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sábado, 1 de agosto de 2026

O Apito da Floresta


Trabalhadores assentando dormentes e trilhos 

(Em homenagem aos 114 anos da inauguração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré)


O apito ecoou longo sobre o rio Madeira.

Não era o primeiro que Joaquim ouvia na vida.

Mas aquele som parecia diferente.

Ele fechou os olhos.

Por um instante, a multidão desapareceu.

As crianças deixaram de cantar.

As bandeiras tremulando diante do presidente Getúlio Vargas tornaram-se apenas um borrão.

Quando tornou a abri-los, já não estava em 1940.

Estava novamente em 1908.


Naquele tempo, Porto Velho ainda não era uma cidade.

Era uma clareira aberta na floresta.

Casas de madeira surgiam aqui e ali.

Barracões.

Trilhos interrompidos.

Montanhas de dormentes.

Guindastes.

Locomotivas desmontadas esperando montagem.

E, logo atrás de tudo aquilo, uma muralha verde parecia observar os homens.

A floresta.

Imensa.

Silenciosa.

Paciente.


Porto Velho em 1910


Joaquim tinha vinte e dois anos.

Era foguista.

Filho de um barqueiro do rio Madeira.

Conhecia as corredeiras desde menino.

Mas jamais imaginara ver uma máquina de ferro rasgando aquela mata.

Foi no cais que conheceu Samuel.

O rapaz era negro, alto, falava um inglês rápido e um português inexistente.

Viera de Barbados.

Na pequena mala havia apenas duas mudas de roupa, uma Bíblia muito gasta e uma fotografia da mãe.

Os dois se olharam sem entender uma palavra.

Depois riram.

A amizade começou antes mesmo da conversa.


Nos meses seguintes aprenderam a linguagem um do outro.

Samuel descobriu que "água" era água.

Joaquim aprendeu que "friend" significava amigo.

À noite sentavam-se sobre os trilhos recém-assentados.

Samuel falava do mar azul do Caribe.

Joaquim descrevia as cheias do Madeira.

Enquanto isso, homens de dezenas de países cruzavam o acampamento.

Italianos.

Gregos.

Portugueses.

Bolivianos.

Nordestinos.

Americanos.

Sírios.

Barbadianos.

Cada qual trazendo um sotaque.

Todos unidos pelo mesmo desafio.


A floresta, porém, não se rendia.

A chuva transformava caminhos em lama.

Mosquitos cobriam o corpo inteiro.

Toda semana alguém desaparecia.

Uns voltavam curados.

Outros jamais voltavam.

Certa manhã, faltou Patrick, um jovem irlandês que sonhava economizar dinheiro para rever a mãe em Dublin. Joaquim e Samuel o visitaram no Hospital da Candelária. Naquele mesmo entardecer, o sino anunciou mais um sepultamento. No dia seguinte, sua pá permanecia encostada exatamente onde ele a deixara.

Ninguém tinha tempo para longos lutos.

Os trilhos continuavam avançando.

Samuel certa vez perguntou:

— Vale a pena?

Joaquim demorou a responder.

Olhou para a mata.

Depois para a locomotiva.

— Talvez ninguém saiba agora.

Talvez nossos netos saibam.


Porto Velho crescia.

Onde antes havia apenas árvores, surgiam oficinas.

Hospital.

Escola.

Armazéns.

Casas.

A estação começou a tomar forma.

Pela primeira vez, Joaquim percebeu crianças brincando ao lado dos trilhos.

Aquilo lhe pareceu um milagre.


Chegou então o dia primeiro de agosto de 1912.

O último trecho estava pronto.

A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré era inaugurada.

Autoridades discursavam.

Fotógrafos registravam o momento.


Inauguração de trecho da ferrovia 


Mas Joaquim pouco prestava atenção aos discursos.

Pensava nos homens que haviam partido cedo demais.

Lembrou-se do irlandês que sonhava voltar para Dublin.

Do cearense que queria comprar um sítio.

Do médico americano que insistia em combater a malária.

Do cozinheiro boliviano que cantava todas as noites.

Samuel aproximou-se.

Os dois permaneceram em silêncio enquanto a locomotiva apitava.

Depois disse apenas:

— Conseguimos.

Joaquim sorriu.

— Nós... e muitos que já não estão aqui.

O trem começou lentamente a mover-se.

Pela primeira vez, percorreu toda a linha.

O apito espalhou-se pela floresta.

Os pássaros levantaram voo.

Por um breve instante, parecia que a própria Amazônia escutava aquele novo som.


Vieram os anos.

A borracha perdeu valor.

Muitos foram embora.

Outros permaneceram.

Samuel casou-se com uma professora brasileira.

Aprendeu português sem sotaque.

Teve filhos.

Netos.

Joaquim tornou-se maquinista.

Conhecia cada curva da ferrovia como quem conhece as linhas da própria mão.


Agora era 1940.

O presidente Getúlio Vargas caminhava entre estudantes reunidos para recebê-lo.


Registro da visita de Vargas a Porto Velho


As meninas sorriam.

As freiras observavam.

As bandeiras balançavam ao vento.

Joaquim, já velho, permanecia um pouco afastado.

Samuel aproximou-se devagar.

Os cabelos embranquecidos escondiam o rapaz que desembarcara de Barbados trinta e dois anos antes.

— Lembra do cais?

Perguntou Samuel.

Joaquim sorriu.

— Lembro.

— E daquela clareira?

— Lembro.

Os dois olharam ao redor.

Já não havia apenas uma clareira.

Havia uma cidade.

Escolas.

Famílias.

Praças.

Comércio.

Crianças que não imaginavam que, onde brincavam, existira um acampamento cercado de mata.

Nesse instante, uma locomotiva apitou ao longe para homenagear a visita presidencial.

Samuel fechou os olhos.

Joaquim fez o mesmo.

Era exatamente o mesmo som.

O mesmo que ouvira em 1908.

O mesmo da inauguração em 1912.

O tempo havia mudado.

Os homens também.

Mas o apito permanecia.

Como se lembrasse aos vivos que os trilhos não haviam sido construídos apenas com aço e madeira.

Foram construídos com sonhos.

Com coragem.

Com amizade.

E com a memória daqueles que ficaram para sempre ao longo da ferrovia.

Enquanto o eco se perdia sobre o rio Madeira, Joaquim pensou que as locomotivas não transportavam apenas passageiros e cargas.

Transportavam o tempo.

E Joaquim compreendeu que o último trilho da Madeira-Mamoré nunca fora assentado sobre a terra.

Fora assentado na memória.

Fim.


Nota do autor

Este conto é uma obra de ficção inspirada em acontecimentos históricos relacionados à construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, inaugurada em 1º de agosto de 1912, e ao surgimento de Porto Velho, em Rondônia. Embora os personagens Joaquim e Samuel sejam fictícios, o contexto histórico, a diversidade de trabalhadores, as condições enfrentadas durante a construção da ferrovia e a visita do presidente Getúlio Vargas a Porto Velho, em 1940, baseiam-se em fatos documentados.

As imagens que acompanham este texto foram selecionadas por seu valor histórico e documental:


  1. Trabalhadores executando o assentamento de dormentes e trilhos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (c. 1909–1910), fotografia de Dana B. Merrill, fotógrafo oficial da construção da ferrovia. Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP). A Coleção Dana B. Merrill reúne parte dos cerca de dois mil negativos produzidos pelo fotógrafo norte-americano durante as obras da Madeira-Mamoré.

  2. Vista panorâmica de Porto Velho em 1910, fotografia integrante da Coleção Dana B. Merrill, preservada no Museu Paulista da USP. O registro documenta Porto Velho ainda em seus primeiros anos, revelando a cidade nascente em meio à floresta durante a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

  3. Trem da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, fotografia de Dana B. Merrill, pertencente ao acervo do Museu Paulista da USP, registrando a operação da ferrovia em seus primeiros anos.

  4. Visita do presidente Getúlio Vargas a Porto Velho, em 1940, fotografia preservada em acervo histórico e reproduzida na Wikipédia, registrando um dos momentos mais simbólicos da presença do governo federal na Amazônia durante o Estado Novo.


A pesquisa para este conto teve como base documentos históricos, fotografias de época, o acervo de Dana B. Merrill, estudos sobre a Madeira-Mamoré, o Museu Paulista, a Biblioteca Nacional, a Brasiliana Fotográfica e outras fontes de referência sobre a história de Rondônia e da Amazônia.

A memória também percorre trilhos. E, às vezes, basta o eco de um apito para atravessar mais de um século de história.

Educação em tempo integral: um direito das crianças e um compromisso com o futuro do Rio de Janeiro



"A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto." — Darcy Ribeiro


A provocação de Darcy Ribeiro continua atual porque nos obriga a fazer uma escolha: aceitar esse diagnóstico como definitivo ou trabalhar para transformá-lo.

Toda criança nasce com potencial para aprender, criar e transformar o mundo. O que muitas vezes diferencia seu futuro não é o talento, mas as oportunidades que recebe ao longo da vida.

Foi pensando nisso que decidi conhecer e assinar o manifesto em defesa da educação em tempo integral e da revitalização dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). 


assina.org/emdefesadociep


Mais do que uma campanha ou uma iniciativa política, a proposta me levou a refletir sobre uma questão que deveria unir toda a sociedade: que educação queremos oferecer às futuras gerações?

Independentemente das preferências partidárias de cada cidadão, a educação pública é um tema que diz respeito a todos nós. O futuro do Rio de Janeiro será construído, antes de tudo, nas salas de aula.


Educação não é favor. É um direito!

A Constituição Federal de 1988 não trata a educação como um benefício concedido pelo Estado. Ela a reconhece como um direito fundamental de todos e um dever do poder público e da família, devendo ser promovida com a colaboração da sociedade, conforme previsto no artigo 205 da Lei Maior do nosso país:


Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.


Quando a própria Constituição determina prioridade absoluta aos direitos das crianças e dos adolescentes (art. 227), isso significa que investir na infância não é uma opção política entre tantas outras. É uma obrigação constitucional.

Nesse contexto, a educação em tempo integral deve ser compreendida como um instrumento para tornar esse direito mais efetivo, especialmente para crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade social.

Vale ressaltar que essa compreensão foi incorporada também pelo Plano Nacional de Educação (Lei Federal nº 13.005/2014), que, há doze anos atrás, estabeleceu entre suas metas a ampliação da educação em tempo integral. 

A Meta 6 do PNE prevê que o país busque oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, atendendo pelo menos 25% dos estudantes da educação básica. 

Embora o período original do plano tenha se encerrado em 2024, o Congresso Nacional ainda discute um novo Plano Nacional de Educação para a próxima década, mantendo a expansão da educação integral entre os temas centrais das políticas educacionais brasileiras.


O legado dos CIEPs

É impossível falar de educação em tempo integral no Rio de Janeiro sem recordar a visão de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Darcy Ribeiro costumava afirmar que a crise da educação brasileira não era uma crise propriamente dita, mas um projeto histórico de exclusão social. Em sua visão, negar educação de qualidade às camadas populares significava perpetuar desigualdades e limitar o desenvolvimento nacional. Por isso, defendia uma escola pública capaz de acolher integralmente a criança, oferecendo não apenas ensino, mas também alimentação, cultura, esporte, saúde e proteção social. Essas ideias estão presentes em obras como O Livro dos CIEPs, nas quais o autor apresenta a educação como prioridade estratégica para o país.

Os CIEPs nasceram da compreensão de que muitas crianças brasileiras não precisavam apenas de mais horas de aula. Precisavam de uma escola capaz de acolher integralmente seu desenvolvimento.

A proposta reunia ensino, alimentação, atividades culturais, esportivas, acompanhamento social e um ambiente seguro durante grande parte do dia.

Não se tratava apenas de construir prédios projetados por Oscar Niemeyer. Tratava-se de construir oportunidades.

Décadas depois, muitos desses prédios continuam espalhados pelo Estado. Alguns permanecem cumprindo sua função educacional, outros foram adaptados para diferentes usos e diversos necessitam de investimentos em infraestrutura e modernização. Isso demonstra que o debate atual não se limita à preservação de um patrimônio arquitetônico concebido por Niemeyer, mas envolve a recontextualização de uma ideia de educação integral para as necessidades pedagógicas do presente.

Mais do que discutir o passado, talvez seja o momento de perguntar: como atualizar esse legado para os desafios do século XXI?


Educação integral não significa apenas permanecer mais tempo na escola

Existe um equívoco frequente quando se fala em educação em tempo integral.

Não basta aumentar o número de horas que o aluno permanece dentro da escola.

Educação integral pressupõe qualidade.

Significa oferecer ensino consistente, alimentação adequada, atividades esportivas, cultura, acesso à tecnologia, incentivo à leitura, formação cidadã, acompanhamento pedagógico e, quando necessário, integração com políticas públicas de saúde e assistência social.

O objetivo não é apenas ocupar o tempo da criança.

É desenvolver plenamente suas capacidades intelectuais, físicas, culturais, sociais e emocionais.

Essa concepção dialoga diretamente com o entendimento contemporâneo de educação integral, segundo o qual a formação da criança deve contemplar dimensões cognitivas, culturais, físicas, sociais e emocionais. A ampliação da jornada escolar somente faz sentido quando acompanhada de um projeto pedagógico capaz de promover o desenvolvimento humano em sua integralidade.

Vale ressaltar que a própria realidade fluminense demonstra que a ampliação da educação integral continua sendo um desafio. Levantamentos recentes do Panorama de Dados Educacionais indicam que cerca de 39% das escolas públicas que oferecem Ensino Médio no Estado funcionam em regime de tempo integral, evidenciando que ainda existe espaço significativo para expansão dessa modalidade, especialmente em regiões socialmente mais vulneráveis.


Um investimento que beneficia toda a sociedade

Os benefícios da educação integral vão muito além da aprendizagem.

Quando uma criança permanece em uma escola estruturada durante todo o dia, sua família também é beneficiada.

Pais e responsáveis conseguem trabalhar com maior tranquilidade, sabendo que seus filhos estão em um ambiente seguro.

A escola torna-se espaço de convivência, proteção e desenvolvimento humano.

Ao mesmo tempo, reduz-se a exposição de crianças e adolescentes às situações de vulnerabilidade existentes nas ruas, especialmente em comunidades marcadas por profundas desigualdades sociais.

Naturalmente, a violência não será resolvida apenas pela educação. Segurança pública exige políticas integradas, geração de empregos, assistência social, urbanismo e fortalecimento das instituições.

Mas também é verdade que investir na infância costuma produzir efeitos positivos duradouros para toda a sociedade.

Diversos estudos em educação demonstram que escolas de tempo integral contribuem para reduzir a evasão escolar, fortalecer os vínculos entre escola e comunidade e ampliar as oportunidades de aprendizagem. 

No caso dos CIEPs, sua proposta inovadora influenciou políticas públicas posteriores em diferentes esferas de governo, tornando-se uma das principais referências brasileiras sobre educação integral


O que os números revelam sobre a educação no estado

O debate sobre a educação pública não pode ser conduzido apenas por impressões ou discursos. É preciso olhar para os indicadores.

Um dos principais instrumentos de avaliação da educação básica brasileira é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), elaborado pelo Inep. O índice reúne dois fatores essenciais: o desempenho dos estudantes nas avaliações nacionais e a capacidade das escolas de garantir sua permanência e progressão escolar.

Os resultados mais recentes mostram que o Estado do Rio de Janeiro ainda enfrenta desafios importantes. No Ensino Médio da rede estadual, o IDEB de 2023 foi de 3,3, abaixo do resultado obtido em 2021 (3,9) e suficiente para colocar o Estado na penúltima posição entre as unidades da Federação.

Evidentemente, esse resultado não significa que todas as escolas estaduais apresentem baixo desempenho. Existem excelentes experiências na rede pública fluminense e profissionais altamente comprometidos com a educação. Também merece destaque a evolução observada na rede municipal da cidade do Rio de Janeiro em diferentes etapas da educação básica.

Os indicadores, porém, revelam que ainda há muito espaço para avançar. Eles reforçam que investir na qualidade da escola pública, na valorização dos educadores, na infraestrutura escolar e na ampliação da educação integral continua sendo um desafio para toda a sociedade.


A importância da participação cidadã

Nenhuma política pública se sustenta apenas pela vontade de um governante.

As grandes transformações acontecem quando a sociedade demonstra que determinado tema merece prioridade.

É justamente nesse contexto que surge o manifesto em defesa dos CIEPs e da educação em tempo integral.

Assinar um abaixo-assinado, por si só, não resolverá os desafios da educação fluminense.

Mas representa uma forma legítima de participação democrática e de demonstração de apoio a uma pauta que merece permanecer no centro do debate público.


Um compromisso com as próximas gerações

Discutir educação é discutir o futuro.

As crianças que hoje ocupam as salas de aula serão, em poucos anos, os profissionais, pesquisadores, professores, empreendedores, trabalhadores e governantes responsáveis pelos rumos do Estado do Rio de Janeiro.

Por isso, investir na educação pública não deve ser visto como despesa, mas como um dos investimentos sociais mais importantes que uma sociedade pode realizar.

Os CIEPs representam um capítulo importante dessa história. Mais do que preservar um patrimônio arquitetônico, o desafio consiste em atualizar a ideia de educação integral para as necessidades do século XXI, fortalecendo escolas capazes de ensinar, acolher, proteger e preparar nossas crianças e adolescentes para a vida.

Independentemente das preferências políticas de cada cidadão, acredito que a educação pública de qualidade deve permanecer como uma política de Estado, construída com planejamento de longo prazo e participação da sociedade.

Foi por essa razão que decidi assinar o manifesto em defesa da educação em tempo integral.

Se você também acredita que a escola pública merece voltar ao centro das prioridades do Rio de Janeiro, convido-o a conhecer essa iniciativa:


assina.org/emdefesadociep


Toda sociedade escolhe diariamente onde investir seus recursos e suas esperanças.

Escolher a educação é escolher o futuro.

🌹📚



Saiba mais — O que prevê a Meta 6 do Plano Nacional de Educação

A Meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE) prevê oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% (vinte e cinco por cento) dos (as) alunos (as) da educação básica, tendo como estratégias:

6.1) promover, com o apoio da União, a oferta de educação básica pública em tempo integral, por meio de atividades de acompanhamento pedagógico e multidisciplinares, inclusive culturais e esportivas, de forma que o tempo de permanência dos (as) alunos (as) na escola, ou sob sua responsabilidade, passe a ser igual ou superior a 7 (sete) horas diárias durante todo o ano letivo, com a ampliação progressiva da jornada de professores em uma única escola;

6.2) instituir, em regime de colaboração, programa de construção de escolas com padrão arquitetônico e de mobiliário adequado para atendimento em tempo integral, prioritariamente em comunidades pobres ou com crianças em situação de vulnerabilidade social;

6.3) institucionalizar e manter, em regime de colaboração, programa nacional de ampliação e reestruturação das escolas públicas, por meio da instalação de quadras poliesportivas, laboratórios, inclusive de informática, espaços para atividades culturais, bibliotecas, auditórios, cozinhas, refeitórios, banheiros e outros equipamentos, bem como da produção de material didático e da formação de recursos humanos para a educação em tempo integral;

6.4) fomentar a articulação da escola com os diferentes espaços educativos, culturais e esportivos e com equipamentos públicos, como centros comunitários, bibliotecas, praças, parques, museus, teatros, cinemas e planetários;

6.5) estimular a oferta de atividades voltadas à ampliação da jornada escolar de alunos (as) matriculados nas escolas da rede pública de educação básica por parte das entidades privadas de serviço social vinculadas ao sistema sindical, de forma concomitante e em articulação com a rede pública de ensino;

6.6) orientar a aplicação da gratuidade de que trata o art. 13 da Lei nº 12.101, de 27 de novembro de 2009, em atividades de ampliação da jornada escolar de alunos (as) das escolas da rede pública de educação básica, de forma concomitante e em articulação com a rede pública de ensino;

6.7) atender às escolas do campo e de comunidades indígenas e quilombolas na oferta de educação em tempo integral, com base em consulta prévia e informada, considerando-se as peculiaridades locais;

6.8) garantir a educação em tempo integral para pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na faixa etária de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos, assegurando atendimento educacional especializado complementar e suplementar ofertado em salas de recursos multifuncionais da própria escola ou em instituições especializadas;

6.9) adotar medidas para otimizar o tempo de permanência dos alunos na escola, direcionando a expansão da jornada para o efetivo trabalho escolar, combinado com atividades recreativas, esportivas e culturais.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O que dizem os números? Uma leitura do Relatório Fiscal de Mangaratiba

 


Na data de ontem, dia 30 de julho de 2026, a Prefeitura de Mangaratiba publicou, em edição suplementar n.° 2565 do Diário Oficial do Município, o Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) referente ao terceiro bimestre do exercício financeiro de 2026. Trata-se de um documento técnico, previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), mas que deveria interessar a todos os cidadãos, pois mostra como estão sendo arrecadados e aplicados os recursos públicos.

A publicação também merece registro sob o aspecto da transparência. A LRF determina que o Relatório Resumido da Execução Orçamentária seja elaborado ao final de cada bimestre e publicado em até trinta dias após o encerramento do período correspondente. O cumprimento desse prazo é importante porque permite que cidadãos, vereadores, Tribunal de Contas, Ministério Público e demais órgãos de controle acompanhem a execução do orçamento ainda durante o exercício, e não apenas quando as contas anuais já estiverem encerradas.

Embora o relatório seja composto por dezenas de páginas de tabelas e indicadores, alguns números ajudam a compreender a situação financeira do Município de forma bastante objetiva.

Um primeiro aspecto que chama a atenção é que a arrecadação continua apresentando bom desempenho. As receitas realizadas até o encerramento do terceiro bimestre superam seiscentos milhões de reais, indicando que a atividade financeira do Município segue em ritmo consistente.

Outro indicador relevante é a Receita Corrente Líquida (RCL), que alcançou aproximadamente R$ 888 milhões nos últimos doze meses. Esse é um dos principais parâmetros utilizados pela Lei de Responsabilidade Fiscal para aferição de diversos limites legais, como despesas com pessoal, endividamento e capacidade de contratação de operações de crédito. Embora o RREO não trate de todos esses limites — alguns são detalhados no Relatório de Gestão Fiscal (RGF) — a evolução da RCL é um importante indicador da capacidade financeira do Município.

Além da Receita Corrente Líquida, outro indicador importante é o resultado orçamentário. Até junho, as receitas arrecadadas permaneciam superiores às despesas efetivamente liquidadas, produzindo um superávit orçamentário da ordem de R$ 250 milhões. Em outras palavras, naquele momento do exercício o Município gastava menos do que arrecadava, preservando sua capacidade financeira.

Também merece destaque o resultado primário positivo, que alcançou aproximadamente R$ 221,9 milhões, acompanhado de um resultado nominal igualmente favorável, da ordem de R$ 252,7 milhões. Em conjunto, esses indicadores demonstram que, sob a ótica fiscal, o Município apresentava equilíbrio financeiro durante o período analisado.

Na área da saúde, o Município já havia aplicado aproximadamente 17,66% da receita de impostos e transferências constitucionais em ações e serviços públicos de saúde, percentual superior ao mínimo constitucional de 15%. Esse é um indicador importante porque demonstra o cumprimento antecipado da exigência constitucional para essa política pública.

Na educação, entretanto, o cenário merece acompanhamento. O relatório registra aplicação de aproximadamente 17,49% da receita resultante de impostos e transferências constitucionais em Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE), percentual ainda inferior ao mínimo constitucional anual de 25%.

É importante esclarecer esse ponto para evitar interpretações equivocadas. O percentual não significa, necessariamente, que a Constituição tenha sido descumprida, pois o limite constitucional é verificado ao final do exercício financeiro. Nos primeiros bimestres é comum que parte dos investimentos em educação seja executada apenas no decorrer do segundo semestre. Ainda assim, os números indicam que será necessário ampliar a execução dessas despesas até dezembro para que o Município alcance o mínimo exigido.

Somente os próximos Relatórios Resumidos da Execução Orçamentária e, posteriormente, a prestação de contas anual permitirão verificar se essa trajetória será suficiente para o cumprimento do mínimo constitucional ao encerramento do exercício.

Outro dado positivo refere-se ao FUNDEB. O Município já havia destinado mais de 70% dos recursos do fundo para a remuneração dos profissionais da educação básica, atendendo ao percentual mínimo estabelecido pela legislação.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito à capacidade financeira do Município para honrar seus compromissos. O relatório aponta disponibilidade financeira e resultados fiscais positivos, mas a análise das contas públicas não pode se limitar ao caixa existente em determinado momento. Também é importante acompanhar a evolução dos restos a pagar, das obrigações assumidas e do comportamento da arrecadação prevista para o restante do exercício, pois esses elementos influenciam a liquidez do Município e sua capacidade de executar políticas públicas.

O demonstrativo específico de Parcerias Público-Privadas constante do RREO não registra contratos, ativos, passivos ou impactos fiscais decorrentes dessa modalidade de contratação. Além disso, até o encerramento do terceiro bimestre permaneciam inscritos aproximadamente R$ 64 milhões em restos a pagar, após pagamentos superiores a R$ 46 milhões realizados ao longo do exercício. Esses valores devem ser analisados em conjunto com a disponibilidade financeira demonstrada no próprio RREO e com a evolução das despesas ao longo do exercício. Isoladamente, não permitem concluir pela existência de desequilíbrio fiscal, mas sua evolução deverá continuar sendo acompanhada nos próximos bimestres e na prestação de contas anual.

Naturalmente, um relatório fiscal não mede a qualidade dos serviços públicos prestados à população. Ele informa como os recursos estão sendo arrecadados e executados, mas não responde, por si só, se as políticas públicas estão alcançando os resultados esperados. Essa avaliação depende de outros indicadores, da fiscalização dos órgãos de controle e da participação da própria sociedade.

É justamente por isso que documentos como o RREO merecem ser conhecidos. A transparência não se esgota na publicação das tabelas oficiais; ela se completa quando os cidadãos conseguem compreender o significado desses números e acompanhar sua evolução ao longo do ano.

O controle social não consiste apenas em apontar problemas. Também significa reconhecer avanços, identificar pontos que exigem atenção e contribuir para que a administração pública seja cada vez mais transparente, eficiente e comprometida com o interesse coletivo.


📝 Algumas perguntas que merecem ser feitas...

A publicação do RREO não encerra o debate. Pelo contrário, ela abre novas perguntas que merecem ser acompanhadas ao longo do ano, entre elas:

1) O Município conseguirá elevar a aplicação em educação até atingir o mínimo constitucional de 25% ao final do exercício?

2) Quais investimentos ainda serão executados no segundo semestre do ano?

3) Os restos a pagar estão diminuindo ou aumentando em relação aos exercícios anteriores?

4) As receitas previstas para o restante do ano têm elevado grau de realização ou dependem de fatores extraordinários?

5) Como evoluirão os gastos com saúde, educação, assistência social e infraestrutura nos próximos bimestres?

6) Há despesas relevantes contratadas, mas ainda não liquidadas, que poderão alterar o resultado fiscal até dezembro?

7) As metas previstas no Plano Plurianual e na Lei Orçamentária Anual estão sendo efetivamente executadas?

8) A arrecadação acima do esperado decorre principalmente de receitas permanentes ou de ingressos extraordinários?

9) Como evoluirão a Receita Corrente Líquida e os indicadores fiscais até o encerramento do exercício?

Essas perguntas não têm o objetivo de antecipar conclusões, mas de orientar o acompanhamento permanente das contas públicas. O controle social é mais eficaz quando se baseia em informações, indicadores e documentos oficiais, permitindo que a sociedade acompanhe não apenas quanto se arrecada e quanto se gasta, mas também se os recursos públicos estão sendo utilizados de forma eficiente e em benefício da coletividade.

É importante lembrar que o RREO representa uma fotografia da execução orçamentária em determinado momento do exercício financeiro. Algumas obrigações ainda serão assumidas, receitas continuarão sendo arrecadadas e investimentos poderão ser acelerados até dezembro. Por isso, a análise bimestral não substitui a apreciação das contas anuais, mas permite acompanhar a gestão em tempo real e identificar tendências que merecem atenção.

Por fim, vale ressaltar que questões como passivos contingentes — por exemplo, ações judiciais capazes de gerar despesas futuras — costumam ser analisadas em outros instrumentos da gestão fiscal, razão pela qual também merecem acompanhamento quando se pretende formar um diagnóstico completo da situação financeira do Município.

O RREO é um dos principais instrumentos de acompanhamento das contas públicas, mas não é o único. A compreensão da situação fiscal do Município também depende da análise do Relatório de Gestão Fiscal (RGF), da Lei de Diretrizes Orçamentárias, da prestação de contas anual e de outros documentos oficiais. Somente o conjunto dessas informações permite formar um diagnóstico completo da gestão financeira municipal.


Nota do autor: 

Na presente data (31/07/2026), foram protocolados dois pedidos de informação perante a Ouvidoria do Município, com o objetivo de obter esclarecimentos técnicos sobre indicadores constantes do Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) e sobre a execução orçamentária prevista para o segundo semestre:

• Protocolo nº 000381/2026: solicita esclarecimentos sobre a aplicação em Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE), investimentos em educação, restos a pagar, arrecadação e Parcerias Público-Privadas (PPP).

• Protocolo nº 000382/2026: solicita esclarecimentos sobre as ações previstas para o segundo semestre, despesas empenhadas e ainda não liquidadas, evolução da Receita Corrente Líquida (RCL), dos resultados primário e nominal, bem como sobre a execução das metas previstas na Lei Orçamentária Anual (LOA) e no Plano Plurianual (PPA).

As respostas oficiais, quando encaminhadas, poderão subsidiar novas análises sobre a execução orçamentária do Município.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Gaspar – A longa travessia



Os homens me deram um nome.

Chamam-me Gaspar.

Não foi minha mãe quem o escolheu. Ela jamais precisou de nomes. Na floresta, ninguém chama ninguém. Cada ser conhece o outro pelo cheiro, pelos passos sobre as folhas, pelo rugido que atravessa a noite, pelas marcas deixadas nos troncos e na terra úmida.

Os homens, porém, gostam de dar nomes às coisas. Também colocaram em meu pescoço um objeto estranho, frio e pesado. Não doía, mas eu o sentia a cada salto. Não sabia que, dali em diante, olhos invisíveis me seguiriam do céu. Enquanto eu caminhava entre árvores, rios e montanhas, outros caminhavam comigo por meio de pontos luminosos sobre um mapa.

Eles mediriam minha viagem.

Contariam meus dias.

Calculavam quilômetros.

Eu jamais pensei em quilômetros.

Pensei apenas em sobreviver.


Capítulo 1 – Quando a floresta deixou de ser minha

Nasci onde a floresta conversa com o Cerrado.

Ali aprendi que cada cheiro tem um significado.

O vento pode anunciar chuva.

O voo das aves denuncia uma presa.

O silêncio repentino pode significar que outro predador está por perto.

Minha mãe me ensinou tudo isso.

Durante muito tempo, pensei que aquele mundo seria meu para sempre.

Mas a floresta muda.

E nós também.

Quando fiquei adulto, comecei a encontrar marcas que não eram minhas.

Arranhões recentes nas árvores.

Urina de outro macho.

Pegadas maiores.

Mais pesadas.

Mais confiantes.

Não precisei vê-lo para entender.

Outro havia chegado antes de mim.

Por alguns dias seguimos invisíveis um ao outro.

Eu caçava.

Ele também.

Eu rugia.

Ele respondia.

Nenhum de nós queria morrer.

Mas nenhum de nós aceitaria dividir aquele lugar.

Minha mãe já havia partido havia muito tempo.

As fêmeas evitavam minha aproximação.

A floresta continuava a mesma.

Quem mudara era eu.

Numa manhã, subi sobre uma pedra alta.

O vento trouxe todos os cheiros conhecidos.

As árvores.

Os rios.

As antas.

Os queixadas.

Os macacos.

Era minha casa.

Mas já não era meu lugar.

Então fiz o que incontáveis onças antes de mim talvez tenham feito desde o começo do tempo.

Virei-me.

E caminhei.

Sem saber onde terminaria.


Capítulo 2 – A estrada invisível

Os homens talvez pensem que escolhi um destino.

Não escolhi.

Nenhuma voz me dizia para onde ir.

Nenhum mapa existia diante dos meus olhos.

Mas havia algo mais antigo do que qualquer pensamento.

Uma força silenciosa que empurrava minhas patas sempre para a frente.

A floresta parecia abrir caminhos invisíveis.

Cada rio atravessado mostrava outro rio.

Cada colina escondia outra.

Cada amanhecer trazia o cheiro de terras desconhecidas.

Passei por lugares onde nenhuma onça havia deixado marcas recentes.

Passei por lugares onde outras haviam passado muitos anos antes.

Não conhecia fronteiras.

Os homens desenham linhas sobre papéis.

A floresta nunca aprendeu essas linhas.

Nem eu.


Capítulo 3 – A terra ferida

Foi então que o cheiro mudou.

Primeiro veio a fumaça.

Depois um perfume estranho, áspero, que queimava o nariz.

Em seguida, o silêncio.

Não o silêncio tranquilo da mata depois da chuva.

Era um vazio.

Onde antes havia árvores, encontrei céu demais.

Onde antes cantavam araras, ouvi motores.

Onde antes caminhavam antas, encontrei bois.

Olhei ao redor.

O chão ainda era verde.

Mas não era floresta.

Era um campo enorme, sem esconderijos.

Sem sombra.

Sem vida.

Nunca havia sentido tanto medo.

Na mata, eu era invisível.

Ali, qualquer olhar podia me encontrar.

Esperei o cair da noite.

Atravessei correndo.

As máquinas não dormiam.

Luzes cortavam a escuridão.

Cercas dividiam o mundo.

Passei por troncos queimados.

Árvores gigantes deitadas sobre a terra.

Ninhos vazios.

Galhos carbonizados.

Pela primeira vez compreendi que existia um predador que não caçava para comer.

Um predador que transformava a própria floresta.

Não senti raiva.

Os animais não conhecem a raiva como os homens.

Senti apenas uma ausência.

Como se uma parte do mundo tivesse desaparecido.

Continuei andando.

Porque parar significava morrer.

Talvez eu procurasse um novo território.

Talvez procurasse uma companheira.

Talvez apenas obedecesse ao chamado antigo que acompanha todos os seres vivos desde que a primeira vida deixou o mar para explorar a terra.

Não sei.

Os homens ainda discutem por que caminhei tanto.

Escrevem artigos.

Traçam mapas.

Formulam hipóteses.

Talvez nunca descubram.

Porque algumas viagens não começam por uma decisão.

Começam porque permanecer já não é possível.


Capítulo 4 – O rio que não fazia perguntas

Depois do campo aberto, encontrei um rio.

Não sei seu nome.

Os homens dão nomes aos rios.

Nós apenas os atravessamos.

A correnteza era forte. A água trazia o cheiro de peixes, de barro e de chuva distante. Entrei devagar. A corrente tentou me levar. Continuei nadando.

Quando alcancei a outra margem, olhei para trás.

A água havia apagado minhas pegadas.

Pensei que talvez fosse assim com a vida. Cada dia apaga um pouco do caminho percorrido. O que permanece não são as marcas na terra, mas aquilo que aprendemos enquanto caminhamos.

Naquela noite, ouvi o canto de um uirapuru.

Era a primeira vez em muitos dias que a floresta parecia completa.

Dormi em paz.


Capítulo 5 – Os donos do fogo

O cheiro chegou antes da luz.

Depois vieram estalos.

Galhos caindo.

Árvores respirando pela última vez.

Escondi-me entre arbustos enquanto o céu mudava de cor.

Nunca compreendi por que alguns homens queimam aquilo que lhes dá água, sombra e alimento.

Vi animais correndo em todas as direções.

Um tatu atravessou meu caminho sem perceber minha presença.

Macacos gritavam do outro lado da fumaça.

A caça havia desaparecido.

Naquele dia, não comi.

Na manhã seguinte, caminhei por uma floresta silenciosa.

O chão ainda estava quente.

As folhas tinham se transformado em cinzas.

Não havia pássaros.

Não havia insetos.

Nem mesmo o vento parecia querer permanecer ali.

Foi naquele momento que percebi que a floresta também pode adoecer.


Capítulo 6 – Os olhos do céu

Muito longe dali, homens e mulheres observavam pequenas luzes sobre uma tela.

— Ele continua andando...

— Já passou de mil quilômetros.

— Por que não para?

Cada ponto representava um passo meu.

Eles conheciam minha posição.

Mas não conheciam meus pensamentos.

Não sabiam da onça que encontrei certa madrugada e que preferiu evitar a luta.

Não sabiam do veado que consegui caçar depois de três dias de jejum.

Não sabiam do temporal que me obrigou a permanecer imóvel durante dois dias.

As máquinas registravam meu caminho.

A floresta registrava minha vida.

São coisas diferentes.


Capítulo 7 – A velha sumaúma

Um dia encontrei uma árvore tão grande que precisei andar muito para contorná-la.

Seu tronco parecia sustentar o céu.

Deitei-me junto às raízes.

Ali havia um cheiro antigo.

Muito antigo.

Imaginei quantas gerações de onças teriam descansado naquele mesmo lugar.

Quantas antas.

Quantas araras.

Quantos povos humanos.

A árvore permanecia.

Nós passávamos.

Foi ali que compreendi uma verdade simples.

Nenhum ser vive sozinho.

A onça depende do veado.

O veado depende da floresta.

A floresta depende da chuva.

A chuva depende das árvores.

Até os rios parecem nascer das folhas.

Se uma parte desaparece, todas as outras começam lentamente a desaparecer também.


Capítulo 8 – O rugido distante

Numa noite sem lua ouvi outro macho.

Seu rugido ecoou entre as montanhas.

Parei.

Respondi.

Durante alguns minutos apenas o silêncio respondeu.

Sorri por dentro, do jeito que as onças sorriem.

Eu já não era o jovem que havia deixado sua terra.

Agora sabia escolher quando lutar.

Sabia quando recuar.

Sabia quando esperar.

Continuei caminhando.

Não porque fugisse daquele macho.

Mas porque compreendi que ainda não era aquele o meu lugar.


Capítulo 9 – As estrelas

Os homens costumam olhar para as estrelas procurando respostas.

Nós também as vemos.

Mas não perguntamos nada.

Naquela noite, deitado sobre uma pedra aquecida pelo sol do dia, olhei para o céu.

As mesmas estrelas haviam iluminado minha mãe.

As mesmas estrelas brilhavam sobre os cientistas que acompanhavam minha viagem.

Talvez também iluminassem os homens que derrubavam árvores.

O céu era o mesmo.

O mundo abaixo dele é que mudava.

Adormeci imaginando quantos caminhos ainda existiam além do horizonte.

Sem saber que, muito antes de minha jornada terminar, ela já havia começado a ensinar alguma coisa aos homens.


Capítulo 10 – O lugar onde o vento parou

Depois de muitos ciclos de chuva e de seca, encontrei uma floresta diferente.

Não era maior.

Nem mais bonita.

Era apenas tranquila.

As árvores voltavam a conversar umas com as outras.

Os rios corriam sem encontrar barragens.

Os bugios anunciavam o amanhecer.

As araras riscavam o céu.

As capivaras voltavam a beber água sem tanta pressa.

Fiquei ali durante muitos dias.

Pela primeira vez desde que deixara minha terra, não senti vontade de continuar caminhando.

Talvez fosse aquele o lugar que eu procurava.

Ou talvez eu apenas tivesse compreendido que nenhuma floresta pertence a uma onça.

É a onça que pertence à floresta.

Marquei árvores.

Caminhei pelas margens dos rios.

Caçei.

Descansei.

Passei a conhecer cada cheiro daquela região.

A viagem terminava.

Outra vida começava.


Capítulo 11 – Os homens do mapa

Muito distante dali, em uma sala iluminada por computadores, homens e mulheres olhavam para uma linha desenhada sobre um mapa.

— Dois mil cento e dez quilômetros...

— Como ele conseguiu?

— O que procurava?

Silêncio.

Nenhum deles sabia responder.

Um pesquisador aproximou o mapa da tela.

Outro comparou imagens de satélite.

Alguém observou as manchas cinzentas onde antes existia floresta.

Outro apontou para os corredores verdes que ainda permaneciam.

Naquele instante compreenderam que a história não era apenas sobre uma onça.

Era sobre um caminho.

E caminhos existem para serem mantidos.

Se as florestas deixarem de se tocar, as onças deixarão de viajar.

Se as onças deixarem de viajar, as populações ficarão isoladas.

E quando uma floresta deixa de conversar com outra, pouco a pouco todas começam a empobrecer.

Gaspar não sabia disso.

Mas sua caminhada havia mostrado algo que nenhum mapa conseguia ensinar sozinho.


Capítulo 12 – O sonho da velha onça

Os anos passaram.

Minha pelagem já não brilhava como antes.

As cicatrizes haviam aumentado.

Aprendi que a força desaparece mais depressa do que a experiência.

Numa tarde quente, adormeci à sombra de uma enorme castanheira.

Sonhei.

No sonho, encontrei minha mãe.

Ela caminhava devagar.

Olhou para mim sem surpresa.

Como se sempre soubesse que um dia eu chegaria até ali.

— Você encontrou o lugar? — perguntaram seus olhos.

Olhei para trás.

Vi rios.

Vi montanhas.

Vi árvores.

Vi também clareiras abertas pelos homens.

Vi fumaça.

Vi estradas.

Vi cercas.

Percebi então que minha viagem nunca fora apenas para encontrar um território.

Eu caminhara para descobrir que toda floresta é uma só.

São os homens que a dividem.

Quando despertei, uma borboleta azul pousou sobre uma folha diante de mim.

Observei-a desaparecer entre as árvores.

Sorri.

Não com os lábios.

Mas com o coração de uma onça.


Epílogo – A história que continua

Hoje, quando os homens contam minha história, dizem que percorri mais de dois mil quilômetros.

Não está errado.

Mas também não está completo.

Não caminhei apenas sobre a terra.

Atravessei rios.

Atravessei estações.

Atravessei florestas intactas e florestas feridas.

Atravessei o medo.

Atravessei a fome.

Atravessei um mundo que muda depressa demais.

Os homens escreveram livros.

Publicaram estudos.

Deram entrevistas.

Meu nome atravessou cidades que jamais conhecerei.

Tudo isso é bonito.

Mas existe algo mais importante.

Enquanto houver uma onça encontrando sombra sob uma samaúma...

Enquanto um rio puder correr livre até outro rio...

Enquanto uma anta deixar pegadas na lama...

Enquanto uma criança puder ouvir um bugio ao amanhecer...

Minha viagem continuará.

Porque nenhuma caminhada termina nas patas de quem a fez.

Ela continua nos passos daqueles que compreenderam seu significado.

No dia em que o colar silenciou, os homens pensaram que minha história havia terminado. Talvez tenha sido apenas o dia em que deixei de ser seguido. A floresta nunca precisou de satélites para saber onde eu estava.

E, se algum dia você caminhar pela Amazônia e ouvir um rugido distante, não tenha tanta certeza de que era outro. Algumas histórias permanecem vivas justamente porque a floresta guarda seus próprios segredos.


📝 Nota do autor

Esta é uma obra de ficção inspirada em um fato real.

Gaspar existiu. Era uma onça-pintada monitorada por pesquisadores que, ao longo de aproximadamente um ano, realizou um deslocamento extraordinário de mais de dois mil quilômetros pela Amazônia e por áreas de transição com o Cerrado. Sua jornada foi registrada por um colar de monitoramento por satélite e deu origem a um importante estudo científico sobre a ecologia e a conservação da espécie.

Os fatos conhecidos terminam aí.

Não sabemos o que Gaspar viu ao atravessar rios, florestas e áreas desmatadas. Não sabemos o que o levou a seguir em frente por tanto tempo, nem o que encontrou ao final da viagem. Como todos os animais, ele não deixou diários, memórias ou testemunhos. Restaram apenas os pontos luminosos marcando seu caminho sobre um mapa.

Todo o restante é imaginação.

Os pensamentos, as emoções, os diálogos silenciosos com a floresta e as reflexões atribuídas a Gaspar pertencem exclusivamente à literatura. Procuram, entretanto, respeitar o conhecimento científico disponível sobre o comportamento das onças-pintadas e sobre os ecossistemas que elas habitam.

Ao escrever esta história, não procurei transformar uma onça em um ser humano. Pelo contrário. Procurei lembrar que existe uma maneira diferente de habitar o mundo: sem mapas, sem fronteiras, sem propriedade, sem ambição. Para Gaspar, o planeta não era dividido em estados, municípios ou países. Havia apenas rios a atravessar, árvores sob as quais descansar, presas a perseguir e perigos a evitar.

Talvez jamais descubramos por que Gaspar percorreu uma distância tão extraordinária. Os cientistas continuarão investigando, e cada nova pesquisa poderá revelar parte desse mistério.

Mas a literatura pode fazer outra pergunta.

Não apenas para onde Gaspar caminhou.

Nem apenas por que caminhou.

Pode perguntar o que sua jornada revela sobre o mundo que compartilhamos.

Se, ao fechar este conto, o leitor olhar para uma floresta com mais respeito, compreender a importância dos corredores ecológicos, ou simplesmente imaginar que cada animal selvagem carrega uma história que nunca conheceremos por completo, então esta narrativa terá alcançado seu propósito.

A ciência nos mostra o caminho percorrido por Gaspar.

A imaginação nos convida a caminhar ao lado dele.