
A morte de papai coincidiu com o encerramento de minha primeira infância no Grajaú. Minha mãe mudou-se para Petrópolis no final de 1983 e, em 1985, fui morar em Juiz de Fora, Minas Gerais, com meu avô paterno Sylvio.
Aquele avô, que aprendi a chamar de "vovô mineiro", tornou-se, na prática, meu segundo pai.
Com ele, vivi boa parte da infância e da adolescência. Recordo nossas viagens às cidades hidrominerais do Sul de Minas, especialmente Lambari, os passeios, as conversas e sua preocupação com meus estudos e meu futuro.
Meu avô havia nascido em 1917 e pertencia a uma geração muito diferente da minha. Por meio dele, conheci histórias de familiares que viveram ainda no século XIX, inclusive de sua mãe, minha bisavó Nadina, que faleceu aos 99 anos.
Também conheci seus irmãos e outros parentes, muitos dos quais foram partindo ao longo dos anos.
É curioso perceber como, durante a infância, os mais velhos parecem fazer parte de uma realidade permanente. Não imaginamos que um dia suas casas estarão vazias, que suas vozes deixarão de ser ouvidas e que os encontros familiares que considerávamos tão naturais simplesmente deixarão de acontecer.
Meu avô Sylvio faleceu em maio de 2005. Entretanto, nossa convivência já havia sido interrompida alguns anos antes, quando ele perdeu a consciência e deixou de reconhecer as pessoas.
Foi uma experiência particularmente dolorosa. O homem que me acompanhava nos passeios, que saía para fazer compras, resolvia os problemas da casa e se preocupava com minha formação já não conseguia conversar comigo.
Seu grande desejo era me ver formado. Concluí o curso de Direito no final de 2004 e recebi minha carteira da OAB em abril de 2005, poucas semanas antes de seu falecimento. Só que, infelizmente, ele já não tinha consciência para compreender que seu sonho havia sido realizado.
Outras perdas também marcaram minha relação com o Grajaú, bairro onde permaneceram minhas duas avós, Darcília e Marisa, além de minha bisavó Maria de Nazareth e outros familiares.
Minha bisavó, com quem cheguei a morar durante parte da infância, faleceu vítima de um câncer no intestino. Curiosamente, havia sonhado com ela nos dias próximos à sua morte.
Aos poucos, aquele universo familiar foi desaparecendo. As casas continuavam existindo, as ruas permaneciam nos mesmos lugares, a Praça Edmundo Rego continuava recebendo moradores e visitantes. Entretanto, as pessoas que davam sentido especial àqueles espaços já não estavam todas presentes.
Minha avó paterna Darcília faleceu em setembro de 2011, aos 89 anos, no Hospital Victor de Souza Breves, em Mangaratiba. Eu morava em Nova Friburgo e viajei de madrugada para encontrá-la, chegando nas suas últimas horas de vida.
Sua morte também provocou uma mudança importante na minha trajetória. Deixei a serra fluminense, voltei por alguns meses a morar no Grajaú e, em agosto de 2012, estabeleci residência em Muriqui, onde continuo vivendo.
Minha avó materna Marisa faleceu em março de 2012, menos de um ano depois de Darcília.
Muito religiosa, ela havia passado por diferentes experiências de fé e foi uma das pessoas que mais influenciaram meus primeiros contatos com o universo evangélico.
Nos últimos anos de vida, depois de uma fratura no fêmur, perdeu a capacidade de caminhar. Recordo que, em 2012, eu a levava para passear de cadeira de rodas pela Praça Edmundo Rego, no mesmo Grajaú onde tantas lembranças da minha infância permaneciam.
Sua última internação foi particularmente sofrida. Diante das dificuldades para conseguir atendimento adequado, precisei recorrer ao plantão judiciário para obter sua transferência hospitalar.
Passei a visitá-la quase diariamente, até que recebemos a notícia de seu falecimento.
Com a partida das duas avós, num intervalo tão pequeno, desaparecia outra parte fundamental do mundo em que cresci.
Também a família de minha esposa Núbia passou por despedidas dolorosas.
Seu pai, Francisco, faleceu repentinamente em 2002, vítima de um infarto. Eu ainda não era casado com Núbia, mas já convivia com ele havia alguns anos.
Conversávamos bastante sobre política. Brizolista, identificado com a esquerda, acompanhava com entusiasmo as possibilidades de vitória de Lula na eleição presidencial daquele ano.
Infelizmente, partiu antes de testemunhar aquele acontecimento histórico.
Já minha sogra, dona Nelma, viveu até junho deste ano de 2026. Nascida nos arredores da antiga São João Marcos e criada em Mangaratiba, teve uma longa história de vida. Depois do falecimento de minha avó Darcília, pude contribuir para que retornasse à Costa Verde e deixasse de morar de aluguel, passando a viver na antiga casa de veraneio de meus avós.
Sua morte, depois de uma internação hospitalar, foi mais uma despedida dolorosa.
No entanto, as perdas não se limitaram à família.
Tenho amigos e conhecidos que também partiram, inclusive pessoas da minha infância no Grajaú. Um deles foi Robson, que morreu ainda jovem.
E jamais esquecerei a tragédia das chuvas de janeiro de 2011, em Nova Friburgo, quando tantas pessoas morreram numa única noite. Entre elas estava uma colega da advocacia que havia participado comigo da fundação do Instituto Univida de Proteção Animal.
Aquela tragédia demonstrou, de maneira brutal, como a morte pode interromper simultaneamente tantas histórias, projetos e relações humanas.
Hoje, olhando para minha família, percebo que praticamente toda a geração dos meus avós e bisavós já partiu. Uma das poucas exceções é Diva, segunda esposa de meu avô Sylvio, que chegou aos 99 anos e representa um dos últimos vínculos vivos com aquele período da minha infância.
Minha mãe, meus tios e outras pessoas da geração seguinte também envelheceram. Meus irmãos Thiago e Marina, que nasceram depois da morte de meu pai, já são adultos de meia-idade. Marina, por sua vez, tornou-se mãe, dando continuidade à nossa história familiar.
A vida, portanto, não é feita apenas de perdas.
Enquanto algumas pessoas partem, outras chegam. Novas gerações nascem, famílias se transformam, cidades mudam e nossas próprias experiências vão adquirindo significados diferentes.
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| Reunião familiar em 02/09/2017 reunindo 4 gerações no Palácio do Catete |
Talvez uma das grandes mudanças provocadas pelo envelhecimento seja justamente perceber que passamos a ocupar o lugar daqueles que antes nos contavam as histórias.
Quando criança, eu ouvia meu avô falar de seu pai Francisco, que havia sido oficial da Marinha e gostava de pintar embarcações e paisagens. Nunca conheci aquele bisavô, mas suas pinturas e as histórias contadas por Sylvio fizeram com que ele também ocupasse um lugar na minha memória.
Hoje, sou eu quem pode contar essas histórias. E, talvez, seja essa uma das maiores utilidades do Dia de Finados: oferecer uma oportunidade para recordar, transmitir experiências e reconhecer que nossa existência não começou conosco.
Somos também resultado da vida de outras pessoas, de seus afetos, decisões, dificuldades, ensinamentos e até de suas ausências.
Não sei se aqueles que partiram podem receber nossas homenagens. Essa é uma questão que pertence ao campo da fé e das convicções pessoais. Mas sei que nós, que permanecemos aqui, podemos encontrar nessas lembranças uma maneira de compreender melhor quem somos.
Aos sete anos, a morte de meu pai parecia significar apenas uma ausência definitiva. Aos cinquenta, depois de tantas outras despedidas, percebo que a memória também é uma forma de permanência.
Porque há pessoas que deixam de caminhar ao nosso lado, mas continuam presentes na maneira como pensamos, nos lugares que frequentamos, nas histórias que contamos e nas escolhas que fazemos. E, talvez, recordar nossos mortos seja, acima de tudo, uma maneira de reconhecer e valorizar a própria vida.
📝 Nota: o bisavô que não conheci
O pai do meu avô paterno, o bisavô Francisco Ancora da Luz, teve uma história que, curiosamente, guarda semelhanças com a minha. Seu pai, também era engenheiro e se chamava Francisco Carlos Ancora da Luz, mesmos nomes e sobrenomes do meu pai. Ele faleceu prematuramente em 1888, quando trabalhava na construção de uma ferrovia em Minas Gerais. Por isso, Francisco foi criado pelo avô, também militar, o Marechal Francisco Carlos da Luz, personagem da história militar e política brasileira.
Apesar dessa ascendência, meu bisavô seguiu um caminho próprio. Foi oficial da Marinha, mas abandonou a carreira militar, tentou a vida no campo, voltou para o Rio e cultivou o gosto pela pintura.
Não o conheci pessoalmente, mas conheci suas obras e ouvi muitas histórias a seu respeito. Em julho de 2015, cheguei a publicar neste blog fotografias de alguns de seus quadros, ainda preservados na casa de Diva, em Juiz de Fora. É uma demonstração de como podemos conservar a memória de pessoas que sequer tivemos a oportunidade de conhecer.
Quem tiver interesse, pode ler a postagem intitulada Quadros de um bisavô que não conheci.
Na foto, registrada em meados do século XX, temos meu bisavô em seus últimos anos de vida ao lado de meu pai ainda criança.
OBS: A foto das quatro gerações de uma família trata-se de um encontro realizado em 2 de setembro de 2017, nos jardins do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Na fotografia, estão representadas quatro gerações do meu lado materno: meu avô Georges, nascido em 1933; minha mãe Myrian, acompanhada de seu esposo; eu e meus dois irmãos; e meu sobrinho, representante da geração mais jovem. Um registro especial da continuidade da nossa história familiar, que hoje ganha ainda mais significado com o falecimento de meu avô, ocorrido no final de 2024, aos 91 anos.



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