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domingo, 5 de abril de 2026

Quando o Natal e a Páscoa deixam de ser datas



O domingo de Páscoa chega ao fim. As celebrações se encerram, os ritos se dissipam, e o calendário segue seu curso habitual. Mas fica uma pergunta essencial: o que, de fato, permanece?

Aqui em casa, há um pequeno gesto que procura responder a essa questão. A plaquinha de Natal que pendurei no final de 2025 continua na porta — e assim permanecerá, ao menos até o Dia de Reis de 2027.

Não por apego à data. Mas por fidelidade ao significado.

Natal e Páscoa, quando compreendidos em profundidade, não são eventos isolados. São marcos simbólicos de uma mesma mensagem: vida, renovação, amor e esperança. São convites permanentes a uma forma de existir — não apenas a um momento de celebração.

Manter essa mensagem logo na entrada da casa é, ao mesmo tempo, um lembrete e um compromisso. Lembrete de que os ensinamentos de Jesus não se esgotam em um feriado. E compromisso de tentar compreendê-los — e aplicá-los — no cotidiano, onde realmente fazem diferença.

Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja transformar aquilo que é permanente em episódico. Reduzir a mensagem a datas. E limitar a prática a ocasiões.

Se há algo que o Natal e a Páscoa nos oferecem, é justamente o contrário: a possibilidade de continuidade.

Não se trata apenas de celebrar. Trata-se de viver.

E talvez seja esse o verdadeiro desafio.

Recursos estratégicos, soberania e geopolítica: o reposicionamento da América Latina no século XXI



A América do Sul voltou ao centro da estratégia internacional das grandes potências. Não por acaso, o recente reposicionamento do Comando Sul dos Estados Unidos, evidenciado em declarações do general Francis L. Donovan perante o Congresso americano, revela uma mudança relevante: a região deixa de ser percebida como periferia geopolítica e passa a ser tratada como espaço estratégico, no qual segurança, economia e tecnologia se entrelaçam.

A narrativa oficial é conhecida. O foco recai sobre o combate ao narcotráfico, à criminalidade organizada e às chamadas “ameaças transnacionais”. Trata-se de uma agenda que, em si, possui legitimidade — afinal, o crime organizado é um fenômeno real, com impactos concretos sobre a estabilidade institucional e a vida cotidiana nos países da região.

No entanto, essa explicação, embora verdadeira, é insuficiente.

O que se observa, em uma leitura mais ampla, é a incorporação de temas econômicos e tecnológicos ao campo da segurança. Minerais críticos, cadeias produtivas, infraestrutura estratégica e a presença chinesa passam a ser tratados não apenas como questões de desenvolvimento, mas como variáveis de segurança hemisférica. É nesse ponto que emerge o fenômeno da securitização: quando questões originalmente econômicas ou políticas são reinterpretadas como ameaças à segurança, ampliando o espaço para respostas excepcionais.

Esse movimento não ocorre no vazio. Ele se insere em um contexto de rivalidade sistêmica crescente entre Estados Unidos e China, no qual a América Latina assume papel relevante por três razões principais: a disponibilidade de recursos estratégicos, a posição geográfica e a crescente integração econômica com a Ásia — aprofundada, inclusive, por iniciativas recentes de ampliação do BRICS+.

Diante desse cenário, a reação dos países latino-americanos não é homogênea. Ao contrário, revela um padrão sofisticado de comportamento.

Há casos de acomodação, como o do Peru, onde a exploração mineral e os investimentos estrangeiros têm se desenvolvido em ambiente de relativa abertura a interesses externos. Há situações de acomodação defensiva, como no Chile, que, embora mantenha relações econômicas profundas com a China, tem adotado maior cautela em projetos estratégicos diante da pressão norte-americana. E há, ainda, o padrão mais disseminado de cooperação seletiva, exemplificado pelo México, que combina integração econômica com os Estados Unidos com preservação de margens de autonomia em outras dimensões.

Esse último padrão parece ser o predominante. Ele revela uma racionalidade política que não é ideológica, mas pragmática.

No caso brasileiro, essa lógica se manifesta de forma clara. O governo federal tem sinalizado uma postura que pode ser descrita como resistência negociadora. Não há confronto aberto com os Estados Unidos, mas tampouco há adesão automática à lógica de securitização. Ao contrário, o Brasil tem insistido na necessidade de preservar a soberania sobre seus recursos naturais e, sobretudo, de evitar o papel de mero exportador de matéria-prima.

Essa postura encontra respaldo no próprio texto constitucional. A Carta Política de 1988, ao estabelecer no art. 225 o dever de proteção do meio ambiente e ao reconhecer os recursos naturais como bens de interesse coletivo, projeta uma lógica de gestão que não se limita à exploração econômica, mas incorpora dimensões de sustentabilidade, soberania e interesse público. 

Em articulação com os princípios da ordem econômica (art. 170), essa arquitetura normativa reforça a ideia de que a inserção internacional do Brasil — inclusive no campo dos minerais críticos — não pode ser reduzida a uma lógica extrativa ou subordinada, devendo refletir um projeto nacional de desenvolvimento que preserve capacidade decisória e controle estratégico sobre seus ativos.

A ênfase na agregação de valor, no processamento doméstico de minerais críticos e na construção de cadeias produtivas internas revela uma tentativa de reposicionar o país não como fornecedor periférico, mas como ator relevante na economia global.

Essa posição, no entanto, encontra um limite estrutural: a dependência econômica.

A relação comercial com a China tornou-se um dos pilares da economia brasileira. Em 2025, estimativas indicam que o país asiático absorveu cerca de 30% a 35% das exportações brasileiras, com destaque para commodities como a soja — responsável por aproximadamente um terço desse fluxo — e o minério de ferro, que responde por parcela significativa das vendas externas, segundo dados do Comex Stat. Essa dependência não é apenas estatística; ela molda decisões políticas, condiciona estratégias econômicas e impõe restrições concretas a qualquer tentativa de alinhamento geopolítico rígido.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. A América Latina como um todo aprofundou sua integração com a China, seja por meio do comércio, seja por investimentos em infraestrutura, energia e mineração. Ao mesmo tempo, já se observam sinais de tensões crescentes envolvendo cadeias de minerais críticos — como o lítio —, inserindo a região de forma ainda mais direta na disputa estratégica global.

Um exemplo emblemático desse processo pode ser observado nas disputas em torno do chamado “triângulo do lítio”, formado por Argentina, Bolívia e Chile, que concentram parcela expressiva das reservas globais desse recurso estratégico — frequentemente estimada acima de 50%. Mais do que uma questão de disponibilidade mineral, a região tornou-se espaço de competição entre modelos distintos de governança: enquanto a Bolívia adota um modelo de forte controle estatal, o Chile combina regulação com participação privada e a Argentina apresenta maior abertura ao capital estrangeiro, inclusive com presença relevante de empresas chinesas. Nesse contexto, a disputa não se limita à extração, mas envolve o controle das etapas de refino, industrialização e inserção nas cadeias tecnológicas globais — o que reforça a transformação dos recursos naturais em ativos de segurança estratégica.

Essa dinâmica regional projeta efeitos diretos sobre o Brasil, que, embora não integre o triângulo do lítio, possui reservas relevantes de minerais estratégicos — como nióbio, terras raras e grafite — e se insere no mesmo dilema estrutural: permanecer como fornecedor de commodities ou avançar na internalização de etapas tecnológicas e produtivas de maior valor agregado.

É nesse ponto que a análise ganha densidade.

Se, por um lado, os Estados Unidos buscam ampliar sua influência por meio da securitização de temas estratégicos, por outro, a realidade econômica da região impõe um freio objetivo a esse movimento. Não se trata apenas de vontade política, mas de estrutura econômica.

No plano interno brasileiro, essa tensão também se reflete no comportamento das forças políticas. No campo governista, há relativa convergência em torno da defesa da soberania econômica, da agregação de valor e do não alinhamento automático. Já na oposição, o cenário é mais fragmentado. Parte do campo político adota uma postura mais alinhada aos Estados Unidos e mais crítica à China, enquanto outra parcela — especialmente vinculada ao setor produtivo — reconhece a centralidade do mercado chinês para a economia nacional.

Essa divisão revela um dado fundamental: a geopolítica, no Brasil, não é apenas ideológica. Ela é profundamente condicionada pela economia política.

Diante disso, a tese de uma simples retomada da influência norte-americana sobre a América Latina mostra-se insuficiente. O que está em curso é algo mais complexo: uma disputa por influência em um ambiente de interdependência.

A securitização promovida por Washington amplia o espaço para pressão política e estratégica. Mas essa pressão encontra limites concretos na estrutura econômica da região, que hoje depende, em larga medida, da China.

O desafio para países como o Brasil não é escolher entre um polo e outro, mas construir uma estratégia que preserve autonomia em um cenário de competição entre potências.

A questão central, portanto, não é se haverá influência externa — ela já existe e tende a crescer. A questão é outra: em que medida os países sul-americanos conseguirão transformar essa disputa em oportunidade, sem abrir mão de sua soberania econômica e decisória?

Na nova geopolítica dos recursos, não há espaço para neutralidade ingênua: ou os países constroem estratégia, ou serão incorporados à estratégia de outros.

A ressurreição como processo: por que a história ainda não terminou



Há um detalhe pouco lembrado — mas profundamente revelador — no segundo evangelho da Bíblia.

Conforme observam exegetas como Bart D. Ehrman e Raymond E. Brown, os doze versículos finais do Evangelho de Marcos (Mc 16:9-20) não constam nos manuscritos mais antigos, sendo amplamente considerados uma adição posterior de tradição redacional. O texto original, ao que tudo indica, terminava de forma abrupta no verso 8, quando as mulheres deixam o túmulo vazio, tomadas pelo medo, e nada dizem a ninguém.


"Quando terminou o sábado, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus. No primeiro dia da semana, bem cedo, ao nascer do sol, elas se dirigiram ao sepulcro, perguntando umas às outras: "Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?" Mas, quando foram verificar, viram que a pedra, que era muito grande, havia sido removida. Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de roupas brancas assentado à direita, e ficaram amedrontadas. "Não tenham medo", disse ele. "Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou! Não está aqui. Vejam o lugar onde o haviam posto. Vão e digam aos discípulos dele e a Pedro: ‘Ele está indo adiante de vocês para a Galiléia. Lá vocês o verão, como ele lhes disse’". Tremendo e assustadas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas." (Marcos 16:1-8; NVI)


Sem dúvida, é um final estranho. Não há aparição triunfal, nem uma confirmação pública, e tão pouco um fechamento narrativo. Apenas o silêncio das três Marias.

Talvez não seja um defeito do texto — mas uma de suas chaves mais profundas.

Se a narrativa termina em aberto, é como se a ressurreição, embora anunciada, não estivesse plenamente apropriada no interior da narrativa, dependendo ainda de reconhecimento, de anúncio e de continuidade. Como se, de algum modo, a história permanecesse inacabada.

Ao longo dos séculos, não faltaram tentativas de preencher esse silêncio — seja pela tradição, pela teologia ou pela própria organização da vida social. Em muitos momentos, buscou-se transformar a promessa em estrutura, a esperança em sistema, a fé em ordem definitiva.

E, no entanto, a história insiste em permanecer ambígua: entre avanços e retrocessos, entre afirmações de vida e persistência de formas de morte, entre o que já se anunciou e o que ainda não se realizou.

Talvez a ressurreição não seja um ponto de chegada, mas um movimento que atravessa o tempo — algo que não se impõe como conclusão, mas que se oferece como possibilidade.


1. A tentação da ressurreição como estado

A história do cristianismo — e, de forma mais ampla, da própria civilização ocidental — revela uma tensão constante entre dois modos de compreender a ressurreição.

O primeiro é o da ressurreição como evento consumado, cuja consequência seria a possibilidade de organizar a realidade a partir de uma verdade já plenamente estabelecida. Nessa perspectiva, a história tende a ser interpretada como espaço de realização de um modelo previamente definido.

Foi essa lógica que, em diversos momentos, sustentou a ideia de sociedades ordenadas sob um horizonte religioso fechado — não apenas na Idade Média, mas também em experiências modernas que, embora seculares, reproduziram a mesma estrutura: a pretensão de encarnar, na história, um ideal definitivo.

Nesse ponto, a reflexão se aproxima da intuição de Walter Benjamin, para quem a história não é uma marcha linear de progresso, mas um campo de rupturas e interrupções, no qual a redenção não se identifica com a continuidade dos sistemas históricos.

O problema é conhecido.

Quando a promessa se transforma em sistema, a abertura desaparece. Quando o horizonte se converte em estrutura, a crítica perde espaço. E, quando a verdade se apresenta como plenamente realizada, o dissenso tende a ser percebido não como parte do processo, mas como ameaça a ser eliminada.

O resultado, em diversos contextos — especialmente quando religião e poder político se confundiram — foi, não raras vezes, a negação prática daquilo que se pretendia afirmar: a dignidade humana, a liberdade e a própria vida.

Não se trata de um fenômeno distante no tempo. Ainda hoje, sob diferentes formas, essa tensão se manifesta em realidades concretas: da exclusão social persistente à violência institucional, passando por conflitos fundiários e pressões sobre o meio ambiente, não são poucos os sinais de que a afirmação da vida continua sendo um desafio em aberto.


2. A ressurreição como processo: uma leitura possível

Uma segunda leitura — mais sutil e, talvez, mais fiel à própria estrutura dos textos — compreende a ressurreição não como estado, mas como processo.

Essa leitura encontra eco numa recente reflexão de Leonardo Boff, para quem a ressurreição não se limita a um evento encerrado no passado, mas se projeta como um processo histórico em que a vida se afirma contra as múltiplas formas de negação que atravessam a realidade.

Nesse sentido, a ressurreição não elimina a história, nem dissolve suas ambiguidades. Ao contrário, ela se manifesta dentro da história, como força que tensiona suas estruturas e aponta para além delas.

Essa leitura permite compreender por que, mesmo após quase dois mil anos de influência cristã, a humanidade não se transformou em um “mundo possível melhor” de forma plena.

Não se trata de fracasso da mensagem, mas de sua condição própria: a ressurreição não se impõe como realidade concluída — ela exige reconhecimento, mediação e, sobretudo, continuidade.


3. Do silêncio ao reconhecimento: o caminho de Emaús

Se o texto original do Evangelho de Marcos terminava em silêncio, o Evangelho de Lucas oferece uma resposta que não elimina, mas aprofunda esse enigma.

No festejado episódio dos discípulos no caminho de Emaús, dois homens caminham lado a lado com o ressuscitado sem reconhecê-lo. Conversam, interpretam os acontecimentos, expressam frustração — e, ainda assim, não percebem quem está com eles.

O reconhecimento só acontece mais tarde, no gesto simples de partir o pão.

E, no momento em que percebem, a presença desaparece.

Esse relato desloca completamente a compreensão do significado da ressurreição.

Ela não se impõe como evidência imediata.
Ela se revela no caminho.
Ela depende de um olhar que se forma ao longo da experiência.

E, sobretudo, ela não se fixa.

A presença que transforma é a mesma que escapa, impedindo sua captura definitiva.


4. Entre a promessa e a história

A articulação entre o silêncio de Marcos e o reconhecimento progressivo dos discípulos de Emaús permite uma leitura mais ampla da própria condição humana.

A história não é o lugar da realização plena da ressurreição — mas também não é um espaço vazio de sentido.

Ela é um campo de tensão permanente:


  • entre estruturas que reproduzem a exclusão e iniciativas que afirmam a dignidade;
  • entre sistemas que consolidam desigualdades e movimentos que buscam superá-las;
  • entre a destruição ambiental e a emergência de uma consciência ecológica;
  • entre o fechamento e a abertura.


A ideia de um horizonte aberto encontra ressonância na chamada “teologia da esperança”, desenvolvida por Jürgen Moltmann, inspirada, em parte, pela filosofia de Ernst Bloch, para quem a esperança não descreve o mundo como ele é, mas como ele pode vir a ser.

Nesse cenário, a ideia de uma “humanidade ressurreta” não pode ser compreendida como estado alcançado, mas como horizonte em construção.


5. A ressurreição como princípio crítico

Talvez a função mais profunda da ressurreição, quando compreendida nesse registro, seja a de operar como um princípio crítico permanente.

Ela impede que qualquer ordem histórica se declare definitiva.
Ela questiona estruturas que naturalizam a morte sob formas diversas.
Ela mantém aberta a possibilidade de transformação.

E, ao mesmo tempo, preserva a liberdade — porque não se impõe como conclusão, mas como um convite.


6. O desafio contemporâneo

Se essa leitura é correta, então a questão central deixa de ser teórica e se torna prática:


- onde, hoje, a vida ainda é negada?
- quais estruturas continuam produzindo exclusão, desigualdade e destruição?
- em que medida reconhecemos — ou deixamos de reconhecer — os sinais de transformação já presentes?


A resposta não está dada.

Como no final de Marcos, há silêncio.
Como em Emaús, há caminho.


7. Uma ressurreição a ser continuada

Talvez o ponto decisivo seja este: a ressurreição não é um evento a ser apenas celebrado, mas um processo a ser continuado.

Ela não se realiza por decreto, nem se encerra em estruturas.
Ela se manifesta onde a vida é afirmada — e se torna tarefa onde ela ainda é negada.

Nesse sentido, a pergunta final não é se a ressurreição aconteceu,
mas o que fazemos com ela.

Porque, se o relato permanece aberto, talvez isso não seja uma falha da narrativa — mas um inquietante convite. 
Um convite não apenas à reflexão, mas à responsabilidade histórica de reconhecer, no presente, onde a vida precisa ser afirmada — e de agir para que ela, de fato, prevaleça.

Feliz Páscoa a tod@s!


📝 Nota

A imagem que acompanha este texto é a obra As Mulheres Sagradas no Sepulcro de Cristo (1876), do pintor francês William-Adolphe Bouguereau
A cena retrata o momento descrito no Evangelho de Marcos (Mc 16:1-8), em que as mulheres encontram o túmulo vazio e recebem o anúncio da ressurreição.
Mais do que representar a vitória já consumada, a pintura capta o instante de transição entre o anúncio e o reconhecimento — marcado por perplexidade, silêncio e expectativa. 
Nesse sentido, o quadro dialoga diretamente com a ideia desenvolvida neste artigo: a ressurreição não apenas como evento, mas como realidade que se revela progressivamente na história e na experiência humana.

sábado, 4 de abril de 2026

Diretas já no Rio: legitimidade em tempos de crise



A democracia é o regime em que o poder é exercido em público” (Norberto Bobbio)


O Estado do Rio de Janeiro atravessa um dos momentos mais delicados de sua história institucional recente. A sucessão no Executivo, que deveria seguir um curso constitucional previsível, transformou-se em um processo marcado por judicialização, instabilidade e incerteza.

Nesse cenário, ganha força um debate que, embora juridicamente complexo, é politicamente incontornável: a realização de eleições diretas para o chamado “mandato tampão” de governador.

A Constituição prevê, de fato, a eleição indireta nos casos de dupla vacância nos últimos anos de mandato. Trata-se de uma solução institucional pensada para preservar a continuidade administrativa. 

No entanto, essa resposta normativa, embora formalmente válida, não esgota o problema. Isto porque a questão, aqui, não é apenas de legalidade. É de legitimidade.

Quando a sucessão deixa de ser automática, quando a linha constitucional é tensionada por decisões judiciais e quando a própria organização do processo sucessório se torna objeto de disputa, o modelo indireto passa a revelar suas limitações.

Experiências recentes no federalismo brasileiro reforçam esse diagnóstico. No caso do Tocantins, em 2018, a solução constitucional da eleição indireta foi aplicada diante de situação de vacância — mas não foi suficiente para encerrar a instabilidade política, que apenas se dissipou com a realização de eleição direta suplementar.

O precedente evidencia que, embora juridicamente válida, a eleição indireta nem sempre é capaz de produzir a legitimidade necessária em contextos de crise.

Nessas circunstâncias, a decisão acaba concentrada em um colégio restrito, inserido em um ambiente político já marcado por forte pressão política e, no caso do Rio de Janeiro, por instabilidade institucional evidente.

Em um contexto assim, a pergunta que se impõe é simples: quem deve decidir o futuro do Estado?

A resposta democrática é igualmente simples: o povo.

É por isso que a defesa de eleições diretas, ainda que demande soluções jurídicas não triviais, surge como um caminho legítimo — não como ruptura institucional, mas como tentativa de recomposição da própria legitimidade do processo político.

Não se trata de ignorar a Constituição, mas de reconhecer que ela deve ser interpretada à luz da realidade concreta. E a realidade atual do Rio de Janeiro é de acentuada instabilidade institucional.

A eventual apreciação do tema pelo Supremo Tribunal Federal na próxima semana poderá definir os contornos jurídicos dessa sucessão. Mas é fundamental que o debate público acompanhe esse processo, ampliando o horizonte de possibilidades e reafirmando princípios democráticos.

Nesse sentido, iniciativas como a reunião convocada pelo deputado Glauber Braga para o dia 08/04 são relevantes.

Mais do que um ato político, trata-se de um espaço de construção de uma alternativa democrática em um momento de crise. O debate público, aberto e plural, é parte essencial de qualquer solução institucional legítima.

A história brasileira mostra que momentos de tensão institucional exigem mais democracia — e não menos.

No Rio de Janeiro, essa lição volta a se impor.

Se a crise atingiu o próprio processo sucessório, talvez seja o momento de devolver à sociedade a decisão sobre seus rumos. 

Não se trata apenas de escolher um governador, mas de restaurar a confiança no próprio processo de escolha.

Porque, no fim, a estabilidade institucional não se constrói apenas com regras — mas com legitimidade.

E legitimidade, em uma democracia, nasce — inevitavelmente — do voto.

🏙️ Entre a demolição e a revitalização: o que o Rio ainda não resolveu sobre o direito à cidade


Praça Onze de Junho


A história urbana do Rio de Janeiro não é apenas a sucessão de obras, avenidas e edifícios. É, sobretudo, a história de decisões políticas que definem quem permanece, quem sai e o que se preserva.

Poucos episódios são tão emblemáticos quanto a abertura da Avenida Presidente Vargas, na década de 1940. Ali, o Estado brasileiro promoveu uma das mais profundas intervenções urbanas do país — frequentemente apontada como uma das mais radicais experiências de remodelação urbana na América Latina —, redesenhando o centro da cidade sob a lógica da modernização.

Décadas depois, o programa Reviver Centro surge como resposta a um problema distinto — o esvaziamento econômico e social da região central. Mas a comparação entre esses dois momentos revela uma questão mais profunda: mudaram os instrumentos, mas o dilema estrutural permanece.


1. A cidade que foi demolida: Praça Onze e Igreja de São Domingos

A antiga Praça Onze de Junho não era apenas um espaço urbano. Era um território social, cultural e simbólico. Ali floresceu a chamada “Pequena África”, núcleo fundamental da formação do samba e da cultura popular carioca.

Próximo a ela encontrava-se a Igreja de São Domingos — construída no século XVIII —, uma das referências religiosas e urbanas do centro histórico.

Ambas desapareceram.

Não por abandono, nem por deterioração, mas por decisão deliberada de Estado. A abertura da Avenida Presidente Vargas implicou a demolição de largos, igrejas, moradias e redes sociais inteiras.

A dimensão dessa intervenção foi expressiva. Estimativas historiográficas indicam que a obra resultou na demolição de centenas de edificações e no deslocamento de milhares de moradores — frequentemente estimado na ordem de dezenas de milhares de pessoas, conforme estudos sobre o período.

O urbanismo da época operava sob uma lógica clara: corrigir a cidade existente para adequá-la a um ideal de modernidade.

Nesse processo, a memória urbana foi tratada como obstáculo — não como ativo.


2. A racionalidade da ruptura: modernização sem mediação


Registro da construção da Av. Presidente Vargas

A intervenção que deu origem à Presidente Vargas foi marcada por três características centrais: centralização decisória, primazia da mobilidade sobre a permanência e ausência de instrumentos de proteção patrimonial e social.

À época, inexistiam mecanismos consolidados de tutela do patrimônio cultural, como os que seriam posteriormente estruturados por instituições como o IPHAN, o que contribuiu para a fragilidade da preservação urbana diante de projetos de grande escala.

O resultado foi uma transformação radical do território, com efeitos que ultrapassaram a dimensão física. A cidade foi reorganizada não apenas em sua forma, mas em sua estrutura social.

Esse modelo de urbanismo — que poderíamos chamar de urbanismo de ruptura — tinha como pressuposto a ideia de que o progresso justificava o apagamento.

Hoje, esse paradigma é amplamente questionado.

Mas isso não significa que o problema tenha sido superado.


3. O novo paradigma: revitalizar sem demolir

O programa Reviver Centro representa, em tese, uma inflexão importante.

Em vez de demolir, busca-se reocupar. Em vez de abrir avenidas, pretende-se ativar usos. Em vez de substituir a cidade, propõe-se adaptá-la.

Instituído por legislação municipal específica, o Reviver Centro articula incentivos urbanísticos e fiscais com o objetivo de estimular a reconversão de imóveis e a reocupação residencial da região central.

A política se estrutura sobre instrumentos como a concessão de incentivos fiscais, a conversão de uso de imóveis, o estímulo ao retrofit e a atração de moradia para áreas antes predominantemente comerciais.

Há, portanto, uma mudança relevante de abordagem. A cidade deixa de ser vista como um problema a ser corrigido e passa a ser tratada como um organismo a ser reativado.

Dados divulgados pela própria Administração Municipal indicam avanços iniciais relevantes, com a aprovação de centenas de projetos de reconversão e um aumento gradual da presença residencial na região central até meados da década de 2020. Esse movimento sugere que a política, ao menos em sua fase inicial, conseguiu reativar dinâmicas urbanas antes estagnadas, especialmente no contexto pós-pandemia, quando o centro do Rio perdeu densidade funcional e presença cotidiana.

Ocorre que essa mudança de paradigma, embora real, não elimina riscos estruturais, os quais não podem ser ignorados.


4. O deslocamento do problema: da demolição à exclusão

Se no passado o principal instrumento de transformação urbana era a demolição física, hoje o vetor dominante é a reconfiguração econômica do território.

O risco não é mais o desaparecimento dos edifícios, mas a substituição silenciosa de seus ocupantes.

Processos de revitalização, quando não acompanhados de políticas inclusivas, podem produzir uma valorização imobiliária acelerada, a expulsão indireta de populações vulneráveis, a homogeneização socioeconômica e a perda de diversidade urbana.

Trata-se de um fenômeno amplamente descrito na literatura urbanística: a gentrificação.

Nesse sentido, a comparação histórica revela uma continuidade inquietante na qual a cidade segue sendo transformada sem que a permanência de seus habitantes seja o eixo central da política urbana.

No caso do Rio de Janeiro, esse debate já se manifesta em discussões institucionais contemporâneas, inclusive com questionamentos em órgãos de controle e no Ministério Público acerca dos impactos sociais de projetos específicos na região central, como iniciativas de adensamento e reconfiguração de áreas sensíveis do ponto de vista urbanístico e simbólico.

A controvérsia em torno de intervenções propostas em áreas emblemáticas do centro, como o chamado “Buraco do Lume”, evidencia como o tema permanece juridicamente e urbanisticamente em disputa.


5. O direito à cidade como critério de avaliação

A Constituição de 1988 e o Estatuto da Cidade introduziram um novo paradigma jurídico no Brasil: o direito à cidade. Tal princípio encontra fundamento no art. 182 da Carta Magna.

Esse conceito desloca o foco da análise da obra para o impacto, bem como da forma urbana para a função social e do investimento para a inclusão.

Sob essa ótica, tanto a abertura da Presidente Vargas quanto o Reviver Centro devem ser avaliados não apenas por sua eficiência urbanística, mas por seus efeitos sobre a permanência dos moradores, a diversidade social e o acesso equitativo ao território.

Sem essa mediação, há o risco de reproduzir, em nova linguagem, velhos padrões de exclusão.


6. Entre o trator e o mercado: o desafio contemporâneo

A história urbana do Rio revela uma transição importante. 

Se antes a cidade era redesenhada pelo Estado, por meio da demolição, hoje ela é reconfigurada pelo mercado, mediado por políticas públicas.

O instrumento mudou, mas o desafio permanece.

Se antes o problema era o urbanismo autoritário, hoje o risco é a revitalização sem inclusão.

A cidade deixa de ser destruída fisicamente, mas pode continuar sendo reorganizada de forma excludente.


7. Conclusão — o que ainda está em disputa


Registro da Igreja de São Domingos por Augusto Malta

A Praça Onze não existe mais. A Igreja de São Domingos também não.

Contudo, o verdadeiro legado dessas perdas não está apenas naquilo que desapareceu — está na forma como a cidade foi pensada.

O Reviver Centro representa uma oportunidade de ruptura com esse passado. Porém, essa ruptura não será garantida pelos instrumentos urbanísticos em si. Ela dependerá de uma escolha política fundamental: se a revitalização do centro será orientada pela valorização do espaço ou pela garantia do direito de permanecer nele.

No fundo, a pergunta permanece a mesma — apenas reformulada pelo tempo: quem tem direito à cidade que está sendo construída e, sobretudo, quem pode permanecer nela?

A guerra contra o Irã e o risco de uma derrota estratégica invisível



A recente escalada militar envolvendo os Estados Unidos e o Irã, especialmente no contexto do Estreito de Ormuz, recoloca no centro do debate internacional uma questão antiga — mas nunca plenamente resolvida: quando uma guerra é realmente necessária?

Mais do que isso, o conflito atual não pode ser analisado sob uma única lente. Ele exige uma leitura em múltiplos níveis:


  • jurídico, quanto à legalidade internacional;
  • estratégico, quanto ao custo-benefício da ação;
  • sistêmico, quanto ao equilíbrio global de poder;
  • e geopolítico, quanto à disputa indireta entre grandes potências.


Nesse cenário, a pergunta central deixa de ser apenas se a guerra é justificável. A questão mais profunda é outra: essa guerra faz sentido estratégico no longo prazo?

Sob o ponto de vista jurídico, a questão remete diretamente aos limites do uso da força previstos no direito internacional contemporâneo. A Organização das Nações Unidas estabelece uma vedação geral ao uso da força, admitindo exceções restritas — notadamente a autorização do Conselho de Segurança ou o exercício do direito de autodefesa, conforme previsto no artigo 51 da Carta da ONU. 

É justamente nesse ponto que o conflito atual se torna controverso: discute-se se houve, de fato, uma situação de autodefesa ou se a ação militar se aproxima mais de uma lógica preventiva, juridicamente mais questionável.


1. A falsa dicotomia entre necessidade e escolha

Guerras raramente acontecem por absoluta falta de alternativas. Na maioria das vezes, elas decorrem de uma decisão política sobre quais riscos são aceitáveis.

No caso atual, há elementos que indicam:


  • a existência de canais de negociação indireta;
  • propostas de cessar-fogo, ainda que frágeis;
  • e a ausência de prova inequívoca de uma ameaça iminente.


Diante disso, surge uma hipótese incômoda, mas inevitável: a guerra pode não ter sido inevitável — mas foi escolhida como instrumento de ruptura.

Essa constatação desloca o debate. Não estamos mais diante de uma discussão sobre necessidade absoluta, mas sobre opção estratégica deliberada.

Esse debate ganha densidade quando se observa que, no plano jurídico, a autodefesa internacional exige, tradicionalmente, a demonstração de necessidade e iminência. A ausência de prova inequívoca de ameaça imediata fragiliza a narrativa clássica de autodefesa e aproxima o caso de uma zona cinzenta entre legalidade e oportunidade estratégica.


2. Guerra preventiva ou erro de cálculo?

A defesa pública da guerra por parte de setores do establishment econômico internacional revela uma lógica conhecida: agir agora seria menos arriscado do que permitir o fortalecimento do adversário no futuro.

Essa é a lógica clássica da guerra preventiva.

Ela parte de três premissas simples:


  1. o tempo favorece o adversário;
  2. a ameaça tende a crescer;
  3. o custo de agir depois será maior.


Do ponto de vista jurídico, contudo, essa lógica tensiona diretamente o sistema da Carta da Organização das Nações Unidas. O seu artigo 51 admite o exercício da autodefesa em caso de ataque armado, mas não consagra expressamente a chamada “autodefesa preventiva ampliada”, cuja aceitação permanece controversa na prática internacional. É justamente nessa lacuna que se inserem as justificativas contemporâneas para intervenções antecipatórias.

O problema é que a história recente — especialmente no Iraque e no Afeganistão — ensina outra lição: agir cedo não garante resolver o problema — e, muitas vezes, cria um problema ainda maior.

Além disso, o histórico recente das relações com o Irã adiciona uma camada adicional de complexidade.

O acordo nuclear firmado em 2015 — endossado pela Conselho de Segurança da ONU por meio da Resolução 2231 — não representou apenas um episódio diplomático, mas a incorporação de um arranjo jurídico-institucional ao sistema das Nações Unidas. Ao integrar o JCPOA ao regime de sanções e aos mecanismos internacionais de monitoramento e verificação, a resolução conferiu ao acordo uma dimensão normativa que ultrapassa a esfera puramente política.

Ainda que posteriormente fragilizado, esse arcabouço não desapareceu por completo, permanecendo como referência institucional no âmbito do sistema multilateral. Isso sugere que a via negocial não estava inteiramente esgotada, mas, ao menos em tese, ainda poderia ser reativada por meio dos próprios instrumentos da ordem internacional.

Nesse contexto, a substituição desse modelo por uma escalada militar reforça a pergunta central: se ainda havia mecanismos institucionalizados disponíveis, o que exatamente tornou o uso da força necessário?


3. O Irã: não vencer, mas inviabilizar a vitória

Talvez o aspecto mais sofisticado deste conflito esteja na estratégia iraniana.

O Irã não parece operar sob a lógica tradicional de vitória militar direta. Ao contrário, sua atuação sugere uma racionalidade distinta: não é preciso vencer — basta impedir que o outro vença de forma sustentável.

Em termos mais concretos, o Irã parece buscar elevar o custo do conflito até um ponto crítico, em que:


  • a coalizão adversária comece a se fragmentar;
  • a legitimidade internacional dos EUA se desgaste;
  • o impacto econômico global pressione por negociação;
  • e a própria guerra deixe de parecer um instrumento racional.


Nesse cenário, a guerra muda de natureza: deixa de ser sobre vitória e passa a ser sobre resistência estratégica.

Nesse contexto, a ameaça à navegação no Estreito de Ormuz não é um efeito colateral do conflito, mas seu principal instrumento estratégico. Ao tensionar um dos principais gargalos energéticos do mundo — por onde transita cerca de um quinto do petróleo global — o Irã converte vulnerabilidade militar em capacidade de impacto sistêmico.

Esse mecanismo já produz efeitos concretos: o tráfego marítimo sofreu redução significativa, com centenas de embarcações ancoradas ou desviando rotas, enquanto os custos de seguro e frete dispararam. Ao mesmo tempo, os preços do petróleo voltaram a superar a marca dos US$ 100 por barril, refletindo a percepção de risco e a instabilidade na região.

Nesse cenário, a pressão sobre cadeias globais de suprimento torna-se imediata, afetando não apenas o setor energético, mas também transporte, alimentos e insumos industriais. O resultado é a tradução direta do conflito em inflação global e aumento do custo econômico da guerra — exatamente o efeito buscado por uma estratégia de elevação progressiva de custos.


4. A armadilha da vitória aparente

A experiência recente mostra um padrão recorrente:


  • no Iraque, houve vitória militar rápida, mas fracasso político;
  • na Ucrânia, a expectativa de vitória rápida se transformou em guerra prolongada;
  • no caso atual, o risco é outro, mas igualmente relevante.


Trata-se da chamada armadilha da vitória aparente. Ela ocorre quando:


  • ganhos militares não se convertem em estabilidade política;
  • a destruição de capacidades não produz ordem duradoura;
  • e a pressão sobre o adversário não resulta em solução controlada.


Em outras palavras: vencer a guerra não significa vencer o pós-guerra.


5. ONU, legitimidade e o problema do consenso

A ausência de consenso no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas introduz um fator decisivo: não apenas a fragmentação política, mas também a controvérsia jurídica sobre a legalidade do uso da força.

No modelo da Carta da ONU, a regra é clara: o uso da força depende de autorização do Conselho de Segurança ou de enquadramento no direito de autodefesa individual ou coletiva, nos termos do seu artigo 51. Quando nenhuma dessas condições se estabelece de forma inequívoca, abre-se um espaço de contestação jurídica que fragiliza a legitimidade da ação.

Os Estados Unidos podem agir militarmente, formar coalizões e obter respaldo interno. No entanto, sem consenso global, enfrentam custos relevantes:


  • desgaste diplomático;
  • resistência de países do Sul Global;
  • questionamentos jurídicos;
  • e dificuldades narrativas.


Isso não impede a guerra — mas altera profundamente seus efeitos.


6. A variável invisível: a China

É nesse ponto que surge um dos elementos mais importantes — e frequentemente subestimados.

Esse tipo de guerra, sem consenso internacional, pode fortalecer mais a China do que qualquer vitória militar poderia enfraquecê-la.

A lógica é simples:


  • os EUA assumem os custos da ação;
  • a China se posiciona como defensora da estabilidade;
  • o sistema internacional se fragmenta;
  • e a liderança americana se desgasta.


Não se trata de uma vitória direta da China, mas de algo mais sofisticado: um ganho relativo por desgaste do adversário.


7. Erro conjuntural ou padrão estrutural?

Chegamos, então, à pergunta central: estamos diante de um erro específico — ou de um padrão recorrente?

Há indícios de que não se trata de um evento isolado:


  • intervenções com objetivos amplos e mutáveis;
  • dificuldade em converter vitória militar em ordem política;
  • subestimação da resiliência do adversário;
  • e uso recorrente da guerra como instrumento de reorganização regional.


Se esse padrão se confirma, a questão deixa de ser conjuntural e passa a ser estrutural.


8. O paradoxo do Ocidente

A crítica de que “o Ocidente demorou a reagir” pode conter um elemento de verdade. Mas ela conduz a uma questão mais profunda: o problema foi a demora — ou a forma da reação?

Essa leitura ganha força quando se observa que parte relevante do establishment econômico internacional passou a defender abertamente a intervenção. O CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, por exemplo, sustentou que o conflito, embora arriscado no curto prazo, pode gerar maior estabilidade no longo prazo, e que o Ocidente teria tardado em enfrentar o problema iraniano.

Essa posição traduz uma lógica clara: não agir teria sido mais arriscado do que agir.

O problema é que essa leitura assume uma premissa forte — e contestável — de que a ação militar será capaz de produzir um resultado politicamente estável. Ao mesmo tempo, o próprio diagnóstico reconhece um elemento central: o elevado grau de incerteza e os riscos sistêmicos associados ao conflito.

É justamente nesse ponto que emerge o paradoxo.

Se, por um lado, a inação pode permitir o fortalecimento de ameaças, por outro, a ação militar — especialmente sem consenso internacional — pode produzir efeitos adversos igualmente graves: prolongamento do conflito, aumento de custos globais e fortalecimento indireto de rivais estratégicos.

Assim, o dilema não se resume ao tempo da reação, mas à sua qualidade estratégica. Reagir cedo demais pode levar a guerras evitáveis; reagir tarde demais pode consolidar riscos; mas reagir da forma errada pode produzir o pior dos cenários.


9. Síntese: a guerra como teste de racionalidade

A análise integrada permite uma conclusão provisória, mas consistente:


  • a guerra pode não ter sido inevitável;
  • o Irã não precisa vencer — apenas resistir estrategicamente;
  • a ausência de consenso internacional altera o equilíbrio global;
  • a China tende a ganhar no plano sistêmico;
  • e o maior risco para os EUA não é a derrota militar, mas o desgaste estratégico.


No fim, tudo converge para uma questão essencial: o problema não é vencer a guerra — é transformar essa vitória em algo politicamente sustentável.

Do ponto de vista jurídico, permanece em aberto a questão sobre os limites da autodefesa e o enfraquecimento progressivo dos mecanismos multilaterais de contenção do uso da força.


10. Pergunta final

E talvez essa seja a pergunta que realmente importa: Se a vitória militar não for suficiente para produzir ordem, e se o custo da guerra fortalecer rivais estratégicos, o que exatamente significa “vencer” esse conflito?

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Um ponto azul e a medida da nossa responsabilidade



Vista de longe, a Terra não tem fronteiras — só humanidade.

A imagem, registrada do espaço, dissolve aquilo que, aqui embaixo, insistimos em tomar como absoluto: divisões, disputas, fronteiras, urgências. Diante dela, resta apenas um dado elementar — compartilhamos o mesmo lar.

Como bem observou Carl Sagan, cada um de nós vive neste “ponto suspenso num raio de sol”. A frase, repetida à exaustão, não perde força. Ao contrário: quanto mais a observamos, mais evidente se torna a sua implicação — tudo o que somos, tudo o que construímos, tudo o que disputamos, cabe nesse pequeno fragmento azul perdido no silêncio do universo.

É nesse contraste que surge uma inversão incômoda. Daqui de fora, as urgências parecem menores. Mas as responsabilidades, maiores.

Talvez porque, quando desaparecem os limites artificiais, resta apenas aquilo que é essencial. A Terra não precisa de donos. Precisa de cuidado. E, nesse ponto, a advertência de Antoine de Saint-Exupéry permanece atual: não herdamos a Terra de nossos antepassados; tomamo-la emprestada de nossos filhos.

Essa ideia, que poderia soar como um lugar-comum moral, adquire outra dimensão quando confrontada com a imagem concreta do planeta visto de fora. Não se trata de retórica — trata-se de perspectiva.

Nenhuma disputa parece suficientemente grande quando comparada à fragilidade desse ponto azul. A experiência relatada por Yuri Gagarin, quando contemplou a Terra do espaço, revela justamente isso: a percepção de que sua beleza não é compatível com a lógica da destruição.

E, ainda assim, insistimos.

Há algo de paradoxal nesse distanciamento: o mundo parece menor, mas nossos erros, maiores. Talvez porque, pela primeira vez, conseguimos vê-los no contexto adequado.

No fundo, essa imagem não é sobre o planeta. É sobre nós.

Sobre a nossa capacidade — ou incapacidade — de compreender a dimensão real do que está em jogo. Sobre a dificuldade de alinhar poder técnico com responsabilidade ética. Sobre a distância, ainda persistente, entre aquilo que podemos fazer e aquilo que deveríamos fazer.

Se conseguíssemos enxergar sempre assim, talvez vivêssemos melhor.
Ou, ao menos, decidiríamos melhor.

O universo não nos deve nada.
Mas nos deu tudo aqui.


📷 Foto da Terra registrada pelo astronauta Reid Wiseman, da NASA, a partir da espaçonave Orion, divulgada em 03/04/2026.