Páginas

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Amor para ser vivido e não teologizado



Como vimos no último estudo bíblico sobre o Evangelho de Lucas, A revelação dada aos "pequeninos", sobre os versos 21 a 24 do capítulo 10 desse terceiro livro do Novo Testamento, o ensino de Jesus foi bem compreendido pelos humildes, mas não pelos religiosos e teólogos da época. Estes, como se verá nos fatos que antecedem à Parábola do Bom Samaritano, muitas vezes aproximavam-se do Senhor com a finalidade de testá-lo, procurando uma oportunidade para acusar o Mestre. Queriam odiosamente manchar a sua reputação diante das multidões:

"E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" (Lc 10:25; ARA)

Neste caso, o homem que procurou por Jesus era um culto conhecedor da Bíblia em sua logia e também religioso. Para poder interpretar a lei de Deus aplicando os preceitos de Moisés às necessidades de sua geração, o estudioso precisava ser mais do que um escriba comum. Teria que discernir com profundidade as Escrituras Sagradas, ter um comportamento aprovado de demonstrar inteligência. Portanto, era um cargo de alguma autoridade, quer estivesse do lado dos fariseus ou dos sacerdotes.

Embora Jesus não estivesse voltado para a satisfação dos interesses desse grupo, digamos, elitista, o seu ministério parece ter chamado a atenção deles. Os sacerdotes, bem como os fariseus, estavam de olho no que o Mestre fazia e se sentiam escandalizados por suas palavras. O seu comportamento inclusivo em relação aos pecadores e o impacto da evangelização nas comunidades israelitas eram motivos suficientes de preocupação pelos mantenedores do status quo. A revolução do Reino ameaçava tanto os poderosos políticos que viviam no luxo dos palácios como os religiosos em seus templos, sinagogas e, atualmente, nas igrejas cristãs.

A pergunta do instruído especialista da Lei corresponde às mesmas indagações que muitos fariam hoje. Lembra a busca sincera do jovem rico em Mateus 19:16 só que, no caso, o homem age com falsidade. Ele desejava saber como Jesus iria se posicionar para depois derrubá-los com seus argumentos. Seu objetivo não era de modo algum aprender e nem de se aperfeiçoar.

Contudo, o Senhor não lhe forneceu resposta imediata dando qualquer ocasião para debates em torno de controvérsias. Fez com que o próprio exegeta expusesse o seu pensamento e a maneira como compreende a Bíblia. Ele então confirma o que os mestres da época, a exemplo do ancião Hillel, já diziam antes mesmo de Jesus nascer, juntando a confissão do Shemá Israel de Deuteronômio 6:5, a profissão de fé central do monoteísmo judaico, com Levítico 19:18. Os quarenta dias que Moisés passou no Monte Sinai recebendo a Torá resumem-se desta maneira no amor a Deus e ao próximo. E isto os doutores teólogos já sabiam e Jesus lhes manda praticar ao invés de teologizarem somente.

"Respondeste corretamente; faze isto e viverás" (verso 28)

Jesus disse ao homem que entrasse na vida através de uma atitude positiva. Em outras palavras, era para que ele experimentasse a eternidade em seus frutos, coisa que, certamente, não estava fazendo por querer colocar o Senhor à prova. Por isso, nosso Mestre tentou ser logo conclusivo. Tais religiosos já tinham na Lei e nos Profetas toda a orientação que precisavam para andarem no caminho da salvação. Eles só precisavam por em prática o conhecimento. O Evangelho se achava bem diante dos olhos deles, nos rolos das Escrituras e nos arquivos da mente (memória), mas ainda assim não compreendiam espiritualmente o sentido da mensagem. Assim, se passassem a amar verdadeiramente o próximo, colocando o outro no lugar deles. seria resolvida a preocupação que o homem tem consigo mesmo sobre "o que fazer para herdar a vida eterna". Isto porque quem experimenta amar descobre a grandeza da bondade divina e o quanto é descabido gastar energia pensando na existência após a morte.

Será que hoje pessoas nas igrejas e nos seminários não vivem situações semelhantes às daquele intérprete da Lei? Quantas vezes não carregamos debaixo dos nossos braços uma Bíblia, incluindo os evangelhos e as cartas paulinas, mas demonstramos incompreensão acerca do mandamento do amor pelas condutas exteriorizadas? Por que ainda existem cristãos com tantas inquietações e incertezas se vão herdar a vida eterna?

Percebendo que Jesus teria se evadido do debate, o especialista da Lei ainda vai procurar tentá-lo novamente nos versos seguintes. Ele formula uma outra questão que era muito debatida pelos antigos rabis capaz de provocar prolongadas discussões entre os judeus devido a uns pontos bem polêmicos. Algo com grande potencial de gerar disputas e divisões tendo em vista o alto nível de xenofobismo e de etnocentrismo existentes naqueles dias de domínio político dos romanos:

"Quem é o meu próximo?" (verso 29)

Caso Jesus desse uma resposta direta, certamente que não agradaria a todos. Se o próximo fosse qualquer outro israelita, por que excluir o estrangeiro já que a Torá, por ser fonte da justiça humana, não pode ensinar amor para uns e vingança para outros? Mas, na hipótese de incluir o não judeu, outros argumentariam de um modo contrário na interpretação de Levítico 19:18, considerando que, no verso da lei mosaica, vem falando quanto à proibição do ódio contra os irmãos do mesmo povo bem, como os sentidos diversos assumidos pela palavra hebraica Ach. Deste modo, preferiu o Mestre dos mestres fazer os seus ouvintes refletirem contando-lhes uma parábola que nós conhecemos como a do bom samaritano:

"Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocado-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar." (versos 30 a 35)

A metáfora, além de ser indiscutivelmente anticlerical, é também universalista. O próximo do homem assaltado e agredido não foi um leigo israelita mas sim um "imundo" samaritano. Alguém considerado pior do que um estrangeiro para muitos judeus daqueles tempos. De acordo com o historiador Josefo, um grupo de de samaritanos chegaram a profanar o Templo durante uma celebração da Páscoa espalhando ossos humanos por todo o santuário (Antiguidades 18:30), sendo que as origem dessa inimizade são ainda bem mais antigas como expus brevemente no texto Uma comunidade hostil no caminho de Jerusalém.

Conforme já havia analisado esta parábola aqui neste blogue, antes de iniciar os atuais estudos em sequência sobre o Evangelho de Lucas, o levita e o sacerdote teriam deixado de prestar socorro ao homem assaltado temendo que ele estivesse já morto. Por razões religiosas, não poderiam tocar num cadáver sem se tornarem cerimonialmente imundos (Lv 21:1-4,10-12; Nm 19:11-13). Era como se o serviço no Templo valesse mais do que a vida humana (ler o artigo Quando a religiosidade nos impede de amar).

Assim, o sacerdote e o levita "passam de largo". Preferem se afastar do homem semimorto supondo que ele já seria um cadáver. Deixam de exercer compaixão por causa das posições que tinham enquanto que o samaritano cumpre bem o papel de ser o próximo de quem necessitava de ajuda. Aliás, ele não mede valores. Ao ver o corpo, aproxima-se ("passou-lhe perto"). Percebe que o seu próximo ainda estava vivo, abre o espaço de um dia em sua agenda, presta os primeiros socorros, transporta o sujeito no seu próprio animal e ainda paga o dono de uma hospedaria com dois denários para cuidar dele até seu restabelecimento. Se aquela caridade ainda ficasse mais cara, não teria problema. Ele indenizaria assim que voltasse.

Embora na outra vez em que estudei a parábola eu tenha focado mais no aspecto anticlerical, quero agora realçar mais a ação do bom samaritano. O texto não diz qual a sua condição econômica, se era rico ou pobre, mas não parece que aquela assistência tenha lhe custado barato. De fato, ele tinha algumas provisões extras, umas economias que lhe permitiram ajudar quem dele precisasse. Porém, o dinheiro pago ao dono da hospedaria corresponde a dois denários, o equivalente a duas diárias de trabalho nos valores monetários da época. Desta maneira, pode-se constatar que o gasto de tempo foi mais do que uma noite na pousada. Ele dispôs foi de uns três dias de sua vida!

Curioso, mas tanto os levitas quanto os sacerdotes eram sustentados pelo dízimo da nação israelita. Também, através dessas importâncias recolhidas, era possível distribuir ajudas aos mais necessitados: órfãos, viúvas, estrangeiros peregrinos e os pobres em geral. Contudo, o bom samaritano não manda a conta para o tesouro do Templo. Nem mesmo chega a pedir ao proprietário da hospedaria que fosse um pouquinho solidário na caridade arcando com os custos da fatura ou se abstivesse de lucrar. Ele simplesmente encara como seu o dever ético para com um desconhecido que trata como se fosse parente, um irmão. Age sem receber qualquer agradecimento ou retribuição da vítima que, talvez, ainda estivesse inconsciente por causa da gravidade dos ferimentos. Daí suponho ter sido um judeu que fora assaltado naquela estrada pelo trajeto que fazia.

Certamente aquele samaritano foi um cara que acreditou na vida e lutou por ela. Amou pra valer mais do que muitos médicos na atualidade. Assim, com este ensino, Jesus mostrou ao doutor da Lei quem é o próximo. Nem precisou entrar em detalhes se o judeu precisava amar até quem não fizesse parte da nação de Israel. Narrando aquela parábola, o Senhor inverteu a situação e fez com que um compatriota fosse amado por quem era um excomungado ou o pior dos estrangeiros. Aliás, o auxiliador torna-se, por consequência, o próximo do assistido e vice-versa dentro de uma reciprocidade existencial que se estabelece em dimensões espirituais. Logo, o conceito só pode ser universalista mesmo e ficou esclarecido de uma maneira bem sábia que a interpretação de Levítico 19:18 deve ser a mais abrangente possível, designando qualquer homem, sem distinção de raça, cor ou credo.

Novamente Jesus devolve a questão para o intérprete da Lei perguntando qual dos três foi o próximo do homem assaltado (verso 36). O experiente teólogo não vê outra alternativa. Percebe a ausência de espaços para suscitar controvérsias ou expor uma interpretação restritiva do preceito da Torá e, discretamente, reconhece ter sido "o que usou de misericórdia", sem declarar abertamente que fora o samaritano (verso 37).

Pela segunda vez, o Senhor manda o doutor por em prática o que já sabia: "Vai e procede tu de igual modo". Afinal, deve-se amar e não teologizar. Toda a Lei de Deus se resume em condutas compassivas, não podendo os mandamentos virarem uma logia estéril de mestres. Inclusive o maior deles que é o amor.


OBS: A ilustração acima refere-se ao célebre quadro O Bom Samaritano pintado por Rembrandt (1606-1669). Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Rembrandt_Harmensz._van_Rijn_033.jpg

É dever dos pais conversarem sobre sexo com os filhos!

"Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te" 
(Deuteronômio 6:6-7; ARA)


Após ler uma interessante matéria na internet, intitulada Você fala sobre sexo com seus filhos?, assinada pela blogueira Carol Patrocínio, veio logo em minha mente o texto bíblico acima citado. Em seu artigo a autora assim se posicionou sendo meus os destaques:

"Eu cresci em uma família em que a preocupação com nossos bem-estar era imensa e o diálogo sempre foi a principal ferramenta. Fingir que o sexo não existe e não permeia nossas vidas, independentemente da idade que temos, não fará com que ele desapareça. Há todos os tipos de pessoas por aí. Boas e ruins. Interessadas em ajudar e interessadas em destruir vidas por seu próprio prazer. Deixar seus filhos descobrirem sozinhos quem é quem não é inteligente (...) O que digo aqui é baseado exclusivamente na minha experiência: a maneira como fui criada e como crio meus filhos. Nenhum de nós nunca sofreu abusos, de nenhum tipo, e devo muito disso ao canal aberto para discussão que sempre tive com meus pais. Não faltam pessoas com intenções horríveis por aí e a obrigação de deixar seus filhos a salvo é sua, não da escola ou da igreja. (...) Responder a todas as perguntas. É claro que você pode parar um minutinho para pensar na melhor maneira, mas não deixe a criança com dúvidas – mas também não dê mais informações do que a criança quer saber. Não deixe que ela aprenda pelos amigos da escola – e ela vai falar sobre esses assuntos, quer você queira, quer não - de uma maneira que não é aquela que você acredita ser a melhor (...)"

Concordo com boa parte das coisas que ela colocou na íntegra de seu artigo. Penso que a base de tudo esteja mesmo no diálogo. Nada se resolve por meio de imposições de valores ou pela conduta evasiva do educador em não querer enfrentar determinados assuntos conflitantes ao conversar com a criança. A comunicação dos pais precisa penetrar diretamente no coração dos filhos. É necessário que haja assimilação do direcionamento paterno através da receptividade. Cabe ao genitor estimular o interesse do educando infundindo-lhe princípios éticos. Tanto sobre sexualidade como qualquer outro assunto.

Criar filhos é uma questão de responsabilidade e, há três mil anos atrás, a Bíblia já falava a respeito disto. Os pais precisam gastar tempo convivendo com a criança. Devem fazer da educação um investimento colocando o convívio familiar nas suas agendas: assentados, caminhando, nas hora de dormir e de levantar. Nada justifica suspender o ensino das crianças e os genitores não podem delegar esse trabalho a ninguém.

Certamente que o bem-estar futuro de uma criança dependerá de sua educação. Não só de uma pessoa como de uma comunidade e da nação inteira. Hoje o Brasil tem naufragado no plano ético por causa da má formação do nosso povo. Se há tantas crianças violentadas, adolescentes grávidas e jovens contaminados com HIV e outras formas de DSTs, é porque existe uma má orientação por trás. Ou melhor dizendo, uma ausência desta.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A revelação dada aos "pequeninos"

Incrível como que, na dimensão do Reino de Deus, muitos valores funcionam invertidos!

Conforme temos estudado até aqui, os setenta discípulos comissionados por Jesus retornaram alegres relatando o êxito do trabalho empreendido nas cidades de Israel (ver artigo "O vosso nome está arrolado nos céus"). Ainda no contexto do reencontro comemorativo com o Mestre, o Senhor faz novas declarações exaltando os humildes. São os "pequeninos" que se abrem para acolher as boas novas do Reino em seus corações:

"Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado" (Lucas 10:21; ARA)

Jesus está a falar aqui de um conhecimento que não é perceptível por métodos digamos naturais. A cognição espiritual não depende do nosso intelecto ou das capacidades físicas e mentais do homem. Por isso, a revelação divina sobre os mistérios da vida muitas vezes não são aprendidas pelos sábios e pessoas diplomadas nas universidades. Nem mesmo os escribas, que eram os teólogos da época, conseguiram compreender o Evangelho pregado por Jesus.

O ensino das coisas do Reino de Deus requer que o destinatário da mensagem abra espaço em seu coração e se torne receptível. Neste sentido, títulos de doutor e de mestre podem atrapalhar a aceitação da Palavra. Isto porque, nos tornando conhecedores das ciências, corremos o risco de nos fecharmos soberbamente dentro dos nossos próprios conceitos e visões de mundo. A mente torna-se então excessivamente julgadora apoiando-se num tipo de crítica que é inimiga do aprendizado por causa da falta de reverência. Achando-se senhor do saber e preso às teorias que defende, quem muito domina a logia por diversas vezes não se abre quando senta nos bancos da escola de Jesus.

De modo algum o Mestre falou que pessoas diplomadas não pudessem compreender o Evangelho. Doutores também têm o mesmo potencial de um pequenino para chegarem ao conhecimento de Deus desde que se tornem tão receptivos quanto. Este me parece ser o critério da seletividade do versículo 22 do capítulo 10 de Lucas já que o nosso Senhor veio anunciar a sua mensagem para todos sem qualquer discriminação. As pessoas orgulhosas e que se acham suficientemente instruídas são aquelas que costumam tapar os ouvidos do coração para as boas novas. E, no grupo dos fechados, podemos encontrar qualquer um que pensa saber algo. Inclusive os não graduados nas instituições de ensino superior mas que se consideram donos da verdade por já serem padres, pastores, terem mais tempo de igreja, receberem frequentes elogios dos seus líderes, etc.

Incrível! E que perfeição! Foi do agrado do Criador bendito que aos homens e às mulheres humildes de coração fosse dada a revelação espiritual. Trata-se aqui de uma disposição interior para aceitar a mensagem simples de Jesus capaz de envergonhar os entendidos deste mundo. O único esforço exigido é o de não se esforçar mentalmente. Basta querer receber de graça aquilo que Deus dá.

Assim se revelou nos tempos de Jesus e de seus discípulos aquilo que os antigos monarcas e profetas de Israel tanto desejaram ver em seus dias (verso 24). Era chegado o Reino de Deus e o nosso Senhor protagonizou o seu papel messiânico ao anunciar as boas novas há muito aguardadas. A partir de então, o mundo não seria mais o mesmo e o processo revolucionário de transformação planetária tinha começado.

Felizes foram os olhos daqueles discípulos porque viram a revolução do Reino iniciar. Mas também nós nos tornamos igualmente bem-aventurados como os primeiros seguidores do grande Mestre quando o nosso entendimento espiritual se abre e passamos a contemplar a ação divina sobre a História e como as coisas vão sendo mudadas pela vontade soberana do Criador.

Que sejamos sempre humildes "pequeninos" para nunca deixarmos de receber.

"O vosso nome está arrolado nos céus"

Foi visto no estudo anterior do Evangelho de Lucas que Jesus tinha enviado os setenta discípulos para uma missão afim de que o precedessem nas cidades onde haveria de passar em sua peregrinação a Jerusalém. Deveriam eles anunciar o Reino de Deus e curar as pessoas enfermas do local visitado (Lc 10:9). Agora, porém, eles já estavam de volta, cheios de alegria e trazendo o seguinte relato:

"Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!" (verso 17)

No episódio sobre o envio dos doze apóstolos, Jesus havia lhes concedido "poder e autoridade sobre todos os demônios" (9:1). E, embora isto não conste explicitamente na missão dos setenta, no capítulo 10, é possível afirmar que as missões de ambos os grupos parecem ter sido idênticas. Além de curarem os enfermos, os discípulos deveriam libertar as pessoas dos assédios espirituais bem como anunciarem as boas novas do Reino.

Sem dúvida que a sujeição dos espíritos malignos aos apóstolos significa também um dos sinais da chegada do Reino de Deus. A ação dessas consciências invisíveis que atuam sobre o Universo não se restringe a provocar danos na saúde das pessoas ou distúrbios psíquicos de comportamento. Há uma interferência também sobre os governos através das brechas nas vidas das autoridades estabelecidas e da própria sociedade que as constitui relacionando-se com o poder. Por isso, o Evangelho é dirigido também para as comunidades e não somente para os indivíduos.

A resposta dada por Jesus às expressões jubilosas dos discípulos vem então direcionar a alegria deles para algo muto mais grandioso do que as manifestações de poder:

"Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago. Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano. Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus" (versos de 18 a 20)

Observem que o Mestre usa o verbo no presente. Os nomes dos discípulos já estavam "arrolados nos céus". Não se trata de uma condição futura! Eles já faziam parte do revolucionário plano divino de redenção da humanidade. Através do Evangelho anunciado, comunidades estavam sendo transformadas, revendo os seus valores e criando novos objetivos para si. Nos locais onde a Palavra era realmente acolhida, germinavam a solidariedade, o amor, a restauração de relacionamentos quebrados, o perdão, a paz interior, a alegria e o desejo de viver com propósito. Os comportamentos tornavam-se mais transparentes, sem mentiras ou falsidades, de modo que passava a ser possível construir um projeto coletivo sem os vícios de corrupção.

Neste sentido, os milagres viravam somente sinais, a pontinha de um iceberg. Junto com o Evangelho vem também a salvação completa do homem caído e perdido em si próprio, o qual é refém das próprias compulsões. Quem se abre para a realidade do Reino passa por um processo de arrependimento sincero retornando à essência da vida. Algo que não se confunde com a assimilação de culpas, mas sim com o reconhecimento do erro que leva a uma atitude positiva de darmos um novo sentido à nossa existência.

Quando as pessoas e as comunidades passam a caminhar na direção do Reino, Satanás despenca como um relâmpago. Em outras palavras, que Jesus quer nos dizer seria que o mal perde o controle sobre a vida do novo convertido que não abandona o seu processo de mudança porque o bem passa a achar lugar nos corações, nas mentes e nas atitudes tomadas daí por diante. Trata-se da salvação operando no micro e no macro: na pessoa, na casa e na sociedade.

Ter o nome arrolado nos céus é estar salvo e regenerado pela graça. Os setenta discípulos não alcançaram esse reconhecimento de Jesus pelas obras que fizeram. O fato de estarem se tornando crentes maduros era resultado da transformação do Evangelho em suas vidas. Não precisariam ganhar almas para terem uma morada no céu como se a evangelização servisse de moeda de troca perante o Pai. Porém, a Palavra de Deus em seus corações despertou neles a preocupação amorosa pelas almas perdidas. Ou seja, o que faziam significou frutos salvíficos.

Que haja em nós um idêntico sentimento! Que sejamos capazes de nos importar com o pobre, com o faminto, o doente, o drogado, o encarcerado (seja por qualquer tipo de crime), o pecador em geral, o excluído e com todo aquele que sofre injustiças. Oro para que o Espírito de Deus nos inspire dando motivações para querermos envolvimento com as missões. Mesmo que sendo na nossa cidade ou bairro onde, certamente, há muita gente carente dos abraços do Pai e do Filho em nós.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Trabalhadores na seara do Senhor



Como vimos no estudo Um movimento que abalou o rei, sobre Lucas 9:1-9, o Senhor Jesus havia enviado seus doze apóstolos para pregarem e curarem pelas aldeias de Israel. Era como um estágio para eles se prepararem para continuar as obras do Salvador sem a sua presença física após a sua partida.

Já no capítulo 10 do mesmo Evangelho, o Mestre comissiona outros setenta discípulos "para que o precedessem em cada cidade e lugar aonde estava para ir". Tudo ocorre dentro do contexto literário de sua longa peregrinação a Jerusalém em que novos ensinamentos são acrescentados servindo para o trabalho missionário da Igreja em todo o planeta, tanto naquela época como hoje. O número de enviados, que em alguns manuscritos gregos constam como sendo setenta e dois (mesmo número de nações na versão da Septuaginta de Gênesis 10), seria a representação simbólica de todos os povos. Tem-se aí implícito o caráter universalista da mensagem revolucionária do Reino de Deus.

A primeira recomendação do Senhor (Lc 10:2) demostra ao mesmo tempo a fé que Jesus exerceu em relação ao resultado da obra e a preocupação com a necessidade de haver mais trabalhadores na "seara". Suas palavras nos fazem lembrar brevemente de João 4:35 quando o outro evangelista fala da ceifa e dos ceifeiros. Contudo, o que os doze e os setenta discípulos fizeram foi semear as boas novas do Reino. Os frutos da missão ainda seriam amadurecidos e colhidos no tempo de Deus. Mas, por outro lado, podemos também admitir que os discípulos enviados já representavam o fruto maduro do trabalho de Jesus em suas vidas e era chegado o momento de eles mesmos deixarem o banco da escola e se tornarem os protagonistas, passando adiante o ensino recebido.

Creio que o Criador quer contar conosco em seu plano de redenção da humanidade. Para isto apóstolos do passado e do presente são enviados aos "campos", isto é, às cidades, às aldeias e às casas. Agem conforme a direção de um mestre que, no caso, é o próprio Senhor Jesus e não laboram sozinhos, mas em duplas, o que reforça o testemunho garantindo um apoio mútuo.

Percebo que, em Lucas 10, Jesus levou um papo sério com sua futura Igreja. Existem multidões sedentas aguardando receber o Evangelho do Reino. O nosso discipulado só se completa e ganha algum sentido quando nos dispomos a abraçar almas. Não temos que nos fechar em cultos religiosos como se a vida cristã se resumisse a estar num templo cantando e louvando. Daí o Mestre tê-los mandado à "seara" utilizando uma imagem que fazia parte do cotidiano agrícola dos antigos galileus para que bem entendessem o sentido da missão.

É possível reconhecermos uma conotação escatológica na grande seara. Contudo, o Reino de Deus anunciado por Jesus precisa ser presentificado por seus discípulos que são os trabalhadores do campo. Antes da chegada do Mestre nas aldeias que serão visitadas no caminho para Jerusalém, os obreiros enviados devem precedê-lo, o que também se aplica à crença na sua segunda vinda. Temos que pregar o Evangelho para darmos continuidade ao processo de transformação planetária. É algo que não se confunde com soluções mágicas e, por tal motivo, o Senhor pede aos discípulos (leia-se à Igreja) que orem a Deus para que o Pai mande novos trabalhadores. Ou melhor, que nos mande para a sua colheira pois a concretização do Reino de modo algum se fará sem a ação de muitos operários que se colocam à serviço das multidões.

Para tanto será preciso lidar com os "lobos". Novamente Jesus usa, no verso 3, uma outra imagem do meio rural. Os discípulos enviados seriam como "ovelhas"  entre animais ferozes que  seriam os líderes políticos e religiosos. Homens que se prestam para serem instrumentos da maldade e que vão se sentir incomodados com os resultados do Evangelho dentro das comunidades. Tratam-se daqueles que querem manter o status quo vigente porque praticam e/ou se beneficiam das injustiças sociais pela exploração do trabalho humano com o pagamento de baixos salários, da concentração de terras, da prostituição, da corrupção na política e da ilusão das pessoas. Para tanto vão ser capazes de inventar mentiras ou boatos, armas ciladas, manchar a reputação do servo de Deus e até matar.

Como já vimos no estudo da missão dos doze, novamente é reiterado no capítulo 10 a advertência para o discípulo não carregar a bagagem extra (verso 4). Desta vez Jesus radicaliza propositalmente no discurso deixando o apóstolo descalço e isto faz com que o obreiro exerça sua fé e aposte a própria sobrevivência no que receberá de oferta das pessoas (versos 7 e 8). A caridade recebida será um dos frutos da mensagem evangelística por eles semeada.

Seria preciso focar nas vidas recuperadas para o Reino e não desperdiçar tempo e energia com a gestão de recursos. Este é um dos motivos para que o apóstolo não carregue bens na sua missão. Importa observar que até na caminhada era preciso não perder o foco com as saudações que, na época , tratava-se de um elaborado costume e penso que aqui haja algo muito mais do que literal.

Fico a pensar no que nos diria Jesus se estivesse discursando para a Igreja do século XXI quanto a portarmos celulares e computadores nas missões de hoje? Será que tais bens ajudam ou atrapalham a causa do Reino? Ou não têm nada a ver?

É certo que a pregação do Evangelho baseia-se no desenvolvimento de uma comunicação que é direcionada objetivamente. Não se exclui obviamente o uso da internet mas acontece que a rede mundial de computadores é um terreno perigoso para distrações. Com apenas alguns dias interagindo, você passa a ter inúmeros recados de e-mails, mensagens de notícias, convites para visitar páginas no Facebook, conversas de bate-papo, etc. Neste sentido, considero que a recomendação incomum para o apóstolo não saudar a ninguém pelo caminho vem de encontro da necessidade de manutenção do foco missionário. A atenção amorosa ao próximo continua e nada justifica tratarmos o outro de maneira rude. Só não podemos nos tornar escravos dos contatos sejam eles virtuais, telefônicos ou mesmo pessoais a ponto de fiarmos "pelo caminho" deixando de alcançara as famílias e as comunidades.

Repete-se no capítulo 10 de Lucas a orientação para o discípulo permanecer na mesma casa onde se hospedar, porém a abordagem ali se torna mais abrangente do que no episódio do envio dos doze. Um dos acréscimos seria a recomendação de se dizer as palavras de paz remetendo o leitor ao costume da saudação judaica shalom. Algo que  deve ultrapassar os limites da mera cortesia tornando-se de fato um gesto de benção sobre a família que abriu suas portas para receber um ministro do Reino de Deus na intimidade do lar. Contudo, será preciso que a paz encontre receptividade no coração de algum membro da família (verso 6).

Mais uma vez é reforçado que o destino do apóstolo de Jesus é a casa das pessoas e não os templos. Como foi estudado na missão dos doze, estes locais jamais poderão ser a essência de um cristianismo autêntico e verdadeiro, mas tão somente extensões de uso. São espaços onde a Igreja pode realizar algumas de suas atividades sem se limitar a eles e jamais confundi-los com o sagrado. As celebraços de culto e o ensino da Palavra não precisam acontecer ali, devendo se repetir nos nossos lares bem com o nos outros meios onde nos relacionamos fraternalmente. Inclusive em ambientes abertos como Jesus costumava procurar.

Tal como em Lucas 9:5, os setenta discípulos enviados no capítulo 10 são também instruídos a sacudirem a poeira da cidade onde não foram recebidos. Não se trata de nenhum ato de desprezo ou de vingança contra a comunidade mas sim de um amoroso testemunho para os destinatários não permanecerem fechados e irredutíveis à mensagem do Reino. Aplica-se-lhes um tradicional gesto nas peregrinações litúrgicas quando os judeus provenientes da Diáspora livravam-se do pó "imundo" de outras terras antes de pisarem  no solo sagrado de Israel. Tal simbolismo seria bem compreendido pelos ouvintes da época.

Podemos extrair várias compreensões acerca da poeira sacudida. Uma delas é que, com o recado simbólico, abre-se uma nova oportunidade para a comunidade não receptiva ao Evangelho poder se abrir posteriormente às boas novas de construção do Reino. Outrossim, há que se considerar também o estabelecimento de um conflito que acompanha o projeto de paz anunciado. A saudação do apóstolo quando chega na casa não trás nenhuma neutralidade diante da situação de injustiça social e até mesmo familiar. Logo, se o recado do pregador é rejeitado e as pessoas preferem manter as coisas como estão, elas devem saber que a realidade revolucionária do Governo divino está próxima (verso 11).

No versículo 12 e seguintes, o Evangelho nos leva a refletir sobre a responsabilidade daqueles que rejeitam a oportunidade de receber o Evangelho. Maior tolerância haverá no Juízo para as impenitentes Sodoma e Gomorra, bem como para outras cidades pagãs, do que para os que se recusarem a acolher as boas novas do Reino, significando que somos julgados pelas condutas escolhidas conforme as condições de agir.

Como se vê a mensagem evangelística é clara. Ela nos convoca para revolucionarmos nossas vidas, famílias e comunidades através de um posicionamento firme contra qualquer tipo de injustiça. Se antes andávamos no caminho errado, chegou o momento de buscarmos arrependimento sincero e recolhermos as sementes negativas plantadas no passado. A partir daí, precisamos colocar as mãos na massa e assumirmos o nosso papel de protagonistas do Reino. Não dá para viver em cima do muro!

Assim há que se considerar a existência de um processo revolucionário em curso movido pelo próprio Deus através de nós para que ocorra a transformação planetária. Quem não acolhe a mensagem de paz do agente do Reino está se opondo à marcha histórica do bem e da vida. As palavras do Mestre, no versículo 16, não se aplicam necessariamente à sua pessoa ou a de seus apóstolos, mas sim ao desígnio divino por eles e por nós expresso. Quando as mudanças chegam, elas surpreendem a todos os que se acham dormindo e o processo de construção do novo se faz através de decisivos momentos de ruptura com o pecado. Portanto devemos estar atentos e vigilantes para nos tornarmos participantes e cooperadores do projeto divino. Nunca o contrário.

E então? Vamos trabalhar na seara do Senhor?


OBS: A ilustração acima refere-se a uma iluminura do século XV de autoria anônima sobre os setenta apóstolos. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Seventy_Disciples.jpg

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Que seja um agosto com muito gosto!

Hoje não tive tanto tempo para entrar na internet e postar no meu blogue. Passei boa parte da manhã dando prosseguimento aos meus estudos teológicos sobre o Evangelho de Lucas, registrando as anotações primeiramente no caderninho de rascunho e depois fui à praia dar atenção ao meu comércio de sorvetes, retornando só há pouco pra casa.

Os feriados da visita do papa não colaboraram muito devido à onda de frio que andou fazendo. Porém, este vai ser o último final de semana das férias do meio de ano e, mesmo já sendo agosto, algumas escolas ainda não voltaram às aulas e o sol tem ajudado. Por ser início de mês, o consumidor costuma gastar mais um pouquinho pelo que aguardo um domingão com muito calor e praia relativamente cheia aqui em Muriqui. Ontem e hoje foram dias excelentes pra mim. Glória a Deus!

Nesta época do ano, apesar de ser inverno, eis que costumam fazer dias bem secos com algumas horas quentes. Talvez para o meu negócio seja bom, mas para a natureza é um tremendo sofrimento. Chove pouco, muitas plantas morrem, o volume de água nos rios diminui e começam as terríveis queimadas. Fico muito preocupado com as nossas florestas por causa daqueles que provocam incêndios criminosos.

Este mês tenho uma batalha para enfrentar. Minha esposa Núbia está para fazer uma cirurgia em sua coluna. Ela tem sofrido de hérnia de disco que, segundo a ressonância magnética, desidratou e precisará colocar uma prótese no lugar. É algo que está nas mãos de Deus e ouço falar de casos de pessoas que operaram e ficaram boas. De acordo com o seu médico, no segundo dia, o paciente já recomeça a andar e depois só precisa de um período de repouso e de fisioterapia. Peço aos amigos que orem.

Assim, eis que agora vou para meu descanso semanal, mas volto a trabalhar no domingo. Aproveito o sábado para renovar as forças e tomar alento para mais uma batalha. Quero, com as bênçãos dos céus, concluir os estudos sobre Lucas e, se Deus permitir, reunir todos os artigos pertinentes num futuro e-book. Orem também por isso.

Abração a todos que me acompanham!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Deputado quer eleições diretas para os conselhos profissionais




O deputado federal Glauber Braga (PSB-RJ) apresentou recentemente o Projeto de Lei n.º 5680/2013 que prevê a eleição direta dos membros de todos os conselhos profissionais, tanto os regionais como os federais. Conforme noticiado pelo site da Câmara, se a proposição for aprovada na íntegra pelo Congresso, vai confirmar também o voto secreto e obrigatório para tais autarquias:

"Conforme a proposta, o voto será obrigatório, salvo impossibilidade de comparecimento justificada ou legislação específica da categoria que estabeleça o voto facultativo. Ainda de acordo com o texto, os mandatos iniciados antes da vigência da nova lei deverão ser cumpridos em conformidade com a legislação em vigor à época da posse. Caberá aos conselhos federais resolver os casos omissos na futura norma. Braga argumenta que a eleição direita é a forma mais democrática de composição das entidades profissionais. Ele lembra que muitas das leis de criação dos conselhos, editadas durante o regime militar, preveem a via indireta de escolha, o que vai de encontro ao processo de transparência das instituições ocorrido nas últimas décadas. Segundo o parlamentar, atualmente, os procedimentos predominantes na seleção dos conselheiros são: nos conselhos federais, eleição indireta por delegados eleitorais; nos conselhos regionais, eleição direta pelos profissionais inscritos."

Apoio plenamente a ideia das eleições diretas, o que encontra forte respaldo entre os advogados brasileiros. Aliás, é uma antiga reivindicação dos profissionais do Direito que os membros da diretoria da OAB nacional (presidente, vice-presidente, secretário-geral, secretário adjunto e tesoureiro) não sejam mais escolhidos indiretamente pelos 81 conselheiros federais. Não dá para entender por que uma entidade que tanto lutou contra a ditadura militar no passado mantém até hoje, em parte, um sistema de eleições indiretas.

Recordo muito bem que, nos meus tempos de estudante, sempre fiquei indignado com o fato e não haver eleições diretas para a UNE e para a Ubes. Até mesmo nas entidades municipais de secundaristas os seus representantes são escolhidos indiretamente por meio de delegados das instituições de ensino, o que limita a participação dos alunos aos seus respectivos grêmios escolares parecendo até com o regime cubano da família Castro.

Ora, jamais podemos nos esquecer das lutas da sociedade brasileira pela democratização do país culminado no movimento histórico das Diretas Já em 1984. Devemos sempre lembrar da atuação marcante de políticos como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola e Teotônio Vilela que se uniram a artistas e cantores como Chico Buarque, Fafá de Belém, Fernanda Montenegro, Alceu Valença e tantos outros para que hoje tenhamos o direito de escolher pelo nosso voto os representantes não só do Poder Legislativo como os do Executivo nas três esferas estatais. Foi uma batalha regada pelo sangue de uma geração que enfrentou os generais.

Entretanto, sou contra o voto obrigatório em qualquer circunstância. Isto porque o comparecimento do eleitor às urnas deve ser algo que decorra da compreensão de uma compreensão ética e nunca de uma imposição legal. Trata-se de cada qual reconhecer e assumir a sua parcela de responsabilidade na construção de um mundo mais justo. E aí a contribuição participativa da população precisa ser de maneira consciente e não pela via da coação jurídica. Tal raciocínio eu aplico tanto para a escolha dos membros dos conselhos profissionais quanto para as eleições do país nos cargos de vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente, além dos plebiscitos e referendos que são eventualmente realizados.

Fora isto, estou com o nobre parlamentar, concordando que, de fato, a eleição direta é a forma mais democrática de composição das entidades profissionais. Portanto, mesmo tardiamente, depois mais de 20 anos de promulgação da nossa Carta Magna de 1988, vale a pena mudarmos o acesso aos cargos de direção dos conselhos federais e regionais de cada profissão no país.

O projeto de lei do deputado Glauber tramita em caráter conclusivo e ainda será analisado por duas comissões da Câmara antes de ser apreciado em Plenário. Só espero que venha a ser votado antes do término da atual legislatura para que não venha a ser arquivado depois. Sugiro, portanto, a todos os advogados, médicos, engenheiros e demais profissionais liberais que acompanhem.