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| Líbano antes da guerra civil |
Era uma tarde tranquila e ensolarada de domingo num bairro de classe média do Rio de Janeiro em 2026. O ventilador girava preguiçoso na sala, enquanto o cheiro de café recém-passado preenchia a casa. No sofá, de mãos dadas como ainda faziam depois de meio século, estavam Helena e Roberto — já com os cabelos brancos, mas com os olhos ainda vivos de quem guardava um mundo inteiro dentro de si.
Os netos, espalhados pelo chão com celulares e tablets, mal levantaram a cabeça quando Roberto começou:
— Vocês sabiam que a gente já atravessou metade do mundo de ônibus e carona?
Uma das netas riu, sem acreditar: — De ônibus? Tipo… internacional?
Helena sorriu, aquele sorriso que vinha sempre antes de uma história boa.
— Internacional, intercontinental… e às vezes até meio improvisado demais.
Roberto ajeitou os óculos. — Era 1974. A gente tinha acabado de casar. Não tinha dinheiro, mas tinha coragem… e uma vontade enorme de ver o mundo.
— E não tinha Google Maps — completou Helena. — Nem celular. Nem nada.
Agora, sim, todos os netos estavam olhando.
🌍 A partida: um mundo aberto
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| Registro de um casal na "Rota Hippie" nos anos 70 |
— A gente começou pela Europa — disse Roberto —, mas o que mudou mesmo foi quando atravessamos pro norte da África.
— Marrocos… — Helena fechou os olhos por um instante. — Aquilo parecia outro planeta. As cores, os mercados, o cheiro das especiarias…
— E era seguro — completou ele. — A gente andava de noite, pegava hospedagem simples… ninguém mexia com a gente.
— Hoje vocês não imaginam — disse ela —, mas dava pra cruzar países inteiros por terra sem esse medo constante que existe hoje.
🕌 Entre mercados, desertos e cidades vivas
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| Egito |
Eles contaram de cidades cheias de vida.
— No Egito, o Cairo já era caótico — disse Roberto —, mas fascinante. As pirâmides não eram cercadas como hoje. A gente chegava perto mesmo.
— E no Líbano… — Helena fez uma pausa, olhando para os netos com mais cuidado. — Antes da guerra, Beirute era linda. Moderna, cheia de vida. Parecia um pedaço da Europa no meio do Oriente Médio.
— A gente dançou lá — disse Roberto, rindo. — Imagina isso hoje…
🧭 Um mundo que ainda não tinha se quebrado
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| Síria |
— A Síria era tranquila — continuou Helena. — Damasco parecia parada no tempo. E Aleppo… aquele mercado… parecia infinito.
— Não tinha essa imagem de guerra que vocês têm hoje — completou ele. — Era um lugar vivo, organizado, seguro.
— Israel foi diferente — disse ela. — Já tinha tensão no ar. Soldados, checkpoints… mas também uma energia muito forte. Jerusalém mexe com a gente.
🌆 O choque do Irã e a surpresa do Afeganistão
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| Afeganistão nos anos 70 |
— Agora vocês não vão acreditar nisso — disse Roberto —, mas o Irã era moderno.
Os netos franziram a testa.
— Moderno como? — perguntou um deles.
— Mulheres sem véu, festas, universidades cheias — respondeu Helena. — Parecia outro mundo comparado ao que vocês veem hoje.
— E o Afeganistão… — ele balançou a cabeça — era simples, mas tranquilo. Cabul tinha cafés, estudantes… gente vivendo normalmente.
Silêncio.
🧠 O que eles só entenderam depois
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| Hafez al-Assad, presidente sírio, recebendo Nixon, em 1974 |
— Na época — disse Helena — a gente achava que aquele mundo sempre foi assim e sempre seria.
— Mas não era — completou Roberto. — Era uma estabilidade… meio frágil.
— Muitos desses países eram controlados por governos fortes. Mantinham a ordem, mas não deixavam muita liberdade.
— E quando isso quebrou… — ela suspirou — tudo mudou muito rápido.
⚖️ O contraste com 2026
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| Síria atual/AFP |
Os netos agora ouviam em silêncio absoluto.
— Hoje — disse Roberto — vocês veem muitos desses lugares nas notícias por causa de guerra, crise, conflito.
— E não é mentira — disse Helena —, mas também não é a história inteira.
— A gente viu um outro momento — continuou ele — em que tudo parecia possível.
— A gente atravessou fronteiras que hoje seriam impensáveis — disse ela.
— Sem medo.
💬 A lição final
Uma das netas perguntou, baixinho:
— Vocês fariam tudo de novo?
Eles se olharam.
— Sem pensar duas vezes — respondeu Roberto.
Helena apertou a mão dele.
— Porque viajar não é só ver lugares… é ver momentos do mundo que não voltam mais.
E então ela completou, com a voz suave:
— O mundo que a gente conheceu naquela viagem… já não existe. Mas a lembrança dele… ninguém tira.
O ventilador continuava girando.
Mas agora, naquela sala, parecia que o tempo também tinha dado uma volta completa.













