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sábado, 29 de novembro de 2025

O Pão que Curou uma Casa



"Então Jesus declarou: "Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede." (João 6:35; NVI)


Na estreita rua dos padeiros, em Jerusalém, vivia a família de Eleazar ben Chananias, um homem trabalhador cujo coração carregava mais rachaduras do que a velha mesa de amassar pão. Sua esposa, Hannah, tentava manter a casa unida, mas os filhos — Miriam e Joel — estavam divididos por mágoas antigas, palavras ditas em ira e silêncios que pesavam mais do que pedras da Cidade Santa.

Naquela semana, Jerusalém tremia de vida. Peregrinos subiam ao Templo para a festa da Páscoa; cantos, perfumes, poeira, orações — tudo se entrelaçava num só movimento. E foi nesse turbilhão que um homem bateu à porta da pequena padaria.

Era André, discípulo de Jesus, o Rabi da Galileia.

Shalom. Procuramos pães para a ceia desta noite. Nosso Mestre enviou-nos.

Eleazar ergueu os olhos. O nome “Jesus” já corria pelas ruas como água de nascente: profeta, curador, pescador de almas. Mas para o padeiro, tudo se resumia ao trabalho de cada dia. Assentiu e aceitou a encomenda: pães sem fermento, como ordena a Torá.

Mas, assim que André saiu, o ar dentro da casa mudou.


A Massa Quebrava, o Coração Amolecia


Hannah trouxe a água. Eleazar espalhou a farinha. Miriam e Joel se aproximaram com suas sombras habituais de ressentimento.

Mas, ao tocar a massa, algo suave — inexplicável — atravessou o ambiente.

Um silêncio bom, quase sagrado, se derramou sobre os quatro. Miriam ofereceu a tigela ao irmão sem ironia. Joel recebeu sem frieza. Hannah suspirou, surpresa, como se tivesse escutado um sussurro vindo do céu.

A massa, à medida que era trabalhada, parecia mais leve, quase luminosa. O perfume que se espalhava não era apenas de pão — havia paz, havia ternura, havia uma bondade antiga, dessas que lembram o próprio sopro de Deus no deserto.

Eleazar, homem simples, sentiu o coração apertar.

— Não sei o que está acontecendo… — murmurou. — Mas há doçura demais nesta casa para ser apenas pão.

Hannah tocou-lhe a mão.

— Talvez seja o Rabi da Galileia… Dizem que onde Ele passa, vidas mudam.

E enquanto os pães ganhavam forma, algo ainda maior ganhava forma dentro da família:
Miriam sorriu. Joel sorriu de volta. Uma rachadura se fechava. Uma ponte se reconstruía.


Um Extra que Brotou da Gratidão


Ao final da tarde, os pães estavam prontos, perfeitos na simplicidade que a Lei pedia. Porém Hannah, movida por algo mais profundo que razão, buscou:


  • um jarro de azeite aromatizado,
  • um punhado de tâmaras doces,
  • um pequeno frasco de mel escuro,
  • e até um pouco de sal puro, como se fosse oferenda.


Eleazar arregalou os olhos.

— Meu amor… isso não foi pedido.

— Eu sei — respondeu ela, com uma serenidade que iluminava o rosto. — Mas sinto no espírito que devemos dar. Algo santo atravessou esta casa. Quero agradecer.

Joel e Miriam, pela primeira vez em muito tempo, concordaram sem discutir.


A Visita dos Discípulos


Quando as primeiras estrelas surgiram sobre Jerusalém, dois homens chegaram: Pedro e João. O ar ao redor deles trazia uma pureza difícil de explicar. Eles não precisaram perguntar nada. Bastou pôr os pés na casa para sentir a transformação.

Pedro sorriu, como quem reconhece um milagre silencioso.

A paz do Altíssimo permaneça aqui, disse com voz grave.

Eleazar entregou os pães. Hannah, com mãos trêmulas, ofereceu o azeite, as tâmaras e o mel.

— Isto… isto não está na encomenda — confessou ela. — É apenas… gratidão.
O coração que dá assim agrada ao próprio Deus, respondeu João, emocionado.

Nenhum deles disse que aqueles pães seriam partilhados pelo próprio Messias naquela noite. Não era preciso. O momento já carregava uma reverência que falava mais alto do que palavras.


O Milagre em Silêncio


Quando a porta se fechou, Joel abraçou a irmã.
Não houve discurso, não houve culpa — apenas perdão.
Miriam chorou sobre o ombro dele como quem reencontra um pedaço perdido da própria alma.

Eleazar e Hannah se olharam como dois que viram uma primavera nascer em pleno inverno.

Naquela mesma noite, enquanto Jesus tomava o pão em Suas mãos e dizia:
"Isto é o meu corpo, que é dado por vós…",
uma pequena casa em Jerusalém recebia seu próprio milagre:

o milagre da reconciliação, do amor e do perdão.

Eles nunca souberam que haviam preparado os pães da Última Ceia. Porém, sentiram, por toda a vida, que naquele dia haviam sido visitados pela paz do Deus vivo.


📷: Releitura de pão da época de Cristo, feita pelo padeiro Johannes Roos, conforme divulgado numa matéria da BBC em https://www.bbc.com/portuguese/geral-61114419

🇧🇷🐆 Brasil: pátria da Onça‑pintada, guardiã das florestas, símbolo da nossa força e soberania




A Onça‑pintada é mais do que um felino magnífico — é um símbolo vivo do Brasil. Ela carrega nas pintas da pele um retrato da grandeza da nossa terra: florestas ancestrais, rios caudalosos, biodiversidade exuberante. Terra que é nossa, para cuidar, respeitar e proteger 🌿✨.

Onde há onça, há floresta viva — e isso significa água limpa, clima equilibrado e um Brasil forte. A presença desse grande felino nos biomas Amazônia, Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica é prova de que somos detentores de riquezas naturais incomparáveis, que posicionam nosso país como berço de biodiversidade e protagonista nas discussões ambientais globais.

Hoje, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, esse protagonismo ganha reforço real: desde 2024/2025, foram anunciados investimentos históricos em proteção ambiental — com recursos robustos ao Ibama e novas tecnologias de fiscalização, no intuito de preservar o que é nosso por direito: a Amazônia, o Pantanal, a Mata Atlântica.

🌎 Também no palco internacional, o Brasil retoma sua voz — não como mero ator, mas como guarda da floresta global. A repercussão de iniciativas de conservação, como as que protegem a onça‑pintada e promovem a restauração de ecossistemas, reforça o nosso papel de liderança na crise climática, no desenvolvimento sustentável e na diplomacia verde.

✨ Que a onça — tão brasileira quanto a alma do país — nos lembre de que desenvolver-se não significa destruir. Significa cuidar, preservar, inovar. Que cada mata protegida, cada rio respeitado e cada felino salvo signifique a afirmação de um Brasil soberano, consciente e orgulhoso de sua natureza — para hoje e para as próximas gerações.

🇧🇷🌿 Que viva a Onça-pintada! Que viva o Brasil!

Flamengo: Paixão, História e Hegemonia do Futebol Brasileiro



Sou Flamengo desde criancinha. Ainda bebê, já usava fralda do Mengão, e aos meus 5 anos vivi a emoção do primeiro título da Libertadores, em 1981. Um título que não foi apenas uma conquista: foi uma virada histórica, uma explosão de paixão que atravessou gerações.


A Final de 1981: O Dia que Mudou Tudo


O Flamengo enfrentou o Cobreloa, do Chile. No primeiro jogo, em Santiago, perdemos por 2 a 1. Mas nada seria capaz de abalar a força do Mengão. No Maracanã lotado, mais de 100 mil torcedores vibravam enquanto Zico, Nunes, Júnior e companhia escreviam história.

Nunes marcou dois gols decisivos, virando o jogo para 2 a 0. A torcida explodiu em gritos, cantos e fogos de artifício. A festa durou dias – dentro e fora do estádio, e até na orla de Copacabana, onde multidões receberam os jogadores em um ônibus aberto, jogando camisas, abraçando os ídolos e celebrando o primeiro troféu continental do clube. 🏆❤️🖤


Memórias de Família e Paixão


Meu pai, Francisco, já falecido, era Flamengo doente. Ele viveu cada lance, cada vitória e derrota com intensidade. E eu, seguindo seus passos, aprendi que o amor pelo Flamengo vai muito além de resultados: é memória, emoção e identidade.


Rivalidade e Hegemonia


Hoje, qualquer confronto entre Flamengo e Palmeiras carrega uma carga histórica enorme:


  • Em 2021, o Palmeiras venceu a final por 2 a 1, consolidando sua força.
  • Uma vitória do Flamengo agora seria uma revanche simbólica, reafirmando nossa liderança no futebol brasileiro.
  • Com três títulos cada, Flamengo e Palmeiras disputam a hegemonia histórica, e conquistar uma nova Libertadores seria alcançar o status de primeiro tetracampeão brasileiro no continente.


Cada jogo entre esses gigantes é mais do que futebol: é emoção, história e paixão nacional. Uma vitória hoje significaria mais do que um título: seria a afirmação de força, tradição e liderança do Flamengo no Brasil e na América do Sul.


O Legado do Mengão


Do bebê com fralda rubro-negra ao torcedor adulto, da festa épica de 1981 às conquistas recentes de 2019 e 2022, o Flamengo continua a escrever páginas inesquecíveis. Para mim, para meu pai, para milhões de torcedores: o Mengão é eterno, imortal e símbolo do futebol brasileiro.

29 de novembro de 1807 — há 218 anos, o ponto de virada que transformou o Brasil



Em 29 de novembro de 1807 iniciou-se a comitiva que levaria a corte do Casa de Bragança de Lisboa ao Brasil — uma mudança de endereço que, nas décadas seguintes, faria do então vilarejo do Rio de Janeiro a capital de um império e semeou as bases do Brasil moderno.


🛳️ Embarque, quem veio e por quê?

Entre os dias 25 e 27 de novembro de 1807, mais de 10 mil pessoas — talvez até 15 mil segundo algumas estimativas — reuniram-se para partir. Eram membros da família real, da nobreza, do alto funcionalismo civil e militar, clero, e funcionários da Corte.

Na comitiva estava a rainha D. Maria I, mãe do regente; o príncipe regente D. João VI; a princesa esposa dele; suas filhas infantas; e entre as crianças — o futuro imperador do Brasil, D. Pedro I. Ou seja: toda a linhagem e aparato essencial da coroa lusitana.

O embarque começou por volta de 27 de novembro. No entanto, ventos desfavoráveis impediram a partida imediata no dia 28. Foi apenas na manhã do dia 29 que a ordem de zarpar foi dada — a esquadra, escoltada pela marinha britânica, largou do porto de Lisboa.

Esse movimento não pode ser lido como uma simples “fuga” — e sim como a transferência da sede do Estado português para o Brasil. Políticos, instituições, arquivos, tesouraria, riqueza, mobilia, enfim, o aparato do poder.


🏙️ O Rio de Janeiro se converte em metrópole interiorizada


Com a chegada da corte, o Rio — então uma cidade modesta, periférica e colonial — passou por uma verdadeira “inversão metropolitana”: uma colônia tornando-se capital de um império pluricontinental.

Essa transferência implicou transformações profundas:


  • Abertura dos portos: com a presença da Corte, foi decretada a abertura dos portos brasileiros às “nações amigas” — rompendo o antigo monopólio comercial entre Brasil e Portugal. Isso abriu o Brasil ao comércio internacional.
  • Instituições de Estado criadas ou instaladas: tribunais de justiça, repartições públicas, secretarias, arquivamento de documentos oficiais, mecanismos administrativos — tudo trouxe o Brasil de sua condição colonial para uma estrutura institucional própria.
  • Cultura, ciência e infraestrutura: com a corte vieram a imprensa régia, bibliotecas, centros de ensino, instituições de cultura — sementes do que depois seriam instituições nacionais permanentes.


Em suma: o Brasil, pela primeira vez, deixou de ser periferia de um império distante. O Estado português enraizou-se em solo brasileiro e o Rio de Janeiro passou a ostentar o papel de capital — tornando real a ideia de uma “metrópole interiorizada”.


👑 A importância da presença de D. Maria e D. Pedro — e a primazia de D. João


É importante destacar que não foi apenas D. João que veio ao Brasil: a corte incluía D. Maria I, sua mãe, e D. Pedro, entre outros membros da família. A presença da rainha reforçava a legitimidade da mudança; já D. Pedro — ainda criança — estaria entre as bases da futura Independência.

Entretanto, era D. João quem de fato decidia e ordenou a transferência. Isto porque, por efeito de doença mental, D. Maria I já não exercia o governo: era D. João, como príncipe regente, que titulava o comando do reino e conduziu a decisão.

Essa distinção é relevante: embora D. Maria estivesse fisicamente presente no novo solo, o protagonismo das mudanças e das decisões estava com D. João — e a presença da família real completa contribuiu para dar à mudança um caráter de continuidade dinástica e institucional, e não de exílio temporário.


🇧🇷 Da transferência à Independência: como o ato de 1807/1808 pavimentou o Brasil


A instalação da corte no Brasil não foi um evento isolado — foi o catalisador de um novo ciclo histórico. Com instituições, engrenagens administrativas e culturais funcionando localmente, o Brasil passou a experimentar uma autonomia prática, ainda que formalmente dependente de Lisboa. Historiadores qualificam essa transição como decisiva para o processo de emancipação nacional.

O deslocamento da metrópole para o Rio trouxe uma estrutura capaz de sustentar um Estado próprio, com leis, tribunais, economia aberta, aparato administrativo — o que tornava possível a ideia de um Brasil independente, sem a necessidade de depender de Portugal.

Em 1822, com a figura de D. Pedro — já acostumado a viver e governar a partir do Brasil, vivendo a dinâmica local — veio o desfecho lógico: a Proclamação da Independência. A mudança de 1807/1808 não foi causa única — mas sem dúvida foi o terreno fértil sem o qual dificilmente o Brasil teria as condições concretas para se emancipar quando o momento chegou.




✍️ Reflexão final

Quando pensamos no Brasil de hoje — um país com instituições próprias, diversidade cultural, centros urbanos vibrantes, abertura econômica — parte desse legado remonta ao dia 29 de novembro de 1807.

Pode-se afirmar que a transferência da Corte não foi apenas um gesto de sobrevivência diante da ameaça napoleônica; foi um salto histórico que mudou a geopolítica do Atlântico — e redesenhou de vez o destino da colônia, já não periferia, mas capital de um império interiorizado e, afinal, berço da nação que se tornaria independente.

Sem a vinda da Corte portuguesa para o Brasil e a posterior permanência de D. Pedro, a independência das velhas capitanias de algum modo ocorreria em algum momento. Porém,  possivelmente, o Brasil, com esse território gigante, não existiria tal como conhecemos.


📅 Cronologia básica da transferência da corte e do caminho à Independência

1807 – 29 de novembro: Início do embarque da corte portuguesa rumo ao Brasil, incluindo D. Maria I, D. João (Príncipe Regente), a princesa esposa e D. Pedro. A esquadra parte de Lisboa escoltada por navios britânicos.

1808 – 7 de março: Chegada da corte ao Rio de Janeiro; a cidade começa a se transformar em capital do Império.

1808 – 28 de janeiro: Abertura dos portos às nações amigas; fim do monopólio comercial português sobre o Brasil.

1808/1821 – Período Joanino: criação de instituições administrativas, culturais e científicas; fundação de escolas, bibliotecas, museus e imprensa régia; surgimento de primeiras instituições financeiras.

1815 – Elevação do Brasil à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, formalizando a centralidade do território brasileiro dentro do império.

1821 – Retorno de D. João VI a Portugal; D. Pedro permanece no Brasil, assumindo papel político de liderança local.

1822 – 7 de setembro: Proclamação da Independência do Brasil por D. Pedro I, consolidando o processo iniciado pela transferência da corte quinze anos antes.


Quadro 1: O embarque da família real portuguesa para o Brasil em 1807 , pintura do século XIX atribuída a Nicolas-Louis-Albert Delerive. Museu Nacional dos Coches, Lisboa, Portugal .

Quadro 2: Chegada ao Rio de Janeiro do príncipe-regente D. João VI. A Esquadra portuguesa na Baía da Guanabara, em 1808, com a Nau Príncipe Real, que trouxe D. João VI, no primeiro plano.


📝 Nota de família: 

De acordo com registros biográficos públicos, o jovem Firmino Herculano de Morais Âncora (nascido em Lisboa, 1790 – falecido no Rio de Janeiro, 1862), ancestral distante do autor (creio que há seis gerações), teria vindo para o Brasil na época da imigração da Família Real Portuguesa, no início do período Joanino. Ele se tornou engenheiro militar, participou da implantação de obras públicas e desempenhou papéis importantes na carreira militar e administrativa do país.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Se os EUA atacarem a Venezuela: o que está em jogo para o Brasil e a América Latina



Enquanto navios de guerra americanos cruzam o Caribe rumo à costa venezuelana e o presidente Trump anuncia que “opções terrestres” poderão ser usadas em breve, cresce a apreensão por um desfecho que pode recolocar a América Latina sob fogo — e obrigar o Brasil a tomar decisões difíceis...


🌐 A escalada de tensão que reacende antigos fantasmas


Nas últimas semanas, a movimentação naval dos EUA — com destaque para o porta-aviões USS Gerald R. Ford — e alertas de operações terrestres dirigidas à Venezuela reacenderam temores regionais. A Casa Branca afirma que mira “cartéis e narcotráfico”, mas para muitos governos latino-americanos esse tipo de ação remete a precedentes perigosos de intervenção externa.

Para o governo venezuelano, a retórica já soa como ameaça real. O regime de Nicolás Maduro anunciou mobilização da Força Aérea e milícias, em defesa do que chamou de sua “soberania sagrada”.

Por sua vez, na América Latina, cresce um sentimento de repúdio generalizado. O ex-chanceler brasileiro Celso Amorim alertou publicamente que uma invasão poderia “incendiar a América do Sul”. Para ele, as consequências vão além de Caracas: envolvem instabilidade humanitária, fluxos migratórios e erosão da ordem regional.


🇧🇷 O Brasil entre o temor, a responsabilidade e o dilema diplomático


Para o Brasil, as consequências de um ataque à Venezuela não seriam apenas distantes — poderiam atingir diretamente suas fronteiras e provocar uma crise humanitária.


  • Refugiados e tensões na fronteira Norte: Estados como Roraima e Amazonas já têm histórico de recepção de venezuelanos. Um conflito poderia disparar um êxodo em massa, pressionando infraestrutura e recursos públicos.
  • Polarização interna e debates inflamados: A mobilização de um ator externo contra país vizinho tende a reacender debates sobre soberania, segurança, migração e identidade latino-americana — dividindo opinião pública e forças políticas.
  • Pressão sobre o governo: O Executivo brasileiro seria cobrado por respostas imediatas: acolhimento, controle fronteiriço, logística humanitária e diplomacia. Falhas neste contexto poderiam custar caro politicamente.


Além disso, o Brasil corre o risco de perder parte do papel de mediador regional que vinha cultivando, e ver sua imagem internacional abalada se for percebido como cúmplice ou passivo diante de uma intervenção externa.


🗳️ Eleições 2026: os cenários para o jogo político


É provável que o conflito venezuelano redesenhe o tabuleiro político brasileiro nas eleições de 2026. Algumas possibilidades:


  • Convocação do nacionalismo e da soberania: Se o governo conseguir se posicionar como defensor da autonomia regional e mediador imparcial, pode reforçar apoio entre parcelas da população contrárias à ingerência estrangeira.
  • Crise econômica e social como munição eleitoral: A inflação e a pressão sobre migração/refugiados podem alimentar insatisfação popular — setores da oposição poderiam explorar o tema como falha do governo.
  • Polarização e radicalização discursiva: A crise tende a reforçar divisões ideológicas: quem defende intervenção, quem defende soberania, quem defende acolhimento humanitário. Isso favorece discursos mais extremos e diminui o espaço para moderação.


Em outras palavras: a Venezuela pode transformar-se em tema central de campanha, influenciando programas, alianças e votos.


🤝 O Brasil de Lula num dilema estratégico — e com chance de protagonismo


Para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, há uma encruzilhada. Mas também há espaço para estratégia.


  • Rejeitar a intervenção e reafirmar soberania nacional: Isso reforça a tradição diplomática do Brasil, ressoa com a opinião pública contra ingerências e retoma o papel histórico de evitar intervenções externas.
  • Oferecer-se como mediador e porta-voz da América Latina: Em vez de alinhar-se automaticamente a Washington ou Caracas, o Brasil poderia buscar um papel de ponte, propondo diálogo, missão de observadores internacionais ou mediação neutra — ganhando prestígio internacional e evitando rupturas traumáticas.
  • Preparar infraestrutura humanitária e resposta migratória: Criar planos de acolhimento, assistência, controle sanitário e integração de refugiados. Isso é fundamental para minimizar impactos sociais e evitar crise interna.


Em suma: se bem conduzido, o país pode sair da crise não ferido — ou até fortalecido como ator diplomático —. Se mal conduzido, há riscos reais de descontrole interno, desgaste político e perda de credibilidade internacional.


🌎 E para a América Latina como um todo: risco de retorno às antigas disputas


Uma intervenção externa — liderada pelos EUA — em 2025 poderia marcar o fim de uma era de tentativas de integração pacífica latino-americana. Eis as possíveis consequências:


  • Reativação de rivalidades regionais, com governos divididos entre apoio, neutralidade ou oposição.
  • Erosão da cooperação multilateral, como a ideia de unidade latino-americana; tratados de não-intervenção seriam testados.
  • Aumento do papel das potências externas (EUA, Rússia, China) na região — o que pode levar a disputas indiretas por influência, comércio e alianças militares.


Isso reacende fantasmas da Guerra Fria e expõe novamente a região a riscos de desestabilização generalizada.


✍️ Conclusão


A hipótese de uma guerra dos EUA contra a Venezuela — até bem pouco tempo vista como remota — hoje se apresenta como possibilidade real. Se concretizada, não será apenas um conflito distante: será um duro teste à estabilidade da América Latina, à segurança do Brasil, à capacidade de resposta humanitária e à maturidade democrática regional.

Para o Brasil, o desafio é urgente: como responder de forma coerente com seus valores de soberania, solidariedade regional e compromisso com a paz — sem se deixar arrastar por polarizações externas? A resposta pode definir o país nas eleições de 2026, e também sua imagem para as próximas décadas.

A última Flor do Tempo

 

Palmeira-talipot florescendo no JBRJ


(Conto – Rio de Janeiro, novembro de 2025)


O sol de fim de tarde filtrava-se entre as árvores altas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, tingindo de dourado o chão úmido. O ar carregava o cheiro doce das bromélias e o rumor distante das maritacas. A poucos metros, um grupo de visitantes fotografava, em silêncio reverente, a palmeira-talipot em plena floração — um acontecimento raro, notícia em todos os jornais naquela semana.

Kenjiro Tanaka, 102 anos, caminhava devagar, apoiado no antebraço firme do bisneto. Cada passo era uma memória. O corpo hesitava, mas os olhos — pequenos, fundos — carregavam uma claridade surpreendente.

Ao seu lado, o adolescente Gabriel ajeitava a mochila e perguntava, curioso:

— Biso, é essa aí? A talipot que só floresce uma vez?

Kenjiro assentiu.

Uma vez… e depois morre. Assim como certas histórias, que só acontecem uma vez — e duram para sempre.

A árvore erguia-se como um guarda-sol colossal, folhas imensas abertas como braços. No topo, despontava a enorme inflorescência: milhares de pequenas flores douradas, vibrando com a luz do fim de tarde.

Gabriel deu um assobio baixo.

— Parece coisa de filme.

Kenjiro sorriu com ternura.

— Na minha aldeia, em Kyushu, no Japão, dizíamos que quando a talipot florescia, era porque o tempo queria contar um segredo. Raramente alguém vivia para ver isso mais de uma vez.

Ele fez uma pausa, respirando fundo. Um leve tremor atravessou-lhe a mão.

— Eu tinha sua idade, talvez um pouco mais, quando a guerra começou. Lembro de caminhar com meu pai pelos campos de arroz queimados. O mundo parecia estar acabando… e mesmo assim, no templo antigo, no alto da colina, havia uma talipot crescendo. Muito jovem ainda. Os monges cuidavam dela como se fosse uma promessa.

Gabriel o olhou com respeito — era raro o bisavô falar daquele tempo.

— Foi nessa época que o senhor saiu do Japão, né?

— Sim. — Kenjiro ajeitou o chapéu de palha, gasto.

 — Fui primeiro para os Estados Unidos.

 Trabalhava carregando caixas em um depósito. O inglês vinha devagar, mas o corpo aguentava. Um dia, a empresa decidiu abrir uma filial no Brasil. Me mandaram para cá porque eu dizia “bom dia” com um sorriso. — Ele riu. — Foi o suficiente para acharem que eu me daria bem entre brasileiros.

Gabriel gargalhou.

— E se deu.

— Me dei. — Kenjiro suspirou. — Conheci sua bisavó, Maria Clara… e minha vida floresceu aqui. Como esta palmeira. Só uma vez. Mas grande o bastante para valer tudo.

Eles se aproximaram da árvore. Pessoas fotografavam, mas a dupla parou apenas para observar. O vento leve fazia a copa balançar, espalhando um perfume discreto, quase imperceptível.

— Sabe por que essa palmeira é especial? — perguntou Kenjiro.

— Por causa da floração única?

— Também. Mas, na Ásia, ela simboliza algo mais profundo. Pacientes são aqueles que esperam décadas para alcançar a beleza completa. A talipot nos ensina que a vida não precisa correr. Cada instante prepara o próximo. Cada dor prepara um entendimento. Cada amor prepara outro amor que virá depois.

Gabriel baixou os olhos.

— Às vezes fico ansioso, vovô… com escola, futuro, essas coisas. Parece que tem que dar tudo certo rápido.

Kenjiro pousou a mão trêmula no ombro do menino.

— Nada verdadeiro cresce rápido demais. Nem você. Nem as pessoas que ama. A talipot espera a vida inteira para florescer — e quando floresce, ela ilumina tudo ao redor. O que importa não é a velocidade… é a profundidade.

O silêncio entre os dois foi tranquilo, como uma semente encontrando terra fértil.

— Venha — murmurou o velho. — Vamos ver o pôr do sol. É outro espetáculo que só acontece uma vez por dia, mas nunca se repete igual.

Saíram devagar do Jardim Botânico, chamaram um UBER pelo aplicativo e seguiram para o Arpoador. O céu começava a virar laranja. Na orla, surfistas recolhiam pranchas, turistas se ajeitavam nas pedras, e músicos de rua afinavam guitarras.

Kenjiro respirou fundo.

— Quando eu tinha a sua idade, Gabriel… eu não sabia se viveria para ver muitos pores do sol. Hoje, cada um me parece um presente.

Sentaram-se na pedra grande, onde o horizonte se abre entre o Morro Dois Irmãos e o mar. O sol descia lento, pintando o Atlântico com faixas de ouro.

Gabriel encostou-se no bisavô.

— E o senhor acha que ainda vai ver outro pôr do sol?

O velho sorriu, sereno.

Talvez. Mas não importa. O de hoje… — ele apontou para o horizonte ardente — …já vale por todos. Como a talipot, que floresce uma vez, mas faz valer uma vida inteira.

O sol sumiu aos poucos. O mar brilhou, depois escureceu. O vento trouxe cheiro de sal, vida e despedida.

E os dois ficaram ali, lado a lado — um começando, outro concluindo — assistindo ao espetáculo silencioso do tempo.


📷: Rafael Ribeiro, conforme extraído de https://www.gov.br/jbrj/pt-br/assuntos/noticias/floracao-rara-de-palmeira-no-jardim-botanico-do-rio-de-janeiro

🕰️ Petrópolis: patrimônio, memória e o futuro da cidade imperial

 


Petrópolis carrega séculos de história — palácios, fábricas antigas, ruas de pedra, encostas verdejantes, memórias da monarquia e da industrialização. Por isso, o tombamento de áreas históricas sempre foi mais do que “selar prédios antigos”: é proteger identidade, paisagem e memória coletiva.


Recentemente, o Iphan propôs uma rerratificação do tombamento do “Conjunto Urbano-Paisagístico de Petrópolis”. A intenção oficial, segundo o órgão, é atualizar os limites da proteção, reconhecendo conjuntos fabris, vilas operárias e encostas de Mata Atlântica — não apenas edifícios isolados. 


Mas há quem alerte: a proposta, se aprovada sem critérios claros e ampla participação social, pode resultar no destombamento de até 39% da área atualmente protegida — o que causaria perda de proteção para trechos significativos já tombados há décadas. 


❗ Por que isso importa:


Quando áreas sensíveis perdem proteção, corre-se risco de descaracterização urbana: prédios modernos fora de contexto, intervenções invasivas, destruição da paisagem que dá à Petrópolis seu caráter único.


A memória coletiva pode ser abalada. Não são só os prédios — são ruas, vazios urbanos, encostas, cenários naturais que contam a trajetória da cidade e de seus moradores ao longo de gerações.


O turismo cultural e histórico pode sofrer. Muitas pessoas visitam Petrópolis justamente pela atmosfera de cidade-imperial preservada. Se essa coerência histórica for rompida, o apelo turístico perde força — e isso afeta economia, comércio e serviços locais.


A decisão define se a cidade seguirá valorizando sua história ou abrirá mão de parte dela em nome de “desenvolvimento”.


Por outro lado, há quem defenda que a rerratificação — se feita com transparência, critério técnico e participação da comunidade — pode fortalecer a preservação: incorporando áreas que historicamente não estavam protegidas (complexos industriais antigos, encostas, vilas operárias) e garantindo que a cidade seja protegida de modo mais abrangente e coerente com sua identidade. 


📢 Por isso, é urgente: todos nós admiradores da bela cidade serrana devemos acompanhar de perto esse processo, cobrar transparência, consulta pública e respeito ao patrimônio. Petrópolis não é só um destino turístico: é um patrimônio comum, parte da memória viva de gerações.


Se perdermos essa chance de cuidá-la bem, corremos o risco de entregar à próxima geração uma cidade com menos história — e menos alma.


📷: Iphan