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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Por que os EUA têm interesses estratégicos na Groenlândia?



A Groenlândia voltou ao centro da geopolítica global nos últimos anos, sobretudo após declarações de ex-presidente Donald Trump sobre a possibilidade de adquiri-la. À primeira vista, muitos se perguntam: por que os Estados Unidos demonstrariam interesse direto em um território que já abriga a base de Thule, uma instalação militar avançada utilizada há décadas para defesa e monitoramento do Ártico? A resposta envolve uma combinação de fatores de defesa, geoeconomia e segurança tecnológica, além de questões diplomáticas complexas envolvendo a Dinamarca e a NATO.


Defesa militar e geopolítica

A Base Aérea de Thule, no noroeste da Groenlândia, é uma das posições militares mais estratégicas do planeta. Ela integra sistemas de alerta precoce e de defesa antimísseis dos EUA, permitindo monitoramento do Atlântico Norte e do Ártico. A presença americana na região, consolidada dentro de uma aliança com a Dinamarca, membro da NATO, garante aos Estados Unidos acesso militar eficaz sem precisar de controle territorial direto.

No entanto, a defesa não é o único interesse. A Groenlândia possui reservas de minerais estratégicos, como terras raras, zinco, ouro, urânio, além de petróleo e gás. Esses recursos são essenciais para a transição energética, para a produção de tecnologia de ponta e para a manutenção da liderança americana em cadeias de suprimentos críticas. Ter controle direto sobre esses recursos permitiria aos EUA reduzir sua dependência de mercados internacionais, particularmente frente à expansão econômica da China e à presença da Rússia no Ártico.


Interesses chineses na Groenlândia

Além dos Estados Unidos, a China observa a Groenlândia com crescente interesse estratégico. Pequim se apresenta como um “ator quase-ártico” e busca acesso a minerais estratégicos, terras raras e rotas marítimas emergentes no norte, aproveitando o degelo. Investimentos em mineração e infraestrutura, bem como parcerias científicas, são instrumentos para projetar influência econômica e tecnológica, muitas vezes em áreas sensíveis ambientalmente, reforçando a competição geoeconômica na região e pressionando aliados tradicionais ocidentais a equilibrar interesses de segurança e comércio.


A questão da soberania: Dinamarca, NATO e movimentos pró-independência

A Groenlândia não é um território americano, mas parte do Reino da Dinamarca, que possui alto grau de autonomia interna e, simultaneamente, é um aliado histórico dos EUA dentro da NATO. Qualquer tentativa de aquisição direta ou de imposição militar enfrentaria barreiras jurídicas e políticas significativas. A soberania groenlandesa é fortemente defendida por seu parlamento e sociedade, que rejeitam a ideia de venda do território, considerando-a uma afronta à autodeterminação e à identidade nacional.

A Groenlândia mantém também um forte movimento político em favor da independência plena. Embora a maioria da população ainda dependa economicamente da Dinamarca, há crescente consciência política e cultural sobre a autodeterminação. Partidos e organizações locais defendem maior controle sobre recursos naturais, legislação ambiental e políticas econômicas, transformando a recusa da venda do território em um símbolo de soberania. Esse movimento limita significativamente qualquer ação externa, mesmo de aliados históricos, e reforça a necessidade de negociação diplomática para evitar crises.


Posição da Europa

Nos últimos meses, líderes europeus reforçaram que qualquer ação militar sobre a Groenlândia é absolutamente inaceitável. A primeira-ministra da Itália, por exemplo, declarou publicamente que a soberania do território deve ser respeitada e que eventuais interesses estratégicos dos EUA precisam ser conciliados dentro da NATO e por meios diplomáticos e econômicos, sem uso da força. Esse posicionamento evidencia que a comunidade europeia prioriza a coesão da aliança e a estabilidade regional, limitando significativamente qualquer iniciativa unilateral, mesmo de um aliado histórico como os Estados Unidos.


O Ártico e os impactos do aquecimento global

O aquecimento global abriu novas oportunidades econômicas no Ártico, expondo rotas marítimas antes inacessíveis e áreas ricas em recursos naturais. No entanto, a exploração dessas oportunidades entra em conflito direto com a urgência de proteção ambiental: a região é sensível, abriga ecossistemas únicos e atua como reguladora climática global. O desequilíbrio ecológico intensifica a competição entre potências e torna a Groenlândia um território de interesse estratégico, onde a pressão econômica e militar se sobrepõe frequentemente às necessidades de preservação ambiental, exigindo soluções internacionais equilibradas para proteger seu valor climático e biodiversidade.


Por que a probabilidade de conflito militar é baixa?

Apesar das tensões, a probabilidade de um conflito militar dentro da aliança atlântica é considerada baixa. Vários fatores explicam isso:


  1. Desequilíbrio de poder militar: A Dinamarca não possui capacidade de enfrentar os EUA, e o confronto direto com o líder da aliança seria inviável para qualquer país europeu.
  2. Custos internos nos EUA: Congresso, Pentágono e opinião pública dificilmente aceitariam uma ação militar contra um aliado tradicional.
  3. Alternativas diplomáticas e econômicas: Os EUA podem avançar em seus interesses através de pressão política, acordos de exploração de recursos, investimentos estratégicos e cooperação tecnológica, sem recorrer à força.
  4. Dependência europeia: A Europa depende dos EUA para segurança frente à Rússia. Nenhum país do bloco arriscaria uma ruptura militar que fragilizasse sua própria defesa.
  5. Mecanismos da NATO: A aliança prioriza a unidade e a sobrevivência institucional, evitando confrontos entre membros, mesmo diante de crises políticas internas.


Assim, as tensões permanecerão no campo diplomático e político, não no militar, enquanto EUA, Dinamarca, Groenlândia e aliados europeus buscam conciliar interesses estratégicos com soberania e coesão internacional.


Conclusão


Foto: Pixabay


O interesse dos EUA na Groenlândia vai muito além da Base de Thule. Trata-se de uma combinação de objetivos militares, geoeconômicos e tecnológicos, em um território estratégico no Ártico. Ao mesmo tempo, a Groenlândia e a Dinamarca representam obstáculos naturais à ação unilateral americana, enquanto a NATO funciona como mecanismo de contenção e canal diplomático. Mesmo diante de pressões, a probabilidade de conflito militar direto dentro da aliança é baixa, pois o equilíbrio entre dependência europeia, capacidade americana e soberania groenlandesa favorece soluções políticas e econômicas em vez de confrontos armados. A Groenlândia, portanto, permanece no centro de uma disputa estratégica sutil, onde diplomacia, recursos e segurança global se entrelaçam, moldando o futuro do Ártico e da ordem internacional.


📝 Nota jurídica: Barreiras legais à aquisição da Groelândia:

No Direito internacional contemporâneo, a aquisição de territórios habitados, como a Groenlândia, exige o consentimento livre da população local, conforme o princípio da autodeterminação dos povos (Resolução 2625/1970 da Assembleia Geral da ONU). Assim, qualquer cessão unilateral entre Dinamarca e EUA seria juridicamente inválida sem a realização de um plebiscito groenlandês. O uso da força militar para esse fim violaria o Artigo 2(4) da Carta da ONU, que proíbe ameaças à integridade territorial de Estados soberanos, incluindo a Dinamarca.

Os recursos do Ártico, por sua vez, são regulados pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS, 1982, arts. 55-87), garantindo direitos exclusivos sobre a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) e a plataforma continental, mas não conferindo soberania sobre o alto-mar. O marco legal prioriza a cooperação sustentável entre Estados, especialmente via fóruns como o Conselho do Ártico. Acordos bilaterais históricos, como o de Defesa EUA-Dinamarca (1951), reconhecem explicitamente a soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia, limitando ações unilaterais e reforçando a necessidade de parcerias diplomáticas na região.

📣 RIO DE JANEIRO TEM NOVA LEI DE PROTEÇÃO ANIMAL: ENTENDA O QUE MUDA 🐾



O Estado do Rio de Janeiro passou a aplicar, a partir de 08 de janeiro de 2026, a Lei nº 11.096, de 07 de janeiro de 2026, que institui o Novo Código Estadual de Direito dos Animais. A norma foi publicada no Diário Oficial e marca uma atualização da legislação estadual sobre proteção animal, substituindo o antigo código de 2002 — considerado menos detalhado e abrangente.

A proposta é de autoria dos deputados Luiz Paulo (PSD) e Carlos Minc (PSB), com coautoria aberta a parlamentares de diferentes partidos.

Em sua divulgação nas redes, mais precisamente em seu canal no Whatsapp, Minc afirmou:


“A nova lei reconhece os animais como seres dotados de direitos, endurece punições contra maus-tratos e abandono, estabelece condições dignas de vida, proíbe práticas absurdas como tatuagens e piercings em animais…” 🐶🐱


📌 PRINCIPAIS PONTOS DA NOVA LEI


Ampliação de direitos: O novo código reconhece oficialmente os animais como seres conscientes, sencientes e dotados de dignidade própria, o que reforça a obrigação do poder público e da população em zelar pelo bem-estar animal e combater crueldade em todas as suas formas.


✔️ Lista detalhada de maus-tratos: A lei descreve 49 práticas consideradas maus-tratos e abusos, incluindo:


  • tatuagens e piercings sem finalidade terapêutica;
  • caudectomia e conchectomia (corte de cauda e orelhas por estética);
  • zoofilia;
  • oferta de animais como brindes;
  • lutas entre animais, rinhas, touradas e vaquejadas;
  • venda de animais vivos em locais públicos sem vacinação comprovada.


✔️ Punições e responsabilização: A lei prevê que, em caso de maus-tratos comprovados, o responsável deve arcar com todas as despesas veterinárias e de recuperação do animal, incluindo consultas, cirurgias, medicamentos, transporte e hospedagem. Além disso, o infrator pode ser obrigado a ressarcir órgãos públicos e entidades que tenham custeado o atendimento. Dependendo da gravidade, a Justiça pode também proibir a guarda de animais por determinado período.

Dentre as sanções específicas, destacam-se:


  • multa de 1.000 a 1.500 UFIRs-RJ para abandono de animais, com agravamento em caso de reincidência;
  • obrigações como vacinação obrigatória e carteira de vacinação, proibição de acorrentamento e de manter animais em espaços inadequados;
  • microchipagem obrigatória para animais comercializados;
  • proibição do extermínio de cães e gatos de rua como forma de controle populacional.


🐾 AVANÇOS EM RELAÇÃO À LEI DE 2002

A lei anterior, de 2002, já estabelecia princípios básicos de proteção animal, mas era mais genérica e contava com menos dispositivos detalhados. Já o novo Código, distribuído em mais de 70 artigos e 18 capítulos, amplia e especifica regras, obrigações e punições, trazendo um instrumento legal mais moderno e robusto para enfrentar maus-tratos, abandono, abuso e outras práticas cruéis.

Além disso, a norma trata de categorias diversas de animais — domésticos, silvestres, comunitários e de uso econômico — e cria regras próprias para situações como transporte, abate humanizado, proibição de fogos com estampido em eventos públicos e restrições ao uso de animais em espetáculos e turismo com tração animal.


📢 CONCLUSÃO

Pode-se dizer que a nova lei representa um avanço significativo na defesa dos animais no estado. 

É importante que a população conheça os direitos e deveres previstos nesse código para colaborar com sua efetiva aplicação. 

Compartilhe esta notícia e ajude a garantir o cumprimento da Lei nº 11.096/26 em toda a sociedade! 🐕🐈💚

União Europeia aprova acordo com Mercosul, mas ainda há obstáculos antes da efetivação



Os países da União Europeia deram nesta quinta-feira (9) um aval provisório ao acordo de livre comércio com o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A decisão, cuja aprovação ainda precisa ser formalizada no mesmo dia por escrito, abre caminho para a assinatura formal do tratado, prevista para a próxima semana, no Paraguai, mas ainda não torna o acordo definitivo.

O aval dos Estados‑membros da UE representa um passo histórico após mais de 25 anos de negociações, criando uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com cerca de 718 milhões de pessoas e US$ 22 trilhões em PIB. O acordo prevê a eliminação de tarifas na maior parte dos produtos comercializados entre os dois blocos, além de mecanismos de salvaguarda para setores sensíveis, especialmente a agricultura, e mantém rigorosos padrões sanitários e ambientais para produtos importados na Europa.

Apesar da aprovação, ainda faltam etapas essenciais para a efetivação do tratado. É necessária a ratificação pelo Parlamento Europeu, que poderá aprovar, modificar ou solicitar parecer jurídico adicional antes da validação final. Além disso, os governos europeus precisam formalizar por escrito o voto favorável de cada país, completando o trâmite legal do bloco.

O acordo enfrenta resistência de alguns países europeus, principalmente França e Irlanda, preocupados com a concorrência de produtos agrícolas do Mercosul. A oposição se reflete em protestos de agricultores, bloqueios de estradas e pressões políticas dentro do Parlamento Europeu, o que pode atrasar ou alterar a forma final de implementação do tratado.

Para o Brasil, o acordo representa grandes oportunidades e desafios. Entre os benefícios, destacam-se a ampliação das exportações agrícolas e agroindustriais — incluindo carne bovina, açúcar, álcool, suco de laranja e café — além do acesso mais amplo a produtos europeus de alta tecnologia e à integração econômica regional. Consumidores brasileiros também podem se beneficiar de maior variedade de produtos e preços mais competitivos.

Por outro lado, o país precisará enfrentar desafios relacionados à competitividade industrial, à manutenção de padrões ambientais e à adaptação às exigências europeias de qualidade e sanidade dos produtos exportados. Especialistas alertam ainda para a necessidade de equilibrar o crescimento das exportações com a preservação ambiental, especialmente em setores ligados à agropecuária.

Embora ainda não definitivo, o acordo UE‑Mercosul é considerado um marco histórico nas relações comerciais internacionais e um teste de capacidade do Mercosul em se consolidar como um bloco estratégico global, equilibrando crescimento econômico, proteção ambiental e integração internacional.


📝 Nota do autor sobre aspectos ambientais, indígenas e legais

Apesar de ser muito positivo para a economia brasileira, não podemos ignorar que o acordo entre União Europeia e Mercosul também levanta questões de conformidade legal e ambiental. Neste sentido, eis que o Brasil precisará observar o artigo 225 da Constituição Federal, que assegura o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, e respeitar os tratados internacionais sobre povos indígenas, garantindo proteção às terras tradicionais e à biodiversidade.

Organizações não governamentais, como o WWF, têm questionado se a implementação do acordo não poderá incentivar o aumento do desmatamento ou a exploração insustentável de recursos naturais, alertando para a necessidade de mecanismos claros de monitoramento e fiscalização.

Criar fundo de transição agroambiental (inspirado no Fundo Amazônia) e fortalecer Ibama/Anvisa para certificações nos padrões da UE são medidas importantíssimas.

Para aqueles que desejam consultar o texto integral do acordo, ele está disponível no site oficial da União Europeia: 

https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement_en

Os EUA Hoje: Superpotência Indispensável ou Risco Global?


Donald Trump ao sair do Air Force One após chegar na Flórida


A atual conjuntura internacional reacendeu um debate antigo: até que ponto os Estados Unidos, com seu poder militar e econômico, representam atualmente um perigo para o mundo? Entre ações unilaterais recentes — como a intervenção na Venezuela e declarações sobre Colômbia, México, Cuba e Groenlândia — e o funcionamento de suas instituições democráticas, o cenário é complexo e exige uma análise detalhada.


Capacidade de ação

Não há dúvidas de que os EUA continuam a ser a principal potência militar global. Com um orçamento de defesa superior a US$ 1 trilhão por ano, presença em quase todos os continentes e tecnologia de ponta — incluindo forças nucleares, drones de ataque e guerra cibernética — o país possui meios para projetar poder praticamente em qualquer região do planeta.

Essa capacidade cria uma responsabilidade internacional enorme, porque qualquer decisão unilateral tem potencial de afetar a estabilidade regional ou global. O controle de recursos estratégicos, como o petróleo venezuelano, exemplifica como decisões políticas podem gerar efeitos econômicos e geopolíticos imediatos.


Limites institucionais e internos

Apesar de sua força, os EUA não são um Estado sem freios. Diferentemente de governos autoritários, suas ações externas estão sujeitas a sistemas de checagem interna:


  • Congresso: autorizações para ações militares e controle orçamentário;
  • Suprema Corte e tribunais: podem questionar abusos de poder;
  • Mídia e opinião pública: influência direta sobre decisões de guerra, diplomacia e sanções;
  • Sistema federal e burocracia: Departamentos do Estado, Defesa e Energia atuam como freios técnicos e diplomáticos.


Mesmo um presidente popular pode ter sua margem de ação limitada, sobretudo em operações militares extensas ou controle de recursos externos sem respaldo legal interno.


Impacto no mundo

Desde a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, a reação global — especialmente fora da América Latina — tem sido ampla e, em muitos casos, crítica ao uso da força sem amparo claro nas normas do direito internacional. Na Europa, países como França e Alemanha expressaram “preocupação” com a operação americana, lembrando que o uso da força contraria o princípio da não utilização da força que sustenta a ordem jurídica global, e que qualquer solução duradoura deve emergir de processos negociais e soberanos, não de ações externas. 

Organismos regionais e Estados africanos também levantaram questionamentos. O Departamento de Relações Internacionais da África do Sul, por exemplo, pediu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que trate o episódio como uma questão urgente, reforçando que conflitos entre Estados soberanos devem ser analisados pelos mecanismos multilaterais previstos na Carta das Nações Unidas. 

Na Ásia, países como China criticaram fortemente a intervenção, afirmando que a ação dos EUA viola o direito internacional, ameaça a soberania estatal e prejudica a paz e a segurança regionais e globais.

Outros governos asiáticos optaram por uma postura mais cautelosa, enfatizando a necessidade de respeito à legalidade internacional e ao princípio da solução pacífica de conflitos, ao mesmo tempo que navegam relações econômicas e diplomáticas complexas com Washington.

Líderes europeus e instituições multilateralistas veem na operação uma ameaça à ordem multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial, alertando que a normalização de intervenções extraterritoriais pode enfraquecer mecanismos de paz e segurança coletiva e abrir caminho para uma “lei do mais forte” como régua das relações entre Estados.

Em conjunto, essas reações refletem um entendimento crescente em diversas regiões do mundo: a soberania e o direito internacional não são meros enunciados retóricos, mas pilares essenciais para a estabilidade global — e a erosão desses princípios por meio de ações unilaterais, por mais justificadas que sejam politicamente, alimenta incertezas e tensões que podem repercutir muito além de uma crise pontual na América Latina. 

Desse modo, devemos reconhecer que, quando os EUA agem de forma unilateral ou improvisada, podem gerar:


  • Tensões internacionais: aumento de conflitos latentes, instabilidade regional e rivalidades estratégicas (ex.: Venezuela, Taiwan, Ucrânia);
  • Crises humanitárias indiretas: deslocamentos populacionais, escassez econômica ou pressões sociais;
  • Precedentes geopolíticos perigosos: outras potências podem seguir a lógica do intervencionismo se perceberem que a força sem sanção multilateral é aceitável.


Por outro lado, quando operam em coalizões ou sob normas multilaterais, os EUA desempenham papel de estabilizador global, promovendo acordos diplomáticos, missões de paz e segurança econômica.


Grupos econômicos e influências internas

Não se deve ignorar a influência de setores privados e grupos de interesse nos EUA, especialmente ligados à indústria de defesa, energia e petróleo. A pressão desses atores pode impulsionar ações externas que nem sempre correspondem ao interesse público ou ao consenso internacional. Ainda assim, o sistema institucional americano é capaz de conter excessos, seja via Congresso, tribunais ou opinião pública.


Conclusão

Embora na Segunda Guerra, sob o comando de Roosevelt, os EUA tenham atuado na defesa de um mundo livre combatendo o nazi-fascismo, a visão que se tem acerca da maior super potência global hoje caminha para o lado oposto, com o governo Trump, criando uma realidade nada confortável capaz de despertar inúmeras desconfianças.

  • Capacidade de perigo ao mundo: alta, devido à força militar e influência econômica.
  • Intenção realista de causar caos global: limitada, graças a freios internos e instituições democráticas.
  • Risco principal: decisões unilaterais isoladas ou influenciadas por interesses econômicos, sem respaldo legislativo ou internacional.


Em outras palavras, os EUA permanecem uma superpotência indispensável, mas seu poder precisa ser exercido com equilíbrio e respeito a normas internacionais. O mundo observa atentamente, consciente de que erros de cálculo ou ações motivadas apenas por interesses internos podem gerar crises de proporções globais.


💬 E você, leitor? Como vê o papel dos EUA hoje: estabilizador global ou risco real para o mundo? Deixe sua opinião nos comentários e participe do debate.


📷: Kevin Lamarque/Reuters

Petrobras e Chevron: como a crise venezuelana redefine parcerias e competição na energia?



A crise venezuelana, intensificada pela intervenção direta dos Estados Unidos sobre o petróleo do país, trouxe à tona impactos que vão muito além das fronteiras da América Latina. Entre os efeitos mais palpáveis está a reconfiguração do papel estratégico da Petrobras e de sua relação com a gigante americana Chevron.


Historicamente, as duas empresas mantêm um equilíbrio delicado entre parceria e competição. Em blocos de exploração offshore no Brasil, especialmente no pré-sal, a Chevron compartilha tecnologia e conhecimento com a Petrobras, ao mesmo tempo em que compete por concessões, contratos de fornecimento e espaço no mercado internacional de petróleo. Essa relação sempre exigiu cuidado para que interesses comerciais não conflitem com a soberania energética brasileira.


Agora, a presença cada vez mais ativa da Chevron na Venezuela, sob supervisão política e econômica dos Estados Unidos, altera o tabuleiro regional. A empresa americana pode ter acesso facilitado a petróleo bruto venezuelano, enquanto a Petrobras observa seu espaço estratégico regional ser pressionado. A situação ressalta a vulnerabilidade de empresas nacionais frente a políticas intervencionistas externas, reforçando a necessidade de alianças multilaterais e proteção diplomática de ativos estratégicos.


Além disso, a crise mostra como geopolítica e energia estão intrinsecamente ligadas. A Petrobras precisa equilibrar sua atuação comercial com seu papel de instrumento estratégico do Estado brasileiro, garantindo autonomia energética, segurança de fornecimento e presença competitiva no mercado internacional. Qualquer alteração no controle do petróleo venezuelano, aliado a flutuações de preços globais e pressões internacionais, pode impactar diretamente contratos, investimentos e parcerias.


Em resumo, o cenário atual coloca a Petrobras diante de um novo desafio: navegar entre colaboração e competição com a Chevron, enquanto o petróleo latino-americano se torna peça central de uma disputa geopolítica global. A empresa brasileira terá que agir com estratégia, reforçar alianças diplomáticas e proteger seus interesses, sem comprometer sua soberania e seu papel na energia regional.

Senado dos EUA aprova medida que limita ações militares de Trump contra a Venezuela


Plenário do Senado dos EUA


Em uma decisão histórica, o Senado dos Estados Unidos aprovou, nesta quinta-feira (8), uma resolução que impede o presidente Donald Trump de tomar novas ações militares contra a Venezuela sem autorização prévia do Congresso. A votação foi apertada: 52 a 47, com apoio de cinco senadores republicanos que romperam com o próprio partido, ao lado de todos os democratas.


Contexto e relevância

A medida surge em um momento de intensa tensão internacional e debate sobre os limites constitucionais do poder executivo nos Estados Unidos. A Constituição americana dá ao Congresso o poder exclusivo de declarar guerra, enquanto o presidente atua como comandante-em-chefe das Forças Armadas.

A resolução aprovada visa reforçar esse equilíbrio, garantindo que decisões militares de grande impacto não sejam tomadas unilateralmente pelo presidente, preservando o papel legislativo na supervisão de ações militares.


A reação aos recentes acontecimentos militares

A aprovação da resolução ocorre após uma operação militar dos EUA na Venezuela, na qual forças norte-americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro em Caracas sem consulta ao Congresso.

O episódio gerou forte crítica bipartidária, com senadores alertando para os riscos de ações militares sem controle legislativo e o potencial de consequências diplomáticas e humanitárias graves.

O inesperado apoio de alguns republicanos

Cinco senadores republicanos — Susan Collins (ME), Lisa Murkowski (AK), Rand Paul (KY), Josh Hawley (MO) e Todd Young (IN) — votaram a favor da medida, em um gesto raro de bipartidarismo.

Eles defenderam a resolução como uma forma de proteger a Constituição e o papel do Congresso, afirmando que a lealdade política não pode se sobrepor ao compromisso com as instituições.


Argumentos a favor da resolução

Os defensores da medida destacaram três pontos principais:


  • Proteção constitucional: decisões de guerra devem passar pelo Congresso.
  • Evitar abusos: limitar ações precipitadas que possam gerar crises internacionais.
  • Responsabilidade institucional: reforçar o equilíbrio entre Executivo e Legislativo, mesmo em casos de divergência partidária.


Argumentos contra a resolução

Entre os críticos, destacam-se:


  • Autonomia do presidente: o comandante-em-chefe precisa de liberdade para responder rapidamente a ameaças.
  • Risco à segurança nacional: limitações poderiam comprometer operações emergenciais.
  • Separação de poderes: alguns senadores alegam que a medida interfere excessivamente nas prerrogativas do Executivo.


Resistência da Casa Branca

O governo Trump criticou a medida, afirmando que ela é inconstitucional e prejudica a segurança nacional.

A Casa Branca defende que o presidente deve manter autoridade significativa como comandante-em-chefe, argumentando que restrições legislativas poderiam dificultar respostas rápidas a crises internacionais.


Tramitação legislativa

Apesar da aprovação no Senado, a resolução ainda precisa passar pela Câmara dos Representantes.

Caso seja aprovada, o presidente Trump já indicou que vetará a medida, o que exigiria uma maioria qualificada de dois terços nas duas casas do Congresso para ser revertido — cenário considerado politicamente improvável.


Observações jurídicas

A resolução se baseia na War Powers Resolution (1973), que define limites legais para ações militares do presidente sem aprovação do Congresso.

No entanto, a Casa Branca historicamente questiona a validade dessa lei, defendendo que ela viola as prerrogativas constitucionais do presidente como comandante-em-chefe.

Mesmo aprovada, a medida deve enfrentar desafios jurídicos, potencialmente criando uma disputa sobre os limites do poder presidencial.


Impacto simbólico

Independentemente de sua tramitação final, a medida representa um marco político e simbólico:


  • Mostra que nem mesmo o presidente tem carta branca para decisões militares.
  • Reforça a importância do controle legislativo sobre ações militares.
  • Demonstra um raro momento de oposição formal ao presidente por parte de legisladores do próprio partido.


Em um contexto global de crescente tensão e vigilância sobre intervenções militares, a decisão do Senado norte-americano reafirma a relevância de democracia, equilíbrio de poderes e responsabilidade institucional como fundamentos da política internacional.


📷: U.S. Senate/senate.gov

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Colômbia nas ruas envia recado à América Latina: mobilização popular contra ameaças intervencionistas de Trump



Milhares de colombianos foram às ruas no dia 07/01 em diversas cidades do país para protestar contra as recentes declarações de Donald Trump, que incluiu a Colômbia em sua retórica de pressões políticas e ameaças indiretas à soberania latino-americana. Com bandeiras, cartazes e forte presença de movimentos sociais, sindicatos e organizações civis, as manifestações assumiram um caráter amplo: não se tratou apenas de um ato político, mas de uma defesa explícita da democracia regional e da autonomia das nações do continente.

Os protestos ocorreram em Bogotá, Medellín, Cali e outras cidades importantes, demonstrando que o clima de mobilização ultrapassou fronteiras partidárias. A mensagem central foi clara: não aceitar ingerências externas na política interna dos países latino-americanos, especialmente em um momento de instabilidade regional e tensões envolvendo Venezuela, Estados Unidos e governos progressistas do continente.

Além da crítica direta às ameaças feitas por Trump, as ruas colombianas mostraram apoio à preservação do diálogo diplomático e à solução de conflitos pela via política, não militar. Esse movimento também fortalece simbolicamente o governo Gustavo Petro, que enfrenta resistências internas e pressões externas, ao evidenciar que parte significativa da sociedade colombiana rejeita discursos que resgatam lógicas de Guerra Fria e tentativas de submissão geopolítica.

As manifestações colombianas acabam funcionando como exemplo para outros países latino-americanos. Em um contexto no qual a região vive disputas narrativas, polarização política e tentativas recorrentes de influência externa, a mobilização popular na Colômbia reafirma a importância do protagonismo dos povos latino-americanos na defesa de sua soberania.

Mais do que um protesto circunstancial, o que se viu nas ruas foi um recado político: a América Latina não aceita ser tratada como território de chantagem geopolítica. A reação colombiana ajuda a elevar o nível do debate continental e pode estimular outras nações a se posicionarem com firmeza em defesa de suas instituições democráticas e de sua autonomia internacional.


📝 As mobilizações na Colômbia, convocadas por Petro, foram amplas e tiveram repercussão significativa, com participação de milhares de pessoas em várias cidades, o que tende a fortalecer politicamente o presidente colombiano no contexto atual. Comparadas aos atos de 5 de janeiro no Brasil, as manifestações colombianas foram mais numerosas, mais dispersas geograficamente e com maior impacto político institucional, particularmente pela ligação direta com o discurso de soberania e defesa nacional.


OBS: Imagem extraída da página do presidente colombiano Gustavo Petro no Facebook.