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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Entre o possível e o necessário: esquerda, hegemonia e os dilemas de 2026



Que país queremos, mesmo que ainda não seja possível?

Como avançar agora, com o país que temos?


O debate recente em torno de um vídeo conciliador de Lula, gravado na Marambaia, revelou mais do que uma divergência pontual de estilo político. Ele escancarou uma tensão antiga e recorrente dentro da esquerda brasileira: a disputa entre pragmatismo eleitoral e radicalidade programática. Essa tensão não é apenas conjuntural ou tática — ela é filosófica, histórica e estratégica.

Em um cenário pré-eleitoral, como o que se desenha para 2026, esse dilema ganha contornos ainda mais decisivos. Afinal, não se trata apenas de vencer eleições, mas de dar sentido ao futuro.


O dilema fundamental: governar ou transformar?

De um lado, o pragmatismo eleitoral, associado ao lulismo e à experiência concreta de governo, parte da seguinte pergunta:

“Como avançar agora, com o país que temos?”

Do outro, a radicalidade programática, presente em setores mais à esquerda, insiste em outra questão:

“Que país queremos, mesmo que ainda não seja possível?”

Ambas são perguntas legítimas. O problema surge quando uma elimina a outra. Quando o pragmatismo perde o horizonte, a política vira mera administração do possível. Quando a radicalidade ignora a realidade, transforma-se em virtude sem eficácia.

Esse conflito interno da esquerda dialoga, de forma surpreendente, com uma tradição filosófica que começa em Platão e atravessa Aristóteles, Hegel e Gramsci.


Platão: o mundo como é e o mundo como deveria ser

O dualismo platônico distingue o mundo sensível, da aparência e da contingência, do mundo das Ideias, onde residem a justiça e o bem. O erro, para Platão, não é viver no mundo sensível — isso é inevitável — mas confundi-lo com a medida última da realidade.

Na política contemporânea, o pragmatismo corre o risco de aceitar a “caverna” como destino. Já a radicalidade, quando absolutizada, corre o risco inverso: contemplar o ideal sem retornar à pólis.

Platão, no entanto, propõe mediação: o filósofo deve voltar à cidade para governá-la à luz das Ideias. Política sem ideal vira cinismo; ideal sem política vira impotência.


Aristóteles: prudência sem oportunismo

Aristóteles corrige Platão ao rejeitar um dualismo rígido. Para ele, a política é o campo da phronesis, da prudência prática orientada pelo bem comum. Não se governa com abstrações, mas também não se governa sem fins éticos.

Aplicado à esquerda brasileira, Aristóteles lembraria que:


  • o pragmatismo é necessário para governar;
  • mas, sem finalidade moral clara, degenera em autopreservação;
  • a radicalidade é virtuosa, mas precisa se traduzir em prática.


A prudência aristotélica não é renúncia ao ideal — é meio para realizá-lo.


Hegel: a história como processo, não como repouso

Hegel supera o dualismo mostrando que o ideal se realiza na história, por meio da dialética. O real não é estático; ele se transforma por negações e superações sucessivas.

Nesse sentido, o lulismo pode ser visto como uma síntese histórica: nem ruptura, nem autoritarismo. O problema surge quando a síntese se prolonga e passa a parecer fim da história, não etapa transitória.

A esquerda que governa sem tensionar o presente corre o risco de naturalizar o que é apenas provisório. Já a esquerda que apenas nega, sem construir síntese, permanece politicamente estéril.


Gramsci: hegemonia, guerra de posição e sentido histórico

É em Gramsci que o dilema encontra sua formulação mais concreta. Para ele, política não é apenas governo, mas direção moral e cultural da sociedade. Hegemonia se constrói na linguagem, no cotidiano, nos valores.

A esquerda brasileira, hoje, governa mais do que hegemoniza. A direita, mesmo com propostas frágeis, ocupa vazios fundamentais:


  • fala a linguagem da moral cotidiana;
  • organiza afetos, medos e identidades;
  • oferece sensação de movimento e ruptura.


Enquanto isso, a esquerda frequentemente fala em defesa, gestão e contenção de danos.


Três cenários possíveis para 2026


1. Vitória apertada da esquerda

O cenário mais provável. Uma vitória defensiva, sustentada pelo medo do retrocesso. Garante a democracia, mas deixa uma hegemonia frágil e um governo permanentemente pressionado.


2. Vitória da direita

Possível se o desgaste do governo se combinar com discurso moral simples e sensação de mudança. Seria uma vitória narrativa antes de ser programática.


3. Fragmentação

O cenário mais perigoso. Abstenção alta, descrédito generalizado e abertura para aventuras autoritárias. Gramsci chamaria de crise orgânica: o velho não morreu, o novo não nasceu.


Uma estratégia gramsciana concreta para a esquerda hoje

Sem voluntarismo e sem conciliação vazia, uma estratégia gramsciana exigiria:


  1. Reorganizar a linguagem: Falar de trabalho, cuidado, futuro dos filhos, dignidade concreta — sem abandonar o conteúdo, mas mudando o enquadramento.

  2. Conectar política à vida material: Transformar políticas públicas em narrativas de conquista coletiva, com sentido moral e conflito visível.

  3. Disputar a moralidade: Não com moralismo, mas com uma ética do cuidado, da justiça social e da responsabilidade histórica.

  4. Nomear antagonismos: Negociar institucionalmente, mas deixar claro quem ganha e quem perde com determinados modelos econômicos e sociais.

  5. Produzir futuro: Não apenas evitar o passado, mas imaginar coletivamente o amanhã.


Conclusão

O desafio da esquerda brasileira não é escolher entre pragmatismo e radicalidade, mas articular prudência, conflito histórico e hegemonia cultural.

Como lembrariam Aristóteles, Hegel e Gramsci, cada um à sua maneira:


Governar bem é necessário.
Dar sentido ao futuro é indispensável.


Sem isso, mesmo as vitórias eleitorais tendem a ser curtas — e as derrotas, duradouras.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Montesquieu (1689–1755): poder, leis e liberdade em tempos de absolutismo



337 anos, em 18 de janeiro de 1689, nascia Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu, um dos mais influentes filósofos e juristas do Iluminismo europeu. Seu pensamento atravessou séculos e permanece vivo nas constituições modernas, na filosofia política e na própria ideia contemporânea de liberdade.

Montesquieu viveu em um período marcado por profundas tensões: o auge e o início do declínio do absolutismo, guerras dinásticas, sociedades ainda fortemente hierarquizadas e o surgimento de novas ideias sobre razão, direitos e limites do poder.


Contexto histórico: a Europa no tempo de Montesquieu

Montesquieu nasceu sob o reinado de Luís XIV, o “Rei Sol”, símbolo máximo do absolutismo francês, cujo lema implícito era “o Estado sou eu”. A França concentrava poder político, militar e simbólico na figura do monarca, com a corte instalada em Versalhes e uma nobreza dependente dos favores reais.

Durante sua vida, a França foi governada por:


  • Luís XIV (1643–1715)
  • Luís XV (1715–1774)


Enquanto isso, a Europa apresentava modelos contrastantes de poder:


  • Inglaterra, após a Revolução Gloriosa de 1688, já vivia uma monarquia constitucional, com o poder do rei limitado pelo Parlamento.
  • Prússia e Rússia combinavam absolutismo político com estruturas sociais ainda fortemente feudais, sobretudo no campo.
  • O Sacro Império Romano-Germânico permanecia fragmentado, com múltiplos centros de poder.


Essas diferenças institucionais foram fundamentais para a reflexão de Montesquieu, que observou como o excesso de poder concentrado levava à arbitrariedade, enquanto sua divisão favorecia a liberdade.


Breve biografia

Montesquieu nasceu no castelo de La Brède, próximo a Bordeaux, em uma família da nobreza de toga. Formou-se em Direito, herdou um cargo no Parlamento de Bordeaux e teve contato direto com a prática jurídica.

Viajou amplamente pela Europa, especialmente pela Inglaterra, onde observou o funcionamento de um sistema político mais equilibrado entre rei, Parlamento e tribunais. Essas experiências moldaram decisivamente seu pensamento.

Além disso, na Itália, ele estudou o legado do Direito Romano, as repúblicas italianas históricas e a relação entre religião, poder e costumes. Essa experiência reforçou sua percepção de que as instituições políticas são moldadas pela história e pela cultura, não por fórmulas abstratas.

Já na Holanda, Montesquieu entrou em contato com uma sociedade mercantil e relativamente tolerante, com maior liberdade religiosa e de imprensa, além de instituições políticas menos centralizadas. E, neste sentido, a experiência holandesa foi essencial para a sua reflexão sobre liberdade civil, economia e moderação do poder.

Pode-se afirmar que as suas viagens consolidaram sua metodologia comparativa, que atingiria maturidade plena na obra O Espírito das Leis.

Montesquieu Morreu em Paris, em 1755, reconhecido internacionalmente como um dos grandes pensadores de seu tempo.


As cinco principais obras de Montesquieu


1. Cartas Persas (1721): 

Uma sátira brilhante em forma de cartas fictícias, nas quais viajantes persas descrevem e criticam os costumes franceses. A obra questiona o etnocentrismo europeu, o absolutismo, a intolerância religiosa e os excessos da sociedade cortesã.


2. Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência (1734):

Análise histórica inovadora do Império Romano, relacionando política, virtude cívica, corrupção e decadência — antecipando uma visão quase “sociológica” da história.


3. Reflexões sobre a monarquia universal na Europa (1734):

Ensaio crítico sobre a impossibilidade e os riscos de um poder hegemônico continental. O próprio autor evitou ampla divulgação, ciente da sensibilidade política do tema.


4. O Espírito das Leis (1748):

Sua obra-prima. Nela, Montesquieu formula a teoria da separação dos poderes — Legislativo, Executivo e Judiciário — como condição essencial da liberdade política. Defende também que as leis devem considerar cultura, clima, economia e costumes, rejeitando modelos universais abstratos.


5. Defesa do Espírito das Leis (1750):

Texto escrito em resposta às críticas recebidas, especialmente de setores religiosos e conservadores, no qual esclarece e reforça seus argumentos.


Os tipos de governo segundo Montesquieu

Uma das contribuições centrais de O Espírito das Leis é a distinção entre formas de governo, cada qual sustentada por um princípio moral específico:


- República:  Pode ser democrática ou aristocrática. Tem como princípio a virtude cívica e exige a participação ativa dos cidadãos bem como a moderação dos interesses privados.

- Monarquia: Governo de um só, mas regido por leis fixas. Tem como princípio a honra. Admite hierarquias e instituições intermediárias.

- Despotismo: Governo de um só, sem leis nem limites. Tem como princípio o medo. É a forma mais perigosa, pois destrói a liberdade e corrompe a sociedade.


Essa tipologia reforça sua tese central: a liberdade só existe quando o poder é limitado e equilibrado.


Recepção política e reações ao seu pensamento

Embora crítico do absolutismo, Montesquieu não foi preso nem exilado. Sua posição social, prestígio intelectual e estilo moderado o protegeram de perseguições diretas do Estado francês.

Contudo, O Espírito das Leis:


  • Incomodou setores da monarquia, ao defender limites institucionais ao poder.
  • Foi colocado no Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica em 1751, sinal de que suas ideias eram vistas como perigosas para a ordem tradicional.


Ao mesmo tempo, sua obra foi amplamente lida e admirada em toda a Europa e nas colônias americanas, influenciando diretamente:


  • A Constituição dos Estados Unidos
  • O constitucionalismo moderno
  • A filosofia do Direito contemporânea


Legado duradouro

Montesquieu ensinou que liberdade não é ausência de leis, mas a existência de leis justas que limitem o poder. Seu pensamento permanece atual sempre que se debate:


  • Separação e equilíbrio entre poderes
  • Constitucionalismo
  • Garantias individuais
  • Riscos da concentração de autoridade


Mais de três séculos depois, Montesquieu continua a nos lembrar que o poder precisa de freios — não por desconfiança do ser humano ou pessimismo, mas por respeito à liberdade e prudência.


📝 Nota: Montesquieu e o Brasil: 1824 e 1988

A influência de Montesquieu chegou também ao Brasil.

A Constituição Imperial de 1824 incorporou a ideia de separação dos poderes, ainda que com limitações. A criação do Poder Moderador revela tanto a influência quanto as tensões na aplicação do modelo montesquiano

Já a atual Constituição de 1988 retoma plenamente o ideal de equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Após a ditadura militar, a separação de poderes tornou-se um freio institucional contra abusos do Executivo. E, por sua vez, os Direitos fundamentais e o controle constitucional refletem diretamente o legado de Montesquieu.

🏛️ Casarão de Arrozal: memória do ciclo do café e história viva do Vale do Paraíba



Ao me recordar da visita que fiz a Arrozal em junho de 2023, registrada no artigo “Retornando de uma agradável viagem”, é impossível não reconhecer como aquele território guarda, em suas construções e paisagens, marcas profundas da formação histórica do Vale do Paraíba fluminense. Entre essas marcas, o Casarão de Arrozal ocupa lugar de destaque, não apenas como edificação antiga, mas como testemunho material de um período decisivo da história brasileira.

Construído por volta de 1836, o Casarão de Arrozal está diretamente ligado ao ciclo do café, que transformou radicalmente o interior do Rio de Janeiro ao longo do século XIX. Foi nesse contexto que Arrozal, Piraí, Vassouras, Valença e outras localidades da região se consolidaram como polos econômicos, sustentados por grandes propriedades rurais, trabalho escravizado e intensa circulação de mercadorias.


A presença dos Breves e o poder cafeeiro

A história do casarão se cruza com a trajetória da família Breves, uma das mais influentes do período cafeeiro no Vale do Paraíba. Os Breves estiveram entre os maiores produtores de café da região e simbolizam, ao mesmo tempo, a prosperidade econômica daquele ciclo e as contradições sociais que o sustentaram.

A construção do casarão reflete esse contexto: arquitetura sólida, implantação estratégica no núcleo urbano de Arrozal e funções múltiplas. Como era comum à época, o edifício não se restringia à moradia. Servia também como espaço comercial e ponto de articulação social, integrando a vida econômica e cotidiana da localidade.


Arquitetura e transformações ao longo do tempo

Com características típicas da arquitetura civil do século XIX, o casarão atravessou diferentes fases históricas. Do auge do café à decadência econômica da região após o esgotamento do solo e a abolição da escravidão, o prédio acompanhou as mudanças do entorno.

Ao longo do tempo, passou por diferentes usos, refletindo a adaptação do espaço às novas realidades sociais e econômicas. Essa capacidade de ressignificação é uma das marcas mais importantes do patrimônio histórico: não se trata apenas de preservar paredes, mas de manter viva a relação entre o edifício e a comunidade.


O Casarão Cultural e a memória em movimento

Hoje, o Casarão de Arrozal abriga o Casarão Cultural, consolidando-se como um centro de memória e cultura. O espaço reúne acervo histórico, exposições, atividades educativas, projetos socioculturais e ações comunitárias que valorizam tanto a história do ciclo do café quanto as expressões culturais populares do Vale do Paraíba.

Nesse sentido, o casarão deixa de ser apenas um vestígio do passado para se tornar um lugar de memória ativa, onde diferentes narrativas — inclusive aquelas historicamente silenciadas — encontram espaço para reflexão e reconhecimento. O passado escravocrata, a formação das comunidades locais, as tradições culturais e o cotidiano contemporâneo convivem no mesmo território simbólico.


Esclarecimento necessário

Recentemente, por medida preventiva de segurança, a calçada em frente ao casarão foi temporariamente interditada, em razão de um deslocamento pontual em parte do telhado. A interdição tem caráter exclusivamente preventivo, visando a proteção de pedestres enquanto a situação é avaliada, e não altera o significado histórico e cultural do imóvel.


Preservar é compreender o tempo

Preservar o Casarão de Arrozal é preservar mais do que um edifício: é preservar a memória de um território, com suas grandezas e contradições. É reconhecer o papel do ciclo do café, da família Breves, da população escravizada, dos moradores e das gerações que transformaram esse espaço ao longo do tempo.

Ao revisitar Arrozal — seja fisicamente, seja pela memória registrada em textos anteriores — reafirma-se a importância de olhar para o patrimônio histórico não como algo estático, mas como parte viva da identidade regional. Um patrimônio que pertence não apenas ao passado, mas também ao presente e ao futuro.





📝 Nota histórica complementar:

A presença da família Breves no Vale do Paraíba fluminense foi de tal magnitude que a historiografia passou a se referir a alguns de seus membros como os chamados “reis do café”. Estimativas históricas indicam que, no auge do ciclo cafeeiro, os Breves controlavam dezenas de fazendas espalhadas pela região e chegaram a concentrar milhares de pessoas escravizadas sob sua posse, sendo Joaquim José de Souza Breves frequentemente citado como um dos maiores proprietários de escravizados do Brasil no século XIX, com números que variam, segundo diferentes estudos, entre 3 mil e mais de 6 mil trabalhadores escravizados em suas propriedades.

Esse passado deixou marcas profundas no território. A região de Piraí, Arrozal e municípios vizinhos guarda registros históricos e contemporâneos de comunidades quilombolas e remanescentes de quilombos, formadas por descendentes de africanos escravizados que resistiram ao sistema cafeeiro e mantiveram práticas culturais, religiosas e comunitárias que ainda hoje compõem a identidade do Vale do Paraíba.

Do ponto de vista institucional, a preservação do patrimônio histórico local — incluindo edificações como o Casarão de Arrozal — dialoga com políticas públicas de proteção cultural em diferentes esferas. Órgãos como o INEPAC (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural) e, em determinadas ações e projetos, o IPHAN, têm histórico de atuação, acompanhamento técnico ou reconhecimento do valor histórico de bens ligados ao ciclo do café no Vale do Paraíba, reforçando a importância do casarão como parte de um conjunto patrimonial de relevância estadual e nacional.


📷 Créditos das imagens: Cristina Fanartzis

🔗 Artigo relacionado:
Retornando de uma agradável viagem (junho de 2023)

A arte de não antecipar o amanhã



Podemos dizer que a flor não antecipa a segunda-feira.

Ela não carrega o peso do que ainda não existe, não transforma o futuro em ansiedade, não vive sob a tirania do que “precisa ser feito”. A flor simplesmente floresce — inteira no instante em que existe.

Nos Evangelhos, quando Jesus menciona os “lírios do campo”*, a imagem costuma ser lida de forma religiosa. No entanto, ela também pode ser compreendida como uma observação profundamente humana e racional sobre o tempo. 

Os lírios não são um convite à passividade, mas um lembrete sobre os limites do controle. Eles existem fora da lógica da antecipação excessiva, essa que hoje nos esgota antes mesmo que a semana comece.

Grande parte da nossa fadiga não vem do trabalho em si, mas da sua antecipação constante. Vivemos projetando cenários, organizando o amanhã, carregando mentalmente dias que ainda não chegaram. Transformamos o futuro em um campo de obrigações imaginárias, e isso cobra um preço alto: ansiedade, dispersão, cansaço crônico.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 9,3 % da população brasileira convive com transtornos de ansiedade, percentual superior à média global e que indica como o tema da antecipação excessiva do futuro tem impacto real na vida de muitas pessoas.

O nosso domingo — mais do que um dia da semana — pode ser entendido como uma interrupção simbólica dessa lógica. Um espaço onde não se exige produtividade, onde o tempo não precisa ser útil, onde a vida pode se sustentar em coisas simples: o convívio, a conversa sem pressa, o riso, o descanso, o prazer sem culpa.

A flor silvestre, simples e discreta, não compete com palácios nem busca reconhecimento. Ainda assim, — ou justamente por isso — carrega uma beleza inteira. Ela nos lembra que há valor em existir sem excesso de metas, sem constante autoavaliação, sem transformar cada instante em preparação para outro.

Talvez aprender com os lírios do campo seja menos sobre fé e mais sobre lucidez. Sobre reconhecer que nem tudo precisa ser previsto, planejado ou dominado. Que a vida também acontece quando estamos presentes, atentos e disponíveis ao agora.

Em um mundo que nos empurra para a urgência permanente, florescer no instante pode ser um gesto silencioso de resistência.


Quem sofre pelo Futuro ou Rumina o Passado destrói o único tempo em que é possível ser feliz, saudável e desestressado: o presente.” (frase atribuída ao escritor e psiquiatra Augusto Cury, conforme extraído de uma postagem no YouTube)






Ótimo domingo a tod@s e aproveitem intensamente cada momento desse dia que se chama hoje.


(*) Evangelho segundo Mateus, capítulo 6, verso 28: "Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem." (NVI)

📷: Rodrigo Luz (nenhum direito reservado). Podem compartilhar livremente as fotos das flores do meu quintal.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Trump, Gaza e o Conselho da Paz: Entre o poder internacional e a soberania palestina



O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente a criação do chamado Conselho da Paz, órgão internacional destinado a supervisionar o governo tecnocrático da Faixa de Gaza. A iniciativa, que já incluiu nomes como o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e líderes como Marco Rubio, propõe uma governança transitória da região marcada por conflitos históricos e crises humanitárias. O convite estendeu-se também ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, ao argentino Javier Milei e ao turco Recep Tayyip Erdogan, embora o governo brasileiro ainda não tenha se posicionado oficialmente.


Um plano distante da criação de um Estado palestino

Apesar da retórica de “paz e estabilidade”, o plano de Trump não prevê a criação de um Estado palestino soberano, nem mesmo após um período de transição supervisionada. Gaza permaneceria sob a administração de tecnocratas e supervisão internacional, enquanto Israel manteria influência sobre a segurança do território. O Hamas, apesar da pressão internacional, ainda permanece ativo em diversas áreas de Gaza, mantendo funções administrativas e certo poder local.

Essa ausência de soberania efetiva contrasta diretamente com a solução de dois Estados, defendida historicamente pelo Brasil, por grande parte da comunidade internacional e reiterada em fóruns da ONU. Enquanto a política brasileira sempre apoiou a coexistência de Israel e Palestina como Estados independentes (Lula tem reiterado o apoio a dois Estados), o plano de Trump limita a autodeterminação palestina e mantém o controle de fato nas mãos de atores internacionais e do próprio governo americano.


A presença de Tony Blair e o peso simbólico do Conselho

A inclusão de Tony Blair é um elemento particularmente controverso. O ex-primeiro-ministro britânico é lembrado no Oriente Médio por seu papel na Guerra do Iraque, e sua participação em um órgão que supervisionaria a governança palestina suscita desconfiança. Para críticos, a presença de Blair reforça a percepção de interferência externa e “colonialismo” moderno, em vez de uma solução que respeite a soberania local.


O dilema brasileiro: riscos e benefícios

Para o Brasil, o convite para integrar o Conselho da Paz apresenta benefícios diplomáticos claros, incluindo a oportunidade de se colocar como mediador internacional e reforçar sua imagem global. No entanto, os riscos são igualmente relevantes. Participar de um órgão que supervisiona Gaza sem garantir soberania palestina pode ser interpretado como um desalinhamento da política histórica do país, que apoia a solução de dois Estados.

Além disso, há implicações internas: aceitar o convite pode gerar debates sobre neutralidade diplomática e alinhamento com os Estados Unidos, enquanto recusar poderia ser interpretado como ausência de protagonismo internacional. A decisão exigirá, portanto, uma avaliação cuidadosa do Itamaraty, envolvendo análise de riscos políticos, geopolíticos e humanitários.


Conclusão: entre pragmatismo e princípios

O plano de Trump para Gaza, com seu Conselho da Paz, representa um movimento audacioso na diplomacia internacional, combinando política, segurança e reconstrução humanitária. No entanto, sua distância da criação de um Estado palestino soberano, a presença de figuras controversas e a manutenção do poder de Israel sobre a região colocam limites claros à sua legitimidade.

Para o Brasil, a participação no conselho poderá ser uma oportunidade estratégica, mas desde que seja ponderada frente à política histórica de apoio à solução de dois Estados, ao respeito à autodeterminação palestina e à percepção internacional sobre imparcialidade diplomática. Em última análise, o desafio será equilibrar pragmatismo político e princípios históricos de soberania e direitos civis, evitando transformar uma iniciativa de estabilidade em um instrumento de controvérsia internacional.

Há 80 anos, o CSNU iniciava com o Brasil na mesa: da esperança à crise de Gaza 🇺🇳🇧🇷



Hoje, 17 de janeiro de 2026, celebramos 80 anos da primeira sessão do Conselho de Segurança da ONU (17/01/1946, Church House, Londres). Criado após a Segunda Guerra Mundial, o órgão nasceu com a missão de manter a paz global. O Brasil, como um dos seis membros não permanentes iniciais, participou ativamente, ajudando a eleger o presidente temporário (Austrália) e definir regras de procedimento – um marco histórico para nossa diplomacia multilateral.


Primeiros passos e o papel brasileiro

Logo após a sessão inaugural, o Conselho enfrentou sua primeira crise real: o Irã em 1946, quando tropas soviéticas permaneceram além do prazo acordado no norte do país. O CSNU mediou a retirada, e o Brasil apoiou resoluções multilaterais, defendendo a soberania e o diálogo pacífico, princípios que ecoam até hoje na nossa Constituição de 1946. Foi o primeiro teste concreto do Conselho: quando as potências cooperam (EUA, URSS, Reino Unido, China, França), a ONU pode atuar com eficácia.


Oriente Médio e limites da ONU

Em 1947, o Plano de Partilha da Palestina criou o Estado de Israel, mas também plantou as sementes de conflitos duradouros. Ao longo das décadas, o Conselho enfrentou vetos e disputas entre potências, que travaram decisões sobre o conflito israelo-palestino. 

Atualmente, em Gaza (2023-2026), agências como UNRWA e UNICEF prestam assistência humanitária, mas resoluções do Conselho frequentemente não são implementadas, bloqueadas por interesses estratégicos.

O Brasil propõe reformas, como a redução do poder de veto e maior representação do Sul Global, defendendo soluções multilaterais e inclusivas.


Brasil hoje: hora de liderar?

Como potência emergente, apoiamos a paz e os direitos palestinos, mas sem assento permanente no CSNU, nossa voz ainda encontra limites. A experiência de 1946 nos inspira: a ONU pode ser um espaço de mediação eficaz, mas somente se houver compromisso real das potências mundiais.

📜 Há 136 anos: o Encilhamento e os primeiros tremores da República



Em 17 de janeiro de 1890, nos albores da República — há exatos 136 anos —, Ruy Barbosa, então ministro da Fazenda, lançava um plano ousado para modernizar o Brasil. A proposta buscava acelerar a industrialização, expandir o crédito e injetar ideias liberais na transição do Império. O que começou como ambição iluminista revelou, porém, as fragilidades de uma nação em gestação.


O Encilhamento

O plano, conhecido como Encilhamento, provocou expansão monetária galopante, especulação em bancos e empresas fictícias, e uma bolha que terminou em inflação corrosiva. O colapso minou a confiança na jovem República, avivou tensões políticas e expôs o fosso entre progressismo e instituições débeis — ecoando o alerta do próprio Barbosa de que a liberdade econômica sem freios pode virar tirania.


Ruy Barbosa: além do Encilhamento

Ruy, contudo, transcende esse episódio. Jurista genial, baluarte do Estado de Direito, da imprensa livre e do constitucionalismo, teve papel decisivo na Constituição de 1891 e brilhou na Conferência de Haia (1907). Seu legado — lei, educação e liberdades — mostra que grandes visões colidem com os limites do tempo, mas permanecem inspiradoras.


Lições históricas

O Encilhamento simboliza os tropeços da republicanização brasileira: o choque entre modernidade importada, interesses oligárquicos e instabilidade institucional. Hoje, suas lições sobre regulação, confiança pública e o custo das ilusões financeiras continuam atuais, especialmente em tempos de crises cíclicas.


🗓️ 17/01/1890
📚 Economia, Direito e República


OBS: Charge retratando Ruy Barbosa, então ministro da Fazenda, tentando equilibrar as finanças do país.