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domingo, 1 de março de 2026

Depois de Khamenei: sucessão, guerra e o risco de um Oriente Médio em combustão



A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em meio aos ataques conjuntos de EUA e Israel, mudou o patamar da crise. Não é apenas mais um episódio de escalada: trata-se de um choque no “coração” de um Estado que organiza boa parte do seu poder político e militar em torno da figura do Líder Supremo — e que, por isso mesmo, construiu um mecanismo de continuidade para sobreviver a ele.


A sucessão já começou (e isso diz muito)

Em 1º de março de 2026, fontes de notícias relataram a ativação do mecanismo interino: Alireza Arafi, clérigo e membro do Conselho dos Guardiões, foi designado para integrar o Conselho de Liderança (órgão temporário) ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do chefe do Judiciário Gholamhossein Mohseni Ejei, enquanto a Assembleia dos Peritos escolhe um novo líder.

Politicamente, isso aponta para uma intenção clara do regime: mostrar continuidade institucional, evitar vácuo de poder e reduzir a janela de instabilidade.

Todavia, um elemento central no processo de sucessão é o papel da Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC), que se tornou muito mais do que uma força militar. Ao longo das últimas décadas, especialmente sob a liderança de Khamenei, o IRGC ampliou seu alcance político, econômico e social, consolidando-se como um ator decisivo dentro do Estado iraniano e entre as facções clericais (inclusive com conexões ao Basij, sua força auxiliar).

Em um cenário de alta pressão externa e militar, a influência do IRGC pode se traduzir em duas formas: prima facie, como um poder capaz de orientar consensos na Assembleia dos Peritos — favorecendo candidatos com credenciais de segurança ou com apoio nas elites militares — e, secundariamente, como força capaz de alavancar ou cooptar alianças internas para garantir que a transição não fragmente o sistema.

Nomes como Mojtaba Khamenei são mencionados exatamente por sua profunda ligação com o IRGC e o Basij, apesar das barreiras ideológicas a uma sucessão “dinástica”; isso mostra como o IRGC, ao controlar capacidades de segurança e estruturas sociais, pode ser o árbitro efetivo da continuidade do regime mesmo mais do que a própria Assembleia de Especialistas. 


A retaliação iraniana e o “alargamento” do conflito

O risco mais imediato é simples: o conflito deixou de ser “pontual”. Houve retaliações iranianas relatadas contra alvos na região, inclusive com mísseis contra países do Golfo Pérsico e referência a ataques a “bases dos EUA” — algo que amplia a chance de ciclo de ação–reação e de incidentes que escapem do controle.

Esse alargamento importa porque eleva:


  • o risco de engajamento direto contínuo;
  • o risco de “erros de cálculo” (um ataque com grande número de vítimas, por exemplo);
  • e o custo econômico global (energia, seguros, rotas, aviação).


ONU: acusação de “crime de guerra” e o limite do multilateralismo

A crise chegou ao Conselho de Segurança, com linguagem máxima: a representação iraniana qualificou os ataques como “crime de guerra” e “crime contra a humanidade” (na narrativa diplomática), enquanto EUA e Israel defenderam a ação no marco de ameaça e segurança.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu que os ataques e as retaliações “minam a paz e a segurança internacionais” e pediu contenção para evitar uma cadeia “incontrolável” de eventos.

Aqui está a contradição estrutural: a ONU funciona como fórum de disputa de narrativas e legitimidades, mas tende a ficar travada quando os atores centrais são grandes potências e aliados — exatamente quando a contenção seria mais necessária.


Petróleo: o “prêmio geopolítico” volta ao preço

Mesmo sem fechamento efetivo de rotas, o mercado precifica risco. Quando mísseis começam a alcançar o Golfo e ativos militares regionais entram no tabuleiro, sobe o “prêmio geopolítico” do petróleo: mais volatilidade, pressão inflacionária e insegurança para países importadores. (E nem os EUA ficam imunes: a produção doméstica não isola o consumidor americano de um choque global de preços.)


Quatro cenários para o Irã (e para o mundo)

A sucessão interina não significa “fim do regime”. Ela pode, inclusive, reforçá-lo. Os cenários mais plausíveis:


  1. Continuidade controlada (mais provável): sucessor alinhado ao establishment; regime usa a crise para “fechar fileiras”.
  2. Militarização ampliada: mais poder decisório do aparato de segurança (especialmente IRGC), sem romper formalmente a teocracia.
  3. Fragmentação interna (menos provável, mas perigosa): disputas prolongam a sucessão, aumentam fissuras, estimulam instabilidade.
  4. Ruptura profunda (curto prazo improvável): só ocorreria com colapso de coesão do aparato de segurança + mobilização social sustentada.


O ponto decisivo é este: a sucessão foi desenhada para reduzir a oportunidade de ruptura — e crises externas costumam fortalecer a lógica de “ameaça à pátria”, elevando o apoio (ou a submissão) ao núcleo duro do sistema.


O alerta dos precedentes: Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão

O receio sobre o surgimento de novas “milícias islâmicas” é historicamente justificado — mas o paralelo correto precisa ser calibrado.


Iraque (2003): queda do Estado e vácuo

O risco iraquiano nasce do desmonte do Estado e do vácuo institucional — terreno fértil para milícias e, depois, para o Estado Islâmico. A lição: derrubar o topo sem plano de transição pode produzir monstros.


Líbia (2011): fragmentação após a queda do centro

A Líbia é o exemplo clássico de “regime cai, Estado não segura”: multiplicação de centros armados, guerra civil intermitente e disputa por recursos.


Síria: o Estado não cai, mas o conflito se regionaliza

Na Síria, o regime resistiu e o país virou palco de guerra longa, proxies e múltiplos atores. Este é o risco estrutural mais parecido com o Irã, se a escalada continuar: não necessariamente colapso, mas conflito prolongado e regionalizado, com redes aliadas atuando em vários teatros.


Afeganistão: colapso de um Estado dependente

O Afeganistão colapsou quando o Estado revelou forte dependência de sustentação externa. O Irã, ao contrário, tem aparato interno robusto — portanto esse modelo é menos aplicável.


Em resumo: o Irã não se parece com o Afeganistão e não é “Líbia por desenho”. O risco mais realista, se a guerra se prolongar, é uma dinâmica mais próxima da síria: escalada regional, proxies, instabilidade longa e difícil de encerrar — com custo humano e econômico crescente.


O risco adicional: “decapitação” sucessiva

Surge então a pergunta decisiva: haverá novos ataques visando novos líderes e candidatos? Mesmo sem uma política declarada, a lógica de “alvos de liderança” tende a:


  • aumentar o incentivo iraniano à retaliação;
  • reduzir espaço de negociação;
  • e tornar a transição interna ainda mais securitizada.


Ou seja: a “decapitação” não necessariamente abre caminho para democratização — pode abrir caminho para radicalização e guerra mais extensa.


Conclusão: o mundo entrou na fase mais perigosa

A morte de Khamenei não encerra a crise — ela a reconfigura. A sucessão interina indica capacidade de continuidade. As retaliações ampliam o teatro de risco. A ONU alerta, mas não garante contenção. E o preço do petróleo passa a carregar o medo do “acidente histórico”.

É exatamente nessas horas que o mundo precisa reafirmar o óbvio difícil: desescalada, canais diplomáticos e regras mínimas de contenção não são ingenuidade — são a única alternativa racional quando o custo da escalada pode ser global.


Nota sobre o luto oficial e o mecanismo constitucional de sucessão no Irã

Após a confirmação da morte do Líder Supremo, o governo iraniano declarou 40 dias de luto nacional, período que possui forte significado religioso no islamismo xiita, marcando tradicionalmente o encerramento formal do ciclo de luto (arba'in).

Do ponto de vista jurídico, a Constituição da República Islâmica do Irã, em seu Artigo 111, estabelece que, em caso de morte, renúncia ou incapacidade do Líder Supremo, suas funções são exercidas temporariamente por um Conselho de Liderança provisório, composto pelo Presidente da República, pelo Chefe do Poder Judiciário e por um clérigo membro do Conselho dos Guardiões.

Cabe à Assembleia dos Peritos (Artigos 107 e 111) eleger o novo Líder Supremo “o mais breve possível”, assegurando a continuidade institucional do regime e evitando vácuo de poder.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a Autodefesa e a Escalada: O Ataque ao Irã e os Limites do Direito Internacional



Na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar contra alvos no território iraniano. A justificativa oficial invocou segurança nacional, neutralização de ameaças estratégicas e impedimento do avanço nuclear do regime de Teerã. A dimensão da ação, contudo, levanta uma pergunta que ultrapassa a conjuntura: trata-se de legítima defesa ou do início de uma nova guerra sem amparo claro no sistema jurídico internacional?

A resposta não é simples — mas é essencial.


A Regra Geral: Proibição do Uso da Força

O sistema jurídico internacional contemporâneo, estruturado após 1945, tem como pedra angular a proibição do uso da força entre Estados. A Organização das Nações Unidas (ONU), por meio de sua Carta, estabelece que nenhum Estado deve recorrer à força contra a integridade territorial ou independência política de outro.

Há apenas duas exceções clássicas:


  1. Autorização do Conselho de Segurança;
  2. Legítima defesa em caso de ataque armado.


No caso atual, não há notícia de autorização formal do Conselho de Segurança. Restaria, portanto, a tese da legítima defesa.


A Legítima Defesa: Clássica ou Preventiva?

O artigo 51 da Carta da ONU admite a legítima defesa “no caso de ocorrer um ataque armado”. A leitura tradicional exige que o ataque já tenha ocorrido ou esteja em curso.

Entretanto, tanto Washington quanto Tel Aviv têm recorrido à noção de legítima defesa preventiva — isto é, agir antes que a ameaça se concretize plenamente. Essa tese, historicamente controversa, exige demonstração de iminência clara, necessidade absoluta e proporcionalidade.

A dificuldade jurídica surge quando a operação é descrita como “em larga escala” e acompanhada de discursos que sugerem mudança de regime. Autodefesa não equivale a autorização para remodelação política de outro Estado. Quanto maior a extensão e duração da ação militar, maior o questionamento sobre sua proporcionalidade.

A tese da legítima defesa preventiva é controversa porque amplia uma exceção que, pela Carta da ONU, foi pensada para situações de ataque armado já em curso ou claramente iminente. Se bastar a alegação de “ameaça futura”, abre-se espaço para que qualquer Estado justifique ações militares unilaterais com base em percepções subjetivas de risco. Isso enfraquece a regra geral de proibição do uso da força e aumenta o risco de conflitos sucessivos.


O Direito Interno dos EUA

Nos Estados Unidos, a Constituição confere ao Congresso o poder de declarar guerra, enquanto o Presidente é comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Desde 1973, a War Powers Resolution estabelece que o Presidente deve informar o Congresso em até 48 horas após envolver tropas em hostilidades e que, na ausência de autorização formal, a operação deve cessar após 60 dias (com possível prorrogação técnica de 30 dias).

A controvérsia, portanto, não é apenas internacional, mas também doméstica: a ação foi autorizada pelo Congresso? Haverá sustentação legislativa para uma campanha prolongada? Em um cenário de escalada, o debate constitucional tende a ganhar força.


O Direito Interno de Israel

Em Israel, a Lei Básica: O Governo determina que apenas o Governo pode iniciar uma guerra, ainda que ações militares defensivas possam ser adotadas diante de necessidade imediata.

A distinção entre “guerra” formal e “operação militar significativa” não é apenas semântica — ela define o grau de controle parlamentar e a extensão da legitimidade política interna.

Se a operação evoluir para conflito prolongado, aumentará o escrutínio jurídico e político dentro do próprio sistema israelense.


O Risco Geopolítico: O Mundo em Tensão

Independentemente da legitimidade jurídica arguida, os riscos políticos são evidentes:


  • Possível ampliação do conflito no Oriente Médio;
  • Envolvimento indireto de potências como Rússia e China;
  • Pressão sobre alianças regionais;
  • Radicalização interna no próprio Irã, com fortalecimento da narrativa de “nação sitiada”.


Historicamente, ações externas contra regimes sob pressão interna tendem a produzir efeito paradoxal: ao invés de enfraquecer a liderança, podem consolidá-la no curto prazo.


Retaliação já em curso: do risco hipotético ao risco material

No caso em questão, a retaliação iraniana já ultrapassou a lógica bilateral e atingiu a infraestrutura de segurança regional: houve retaliações iranianas contra Israel e também atingindo países do Golfo que hospedam ativos dos EUA, com episódios descritos por autoridades locais e reportagens internacionais, além de medidas como restrições/fechamentos temporários de espaço aéreo em meio aos alertas.

Esse dado muda a qualidade do risco: não se trata apenas de uma projeção teórica. Trata-se de escalada real, com potencial de encadear reações em cadeia.


O Petróleo e o Fator Econômico

O impacto imediato mais sensível está no mercado energético.

O Estreito de Hormuz é rota estratégica para parcela significativa do comércio mundial de petróleo. Mesmo sem interrupção física do fluxo, a mera percepção de risco eleva o “prêmio geopolítico” no preço do barril.

Petróleo mais caro significa:


  • Pressão inflacionária global;
  • Dificuldade adicional para países importadores;
  • Aumento de custos logísticos e alimentares;
  • Volatilidade nos mercados financeiros.


Embora os Estados Unidos hoje sejam grandes produtores, o preço da gasolina e da energia ainda responde ao mercado global. Portanto, mesmo economias robustas não ficam imunes.


O Sistema da ONU Está em Xeque?

Quando grandes potências recorrem à força sem consenso no Conselho de Segurança, reforça-se a percepção de que o sistema internacional funciona mais por correlação de poder do que por coerção jurídica.

A credibilidade do sistema multilateral depende da coerência entre norma e prática. Se a exceção (autodefesa preventiva ampla) se tornar regra, o próprio princípio da proibição do uso da força perde densidade normativa.

Todavia, a gravidade do episódio levou o tema ao Conselho de Segurança em Nova York, enquanto o Secretário-Geral da ONU advertiu que a escalada e as retaliações "minam a paz e a segurança internacionais" e reiterou a proibição do uso da força prevista na Carta.


O Caminho Possível: Diplomacia e Desescalada

Nenhum sistema internacional é estável quando a guerra volta a ser instrumento ordinário de política externa.

A saída responsável exige:


  • Retomada de canais diplomáticos;
  • Mediação multilateral;
  • Garantias verificáveis sobre programas estratégicos;
  • Compromisso com o direito internacional humanitário;
  • Proteção efetiva de civis.


O mundo enfrenta desafios econômicos, climáticos e sociais profundos. Uma nova guerra de grandes proporções apenas ampliaria instabilidade, pobreza e fragmentação geopolítica.


Conclusão

O ataque de 28 de fevereiro de 2026 inaugura um momento delicado para o direito internacional e para a estabilidade global.

A questão central não é apenas se havia ameaça, mas se os limites jurídicos foram respeitados. Em tempos de tensão, a diferença entre autodefesa e escalada pode definir não apenas o destino de uma região, mas a solidez do próprio sistema internacional.

A paz, ainda que difícil, continua sendo a única solução capaz de preservar vidas, economias e a própria legitimidade das nações.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Aumentam as Tensões no Caribe: Alerta dos EUA e o Risco de Conflito na Venezuela



Na última semana, o governo do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, emitiu um alerta oficial orientando os cidadãos americanos a deixarem a Venezuela imediatamente e reforçando o aviso para que se evite qualquer viagem ao país. A medida acendeu sinal de alerta internacional, indicando que Washington considera a situação venezuelana altamente instável e que existe um planejamento estratégico para eventual intervenção, caso seja considerada necessária.

O alerta surge em meio a uma escalada de tensões políticas e militares no Caribe. Nos últimos meses, Trump e autoridades do Pentágono têm mantido declarações públicas sugerindo que há planos de contingência para o caso de uma mudança abrupta de liderança em Caracas, incluindo uma eventual renúncia de Nicolás Maduro. Especialistas internacionais haviam considerado, até poucas semanas atrás, que a probabilidade de invasão terrestre americana era baixa. Entretanto, a orientação direta aos cidadãos reforça a percepção de que os EUA estão aumentando a pressão e preparando cenários de ação rápida.

Enquanto isso, a opinião pública nos Estados Unidos se mostra majoritariamente contrária a qualquer ataque militar. Pesquisas recentes indicam que uma parcela significativa dos americanos não aprova a intervenção na Venezuela, e manifestações de cidadãos em várias cidades do país têm destacado o risco de envolver tropas americanas em um conflito regional complexo e distante. Mesmo assim, o discurso do governo americano tem se tornado mais firme, mostrando uma contradição entre o desejo popular por contenção e a estratégia externa agressiva.

Na Venezuela, a vice-presidente Delcy Rodríguez tem atuado como porta-voz da soberania nacional, denunciando publicamente as intenções dos EUA e reiterando que qualquer intervenção seria ilegal e inaceitável. Desde o início das tensões, suas declarações têm enfatizado que a Venezuela não cederá à pressão externa, reforçando a narrativa de que o país se manterá firme diante de qualquer ameaça e convocando a população e as Forças Armadas a resistirem.

Caso Maduro renuncie, a situação poderia se tornar ainda mais complexa. Por um lado, uma saída pacífica poderia reduzir a justificativa para um ataque americano direto. Por outro, um vácuo de poder poderia ser visto como oportunidade pelos EUA para exercer influência mais ampla sobre a Venezuela, seja por pressão diplomática, econômica ou militar seletiva. Nesse contexto, a vice-presidente Delcy Rodríguez poderia assumir interinamente, garantindo algum nível de estabilidade interna, especialmente com o apoio das Forças Armadas, embora a legitimidade de sua liderança ainda dependa do reconhecimento internacional.

O papel do Brasil e das Forças Armadas brasileiras também se torna relevante diante do aumento da tensão no Caribe. Apesar de uma eventual mudança de postura do país em relação aos EUA, o Brasil provavelmente manteria neutralidade defensiva, reforçando a vigilância nas fronteiras com a Venezuela, garantindo a soberania e evitando que seu território seja usado como palco de conflitos. A postura brasileira buscaria assegurar estabilidade regional e proteger a população de impactos indiretos, como migração em massa e instabilidade econômica.

A escalada atual evidencia que uma eventual intervenção militar dos EUA teria impactos significativos na geopolítica da América Latina, influenciando alianças, investimentos e projetos estratégicos, como a ferrovia ligando o Pacífico ao Atlântico apoiada pela China. Um ataque bem-sucedido à Venezuela poderia desestimular governos latino-americanos a se aproximarem de potências extrarregionais, reforçando a influência americana, mas também gerando instabilidade econômica e política de longo prazo.

Diante de todo o cenário, fica claro que a guerra deve ser evitada a todo custo. A solução passa pelo diálogo diplomático, respeito à soberania e busca por mediação internacional, de forma a garantir que a população venezuelana não sofra as consequências diretas de um conflito armado. A escalada militar traz riscos não apenas para a Venezuela, mas para toda a região do Caribe e da América Latina, podendo provocar crises humanitárias, deslocamentos populacionais e repercussões econômicas significativas.

O alerta emitido pelos EUA é, portanto, um chamado à prudência: a diplomacia deve prevalecer sobre a força, garantindo que as tensões não se transformem em um conflito aberto que colocaria toda a região em risco.

sábado, 21 de junho de 2025

E se o Irã se enfraquecer com essa guerra?!

 


Poucos pararam para refletir que, diante de uma provável derrota dos aiatolás nessa guerra com Israel, a China tentará expandir sua influência no Irã, principalmente se houver um enfraquecimento significativo do regime atual. 


Não se pode esquecer de que a China tem interesses estratégicos no Irã, incluindo:


1) Investimentos em infraestrutura: A China já investiu pesadamente em projetos de infraestrutura no Irã, como portos e rodovias, como parte de sua iniciativa "Cinturão e Rota".


2) Acesso a recursos naturais: O Irã é rico em recursos naturais, como petróleo e gás, que são importantes para a economia chinesa.


3) Posição geoestratégica: O Irã está localizado em uma região crítica para a segurança energética e os interesses econômicos da China.


Desse modo, se o Irã for enfraquecido, a China poderá aumentar a sua influência econômica, expandindo seus investimentos e controle sobre recursos naturais e infraestrutura crítica. Também poderá estabelecer alianças internacionais buscando fortalecer laços políticos e estratégicos com o Irã, potencialmente alinhando-o mais estreitamente com seus interesses, talvez por meio do Paquistão.


Certamente, diante de um cenário desses, os chineses poderão projetar poder regional sobre o gigante continente asiático porque usariam a sua influência no Irã para proteger os seus interesses na região.


Logicamente que a China enfrentaria desafios, como a rivalidade com outras potências, a exemplo da Rússia e dos EUA, os quais também têm interesses na região e poderiam se opor à expansão chinesa. Sem descartar a complexidade política iraniana com o fim do regime dos aiatolás. Isto porque a política interna do país persa é complexa, e a China precisaria navegar cuidadosamente para estabelecer alianças duradouras.


Se bem lembramos, a guerra de Bush contra o Iraque gerou uma instabilidade perigosa no Oriente Médio fazendo nascer o terrorista Estado Islâmico. Logo, o pós-guerra poderá ser uma situação extremamente difícil de controlar em que as três maiores potências do planeta acabarão instigando e financiando intermináveis conflitos pelo comando político de um riquíssimo país, mesmo sem caracterizar uma terceira guerra mundial. 


Enfim, só quem pode efetivamente lucrar com maior certeza com a derrota do Irã será o Netanyahu cujo regime genocida só se sustenta diante do medo que os israelenses nutrem diante do terrorismo e dos adversários que teoricamente podem destruí-los. China, Rússia e EUA acabarão sendo arrastados prematuramente para a partilha de um rico país do Oriente Médio.


Ruim com o Khanenei, mas pode ser pior sem ele. Talvez será um erro estratégico se Israel matar o líder supremo do Irã.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Mais de quatro décadas da "Operação Ópera"...

 


Há exatos 43 anos, a Força Aérea Israelense destruiu o reator nuclear iraquiano Osirak durante a chamada "Operação Ópera". 


No ano de 1976, o Iraque havia adquirido um reator nuclear classe "Osiris" da França. E, embora o Iraque e a França sustentassem que o empreendimento fosse destinado a pesquisa científica para "fins pacíficos", os israelenses viram o reator com suspeita, acreditando que tivesse sido projetado para fabricar armas nucleares.


Assim, no dia 7 de junho de 1981, um voo de aeronaves de caça F-16A, com uma escolta de F-15As, bombardeou e danificou severamente o reator de Osirak. Israel alegou ter agido em defesa própria. Dez soldados iraquianos e um civil francês foram mortos.


O ataque ocorreu cerca de três semanas antes das eleições para o Knesset, parlamento israelense, e foi fortemente criticado em todo o mundo, gerando uma reação de censura pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e pela Assembleia Geral da ONU, em duas resoluções distintas. 


Apesar da polêmica suscitada, a destruição de Osirak tem sido citada nos estudos contemporâneos sobre o direito internacional como um exemplo de ataque preventivo. Algo bem diferente do genocídio que estamos testemunhando em pleno século XXI numa reação desproporcional do Netanyahu contra os palestinos em Gaza por causa do terrorismo do Hamas.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Reação defensiva que já se tornou desproporcional



Nesta segunda-feira, o Presidente Lula fez uma declaração sobre a guerra em Gaza. Segundo ele, "Israel joga bombas onde tem crianças e mata inocentes sem nenhum critério", tendo também declarado que a reação do governo israelense seria tão grave quanto os ataques de 7 de outubro do Hamas, o qual ele classificou como atos terroristas.


Fato é que estamos vivendo dias muito difíceis no mundo e não imaginava que, em pleno século XXI, estaríamos assistindo a esse massacre de crianças e de civis inocentes em Gaza, com o bombardeio de hospital a pretexto de haver terroristas no local.


Fico feliz pela a repatriação dos brasileiros que estavam nessa zona de guerra e aguardaram 36 dias para atravessar a passagem de Rafah, entre Gaza e o Egito. Porém, é lamentável a situação de inúmeros palestinos que, a princípio, não terão outro destino. Famílias que não têm envolvimento com o terrorismo e estão submetidas a um sofrimento sem fim até que haja um cessar fogo.


Embora sem ser ouvido, o papa já pediu pelo fim do conflito, bem como a permissão de entrada de ajuda humanitária em Gaza e a libertação dos reféns sequestrados desde 7 de outubro pelos terroristas. E, recentemente, após a oração do Angelus, renovou o seu apelo: "Que parem as armas, elas nunca trarão paz, e que o conflito não se amplie! Chega!"


Que Israel tem o direito de se defender contra o terrorismo do Hamas, disso nunca nenhuma pessoa em sã consciência negaria. No entanto, temos visto pelas notícias, que mais de 12 mil pessoas já morreram e todo esse massacre deve merecer o total repúdio da comunidade internacional.


Como disse o papa no domingo, chega!


OBS: Foto acima  registrando a imagem de uma criança palestina em meio aos escombros de um prédio destruído após ataques em Rafah, no sul da Faixa de Gaza  (AFP or licensors).