A sociedade brasileira deveria participar mais desta luta e se opor à construção da usina de Belo Monte e outras que devem surgir na Amazônia nos próximos anos. Chega de jogar fora o dinheiro público! Vamos investir em energias alternativas que é o que o país tanto precisa. Por isto, estou divulgando este vídeo do Movimento Gota D'água muito bem elaborado pelos artistas das telenovelas e incentivando as pessoas a participarem assinando esta petição eletrônica: http://www.movimentogotadagua.com.br/assinatura
Este blogue tem por objetivo divulgar aquilo que eu penso. Escrevo não somente assuntos jurídicos como também comento sobre política, religião, sexualidade, filosofia, questões locais da cidade onde moro e tudo o que me vem na cabeça. Quem desejar fazer seus comentários, fique a vontade. Aqui não tem censura!
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
A divisão do Pará em três estados: será que não existe outra alternativa?
Em 11 de dezembro, os 4,8 milhões de eleitores paraenses serão obrigados a comparecer às urnas (ou justificarem a ausência) para dizerem se concordam ou não com a divisão do território do estado em duas novas unidades da federação: Tapajós e Carajás.
Desde sexta-feira (11/11), iniciou-se a propaganda eleitoral lá, com 40 minutos diários nas emissoras de rádio e de TV, proporcionando o direito de voz às frentes favorável e contrária ao desmembramento. E, no dia do plebiscito, os paraenses terão que responder às seguintes perguntas: "Você é a favor da divisão do estado do Pará para a criação do estado de Carajás?" e "Você é a favor da divisão do estado do Pará para a criação do estado do Tapajós?". O número 77 vai corresponder à resposta "sim" para qualquer uma das perguntas. E, por sua vez, o número 55 será usado para o "não".
Com apenas 144 municípios, o Pará é o segundo maior estado do país e dispõe de uma enorme área de 1.248.042,515 km², sendo pouco maior que Angola. Sua população é superior a 7,3 milhões de habitantes, dentre os quais 2,1 milhões vivem na região metropolitana de Belém. Logo, existe alguma possibilidade de que a maioria do eleitorado decida pelo "sim", ainda que, no momento, as pesquisas demonstrem que a população entrevistada seja contrária à separação.
Um dos fortes argumentos a favor da separação é que os governos paraenses têm sido incapazes de promover uma assistência satisfatória aos lugares da região oeste do estado. Questões importantes relacionadas à saúde, educação, infraestrutura e meio ambiente não são adequadamente tratadas. E aí, uma das expectativas dos separatistas é que, havendo um aumento dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), hipoteticamente ficará mais fácil combater tais problemas que, como bem sabemos, são estruturais.
Embora a divisão do Pará possa abrir espaço para novas oportunidades, entendo que é preciso que cada eleitor tenha os dois pés no chão quando for votar. Caso o "sim" ganhe, sabe-se que o maior estado em termos territoriais (Tapajós) terá o menor PIB (estima-se uns R$ 6,4 bilhões). Sabe-se que, atualmente, as principais forças da economia do Pará são a extração de minério e de madeira, além da agricultura, pecuária, indústria e turismo. Então, se Tapajós for transformado em nova unidade federativa, vai ter que sobreviver basicamente da Mineração Rio do Norte, da futura Usina de Belo Monte e do desmatamento da floresta amazônica. E diga-se de passagem que nessas áreas a serem separadas estão alguns dos municípios com maiores índices desmatamento na Amazônia Legal, dentre os quais podemos citar Altamira, Pacajá, Novo Progresso, Novo Repartimento e São Félix do Xingu. Todos integram uma lista prioritária para o combate à devastação florestal montada pelo Ministério do Meio Ambiente.
Há quem diga que "dinheiro chama dinheiro" e que "miséria atrai miséria". Eu, mesmo não absolutizando estes conceitos, concordo que um problema pode muito bem provocar outros e, neste sentido, visualizo um quadro muito negativo para a região oeste do Pará, caso ocorra a divisão. Tanto para a questão ambiental quanto em relação à segurança. Pois já que faltará um aparelho produtivo a Tapajós, a sua dependência econômica da extração madeireira e do avanço predatório das pastagens sobre a floresta se tornará cada vez maior, assim como haverá mais apoio em favor da destrutiva construção de Belo Monte. Já em termos de segurança, fica a indagação se o novo estado não se tornará por muitos anos um paraíso para traficantes de drogas e de animais silvestres que contrabandearão as nossas riquezas pelas fronteiras internacionais.
Penso que as demandas sociais e as reivindicações autonomistas das comunidades são justas e devem ser verdadeiramente contempladas. Acredito que, através de uma efetiva participação do cidadão, com consciência, ética e união das pessoas, a região do oeste paraense pode dar enfrentamento aos seus problemas e prosseguir rumo a um desenvolvimento sustentável compatível com o ecossistema amazônico.
Certamente que o tema da divisão do Pará tem a ver com a realidade do Brasil inteiro e este debate abre portas para encontrarmos uma solução jurídica que talvez ponha fim aos movimentos emancipacionistas. Proponho, por exemplo, uma descentralização administrativa do Pará através de autarquias territoriais.
De acordo com a Constituição Federal em seu artigo 25, parágrafo 3º, os estados podem, mediante lei complementar, instituir tanto regiões metropolitanas quanto as microrregiões. Estas, segundo define o Texto Maior, seriam circunscrições "constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum". Em outras palavras, seriam grupos de municípios limítrofes que apresentam certa homogeneidade e problemas administrativos comuns.
Até aí, não haveria nenhuma novidade. Pois, se entrarmos na página do governo paraense na internet, encontraremos lá um mapa interativo com várias regiões administrativas que, em razão de suas respectivas dimensões territoriais, deveriam ser chamadas de macrorregiões, não de micro. E as maiores delas são justamente as que estão no centro-oeste: Xingu, Tapajós e Baixo Amazonas. Já no Sudeste, tem-se Araguaia e Carajás.
Ora, e se as regiões administrativas pudessem ser tratadas como autarquias territoriais, dando aos cidadãos mais autonomia e democracia para decidir? Pois, assim como a União pode criar os seus territórios, os estados também poderiam buscar uma descentralização geográfica em que as suas unidades regionais passariam a ter um órgão colegiado com poderes deliberativos compostos por representantes eleitos diretamente pelo povo, conforme lei estadual. Seriam as Câmaras Regionais.
Assim como o Território Federal não é um ente federativo, as Regiões Administrativas Estaduais, quando forem dotadas de personalidade jurídica pelo legislador constitucional (através de uma emenda à Carta Magna), passariam a ser regidas por uma Lei Orgânica, cujo projeto seria aprovado pela Câmara Regional e promulgado pela Assembleia Legislativa. O administrador regional poderia ser eleito diretamente ou indicado pelo governador, neste caso com aprovação da Câmara Regional. Já o Poder Judiciário continuaria estadual, assim como os serviços da Defensoria Pública, do Ministério Público e das polícias civil e militar.
Certamente que esta ideia não resolveria os conflitos pelos recursos financeiros. Daí, vejo como solução o Brasil adotar o voto distrital ou então permitir que as constituições dos estados opcionalmente o façam, bem como criar um Poder Legislativo bicameral. Nesta hipótese, o Pará poderia ter um "senado estadual", o que seria condizente para um estado que tem um território maior do que muitos países do mundo, além de uma população de certo modo representativa.
De qualquer modo, não me iludo nem com o plebiscito ou com as ideias que estou propondo. A verdade é que os problemas do Pará, assim como do Brasil inteiro, têm raízes éticas, educacionais, estruturais, econômicas e culturais. Não basta apenas desmembrarmos estados ou reformularmos os sistemas se as pessoas continuam sendo a causa da própria infelicidade. O cidadão precisa adotar uma nova postura em relação à política. Novos valores de riqueza precisam ser idealizados. Precisamos ser mais participativos quanto à administração do dinheiro público. E, acima de tudo, aprendermos a agir honestamente deixando de lado o individualismo e dando lugar à consciência coletiva.
Como alguém que analisa o Pará de fora e que já esteve lá andando pela Transamazônica e navegando pelos rios Xingu e Amazonas, sei o quanto o interior paraense é pobre. Ainda assim, se pudesse votar no dia 11 de dezembro, optaria pelo "não", sabendo que. E, se fosse um parlamentar no Congresso Nacional, teria rejeitado esta ideia radical de plebiscito cuja proposta nada mais é tapar o sol com a peneira. Porque melhor para os cidadãos paraenses que jamais houvesse esta cara consulta popular porque, mesmo se a divisão do Pará não for aprovada, ficará ainda mais difícil propor uma solução alternativa por causa da arrogância dos políticos vencedores que não desejarão mudanças.
Que haja mais esclarecimento, sensibilidade e consciência na nossa República que hoje completa 122 anos!
OBS: A primeira imagem (da bandeira do Pará) foi extraída da página do governo paraense. Já a segunda, encontrada na Wikipédia, foi originalmente extraída da Agência Brasil e sua autoria é atribuída a Wilson Dias. Já a terceira ilustração trata-se de uma foto tirada na viagem que eu e Núbia fizemos à Amazônia, salvo engano fotografada em Gurupá (PA).
Desde sexta-feira (11/11), iniciou-se a propaganda eleitoral lá, com 40 minutos diários nas emissoras de rádio e de TV, proporcionando o direito de voz às frentes favorável e contrária ao desmembramento. E, no dia do plebiscito, os paraenses terão que responder às seguintes perguntas: "Você é a favor da divisão do estado do Pará para a criação do estado de Carajás?" e "Você é a favor da divisão do estado do Pará para a criação do estado do Tapajós?". O número 77 vai corresponder à resposta "sim" para qualquer uma das perguntas. E, por sua vez, o número 55 será usado para o "não".
Com apenas 144 municípios, o Pará é o segundo maior estado do país e dispõe de uma enorme área de 1.248.042,515 km², sendo pouco maior que Angola. Sua população é superior a 7,3 milhões de habitantes, dentre os quais 2,1 milhões vivem na região metropolitana de Belém. Logo, existe alguma possibilidade de que a maioria do eleitorado decida pelo "sim", ainda que, no momento, as pesquisas demonstrem que a população entrevistada seja contrária à separação.
Um dos fortes argumentos a favor da separação é que os governos paraenses têm sido incapazes de promover uma assistência satisfatória aos lugares da região oeste do estado. Questões importantes relacionadas à saúde, educação, infraestrutura e meio ambiente não são adequadamente tratadas. E aí, uma das expectativas dos separatistas é que, havendo um aumento dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), hipoteticamente ficará mais fácil combater tais problemas que, como bem sabemos, são estruturais.
Embora a divisão do Pará possa abrir espaço para novas oportunidades, entendo que é preciso que cada eleitor tenha os dois pés no chão quando for votar. Caso o "sim" ganhe, sabe-se que o maior estado em termos territoriais (Tapajós) terá o menor PIB (estima-se uns R$ 6,4 bilhões). Sabe-se que, atualmente, as principais forças da economia do Pará são a extração de minério e de madeira, além da agricultura, pecuária, indústria e turismo. Então, se Tapajós for transformado em nova unidade federativa, vai ter que sobreviver basicamente da Mineração Rio do Norte, da futura Usina de Belo Monte e do desmatamento da floresta amazônica. E diga-se de passagem que nessas áreas a serem separadas estão alguns dos municípios com maiores índices desmatamento na Amazônia Legal, dentre os quais podemos citar Altamira, Pacajá, Novo Progresso, Novo Repartimento e São Félix do Xingu. Todos integram uma lista prioritária para o combate à devastação florestal montada pelo Ministério do Meio Ambiente.
Há quem diga que "dinheiro chama dinheiro" e que "miséria atrai miséria". Eu, mesmo não absolutizando estes conceitos, concordo que um problema pode muito bem provocar outros e, neste sentido, visualizo um quadro muito negativo para a região oeste do Pará, caso ocorra a divisão. Tanto para a questão ambiental quanto em relação à segurança. Pois já que faltará um aparelho produtivo a Tapajós, a sua dependência econômica da extração madeireira e do avanço predatório das pastagens sobre a floresta se tornará cada vez maior, assim como haverá mais apoio em favor da destrutiva construção de Belo Monte. Já em termos de segurança, fica a indagação se o novo estado não se tornará por muitos anos um paraíso para traficantes de drogas e de animais silvestres que contrabandearão as nossas riquezas pelas fronteiras internacionais.
Penso que as demandas sociais e as reivindicações autonomistas das comunidades são justas e devem ser verdadeiramente contempladas. Acredito que, através de uma efetiva participação do cidadão, com consciência, ética e união das pessoas, a região do oeste paraense pode dar enfrentamento aos seus problemas e prosseguir rumo a um desenvolvimento sustentável compatível com o ecossistema amazônico.
Certamente que o tema da divisão do Pará tem a ver com a realidade do Brasil inteiro e este debate abre portas para encontrarmos uma solução jurídica que talvez ponha fim aos movimentos emancipacionistas. Proponho, por exemplo, uma descentralização administrativa do Pará através de autarquias territoriais.
De acordo com a Constituição Federal em seu artigo 25, parágrafo 3º, os estados podem, mediante lei complementar, instituir tanto regiões metropolitanas quanto as microrregiões. Estas, segundo define o Texto Maior, seriam circunscrições "constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum". Em outras palavras, seriam grupos de municípios limítrofes que apresentam certa homogeneidade e problemas administrativos comuns.
Até aí, não haveria nenhuma novidade. Pois, se entrarmos na página do governo paraense na internet, encontraremos lá um mapa interativo com várias regiões administrativas que, em razão de suas respectivas dimensões territoriais, deveriam ser chamadas de macrorregiões, não de micro. E as maiores delas são justamente as que estão no centro-oeste: Xingu, Tapajós e Baixo Amazonas. Já no Sudeste, tem-se Araguaia e Carajás.
Ora, e se as regiões administrativas pudessem ser tratadas como autarquias territoriais, dando aos cidadãos mais autonomia e democracia para decidir? Pois, assim como a União pode criar os seus territórios, os estados também poderiam buscar uma descentralização geográfica em que as suas unidades regionais passariam a ter um órgão colegiado com poderes deliberativos compostos por representantes eleitos diretamente pelo povo, conforme lei estadual. Seriam as Câmaras Regionais.
Assim como o Território Federal não é um ente federativo, as Regiões Administrativas Estaduais, quando forem dotadas de personalidade jurídica pelo legislador constitucional (através de uma emenda à Carta Magna), passariam a ser regidas por uma Lei Orgânica, cujo projeto seria aprovado pela Câmara Regional e promulgado pela Assembleia Legislativa. O administrador regional poderia ser eleito diretamente ou indicado pelo governador, neste caso com aprovação da Câmara Regional. Já o Poder Judiciário continuaria estadual, assim como os serviços da Defensoria Pública, do Ministério Público e das polícias civil e militar.
Certamente que esta ideia não resolveria os conflitos pelos recursos financeiros. Daí, vejo como solução o Brasil adotar o voto distrital ou então permitir que as constituições dos estados opcionalmente o façam, bem como criar um Poder Legislativo bicameral. Nesta hipótese, o Pará poderia ter um "senado estadual", o que seria condizente para um estado que tem um território maior do que muitos países do mundo, além de uma população de certo modo representativa.
De qualquer modo, não me iludo nem com o plebiscito ou com as ideias que estou propondo. A verdade é que os problemas do Pará, assim como do Brasil inteiro, têm raízes éticas, educacionais, estruturais, econômicas e culturais. Não basta apenas desmembrarmos estados ou reformularmos os sistemas se as pessoas continuam sendo a causa da própria infelicidade. O cidadão precisa adotar uma nova postura em relação à política. Novos valores de riqueza precisam ser idealizados. Precisamos ser mais participativos quanto à administração do dinheiro público. E, acima de tudo, aprendermos a agir honestamente deixando de lado o individualismo e dando lugar à consciência coletiva.
Como alguém que analisa o Pará de fora e que já esteve lá andando pela Transamazônica e navegando pelos rios Xingu e Amazonas, sei o quanto o interior paraense é pobre. Ainda assim, se pudesse votar no dia 11 de dezembro, optaria pelo "não", sabendo que. E, se fosse um parlamentar no Congresso Nacional, teria rejeitado esta ideia radical de plebiscito cuja proposta nada mais é tapar o sol com a peneira. Porque melhor para os cidadãos paraenses que jamais houvesse esta cara consulta popular porque, mesmo se a divisão do Pará não for aprovada, ficará ainda mais difícil propor uma solução alternativa por causa da arrogância dos políticos vencedores que não desejarão mudanças.
Que haja mais esclarecimento, sensibilidade e consciência na nossa República que hoje completa 122 anos!
OBS: A primeira imagem (da bandeira do Pará) foi extraída da página do governo paraense. Já a segunda, encontrada na Wikipédia, foi originalmente extraída da Agência Brasil e sua autoria é atribuída a Wilson Dias. Já a terceira ilustração trata-se de uma foto tirada na viagem que eu e Núbia fizemos à Amazônia, salvo engano fotografada em Gurupá (PA).
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domingo, 13 de novembro de 2011
"Se Deus está conosco, por que tanto sofrimento?"
Certamente você já se deparou com pessoas formulando abertamente tais perguntas e até mesmo possa ter se questionado e jamais exposto aquilo que pensou. Mas saiba que, milênios antes dos ateus da era contemporânea fazerem indagações deste tipo, a Bíblia relata que um homem chamado Gideão teve a coragem de jogar este sentimento na cara do Anjo do SENHOR.
"Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o SENHOR é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém, agora, o SENHOR nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas." (Juízes 6.13; ARA)
Em outras traduções do Texto Massorético, estas mesmas palavras atribuídas a Gideão mostram-se ainda mais rudes do que na versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida:
"e Guidon disse-lhe: 'Por favor, meu senhor, se o Eterno está conosco, por que nos sobreveio tudo isto? Onde estão todos os Seus milagres, que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Eterno subir do Egito? Pois agora o Eterno nos abandonou e nos deu na mão dos midianitas'" (Sêfer)
Embora o Anjo do SENHOR não responda a Gideão, a resposta parece ter sido dada pelo redator de Juízes nos versos de 7 a 10 do capítulo 6. De acordo com a narrativa bíblica, os israelitas tinham se afastado de Deus e, por consequência da prática de coisas más "aos olhos" do Eterno, passaram a ser subjugados pelos midianitas e outros povos nômades que pareciam viver do saque das nações sedentarizadas.
Dentro do contexto religioso dos povos sedentários do antigo Oriente Próximo, os quais viviam da agropecuária, havia o costume idolátrico de cultuar Baal. Debaixo de árvores consideradas sagradas, como o carvalho onde o Anjo do SENHOR apareceu a Gideão, eram oferecidos sacrifícios para as divindades cananeias na vã expectativa de se obter resultados melhores nas próximas colheitas.
Além disso, a narrativa relata que a opressão dos midianitas, embora tenha durado sete anos, parece ter sido mais dura que as anteriores. Tanto é que, temendo os seus adversários, os israelitas precisavam esconder nas grutas os estoques de alimentos para não serem totalmente roubados pelos adversários. E ninguém ousava tomar uma providência prática, de modo que as tribos de Israel andavam desunidas e cada vez mais se alienando dentro da emburrecida adoração baalista.
Ora, a pior opressão não é aquela que está fora de nós, mas sim dentro. E, neste caso, Gideão foi um homem inconformado com a realidade em que vivia. Ele, sendo pobre e explorado pelos estrangeiros em sua própria terra, demonstrou não gostar muito daquela conversinha mole dos religiosos e foi até capaz de duvidar da aparição sobrenatural do Anjo do SENHOR, considerada como uma teofania por muitos teólogos.
Num interessante paralelo com Moisés, Gideão é convocado para uma missão humanamente impossível. De modo algum ele é censurado por Deus por agir com sua maneira rude de manifestar as suas dúvidas quanto à Divina Providência. E, em todas as vezes que fala com o Eterno, o maior dos juízes de Israel é encorajado a lutar numa guerra santa contra os inimigos do seu povo:
"Então, se virou o SENHOR para ele e disse: Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura não te enviei eu?" (Jz 6.14; ARA)
Num precioso relacionamento de intimidade entre Gideão e Deus, um coloca o outro a prova. Depois de pedir o sinal do velo e o orvalho, afim de que a sua missão fosse autenticada por um milagre (Jz 6.36-40), Deus então reduz o número do exército de Gideão para atacar o inimigo com tão somente 300 homens (Jz 7.1-8). E o êxito de sua campanha militar ocorre de maneira surpreendente. Depois que Gideão soube do temor infundido no adversário (Jz 7.9-15), os midianitas foram vencidos sem que ocorresse a princípio nenhum combate físico, pelo que foram tomados pelo pânico do Deus de Israel (Jz 7.19-22).
Por mais que um relato sobre guerra santa venha chocar a moral de um leitor do século XXI, não se pode ignorar a essência espiritual que se encontra ali. A Bíblia é um ótimo livro para expor com riqueza de detalhes o comportamento humano, sem nada a esconder sobre as falhas de caráter de seus personagens, mesmo em relação aos líderes de Israel. E, por sua vez, a guerra santa, necessária para a sobrevivência dos povos antigos, torna-se hoje uma ilustração da batalha que travamos dentro de nós mesmos e nos nossos relacionamentos com a sociedade em busca da justiça.
Pode-se dizer que a realização da justiça é algo inseparável do Reino de Deus, a respeito do qual Jesus muito pregou. E o estabelecimento deste Reino se faz tanto através da intervenção milagrosa de Deus como também guarda uma relação com o agir do seu povo aqui na Terra, executando-se através de nós a missão apostólica de anunciar ao mundo as boas novas da graça. Se bem que a vinda dessa nova realidade não vem com aparência exterior e já foi começada há muito tempo (Lucas 17.20-21).
Certamente que, nesta luta sagrada contra o mal, Deus não quer que sejamos covardia. Mesmo dentro do refinamento ético que a evolução dos tempos nos impõe, afim de nos abstermos atualmente de qualquer tipo de derramamento de sangue, é preciso ter a mesma disposição de Gideão para enfrentarmos os problemas pessoais e da coletividade.
Como podemos ler nos capítulos 6, 7 e 8 de Juízes, Gideão evoluiu em relação ao argumento de que a nação de Israel tinha sido abandonada por Deus. Após libertar-se interiormente do ópio da idolatria religiosa, ele partiu para o enfrentamento da realidade e mobilizou a sua comunidade para enfrentar os invasores.
Igualmente, também precisamos da mesma atitude de Gideão. Temos que romper com o viciante conformismo no qual o Brasil hoje se encontra, "deitado eternamente em berço esplêndido". Pois, afinal, conforme está lá em Mateus 11.12, o Reino "é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele" (ARA). Ou, numa versão sem eufemismo, o Reino "é assaltado com violência; são violentos os que o arrebatam" (TEB).
OBS: A ilustração acima refere-se à pintura do artista sacro holandês Maarten van Heemskerck que viveu entre 1498 e outubro 1574. O quadro, pintado por volta de 1550, retrata o personagem bíblico Gideão agradecendo a Deus pelo milagre do orvalho (passagem de Juízes 6.36-40) e se encontra no Museu de Belas Artes de Estrasburgo, localizado na Alsácia francesa. Já a imagem à esquerda cuida-se de um auto-retrato que, originalmente, foi pintado junto com o Coliseu. Maarten van Heemskerck ficou conhecido por suas representações das Sete Maravilhas do Mundo, tendo sido ele filho de uma família de pequenos agricultores em Heemskerk, norte da Holanda.
"Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o SENHOR é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém, agora, o SENHOR nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas." (Juízes 6.13; ARA)
Em outras traduções do Texto Massorético, estas mesmas palavras atribuídas a Gideão mostram-se ainda mais rudes do que na versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida:
"e Guidon disse-lhe: 'Por favor, meu senhor, se o Eterno está conosco, por que nos sobreveio tudo isto? Onde estão todos os Seus milagres, que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Eterno subir do Egito? Pois agora o Eterno nos abandonou e nos deu na mão dos midianitas'" (Sêfer)
"Gedeão lhe respondeu: "Eu te peço, meu Senhor! Se Iahweh está conosco, donde vem tudo quanto nos acontece? Onde estão todos os prodígios que os nossos pais nos contavam dizendo: 'Não nos fez Iahweh subir do Egito?' E agora Iahweh nos abandonou e nos deixou cair sob o poder de Madiã..." (Bíblia de Jerusalém)
Embora o Anjo do SENHOR não responda a Gideão, a resposta parece ter sido dada pelo redator de Juízes nos versos de 7 a 10 do capítulo 6. De acordo com a narrativa bíblica, os israelitas tinham se afastado de Deus e, por consequência da prática de coisas más "aos olhos" do Eterno, passaram a ser subjugados pelos midianitas e outros povos nômades que pareciam viver do saque das nações sedentarizadas.
Dentro do contexto religioso dos povos sedentários do antigo Oriente Próximo, os quais viviam da agropecuária, havia o costume idolátrico de cultuar Baal. Debaixo de árvores consideradas sagradas, como o carvalho onde o Anjo do SENHOR apareceu a Gideão, eram oferecidos sacrifícios para as divindades cananeias na vã expectativa de se obter resultados melhores nas próximas colheitas.
Além disso, a narrativa relata que a opressão dos midianitas, embora tenha durado sete anos, parece ter sido mais dura que as anteriores. Tanto é que, temendo os seus adversários, os israelitas precisavam esconder nas grutas os estoques de alimentos para não serem totalmente roubados pelos adversários. E ninguém ousava tomar uma providência prática, de modo que as tribos de Israel andavam desunidas e cada vez mais se alienando dentro da emburrecida adoração baalista.
Ora, a pior opressão não é aquela que está fora de nós, mas sim dentro. E, neste caso, Gideão foi um homem inconformado com a realidade em que vivia. Ele, sendo pobre e explorado pelos estrangeiros em sua própria terra, demonstrou não gostar muito daquela conversinha mole dos religiosos e foi até capaz de duvidar da aparição sobrenatural do Anjo do SENHOR, considerada como uma teofania por muitos teólogos.
Num interessante paralelo com Moisés, Gideão é convocado para uma missão humanamente impossível. De modo algum ele é censurado por Deus por agir com sua maneira rude de manifestar as suas dúvidas quanto à Divina Providência. E, em todas as vezes que fala com o Eterno, o maior dos juízes de Israel é encorajado a lutar numa guerra santa contra os inimigos do seu povo:
"Então, se virou o SENHOR para ele e disse: Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura não te enviei eu?" (Jz 6.14; ARA)
Num precioso relacionamento de intimidade entre Gideão e Deus, um coloca o outro a prova. Depois de pedir o sinal do velo e o orvalho, afim de que a sua missão fosse autenticada por um milagre (Jz 6.36-40), Deus então reduz o número do exército de Gideão para atacar o inimigo com tão somente 300 homens (Jz 7.1-8). E o êxito de sua campanha militar ocorre de maneira surpreendente. Depois que Gideão soube do temor infundido no adversário (Jz 7.9-15), os midianitas foram vencidos sem que ocorresse a princípio nenhum combate físico, pelo que foram tomados pelo pânico do Deus de Israel (Jz 7.19-22).
Por mais que um relato sobre guerra santa venha chocar a moral de um leitor do século XXI, não se pode ignorar a essência espiritual que se encontra ali. A Bíblia é um ótimo livro para expor com riqueza de detalhes o comportamento humano, sem nada a esconder sobre as falhas de caráter de seus personagens, mesmo em relação aos líderes de Israel. E, por sua vez, a guerra santa, necessária para a sobrevivência dos povos antigos, torna-se hoje uma ilustração da batalha que travamos dentro de nós mesmos e nos nossos relacionamentos com a sociedade em busca da justiça.
Pode-se dizer que a realização da justiça é algo inseparável do Reino de Deus, a respeito do qual Jesus muito pregou. E o estabelecimento deste Reino se faz tanto através da intervenção milagrosa de Deus como também guarda uma relação com o agir do seu povo aqui na Terra, executando-se através de nós a missão apostólica de anunciar ao mundo as boas novas da graça. Se bem que a vinda dessa nova realidade não vem com aparência exterior e já foi começada há muito tempo (Lucas 17.20-21).
Certamente que, nesta luta sagrada contra o mal, Deus não quer que sejamos covardia. Mesmo dentro do refinamento ético que a evolução dos tempos nos impõe, afim de nos abstermos atualmente de qualquer tipo de derramamento de sangue, é preciso ter a mesma disposição de Gideão para enfrentarmos os problemas pessoais e da coletividade.
Como podemos ler nos capítulos 6, 7 e 8 de Juízes, Gideão evoluiu em relação ao argumento de que a nação de Israel tinha sido abandonada por Deus. Após libertar-se interiormente do ópio da idolatria religiosa, ele partiu para o enfrentamento da realidade e mobilizou a sua comunidade para enfrentar os invasores.
Igualmente, também precisamos da mesma atitude de Gideão. Temos que romper com o viciante conformismo no qual o Brasil hoje se encontra, "deitado eternamente em berço esplêndido". Pois, afinal, conforme está lá em Mateus 11.12, o Reino "é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele" (ARA). Ou, numa versão sem eufemismo, o Reino "é assaltado com violência; são violentos os que o arrebatam" (TEB).
OBS: A ilustração acima refere-se à pintura do artista sacro holandês Maarten van Heemskerck que viveu entre 1498 e outubro 1574. O quadro, pintado por volta de 1550, retrata o personagem bíblico Gideão agradecendo a Deus pelo milagre do orvalho (passagem de Juízes 6.36-40) e se encontra no Museu de Belas Artes de Estrasburgo, localizado na Alsácia francesa. Já a imagem à esquerda cuida-se de um auto-retrato que, originalmente, foi pintado junto com o Coliseu. Maarten van Heemskerck ficou conhecido por suas representações das Sete Maravilhas do Mundo, tendo sido ele filho de uma família de pequenos agricultores em Heemskerk, norte da Holanda.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Uma Igreja que se reúne dentro de um bar!
"Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!" (Lucas 7.34; ARA)
Para o escândalo dos legalistas e daqueles que se apegam a um culto tradicional, ou a templos construídos por mãos humanas, eis que, numa cidade da Califórnia, no oeste dos Estados Unidos, pessoas têm se reunido em um bar afim de estudarem a Bíblia e depois celebrarem o encontro com grande liberdade. Uma liberdade que talvez cause inveja a muitos religiosos reprimidos de hoje.
Descobri sobre esta espontânea Igreja lendo uma matéria jornalística na internet a partir do debate suscitado numa radical comunidade de evangélicos no Facebook em que o asunto tem despertado críticas não só aqui quanto lá na América do Norte:
Sinceramente, não vejo nada de mais. Eles dispensam um templo, reúnem-se com espontaneidade em locais públicos, leem a Bíblia no ambiente em que se encontram, tomam a cervejinha ou o vinho deles e fazem daquele momento um maravilhoso culto. Eu, se vivesse na Califórnia, teria um enorme prazer de me aproximar desta turma e adorar a Deus com eles. Seria uma bênção!
Na boa, tenho certeza de que Jesus ficaria tranquilamente lá no meio da galera bebendo sua cervejinha também. Por que não?
Ora, o que são os templos senão meros pontos de encontro?!
Eu entendo que a Igreja é o Corpo, não o prédio. E compreendo também que Igreja tem que ter propósito e, mesmo sem uma base física, sem um endereço e sem o CNPJ, o que vale de verdade é eles terem, além da adoração, um propósito de influenciar a sociedade onde estão. E, com toda sinceridade, ninguém pode julgá-los por viverem com esta liberdade. Pois foi para sermos livres que Cristo nos chamou!
Sem dúvida que é melhor ter um bar como ponto de encontro do que as pessoas se submeterem a reuniões massacrantes e chatas nos templos. Hoje eu não suporto mais os cultos dos tradicionais e nem a barulheira louca dos pentecostais. Missa católica então, nem pensar! Vez ou outra, posso até ir compartilhar uma mensagem num templo, se me convidarem. Porém, não é assim que eu trabalho.
Atualmente, já não me sinto consumidor de produtos religiosos. Considero que devo por em prática um trabalho ministerial e, neste sentido é que tenho defendido a ideia de reunião de círculos informais, nos quais se torna possível o estabelecimento de uma relação de intimidade entre os participantes. E, com o tempo, o grupo passa a construir os seus propósitos de influenciar a sociedade com os valores do Reino, indo mais além do objetivo se reunir.
Este é o meu evangelismo e o ministério no qual eu acredito! Não me interesso por construir templos, inventar cargos de pastores, enumerar pessoas, ou ter funcionários do sagrado. Também nem quero que o pessoal fique centralizado em torno de um líder. Desejo discipular e enviar os seguidores do Evangelho ao mundo pra compartilharem as boas novas como pessoas normais que vivem em sociedade.
Talvez algum cristão legalista irá dizer que os frequentadores dessas reuniões em bares estão assentando na "roda dos escarnecedores". Porém, o assentar na roda dos escarnecedores, conforme diz o Salmo 1º, seria você tornar-se partícipe dos planos malignos das pessoas más. Não é conviver com quem seja diferente de você ou ter uma vida secular. Aliás, um bom exemplo de alguém sentar na roda dos escarnecedores seria, por exemplo, um deputado da bancada (in)vangélica participar da roubalheira do dinheiro público e depois ainda ter a cara de pau de entrar nas igrejas pedindo voto para as próximas eleições.
Deus nos quer adorando-O com liberdade e espontaneidade. E o adorar a Deus "em espírito e em verdade" certamente inclui atos de sinceridade. Assim, deste modo, precisamos celebrar com liberdade, do nosso jeito e, principalmente, com graça.
OBS: Foto e trechos da matéria extraídos do site "NOTÍCIAS CRISTÃS": http://news.noticiascristas.com/2011/11/igreja-oferece-cerveja-para-atrair.html#ixzz1d5CcHGcr
Para o escândalo dos legalistas e daqueles que se apegam a um culto tradicional, ou a templos construídos por mãos humanas, eis que, numa cidade da Califórnia, no oeste dos Estados Unidos, pessoas têm se reunido em um bar afim de estudarem a Bíblia e depois celebrarem o encontro com grande liberdade. Uma liberdade que talvez cause inveja a muitos religiosos reprimidos de hoje.
Descobri sobre esta espontânea Igreja lendo uma matéria jornalística na internet a partir do debate suscitado numa radical comunidade de evangélicos no Facebook em que o asunto tem despertado críticas não só aqui quanto lá na América do Norte:
"O pastor Bill Jenkins é o responsável por essa igreja-bar chamada Urbanlife (Vida Urbana), que utiliza as dependências do bar Loft e Bistro. Os encontros ocorrem todos os domingos às 9h30 da manhã. Jenkins nasceu na Inglaterra, mas vive há muitos anos nos EUA. Ele explica que sua intenção era criar 'um ambiente seguro para uma mensagem perigosa'. Seu argumento principal é que cerca de 90% dos moradores da região não tem o hábito de frequentar a igreja. Essas pessoas, segundo ele, têm rejeitado as formas tradicionais de apresentação do evangelho. Além disso, ele entende que a Bíblia fala sobre Jesus dando vinho às pessoas e sendo criticado por suas companhias." (extraído da matéria "Igreja oferece cerveja para atrair novos fiéis")
Sinceramente, não vejo nada de mais. Eles dispensam um templo, reúnem-se com espontaneidade em locais públicos, leem a Bíblia no ambiente em que se encontram, tomam a cervejinha ou o vinho deles e fazem daquele momento um maravilhoso culto. Eu, se vivesse na Califórnia, teria um enorme prazer de me aproximar desta turma e adorar a Deus com eles. Seria uma bênção!
Na boa, tenho certeza de que Jesus ficaria tranquilamente lá no meio da galera bebendo sua cervejinha também. Por que não?
Ora, o que são os templos senão meros pontos de encontro?!
Eu entendo que a Igreja é o Corpo, não o prédio. E compreendo também que Igreja tem que ter propósito e, mesmo sem uma base física, sem um endereço e sem o CNPJ, o que vale de verdade é eles terem, além da adoração, um propósito de influenciar a sociedade onde estão. E, com toda sinceridade, ninguém pode julgá-los por viverem com esta liberdade. Pois foi para sermos livres que Cristo nos chamou!
Sem dúvida que é melhor ter um bar como ponto de encontro do que as pessoas se submeterem a reuniões massacrantes e chatas nos templos. Hoje eu não suporto mais os cultos dos tradicionais e nem a barulheira louca dos pentecostais. Missa católica então, nem pensar! Vez ou outra, posso até ir compartilhar uma mensagem num templo, se me convidarem. Porém, não é assim que eu trabalho.
Atualmente, já não me sinto consumidor de produtos religiosos. Considero que devo por em prática um trabalho ministerial e, neste sentido é que tenho defendido a ideia de reunião de círculos informais, nos quais se torna possível o estabelecimento de uma relação de intimidade entre os participantes. E, com o tempo, o grupo passa a construir os seus propósitos de influenciar a sociedade com os valores do Reino, indo mais além do objetivo se reunir.
Este é o meu evangelismo e o ministério no qual eu acredito! Não me interesso por construir templos, inventar cargos de pastores, enumerar pessoas, ou ter funcionários do sagrado. Também nem quero que o pessoal fique centralizado em torno de um líder. Desejo discipular e enviar os seguidores do Evangelho ao mundo pra compartilharem as boas novas como pessoas normais que vivem em sociedade.
Talvez algum cristão legalista irá dizer que os frequentadores dessas reuniões em bares estão assentando na "roda dos escarnecedores". Porém, o assentar na roda dos escarnecedores, conforme diz o Salmo 1º, seria você tornar-se partícipe dos planos malignos das pessoas más. Não é conviver com quem seja diferente de você ou ter uma vida secular. Aliás, um bom exemplo de alguém sentar na roda dos escarnecedores seria, por exemplo, um deputado da bancada (in)vangélica participar da roubalheira do dinheiro público e depois ainda ter a cara de pau de entrar nas igrejas pedindo voto para as próximas eleições.
Deus nos quer adorando-O com liberdade e espontaneidade. E o adorar a Deus "em espírito e em verdade" certamente inclui atos de sinceridade. Assim, deste modo, precisamos celebrar com liberdade, do nosso jeito e, principalmente, com graça.
OBS: Foto e trechos da matéria extraídos do site "NOTÍCIAS CRISTÃS": http://news.noticiascristas.com/2011/11/igreja-oferece-cerveja-para-atrair.html#ixzz1d5CcHGcr
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sábado, 5 de novembro de 2011
Reverência pelo tempo que nos foi determinado
A transitoriedade das coisas leva-nos a um respeito reverente pelo tempo e pela existência. Temos um anseio pela eternidade, sem que possamos descobrir o início e o fim de tudo. Então aprendemos que devemos nos alegrar com as coisas boas que hoje a vida nos oferece, celebrando cada momento intensamente. E, por termos em nós este anseio de eternidade, podemos ter a certeza de que somos eternos apenas na Existência de tudo. Sem que A consideremos como um todo, somos pó no vento como diz esta velha canção do grupo Kansas, composta nos anos 70: Dust in the Wind
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
O que estão fazendo com a democracia dos gregos?!
Berço da democracia mundial, a Grécia foi o primeiro lugar do mundo onde os homens puderam decidir diretamente o destino das suas Cidades-Estado. Pelo menos entre os que se enquadravam no conceito de eupátridas ("homens livres"), os quais tinham direito de participação nas assembleias populares - as ekklesias.
Pode-se dizer que foi durante o governo de Clístenes (510 a.E.C. - 500 a.E.C.) que Atenas tornou-se realmente uma democracia. Através de sua atuação, a participação dos cidadãos atenienses nas questões administrativas veio a ser consideravelmente ampliada. A aristocracia foi substituída por uma isonomia entre os eupátridas, embora, na concepção política dos gregos, nem as mulheres, nem os escravos e nem os estrangeiros tinham assento nas assembleias do povo. Segundo ensina Ronaldo Leite Pedrosa, Clístenes
Verdade é que Sócrates foi um opositor da democracia. Ele defendia a aristocracia como sendo o melhor regime por duvidar que as decisões coletivas, partindo de muitas ideias individuais na democracia, seriam as mais acertadas. Segundo ele, não importava a quantidade de pessoas participando, mas sim a qualidade. E, por conta disto, o sábio filósofo veio a ser acusado de traidor, mas a sua condenação à morte teve como fundamento imputações de corrupção da juventude pela prática do homossexualismo e da ridicularização dos deuses.
Embora o governo democrático não seja uma perfeição, é o que a meu ver melhor se aplica às necessidades sociais dos menos favorecidos, funcionando como um obstáculo à timocracia, à oligarquia e à tirania. Mesmo sendo vulnerável à corrupção e à mediocridade, a democracia abre portas para que a sociedade consiga evoluir com o tempo através do aprendizado com os resultados das suas próprias escolhas. Pois, do contrário, jamais experimentaremos um amadurecimento coletivo.
Ontem (02/11/2011), enquanto assistia ao Jornal Nacional, fiquei perplexo com uma notícia sobre a Grécia. Depois de enfrentar inúmeros protestos, o primeiro ministro grego George Papandreou tomou a sábia decisão de submeter a um referendo popular a ajuda internacional oferecida ao país. De acordo com a proposta da União Europeia, o empréstimo de 130 bilhões de euros condiciona a Grécia a adotar duras medidas de austeridade econômica que importarão em aumento de impostos, mais pobreza, desemprego e na perda da qualidade de vida de seus cidadãos.
Contudo, o que mais me espantou foi que os cabeças da UE, isto é, os primeiros ministros Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, respectivamente líderes da França e da Alemanha, posicionaram-se contrariamente à consulta popular. Para eles, os cidadãos gregos têm que engolir goela abaixo as restrições econômicas pouco importando se as pessoas daquele país estarão satisfeitas ou não.
Um episódio desses leva-me a indagar para que tem servido a democracia hoje no mundo senão para os poderosos amansarem as massas?
Ora, quando o direito de escolha dos cidadãos começa a incomodar, aqueles que se encontram no poder tratam logo de restringir as oportunidades de decisão coletiva. Nós, aqui na América Latina, já vimos este filme durante as terríveis ditaduras em décadas não muito distantes de hoje em que os militares receberam o apoio incontroverso dos Estados Unidos da América, país tido como um defensor da democracia.
Em qualquer país do mundo, o povo ainda é tratado como gado. Quem manda na prática é o poder econômico junto com o corporativismo dos grupos políticos que se instalam pela via da demagogia no período eleitoral. Mesmo nos Estados que ainda preservam o totalitarismo socialista implantado nas revoluções do século XX, tem-se o controle das decisões através de uma classe burocrática da qual procedem os seus ditadores. E todos os governos de hoje, inclusive os de Cuba e Coreia do Norte, submetem-se a modelos de economia perversos e insustentáveis. Tanto é que a poderosíssima China de Hu Jintao tem se mostrado contrária ao referendo dos gregos.
Na heroica resistência dos movimentos sociais contra este sistema de desigualdades, em que o sofrimento dos povos é fruto das escolhas de seus governantes, resta-nos a alternativa de brigarmos pela ampliação da democracia. Pois cabe ao cidadão decidir não só quem serão os seus futuros representantes, ou se as pessoas podem possuir armas de fogo em suas residências, mas também se o atual modelo de economia de mercado deve ou não continuar.
Pode-se dizer que foi durante o governo de Clístenes (510 a.E.C. - 500 a.E.C.) que Atenas tornou-se realmente uma democracia. Através de sua atuação, a participação dos cidadãos atenienses nas questões administrativas veio a ser consideravelmente ampliada. A aristocracia foi substituída por uma isonomia entre os eupátridas, embora, na concepção política dos gregos, nem as mulheres, nem os escravos e nem os estrangeiros tinham assento nas assembleias do povo. Segundo ensina Ronaldo Leite Pedrosa, Clístenes
"idealizou aumentar a participação popular nas decisões, elevando de 400 para 500 o número de componentes da boulé e dividindo a população em demos. Certo número de demos formava uma trítia e três trítias formavam uma tribo, compondo, ao todo, dez tribos (...) pela primeira vez, o povo de uma cidade grega, dividido em circunscrições chamadas demos, podia participar ativamente de seus destinos, mesmo pagando um preço altíssimo pela sua imaturidade política, tal como se deu com a condenação injusta daquele que foi o mais sábio dos homens e o pai da filosofia ocidental, SÓCRATES, a pretexto de impiedade e de corrupção da juventude ateniense, em razão de seus excelsos ensinamentos." (Direito em História. 6ª edição. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, págs. 115 e 116)
Verdade é que Sócrates foi um opositor da democracia. Ele defendia a aristocracia como sendo o melhor regime por duvidar que as decisões coletivas, partindo de muitas ideias individuais na democracia, seriam as mais acertadas. Segundo ele, não importava a quantidade de pessoas participando, mas sim a qualidade. E, por conta disto, o sábio filósofo veio a ser acusado de traidor, mas a sua condenação à morte teve como fundamento imputações de corrupção da juventude pela prática do homossexualismo e da ridicularização dos deuses.
Embora o governo democrático não seja uma perfeição, é o que a meu ver melhor se aplica às necessidades sociais dos menos favorecidos, funcionando como um obstáculo à timocracia, à oligarquia e à tirania. Mesmo sendo vulnerável à corrupção e à mediocridade, a democracia abre portas para que a sociedade consiga evoluir com o tempo através do aprendizado com os resultados das suas próprias escolhas. Pois, do contrário, jamais experimentaremos um amadurecimento coletivo.
Ontem (02/11/2011), enquanto assistia ao Jornal Nacional, fiquei perplexo com uma notícia sobre a Grécia. Depois de enfrentar inúmeros protestos, o primeiro ministro grego George Papandreou tomou a sábia decisão de submeter a um referendo popular a ajuda internacional oferecida ao país. De acordo com a proposta da União Europeia, o empréstimo de 130 bilhões de euros condiciona a Grécia a adotar duras medidas de austeridade econômica que importarão em aumento de impostos, mais pobreza, desemprego e na perda da qualidade de vida de seus cidadãos.
Contudo, o que mais me espantou foi que os cabeças da UE, isto é, os primeiros ministros Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, respectivamente líderes da França e da Alemanha, posicionaram-se contrariamente à consulta popular. Para eles, os cidadãos gregos têm que engolir goela abaixo as restrições econômicas pouco importando se as pessoas daquele país estarão satisfeitas ou não.
Um episódio desses leva-me a indagar para que tem servido a democracia hoje no mundo senão para os poderosos amansarem as massas?
Ora, quando o direito de escolha dos cidadãos começa a incomodar, aqueles que se encontram no poder tratam logo de restringir as oportunidades de decisão coletiva. Nós, aqui na América Latina, já vimos este filme durante as terríveis ditaduras em décadas não muito distantes de hoje em que os militares receberam o apoio incontroverso dos Estados Unidos da América, país tido como um defensor da democracia.
Em qualquer país do mundo, o povo ainda é tratado como gado. Quem manda na prática é o poder econômico junto com o corporativismo dos grupos políticos que se instalam pela via da demagogia no período eleitoral. Mesmo nos Estados que ainda preservam o totalitarismo socialista implantado nas revoluções do século XX, tem-se o controle das decisões através de uma classe burocrática da qual procedem os seus ditadores. E todos os governos de hoje, inclusive os de Cuba e Coreia do Norte, submetem-se a modelos de economia perversos e insustentáveis. Tanto é que a poderosíssima China de Hu Jintao tem se mostrado contrária ao referendo dos gregos.
Na heroica resistência dos movimentos sociais contra este sistema de desigualdades, em que o sofrimento dos povos é fruto das escolhas de seus governantes, resta-nos a alternativa de brigarmos pela ampliação da democracia. Pois cabe ao cidadão decidir não só quem serão os seus futuros representantes, ou se as pessoas podem possuir armas de fogo em suas residências, mas também se o atual modelo de economia de mercado deve ou não continuar.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Celebremos a eternidade da Vida!
"Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem". (1 Tessalonicenses 4.13-14; ARA)
Não há como agente apagar da memória a imagem de alguém que partiu. Emocionar-se e lamentar num enterro é algo muito natural. Segundo a Bíblia, assim que Jacó morreu, seu amado filho José "lançou-se sobre o rosto de seu pai, e chorou sobre ele, e o beijou" (Gn 50.1; ARA).
Entretanto, não devemos passar a vida inteira nos entristecendo sem termos esperança. Paulo, em sua carta à igreja em Tessalônica, na Grécia, referiu-se eufemicamente às pessoas mortas como alguém que "dorme". E, com isto, o autor da epístola exorta seus leitores a não se preocuparem com o destino daqueles que já tinham morrido.
Cada cultura e cada indivíduo respondem à morte de uma maneira. Entre diversos povos da África, por exemplo, o morto é considerado alguém que continua a fazer parte da família. Sendo as tribos africanas animistas, é muito comum as pessoas desses países acreditarem que o espírito desencarnado do falecido prosseguirá zelando pelo bem de seus descendentes e cônjuges. E, se não re-encarnarem, receberão uma espécie de "promoção" para um plano superior, passando a viver junto ao Ser supremo, identificado em certas tradições pelos nomes de Olodumaré ou Olorun na língua dos iorubás (um dos maiores grupos étno-linguístico na África Ocidental, composto por 30 milhões de pessoas em toda a região).
Contudo, o importante é que as pessoas consigam se recobrar do trauma da perda, aprendendo a lidar com a ausência e vivendo com uma esperança motivadora. Assim, neste sentido, as palavras de Paulo tornam-se bem confortadoras. Pois, além de compreender a morte como um descanso transitório, deve o seguidor de Jesus ansiar pelo momento em que todos estarão reunidos para sempre com Deus. E a este respeito o apóstolo expõe muito bem o mistério da existência conforme a imagística e o conhecimento de sua época:
Em cima destes escritos, a Igreja criou inúmeras doutrinas posteriores e muitas delas tornaram-se até alienantes quanto à vida em comunidade. Os padres começaram a abusar desta consolação, projetando a felicidade do homem no céu, ao invés de incentivarem o encontro com a Vida no aqui e agora. Explorado pelos seus patrões e pelos governantes, com amplo apoio dos líderes eclesiásticos, nada mais restou ao trabalhador exceto sonhar com um paraíso após a morte. E para limitar qualquer ação revolucionária dos pobres, ainda criaram as terríveis ameaças acerca da condenação no inferno.
Numa época mais moderna, em que desastres de grandes proporções têm ocorrido juntamente com o desenvolvimento de armas de destruição em massa e mais as profundas mudanças sociais, não há nada mais alienante do que as paranoias apocalípticas. Os discursos sobre a segunda vinda de Jesus têm se tornado verdadeiras sessões de terror como se a qualquer momento o fim do mundo pudesse acontecer. Aí, segundo esta visão teológica, quem estiver vivendo fora dos padrões da Igreja, será destruído.
Lendo os versos de 1 a 11 do capítulo 5 da epístola, entendo que a ideia de uma repentina chegada do "Dia do Senhor" é nada mais do que uma exortação para que a humanidade se prepare para um novo tempo. Trata-se, portanto, de percebermos a nova estação na qual o mundo está entrando para que não sejamos surpreendidos com as mudanças de valores:
"Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão" (1Ts 5.3; ARA).
Ao analisarmos a História, percebemos que alguns eventos ocorrem com grandes surpresas, sem que as pessoas tenham tempo hábil para prevê-los. No final da década de 80 e início dos anos 90, quem poderia imaginar que as cortinas de ferro da ex-URSS e da Europa do Leste iriam cair? Repentinamente, foram caindo os regimes totalitários e stalinistas um por um semelhantes às peças de um jogo de dominó. Porém, se retrocedêssemos a 1986, por exemplo, ninguém poderia imaginar que o vergonhoso muro de Berlim iria ser derrubado em tão pouco tempo e que a Alemanha, dividida em dois países, voltaria a se reunificar.
Lendo a mensagem de Paulo, é justamente o aspecto libertador daquelas palavras que precisam ser retidas para não nos enganarmos com essas teologias amedrontadoras que, na prática, só prestam para promover as mais nocivas alienações. Realmente temos que estar atentos, procurando perceber o tempo kairótico, aquilo que Deus está hoje fazendo no mundo. E, firmados na esperança, promovermos a vida em comunidade.
Quando vivemos com esta percepção no tempo kairótico, nossa existência torna-se uma eterna aventura. Quer estejamos aqui, ou "dormindo", podemos experimentar a salvação, isto é, uma vida plena e satisfeita pela nossa integração total com o Criador e tudo o que Ele fez de bom. Preocupar-nos com o futuro pessoal ou com a partida dos entes queridos já não deve mais nos afligir porque passamos a celebrar a continuidade da Vida que tem na ressurreição de Cristo Jesus um belíssimo símbolo.
Contrariando o papo sem aterrorizante desses pregadores sem graça que têm por aí, Paulo escreve os versos finais de sua epístola aos tessalonicenses motivando-os para a experimentação da vida comunitária. O seguidor de Jesus é chamado para atuar na edificação de uns dos outros, assumindo sua responsabilidade com os irmãos locais. E. com estas palavras, ele explica o que vem a ser esta celebração da vida:
Por acaso esta última citação não é um excelente exemplo do que significa viver no tão desejado tempo kairótico em que aprendemos a ser gratos e nos alegrarmos sempre?
Complementando o seu estudo sobre a epístola paulina no CBA, Rosalie Koudougueret, bacharel e mestre em Teologia da República Central da África, trás-nos estes oportunos comentários:
Que neste feriado do dia 2 de novembro, mundialmente dedicado aos que "dormem", venhamos nos encher de esperança e nos fortalecermos com a luz do nosso Deus! E, confortados, possamos prosseguir confiantes em nossa caminhada, celebrando alegremente a eternidade de todos os seres porque o nosso Criador é a fonte da vida que pulsa no Universo. Bendito seja Ele!
OBS: A ilustração usada neste texto diz respeito ao quadro Ressurreição de Cristo, pintado pelo artista francês Noël Coypel, em 1700.
Não há como agente apagar da memória a imagem de alguém que partiu. Emocionar-se e lamentar num enterro é algo muito natural. Segundo a Bíblia, assim que Jacó morreu, seu amado filho José "lançou-se sobre o rosto de seu pai, e chorou sobre ele, e o beijou" (Gn 50.1; ARA).
Entretanto, não devemos passar a vida inteira nos entristecendo sem termos esperança. Paulo, em sua carta à igreja em Tessalônica, na Grécia, referiu-se eufemicamente às pessoas mortas como alguém que "dorme". E, com isto, o autor da epístola exorta seus leitores a não se preocuparem com o destino daqueles que já tinham morrido.
Cada cultura e cada indivíduo respondem à morte de uma maneira. Entre diversos povos da África, por exemplo, o morto é considerado alguém que continua a fazer parte da família. Sendo as tribos africanas animistas, é muito comum as pessoas desses países acreditarem que o espírito desencarnado do falecido prosseguirá zelando pelo bem de seus descendentes e cônjuges. E, se não re-encarnarem, receberão uma espécie de "promoção" para um plano superior, passando a viver junto ao Ser supremo, identificado em certas tradições pelos nomes de Olodumaré ou Olorun na língua dos iorubás (um dos maiores grupos étno-linguístico na África Ocidental, composto por 30 milhões de pessoas em toda a região).
Contudo, o importante é que as pessoas consigam se recobrar do trauma da perda, aprendendo a lidar com a ausência e vivendo com uma esperança motivadora. Assim, neste sentido, as palavras de Paulo tornam-se bem confortadoras. Pois, além de compreender a morte como um descanso transitório, deve o seguidor de Jesus ansiar pelo momento em que todos estarão reunidos para sempre com Deus. E a este respeito o apóstolo expõe muito bem o mistério da existência conforme a imagística e o conhecimento de sua época:
"Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com ele, entre as nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras." (1Ts 4.15-18; ARA)
Em cima destes escritos, a Igreja criou inúmeras doutrinas posteriores e muitas delas tornaram-se até alienantes quanto à vida em comunidade. Os padres começaram a abusar desta consolação, projetando a felicidade do homem no céu, ao invés de incentivarem o encontro com a Vida no aqui e agora. Explorado pelos seus patrões e pelos governantes, com amplo apoio dos líderes eclesiásticos, nada mais restou ao trabalhador exceto sonhar com um paraíso após a morte. E para limitar qualquer ação revolucionária dos pobres, ainda criaram as terríveis ameaças acerca da condenação no inferno.
Numa época mais moderna, em que desastres de grandes proporções têm ocorrido juntamente com o desenvolvimento de armas de destruição em massa e mais as profundas mudanças sociais, não há nada mais alienante do que as paranoias apocalípticas. Os discursos sobre a segunda vinda de Jesus têm se tornado verdadeiras sessões de terror como se a qualquer momento o fim do mundo pudesse acontecer. Aí, segundo esta visão teológica, quem estiver vivendo fora dos padrões da Igreja, será destruído.
Lendo os versos de 1 a 11 do capítulo 5 da epístola, entendo que a ideia de uma repentina chegada do "Dia do Senhor" é nada mais do que uma exortação para que a humanidade se prepare para um novo tempo. Trata-se, portanto, de percebermos a nova estação na qual o mundo está entrando para que não sejamos surpreendidos com as mudanças de valores:
"Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão" (1Ts 5.3; ARA).
Ao analisarmos a História, percebemos que alguns eventos ocorrem com grandes surpresas, sem que as pessoas tenham tempo hábil para prevê-los. No final da década de 80 e início dos anos 90, quem poderia imaginar que as cortinas de ferro da ex-URSS e da Europa do Leste iriam cair? Repentinamente, foram caindo os regimes totalitários e stalinistas um por um semelhantes às peças de um jogo de dominó. Porém, se retrocedêssemos a 1986, por exemplo, ninguém poderia imaginar que o vergonhoso muro de Berlim iria ser derrubado em tão pouco tempo e que a Alemanha, dividida em dois países, voltaria a se reunificar.
Lendo a mensagem de Paulo, é justamente o aspecto libertador daquelas palavras que precisam ser retidas para não nos enganarmos com essas teologias amedrontadoras que, na prática, só prestam para promover as mais nocivas alienações. Realmente temos que estar atentos, procurando perceber o tempo kairótico, aquilo que Deus está hoje fazendo no mundo. E, firmados na esperança, promovermos a vida em comunidade.
"Nós, porém, os que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação; porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos em união com ele." (1 Ts 5.8-10; ARA)
Quando vivemos com esta percepção no tempo kairótico, nossa existência torna-se uma eterna aventura. Quer estejamos aqui, ou "dormindo", podemos experimentar a salvação, isto é, uma vida plena e satisfeita pela nossa integração total com o Criador e tudo o que Ele fez de bom. Preocupar-nos com o futuro pessoal ou com a partida dos entes queridos já não deve mais nos afligir porque passamos a celebrar a continuidade da Vida que tem na ressurreição de Cristo Jesus um belíssimo símbolo.
Contrariando o papo sem aterrorizante desses pregadores sem graça que têm por aí, Paulo escreve os versos finais de sua epístola aos tessalonicenses motivando-os para a experimentação da vida comunitária. O seguidor de Jesus é chamado para atuar na edificação de uns dos outros, assumindo sua responsabilidade com os irmãos locais. E. com estas palavras, ele explica o que vem a ser esta celebração da vida:
"Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e para com todos. Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda a forma do mal." (1Ts 5.15-22; ARA)
Por acaso esta última citação não é um excelente exemplo do que significa viver no tão desejado tempo kairótico em que aprendemos a ser gratos e nos alegrarmos sempre?
Complementando o seu estudo sobre a epístola paulina no CBA, Rosalie Koudougueret, bacharel e mestre em Teologia da República Central da África, trás-nos estes oportunos comentários:
"As palavras de Paulo nos lembram os extraordinários privilégios que desfrutamos como crentes, os quais são a fonte de nossa alegria, mas também de nossos deveres e responsabilidade em evitar o mal e pôr em prática a palavra de Deus. Essas palavras são particularmente aplicáveis à igreja hoje, a qual tem sido tão influenciada pelo mundo que agora abriga todos os tipos de males: corrupção, imoralidade, tribalismo [conflitos entre as tribos africanas], divisão, egoísmo e roubo. Além disso, existe uma escassez de profunda e dinâmica oração. Já é hora de a igreja retornar ao seu primeiro chamado para ser 'o sal da terra' e a 'luz do mundo'" (Comentário bíblico africano; São Paulo: Mundo Cristão, 2010, pág 1500)
Que neste feriado do dia 2 de novembro, mundialmente dedicado aos que "dormem", venhamos nos encher de esperança e nos fortalecermos com a luz do nosso Deus! E, confortados, possamos prosseguir confiantes em nossa caminhada, celebrando alegremente a eternidade de todos os seres porque o nosso Criador é a fonte da vida que pulsa no Universo. Bendito seja Ele!
OBS: A ilustração usada neste texto diz respeito ao quadro Ressurreição de Cristo, pintado pelo artista francês Noël Coypel, em 1700.
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