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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Alicerces e Raízes


“Eu lhes mostrarei com quem se compara aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as pratica. É como o homem que, ao construir uma casa, cavou fundo e colocou os alicerces na rocha. Quando veio a inundação, a torrente deu contra aquela casa, mas não a conseguiu abalar, porque estava bem construída. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as pratica, é como um homem que construiu uma casa sobre o chão, sem alicerces. No momento em que a torrente deu contra aquela casa, ela caiu, e a sua destruição foi completa”. (Evangelho de Lucas 6.47-49; Nova Versão Internacional – NVI)


Esta passagem do terceiro Evangelho, que também aparece como o ensinamento final do festejado Sermão da Montanha (Mt 7.24-27), trás em si um dos mais valiosos segredos do Reino de Deus.

Em ambas as ocasiões, o ouvinte praticante da Palavra é comparado ao homem que constrói sua casa sobre a rocha. Porém, o que talvez diferencie a versão de Lucas do texto de Mateus seja a ênfase sobre os alicerces da casa, enquanto que, no primeiro Evangelho, Jesus foca mais no tipo de solo onde é feita a edificação (rocha versus areia).

Tal ensino de Jesus tem uma profunda relação com as Escrituras hebraicas, isto é, com o Antigo Testamento da Bíblia cristã. Pois é uma parábola que se harmoniza com Mishlê (Provérbios) onde o autor fala das casas construídas pelo justo e pelo ímpio, o qual não consegue resistir a uma situação de adversidade:


“A casa do ímpio será destruída,
mas a tenda dos justos florescerá.”

(Pv 14.11; NVI)

“Passada a tempestade,
o ímpio já não existe,
mas o justo permanece firme para sempre.”

(Pv 10.25; NVI)


Acredito que algumas indagações didáticas podem ser propostas para tentarmos compreender melhor a célebre metáfora de Jesus:

1) Qual a profundidade e a medida de esforço empreendido por um empreiteiro para cavar numa rocha o lugar onde serão colocados os alicerces?

2) Como são os alicerces dessa casa construída sobre a rocha?

3) Por que o homem justo consegue sobreviver às tempestades da vida pela prática da Palavra?

Ao imaginar uma casa edificada na rocha, não posso esquecer-me de comentar sobre a Capadócia, uma região da Turquia em que antigas habitações subsistem por vários séculos. Ali, o turista pode visitar diversas moradias que foram feitas em local ainda mais difícil – dentro da rocha. Um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade!

Devido à característica dura do terreno, não é possível cavar a rocha da mesma maneira que se faz com a terra ou a areia onde se usa a pá. É preciso perfurar o solo rochoso, gastar bastante tempo na colocação dos alicerces, enfrentar dias que poderão ser de frio ou calor, agir com persistência, não desanimar e retomar a construção várias vezes. Contudo, o resultado da obra é bem gratificante, pois, ao final, tem-se uma habitação resistente ao ambiente, segura e durável.

Meditando mais sobre o tipo de alicerce da casa e do justo que é um ouvinte praticante da Palavra, verifica-se que o virtuoso fundamento capaz de dar solidez à vida de um homem é de natureza experimental e não filosófica ou idealista. Isto porque não basta alguém conhecer as instrução divina apenas com a mente. É necessário que o ouvinte prove dela, vivenciando o ensino em seu cotidiano.

Neste sentido, torna-se oportuno citar este maravilhoso trecho do livro do profeta Jeremias, o qual, assim como a parábola da casa alicerçada sobre a rocha, encontra o seu paralelo bíblico no verso 3 do Salmo primeiro:


“Mas bendito é o homem cuja confiança está no SENHOR, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ele não temerá quando chegar o calor, porque suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto”. (Jr 17.7-8; NVI)


Enquanto que na metáfora de Jeremias o verso precedente fala da confiança em Deus (v. 7), o Salmo primeiro faz sua comparação em três paralelismos ao homem que não anda em pecado (v. 1), mas que encontra prazer na instrução divina e nela medita (v. 2). Logo, estas seriam as “raízes” do justo, as quais correspondem ao perfeito entrelaçamento da fé com as obras que é muito bem expresso na epístola de Tiago onde a confiança não se separa da ação praticada pelo crente.

É através de uma verdadeira confiança no Eterno, capaz de manifestar-se em atitudes de obediência, que o homem aprende a construir bases sólidas e superar as adversidades que sucedem a todos, sem acepção de pessoas. Pois, quando passamos a cumprir os mandamentos, começamos a perceber que há significado na boa conduta incentivada pela Palavra, em que a experiência vai esculpindo em nossos corações uma firmeza interior decorrente da transformação sobrenatural do caráter. Aí o preceito, que antes parecia absurdo, ganha então sentido na mente do homem que obedece.

Do contrário, jamais conseguiremos compreender por que razão devemos perdoar uma pessoa que só nos faz mal? Qual o motivo de negarmos os instintos carnais e nos abstermos do adultério e de outras práticas sexuais que a Bíblia considera ilícitas? Onde está o fundamento de honrarmos os pais e amarmos os semelhantes como a nós mesmos? Que benefício pode haver em agirmos com honestidade nos negócios?

Estou certo de que nada disso conseguiremos compreender pela mera audição de uma mensagem pregada durante o culto na igreja ou através de uma leitura do texto bíblico. Pois, conforme disse Jesus, é preciso por em prática a sua instrução, o que, segundo o Salmo primeiro, deve acontecer o tempo todo pela meditação da Palavra. Então, quando estivermos radicados no ensino espiritual, teremos finalmente construído um castelo no nosso interior, capaz de suportar os mais terríveis cataclismos da vida, como é muito bem interpretado na literatura rabínica dos primeiros séculos da era comum e contemporânea ao surgimento do Novo testamento, onde se encontra a interessante resposta do rabi Eleazar ben Azariá, conforme citado por Geza Vermes num de seus livros:


“Aquele cujas obras são mais abundantes do que a sua sabedoria, a que se compara?”: “Uma árvore cujos galhos são poucos, mas cujas raízes são muitas, mesmo que todos os ventos do mundo venham e soprem contra ela, não pode ser arrancada do lugar” (mAb 3.18, comentando sobre Jr 17.8)


Que sejamos como a árvore bem plantada junto ao ribeiro de águas e firmes como a casa alicerçada sobre a rocha!

Tenha um excelente final de semana!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma inspiradora revelação sobre quem somos


Os estudiosos discutem interminavelmente se as variadas histórias existentes nas culturas dos povos antigos sobre a criação (e também sobre o dilúvio) viriam de uma fonte comum. Fala-se, por exemplo, em notáveis semelhanças entre trechos do Bereshit (Gênesis) e a Epopeia de Atrakhasis, um poema babilônico sobre o começo da vida em sociedade, escrito há mais de 1600 anos a.C.

Segundo as versões sobre a Epopeia de Atrakhasis, os seres humanos teriam surgido para desempenhar a árdua tarefa dos deuses inferiores em cuidar da terra e foram criados da carne e do sangue de uma divindade. Porém, como os homens começaram a se multiplicar e a incomodar os deuses fazendo barulho, estes decidiram acabar com a raça humana através de um dilúvio...

Prossegue a lenda dizendo que o piedoso Atrakhasis fora advertido em sonhos por um deus acerca da catástrofe planejada e recebeu instruções de construir um barco para salvar-se junto com sua família mais alguns animais. E não muito diferente do Noé da Bíblia, o herói babilônico também soltou aves da arca afim de verificar se as águas já teriam baixado depois das chuvas torrenciais do dilúvio, chegando a oferecer ao final um sacrifício no alto de uma montanha dedicado aos deuses que “sentiram o cheiro suave” (conf. com Gn 8.21).

Questiona-se se a tradição bíblica teria ou não se originado da curiosa Epopeia de Atrakhasis devido às fortes semelhanças entre as duas narrativas. Porém, a existência de histórias anteriores na própria região da Mesopotâmia aponta para um mito originado num tempo ainda mais remoto em que os ancestrais de todos aqueles povos civilizados, antes de conhecerem a escrita, sentavam-se ao redor de uma fogueira para ouvir histórias contadas por um ancião nos acampamentos nômades dos grupos humanos.

Para Alan Millard, professor de hebraico antigo e de línguas semitas da Universidade de Liverpool (Reino Unido), os relatos dos capítulos 1 e 2 de Gênesis teriam os seguintes pontos em comum com outras histórias da criação do mundo e do homem: “uma divindade pré-existente; a criação como resultado de uma ordem divina; o ser humano como o ponto alto da criação, formado do pó da terra como se molda um vaso, mas também de certa forma um reflexo da divindade”.

Contudo, o renomado pesquisador adverte que a existência de ideias semelhantes entre as histórias não significa que todas elas sejam derivadas de uma fonte comum:


“É enganoso reduzir histórias diferentes trazidas das várias partes do mundo aos fatores que têm em comum para afirmar que todas têm uma fonte comum. É improvável que todas essas diferentes histórias, ou uma grande parte delas, tenham uma fonte única. É mais interessante, e mais correto, colocar o texto do Gênesis ao lado de outros relatos do antigo Oriente Próximo, que é o mundo do AT. Ao fazermos isso, notamos que são poucas as antigas histórias de criação que têm mais do que um ou dois conceitos básicos em comum, como a separação entre céus e terra e a criação do homem a partir do barro. Porém, as histórias dos babilônios têm algumas notáveis semelhanças com o relato hebraico.”
(extraído do Manual Bíblico da Sociedade Bíblica Brasileira, págs. 117 e 118)


A meu ver, a existência de uma fonte comum parece bem certa. Pois, mesmo desconhecendo a data e o local onde possa ter se originado a primeira história da criação do cosmos (e do dilúvio), observo na busca por respostas a razão comportamental para a ocorrência de todas as tradições dos povos a respeito de suas origens. Do contrário, os relatos teriam deixado de ser recontados pelas gerações posteriores.

Tudo indica que as histórias de Gênesis foram compostas no meio de inúmeros mitos que já deveriam existir no mundo antigo, tendo o autor da Torá baseado-se numa crença dos hebreus para transmitir-lhes uma mensagem de reverência a Deus dentro de uma visão sacerdotal. Pois, considerando que o povo do segundo milênio antes de Cristo, habituado a enchentes catastróficas, já ouvia falar de dilúvios e criação dos homens pelos deuses, mostrava-se oportuna a utilização dos mitos mais conhecidos pelos israelitas e inseminá-los com um significado espiritual capaz de conduzir os homens a um comportamento ético que respeitasse a vida.

Assim, Gênesis não é uma invenção de seu autor e muito menos foi escrito para se tornar uma dogmática teoria criacionista que contrariasse a ciência. Talvez nem possa ser considerado como uma fonte histórica, no sentido em que hoje compreendemos a História, apesar de suas belas narrativas explicarem poeticamente as origens da vida, da humanidade e da nação de Israel. Aliás, os relatos do Bereshit apenas compõem o revestimento de um ensino profundo, conforme expõe O Livro do Esplendor numa suposta fala do Rabi Simeão ben Yohai, célebre mestre judeu da Galileia do século II:


“Se um homem considera a Torá como uma simples compilação de histórias e de assuntos quotidianos, infeliz dele! Esse gênero de escrita, que tratasse de questões banais, e mesmo um texto melhor, também nós, nós mesmo o poderíamos redigir. Ainda mais, os príncipes deste mundo têm em sua posse livros de um valor ainda mais precioso, que poderíamos imitar se quiséssemos escrever uma 'Torá' semelhante. Mas a Torá, em cada uma das suas palavras, contém verdades supremas e segredos sublimes (…) Assim, os textos que a Torá relata não são mais do que as suas vestes exteriores, e mal daquele que julgue que tal traje é a própria Torá (…) Considerai o seguinte: A parte mais visível de um homem é o vestuário que traz, e aqueles a quem falta entendimento, quando olham esse homem, podem ver nele apenas o vestuário. No entanto, é na realidade o corpo do homem que faz a nobreza das suas vestes e a sua alma é a glória do seu corpo. Acontece o mesmo em relação á Torá. As suas narrativas que descrevem as coisas do mundo compõem a veste que cobre o corpo da Torá. E esse corpo é formado pelos preceitos da Torá, gufey-torah (corpo: princípios fundamentais). Os homens sem entendimento só vêem a narração, o vestuário; mas os que têm um pouco mais de sabedoria vêem igualmente o corpo. Só os verdadeiros sábios, os que servem ao Rei Muito-em-Cima, os que se conservam no Monte Sinai, penetram até à alma, até à verdadeira Torá que é a raiz fundamental de tudo (…) Assim como o vinho deve ser colocado num cântaro para se conservar, assim também a Torá deve ser envolvida numa roupagem exterior. Essa roupagem é feita de fábulas e narrativas. Mas nós, nós devemos penetrar através dela.”


Tais palavras podem ser hoje dirigidas para aqueles que, por acreditarem na teoria de Oparin, ou a da evolução das espécies de Charles Darwin, simplesmente desprezam as histórias de Gênesis, deixando de compreender que as narrativas bíblicas jamais foram redigidas para serem dogmatizadas. Porém, tanto o relato da criação quanto o mito do dilúvio foram escritos pelos sábios afim de comunicarem o papel de Deus na existência do universo e tratar de importantes questões de ordem ética que foram revolucionárias numa época de enorme brutalidade existente no trato entre os seres humanos, de modo que os temas desenvolvidos ao longo do Pentateuco baseiam-se nas narrativas do primeiro livro, sobretudo em ideias relacionadas aos versos iniciais: bondade manifestada por Deus em cada ato criador (1.4,10,18,21, 25, 31); sermos feitos à imagem e semelhança do Eterno (1.26-27); o cuidado com a natureza (1.28; conf. 2.5,15); descanso sabático (2.2-3); relação do homem com o solo (2.7); sopro de vida (2.7); jardim de ensino (2.8); árvore da vida (2.9); árvore do conhecimento do bem e do mal (2.17); a mulher como companheira do homem (2.18), sendo criada do varão (2.21), e se tornando ambos uma só carne (2.24); a nudez (2.25).

Sobre sermos feitos à imagem e semelhança de Deus, Barnabe Assohoto e Samuel Ngewa, ambos teólogos africanos, elaboram o seguinte comentário de aplicação pessoal que se mostram úteis para a compreensão do propósito de Gênesis:


“De acordo com as Escrituras, os seres humanos de ambos os sexos foram feitos à imagem de Deus (1:26b-27). Assim, as pessoas são diferentes de outros seres criados como animais, um fato que tem consequências importantes para a maneira como vivemos. Em primeiro lugar significa que cada ser humano é, de alguma forma, semelhante ao seu Criador. Assim, cada ser humano é especial e importante. Devemos ser capazes de reconhecer o Criador nos homens e nas mulheres que vemos ao nosso redor. Em segundo lugar, significa que não devemos adorar nenhum animal ou a imagem de um animal (…) Em terceiro lugar, uma vez que Deus criou tanto nosso corpo quanto nosso espírito, não devemos considerá-los separadamente e pensar que podemos ignorar o corpo enquanto vivemos para Deus no espírito. As Escrituras deixam claro que não devemos maltratar nosso próprio corpo nem o de outros (…) É importante observar que os homens e as mulheres receberam permissão de exercer domínio sobre as criaturas vivas, mas não sobre seres humanos. Da mesma forma, os homens não receberam autoridade para dominar as mulheres (nem vive-versa). Nossos semelhantes também são portadores da imagem do Criador e, portanto, não devem ser dominados, mas sim servidos.” (extraído do Comentário Bíblico Africano, pág. 11)


Não se pode esquecer que a Torá surgiu num tempo onde havia exploração do trabalho humano através da escravidão, penas cruéis baseadas na regra do Talião, dominação do homem sobre a mulher, adoração servil às divindades antropomorfas ou zoomorfas que poderiam incluir até sacrifícios de pessoas, terríveis reis opressores que se achavam descendentes dos deuses e guerras sangrentas. Logo, dentro deste contexto, pode-se afirmar que os “Cinco Rolos de Moisés”, dos quais Gênesis é o primeiro, tornaram-se a revelação tão esperada pelo escravizado homem do segundo milênio antes de Cristo. O manejo inspirado das tradições antigas significou a resposta para as intermináveis conversas em volta das fogueiras, dando novo sentido às narrativas folclóricas e libertando os homens do jugo dos deuses, visto que somos feitos à imagem e semelhança da divindade, o que nos faz destinatários de um tratamento digno e igualitário no trato entre os homens.

Até quando iremos deixar de ouvir o recado da natureza?


Não costumo postar textos de terceiros aqui em meu blogue pessoal (geralmente quando transgrido a regra, acompanho o artigo com algum comentário), mas este artigo do Boff pareceu-me bem oportuno para uma reflexão sobre as tragédias climáticas que têm ocorrido em nosso país, cada vez mais frequentes e com intensidades maiores. Aliás, concordo plenamente que é o homem quem deve adaptar-se à natureza e não esta ao homem.


O preço de não escutar a natureza


Por Leonardo Boff*


O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco, pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue a nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrário, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que aí viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam.

Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d’água. Chico Mendes, com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre, sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências, lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário, teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.


(*) Leonardo Boff é filósofo e teólogo



OBS: A imagem utilizada acima foi extraída do álbum do IBAMA Nova Friburgo no Picasa: http://picasaweb.google.com/ibamanovafriburgo/TrajediaEmNovaFriburgo#5563628807110339170

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Por que a humanidade do Messias assusta?


“Apareceu-lhe então um anjo do céu que o fortalecia. Estando angustiado, ele orou ainda mais intensamente; e o seu suor era como gotas de sangue que caíam no chão.” (Evangelho de Lucas 22.43-44; Nova Versão Internacional – NVI)


Poucas pessoas sabem e quase ninguém prega numa igreja que os versículos 43 e 44 do capítulo 22 de Lucas são omitidos por alguns respeitáveis manuscritos antigos sobre o Novo Testamento.

Esta perturbadora notícia trás um problema a ser enfrentado pelos estudiosos e que ainda mexe com a fé biblicista de alguns, no sentido dos dois versos terem sido um acréscimo ou se o texto sofreu omissões. Porém, para muitos dos eruditos tais versos realmente têm a ver com o estilo e o cunho do autor do Terceiro Evangelho e, por isso, a redação deve ser mantida nas versões de nossas bíblias.

O que mais me intriga, entretanto, é por que alguns copistas teriam suprimido o referido trecho do Evangelho de Lucas? Quais foram as razões ideológicas que os levaram a omitir um importante detalhe sobre a vida de Jesus?

Lendo os comentários da Bíblia de Jerusalém, encontrei uma preciosa pista para as minhas inquietantes indagações e que vieram a se tornar inspiradoras para o presente artigo. Pois, de acordo com a nota de rodapé (coisa que muitos leitores das Escrituras ignoram), a censura no texto pelo copista seria explicada “pelo cuidado de evitar um rebaixamento de Jesus, julgado demasiadamente humano”.

Ao refletir sobre a história eclesiástica, selecionei dois aspectos relevantes que devem ser considerados. Um é que, nos primeiros séculos da era comum, parecia não haver a mesma preocupação dos dias atuais em se preservar a integridade e a originalidade do texto na transmissão do Evangelho. Outra é que o surgimento da doutrina acerca da divindade do Messias passou a integrar a concepção cristológica da Igreja helenizada do século II em diante a ponto de se tornar um dogma da religião cristã e sufocar qualquer versão mais humanizada do Deus encarnado.

Pode-se dizer que, até hoje, com quase 500 anos de protestantismo, ainda é mitigada a livre interpretação da Bíblia pregada por Lutero, pois a maioria dos cristãos nutre um forte apego pelas suas concepções doutrinárias sobre o Messias, reagindo com intolerância às ambiguidades bíblicas como se toda a Sagrada Escritura tivesse que dar embasamento à formação de uma teologia unificada. Só que, devido a isto, as passagens que contrariam as nossas concepções estabelecidas acabam sendo evitadas, mesmo que inconscientemente. Tudo pela infeliz escolha pelo (cai)chão da doutrina.

Curiosamente Jesus referia-se a si mesmo como o “Filho do Homem” e não tinha inibição para expor a sua humanidade. O Messias, embora tivesse realizado milagres pelo poder do Espírito Santo, não escondeu-se atrás da máscara de super herói. Aliás, ele se derramou em lágrimas quando visitou Marta e Maria pela ocasião da morte de Lázaro.

Sabendo de que também iria passar pela morte, suas emoções ficaram abaladas na cena do Getsêmani, abatendo sobre sua alma o sentimento de angústia. Ali, no Monte das Oliveiras, o homem que tanto amou a vida estava sendo confrontado entre escolher o natural instinto de auto-preservação ou se submeter à vontade de Deus.

Nossa idealização acerca da perfeição do Messias pode tornar-se em péssimo empecilho para que contemplemos a beleza de sua humanidade. Somos atraídos pela racionalização das coisas e queremos definir tudo pelo método aristotélico, criando loucas sistematizações. Em outras palavras , agimos como se tudo precisasse de explicações baseadas na lógica humana.

Todavia, o clamor de Jesus na cruz, em que o Messias recita as dolorosas palavras do Salmo 22, arranha mais uma vez aquilo que nós ocidentais supomos ser um comportamento perfeito. Logo, dizer “Deus meus, Deus meu, por que me desamparaste” expressa uma queixa que se mostra até inconveniente aos nossos olhares. Algo que soa na nossa cultura como uma falta de reverência ao Onipotente significando até mesmo a incompreensão de sua soberana vontade.

No seu sofrimento, Jesus não ficou dizendo Aleluia e nem entoou algum hino de ação de graças. Aquela Hora não dava para ele cantar louvores, mas apenas expressar lamentos. E foi uma tarde tenebrosa caracterizada por grande angústia. Estava morrendo o Messias.

O comportamento de Jesus é para mim a chave para a cura de muitos problemas emocionais com os quais lidamos e daí talvez venha a explicação para que muitos tentem abafar a humanidade do Messias.

Não tenho dúvidas de que olhar para a humanidade do outro implique em considerarmos a nossa. Pois equivale a perceber que estamos nus e que o comportamento falso que praticamos não passa de máscaras e de encenações com o intuito de encobrir quem somos de fato: crianças carentes e ansiosas pelo recebimento de afeto, aceitação e consolo, desejando ardentemente a restauração do ser.

Embora libertador, encarar é nossa humanidade é um processo doloroso visto que ainda sentimos vergonha de nós mesmos e iremos nos tornar pessoas incômodas para outras. Então, ao se deparar com tal dificuldade, muitos acabam repetindo o hábito praticado pelos nossos ancestrais, em cozer folhas de figueira para servir de vestimenta.


OBS: Acredita-se que a escultura acima do Cristo nu seja obra de Michelangelo. Extraí a imagem do site http://www.etudogentemorta.com/2010/01/cristo-nu/

A Regra de Ouro em meio ao caos ambiental


"Não faças aos outros o que não queres que te façam." (bShab 31a)

É impressionante como uma só frase é capaz de resumir os 40 dias em que Moisés ficou na montanha! Quem disse isto não fui eu, mas sim o ancião Hillel, quando um gentio, desejando ser recebido no judaísmo, pediu ao rabi um curso sobre a Torah. Na ocasião, o impaciente prosélito recebeu como resposta do mestre que a frase acima resumia toda a Lei.

Por aquele mesmo tempo, Filo de Alexandria, um filósofo judeu contemporâneo de Hillel, semelhantemente ensinou que "aquilo que alguém não quer sofrer, não deve fazer a outros" (Hipotética 7.6).

Ambos os sábios estavam falando sobre a Regra de Ouro, muito conhecida por pensadores gregos e judeus desde a Antiguidade e que havia sido formulada há vários séculos antes de Hillel, fazendo-se presente em diversas religiões da atualidade (judaísmo, cristianismo, budismo, taoísmo, islamismo, etc).

Pode-se afirmar que, além dos gregos e judeus, o filósofo chinês Confúcio (551 - 479 a.C.), teria formulado-a em seus dias da seguinte maneira: "O que você não quer que lhe façam, não o faça aos demais". E, curiosamente, as tradições dos nossos índios já orientavam os membros da tribo desta forma: "Não queira desfazer do seu vizinho, pois assim como você procura ter bom tratamento, dê o mesmo aos outros".

Em contato com o pensamento judaico e, na certa, manejando intencionalmente as palavras do ancestral Hillel, Jesus também fez aplicação da Regra de Ouro conforme se lê no conhecido Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus:

"Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas". (7.12; Nova Versão Internacional - NVI)

Ou, mais resumidamente, taambém aparece em Lucas:

"Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles". (6.31; NVI)

Indubitavelmente Jesus inovou em relação a todos os pensamentos anteriores a ele, fazendo uso de uma incomparável formulação positiva, melhorando o viés negativo. Assim, segundo o Mestre dos mestres, aquilo que quero que seja feito para mim, devo fazer também para o outro, incentivando a prática de uma conduta capaz de envolver uma certa dose de criatividade, reflexão, entusiasmo pela vida e carinho pelo próximo.

Pensando no momento histórico em que viveram Jesus e Hillel, fico a indagar quão preciosas foram as pérolas que aqueles profundos pensadores apresentaram ao massacrado povo judeu. Em meio ao caos político da Judeia sob o opressor domínio romano, com inúmeras injustiças e parte da população passando fome, eis que à primeira vista parece difícil haver assimilação de um ensino tão nobre por pessoas extremamente necessitadas. Contudo, os humildes pescadores da Galileia, que seguiam o Messias Jesus pelas poeirentas estradas da Palestina, absorveram o sentido da mensagem melhor do que muitos ricos e poderosos habitantes dos palácios.

Nos dias de hoje em que a humanidade vive em meio a um caos político, econômico, social, familiar, ambiental e até religioso, a Regra de Ouro de Jesus torna-se a receita adequada para que possamos conviver melhor, promovendo a paz e garantindo a sobrevivência das futuras gerações. Seu ensino não se limita apenas à abstenção de praticar algo ruim para o outro, mas inclui uma atitude construtiva, algo comparável a um talentoso artista capaz de dar desenhos e cores a uma tela vazia.


Recentemente minha cidade de Nova Friburgo, situada na Região Serrana do Rio de Janeiro, foi alvo de uma catástrofe climática jamais vista em toda a sua história. Centenas de pessoas morreram e milhares encontram-se desabrigadas ou desalojadas. Jornais do país inteiro não páram de noticiar o ocorrido todos os dias juntamente com enchentes de outros lugares. Por todo lado ainda se vê rastros de uma tragédia que foi causada basicamente por dois fatores: as construções irregulares em locais impróprios e o aquecimento global.

De acordo com os cientistas, as condições do nosso planeta tendem a piorar cada vez mais nos próximos anos. Catástrofes climáticas como a que se viu este ano na Região Serrana do Rio de Janeiro, em Santa Catarina (2009) ou em Nova Orleans, durante a passagem do Catrina (2005), só tendem a se repetir e cada vez com maior intensidade. Por causa de sua ganância e recusa em deixar de emitir os gases do efeito estufa, o homem está destruindo a única casa que tem para morar, deixando um futuro incerto para as futuras gerações.

É neste contexto que ética e ecologia se encontram, confirmando o ensino do ex-frei Leonardo Boff, autor de dezenas de livros, dentre os quais "A Ética da Vida e Saber Cuidar". Numa entrevista dada à Construir Notícias, Boff responde que:


"A ética surge quando o outro emerge diante de nós. Que atitude tomar diante do outro? Não podemos ficar indiferentes. Mesmo o silêncio é uma atitude. Podemos acolher o outro, podemos rejeitá-lo, subordiná-lo e até agredi-lo e eliminá-lo. Essas atitudes configuram a ética. Ela será benfazeja quando faz do distante um próximo e do próximo um aliado e um irmão e irmã. Nesta perspectiva, bom é tudo aquilo que aproxima as pessoas ou que corresponde de forma benfazeja às realidades circunstantes; bom é tudo o que cuida e expande a vida em todas as suas formas; mau é tudo o que ameaça, diminui e destrói a vida. A regra de ouro da ética quando confrontada com o outro é: 'faça ao outro o que você quer que lhe façam a você'. Hoje pesa sobre a humanidade e o sistema da vida o pesadelo da depredação e até da destruição da vida e do projeto planetário humano. Somos todos vítimas de práticas que exploram pessoas, classes, paises, ecossistemas e o sistema Terra. São éticas anti-vida. Em razão disso, faz-se urgente uma ética salvadora e benfazeja que garanta a vida e o futuro do Planeta. Sem ética e uma cultura de valores espirituais que a acompanham não afastaremos o pesadelo e o encontro com o pior. Precisamos de uma ética mínima fundada do cuidado de uns para com os outros, com a vida e o Planeta, uma ética da cooperação e da solidariedade de todos com todos pois somos interdependentes e só podemos viver e sobreviver juntos, uma ética da responsabilidade que toma consciência das conseqüências benéficas ou maléficas de nossas práticas e uma ética da compaixão que se mostra sensível para quem menos tem e menos é, para que não se sinta excluído mas inserido na comunidade de vida." (extraído de http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=488)


Enquanto muitas das vezes a mídia expõe os moradores das áreas de risco nas encostas dos morros como os responsáveis pelos desabamentos das tragédias das chuvas, as autoridades brasileiras terceiro-mundistas culpam a fúria da natureza. Porém, o que se vê claramente neste país é uma ausência de políticas habitacionais eficientes e que sejam capazes de respeitar o basilar direito à moradia previsto na nossa Constituição Federal.

Ora, tudo isto aponta para a necessidade da ética e não somente para a satisfação imediata de necessidades. Isto porque chegamos a uma crise mundial sem precedentes, em que a sobrevivência do planeta parece estar por um fio, sendo que a humanidade precisa urgentemente colocar em prática uma ecologia capaz de não apenas salvar as baleias ou o mico-leão-dourado da extinção, mas sim incluir socialmente todas as pessoas, oferecendo condições dignas de subsistência, saúde e também educação de qualidade. Só que nada disso se alcança sem trabalhar também os valores espirituais do ser humano.

Inteligentemente Jesus não formulou sua Regra de Ouro do nada. O Mestre, ao dar um novo sentido à frase de Hillel, buscou na Torah (creio que em Levítico 19.18) o fundamento daquilo que disse. Ou seja, o amor ao próximo que assim foi ensinado por Moisés aos israelitas no deserto:

"Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o SENHOR." (NVI)

Pode-se dizer que, nos dias de hoje, o amor já não pode mais ser considerado como uma virtude de um homem piedoso, mas sim de uma necessidade. E, deste modo, mais do que décadas atrás, tornam-se proféticas as palavras do poeta anglo-americano Auden:

"Amem-se uns aos outros, ou pereçam"!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Por que falta autoridade às igrejas nos dias de hoje?


“Ao anjo da igreja em Filadélfia escreva: 'Estas são as palavras daquele que é santo e verdadeiro, que tem a chave de Davi. O que ele abre ninguém pode fechar, e o que ele fecha ninguém pode abrir. Conheço as suas obras. Eis que coloquei diante de você uma porta aberta que ninguém pode fechar. Sei que você tem pouca força, mas guardou minha palavra e não negou meu nome'” (Apocalipse 3.7-8; Nova Versão Internacional – NVI) - destacou-se


Nas cartas às sete igrejas do livro do Apocalipse, Jesus manda João escrever ao anjo da igreja na cidade de Filadélfia (situada na antiga Ásia Romana) que tinha diante de si “uma porta aberta”, a qual ninguém poderia fechar. E em tal passagem, o Senhor identifica-se como “aquele que tem a chave de Davi”.

Neste texto, gostaria de meditar a respeito desses os vocábulos portas e chaves, os quais nos dão pistas para o que vem acontecendo com muitas igrejas nos dias atuais. E, antes de chegar às minhas considerações, pretendo fazer o estudo de algumas passagens bíblicas, de modo que peço atenção dos leitores acertos detalhes.

A expressão “chave de Davi” aparece pela primeira vez em Isaías 22.22, na profecia contra Sebna, mordomo do rei Ezequias, o qual iria ser deposto do cargo que, por sua vez, seria entregue a Eliaquim filho de Hilquias. É dirigindo-se ao futuro intendente do palácio que o profeta anuncia que Deus lhe dará as chaves da casa real da dinastia davídica:


“Naquele dia convocarei o meu servo Eliaquim, filho de Hilquias. Eu o vestirei com o manto que pertence a você [Sebna], com o meu cinto o revestirei de força e a ele entregarei a autoridade que você exercia Ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para os moradores de Judá. Porei sobre os ombros dele a chave do reino de Davi; o que ele abrir ninguém conseguirá fechar, e o que ele fechar ninguém conseguirá abrir. Eu o fincarei como uma estaca em terreno firme; ele será para o reino de seu pai um trono de glória [ou assento de honra]” (Is 22.20-23; NVI) - os destaques e as palavras dentro dos colchetes são inserções minhas


O cargo de intendente do palácio real no Israel antigo tinha sua importância para aquela remota época na qual viveu o profeta Isaías, pois se tratava da função de chefiar a casa do rei que, numa linguagem mais simbólica, é descrita pelas atividades de “abrir” e de “fechar” as portas. Em outras palavras, o texto nos diz que Eliaquim iria tornar-se uma espécie de ministro da Casa Civil de Ezequias, um cargo de extrema confiança, equivalente também ao vizir egípcio.

Entretanto, é preciso observar que as chaves da casa real não pertenciam ao administrador e sim ao rei. Pois é o monarca ungido de Israel quem podia nomear e exonerar os seus funcionários, ato que seria praticado a qualquer tempo, conforme os interesses do reino. Logo, é bom frisar que o portador das chaves (o mordomo) só exercia alguma autoridade em nome do rei, encontrando-se numa condição de total subordinação e não podendo deixar de cumprir as direções que lhe foram dadas para agir como bem entendesse.

É neste mesmo sentido que podemos compreender a passagem bíblica de Mateus quando Jesus entrega a Pedro “as chaves do Reino dos Céus”:


“E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”. (Mt 16.18-19; NVI) - negritei


Como se pode observar, podemos pensar na figura de duas portas: a do inferno e a do Reino dos Céus. Uma é a porta do império da morte física e espiritual. Já a porta do Reino dos Céus é o acesso para a vida e se relaciona com o apostolado de Pedro e da Igreja para levar os homens à graciosa Palavra do Evangelho que é suficiente para conduzir os homens à salvação completa, estabelecendo nos corações das pessoas o governo de Deus.

Cumpre dizer que contra esta obra da Igreja, os poderes do mal não podem prevalecer, pois se trata do domínio do Rei Messias, a quem foi dada toda a autoridade na terra e nos céus.

Ora, basta lembrarmos das obras feitas por Jesus para confirmarmos como de fato foi exercida a sua autoridade durante o curto ministério desenvolvido pelo Senhor na Galileia. Os demônios não resistiam a Jesus e eram expulsos. Os enfermos ficavam curados. E os mortos ressuscitavam mostrando o poder do Messias sobre a morte, conforme ocorreu na ressurreição do terceiro dia. Também a tempestade acalmava-se ao ouvir a ordem dada por Jesus, o qual humildemente sempre agiu em submissão total ao Pai e dirigido pelo Espírito Santo.

Olhando para a Igreja em Filadélfia, no Apocalipse, podemos ver nela uma diferença para outras igrejas que receberam mensagens de advertência e de juízo. Enquanto algumas igrejas andavam desobedientemente, vivendo uma verdadeira hipocrisia religiosa, Filadélfia perseverou em guardar a Palavra (Ap. 3.10). Assim, o Rei Messias colocou diante dela uma porta aberta qye ninguém jamais iria poder fechar.

Nos tempos de hoje, muitos questionam a ausência de milagres e de prodígios nas igrejas. Eu, em parte, considero esta crítica, mas sem compreender o milagre como um fim em si mesmo, ou muito menos como uma prova da existência do poder de Deus para as pessoas crerem na pregação feita pela Igreja (se alguém vê algo acontecendo não precisa mais de fé). Contudo, mesmo nas igrejas onde seus líderes afirmam haver milagres, o que se vê é muitas das vezes a mais pura farsa, meras encenações que têm por objetivo arrecadar dinheiro das pessoas ingênuas.

Penso que não é tempo de buscarmos as bençãos, mas sim o abençoador!

É tempo da Igreja submeter-se à autoridade absoluta de Jesus e se dispor a cumprir sua vontade!

É tempo para que os cristãos arrependam-se e se convertam com lágrimas e cinzas!

É tempo de retornarmos ao primeiros amor, torarmos o pecado do nosso meio, não tolerarmos as doutrinas perversas e vigiarmos aguardando o retorno do Senhor!

Precisamos reconhecer as nossas miserabilidade, pobreza, cegueira e nudez afim de nos aproximarmos novamente do Evangelho simples de Jesus, de quem podemos adquerir ouro puro, vestes brancas e colírio para os olhos.

Meus irmãos, este é o tempo que Deus tem dado à sua Igreja. E aqueles que ouvirem o seu recado e obedecerem à voz de seu Espírito certamente farão diferença no meio desta geração perversa, preparando o mundo para a volta do Rei Messias. Pois, só assim teremos diante de nós uma porta aberta como tiveram nossos antepassados de Filadélfia, os quais reconheciam o senhorio de Jesus sobre as obras da comunidade

Maranata! Vem Senhor Jesus!


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OBS: A imagem acima, extraída do Flickr do Yahoo, é das ruínas da antiga Igreja de São José da Boa Morte, localidade situada no 3º distrito do município de Cachoeiras de Macacu (RJ). Sua construção é da primeira metade do século XIX, embora, anteriormente, já existisse uma capela no local desde 1734. O autor da foto, André Confort Rodrigues, cedeu-a para ilustrar este site. Para ver a imagem originalmente postada, favor acessar este link: http://www.flickr.com/photos/aconfort/3713438243/

O destino das vítimas depois da tragédia


Fazem hoje nove dias que Nova Friburgo sofreu a maior tragédia de sua história na madrugada de 12/01/2011 que, segundo a historiadora da Universidade Cândido Mendes, professora Janaína Botelho, foi o nosso 11 de setembro.

Os telejornais ainda falam da cidade, mas com menos frequência e intensidade do que na semana anterior. Agora as atrações do Big Brother e dos campeonatos estaduais passam a estar mais na mente do telespectador e a grande tragédia climática da Região Serrana do Rio de Janeiro tende a ser esquecida com o tempo. Daqui alguns dias, seremos esporadicamente lembrados em alguma matéria ou outra, ocuparemos alguns minutos da "Retrospectiva 2011" do Globo Repórter no final do ano e seremos citados quando outros possíveis acontecimentos semelhantes ocorrerem no nosso país.

Foram centenas de mortos e milhares de pessoas desabrigadas ou desalojadas na Região Serrana do Rio de Janeiro. Pessoas que perderam suas casas e pertences, sendo que muitas delas não podem nem mais retornar para o imóvel onde se encontravam porque suas residências estão interditadas pela Defesa Civil.

O que será das vítimas desta tragédia daqui alguns meses? Como sobreviverão? Onde que tais famílias poderão reconstruir suas vidas?

É lamentável que, enquanto uma parte do público se sensibiliza e resolve colaborar com suas doações e com o valoroso trabalho voluntário, há pessoas que buscam extrair proveitos com a catástrofe, enquanto a grande maioria do povo brasileiro assiste a TV anestesiada. E os carniceiros aos quais me refiro não se resumem apenas aos comerciantes que inflacionam temporariamente os preços das águas e dos mantimentos, ou dos oportunistas que dão um jeitinho de acumular doações indo em cada ponto de de distribuição com o apoio de entes da família, aproveitando-se da ausência de medidas burocráticas. Estes, porém, são café pequeno perto das nossas autoridades políticas que são verdadeiros lobos.

Muitas doações têm chegado, felizmente, e agora a cidade precisa saber administrar a captação, o armazenamento e a distribuição, bem como as atividades dos voluntários. É lógico que, dentro destas ações, há políticos querendo apenas aparecer e, com isto, retardam a distribuição dos produtos. Outros desejam beneficiar A, B ou C por razões eleitorais, escolhendo locais que nem sempre têm uma estrutura tão adequada quanto outros. Para piorar, ainda tem aqueles safados que, na certa, pensam em meter a mão nesses bens para embolsar uma grana já que nem semrpe dá para fazer um controle.

Porém, nada disso deixou-me mais perplexo do que ter tomado ciência da má notícia em que a Justiça autorizou a desapropriação de uma localidade chamada Fazenda da Lage para a Prefeitura construir lá 3.000 moradias, sendo que, ali, conforme noticiado pela edição de 18/01/2011 do Jornal Nacional, sofreu deslizamentos de terra. Diz o texto da reportagem exposta na internet que:


"Uma área em Nova Friburgo já foi desapropriada para a construção das casas. É o terreno de uma antiga fazenda, afastado 14 quilômetros do Centro e ainda com poucas moradias ao redor. Região que também foi prejudicada pelos deslizamentos. No local, serão erguidos 3 mil apartamentos. Mas a destruição que se vê também nos acessos mostra o tamanho do desafio que as autoridades terão pela frente".
Fonte: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/01/governador-do-rio-diz-que-moradias-serao-construidas-pelo-minha-casa-minha-vida.html


Embora a matéria do JN não diga precisamente onde é que a Prefeitura pretende construir as novas habitações, suponho que se trate mesmo da Fazenda da Laje, situada na região dos distritos de Riograndina e Conselheiro Paulino, aqui em Nova Friburgo. E tudo isto pretende ser feito com recursos do projeto "Minha Casa, Minha Vida" do Governo Federal e contribuições do Governo Estadual.

Mesmo sabendo dos riscos, muita gente que ficou desabrigada aqui em Nova Friburgo vai acabar aceitando adquirir uma unidade habitacional no suspeito projeto da tal Fazenda da Lage. Afinal, essas pessoas não têm onde morar e, mesmo que recebam o "alguel social", não poderão continuar vivendo para sempre deste benefício e, no futuro, elas escolherão entre sair da cidade, morar em casas populares ou se amontoarem em favelas mais próximas.

Num período de calamidade pública, a Prefeitura fica dispensada das licitações e pode fazer comrpa direta. O orçamento público também acaba ficando mais flexível conforme os interesses dos governantes. Logo, alguma construtora será escolhida para fazer as obras e o resto do que vai acontecer nos bastidores acho que não preciso nem dizer. Porém, o que mais me assusta é a escolha de um local que, a princípio, está me parecendo um lugar bem impróprio para a ahabitação popular, uma suposta área de risco.


Estes dias recebi um e-mail de um agente do IBAMA questionando as habitações irregulares da seguinte maneira: "Essas construções têm aprovação da prefeitura? Elas serão retiradas dali? Seus proprietários serão responsabilizados? Ou tudo isso vai ser debitado na conta do AQUECIMENTO GLOBAL?"

A mais pura verdade é que os políticos, afim de ganhar votos nas eleições, permitem que as pessoas construam em locais impróprios. Quando o morador ou a construtora quer a todo custo fazer edificações num determinado lugar, sempre aparece um vereador ou funcionário picareta que vai facilitar as coisas dentro da Prefeitura. Então, como as tragédias não têm tempo certo para acontecer, pode-se dizer que, durante alguns anos tudo corre bem, mas depois, quando o mal acontece, os políticos culpam as chuvas.

Homens hipócritas, corruptos e assassinos! Até quando teremos que tolerá-los?! Até quando a população brasileira vai ficar assistindo a TV anestesiada e incapaz de relacionar as tragédias naturais ao planejamento criminoso das cidades?!

Daqui a pouco mais de um mês, começa o Carnaval e, junto com o futebol, o nosso povo vai se distraindo até o final do ano. E tem também as novelas e outras atrações da telinha, sem nos esquecermos também dos líderes religiosos enganadores que se associam com os políticos para amansar as massas, fazendo com que a religião torne-se aquilo que os filósofos do século XIX já diziam ser "o ópio do povo" (Karl Marx, 1844).




OBS: As imagens utilizadas acima foram extraídas do álbum do IBAMA Nova Friburgo no Picasa: http://picasaweb.google.com/ibamanovafriburgo/TrajediaEmNovaFriburgo#5563628807110339170