http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2011/10/adeus-vovo.html
Conforme escrevi nas duas últimas postagens neste blogue e nos comentários às mesmas, minha avó Marisa de Albuquerque não anda nada bem de saúde. Ela foi internada no hospital e o seu estado físico-emocional só vem piorando a cada dia.
A luta toda começou em 08/04/2010, quando vovó caiu e quebrou o fêmur, tendo sido internada no Hospital do Andaraí. Lá ela ficou por um bom tempo, submeteu-se a cirurgia, foi precocemente liberada pelos médicos e retornou para casa sem jamais ter se recuperado totalmente.
http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2010/04/tornando-escrever-e-comentarios-sobre-o.html
Graças a umas sessões de fisioterapia, ela melhorou por uns tempos, chegando a caminhar apoiada num andador e transportada na cadeira de rodas para locais mais distantes. Porém, de uns meses pra cá, sua saúde foi declinando aceleradamente. Em meados de dezembro de 2011, quando vim morar aqui no Rio de Janeiro, senti que ela já se encontrava bem caidinha e a cada semana piorava, como pude constatar sempre que fazia minhas visitas na casa de minha mãe.
Não deixamos de levá-la ao seu médico homeopata, mas de nada adiantou. No mês de fevereiro e começo de março, ficamos espantados com uma piora que a cada dia foi se apresentando até o ponto de minha mãe já não conseguir mais alimentá-la dentro de casa e ninguém mais poder lhe dar banho. Em 04/03/2012, data do meu aniversário de casamento com Núbia, vovó já não estava nem mais saindo da cama. Tentamos sentá-la para que comesse um pedaço do bolo de chocolate, porém, ela mal conseguia ingerir o alimento. Foi dificílimo fazer com que ela sentasse naquele sofrido momento.
http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2012/03/minha-nova-colaboradora-no-blogue.html
Foi aí que eu e minha mãe decidimos interná-la num hospital. Como não foi possível conseguir vaga no Instituto Municipal Geriatria e Gerontologia Miguel Pedro, um hospital especializado em idosos ao lado do Pedro Ernesto, em Vila Isabel, não restou outra alternativa senão acionarmos o SAMU em 05/03. Ligamos para o 192 e vovó foi levada pra Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da Tijuca, perto da Praça Sans Peña. Ali ela ficou de dieta zero tomando soro na veia enquanto aguardava vaga num hospital da rede pública para receber a indispensável hemotransfusão. Além desta desculpa sobre carência de vagas, a UPA alegava falta de disponibilidade de ambulância.
http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2012/03/vulnerabilidade-dos-pacientes.html
Assim passamos a semana anterior vivendo debaixo desta expectativa até que resolvi ingressar com uma ação na Justiça afim de que vovó fosse transferida para algum hospital adequado. Peguei um laudo médico mais os documentos necessários e fui até o atendimento da Defensoria Pública no plantão judiciário noturno de 09/03 (noite de sexta-feira), iniciando o Shabat na luta pelo direito à vida dela. E, dentro de pouco mais de uma hora, o magistrado já havia concedido a liminar assim determinando:
“(...) defiro a antecipação dos efeitos da tutela pleiteada para DETERMINAR aos réus que PROMOVAM A IMEDIATA REMOÇÃO da parte autora em UTI móvel avançada, para internação em Hospital com Suporte para Serviço de Hemotransfusão em um dos Hospitais da Rede Pública Municipal ou Estadual, adequado para a sua recuperação.. Inexistindo vagas na rede pública de saúde DETERMINO que a parte autora seja internada em qualquer hospital da rede privada, arcando os réus com todos os custos do tratamento, bem como cirurgias, exames e outros procedimentos necessários, sob pena de multa diária no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais). Intime-se à Central de Vagas. Após, à livre distribuição. Rio de Janeiro, 09 de março de 2012. - 20:00 h.” (decisão interlocutória proferida pelo MM. Juiz de Direito Dr. GUSTAVO HENRIQUE NASCIMENTO SILVA nos autos do processo tombado sob n.º 0076799-62.2012.8.19.0001)
No sábado, durante o horário de visita das 15 horas, na UPA, levei um grande susto. Ao entrar na emergência, o leito onde vovó ficava estava vazio. Procurei saber o que tinha acontecido e a assistente social informou-me que ela havia sido levada para o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, no distante bairro de Acari. Então, imediatamente peguei o metrô e fui até lá a sua procura, conseguindo ingressar na unidade de saúde somente após autorização da assistente social para aquele dia. Na ocasião, constatei ainda que seus dados nem tinham sido trazidos durante a remoção da UPA pra lá.
Desde sábado (10/03) até ontem (14), eu a visitei no leito “B” da enfermaria 529 do referido hospital e foram muitas as dores de cabeça por causa dos absurdos procedimentos impostos pela direção hospitalar quanto ao horário de ingresso do acompanhante, restrição de visitas na internação da clínica médica a apenas três vezes na semana, demora para conseguir novo contato com o serviço social e recusa do diretor em me atender pessoalmente quando resolvi reclamar das dificuldades no dia 12. Ainda assim, consegui que a assistente social flexibilizasse minha entrada como acompanhante fora dos dois horários estabelecidos a partir do fim da tarde desta última segunda.
Houve momentos neste conflito em que, durante a briga, saí até do foco que é zelar pela saúde de minha avó. Confesso que, por razões internas e externas, não foi nada fácil cumprir o meu propósito de ficar ao seu lado. Fiz daquela oportunidade de acompanhamento visitas diárias de algumas horas para ao menos estar com ela por um tempinho no hospital e me informar com os médicos acerca de seu estado de saúde. Só que já não era mais possível conversar normalmente com vovó, restando-me a angústia de olhar pra uma pessoa gemendo de dor na minha frente sem nada poder fazer.
Desde o último dia de minha avó em casa, ela dormia a maior parte do tempo e quase não respondia às conversas. Se antes suas queixas e cansativas perguntas aborreciam os ocupantes da sua própria casa (exceto o bisneto), eis que, a partir daí, qualquer palavra que saísse de sua boca foi se tornando desejada. É que, no começo do mês parece ter caído a ficha de que agora estavam perdendo a matriarca da família.
Lembro que passei por situação parecida e muito mais dolorosa com o meu avô paterno, falecido há quase sete anos. Em meados de 2000, ele se tornou inconsciente, com confusão mental e perda de memória. Mais lentamente do que minha avó materna, ele foi entrando num estado vegetativo irreversível até ficar todo entubado e inchado no Hospital Militar de Juiz de Fora (MG). E esta foi minha última imagem dele até uns dois ou três dias antes de sua partida em 30/05/2005.
A imagem que tive ontem de minha avó, ao deixar a enfermaria, não foi muito diferente. Ela estava com uma invasiva sonda nasogástrica para drenar uma hemorragia no aparelho digestivo e outra sonda por causa da urina. Além do quadro de pneumonia e anemia profunda, ela ainda está com constipação intestinal, sendo desaconselhável diagnosticá-la através de exames como endoscopia ou colonoscopia porque sua debilidade física não permite suportar nem a anestesia. E ainda que se descubra um tumor qualquer no intestino ou no estômago, operá-la também não dá. Logo, o médico não pôde me dar boas esperanças. O que o hospital vai fazer é continuar monitorando-a e procurando manter sua vida por escassas e preciosas bolsas de sangue.
Ao assistir minha avó minguando diariamente, como não me identificar com a cruz de Cristo e que também é o sofrimento de todos nós? E também como não me ver na pessoa de cada discípulo que abandonou o Mestre quando ele foi preso?
Quando pessoas entram numa fase terminal de vida, torna-se muito comum os próprios parentes evitarem fazer visitas. Principalmente nos CTIs. É como se ninguém desejasse se confrontar com a morte, com a mais nua realidade realidade de todo o planeta, o momento do nosso encontro unilateralmente marcado sem que saibamos qual é a data agendada.
Mas como iremos julgar as pessoas por não conseguirem ficar presentes nos momentos finais de um paciente se o próprio Jesus perdoou seus discípulos por se ausentarem quando ele foi preso?
A bem da verdade, todos somos traidores do nosso próximo. Não é preciso ser um Judas e nem negar confessionalmente a exemplo de Pedro. Homens como o apóstolo João, personagem dos evangelhos que teria seguido Jesus até à cruz, também cometem suas fraquezas. Segundo Marcos, João foi um dos três que não aguentaram e dormiram durante a agonizante oração no Getsêmani (Mc 14.33). E, ainda que o discípulo amado tivesse permanecido ao pé da cruz com algumas mulheres, conta o quarto evangelho que ele levou Maria embora do Gólgata para casa (Jo 19.27) .
Suponho que os momentos finais de Jesus teriam sido bem solitários, sem João e sem as discípulas por perto, mas tão somente com os sádicos soldados romanos que tentaram prolongar o seu sofrimento dando-lhe vinagre para beber numa esponja ao invés de água. E, igualmente, as situações são repetidas hoje nos CTIs quando pacientes entubados e com dieta zero anseiam molhar a boca seca com água enquanto têm suas horas prolongadas pelo soro e pela medicação na veia, carregando uma cruz não poucas vezes bem mais pesada do que aquela carregada pelo Salvador.
Como um segundo parto, todos um dia iremos nos confrontar com a morte, ultrapassando a fronteira do mundo conhecido. Por mais que a recusemos (e acho que nem devemos desejá-la), é necessário admiti-la e até mesmo fazermos uns planejamentos acerca desta ocasião pensando nos outros. Principalmente se a encararmos como um fenômeno bem natural e integrante do ciclo da existência de todos os seres, afim de cedermos espaço a uma geração que nos sucederá no tempo.
Por não acreditar mais no inferno e nem num céu literal, imagino a morte mesmo como um descanso. Para um paciente terminal que está sofrendo com fortes dores no corpo e na mente, inconformado com o seu estado de saúde, eis que o momento oportuno deve chegar como uma doce paz, incomparável com qualquer sedativo do hospital. Como se, repentinamente, a pessoa descobrisse já não sentir mais nada de dor e que, como se lê nas palavras de Jesus, está tudo “consumado”.
Não quero concluir este artigo desejando que a morte venha depressa pra minha avó. Desejo a sua cura e completa recuperação. E quero que seja feita a vontade de Deus em sua vida, estando em paz com o Eterno sobre todos estes acontecimentos por mais dolorosos que estejam sendo pra ela e também pra família.
Bendito seja Deus! E muito obrigado, Senhor, pela vida que nos dá.
OBS: A foto acima, na qual constam minha avó na cadeira de rodas junto com minha irmã Marina, foi tirada durante o amigo oculto do Natal de 2011.


