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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Vença a ansiedade!



Curioso como que, há uns dois milênios atrás, Jesus teria discursado sobre um dos maiores problemas de saúde psíquica que tanto aflige a humanidade hoje - a ansiedade. Neste nosso estudo sequencial sobre o Evangelho de Lucas, chegamos então aos versos 22 a 34 do capítulo 12, repetindo um ensino que também consta no célebre Sermão da Montanha, em Mateus 6:25-34.

Ocorre que, no 3º Evangelho, a pregação do Mestre é inserida após ele condenar a avareza e agora ele vai tocar na raiz do problema do apego ao dinheiro. Por que as pessoas se preocupam tanto em acumular bens?

Certa vez conheci um engenheiro empresário convertido, o qual compartilhou em seu testemunho pessoal ter sofrido do medo de ficar pobre. Ele que havia construído até um famoso shopping center na década de 80, temia perder tudo. Em certa ocasião, antes de ter entregue sua vida a Jesus Cristo, chegou a ser sequestrado por bandidos no Rio de Janeiro e ficou horas amarrado no porta-malas de um carro.

Não sei de maiores detalhes sobre o processo de conversão daquele homem que acabou se tornando um pregador do Evangelho compartilhando abertamente sua experiência de fé. Porém, mesmo não sendo eu um sujeito endinheirado com muitos bens, identifiquei-me com a fobia dele. Afinal, quem é que não sente no mínimo um desconforto em perder as coisas que hoje lhe proporciona alguma tranquilidade e bem estar? Nestas horas, somos testados na fé afim de verificarmos se a nossa segurança encontra-se mesmo em Deus, nosso Pai Celestial.

No discurso sobre a ansiosa solicitude pela vida, Jesus nos leva a refletir sobre o quanto é irracional o ser humano alimentar dentro de si tal sentimento e permitir que as nossas ações sejam governadas por esse temor.

O Mestre não nos proíbe de sermos previdentes, mas é impossível para o homem controlar a providência, isto é, garantirmos a ocorrência de resultados. Na parábola que contou durante o estudo anterior (a do rico insensato), o fazendeiro foi surpreendido com uma morte súbita embora pretendesse continuar vivo e gozando dos bens por muitos anos (Lc 12:19-20). Logo, se colocarmos a nossa felicidade num acúmulo de riquezas para o futuro, preocupando-nos egoisticamente, a frustração estará nos aguardando:

"Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida? Se, portanto, nada podeis fazer quanto às coisas mínimas, por que andais ansiosos pelas outras?" (versos 25 e 26; ARA)

Jesus compara o cuidado de Deus com as aves (v. 24) e com os lírios do campo (v. 27) para nos sentirmos interiormente seguros. A natureza é sustentada pelo Criador e nenhum passarinho precisa armazenar em celeiros os grãos que cata no ambiente. Bicho algum tem que abrir cadernetas de poupança ou contribuir para um fundo de pensão! Porém, tanto a fauna quanto a flora são livres dessas inquietações doentias e encontram o devido amparo sem se preocuparem com o amanhã. Os animais conseguem viver o momento na sua plenitude!

Inegável que o homem precisa combater a sua ansiedade com fé no Rei e Arquiteto do Universo que é Deus. Por isso, Jesus chama a atenção dos discípulos sobre exercerem a confiança no Criador e reprova o comportamento dos "gentios", isto é, daqueles que não têm um relacionamento com o Pai com o mesmo nível espiritual dos seus seguidores.

"Ora, se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais tratando-se de vós, homens de pequena fé! Não andeis, pois, a indagar o que haveis de comer ou beber e não vos entregueis a inquietações. Porque os gentios de todo o mundo é que procuram estas coisas; mas vosso Pai sabe que necessitais delas." (versos 28 a 30)

Além da fé, o homem deve buscar em primeiro lugar o Reino de Deus (v. 31), o que significa termos outros objetivos de vida. No estudo anterior, terminei falando que ganhamos um sentido existencial quando aderimos a essa causa elevada em servirmos ao próximo. Aqui, no entanto, aprendemos que um dos benefícios experimentados é a cura do transtorno da ansiedade. Não que venhamos a ficar livres de sentimentos de preocupações, mas porque não iremos mais alimentá-los devido à confiança no Pai e a uma motivação superior.

Os discípulos já tinham o Reino (v. 32) e deveriam ocupar-se com a sua promoção na Terra. Tendo a consciência de que suas vidas estão nas mãos de Deus, não iriam apegar-se aos bens materiais acumulando-os, mas, sim, distribuí-los conforme as necessidades do próximo. Iriam se preocupar em alcançar almas com o amor divino, transmitindo a elas o verdadeiro tesouro eterno.

Diferentes dos bens perecíveis deste mundo, vulneráveis às traças e ladrões, podemos falar na existência de um patrimônio espiritual. Ajuntar "tesouros no céu" torna-se fonte de paz ao invés de produzir ansiedade. Uma vez que o nosso coração é posto nas coisas permanentes (vv. 33-34), contribuindo para o processo de transformação da humanidade, entramos numa outra dimensão capaz de nos proporcionar um conforto sem igual.

Muito a Igreja tem que aprender (ou reaprender) neste século XXI afim de tornar-se um farol para este mundo decaído. Cometemos o erro institucional de ajuntarmos recursos financeiros e investirmos demais em templos. Mesmo que a desculpa seja alcançar vidas, lamento não ver tantos investimentos nas pessoas como poderiam ser feitos tendo em vista os altos valores da arrecadação de dízimos e ofertas. Como escrevi no artigo Um movimento que abalou o rei, sobre o comissionamento dos apóstolos durante o ministério de Jesus, eles não tinham que carregar a bagagem extra (Lc 9:3), o que é repetido quando o Senhor envia os setenta seguidores, tirando-lhes até as sandálias dos pés (10:4), algo de forte simbolismo para os ministérios de todas as eras.

A pregação de Jesus sobre a ansiedade serve para a humanidade toda, mas precisa começar pelos discípulos (nós) para quem Jesus havia se dirigido inicialmente na perícope (v. 22). Não iremos influenciar o mundo e as famílias dos povos somente com as palavras e sim por meio de atitudes. Aí, se tomarmos a posição que Cristo espera de nós, creio que haverá uma revolução amorosa no planeta jamais vista.


OBS: Foto sobre os lírios dos campos extraída do acervo virtual da Wikipédia com atribuição de autoria a Andrew Massyn com data de agosto/2008, conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Zantedeschia_aethopica.JPG

"A vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui"


"Nesse ponto, um homem que estava no meio da multidão lhe falou: Mestre, ordena a meu irmão que reparta comigo a herança. Mas Jesus lhe respondeu: Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós? Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza, porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui. E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância. E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: Farei isto: destruirei os meus celeiros, reconstruí-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus." (Evangelho de Lucas, capítulo 12, versículos de 13 a 21; versão ARA)

Após ter Jesus concluído o seu ensino sobre a hipocrisia, como vimos no último estudo bíblico sobre o 3º Evangelho, ele passa a tratar do tema da avareza que não está totalmente dissociado da situação anteriormente exposta pelo comportamento fingido dos religiosos porque ambos se relacionam a um apego às coisas terrenas. Um homem, no meio da multidão, pede ao Senhor para se meter num assunto de família e, possivelmente, desejava que, em conformidade com os outros rabis do povo judeu, o Mestre interpretasse a lei mosaica quanto à repartição da herança paterna.

Quer estivesse com a razão ou não, Jesus não aprova a atitude daquele homem. Ele nem entra no mérito da causa e se recusa a julgá-la. O Senhor talvez desejasse que seus ouvintes adotassem uma outra postura, cultivassem valores mais elevados e resolvessem seus conflitos de maneira não litigiosa (Lc 6:30). Aliás, pode-se concluir que o motivo de tal demanda não seria outro senão a citada avareza, o apego às riquezas e aos bens materiais.

De modo algum é pecado um homem possuir riquezas. Os recursos deste mundo, quando chegam às nossas mãos, devem ser administrados de uma maneira responsavelmente inclusiva e jamais com egoísmos. Empregando-se adequadamente o dinheiro em benefício das pessoas, é possível satisfazer tanto as nossas necessidades quanto as do próximo. Aliás, quanto mais doarmos, menos precisaremos ter ou gastar conosco. Mesmo que não consigamos matar a fome do mundo inteiro, podemos investir de diversas formas nas vidas das pessoas que estão perto e participarmos de uma rede assistencial de caráter social-espiritual.

Na ótica revolucionária do Reino de Deus, acumular bens para si seria uma conduta manifestamente incompatível. Ainda mais existindo uma massa de miseráveis ao nosso redor como acontecia nos dois primeiros séculos na Palestina. Note-se que o homem pede que se reparta a herança com ele. Não era com os pobres, nem com as viúvas desamparadas ou com as crianças órfãs. O cara estava focado somente em si, visando um interesse próprio como muitos de nós. Em sua mente não tinha caído a ficha do novo tempo chegado e que Jesus constantemente proclamava nas aldeias de Israel.

Contando uma parábola, o Mestre demonstra a insanidade do acúmulo das riquezas. Em face da morte, destino de todos os homens, seria inútil e sem propósito dedicar a vida para reunir tantos tesouros neste mundo a ponto de não ter mais onde colocar o seu dinheiro enquanto há tantas vidas por aí precisando receber investimentos. E a respeito dessa conduta louca, vale a pena fazermos uma leitura desses versos do livro de Salmos, os quais, provavelmente, deveriam integrar as reflexões de Jesus:

"Com efeito, passa o homem
como uma sombra;
em vão se inquieta;
amontoa tesouros e não sabe quem os levará."
(Sl 39:6)
"Eis o homem que não fazia de Deus a sua fortaleza;
antes, confiava na abundância dos seus próprios bens
e na sua perversidade se fortalecia."
(Sl 52:7)

Como se estudou anteriormente, nas bem-aventuranças do Sermão da Planície, Jesus condenou/lamentou sobre os ricos (Lc 6:24) por perderem a consciência da pobreza espiritual em que viviam e confiarem nos próprios recursos. No capítulo 12, tal ensino é confirmado. Tem-se o detalhamento e a explicação de um princípio de como funciona o Reino.

Finalmente, o versículo 21 fala sobre o homem ser "rico para com Deus". Isto, indiscutivelmente, implica em trabalharmos para o bem do outro já que o Criador, dono de todo ouro e de toda prata, não precisa das riquezas que possuímos, as quais nos foram dadas por ele. Trata-se, portanto, de pormos em prática o maior mandamento da Lei divina que é amarmos a Deus, fazendo isto, evidentemente, numa atitude de serviço ao próximo (segundo maior mandamento). Aliás, o livro de Deuteronômio mostra que assim encontramos a vida:

"O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas." (Dt 30:6)

O resultado dessa vida de serviço voltada para Deus e ao próximo é que passamos a encontrar o real sentido da nossa existência. Deixamos para trás a alienação espiritual e passamos a ter um propósito elevado a cumprir que se torna fonte de uma verdadeira satisfação interior.


OBS: A ilustração acima trata-se de um quadro do pintor holandês Rembrandt (1606-1669), A parábola do rico insensato (1627). Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Rembrandt_-_Der_reiche_Narr.jpg

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Não sofra sozinho(a) e nem deixe seu próximo nesta condição



Após ter publicado o meu artigo de ontem no blogue, veio em minha mente um complemento da mensagem postada e que tem a ver com o trecho da carta de Tiago ali citada:

"Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo. Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos." (Tg 5:13-18; ARA)

No texto anterior, havia compartilhado que não devemos agir como o estúpido rei Asa que, mesmo estando gravemente doente, deixou de buscar a Deus confiando somente nos médicos (2Cr 16:12). Agora, porém, quero ressaltar tanto a importância da nossa oração pessoal como também sobre dividirmos um pouco da luta travada por cada um com os membros da comunidade espiritual que frequentamos, tornando o ensino de Tiago como um princípio a ser observado/refletido.

No mundo antigo, o azeite era frequentemente usado como substância terapêutica. Isto é confirmado em outras passagens do Novo Testamento como no envio dos doze apóstolos feito por Jesus durante os dias de seu ministério (Mc 6:13) e na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10:34). Não era nenhuma porção mágica e os primeiros cristãos pareciam ver no óleo mais um símbolo do poder curador divino do que algo sagrado. Com o tempo, os católicos romanos acabaram fazendo daquele velho costume um sacramento conhecido como "Estrema Unção" e as igrejas protestantes não abandonaram o ritual. Muito embora para os evangélicos o ato não é visto como uma preparação do enfermo para a morte e o óleo seja usado até nos casos bem simples como gripes e resfriados.

O mais importante, a meu ver, certamente não seria a unção do doente com algumas gotas de azeite e sim a acolhedora visita que a pessoa recebe no seu leito. Devemos considerar os "presbíteros" como sendo homens e mulheres iguais a todos nós, "sujeitos aos mesmos sentimentos" (verso 17), porém capacitados para prestar uma assistência espiritual, podendo transmitir uma mensagem de ânimo, conforto, amparo, esperança, amor e carinho. Tanto para o enfermo quanto para a sua família. Não necessariamente seriam os líderes da congregação eclesiástica frequentada, mas apenas obreiros, gente que se dispõe a cuidar/gostar de gente, encontrando-se em condições de oferecer algum auxílio e dividindo conosco sua atenção por maiores que sejam seus limites particulares.

De modo algum o "presbítero" pode substituir a presença de Deus na vida de alguém. Só que muitas das vezes o Pai Celestial quer contar também conosco, concedendo a graça de sermos canais do seu imenso amor. Para isto ele enviou Jesus e o Mestre apostolou discípulos afim de reproduzirem seu trabalho pelo mundo. Portanto, é fundamental que o visitante estabeleça um diálogo com o enfermo em sua casa além de orar. Eis aí a importância da confissão de pecados uns com os outros (verso 16).

Embora nunca possamos generalizar, ocorre que muitas das vezes as doenças têm um "pecado" como causa. O problema pode estar direta ou indiretamente relacionado a uma mágoa de alguém, à falta de perdão, à maneira errada como tratamos a nós mesmos e organizamos a vida, às compulsões por qualquer coisa, vícios, desejos por coisas que não nos farão bem, egoísmo, sentimentos de auto-comiseração, descrença, ausência de amor fraterno no nosso coração, apego à matéria, pensamentos negativos, etc. Assim, quem visita as casas precisa estar sempre disposto a ouvir, aprender a observar todo o ambiente da família fazendo uma atenta leitura multifocal da situação e nunca pré-julgar usando inapropriadamente dos nossos limitados conceitos doutrinários que nem sempre serão adequados ao caso específico. Aliás, no capítulo 9 do Evangelho de João, no episódio da cura do cego de nascença, aprendemos que um problema de saúde pode também não ter nada a ver com a conduta do indivíduo (ou de seus pais) e cabe ao discípulo de Jesus simplesmente amar sem querer encontrar explicações numa lógica julgadora.

Mas será que o apoio aos enfermos só pode ser prestado por quem é espiritualmente qualificado? Penso que não. E, se nos falta preparo, devemos amar na medida das nossas possibilidades ou condições. Às vezes, somente um abraço afetuoso ou uns instantes de nossa presença será algo bem significativo e mais penetrante do que muitas palavras repetidas. Aliás, esse deve ser o papel da comunidade eclesiástica que não pode deixar de se importar com a dor do outro, considerando-o como membro da própria família visto sermos todos partes do Corpo de Cristo, iguais aos líderes e obreiros atuantes de uma congregação.

Por outro lado, a pessoa que sofre precisa estar aberta para receber ajuda. Ela não pode fechar em si mesma e não será nada bom ficar alimentando a derrota na sua mente. O enfermo deve procurar ajuda, tornar-se humilde e receptivo para coisas boas. Manter uma atitude de arrogância e de orgulho só contribui para piorar o quadro clínico. Temos que querer ser ajudados!

Finalmente, digo que é fundamental ter fé, aceitar a vontade divina e não criarmos expectativas erradas. É certo que, enquanto estamos vivos, temos que lutar por nossa cura e recuperação. Ninguém que respira tem que se conformar com a sua morte! Porém, a parte do texto bíblico citado que diz "o Senhor o levantará" (verso 15) pode ocorrer tanto nesta vida quanto na outra. Aí, se a pessoa partir, cabe aos familiares crerem que a alma do ente querido encontra-se nos braços sempre acolhedores do Pai Eterno.

Nos dias de hoje, em que muitas das vezes esse tipo de assistência espiritual ministrada aos enfermos acaba sendo mais um trabalho proselitista (ou de marketing) de inúmeras organizações religiosas, não podemos ficar terceirizando aquilo que se encontra ao nosso alcance. Se soubermos de alguém próximo que esteja doente, por que não orarmos e/ou fazermos uma visita surpresa a esta pessoa? Às vezes, um breve telefonema ou um bilhete enviado pelos Correios já servirão de grande ajuda. Nunca esqueça que você pode ser a resposta de Deus que o outro tanto aguarda.

Tenha um excelente dia!


OBS: A ilustração usada neste artigo refere-se ao quadro Os sete sacramentos do pintor gótico flamengo Rogier van der Weyden, ou Rogier de Bruxelles, cujo nome verdadeiro era Rogier de la Pasture (1400-1464). A imagem foi extraída do acervo da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Extreme_Unction_Rogier_Van_der_Weyden.jpg

domingo, 18 de agosto de 2013

Busquemos sempre o Médico dos médicos!


"No trigésimo nono ano do seu reinado, caiu Asa doente dos pés; a sua doença era em extremo grave; contudo, na sua enfermidade não recorreu ao SENHOR, mas confiou nos médicos" (2Cr 16:12; ARA)

A Bíblia bem relata no livro de 2 Crônicas a tragédia de vida experimentada pelo rei Asa no final de seu governo. O escritor sagrado fez questão de ressaltar um importante detalhe para a advertência dos seus leitores judeus egressos do cativeiro babilônico, afim de que as gerações do presente e do futuro não deixassem de por a confiança no Deus vivo.

Quanta loucura cometeu aquele velho monarca! Listado como um dos reis bons, Asa começou o seu governo buscando o SENHOR (ver capítulos 14 e 15 de 2 Crônicas) e obteve uma incrível vitória militar, com um livramento sobrenatural, alcançando então a paz por um bom período. Porém, quando foi provado com um novo desafio, já no final de carreira, ele preferiu confiar nos homens estabelecendo uma aliança política com um rei estrangeiro (2Cr 16:1-6). E, repreendido pelo profeta Hanani, não deu ouvidos. Antes castigou o homem de Deus cometendo grave injustiça e perseguiu também aqueles que concordavam com o vidente (2Cr 16:10).

Possivelmente a enfermidade tenha sido resultado da atitude estúpida do rei que, ainda assim, não caiu em si para se humilhar e buscar o arrependimento. Seus dois últimos anos de vida parecem-me que foram uma oportunidade para Asa reconsiderar a sua atitude má. Só que ele preferiu agir como um ateu. Raciocinava, talvez, considerando unicamente as causas naturais dos fatos e se esquecendo de experiências passadas com o Deus de seu ancestral Davi.

O que leva um homem a deixar de confiar em Deus após ter recebido a graça de um milagre na sua saúde, finanças ou diante de qualquer outra dificuldade?

A Bíblia nos dá inúmeros exemplos sobre o quanto o coração do ser humano é capaz de se afastar de Deus ou de demonstrar confiança apenas quando não lhe resta outra alternativa. Mas, no caso do rei Asa, ele alimentou dentro de si um processo de incredulidade, coisa que não ocorreu de uma hora para outra e foi acontecendo no seu íntimo, possivelmente quando tudo caminhava bem. Aí, ao surgir novos desafios, faltou-lhe a fé.

Será que nas nossas vidas não estaríamos desenvolvendo processos semelhantes de incredulidade e de afastamento de Deus? Como que enfrentaríamos hoje uma doença ou um problema capaz de gerar medo, aflições e angústias para a alma? Sinceramente, confesso que não gosto nem de pensar, mas, se estivesse numa batalha dessas, teria que adotar como solução principal buscar o meu Redentor.

A Bíblia de maneira alguma nos proíbe de buscar tratamento médio para sararmos das enfermidades. Em 2Rs 20:5-7, quando o profeta Isaías disse ao rei Ezequias que este ficaria curado, mandou que o monarca fizesse uso de um remédio natural - a pasta de figos. Já o livro de Jeremias, numa interessante metáfora para abordar coisas mais profundas, faz menção do uso de bálsamo como uma substância terapêutica e da existência de médicos na terra de Gileade, deixando transparecer no texto a correta lógica de se procurar os serviços de saúde:

"Acaso, não há bálsamo em Gileade? Ou não há lá médico? Por que, pois, não se realizou a cura da filha do meu povo?" (Jr 8:22)

Certamente que seria pecado o povo não estar confiando em Deus e se manter inerte diante das adversidades a ponto de combatê-las somente com os recursos naturais, ou buscando falsos deuses a exemplo do perverso Acazias (2Rs 1:2). Em relação às doenças, a carta de Tiago recomenda que, quando alguém se encontrar enfermo, fossem chamados os presbíteros da Igreja com a finalidade de ungir com óleo e de orar pela pessoa (Tg 5:14-15). Leiamos, pois, o texto epistolar:

"Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo. Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos." (Tiago 5:13-18)

No texto citado do Novo Testamento, o autor considera a possibilidade de que uma enfermidade esteja relacionada à prática do pecado. Logicamente que isto não constitui uma regra assim como poderá não haver cura digamos "sobrenatural" em vários casos. Nem mesmo pelos meios que julgamos naturais ou convencionais (através da ciência). Pode ser ainda que o livramento seja alcançado pelo apoio dos médicos junto com as orações.

Seja como for, cabe ao homem buscar sempre a Deus que é o Médico dos médicos. Desde um simples resfriado até um câncer fatal, precisamos fazer com que as nossas aflições sejam todas levadas ao Eterno por meio da oração ainda que o Onisciente já pré-conheça os pedidos antes destes serem formulados. E eu creio que, quando clamamos com fé, entramos em harmonia com o Rei do Universo. Então, o resultado será sempre o melhor porque entregamos ao Senhor o destino de nossas vidas.


OBS: A ilustração acima refere-se a uma pintura de um artista desconhecido do século XVII, na Suécia, referindo-se ao rei Asa. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia através de uma imagem fotográfica com autoria atribuída ao internauta colaborador David Castor, conforme consta informado em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:%C3%85hus_kyrka-08.jpg

Cuidado com o "fermento" da hipocrisia!

"Posto que miríades de pessoas se aglomeraram, a ponto de uns aos outros se atropelarem, passou Jesus a dizer, antes de tudo, aos seus discípulos: Acautelai-vos do fermento dos fariseus que é a hipocrisia. Nada há encoberto que não venha a ser revelado; e oculto que não venha a ser conhecido. Porque tudo o que dissestes às escuras será ouvido em plena luz; e o que dissestes aos ouvidos no interior da casa será proclamado dos eirados." (Lucas, capítulo 12, verso de 1 a 3; ARA) 

Continuando com os comentários bíblicos sobre o 3º Evangelho, iniciados sequencialmente desde junho deste ano no blogue, chegamos ao ponto em que Jesus previne os seus discípulos (a futura Igreja) para tomarem cuidado com a conduta hipócrita. No estudo anterior, vimos o nosso Senhor criticando os fariseus e intérpretes da Lei pelo comportamento incoerente que tinham. Aqui, porém, a mensagem é atualizada para o leitor cristão de modo que o ensino do Mestre passa a assumir um caráter universal, não podendo de modo algum receber um direcionamento apologético anti-judaico como se o problema fosse exclusivo de alguns lideres de uma religião específica.

Observa-se que o ministério de Jesus tinha se tornado bem popular com as multidões se espremendo para estar com ele. Porém, toda aquela fama  prestígio poderia corromper o bom desempenho do trabalho desenvolvido. Onde estava a garantia de que a Igreja não iria tropeçar nos pecados da religiosidade? Logo, percebe-se que, já nos tempos do autor sagrado, deveria existir uma preocupação neste sentido. E, apesar de tudo o que aconteceu na história eclesiástica, sobretudo na Idade Média com a vergonhosa venda de indulgências, parece um milagre o texto em análise não ter desaparecido até à época da Reforma Protestante.

Muito interessante o uso de uma figura bem conhecida pelos destinatários da mensagem pregada por Jesus. Pois, segundo a tradição judaica da Páscoa, os israelitas deveriam se desfazer de todo e qualquer fermento em suas casas, comendo pães asmos durante sete dias afim de lembrarem a fuga dos seus ancestrais do Egito. Assim, o fermento torna-se uma representação do pecado capaz de corromper a nova massa pela hipocrisia religiosa. De um certo modo, o texto refere-se a tudo aquilo que fora denunciado pelo Salvador no final do capítulo 11.

Assim, de nada adiantaria a futura Igreja tramar às escondidas "no interior da casa". Aos olhos do Deus Onisciente nada estava encoberto e, na ocasião certa, a verdade seria revelada. Fosse no Julgamento Final ou antes. E as críticas de Jesus seriam sempre um tropeço para os cristãos hipócritas de todos os tempos! Ainda mais porque carregariam consigo suas iluminadoras palavras, sua cruz e o seu nome.

Inegavelmente, o discurso proferido pelo Mestre torna-se também uma mensagem de juízo e uma confortante orientação encorajadora para a Igreja manter uma boa consciência diante de Deus em qualquer situação. Eles não tinham que temer o homem e nem prestar contas às autoridades, quer fossem políticas ou religiosas. Antes enfrentassem a morte (Lc 12:4) do que se tornarem coniventes ou aliados do sistema. A responsabilidade do discípulo ganha aí uma dimensão existencial:

"Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer." (verso 5)

Por ter usado então de uma outra metáfora (a Gehenna que é traduzida nas bíblias como "inferno"), mais precisamente onde era incinerado o lixo de Jerusalém, não é possível construir uma teologia ou doutrina a partir daí acerca de um lugar de tormento para as pessoas condenadas pelos seus pecados após a morte. Até porque o destino de todos os que deixam seus corpos terrenos seria o termo grego Hades, tomado de empréstimo pelos escritores bíblicos da mitologia grega. Contudo, não é descartada a noção de que os discípulos e todas as pessoas um dia vão responder perante o Juiz de todo o Universo, encarando toda a verdade. Inclusive o que conseguiram ocultar dos homens.

O objetivo desse texto do Evangelho não é o de incutir fobias no leitor como fazem inúmeros "pregadores" por aí. Muito pelo contrário! Jesus quer é encorajar os seus discípulos a uma obediência sincera no cumprimento da obra do Reino. A vida deles estava guardada com muito amor nas mãos de Deus, o qual não se esquece nem mesmo dos simples pardais que eram comercializados por um  dos mais baixos valores monetários da época - o assarion - que correspondia a um dezesseis avos de um denário. O seguidor verdadeiro de Cristo não tinha o que temer:

"Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais" (versos 6 e 7)

A questão exposta vai assumir um caráter de escolha existencial e cabia à Igreja posicionar-se de maneira correta pelas atitudes tomadas. Nos versículos seguintes de 8 e 9, Jesus diz que a confissão ou negação dos discípulos será confirmada pelo Filho do Homem perante os anjos de Deus. Portanto, não dava para serem  hipócritas e isto em nada se confunde com os formais atos de profissão de fé hoje praticado nas congregações cristãs. Se agissem com a falsidade religiosa, seriam negados como seguidores do Senhor.

Uma advertência ainda mais severa vem no verso 10 que seria o "pecado imperdoável":

"Todo aquele que proferir uma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas, para o que blasfemar contra o Espírito Santo, não haverá perdão."

A interpretação destas palavras também não é literal, mas deve ser feita no seu devido contexto. A blasfêmia contra o Espírito Santo não se trata de ofensas verbais ou insultos. Parece-me algo muito mais sério e profundo que tem a ver com a atitude praticada pelos fariseus quando acusaram Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu (Lc 11:15), como é explicitamente relacionado no texto paralelo de Marcos (Mc 3:29-30).

Não seria este o nível mais baixo da hipocrisia religiosa em que, buscando manter o status quo, os opositores de Jesus rejeitaram deliberadamente a verdade em sua essência?

Deste modo, o pecado contra o Espírito é entendido como sem perdão porque a conduta do agente mostra-se incompatível com qualquer reconciliação com o Criador. A escolha da pessoa coloca-a numa posição totalmente contrária ao Reino. Não é Deus quem estaria fechando as portas e sim o próprio homem conduzido cegamente pela sua mais completa hipocrisia.

Mas não é qualquer tipo de oposição ao Reino que caracterizará o pecado imperdoável. A blasfêmia contra o Espírito surge primeiramente no coração. Nem todos os que foram perseguidores do Evangelho tornaram-se tão depravados. O apóstolo Paulo foi um exemplo de alguém que chegou a matar os servos do Senhor supondo estar trabalhando zelosamente para Deus, agindo por ignorância. Por outro lado, os acusadores de Jesus, mesmo diante da manifestação do poder e do amor divino, trabalhavam contra o ministério do Mestre (11:23). Rejeitaram o Filho do Homem e estavam sendo advertidos para não errarem mais atacando conscientemente o propósito divino a ponto de confirmarem uma escolha existencial pela posição errada.

Certamente que, se uma pessoa está preocupada se blasfemou contra o Espírito Santo é porque ela não cometeu este tipo de pecado. Os que chegam em tal nível de rebeldia contra Deus seriam incapazes de cair em si para se arrependerem, pelo que não poderiam estar se importando em pedir perdão. Sendo assim, não é para ninguém de boa consciência ficar encucado dentro da Igreja se pecou ou não contra o Espírito, como já vi crentes angustiados após terem escutado alguma pregação ameaçadora acerca do assunto.

Para concluir esse ensino, Jesus previne os discípulos de que eles sofreriam perseguições religiosas e políticas. Seus seguidores testemunhariam perante as autoridades e não tinham que se preocupar com as coisas que responderiam pois receberiam a assistência do Espírito Santo naquela hora (versos 11 e 12). Justamente porque a obra do Reino é operada pelo Espírito, a futura Igreja não deveria ficar ansiosa diante de tais situações procurando o discurso certo para se posicionar melhor diante dos homens. Deus está no controle e, como já dito antes, eles não tinham que temer os poderosos. Bastavam obedecer e dizerem corajosamente a verdade que os reis e religiosos precisavam ouvir.

Como podemos constatar, toda essa lição maravilhosa do grandioso Mestre possui um sentido capaz de unir todas as recomendações dadas no texto. Nós, a Igreja, não temos que aparentar algo para agradar os homens. Precisamos nos afastar do sistema dos templos e dos palácios, os quais aprisionam as consciências das pessoas incutindo nelas o medo e a culpa. A conduta do servo de Deus deve ser autêntica e sincera, não tendo nada o que representar como se estivesse fazendo uma peça teatral. Nada de usarmos máscaras! Nem mesmo a de bons pastores. Por isso os discípulos, como futuros missionários e pastores de comunidades, precisavam não se contaminar com o fermento da hipocrisia.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A imprescindibilidade do advogado nos Juizados



Tem tramitado no Senado o Projeto de Lei da Câmara n.º 33/2013 que versa sobre a imprescindibilidade da presença do advogado nas ações trabalhistas prescrevendo critérios para a fixação de honorários advocatícios e periciais no âmbito da Justiça do Trabalho. Se aprovado, a parte no processo judicial trabalhista deverá ser representada por advogado legalmente habilitado, pelo Ministério Público do Trabalho ou a Defensoria Pública da União. Só poderá postular sem representante se tiver capacidade para atuar em causa própria, isto é, for um advogado inscrito na OAB.

Penso que algo parecido pode ser idealizado para os Juizados Especiais Cíveis, os JECs, exceto no que diz respeito à cobrança dos honorários. Porém, a assistência pode se dar de maneira diferente, permitindo o ingresso das ações simples de até vinte salários mínimos sem advogado, mas com a revisão de um profissional da Defensoria quanto à redação peça inaugural e documentos comprobatórios anexados. Ou seja, no próprio Núcleo de Primeiro Atendimento, onde costumam ser elaboradas as petições iniciais, seria legalmente obrigatória a presença de um advogado ou defensor público para verificar se a redação encontra-se minimamente adequada para expressar a pretensão do jurisdicionado, sem que ele fique vinculado à causa.

Quando então chegasse a sessão de conciliação, não haveria necessidade de um representante, exceto em caso de acordo. Neste caso, haveria obrigatoriamente de um advogado ou defensor de plantão para a parte ficar consciente do termo que estará assinando. Claro que ela poderia levar o profissional de sua confiança.

Já nas audiências de instrução e julgamento, a presença do advogado passaria a ser obrigatória, sem o que não se realizaria o ato. Se a parte não comparecer acompanhada do seu representante, o magistrado seria obrigado a nomear alguém para atuar somente naquela vez. Não havendo condições, procederia-se a redesignação.

Verdade seja dita que, nos Juizados Especiais Cíveis, muita gente não alcança o êxito esperado pela falta de um apoio jurídico necessário e há quem saia irreversivelmente prejudicado dos processos, os quais, sendo definitivamente decididos, formam a chamada "coisa julgada". E, em via de regra, não há como mudar a sentença ou acórdão que pôs fim a uma demanda judicializada.

Por outro lado, muitas questões reclamadas nos JECs são de baixo valor econômico mas incomodam imensamente a vida do cidadão. Só a contratação de um advogado fica mais cara do que o valor que a pessoa tem a receber, isto sem esquecermos que há causas de nenhum conteúdo financeiro. Jamais certos profissionais vão se interessar em patrocinar!

Assim, deve a legislação permitir que as pessoas possam defender seus direitos em tais situações sem precisarem contratar profissionais ou terem vínculos com a Defensoria Pública durante toda a tramitação do feito. Em outras palavras, a parte passaria a contar com um advogado-assistente, remunerado pelo Estado, com o qual se orientaria seguramente. Alguém que estaria ao seu lado nos momentos de elaboração da petição, na celebração de um acordo e na audiência de instrução. Havendo recurso ou requerimento de antecipação de tutela jurisdicional (uma medida concedida antes do julgamento final), o vínculo tornar-se-ia obrigatório já que esta, em tese, se reveste do caráter de urgência.


OBS: A ilustração acima refere-se a uma gravura representando um advogado no início do século XX. Consta nas três primeiras ediçoes da enciclopédia sueca Nordisk Familjebok. Foi extraída do acervo da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Advokat,_Fransk_advokatdr%C3%A4kt,_Nordisk_familjebok.png

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Os druidas: uma cultura que desapareceu sem o Evangelho




Tanto os esotéricos quanto os nacionalistas franceses curtem mistificar os antigos druidas que povoavam as seculares florestas da Europa Ocidental antes da conquista da Gália pelo imperador romano Júlio César no século I a.C.

Certamente que era interesse de Roma demonizar, ou barbarizar, os seus adversários gauleses por causa da resistência destes ao expansionismo territorial de um Império que transformava em escravos os povos conquistados. Devido a isso, os escritores latinos (e posteriormente os católicos) procuraram deturpar a cultura dos druidas, considerados "sanguinários" e "supersticiosos" pelo vencedor.

Por outro lado, velhos autores como Lucano, Horácio, Florus e até o apologista cristão Clemente de Alexandria foram capazes de encontrar coisas positivas nos druidas, reconhecendo que não eram tão "bárbaros" assim. Aliás, pode-se dizer que os gauleses experimentaram uma liberdade superior a dos gregos e dos romanos. Os chefes de cada tribo eram eleitos em assembleia popular, independentemente de qualquer hereditariedade, sendo permitido às mulheres tomarem parte do conselho comunitário e também exercerem funções sacerdotais. Anualmente, representantes das tribos reuniam-se para definirem importantes questões nacionais e viviam todos quase que num comunismo primitivo sem conhecerem ainda o pecado da propriedade privada.

Contraditoriamente, esse povo tinha também castigos físicos bem cruéis para quem violasse certas normas. Se um homem ambicioso tentasse o uso de meios manipuladores para alcançar o poder, corria o risco de ser condenado ao suplício de fogo. Inclusive, a maioria dos sacrifícios humanos que os escritores latinos e católicos reprovavam nos gauleses talvez fossem execuções de penas, muito embora pessoas também fossem entregues em expiação durante os períodos de calamidades naturais. O auto-sacrifício pode ter sido prática normal entre eles.

Por curiosidade, os druidas tiveram um notável conhecimento astronômico. Para eles não era novidade que a Terra gira solta e continuamente no espaço em torno do Sol. Ou seja, mesmo sem dispor de meios de observação científica, os gauleses obtiveram incríveis noções cosmológicas. Nem César pôde negar tal avanço, reconhecendo o ensino do povo inimigo sobre a forma e a dimensão do nosso planeta, o movimento dos corpos celestes e a geografia lunar.

Infelizmente, os druidas não nos deixaram registros escritos para que pudéssemos estudá-los melhor na atualidade havendo até hoje muitas especulações sobre essa civilização que desapareceu antes do Evangelho de Jesus Cristo ser proclamado ali. Entretanto, pelos indícios herdados das fontes latinas e cristãs, só comparando com os costumes dos outros povos mais próximos da natureza concluiremos pela existência de um saber intuitivo comum desenvolvido pelas tradições tribais. E aí, com todo respeito ao conhecimento dos antropólogos, ouso dizer que toda a humanidade, num passado bem remoto, parece ter tido a sua revelação original sobre Deus, de modo, com os druidas, não foi diferente.

Celebrando os seus cultos debaixo das copas de centenárias árvores de carvalho (posteriormente derrubadas pelos romanos), os druidas tinham uma concepção sobre Divindade que não se contaminou com a idolatria praticada por outros povos, como eram os seus terríveis conquistadores. Embora fossem politeístas, adoravam ao que poderíamos traduzir como Poder Infinito. A ideia sobre a unidade do Divino convivia com a personificação das coisas. Logo, Deus corresponderia ao Deus dos deuses.

Tudo isso compunha uma primitiva maneira de pensar, a meu ver mais autêntica e pura do que as corruptas civilizações dominadoras: Egito, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma. Assim como os nossos índios, faltava aos druidas conhecer a transformadora mensagem das boas-novas do Reino de Deus para serem verdadeiramente livres em todos os aspectos. Não essas pregações baratas e oportunistas que se escuta por aí na mídia usada pelos pastores charlatões. Nem a catequese dos jesuítas nos tempos da colonização ibérica no continente americano. Mas sim uma evangelização libertária capaz de considerar todo o conhecimento da tradição de um povo como um elemento indispensável para a convocação construtiva de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem Deus fez reinar sobre todos os povos.

Ao estudar sobre povos e civilizações que desapareceram, mais do que nunca considero a importância das missões. Precisamos de novos apóstolos neste século XXI e creio que, conhecendo verdadeiramente a Cristo, a humanidade poderá escrever um futuro diferente para si baseado nos valores do amor, da tolerância, da democracia, da dignidade da pessoa humana e da pluralidade cultural.


OBS: A imagem usada neste artigo trata-se de uma ilustração imaginativa do século XIX sobre um druida em suas vestes judiciais e foi extraída do acervo da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:An_Arch_Druid_in_His_Judicial_Habit.jpg