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domingo, 14 de dezembro de 2025

Racismo religioso no Brasil: dívida histórica e caminhos para a efetivação da imunidade tributária dos terreiros



O racismo religioso no Brasil é uma das expressões mais persistentes e invisibilizadas do racismo estrutural. Embora a Constituição Federal de 1988 consagre a liberdade religiosa e assegure a imunidade tributária aos “templos de qualquer culto”, a realidade vivida pelas religiões de matriz africana revela uma distância profunda entre o texto constitucional e sua aplicação concreta. Terreiros de Candomblé, Umbanda, Batuque, Tambor de Mina e outras tradições afro-brasileiras continuam enfrentando obstáculos burocráticos, discriminação institucional e violência simbólica e material que negam, na prática, direitos que são formalmente garantidos.


1. O racismo religioso como herança da escravidão

A perseguição às religiões de matriz africana no Brasil não é um fenômeno recente. Desde o período colonial, práticas religiosas africanas foram criminalizadas, associadas à feitiçaria, à desordem moral e à ameaça à ordem pública. O Código Penal do Império e, posteriormente, o Código Penal da República, trataram essas manifestações como crime ou contravenção. A repressão policial aos terreiros atravessou todo o século XX, mesmo após a separação formal entre Estado e Igreja.

Essa trajetória produziu efeitos duradouros. Diferentemente de igrejas cristãs, que se institucionalizaram com personalidade jurídica, registros patrimoniais e reconhecimento estatal, muitos terreiros se organizaram como espaços comunitários, familiares e ancestrais, marcados pela oralidade, pela circularidade do saber e pela resistência cultural. Essa diferença histórica é frequentemente ignorada pelo poder público, que exige dos terreiros padrões formais de documentação e organização moldados a partir de uma lógica eurocristã.


2. Racismo religioso hoje: entre a violência e a negação de direitos

Atualmente, o racismo religioso se manifesta de forma múltipla: ataques físicos a terreiros, destruição de imagens, discursos de ódio, expulsões de comunidades por grupos fundamentalistas e, de forma mais silenciosa, pela negação de direitos administrativos e tributários. Quando um município cobra IPTU de um terreiro ou nega o reconhecimento de sua imunidade tributária, não se trata apenas de um ato burocrático: trata-se de uma continuidade histórica da marginalização dessas religiões.

A Constituição é clara ao afirmar que a imunidade tributária alcança templos de qualquer culto, como instrumento de proteção à liberdade religiosa. No entanto, na prática administrativa municipal, essa garantia muitas vezes se transforma em um privilégio seletivo, acessível apenas a instituições religiosas que se enquadram em formatos tradicionais, formais e hegemônicos.


3. A dívida histórica do Estado brasileiro com os afrodescendentes

Reconhecer a imunidade tributária dos terreiros não é concessão nem favor: é parte de uma dívida histórica do Estado brasileiro com os povos afrodescendentes. As religiões de matriz africana foram fundamentais para a preservação da identidade, da memória e da resistência cultural negra diante da escravidão, do racismo e da exclusão social.

Negar direitos a esses espaços é perpetuar desigualdades históricas e reforçar a lógica de que determinadas expressões religiosas são menos legítimas do que outras. A efetivação da imunidade tributária deve ser compreendida como política de reparação institucional, em consonância com os princípios constitucionais da dignidade humana, da igualdade material e do combate ao racismo.


4. O papel estratégico dos municípios

Embora a imunidade tributária seja uma limitação constitucional ao poder de tributar, sua efetivação cotidiana passa, em grande medida, pelos municípios, especialmente no que se refere ao IPTU. Por isso, é no âmbito municipal que se concentram muitos dos entraves – e também as maiores possibilidades de transformação. Neste sentido, seguem propostas para facilitar o reconhecimento da imunidade tributária dos terreiros:


4.1. Normatização administrativa clara
Os municípios podem editar decretos, instruções normativas ou portarias que reconheçam expressamente os terreiros como templos de culto para fins tributários, evitando interpretações restritivas por parte de fiscais e secretarias de fazenda.


4.2. Procedimentos simplificados de reconhecimento
Criar processos administrativos simplificados, com exigências documentais compatíveis com a realidade dos terreiros, respeitando suas formas próprias de organização e ocupação do espaço.


4.3. Capacitação de servidores públicos
Promover formação continuada para fiscais, procuradores municipais e gestores sobre liberdade religiosa, racismo religioso e diversidade cultural, reduzindo decisões baseadas em preconceitos ou desconhecimento.


4.4. Reconhecimento autodeclaratório com presunção de boa-fé
Adotar mecanismos de autodeclaração do caráter religioso do espaço, com presunção de legitimidade, cabendo ao poder público apenas a fiscalização posterior em casos excepcionais.


4.5. Articulação intersetorial
Integrar secretarias de fazenda, cultura, direitos humanos e igualdade racial, reconhecendo os terreiros também como patrimônios culturais imateriais e espaços de proteção comunitária.


4.6. Conselhos e diálogo permanente
Instituir ou fortalecer conselhos municipais de promoção da igualdade racial e de liberdade religiosa, com participação efetiva de lideranças de matriz africana.


5. Conclusão

O combate ao racismo religioso no Brasil exige mais do que discursos genéricos sobre tolerância. Exige decisões administrativas concretas, políticas públicas afirmativas e o reconhecimento de que a neutralidade formal do Estado não pode servir de escudo para a reprodução de desigualdades históricas.

Garantir a imunidade tributária aos terreiros de religiões de matriz africana é cumprir a Constituição, promover justiça histórica e fortalecer a democracia. Enquanto esse direito continuar sendo negado ou dificultado, o Brasil seguirá em dívida com sua própria história e com milhões de cidadãos cuja fé, cultura e ancestralidade sustentaram – e ainda sustentam – a resistência contra o racismo estrutural.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

As montanhas e rios de João


"Quando saímos numa jornada, os rios deixam de ser rios e as montanhas deixam de ser montanhas (...)" - Parte de um ditado Zen


Era uma vez um homem chamado João. Nascido num povoado rural do interior de seu país, ele era plenamente integrado com o modo de viver de sua família e a cultura de seu povo. Educado pela moral de seus pais, ele aprendeu desde cedo valores que julgava ser corretos, os quais aceitava sem questionar.

No centro da aldeia de João, havia um templo onde as pessoas costumavam se reunir. Ali realizavam festas comunitárias, celebravam casamentos, cantavam louvores, faziam preces e liam com reverência um certo livro considerado sagrado. Através dos líderes do local, as crianças eram ensinadas conforme as narrativas e poemas escritos naquela bíblia.

Mais interessado do que os outros garotos de sua idade, João aprendeu rapidamente sobre os ensinamentos e histórias daquele livro. Tornou-se o preferido do mestre e um exemplo para os colegas dentro da congregação. Até seus pais ficaram surpresos com o conhecimento do menino e nisto ele se diferenciava do irmão mais velho Tiago.

Na escola, João foi por muito tempo motivo de orgulho para toda a família. Tirava sempre boas notas. Ali ele não somente aprendeu o idioma de seu povo como se tornou um excelente aluno em Matemática, História e demais matérias, demonstrando sempre um desenvolvido raciocínio lógico. E tudo caminhava em paz até ele ser apresentado à diabólica Filosofia.

Começando a refletir, um dia João duvidou dos valores e dos ensinamentos que lhe foram transmitidos. Descobriu a existência de outros livros sagrados além daquele que era sempre estimado pelos aldeões. O que antes considerava errado já não lhe parecia tão equivocado e o certo não tão correto.

Em busca de suas próprias experiências, João deixou o pacato vilarejo de seus pais. Abraçou forte seu irmão Tiago e foi em direção da estação de trem carregando as malas, deixando no cômodo onde dormia apenas a bíblia que antes tanto consultava. Sua mãe chorou inconsolada e o pai respeitou a decisão do filho mais novo desejando-lhe prosperidade em seu destino.

Na cidade grande, João foi logo absorvido pela rotina agitada. Por muitos anos, não teve tempo para outra coisa senão trabalhar e estudar assuntos que precisava para melhorar a sua condição econômica. Seus momentos de folga eram preenchidos com namoro, saídas com os amigos e outras distrações comuns. Rapidamente as agitações do cotidiano tomaram conta da sua agenda.

Um dia Tiago veio lhe visitar trazendo consigo a bíblia esquecida por João. Este não demonstrou muito entusiasmo pelo objeto mas, por delicadeza e consideração à família, agradeceu colocando o livro sobre a estante. Em seu coração, aqueles textos tidos como sagrados representavam só literatura religiosa ultrapassada com uma qualidade inferior a outras obras disponíveis na biblioteca da faculdade. Quando seu irmão saiu, ele tirou a bíblia da estante e a escondeu num baú cheio de coisas velhas.

João casou-se, arranjou emprego, foi promovido na empresa, gerou filhos, adquiriu bens e, como todo ser humano, passou por perdas em situações difíceis. Nestas horas, ele começou a recorrer a literaturas que pudessem fornecer respostas e fortalecê-lo no enfrentamento dos problemas. Conheceu outras bíblias que também eram considerados sagradas por seus respectivos seguidores.

Sobre um desses livros diziam ter sido a última revelação dada por um anjo a um profeta do deserto. Outro continha ensinamentos sobre o desapego que um suposto deus vindo à terra ditou ao seu servo. Tinha ainda mais uma obra escrita por um sábio oriental. E, finalmente João acabou interessando-se por mensagens de autoria atribuída a espíritos de pessoas mortas, além de artigos criticando ou defendendo as religiões, estudos místicos dos astros, filósofos que escreveram sobre metafísica e teólogos que explicavam as velhas coisas com palavras atuais.

Cansado de tanto ler e de buscar explicações, João resolveu achar a resposta em si mesmo. Procurou compreender a essência existencial através do seu coração, porém sem desprezar os livros tidos como sagrados. Então, com o tempo, tudo pra ele passou a ter significado. Coisas escritas e não escritas, acontecimentos bons ou ruins, o canto dos pássaros e o ruído estridente da máquina, a dor e o prazer, o nascimento e a morte, eis que todo o Universo passou a fazer sentido pra ele.

Com os filhos já formados e sem precisar mais trabalhar, João resolveu retornar para a aldeia natal. Ao arrumar a bagagem, encontrou esquecido no baú o velho livro que seu irmão Tiago havia lhe trazido de casa quando estava na faculdade. A bíblia estava coberta de poeira e as folhas todas amareladas. Parou por um instante com a organização dos móveis e utensílios domésticos pondo-se a revirar aquelas páginas até a madrugada terminar e o novo dia nascer.

Encontrando a essência da vida manifestada também naquele livro que a princípio considerava como a mais absoluta versão da verdade, vindo a perder totalmente a identificação depois, eis que, desta vez, João sentiu como se tivesse dado a volta ao mundo num navio e retornado ao mesmo porto de partida. Porém, havia uma grande diferença. Sua saciedade interior poderia ser percebida tanto ali quanto em outros meios.

De volta ao povoado de origem, João encontrou seus pais bem idosos e o irmão trabalhando no campo. O templo estava em ruínas, fechado, e o mestre que antes lhe introduzira na pesquisa do sagrado tinha falecido sem que nenhuma liderança ocupasse o seu lugar. Na aldeia, jovens se embriagavam cada vez mais e casais estavam se desentendendo. Além do mais, o desemprego estava alto nas fazendas, faltavam médicos no posto de saúde e as escolas precisavam de mais professores. Metade da população já não morava mais no local e a alegria do passado tinha deixado o lugar.

Indignado com a situação, João resolveu convocar todos para uma reunião comunitária. Como precisavam de um espaço, Tiago sugeriu que usassem o velho templo, o qual precisou de uma faxina. Cartazes anunciando o evento foram pregados nas mercearias e pontos mais movimentados da comunidade. E assim iniciou a assembleia com muitas deliberações.

Sempre apoiado por Tiago e velhos companheiros de infância, João tornou-se o mestre espiritual daquela comunidade. O livro que por anos desprezou voltou a ser considerado sagrado por ele. E, sendo a principal fonte de consulta dos tradicionalistas aldeões, os poemas e narrativas escritos ali compuseram as mais motivadoras mensagens que brotavam no coração daquele filho pródigo que retornara ao lar. O filho que, crendo e descrendo, foi razão de orgulho e de satisfação para seus pais até o fim da vida deles.


"(...) Quando a jornada termina, os rios voltam a ser rios e as montanhas voltam a ser montanhas." - Final do ditado Zen


OBS: A ilustração acima refere-se a uma foto do Parque Nacional da Serra dos Órgãos extraída de um site oficial do Instituto Chico Mendes http://www4.icmbio.gov.br/parnaso/index.php?id_menu=59

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pedro e Cornélio: afinal quem evangelizou quem?

Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.” (Atos dos Apóstolos 10.34-35; ARA)


É curioso como que muitos dos que se autoproclamam evangelistas arrogam-se em querer converter as outras pessoas não seguidoras de suas doutrinas ou costumes religiosos.

Posso fazer essa crítica porque já fui um cara assim. Um tremendo “mala”! E sei muito bem o que significa ter esta pretensão, alguém achando-se o dono da verdade e da razão, como se fosse o proprietário das “chaves do reino dos céus”.

Na passagem bíblica que fala sobre Pedro e Cornélio (cap. 10 de Atos dos Apóstolos), encontramos um belo exemplo de que o anúncio das Boas Novas do Reino não são propriedade de nenhum homem, seita, grupo étnico ou povo exclusivo. O Evangelho é nada mais do que a pura revelação da mensagem de Deus à humanidade, indicando o Caminho rumo ao conhecimento da Verdade e à promoção da Paz, tratando-se de algo acessível a todos. Um conhecimento que qualquer um é capaz de produzir.

Deus sempre nos leva mais além do nosso cotidiano para que possamos romper com as nossas limitações pessoais. E o episódio de Pedro e Cornélio mostra que aquela comunidade dos discípulos de Jesus, em Jerusalém, precisava vencer alguns preconceitos, afastando o etnocentrismo judaico e, assim, entender qual a dimensão da obra de Deus que fora profetizada há muitos séculos pelos profetas de Israel.

Segundo o livro de Atos, nesta época, Pedro permanecia firme no contexto do seu dia a dia, visitando as comunidades dos irmãos, curando e até ressuscitando pessoas. Contudo, Pedro necessitava de uma outra experiência para ir mais além das suas limitações e, deste modo, cumprir o glorioso chamado de Deus em sua vida.

O texto diz que, enquanto Pedro estava na cidade portuária de Jope (atual Haifa), eis que, em Cesareia, sede do governo provincial na região da Palestina, também marítima, morava um alto oficial do Império Romano chamado Cornélio.

Embora fosse estrangeiro, Cornélio residia entre os judeus e tinha um comportamento íntegro diante de Deus juntamente com toda a sua família. Pois, ao invés de oprimir o povo em nome do dominador romano, ele preferia praticar a caridade e, frequentemente, orava a Deus. Porém, por ser estrangeiro, Cornélio só deveria ser respeitado pelos moradores locais em razão de sua alta posição como autoridade e das boas ações que praticava. Isto porque, naquela época, os estrangeiros eram vistos como invasores, sendo que havia uma histórica briga entre judeus e gregos.

Apesar de sofrer todo este preconceito, Cornélio teve uma experiência sobrenatural numa certa tarde quando viu um anjo. Este, ao lhe aparecer, mandou que Cornélio enviasse mensageiros até Jope onde estava Pedro e conduzisse o apóstolo para Cesareia (At 10.5-6). Temente a Deus, Cornélio dispôs-se a obedecer prontamente a ordem transmitida pelo mensageiro.

Ocorreu que, no dia seguinte, por volta do meio dia, quando os homens enviados por Cornélio estavam a caminho de Jope, Deus falou com Pedro através de uma visão. Nosso irmão vê descer do céu, num lençol, vários animais considerados pela Lei de Moisés como impuros para a alimentação e para o sacrifício. Pedro, então, ouviu uma voz com uma ordem expressa para que ele comesse a carne de vários bichos considerados dieteticamente impuros para a alimentação de acordo com a lei mosaica (Levítico 11). Porém, por três vezes, o apóstolo recusou-se a obedecer o que lhe estava sendo falado na visão, mesmo advertido para que não considerasse como coisa comum aquilo que Deus purificou.

Sem ainda entender o significado daquela experiência, eis que chegaram os homens enviados por Cornélio à casa onde Pedro estava hospedado, quando então o apóstolo recebeu uma direção do Espírito Santo para acompanhá-los (At 10.19-20). Pedro, desta vez, obedeceu à ordem de Deus e, no dia seguinte, partiu com aqueles homens (At 10.23).

Ora, Cornélio estava com o coração totalmente aberto para compreender a Palavra de Deus e convidou seus parentes e amigos para ouvirem o que Pedro teria para compartilhar. E, embora fosse ele um homem piedoso que, continuamente, orava a Deus, não sabemos se de fato Cornélio tinha a concepção sobre a existência de uma única divindade ou se deveria adorar somente a Deus, visto que dificilmente deveria recitar a confissão monoteísta do Shema (Deuteronômio 6.4). Por ignorância, ele chegou a se prostrar diante de Pedro a fim de adorá-lo, tão logo o nosso irmão chegou (At 10.5).

Entretanto, erros ingênuos como esses jamais seriam imputados por Deus aos homens, visto que Cornélio estava com o seu coração completamente aberto para ouvir o Evangelho, aguardando apenas que alguém lhe anunciasse uma mensagem que lhe acrescentaria bastante coisa pra a sua experiência de vida.

Quebrando um forte preconceito existentes entre os judeus comuns daquela época, na região da Palestina, Pedro entrou na casa de um estrangeiro e faz ali um breve discurso sobre Jesus, mas que foi suficiente para salvar a vida daquelas pessoas que estavam presentes e com os seus ouvidos atentos para qualquer ação de Deus, a ponto de todas elas receberem instantaneamente o dom do Espírito Santo como os primeiros discípulos no dia de Pentecostes (At 10.44-46, conferir com Atos 2).

Lendo os versos 36 a 43 do capítulo 10 de Atos, percebe-se que Pedro fez menção do ministério de Jesus ocorrido entre os judeus alguns anos antes, pois se tratava ainda de um fato ainda recente na memória do povo e, na certa, conhecido por Cornélio bem como pelos demais ouvintes (At 10.37-38). Prosseguindo, Pedro falou da morte de Jesus (At 10.39), sua ressurreição (At 10.40-41), da missão recebida para pregar ao povo (At 10.42) e do perdão dos pecados (At 10.43).

Sem que fosse necessário Pedro fazer alguma citação das Escrituras hebraicas, diz o texto que o Espírito Santo foi derramado sobre aqueles receptivos ouvintes enquanto o apóstolo ainda discursava. E, mesmo sem os receptores terem ainda experimentado o ritual do batismo em águas, começaram a falar em línguas e a glorificar a Deus, confirmando que, realmente, estavam experimentando a conversão.

Reparem que não foram necessárias muitas palavras (nem “apelos pastorais”, ida numa igreja evangélica, curso pra “novos convertidos” ou imposição de mãos) para que Cornélio e aquelas pessoas experimentassem Deus. Seus corações estavam verdadeiramente abertos na expectativa de compreenderem a Palavra de Deus. E, quando receberam o dom do Espírito Santo, estava mais do que confirmado que aqueles homens, mesmo estrangeiros, poderiam ter acesso ao sagrado da mesma maneira que os primeiros discípulos, Jesus ou os antigos profetas de Israel. E, inclusive, tinham também um a mensagem para evangelizar Pedro e a Igreja.

Acredito que, com isto, Deus estava quebrando todo e qualquer preconceito étnico ou racial que pudesse existir naquela época dentro da Igreja, a qual foi formada a princípio por judeus, considerados como guardiões de uma tradição milenar dada por Moisés. Até então, é possível que muitos pensassem que a salvação fosse apenas para os israelitas que aceitassem a Cristo (At 11.18), não visualizando ainda a extensão ilimitada do plano de Deus.

Pode-se dizer que Pedro experimentou um considerável crescimento na sua vida espiritual como apóstolo e pregador da Palavra de Deus. Uma experiência que, assim como as anteriores em sua vida, levou-o a romper com suas limitações pessoais, sendo conduzido pelo Espírito Santo para alcançar um grau superior de maturidade espiritual para aperfeiçoamento seu e da Igreja. Aliás, nesta altura de sua caminhada, Pedro já não era mais aquele homem inconstante descrito nos Evangelhos. Agora, além da coragem para enfrentar multidões e autoridades, Pedro estava se tornando mais compreensivo quanto aos propósitos de Deus para a humanidade.

Ora, esta história da Bíblia nos ensina que precisamos remover de nossas mentes o preconceito, seja ele qual for. Evangelizar é, antes de mais nada, um compartilhar de ideias e de experiências. Pois, quando comunicamos ao outro o nosso aprendizado de vida, não podemos ter ouvidos de mercador para os relatos das outras pessoas, pensando de maneira pretensiosa que só nós estamos anunciando as Boas Novas.

Para quebrar mais um paradigma ainda forte na Igreja do século 21, digo que muito nós podemos aprender com pessoas de outras religiões ou que não sigam a nenhum credo. Pois certamente que o budista, o taoísta, o hinduísta, o judeu e até o muçulmano dispõem de valiosos ensinos sapiençais provenientes de suas respectivas culturas e que nos acrescentarão bastante. Mesmo as religiões de origem mais tribal como as tradições afro e indígena muito presentes na sincrética umbanda, além do candomblé que é 100% de origem negra.

Quanto aos não religiosos, nós, os seguidores de Jesus, devemos igualmente estar atentos para dialogar com aqueles que nos trazem um discurso mais científico. Precisamos neste ponto abrir nossas mentes e percebermos que Deus também fala através dos físicos, médicos, historiadores, filósofos, sociólogos, filólogos, biólogos e até sexólogos, mesmo que estes pesquisadores não frequentem igrejas e uns até se declarem ateus. Pois, nestas horas, precisamos ter humildade para recebermos através deles orientações e esclarecimentos, considerando suas experiências de vida tão importantes quanto as nossas.

Para completar, quero incluir neste rol de evangelistas os poetas, os cantores, os atores de TV (mesmo os que trabalham na Globo), os escritores e todos aqueles que se aventuram no campo das artes seculares explorando o subjetivismo. E ainda menciono os desconhecidos, as pessoas simples, o homem do campo, a dona de casa, o catador de material reciclável, a pessoa portadora de necessidades especiais e até os animais. Pois todos já têm dentro de si uma percepção do Evangelho e uma riqueza de experiências, de modo que aquilo que precisamos fazer é contribuir para que o outro também some conosco na construção de um mundo melhor. Ou seja, serem participantes da construção ou vivência do Reino de Deus aqui na Terra, conforme Jesus Cristo muito pregou.

Um abraço a todos e tenham um excelente final de semana com muita paz e descanso!


OBS: A primeira imagem acima trata-se do quadro "Pedro batizando o centurião Cornélio" (1709) do artista italiano Francesco Trevisani que viveu entre os séculos XVI e XVII. Já a segunda cuida-se de uma obra anônima da arte bizantina que mostra "Pedro e o galo", lembrando a experiência da negação do discípulo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Regra de Ouro em meio ao caos ambiental


"Não faças aos outros o que não queres que te façam." (bShab 31a)

É impressionante como uma só frase é capaz de resumir os 40 dias em que Moisés ficou na montanha! Quem disse isto não fui eu, mas sim o ancião Hillel, quando um gentio, desejando ser recebido no judaísmo, pediu ao rabi um curso sobre a Torah. Na ocasião, o impaciente prosélito recebeu como resposta do mestre que a frase acima resumia toda a Lei.

Por aquele mesmo tempo, Filo de Alexandria, um filósofo judeu contemporâneo de Hillel, semelhantemente ensinou que "aquilo que alguém não quer sofrer, não deve fazer a outros" (Hipotética 7.6).

Ambos os sábios estavam falando sobre a Regra de Ouro, muito conhecida por pensadores gregos e judeus desde a Antiguidade e que havia sido formulada há vários séculos antes de Hillel, fazendo-se presente em diversas religiões da atualidade (judaísmo, cristianismo, budismo, taoísmo, islamismo, etc).

Pode-se afirmar que, além dos gregos e judeus, o filósofo chinês Confúcio (551 - 479 a.C.), teria formulado-a em seus dias da seguinte maneira: "O que você não quer que lhe façam, não o faça aos demais". E, curiosamente, as tradições dos nossos índios já orientavam os membros da tribo desta forma: "Não queira desfazer do seu vizinho, pois assim como você procura ter bom tratamento, dê o mesmo aos outros".

Em contato com o pensamento judaico e, na certa, manejando intencionalmente as palavras do ancestral Hillel, Jesus também fez aplicação da Regra de Ouro conforme se lê no conhecido Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus:

"Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas". (7.12; Nova Versão Internacional - NVI)

Ou, mais resumidamente, taambém aparece em Lucas:

"Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles". (6.31; NVI)

Indubitavelmente Jesus inovou em relação a todos os pensamentos anteriores a ele, fazendo uso de uma incomparável formulação positiva, melhorando o viés negativo. Assim, segundo o Mestre dos mestres, aquilo que quero que seja feito para mim, devo fazer também para o outro, incentivando a prática de uma conduta capaz de envolver uma certa dose de criatividade, reflexão, entusiasmo pela vida e carinho pelo próximo.

Pensando no momento histórico em que viveram Jesus e Hillel, fico a indagar quão preciosas foram as pérolas que aqueles profundos pensadores apresentaram ao massacrado povo judeu. Em meio ao caos político da Judeia sob o opressor domínio romano, com inúmeras injustiças e parte da população passando fome, eis que à primeira vista parece difícil haver assimilação de um ensino tão nobre por pessoas extremamente necessitadas. Contudo, os humildes pescadores da Galileia, que seguiam o Messias Jesus pelas poeirentas estradas da Palestina, absorveram o sentido da mensagem melhor do que muitos ricos e poderosos habitantes dos palácios.

Nos dias de hoje em que a humanidade vive em meio a um caos político, econômico, social, familiar, ambiental e até religioso, a Regra de Ouro de Jesus torna-se a receita adequada para que possamos conviver melhor, promovendo a paz e garantindo a sobrevivência das futuras gerações. Seu ensino não se limita apenas à abstenção de praticar algo ruim para o outro, mas inclui uma atitude construtiva, algo comparável a um talentoso artista capaz de dar desenhos e cores a uma tela vazia.


Recentemente minha cidade de Nova Friburgo, situada na Região Serrana do Rio de Janeiro, foi alvo de uma catástrofe climática jamais vista em toda a sua história. Centenas de pessoas morreram e milhares encontram-se desabrigadas ou desalojadas. Jornais do país inteiro não páram de noticiar o ocorrido todos os dias juntamente com enchentes de outros lugares. Por todo lado ainda se vê rastros de uma tragédia que foi causada basicamente por dois fatores: as construções irregulares em locais impróprios e o aquecimento global.

De acordo com os cientistas, as condições do nosso planeta tendem a piorar cada vez mais nos próximos anos. Catástrofes climáticas como a que se viu este ano na Região Serrana do Rio de Janeiro, em Santa Catarina (2009) ou em Nova Orleans, durante a passagem do Catrina (2005), só tendem a se repetir e cada vez com maior intensidade. Por causa de sua ganância e recusa em deixar de emitir os gases do efeito estufa, o homem está destruindo a única casa que tem para morar, deixando um futuro incerto para as futuras gerações.

É neste contexto que ética e ecologia se encontram, confirmando o ensino do ex-frei Leonardo Boff, autor de dezenas de livros, dentre os quais "A Ética da Vida e Saber Cuidar". Numa entrevista dada à Construir Notícias, Boff responde que:


"A ética surge quando o outro emerge diante de nós. Que atitude tomar diante do outro? Não podemos ficar indiferentes. Mesmo o silêncio é uma atitude. Podemos acolher o outro, podemos rejeitá-lo, subordiná-lo e até agredi-lo e eliminá-lo. Essas atitudes configuram a ética. Ela será benfazeja quando faz do distante um próximo e do próximo um aliado e um irmão e irmã. Nesta perspectiva, bom é tudo aquilo que aproxima as pessoas ou que corresponde de forma benfazeja às realidades circunstantes; bom é tudo o que cuida e expande a vida em todas as suas formas; mau é tudo o que ameaça, diminui e destrói a vida. A regra de ouro da ética quando confrontada com o outro é: 'faça ao outro o que você quer que lhe façam a você'. Hoje pesa sobre a humanidade e o sistema da vida o pesadelo da depredação e até da destruição da vida e do projeto planetário humano. Somos todos vítimas de práticas que exploram pessoas, classes, paises, ecossistemas e o sistema Terra. São éticas anti-vida. Em razão disso, faz-se urgente uma ética salvadora e benfazeja que garanta a vida e o futuro do Planeta. Sem ética e uma cultura de valores espirituais que a acompanham não afastaremos o pesadelo e o encontro com o pior. Precisamos de uma ética mínima fundada do cuidado de uns para com os outros, com a vida e o Planeta, uma ética da cooperação e da solidariedade de todos com todos pois somos interdependentes e só podemos viver e sobreviver juntos, uma ética da responsabilidade que toma consciência das conseqüências benéficas ou maléficas de nossas práticas e uma ética da compaixão que se mostra sensível para quem menos tem e menos é, para que não se sinta excluído mas inserido na comunidade de vida." (extraído de http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=488)


Enquanto muitas das vezes a mídia expõe os moradores das áreas de risco nas encostas dos morros como os responsáveis pelos desabamentos das tragédias das chuvas, as autoridades brasileiras terceiro-mundistas culpam a fúria da natureza. Porém, o que se vê claramente neste país é uma ausência de políticas habitacionais eficientes e que sejam capazes de respeitar o basilar direito à moradia previsto na nossa Constituição Federal.

Ora, tudo isto aponta para a necessidade da ética e não somente para a satisfação imediata de necessidades. Isto porque chegamos a uma crise mundial sem precedentes, em que a sobrevivência do planeta parece estar por um fio, sendo que a humanidade precisa urgentemente colocar em prática uma ecologia capaz de não apenas salvar as baleias ou o mico-leão-dourado da extinção, mas sim incluir socialmente todas as pessoas, oferecendo condições dignas de subsistência, saúde e também educação de qualidade. Só que nada disso se alcança sem trabalhar também os valores espirituais do ser humano.

Inteligentemente Jesus não formulou sua Regra de Ouro do nada. O Mestre, ao dar um novo sentido à frase de Hillel, buscou na Torah (creio que em Levítico 19.18) o fundamento daquilo que disse. Ou seja, o amor ao próximo que assim foi ensinado por Moisés aos israelitas no deserto:

"Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o SENHOR." (NVI)

Pode-se dizer que, nos dias de hoje, o amor já não pode mais ser considerado como uma virtude de um homem piedoso, mas sim de uma necessidade. E, deste modo, mais do que décadas atrás, tornam-se proféticas as palavras do poeta anglo-americano Auden:

"Amem-se uns aos outros, ou pereçam"!