Hoje, 28 de outubro, celebramos o Dia do Servidor Público, uma data que, para mim, possui um significado muito especial, tanto como cidadão quanto como advogado.
Mais do que uma homenagem aos profissionais que trabalham nas diferentes esferas da administração pública, esta é uma oportunidade para recordar a história do funcionalismo brasileiro, refletir sobre suas conquistas e reconhecer que muitos direitos ainda precisam ser efetivamente respeitados.
A origem histórica do Dia do Servidor Público
A escolha do dia 28 de outubro remonta ao primeiro governo de Getúlio Vargas, período marcado por importantes transformações na organização do Estado brasileiro e nas relações de trabalho.
Antes mesmo da criação da data comemorativa, a Constituição de 1934 já havia dedicado um título específico aos funcionários públicos. Seu artigo 170 determinava a elaboração de um estatuto e estabelecia normas relativas ao ingresso nas carreiras, à estabilidade e à aposentadoria.
Era um passo importante para a construção de uma administração pública mais organizada e profissional, num país em que o preenchimento de cargos públicos havia sido historicamente marcado por relações pessoais, indicações políticas e práticas patrimonialistas.
Em 1938, foi criado o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), por meio do Decreto-Lei nº 579, de 30 de julho daquele ano. O órgão recebeu atribuições relacionadas à organização administrativa, à seleção de pessoal e ao aperfeiçoamento dos funcionários federais.
No ano seguinte, em 28 de outubro de 1939, foi editado o Decreto-Lei nº 1.713, que instituiu o Estatuto dos Funcionários Públicos Civis da União. Essa norma jurídica estabeleceu um conjunto sistematizado de regras sobre ingresso no serviço público, direitos, vantagens, deveres, responsabilidades, disciplina funcional e aposentadoria.
Entretanto, há um detalhe particularmente importante para compreendermos a origem da comemoração. O seu artigo 266 determinava expressamente que o dia 28 de outubro seria consagrado ao funcionário público.
É precisamente dessa disposição legal que nasceu a tradição comemorativa que permanece até nossos dias.
Quatro anos depois, em 28 de outubro de 1943, o Decreto-Lei nº 5.936 consagrou a data ao servidor público em todo o território nacional, ampliando o reconhecimento para além da estrutura administrativa federal.
É necessário, contudo, situar esses acontecimentos no seu devido contexto histórico.
O Estatuto de 1939 foi editado durante o Estado Novo, regime ditatorial instaurado por Getúlio Vargas em 1937. A centralização administrativa, a profissionalização burocrática e a criação de normas funcionais ocorreram, portanto, num ambiente político marcado pela ausência de liberdades democráticas e pela concentração de poderes no Executivo.
Isso demonstra que a organização jurídica do funcionalismo não se confunde, necessariamente, com a garantia plena dos direitos políticos e coletivos de seus integrantes.
No entanto, não podemos esquecer que a história dos servidores públicos brasileiros também é a história da luta pela democratização do Estado.
Da redemocratização à Constituição de 1988
Com o encerramento do Estado Novo e a redemocratização de 1945, o ordenamento jurídico brasileiro passou por novas transformações.
Em 28 de outubro de 1952, durante o segundo governo de Getúlio Vargas, foi sancionada a Lei nº 1.711, que instituiu um novo Estatuto dos Funcionários Públicos Civis da União.
Curiosamente, a lei foi sancionada exatamente na data comemorativa da categoria. Seu artigo 240 reafirmou o dia 28 de outubro como data consagrada ao servidor público.
Décadas depois, um dos momentos mais importantes dessa trajetória ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 5 de outubro de 1988.
A chamada Constituição Cidadã estabeleceu novos fundamentos para a organização da administração pública brasileira, reforçando princípios como a legalidade, a impessoalidade, a moralidade e a publicidade, aos quais posteriormente se somaria expressamente o princípio da eficiência.
A Constituição também consagrou o concurso público como regra para o ingresso em cargos e empregos públicos, reconheceu o direito à livre associação sindical dos servidores civis e assegurou o direito de greve, sujeito à disciplina jurídica aplicável.
Outra garantia constitucional importante está no artigo 37, inciso X, que, em sua redação atual, assegura a revisão geral anual das remunerações, sempre na mesma data e sem distinção de índices, observada a necessidade de lei específica.
Em 11 de dezembro de 1990, a Lei Federal nº 8.112 instituiu o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, de suas autarquias e fundações públicas federais, substituindo o Estatuto de 1952. Seu artigo 236 preservou expressamente a tradição: "O Dia do Servidor Público será comemorado a vinte e oito de outubro."
Assim, uma data originada em 1939 atravessou diferentes regimes políticos, Constituições e governos, mantendo-se como uma referência histórica para o reconhecimento do funcionalismo público brasileiro.
Passados 87 anos, a comemoração continua atual. Entretanto, seu significado não pode ficar restrito às homenagens oficiais ou à concessão de pontos facultativos.
Valorizar os servidores exige, sobretudo, respeitar seus direitos.
Minha trajetória na defesa dos servidores públicos
Na minha atuação profissional, aproximadamente 80% das ações judiciais que patrocino atualmente envolvem a defesa de servidores públicos, especialmente em questões relacionadas a remunerações, vantagens funcionais, aposentadorias e outras verbas previstas na legislação.
Entre junho de 2017 e agosto de 2020, tive a oportunidade de exercer a advocacia para o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Mangaratiba (SISPMUM), período em que participei de importantes lutas coletivas da categoria.
Uma delas foi a busca pelo cumprimento da revisão geral anual das remunerações, prevista no artigo 37, inciso X, da Constituição Federal e disciplinada, no âmbito municipal, pela Lei nº 988/2015. Naquele período, a discussão sobre o cumprimento da legislação municipal levou ao ajuizamento sucessivo de demandas coletivas, além de manifestações públicas contínuas.
Atualmente, é importante reconhecer que a administração municipal de Mangaratiba vem promovendo espontaneamente a revisão geral anual, sem a necessidade daquela sucessiva judicialização. Trata-se de uma mudança positiva de postura administrativa que merece ser reconhecida.
Além da revisão geral anual, outra luta importante foi o mandado de segurança coletivo impetrado em 2020 pelo sindicato contra a suspensão do pagamento dos chamados resíduos salariais, determinada por decreto durante a administração do então prefeito Alan Campos da Costa. Naquela demanda, veio a ser obtida a concessão da segurança, posteriormente mantida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
Entretanto, ainda existe um problema que merece atenção. Muitos servidores municipais, ao se aposentarem, continuam precisando recorrer à Justiça para receber verbas como férias proporcionais e décimo terceiro salário proporcional, quando devidas conforme seu regime jurídico e sua situação funcional.
Não deveria ser necessário ingressar com uma ação judicial para receber aquilo que a legislação assegura ao trabalhador. A judicialização dessas questões representa um desgaste para o servidor, que muitas vezes precisa aguardar anos para receber valores de natureza alimentar, e também para a própria Administração Pública e o Poder Judiciário.
Não se trata de negar a necessidade de responsabilidade fiscal, planejamento orçamentário ou controle das despesas públicas, mas sim de reconhecer que essas exigências precisam conviver com o respeito à legislação e aos direitos dos trabalhadores.
Valorizar o servidor público é fortalecer o próprio Estado
Minha experiência profissional reforça minha convicção de que valorizar o servidor público não significa apenas prestar homenagens em datas comemorativas.
É necessário assegurar condições dignas de trabalho, respeito às carreiras, remuneração adequada, oportunidades de capacitação e cumprimento dos direitos legalmente reconhecidos.
São esses profissionais que mantêm em funcionamento nossas escolas, hospitais, unidades de saúde, serviços administrativos, instituições de segurança e tantas outras atividades indispensáveis à população.
Também são servidores públicos aqueles que fiscalizam o cumprimento das leis, trabalham na proteção ambiental, atuam na assistência social, preservam documentos históricos, executam políticas públicas e atendem diariamente milhões de cidadãos.
Um serviço público eficiente não se constrói apenas com prédios, equipamentos, sistemas informatizados e recursos financeiros. Ele depende, fundamentalmente, de pessoas qualificadas, valorizadas e comprometidas com o interesse coletivo.
Governos passam, mas o serviço público permanece.
Essa continuidade institucional é um dos elementos essenciais para a estabilidade do Estado e para a efetivação dos direitos da população.
Aliás, como o ex-prefeito e vereador do Rio de Janeiro Cesar Maia (PSD) costuma defender, "o servidor público não é custo, é capital!"
Tal frase traduz uma concepção importante: os trabalhadores do serviço público não devem ser vistos exclusivamente como números nas planilhas orçamentárias. Representam conhecimento acumulado, experiência profissional e capacidade de atendimento às necessidades da sociedade.
Isso não significa afastar a fiscalização, a cobrança por resultados ou a responsabilização por eventuais irregularidades. Ao contrário, a valorização profissional deve caminhar juntamente com a eficiência, a transparência e o compromisso com a população.
Uma administração pública responsável também precisa respeitar aqueles que tornam possível seu funcionamento.
Mais do que uma homenagem, um compromisso
Neste 28 de outubro, quero, portanto, manifestar o meu reconhecimento e minha gratidão a todos os servidores públicos, ativos e aposentados, especialmente àqueles que, ao longo dos anos, confiaram em meu trabalho profissional na busca pelo reconhecimento de seus direitos.
A história do funcionalismo brasileiro demonstra que a existência de normas e garantias legais não elimina, por si só, a necessidade de vigilância, participação coletiva e defesa permanente desses direitos.
O Estatuto de 1939, a legislação de 1952, a Constituição de 1988 e o regime jurídico de 1990 representam diferentes momentos dessa longa trajetória.
E essa história continua sendo escrita diariamente por professores, profissionais da saúde, agentes administrativos, trabalhadores da segurança, técnicos, fiscais e tantos outros servidores que dedicam suas vidas ao atendimento da população.
Que o Dia do Servidor Público seja mais do que uma homenagem. Seja também um compromisso permanente com a legalidade, a dignidade do trabalho e a valorização de quem serve à sociedade.
Parabéns a todas às servidoras e a todos os servidores públicos!








