Páginas

sábado, 1 de agosto de 2026

Educação em tempo integral: um direito das crianças e um compromisso com o futuro do Rio de Janeiro



"A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto." — Darcy Ribeiro


A provocação de Darcy Ribeiro continua atual porque nos obriga a fazer uma escolha: aceitar esse diagnóstico como definitivo ou trabalhar para transformá-lo.

Toda criança nasce com potencial para aprender, criar e transformar o mundo. O que muitas vezes diferencia seu futuro não é o talento, mas as oportunidades que recebe ao longo da vida.

Foi pensando nisso que decidi conhecer e assinar o manifesto em defesa da educação em tempo integral e da revitalização dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). 


assina.org/emdefesadociep


Mais do que uma campanha ou uma iniciativa política, a proposta me levou a refletir sobre uma questão que deveria unir toda a sociedade: que educação queremos oferecer às futuras gerações?

Independentemente das preferências partidárias de cada cidadão, a educação pública é um tema que diz respeito a todos nós. O futuro do Rio de Janeiro será construído, antes de tudo, nas salas de aula.


Educação não é favor. É um direito!

A Constituição Federal de 1988 não trata a educação como um benefício concedido pelo Estado. Ela a reconhece como um direito fundamental de todos e um dever do poder público e da família, devendo ser promovida com a colaboração da sociedade, conforme previsto no artigo 205 da Lei Maior do nosso país:


Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.


Quando a própria Constituição determina prioridade absoluta aos direitos das crianças e dos adolescentes (art. 227), isso significa que investir na infância não é uma opção política entre tantas outras. É uma obrigação constitucional.

Nesse contexto, a educação em tempo integral deve ser compreendida como um instrumento para tornar esse direito mais efetivo, especialmente para crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade social.

Vale ressaltar que essa compreensão foi incorporada também pelo Plano Nacional de Educação (Lei Federal nº 13.005/2014), que, há doze anos atrás, estabeleceu entre suas metas a ampliação da educação em tempo integral. 

A Meta 6 do PNE prevê que o país busque oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, atendendo pelo menos 25% dos estudantes da educação básica. 

Embora o período original do plano tenha se encerrado em 2024, o Congresso Nacional ainda discute um novo Plano Nacional de Educação para a próxima década, mantendo a expansão da educação integral entre os temas centrais das políticas educacionais brasileiras.


O legado dos CIEPs

É impossível falar de educação em tempo integral no Rio de Janeiro sem recordar a visão de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Darcy Ribeiro costumava afirmar que a crise da educação brasileira não era uma crise propriamente dita, mas um projeto histórico de exclusão social. Em sua visão, negar educação de qualidade às camadas populares significava perpetuar desigualdades e limitar o desenvolvimento nacional. Por isso, defendia uma escola pública capaz de acolher integralmente a criança, oferecendo não apenas ensino, mas também alimentação, cultura, esporte, saúde e proteção social. Essas ideias estão presentes em obras como O Livro dos CIEPs, nas quais o autor apresenta a educação como prioridade estratégica para o país.

Os CIEPs nasceram da compreensão de que muitas crianças brasileiras não precisavam apenas de mais horas de aula. Precisavam de uma escola capaz de acolher integralmente seu desenvolvimento.

A proposta reunia ensino, alimentação, atividades culturais, esportivas, acompanhamento social e um ambiente seguro durante grande parte do dia.

Não se tratava apenas de construir prédios projetados por Oscar Niemeyer. Tratava-se de construir oportunidades.

Décadas depois, muitos desses prédios continuam espalhados pelo Estado. Alguns permanecem cumprindo sua função educacional, outros foram adaptados para diferentes usos e diversos necessitam de investimentos em infraestrutura e modernização. Isso demonstra que o debate atual não se limita à preservação de um patrimônio arquitetônico concebido por Niemeyer, mas envolve a recontextualização de uma ideia de educação integral para as necessidades pedagógicas do presente.

Mais do que discutir o passado, talvez seja o momento de perguntar: como atualizar esse legado para os desafios do século XXI?


Educação integral não significa apenas permanecer mais tempo na escola

Existe um equívoco frequente quando se fala em educação em tempo integral.

Não basta aumentar o número de horas que o aluno permanece dentro da escola.

Educação integral pressupõe qualidade.

Significa oferecer ensino consistente, alimentação adequada, atividades esportivas, cultura, acesso à tecnologia, incentivo à leitura, formação cidadã, acompanhamento pedagógico e, quando necessário, integração com políticas públicas de saúde e assistência social.

O objetivo não é apenas ocupar o tempo da criança.

É desenvolver plenamente suas capacidades intelectuais, físicas, culturais, sociais e emocionais.

Essa concepção dialoga diretamente com o entendimento contemporâneo de educação integral, segundo o qual a formação da criança deve contemplar dimensões cognitivas, culturais, físicas, sociais e emocionais. A ampliação da jornada escolar somente faz sentido quando acompanhada de um projeto pedagógico capaz de promover o desenvolvimento humano em sua integralidade.

Vale ressaltar que a própria realidade fluminense demonstra que a ampliação da educação integral continua sendo um desafio. Levantamentos recentes do Panorama de Dados Educacionais indicam que cerca de 39% das escolas públicas que oferecem Ensino Médio no Estado funcionam em regime de tempo integral, evidenciando que ainda existe espaço significativo para expansão dessa modalidade, especialmente em regiões socialmente mais vulneráveis.


Um investimento que beneficia toda a sociedade

Os benefícios da educação integral vão muito além da aprendizagem.

Quando uma criança permanece em uma escola estruturada durante todo o dia, sua família também é beneficiada.

Pais e responsáveis conseguem trabalhar com maior tranquilidade, sabendo que seus filhos estão em um ambiente seguro.

A escola torna-se espaço de convivência, proteção e desenvolvimento humano.

Ao mesmo tempo, reduz-se a exposição de crianças e adolescentes às situações de vulnerabilidade existentes nas ruas, especialmente em comunidades marcadas por profundas desigualdades sociais.

Naturalmente, a violência não será resolvida apenas pela educação. Segurança pública exige políticas integradas, geração de empregos, assistência social, urbanismo e fortalecimento das instituições.

Mas também é verdade que investir na infância costuma produzir efeitos positivos duradouros para toda a sociedade.

Diversos estudos em educação demonstram que escolas de tempo integral contribuem para reduzir a evasão escolar, fortalecer os vínculos entre escola e comunidade e ampliar as oportunidades de aprendizagem. 

No caso dos CIEPs, sua proposta inovadora influenciou políticas públicas posteriores em diferentes esferas de governo, tornando-se uma das principais referências brasileiras sobre educação integral


O que os números revelam sobre a educação no estado

O debate sobre a educação pública não pode ser conduzido apenas por impressões ou discursos. É preciso olhar para os indicadores.

Um dos principais instrumentos de avaliação da educação básica brasileira é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), elaborado pelo Inep. O índice reúne dois fatores essenciais: o desempenho dos estudantes nas avaliações nacionais e a capacidade das escolas de garantir sua permanência e progressão escolar.

Os resultados mais recentes mostram que o Estado do Rio de Janeiro ainda enfrenta desafios importantes. No Ensino Médio da rede estadual, o IDEB de 2023 foi de 3,3, abaixo do resultado obtido em 2021 (3,9) e suficiente para colocar o Estado na penúltima posição entre as unidades da Federação.

Evidentemente, esse resultado não significa que todas as escolas estaduais apresentem baixo desempenho. Existem excelentes experiências na rede pública fluminense e profissionais altamente comprometidos com a educação. Também merece destaque a evolução observada na rede municipal da cidade do Rio de Janeiro em diferentes etapas da educação básica.

Os indicadores, porém, revelam que ainda há muito espaço para avançar. Eles reforçam que investir na qualidade da escola pública, na valorização dos educadores, na infraestrutura escolar e na ampliação da educação integral continua sendo um desafio para toda a sociedade.


A importância da participação cidadã

Nenhuma política pública se sustenta apenas pela vontade de um governante.

As grandes transformações acontecem quando a sociedade demonstra que determinado tema merece prioridade.

É justamente nesse contexto que surge o manifesto em defesa dos CIEPs e da educação em tempo integral.

Assinar um abaixo-assinado, por si só, não resolverá os desafios da educação fluminense.

Mas representa uma forma legítima de participação democrática e de demonstração de apoio a uma pauta que merece permanecer no centro do debate público.


Um compromisso com as próximas gerações

Discutir educação é discutir o futuro.

As crianças que hoje ocupam as salas de aula serão, em poucos anos, os profissionais, pesquisadores, professores, empreendedores, trabalhadores e governantes responsáveis pelos rumos do Estado do Rio de Janeiro.

Por isso, investir na educação pública não deve ser visto como despesa, mas como um dos investimentos sociais mais importantes que uma sociedade pode realizar.

Os CIEPs representam um capítulo importante dessa história. Mais do que preservar um patrimônio arquitetônico, o desafio consiste em atualizar a ideia de educação integral para as necessidades do século XXI, fortalecendo escolas capazes de ensinar, acolher, proteger e preparar nossas crianças e adolescentes para a vida.

Independentemente das preferências políticas de cada cidadão, acredito que a educação pública de qualidade deve permanecer como uma política de Estado, construída com planejamento de longo prazo e participação da sociedade.

Foi por essa razão que decidi assinar o manifesto em defesa da educação em tempo integral.

Se você também acredita que a escola pública merece voltar ao centro das prioridades do Rio de Janeiro, convido-o a conhecer essa iniciativa:


assina.org/emdefesadociep


Toda sociedade escolhe diariamente onde investir seus recursos e suas esperanças.

Escolher a educação é escolher o futuro.

🌹📚



Saiba mais — O que prevê a Meta 6 do Plano Nacional de Educação

A Meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE) prevê oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% (vinte e cinco por cento) dos (as) alunos (as) da educação básica, tendo como estratégias:

6.1) promover, com o apoio da União, a oferta de educação básica pública em tempo integral, por meio de atividades de acompanhamento pedagógico e multidisciplinares, inclusive culturais e esportivas, de forma que o tempo de permanência dos (as) alunos (as) na escola, ou sob sua responsabilidade, passe a ser igual ou superior a 7 (sete) horas diárias durante todo o ano letivo, com a ampliação progressiva da jornada de professores em uma única escola;

6.2) instituir, em regime de colaboração, programa de construção de escolas com padrão arquitetônico e de mobiliário adequado para atendimento em tempo integral, prioritariamente em comunidades pobres ou com crianças em situação de vulnerabilidade social;

6.3) institucionalizar e manter, em regime de colaboração, programa nacional de ampliação e reestruturação das escolas públicas, por meio da instalação de quadras poliesportivas, laboratórios, inclusive de informática, espaços para atividades culturais, bibliotecas, auditórios, cozinhas, refeitórios, banheiros e outros equipamentos, bem como da produção de material didático e da formação de recursos humanos para a educação em tempo integral;

6.4) fomentar a articulação da escola com os diferentes espaços educativos, culturais e esportivos e com equipamentos públicos, como centros comunitários, bibliotecas, praças, parques, museus, teatros, cinemas e planetários;

6.5) estimular a oferta de atividades voltadas à ampliação da jornada escolar de alunos (as) matriculados nas escolas da rede pública de educação básica por parte das entidades privadas de serviço social vinculadas ao sistema sindical, de forma concomitante e em articulação com a rede pública de ensino;

6.6) orientar a aplicação da gratuidade de que trata o art. 13 da Lei nº 12.101, de 27 de novembro de 2009, em atividades de ampliação da jornada escolar de alunos (as) das escolas da rede pública de educação básica, de forma concomitante e em articulação com a rede pública de ensino;

6.7) atender às escolas do campo e de comunidades indígenas e quilombolas na oferta de educação em tempo integral, com base em consulta prévia e informada, considerando-se as peculiaridades locais;

6.8) garantir a educação em tempo integral para pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na faixa etária de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos, assegurando atendimento educacional especializado complementar e suplementar ofertado em salas de recursos multifuncionais da própria escola ou em instituições especializadas;

6.9) adotar medidas para otimizar o tempo de permanência dos alunos na escola, direcionando a expansão da jornada para o efetivo trabalho escolar, combinado com atividades recreativas, esportivas e culturais.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O que dizem os números? Uma leitura do Relatório Fiscal de Mangaratiba

 


Na data de ontem, dia 30 de julho de 2026, a Prefeitura de Mangaratiba publicou, em edição suplementar n.° 2565 do Diário Oficial do Município, o Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) referente ao terceiro bimestre do exercício financeiro de 2026. Trata-se de um documento técnico, previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), mas que deveria interessar a todos os cidadãos, pois mostra como estão sendo arrecadados e aplicados os recursos públicos.

A publicação também merece registro sob o aspecto da transparência. A LRF determina que o Relatório Resumido da Execução Orçamentária seja elaborado ao final de cada bimestre e publicado em até trinta dias após o encerramento do período correspondente. O cumprimento desse prazo é importante porque permite que cidadãos, vereadores, Tribunal de Contas, Ministério Público e demais órgãos de controle acompanhem a execução do orçamento ainda durante o exercício, e não apenas quando as contas anuais já estiverem encerradas.

Embora o relatório seja composto por dezenas de páginas de tabelas e indicadores, alguns números ajudam a compreender a situação financeira do Município de forma bastante objetiva.

Um primeiro aspecto que chama a atenção é que a arrecadação continua apresentando bom desempenho. As receitas realizadas até o encerramento do terceiro bimestre superam seiscentos milhões de reais, indicando que a atividade financeira do Município segue em ritmo consistente.

Outro indicador relevante é a Receita Corrente Líquida (RCL), que alcançou aproximadamente R$ 888 milhões nos últimos doze meses. Esse é um dos principais parâmetros utilizados pela Lei de Responsabilidade Fiscal para aferição de diversos limites legais, como despesas com pessoal, endividamento e capacidade de contratação de operações de crédito. Embora o RREO não trate de todos esses limites — alguns são detalhados no Relatório de Gestão Fiscal (RGF) — a evolução da RCL é um importante indicador da capacidade financeira do Município.

Além da Receita Corrente Líquida, outro indicador importante é o resultado orçamentário. Até junho, as receitas arrecadadas permaneciam superiores às despesas efetivamente liquidadas, produzindo um superávit orçamentário da ordem de R$ 250 milhões. Em outras palavras, naquele momento do exercício o Município gastava menos do que arrecadava, preservando sua capacidade financeira.

Também merece destaque o resultado primário positivo, que alcançou aproximadamente R$ 221,9 milhões, acompanhado de um resultado nominal igualmente favorável, da ordem de R$ 252,7 milhões. Em conjunto, esses indicadores demonstram que, sob a ótica fiscal, o Município apresentava equilíbrio financeiro durante o período analisado.

Na área da saúde, o Município já havia aplicado aproximadamente 17,66% da receita de impostos e transferências constitucionais em ações e serviços públicos de saúde, percentual superior ao mínimo constitucional de 15%. Esse é um indicador importante porque demonstra o cumprimento antecipado da exigência constitucional para essa política pública.

Na educação, entretanto, o cenário merece acompanhamento. O relatório registra aplicação de aproximadamente 17,49% da receita resultante de impostos e transferências constitucionais em Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE), percentual ainda inferior ao mínimo constitucional anual de 25%.

É importante esclarecer esse ponto para evitar interpretações equivocadas. O percentual não significa, necessariamente, que a Constituição tenha sido descumprida, pois o limite constitucional é verificado ao final do exercício financeiro. Nos primeiros bimestres é comum que parte dos investimentos em educação seja executada apenas no decorrer do segundo semestre. Ainda assim, os números indicam que será necessário ampliar a execução dessas despesas até dezembro para que o Município alcance o mínimo exigido.

Somente os próximos Relatórios Resumidos da Execução Orçamentária e, posteriormente, a prestação de contas anual permitirão verificar se essa trajetória será suficiente para o cumprimento do mínimo constitucional ao encerramento do exercício.

Outro dado positivo refere-se ao FUNDEB. O Município já havia destinado mais de 70% dos recursos do fundo para a remuneração dos profissionais da educação básica, atendendo ao percentual mínimo estabelecido pela legislação.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito à capacidade financeira do Município para honrar seus compromissos. O relatório aponta disponibilidade financeira e resultados fiscais positivos, mas a análise das contas públicas não pode se limitar ao caixa existente em determinado momento. Também é importante acompanhar a evolução dos restos a pagar, das obrigações assumidas e do comportamento da arrecadação prevista para o restante do exercício, pois esses elementos influenciam a liquidez do Município e sua capacidade de executar políticas públicas.

O demonstrativo específico de Parcerias Público-Privadas constante do RREO não registra contratos, ativos, passivos ou impactos fiscais decorrentes dessa modalidade de contratação. Além disso, até o encerramento do terceiro bimestre permaneciam inscritos aproximadamente R$ 64 milhões em restos a pagar, após pagamentos superiores a R$ 46 milhões realizados ao longo do exercício. Esses valores devem ser analisados em conjunto com a disponibilidade financeira demonstrada no próprio RREO e com a evolução das despesas ao longo do exercício. Isoladamente, não permitem concluir pela existência de desequilíbrio fiscal, mas sua evolução deverá continuar sendo acompanhada nos próximos bimestres e na prestação de contas anual.

Naturalmente, um relatório fiscal não mede a qualidade dos serviços públicos prestados à população. Ele informa como os recursos estão sendo arrecadados e executados, mas não responde, por si só, se as políticas públicas estão alcançando os resultados esperados. Essa avaliação depende de outros indicadores, da fiscalização dos órgãos de controle e da participação da própria sociedade.

É justamente por isso que documentos como o RREO merecem ser conhecidos. A transparência não se esgota na publicação das tabelas oficiais; ela se completa quando os cidadãos conseguem compreender o significado desses números e acompanhar sua evolução ao longo do ano.

O controle social não consiste apenas em apontar problemas. Também significa reconhecer avanços, identificar pontos que exigem atenção e contribuir para que a administração pública seja cada vez mais transparente, eficiente e comprometida com o interesse coletivo.


📝 Algumas perguntas que merecem ser feitas...

A publicação do RREO não encerra o debate. Pelo contrário, ela abre novas perguntas que merecem ser acompanhadas ao longo do ano, entre elas:

1) O Município conseguirá elevar a aplicação em educação até atingir o mínimo constitucional de 25% ao final do exercício?

2) Quais investimentos ainda serão executados no segundo semestre do ano?

3) Os restos a pagar estão diminuindo ou aumentando em relação aos exercícios anteriores?

4) As receitas previstas para o restante do ano têm elevado grau de realização ou dependem de fatores extraordinários?

5) Como evoluirão os gastos com saúde, educação, assistência social e infraestrutura nos próximos bimestres?

6) Há despesas relevantes contratadas, mas ainda não liquidadas, que poderão alterar o resultado fiscal até dezembro?

7) As metas previstas no Plano Plurianual e na Lei Orçamentária Anual estão sendo efetivamente executadas?

8) A arrecadação acima do esperado decorre principalmente de receitas permanentes ou de ingressos extraordinários?

9) Como evoluirão a Receita Corrente Líquida e os indicadores fiscais até o encerramento do exercício?

Essas perguntas não têm o objetivo de antecipar conclusões, mas de orientar o acompanhamento permanente das contas públicas. O controle social é mais eficaz quando se baseia em informações, indicadores e documentos oficiais, permitindo que a sociedade acompanhe não apenas quanto se arrecada e quanto se gasta, mas também se os recursos públicos estão sendo utilizados de forma eficiente e em benefício da coletividade.

É importante lembrar que o RREO representa uma fotografia da execução orçamentária em determinado momento do exercício financeiro. Algumas obrigações ainda serão assumidas, receitas continuarão sendo arrecadadas e investimentos poderão ser acelerados até dezembro. Por isso, a análise bimestral não substitui a apreciação das contas anuais, mas permite acompanhar a gestão em tempo real e identificar tendências que merecem atenção.

Por fim, vale ressaltar que questões como passivos contingentes — por exemplo, ações judiciais capazes de gerar despesas futuras — costumam ser analisadas em outros instrumentos da gestão fiscal, razão pela qual também merecem acompanhamento quando se pretende formar um diagnóstico completo da situação financeira do Município.

O RREO é um dos principais instrumentos de acompanhamento das contas públicas, mas não é o único. A compreensão da situação fiscal do Município também depende da análise do Relatório de Gestão Fiscal (RGF), da Lei de Diretrizes Orçamentárias, da prestação de contas anual e de outros documentos oficiais. Somente o conjunto dessas informações permite formar um diagnóstico completo da gestão financeira municipal.


Nota do autor: 

Na presente data (31/07/2026), foram protocolados dois pedidos de informação perante a Ouvidoria do Município, com o objetivo de obter esclarecimentos técnicos sobre indicadores constantes do Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) e sobre a execução orçamentária prevista para o segundo semestre:

• Protocolo nº 000381/2026: solicita esclarecimentos sobre a aplicação em Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE), investimentos em educação, restos a pagar, arrecadação e Parcerias Público-Privadas (PPP).

• Protocolo nº 000382/2026: solicita esclarecimentos sobre as ações previstas para o segundo semestre, despesas empenhadas e ainda não liquidadas, evolução da Receita Corrente Líquida (RCL), dos resultados primário e nominal, bem como sobre a execução das metas previstas na Lei Orçamentária Anual (LOA) e no Plano Plurianual (PPA).

As respostas oficiais, quando encaminhadas, poderão subsidiar novas análises sobre a execução orçamentária do Município.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Gaspar – A longa travessia



Os homens me deram um nome.

Chamam-me Gaspar.

Não foi minha mãe quem o escolheu. Ela jamais precisou de nomes. Na floresta, ninguém chama ninguém. Cada ser conhece o outro pelo cheiro, pelos passos sobre as folhas, pelo rugido que atravessa a noite, pelas marcas deixadas nos troncos e na terra úmida.

Os homens, porém, gostam de dar nomes às coisas. Também colocaram em meu pescoço um objeto estranho, frio e pesado. Não doía, mas eu o sentia a cada salto. Não sabia que, dali em diante, olhos invisíveis me seguiriam do céu. Enquanto eu caminhava entre árvores, rios e montanhas, outros caminhavam comigo por meio de pontos luminosos sobre um mapa.

Eles mediriam minha viagem.

Contariam meus dias.

Calculavam quilômetros.

Eu jamais pensei em quilômetros.

Pensei apenas em sobreviver.


Capítulo 1 – Quando a floresta deixou de ser minha

Nasci onde a floresta conversa com o Cerrado.

Ali aprendi que cada cheiro tem um significado.

O vento pode anunciar chuva.

O voo das aves denuncia uma presa.

O silêncio repentino pode significar que outro predador está por perto.

Minha mãe me ensinou tudo isso.

Durante muito tempo, pensei que aquele mundo seria meu para sempre.

Mas a floresta muda.

E nós também.

Quando fiquei adulto, comecei a encontrar marcas que não eram minhas.

Arranhões recentes nas árvores.

Urina de outro macho.

Pegadas maiores.

Mais pesadas.

Mais confiantes.

Não precisei vê-lo para entender.

Outro havia chegado antes de mim.

Por alguns dias seguimos invisíveis um ao outro.

Eu caçava.

Ele também.

Eu rugia.

Ele respondia.

Nenhum de nós queria morrer.

Mas nenhum de nós aceitaria dividir aquele lugar.

Minha mãe já havia partido havia muito tempo.

As fêmeas evitavam minha aproximação.

A floresta continuava a mesma.

Quem mudara era eu.

Numa manhã, subi sobre uma pedra alta.

O vento trouxe todos os cheiros conhecidos.

As árvores.

Os rios.

As antas.

Os queixadas.

Os macacos.

Era minha casa.

Mas já não era meu lugar.

Então fiz o que incontáveis onças antes de mim talvez tenham feito desde o começo do tempo.

Virei-me.

E caminhei.

Sem saber onde terminaria.


Capítulo 2 – A estrada invisível

Os homens talvez pensem que escolhi um destino.

Não escolhi.

Nenhuma voz me dizia para onde ir.

Nenhum mapa existia diante dos meus olhos.

Mas havia algo mais antigo do que qualquer pensamento.

Uma força silenciosa que empurrava minhas patas sempre para a frente.

A floresta parecia abrir caminhos invisíveis.

Cada rio atravessado mostrava outro rio.

Cada colina escondia outra.

Cada amanhecer trazia o cheiro de terras desconhecidas.

Passei por lugares onde nenhuma onça havia deixado marcas recentes.

Passei por lugares onde outras haviam passado muitos anos antes.

Não conhecia fronteiras.

Os homens desenham linhas sobre papéis.

A floresta nunca aprendeu essas linhas.

Nem eu.


Capítulo 3 – A terra ferida

Foi então que o cheiro mudou.

Primeiro veio a fumaça.

Depois um perfume estranho, áspero, que queimava o nariz.

Em seguida, o silêncio.

Não o silêncio tranquilo da mata depois da chuva.

Era um vazio.

Onde antes havia árvores, encontrei céu demais.

Onde antes cantavam araras, ouvi motores.

Onde antes caminhavam antas, encontrei bois.

Olhei ao redor.

O chão ainda era verde.

Mas não era floresta.

Era um campo enorme, sem esconderijos.

Sem sombra.

Sem vida.

Nunca havia sentido tanto medo.

Na mata, eu era invisível.

Ali, qualquer olhar podia me encontrar.

Esperei o cair da noite.

Atravessei correndo.

As máquinas não dormiam.

Luzes cortavam a escuridão.

Cercas dividiam o mundo.

Passei por troncos queimados.

Árvores gigantes deitadas sobre a terra.

Ninhos vazios.

Galhos carbonizados.

Pela primeira vez compreendi que existia um predador que não caçava para comer.

Um predador que transformava a própria floresta.

Não senti raiva.

Os animais não conhecem a raiva como os homens.

Senti apenas uma ausência.

Como se uma parte do mundo tivesse desaparecido.

Continuei andando.

Porque parar significava morrer.

Talvez eu procurasse um novo território.

Talvez procurasse uma companheira.

Talvez apenas obedecesse ao chamado antigo que acompanha todos os seres vivos desde que a primeira vida deixou o mar para explorar a terra.

Não sei.

Os homens ainda discutem por que caminhei tanto.

Escrevem artigos.

Traçam mapas.

Formulam hipóteses.

Talvez nunca descubram.

Porque algumas viagens não começam por uma decisão.

Começam porque permanecer já não é possível.


Capítulo 4 – O rio que não fazia perguntas

Depois do campo aberto, encontrei um rio.

Não sei seu nome.

Os homens dão nomes aos rios.

Nós apenas os atravessamos.

A correnteza era forte. A água trazia o cheiro de peixes, de barro e de chuva distante. Entrei devagar. A corrente tentou me levar. Continuei nadando.

Quando alcancei a outra margem, olhei para trás.

A água havia apagado minhas pegadas.

Pensei que talvez fosse assim com a vida. Cada dia apaga um pouco do caminho percorrido. O que permanece não são as marcas na terra, mas aquilo que aprendemos enquanto caminhamos.

Naquela noite, ouvi o canto de um uirapuru.

Era a primeira vez em muitos dias que a floresta parecia completa.

Dormi em paz.


Capítulo 5 – Os donos do fogo

O cheiro chegou antes da luz.

Depois vieram estalos.

Galhos caindo.

Árvores respirando pela última vez.

Escondi-me entre arbustos enquanto o céu mudava de cor.

Nunca compreendi por que alguns homens queimam aquilo que lhes dá água, sombra e alimento.

Vi animais correndo em todas as direções.

Um tatu atravessou meu caminho sem perceber minha presença.

Macacos gritavam do outro lado da fumaça.

A caça havia desaparecido.

Naquele dia, não comi.

Na manhã seguinte, caminhei por uma floresta silenciosa.

O chão ainda estava quente.

As folhas tinham se transformado em cinzas.

Não havia pássaros.

Não havia insetos.

Nem mesmo o vento parecia querer permanecer ali.

Foi naquele momento que percebi que a floresta também pode adoecer.


Capítulo 6 – Os olhos do céu

Muito longe dali, homens e mulheres observavam pequenas luzes sobre uma tela.

— Ele continua andando...

— Já passou de mil quilômetros.

— Por que não para?

Cada ponto representava um passo meu.

Eles conheciam minha posição.

Mas não conheciam meus pensamentos.

Não sabiam da onça que encontrei certa madrugada e que preferiu evitar a luta.

Não sabiam do veado que consegui caçar depois de três dias de jejum.

Não sabiam do temporal que me obrigou a permanecer imóvel durante dois dias.

As máquinas registravam meu caminho.

A floresta registrava minha vida.

São coisas diferentes.


Capítulo 7 – A velha sumaúma

Um dia encontrei uma árvore tão grande que precisei andar muito para contorná-la.

Seu tronco parecia sustentar o céu.

Deitei-me junto às raízes.

Ali havia um cheiro antigo.

Muito antigo.

Imaginei quantas gerações de onças teriam descansado naquele mesmo lugar.

Quantas antas.

Quantas araras.

Quantos povos humanos.

A árvore permanecia.

Nós passávamos.

Foi ali que compreendi uma verdade simples.

Nenhum ser vive sozinho.

A onça depende do veado.

O veado depende da floresta.

A floresta depende da chuva.

A chuva depende das árvores.

Até os rios parecem nascer das folhas.

Se uma parte desaparece, todas as outras começam lentamente a desaparecer também.


Capítulo 8 – O rugido distante

Numa noite sem lua ouvi outro macho.

Seu rugido ecoou entre as montanhas.

Parei.

Respondi.

Durante alguns minutos apenas o silêncio respondeu.

Sorri por dentro, do jeito que as onças sorriem.

Eu já não era o jovem que havia deixado sua terra.

Agora sabia escolher quando lutar.

Sabia quando recuar.

Sabia quando esperar.

Continuei caminhando.

Não porque fugisse daquele macho.

Mas porque compreendi que ainda não era aquele o meu lugar.


Capítulo 9 – As estrelas

Os homens costumam olhar para as estrelas procurando respostas.

Nós também as vemos.

Mas não perguntamos nada.

Naquela noite, deitado sobre uma pedra aquecida pelo sol do dia, olhei para o céu.

As mesmas estrelas haviam iluminado minha mãe.

As mesmas estrelas brilhavam sobre os cientistas que acompanhavam minha viagem.

Talvez também iluminassem os homens que derrubavam árvores.

O céu era o mesmo.

O mundo abaixo dele é que mudava.

Adormeci imaginando quantos caminhos ainda existiam além do horizonte.

Sem saber que, muito antes de minha jornada terminar, ela já havia começado a ensinar alguma coisa aos homens.


Capítulo 10 – O lugar onde o vento parou

Depois de muitos ciclos de chuva e de seca, encontrei uma floresta diferente.

Não era maior.

Nem mais bonita.

Era apenas tranquila.

As árvores voltavam a conversar umas com as outras.

Os rios corriam sem encontrar barragens.

Os bugios anunciavam o amanhecer.

As araras riscavam o céu.

As capivaras voltavam a beber água sem tanta pressa.

Fiquei ali durante muitos dias.

Pela primeira vez desde que deixara minha terra, não senti vontade de continuar caminhando.

Talvez fosse aquele o lugar que eu procurava.

Ou talvez eu apenas tivesse compreendido que nenhuma floresta pertence a uma onça.

É a onça que pertence à floresta.

Marquei árvores.

Caminhei pelas margens dos rios.

Caçei.

Descansei.

Passei a conhecer cada cheiro daquela região.

A viagem terminava.

Outra vida começava.


Capítulo 11 – Os homens do mapa

Muito distante dali, em uma sala iluminada por computadores, homens e mulheres olhavam para uma linha desenhada sobre um mapa.

— Dois mil cento e dez quilômetros...

— Como ele conseguiu?

— O que procurava?

Silêncio.

Nenhum deles sabia responder.

Um pesquisador aproximou o mapa da tela.

Outro comparou imagens de satélite.

Alguém observou as manchas cinzentas onde antes existia floresta.

Outro apontou para os corredores verdes que ainda permaneciam.

Naquele instante compreenderam que a história não era apenas sobre uma onça.

Era sobre um caminho.

E caminhos existem para serem mantidos.

Se as florestas deixarem de se tocar, as onças deixarão de viajar.

Se as onças deixarem de viajar, as populações ficarão isoladas.

E quando uma floresta deixa de conversar com outra, pouco a pouco todas começam a empobrecer.

Gaspar não sabia disso.

Mas sua caminhada havia mostrado algo que nenhum mapa conseguia ensinar sozinho.


Capítulo 12 – O sonho da velha onça

Os anos passaram.

Minha pelagem já não brilhava como antes.

As cicatrizes haviam aumentado.

Aprendi que a força desaparece mais depressa do que a experiência.

Numa tarde quente, adormeci à sombra de uma enorme castanheira.

Sonhei.

No sonho, encontrei minha mãe.

Ela caminhava devagar.

Olhou para mim sem surpresa.

Como se sempre soubesse que um dia eu chegaria até ali.

— Você encontrou o lugar? — perguntaram seus olhos.

Olhei para trás.

Vi rios.

Vi montanhas.

Vi árvores.

Vi também clareiras abertas pelos homens.

Vi fumaça.

Vi estradas.

Vi cercas.

Percebi então que minha viagem nunca fora apenas para encontrar um território.

Eu caminhara para descobrir que toda floresta é uma só.

São os homens que a dividem.

Quando despertei, uma borboleta azul pousou sobre uma folha diante de mim.

Observei-a desaparecer entre as árvores.

Sorri.

Não com os lábios.

Mas com o coração de uma onça.


Epílogo – A história que continua

Hoje, quando os homens contam minha história, dizem que percorri mais de dois mil quilômetros.

Não está errado.

Mas também não está completo.

Não caminhei apenas sobre a terra.

Atravessei rios.

Atravessei estações.

Atravessei florestas intactas e florestas feridas.

Atravessei o medo.

Atravessei a fome.

Atravessei um mundo que muda depressa demais.

Os homens escreveram livros.

Publicaram estudos.

Deram entrevistas.

Meu nome atravessou cidades que jamais conhecerei.

Tudo isso é bonito.

Mas existe algo mais importante.

Enquanto houver uma onça encontrando sombra sob uma samaúma...

Enquanto um rio puder correr livre até outro rio...

Enquanto uma anta deixar pegadas na lama...

Enquanto uma criança puder ouvir um bugio ao amanhecer...

Minha viagem continuará.

Porque nenhuma caminhada termina nas patas de quem a fez.

Ela continua nos passos daqueles que compreenderam seu significado.

No dia em que o colar silenciou, os homens pensaram que minha história havia terminado. Talvez tenha sido apenas o dia em que deixei de ser seguido. A floresta nunca precisou de satélites para saber onde eu estava.

E, se algum dia você caminhar pela Amazônia e ouvir um rugido distante, não tenha tanta certeza de que era outro. Algumas histórias permanecem vivas justamente porque a floresta guarda seus próprios segredos.


📝 Nota do autor

Esta é uma obra de ficção inspirada em um fato real.

Gaspar existiu. Era uma onça-pintada monitorada por pesquisadores que, ao longo de aproximadamente um ano, realizou um deslocamento extraordinário de mais de dois mil quilômetros pela Amazônia e por áreas de transição com o Cerrado. Sua jornada foi registrada por um colar de monitoramento por satélite e deu origem a um importante estudo científico sobre a ecologia e a conservação da espécie.

Os fatos conhecidos terminam aí.

Não sabemos o que Gaspar viu ao atravessar rios, florestas e áreas desmatadas. Não sabemos o que o levou a seguir em frente por tanto tempo, nem o que encontrou ao final da viagem. Como todos os animais, ele não deixou diários, memórias ou testemunhos. Restaram apenas os pontos luminosos marcando seu caminho sobre um mapa.

Todo o restante é imaginação.

Os pensamentos, as emoções, os diálogos silenciosos com a floresta e as reflexões atribuídas a Gaspar pertencem exclusivamente à literatura. Procuram, entretanto, respeitar o conhecimento científico disponível sobre o comportamento das onças-pintadas e sobre os ecossistemas que elas habitam.

Ao escrever esta história, não procurei transformar uma onça em um ser humano. Pelo contrário. Procurei lembrar que existe uma maneira diferente de habitar o mundo: sem mapas, sem fronteiras, sem propriedade, sem ambição. Para Gaspar, o planeta não era dividido em estados, municípios ou países. Havia apenas rios a atravessar, árvores sob as quais descansar, presas a perseguir e perigos a evitar.

Talvez jamais descubramos por que Gaspar percorreu uma distância tão extraordinária. Os cientistas continuarão investigando, e cada nova pesquisa poderá revelar parte desse mistério.

Mas a literatura pode fazer outra pergunta.

Não apenas para onde Gaspar caminhou.

Nem apenas por que caminhou.

Pode perguntar o que sua jornada revela sobre o mundo que compartilhamos.

Se, ao fechar este conto, o leitor olhar para uma floresta com mais respeito, compreender a importância dos corredores ecológicos, ou simplesmente imaginar que cada animal selvagem carrega uma história que nunca conheceremos por completo, então esta narrativa terá alcançado seu propósito.

A ciência nos mostra o caminho percorrido por Gaspar.

A imaginação nos convida a caminhar ao lado dele.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Do debate público ao processo administrativo: a resposta da AGETRANSP sobre a Via Lagos



Há alguns meses publiquei neste blog o artigo "Um vídeo recentemente divulgado nas redes sociais reacendeu o debate sobre a política tarifária da Via Lagos", propondo uma reflexão sobre a política tarifária da Via Lagos. O objetivo não era defender o fim do pedágio nem questionar a concessão da rodovia, mas levantar um debate sobre a forma como determinadas escolhas regulatórias afetam a mobilidade regional.

Na ocasião, procurei mostrar que conceitos aparentemente técnicos — como a definição de "fim de semana" para fins de cobrança diferenciada — possuem efeitos concretos sobre milhares de pessoas que utilizam diariamente a rodovia.

Nos últimos anos, a política tarifária da Via Lagos passou por sucessivos reajustes autorizados pela AGETRANSP, enquanto permaneciam em debate temas como a definição operacional de "fim de semana", a modicidade tarifária e os critérios utilizados para preservar o equilíbrio econômico-financeiro da concessão. Trata-se de questões que afetam diretamente milhares de usuários e que demonstram como decisões regulatórias aparentemente técnicas produzem reflexos concretos sobre a mobilidade regional.

Em vez de limitar essa reflexão às redes sociais, resolvi encaminhá-la à Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes do Estado do Rio de Janeiro (AGETRANSP), por meio da Ouvidoria.

Na tarde de hoje recebi a resposta oficial.


Do debate público à provocação institucional

Em minha manifestação, procurei demonstrar que o debate sobre a Via Lagos poderia ser ampliado.

Não se tratava apenas da tarifa, pois o desafio regulatório vai muito além da simples redução do preço pago pelo usuário. 

Toda concessão deve buscar conciliar dois objetivos igualmente relevantes: de um lado, a modicidade tarifária, que procura assegurar preços justos e acessíveis aos usuários; de outro, a preservação do equilíbrio econômico-financeiro do contrato, indispensável para garantir a adequada prestação do serviço público concedido.

Propus que a Agência avaliasse os impactos territoriais, sociais e econômicos produzidos pelo atual modelo tarifário, especialmente para trabalhadores, moradores da Região dos Lagos e usuários frequentes da rodovia.

Também sugeri que fossem estudadas alternativas relacionadas à modicidade tarifária, à transparência regulatória e até mesmo à realização de consultas ou audiências públicas sobre o tema.

Não por acaso, a própria resposta da AGETRANSP, a qual compartilharei no final do artigo, informa que o estudo atualmente submetido ao Tribunal de Contas do Estado aborda justamente temas como política tarifária, receitas acessórias, taxa interna de retorno (TIR) e equilíbrio contratual.


A resposta da AGETRANSP

A resposta recebida não significa que a Agência concordou com todas as sugestões apresentadas.

Também não representa alteração imediata da política tarifária.

Mas ela demonstra algo igualmente importante: a participação social deixou o campo do debate público para ingressar formalmente no processo administrativo.

No Direito Administrativo, essa participação pode ocorrer por diversos instrumentos, como audiências públicas, consultas públicas, manifestações dirigidas às ouvidorias, pedidos de informação e contribuições apresentadas em processos administrativos. Neste caso, a reflexão inicialmente publicada neste blog foi posteriormente encaminhada à Ouvidoria da AGETRANSP e, segundo a resposta oficial da Agência, suas observações foram registradas e juntadas ao processo administrativo correspondente, passando a integrar os elementos que poderão subsidiar futuras análises e discussões técnicas.

Após análise da manifestação, a Ouvidoria concluiu o atendimento em 29 de julho de 2026, encerrando o procedimento iniciado em maio.

Esse talvez seja o aspecto mais relevante.

Evidentemente, a incorporação da manifestação ao processo administrativo não significa que a Agência adotará as sugestões apresentadas nem implica alteração imediata da política tarifária. Também não permite afirmar que elas influenciarão a decisão final.

Entretanto, significa que os argumentos deixaram de existir apenas como manifestação de opinião para integrar formalmente um procedimento administrativo em curso, passando a compor o conjunto de elementos que poderão ser considerados nas futuras análises técnicas da Agência.

Em um Estado Democrático de Direito, boas ideias não precisam nascer apenas dentro da Administração Pública. Elas também podem surgir da sociedade civil, por meio dos diversos canais de participação colocados à disposição da população.


Muito além da Via Lagos

Essa experiência reforça uma convicção que venho amadurecendo nos últimos anos.

Diversos temas que tenho estudado — o sistema Free Flow da Rio-Santos, a duplicação da BR-101, o reassentamento de comunidades, a política ambiental, a atuação das agências reguladoras — possuem algo em comum.

Todos dependem de instituições abertas ao diálogo.

Participação social não significa apenas comparecer a audiências públicas.

Também significa apresentar estudos, formular propostas, encaminhar sugestões, provocar órgãos públicos e acompanhar seus desdobramentos.

Mesmo quando não há concordância imediata, o debate institucional já representa um avanço democrático.


O papel do cidadão

Frequentemente ouvimos que "não adianta reclamar".

Minha experiência, porém, tem sido diferente.

Ao longo dos últimos anos, representações, manifestações técnicas, pedidos de informação, artigos e participações em audiências públicas abriram canais de diálogo com órgãos como o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União, o IBAMA, a AGETRANSP e outras instituições.

Nem sempre os resultados são imediatos.

Mas quase sempre produzem reflexão.

E é justamente da reflexão que costumam nascer as melhores políticas públicas.


Conclusão

Continuarei acompanhando esse tema.

Independentemente do futuro da proposta apresentada, considero positivo que o debate sobre mobilidade, modicidade tarifária e desenvolvimento regional tenha ingressado oficialmente na esfera regulatória.

A democracia não se fortalece apenas pelo voto.

Fortalece-se também quando cidadãos estudam, propõem, dialogam e utilizam os instrumentos institucionais colocados à disposição da sociedade.


📋 Nota do autor

Após a publicação do artigo "Um vídeo recentemente divulgado nas redes sociais reacendeu o debate sobre a política tarifária da Via Lagos", encaminhei à Ouvidoria da AGETRANSP uma manifestação propondo reflexões sobre a política tarifária aplicada à rodovia, especialmente quanto à modicidade tarifária, aos impactos territoriais da cobrança de pedágio e aos critérios utilizados para a definição operacional do chamado "fim de semana".

Em 29 de julho de 2026, recebi a resposta oficial da Agência, reproduzida integralmente nas imagens abaixo:




Penso que a resposta merece destaque por três aspectos.

O primeiro é revelar a existência de um estudo técnico já elaborado pela AGETRANSP sobre a modernização da concessão da Via Lagos, atualmente submetido ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, o que demonstra que importantes discussões regulatórias permanecem em curso.

O segundo consiste no reconhecimento de que as observações apresentadas foram registradas e juntadas ao processo administrativo correspondente, passando a integrar os elementos que poderão subsidiar futuras análises e discussões técnicas.

O terceiro diz respeito ao próprio valor institucional da participação social. A resposta evidencia que manifestações encaminhadas por cidadãos, quando fundamentadas e apresentadas pelos canais oficiais, podem integrar procedimentos administrativos, enriquecendo o debate regulatório. Isso não garante mudanças imediatas nem a adoção das propostas formuladas, mas amplia o conjunto de argumentos e perspectivas considerados pela Administração Pública no exercício de suas competências.

Independentemente dos desdobramentos futuros, essa experiência reafirma uma convicção que considero importante: a cidadania não se exerce apenas pelo voto. Ela também se manifesta quando cidadãos estudam os problemas públicos, apresentam propostas, provocam institucionalmente os órgãos competentes e acompanham os resultados de sua atuação. Nem toda manifestação produzirá mudanças imediatas, mas toda participação responsável amplia o debate democrático e contribui para o aperfeiçoamento das instituições.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Frentes amplas e a democracia: uma lição da Nova República para as eleições de 2026


Auditório da convenção estadual do PDT


Ontem tive a oportunidade de participar da Convenção Estadual do PDT do Rio de Janeiro, realizada na noite da última segunda-feira de julho, na sede histórica do partido, na Rua do Teatro, no centro da capital fluminense. O auditório estava lotado, reunindo candidatos a deputado federal e estadual, dirigentes, militantes e diversas lideranças políticas.

Estiveram presentes, entre outros, o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, a deputada Marta Rocha, os históricos trabalhistas Miro Teixeira e Vivaldo Barbosa, a candidata ao Senado Benedita da Silva (PT), o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PDT), o ex-governador e prefeito de Piraí Fernando Pezão (MDB), o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere (PSD), e o ex-prefeito da capital, Eduardo Paes (PSD), candidato ao Governo do Estado.

Um dos momentos centrais da convenção foi a oficialização do apoio do PDT à candidatura de Eduardo Paes. Com essa decisão, consolidou-se no Rio de Janeiro uma ampla frente política que reúne, além do PSD, partidos como o PDT, o PSB, a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB), a Federação PSDB-Cidadania, o MDB e outras forças que decidiram convergir em torno de um projeto comum para o Estado.

Como é natural em um encontro dessa natureza, discutiram-se candidaturas, estratégias eleitorais e os desafios que o Estado enfrentará nos próximos anos. Entretanto, uma das falas que mais despertou minha atenção foi justamente a do ex-deputado federal Miro Teixeira.

Ao defender a importância da união do campo democrático, Miro fez um paralelo com um dos momentos mais importantes da história política brasileira: a construção da Nova República. Sua reflexão foi além da conjuntura eleitoral. Na verdade, foi um convite a recordar que, em determinados momentos, a democracia somente avança quando diferentes correntes políticas são capazes de encontrar um terreno comum.

Essa observação me fez refletir sobre o cenário que hoje se desenha não apenas no Rio de Janeiro, bem bem como em outras unidades da federação e também em Santa Catarina, um dos estados mais bolsonaristas do país.

Há pouco mais de quarenta anos, o Brasil vivia a transição entre o regime militar e a democracia. A eleição de Tancredo Neves, em 1985, não foi resultado da vitória de um único partido, mas da capacidade de construção de uma ampla coalizão. O PMDB reuniu forças com dissidentes do então PDS, formando uma maioria política que tornou possível o encerramento de um ciclo autoritário e o início da Nova República.

Naquele momento histórico, antigos adversários compreenderam que havia um objetivo maior do que suas diferenças partidárias: consolidar a redemocratização do país.

Miro recordou, inclusive, um episódio curioso da época: segundo sua lembrança, até mesmo o Partido Comunista, então ainda marcado por décadas de clandestinidade, chegou a reconhecer positivamente a atuação de Antônio Carlos Magalhães em determinado contexto da transição democrática. Independentemente dos detalhes históricos desse episódio específico, a lembrança ilustra uma realidade frequentemente esquecida: em momentos decisivos, a política nem sempre se organiza em torno de afinidades ideológicas absolutas, mas da construção de convergências capazes de preservar as instituições democráticas.

Essa lógica parece reaparecer nas eleições de 2026.

No Rio de Janeiro, a candidatura de Eduardo Paes tornou-se o ponto de convergência de uma ampla coalizão política. Embora filiado ao PSD e não proveniente da esquerda, Paes passou a ser reconhecido por diferentes legendas como uma liderança capaz de reunir forças do chamado campo democrático. O apoio oficial do PDT, somado ao do PSB, da Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB), da Federação PSDB-Cidadania, do MDB e de outras legendas, evidencia uma estratégia que privilegia a construção de maiorias em torno de objetivos considerados comuns, sem exigir uniformidade ideológica entre seus integrantes.

Ressalto que fenômeno semelhante ocorre em Santa Catarina. Uma ampla frente reúne PSB, PDT, PT, PCdoB, PV, PSOL e Rede em torno da candidatura de Gelson Merisio ao governo estadual, tendo Ângela Albino, do PDT, como candidata a vice-governadora. Em um estado cuja política historicamente esteve associada a forças mais conservadoras, a formação dessa aliança revela que a estratégia das frentes amplas não se restringe ao Rio de Janeiro, mas constitui um movimento político observado em diferentes regiões do país.

Naturalmente, ninguém imagina que todos esses partidos pensem da mesma forma sobre todos os temas. Não pensam. Nunca pensaram. Mas frentes amplas não se constroem sobre unanimidades. Constroem-se sobre prioridades comuns.

A história brasileira oferece diversos exemplos dessa dinâmica. As Diretas Já reuniram trabalhistas, comunistas, liberais, democratas-cristãos, socialistas, artistas, intelectuais e movimentos sociais. A própria Nova República nasceu de uma aliança improvável entre antigos adversários. Em todos esses momentos, a democracia foi fortalecida não pela eliminação das diferenças, mas pela capacidade de estabelecer objetivos compartilhados.

Talvez essa seja a principal reflexão suscitada pela fala de Miro Teixeira.

Vivemos um tempo em que a polarização frequentemente transforma o adversário em inimigo. Nesse ambiente, a formação de frentes amplas desperta críticas tanto à direita quanto à esquerda. Uns as consideram excessivamente pragmáticas; outros, ideologicamente contraditórias. No entanto, a experiência histórica demonstra que, em determinadas circunstâncias, a política exige justamente a capacidade de construir pontes.

Isso não significa abandonar convicções nem dissolver identidades partidárias. Significa reconhecer que a democracia depende, muitas vezes, da disposição para dialogar com quem pensa diferente em torno de compromissos fundamentais.

Não sabemos se as frentes amplas formadas em 2026 alcançarão seus objetivos eleitorais. Essa resposta caberá aos eleitores e, posteriormente, ao julgamento da própria história.

O que já se pode afirmar, porém, é que a formação dessas coalizões recoloca em debate um tema recorrente da experiência política brasileira. Há momentos em que as diferenças ideológicas permanecem, mas a defesa de determinados valores comuns — como a estabilidade institucional, a democracia e a capacidade de governar — leva partidos distintos a construir maiorias políticas sem que, por isso, renunciem às suas identidades.

Ao deixar a convenção do PDT, fiquei com a impressão de que aquele encontro representava mais do que a homologação de candidaturas ou a formalização de um apoio eleitoral. A decisão do partido de integrar essa ampla coalizão e as reflexões históricas apresentadas por Miro Teixeira pareciam dialogar entre si. Não se tratava apenas de uma estratégia para as eleições de 2026, mas da reafirmação de uma tradição da política brasileira segundo a qual, em determinados momentos históricos, a construção de convergências em defesa da democracia torna-se mais relevante do que as divergências que naturalmente distinguem os partidos.

Se essa leitura se confirmará ou não, somente o tempo dirá. Mas a história da Nova República demonstra que as grandes transformações institucionais do Brasil raramente foram construídas por uma única força política. Quase sempre nasceram da capacidade de diálogo entre diferentes correntes em torno de um propósito comum. Talvez essa seja uma das mais importantes lições que aquele período ainda tem a oferecer ao Brasil de hoje. 🌹







Ótima terça-feira a tod@s!