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quinta-feira, 15 de março de 2012

Diante da cruz

Tenho identificado-me bastante com a cruz nestes últimos dias. Não por causa deste período de Quaresma, mas sim pelo momento que estou vivendo em minha vida, presenciando o sofrimento de minha avó materna, poucos meses após perder a mãe do papai.

http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2011/10/adeus-vovo.html

Conforme escrevi nas duas últimas postagens neste blogue e nos comentários às mesmas, minha avó Marisa de Albuquerque não anda nada bem de saúde. Ela foi internada no hospital e o seu estado físico-emocional só vem piorando a cada dia.

A luta toda começou em 08/04/2010, quando vovó caiu e quebrou o fêmur, tendo sido internada no Hospital do Andaraí. Lá ela ficou por um bom tempo, submeteu-se a cirurgia, foi precocemente liberada pelos médicos e retornou para casa sem jamais ter se recuperado totalmente.

http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2010/04/tornando-escrever-e-comentarios-sobre-o.html

Graças a umas sessões de fisioterapia, ela melhorou por uns tempos, chegando a caminhar apoiada num andador e transportada na cadeira de rodas para locais mais distantes. Porém, de uns meses pra cá, sua saúde foi declinando aceleradamente. Em meados de dezembro de 2011, quando vim morar aqui no Rio de Janeiro, senti que ela já se encontrava bem caidinha e a cada semana piorava, como pude constatar sempre que fazia minhas visitas na casa de minha mãe.

Não deixamos de levá-la ao seu médico homeopata, mas de nada adiantou. No mês de fevereiro e começo de março, ficamos espantados com uma piora que a cada dia foi se apresentando até o ponto de minha mãe já não conseguir mais alimentá-la dentro de casa e ninguém mais poder lhe dar banho. Em 04/03/2012, data do meu aniversário de casamento com Núbia, vovó já não estava nem mais saindo da cama. Tentamos sentá-la para que comesse um pedaço do bolo de chocolate, porém, ela mal conseguia ingerir o alimento. Foi dificílimo fazer com que ela sentasse naquele sofrido momento.

http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2012/03/minha-nova-colaboradora-no-blogue.html

Foi aí que eu e minha mãe decidimos interná-la num hospital. Como não foi possível conseguir vaga no Instituto Municipal Geriatria e Gerontologia Miguel Pedro, um hospital especializado em idosos ao lado do Pedro Ernesto, em Vila Isabel, não restou outra alternativa senão acionarmos o SAMU em 05/03. Ligamos para o 192 e vovó foi levada pra Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da Tijuca, perto da Praça Sans Peña. Ali ela ficou de dieta zero tomando soro na veia enquanto aguardava vaga num hospital da rede pública para receber a indispensável hemotransfusão. Além desta desculpa sobre carência de vagas, a UPA alegava falta de disponibilidade de ambulância.

http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2012/03/vulnerabilidade-dos-pacientes.html

Assim passamos a semana anterior vivendo debaixo desta expectativa até que resolvi ingressar com uma ação na Justiça afim de que vovó fosse transferida para algum hospital adequado. Peguei um laudo médico mais os documentos necessários e fui até o atendimento da Defensoria Pública no plantão judiciário noturno de 09/03 (noite de sexta-feira), iniciando o Shabat na luta pelo direito à vida dela. E, dentro de pouco mais de uma hora, o magistrado já havia concedido a liminar assim determinando:

“(...) defiro a antecipação dos efeitos da tutela pleiteada para DETERMINAR aos réus que PROMOVAM A IMEDIATA REMOÇÃO da parte autora em UTI móvel avançada, para internação em Hospital com Suporte para Serviço de Hemotransfusão em um dos Hospitais da Rede Pública Municipal ou Estadual, adequado para a sua recuperação.. Inexistindo vagas na rede pública de saúde DETERMINO que a parte autora seja internada em qualquer hospital da rede privada, arcando os réus com todos os custos do tratamento, bem como cirurgias, exames e outros procedimentos necessários, sob pena de multa diária no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais). Intime-se à Central de Vagas. Após, à livre distribuição. Rio de Janeiro, 09 de março de 2012. - 20:00 h.” (decisão interlocutória proferida pelo MM. Juiz de Direito Dr. GUSTAVO HENRIQUE NASCIMENTO SILVA nos autos do processo tombado sob n.º 0076799-62.2012.8.19.0001)

No sábado, durante o horário de visita das 15 horas, na UPA, levei um grande susto. Ao entrar na emergência, o leito onde vovó ficava estava vazio. Procurei saber o que tinha acontecido e a assistente social informou-me que ela havia sido levada para o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, no distante bairro de Acari. Então, imediatamente peguei o metrô e fui até lá a sua procura, conseguindo ingressar na unidade de saúde somente após autorização da assistente social para aquele dia. Na ocasião, constatei ainda que seus dados nem tinham sido trazidos durante a remoção da UPA pra lá.

Desde sábado (10/03) até ontem (14), eu a visitei no leito “B” da enfermaria 529 do referido hospital e foram muitas as dores de cabeça por causa dos absurdos procedimentos impostos pela direção hospitalar quanto ao horário de ingresso do acompanhante, restrição de visitas na internação da clínica médica a apenas três vezes na semana, demora para conseguir novo contato com o serviço social e recusa do diretor em me atender pessoalmente quando resolvi reclamar das dificuldades no dia 12. Ainda assim, consegui que a assistente social flexibilizasse minha entrada como acompanhante fora dos dois horários estabelecidos a partir do fim da tarde desta última segunda.

Houve momentos neste conflito em que, durante a briga, saí até do foco que é zelar pela saúde de minha avó. Confesso que, por razões internas e externas, não foi nada fácil cumprir o meu propósito de ficar ao seu lado. Fiz daquela oportunidade de acompanhamento visitas diárias de algumas horas para ao menos estar com ela por um tempinho no hospital e me informar com os médicos acerca de seu estado de saúde. Só que já não era mais possível conversar normalmente com vovó, restando-me a angústia de olhar pra uma pessoa gemendo de dor na minha frente sem nada poder fazer.

Desde o último dia de minha avó em casa, ela dormia a maior parte do tempo e quase não respondia às conversas. Se antes suas queixas e cansativas perguntas aborreciam os ocupantes da sua própria casa (exceto o bisneto), eis que, a partir daí, qualquer palavra que saísse de sua boca foi se tornando desejada. É que, no começo do mês parece ter caído a ficha de que agora estavam perdendo a matriarca da família.

Lembro que passei por situação parecida e muito mais dolorosa com o meu avô paterno, falecido há quase sete anos. Em meados de 2000, ele se tornou inconsciente, com confusão mental e perda de memória. Mais lentamente do que minha avó materna, ele foi entrando num estado vegetativo irreversível até ficar todo entubado e inchado no Hospital Militar de Juiz de Fora (MG). E esta foi minha última imagem dele até uns dois ou três dias antes de sua partida em 30/05/2005.

A imagem que tive ontem de minha avó, ao deixar a enfermaria, não foi muito diferente. Ela estava com uma invasiva sonda nasogástrica para drenar uma hemorragia no aparelho digestivo e outra sonda por causa da urina. Além do quadro de pneumonia e anemia profunda, ela ainda está com constipação intestinal, sendo desaconselhável diagnosticá-la através de exames como endoscopia ou colonoscopia porque sua debilidade física não permite suportar nem a anestesia. E ainda que se descubra um tumor qualquer no intestino ou no estômago, operá-la também não dá. Logo, o médico não pôde me dar boas esperanças. O que o hospital vai fazer é continuar monitorando-a e procurando manter sua vida por escassas e preciosas bolsas de sangue.

Ao assistir minha avó minguando diariamente, como não me identificar com a cruz de Cristo e que também é o sofrimento de todos nós? E também como não me ver na pessoa de cada discípulo que abandonou o Mestre quando ele foi preso?

Quando pessoas entram numa fase terminal de vida, torna-se muito comum os próprios parentes evitarem fazer visitas. Principalmente nos CTIs. É como se ninguém desejasse se confrontar com a morte, com a mais nua realidade realidade de todo o planeta, o momento do nosso encontro unilateralmente marcado sem que saibamos qual é a data agendada.

Mas como iremos julgar as pessoas por não conseguirem ficar presentes nos momentos finais de um paciente se o próprio Jesus perdoou seus discípulos por se ausentarem quando ele foi preso?

A bem da verdade, todos somos traidores do nosso próximo. Não é preciso ser um Judas e nem negar confessionalmente a exemplo de Pedro. Homens como o apóstolo João, personagem dos evangelhos que teria seguido Jesus até à cruz, também cometem suas fraquezas. Segundo Marcos, João foi um dos três que não aguentaram e dormiram durante a agonizante oração no Getsêmani (Mc 14.33). E, ainda que o discípulo amado tivesse permanecido ao pé da cruz com algumas mulheres, conta o quarto evangelho que ele levou Maria embora do Gólgata para casa (Jo 19.27) .

Suponho que os momentos finais de Jesus teriam sido bem solitários, sem João e sem as discípulas por perto, mas tão somente com os sádicos soldados romanos que tentaram prolongar o seu sofrimento dando-lhe vinagre para beber numa esponja ao invés de água. E, igualmente, as situações são repetidas hoje nos CTIs quando pacientes entubados e com dieta zero anseiam molhar a boca seca com água enquanto têm suas horas prolongadas pelo soro e pela medicação na veia, carregando uma cruz não poucas vezes bem mais pesada do que aquela carregada pelo Salvador.

Como um segundo parto, todos um dia iremos nos confrontar com a morte, ultrapassando a fronteira do mundo conhecido. Por mais que a recusemos (e acho que nem devemos desejá-la), é necessário admiti-la e até mesmo fazermos uns planejamentos acerca desta ocasião pensando nos outros. Principalmente se a encararmos como um fenômeno bem natural e integrante do ciclo da existência de todos os seres, afim de cedermos espaço a uma geração que nos sucederá no tempo.

Por não acreditar mais no inferno e nem num céu literal, imagino a morte mesmo como um descanso. Para um paciente terminal que está sofrendo com fortes dores no corpo e na mente, inconformado com o seu estado de saúde, eis que o momento oportuno deve chegar como uma doce paz, incomparável com qualquer sedativo do hospital. Como se, repentinamente, a pessoa descobrisse já não sentir mais nada de dor e que, como se lê nas palavras de Jesus, está tudo “consumado”.

Não quero concluir este artigo desejando que a morte venha depressa pra minha avó. Desejo a sua cura e completa recuperação. E quero que seja feita a vontade de Deus em sua vida, estando em paz com o Eterno sobre todos estes acontecimentos por mais dolorosos que estejam sendo pra ela e também pra família.

Bendito seja Deus! E muito obrigado, Senhor, pela vida que nos dá.


OBS: A foto acima, na qual constam minha avó na cadeira de rodas junto com minha irmã Marina, foi tirada durante o amigo oculto do Natal de 2011.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O que você entende por salvação?

Olá, amigos! Gostaria de compartilhar uns pensamentos meus aqui.

Acredito em salvação num amplo e talvez num "duplo" sentido. Tanto no "presente" quanto em relação ao "futuro", se é que o tempo de fato existe.

Somos ensinados por Jesus a sermos salvos das doenças, das emoções negativas e de todo comportamento vil, assim como somos salvos da morte física através da percepção da vida que é eterna. E, sob certo aspecto, somos salvos das nossas ficções também.

Por outro lado, esta salvação se dá tanto individualmente quanto no aspecto coletivo. Pois eu entendo que o Reino de Deus não seria numa segunda Terra e muito menos num novo Universo visível, mas sim neste mesmo planeta transformado. Ou seja, imagino a humanidade com o seu modo de pensar modificado, aprendendo a lidar melhor com o seu lado mau.

Pra mim, um fim de mundo tal como ocorre nas sensacionalistas interpretações do Apocalipse, a exemplo do livro "Deixados para trás", com arrebatamentos de pessoas, vinda do anticristo, marcação das mãos e testas dos incrédulos com o 666 e perseguição aos crentes que restarem por um governo mundial até que Jesus volte sobre as nuvens montado num cavalo branco parecem mais paranoias humanas integrantes de uma absurda teologia do medo e que ajuda a movimentar uma rentável indústria literária nos meios eclesiástico e secular.

Cada vez mais tenho percebido que a manifestação do Reino de Deus se dará imperceptivelmente aos olhos humanos até que o mundo realmente compreenda o amor ensinado pelo Messias que eu creio ser Jesus e também todos os que alcançam a consciência messiânica. E, quando houver um número bem representativo de pessoas praticando o amor, nossa atmosfera espiritual vai mudar, o que não significa perfeição total. Talvez, neste tempo, o homem estará respeitando melhor a natureza, o seu próximo e compreendendo que a sua sobrevivência e bem estar dependem também da felicidade de todos, bem como de se liberar graciosamente o perdão.

Todavia, o Reino não se restringe à fisicalidade ou à chegada desta era de amor e paz. Pois, como fica o destino das pessoas "mortas" e que continuarão a "morrer"? É aí que entra a inteligência espiritual em que aprendemos a lidar com a nossa inevitável dessoma e com a ausência dos entes queridos, coisa que o materialismo é incapaz de proporcionar.

É possível que, no futuro glorioso da humanidade, a concepção de morte (não a desencarnação) deixe de existir e ninguém fique mais excessivamente preocupado com o amanhã. Porém, quem deixar o mundo físico, continuará amparado por Deus e participando da comunidade dos justos, conforme acredito que sempre ocorreu. E daí a importância da mensagem do Evangelho ser aplicada aos que estão nesta vida, para sermos salvos do presente século e da concepção equivocada sobre a morte, não de uma fictícia ameaça de castigo para quem não concordar com o pacote de crenças oferecido pelas empresas religiosas que se autodenominam "igrejas".

Paz!


OBS: A imagem acima trata-se de uma obra do pintor alemão Hans Memling, que viveu no século XV, sendo bem de domínio público e foi extraída da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:MemlingJudgmentCenter-crop.jpg

sábado, 25 de dezembro de 2010

E Ele veio para morrer...


“Depois disto, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, ainda que ocultamente pelo receio que tinha dos judeus, rogou a Pilatos lhe permitisse tirar o corpo de Jesus. Pilatos lho permitiu. Então, foi José de Arimatéia e retirou o corpo de Jesus. E também Nicodemos, aquele que anteriormente viera ter com Jesus à noite, foi, levando cerca de cem libras de um composto de mirra e aloés. Tomaram, pois, o copo de Jesus e o envolveram em lençóis com aromas, como é de uso entre os judeus na preparação para o sepulcro. No lugar onde Jesus fora crucificado, havia um jardim, e neste, um sepulcro novo, no qual ninguém tinha sido ainda posto. Ali, pois, por causa da preparação dos judeus e por estar perto o túmulo, depositaram o corpo de Jesus.” (Evangelho de João 19.38-42; ARA)


Não me leve a mal se hoje, no dia de Natal, resolvo escrever justamente sobre o sepultamento de Jesus. Porém, não vejo muito sentido em falar sobre o seu nascimento sem nenhum tipo de conexão com sua obra redentora que, inevitavelmente, passa pela morte e pela ressurreição do Messias. Isto porque o seu nascimento ocorreu com um propósito bem grandioso que já havia sido profetizado há muitos séculos antes de sua chegada. Aliás, este recado foi muito bem expresso por Simeão, na passagem de Lucas 2.25-35, no dia em que Jesus, ainda menino, foi apresentado no Templo judaico por seus pais em cumprimento da lei mosaica. Aquele homem já estava informado pelo Espírito de Deus acerca da missão que aguardava a criança vista por seus olhos.

Muitas das vezes, quando tudo caminha bem, usamos os vocábulos vida e morte sem nenhuma significação, jogando ao vento palavras vazias. Porém, quando vamos a um sepultamento, temos a consciência do que representa a morte, isto é, a separação de alguém cujo rosto nunca mais veremos nesta vida. Ali, num triste velório, temos um encontro não com o falecido, mas com nós mesmos, de modo que extraordinariamente somos capazes de desenterrar emoções até então esquecidas dentro dos nossos corações, declarando sentimentos que, talvez, jamais foram ditos antes para a pessoa que se foi.

Não é por menos que algumas famílias são capazes de gastar fortunas para enterrar seus entes, seja para preservar o status do clã perante a sociedade, ou tentar lidar com o sentimento de culpa, na busca de substituir os gestos simples que foram negados em vida por uma extravagância que já não fará mais nenhum sentido para o morto. Em outras culturas diferentes da nossa, as lamentações funerais podem durar muito mais tempo do que no Ocidente e se tornam um evento social com a prática de inúmeros rituais (é milenar e muito comum a prática de raspar a cabeça por causa de um morto em outros lugares).

De fato, as expressões de lamento na ocasião de um enterro são importantíssimas para que possamos nos recobrar do trauma da perda e renovar as esperanças. A Bíblia diz que, na ocasião da morte do patriarca Jacó, o filho José lançou-se sobre o pescoço do pai e chorou sobre o seu corpo, beijando-o (Gênesis 50.1). E diz também o texto que o período de luto durou setenta dias (verso 3).

Ao morrer, Jesus despertou os sentimentos de dois discípulos que lhe seguiam às escondidas: José de Arimateia e Nicodemos (o mesmo do capítulo três de João que havia se encontrado com o Senhor na calada da noite). Ambos eram pessoas de posição na sociedade israelita daquele tempo e o Evangelho de Marcos refere-se a José como um ilustre membro do Sinédrio (o conselho religioso dos judeus). Porém, quando o Mestre tornou-se um cadáver, nenhum deles se incomodou com a ocasião festiva da Páscoa judaica que exigia pureza cerimonial dos participantes, sendo possível que eles próprios tivessem envolvido o corpo de Jesus com os lençóis de linho quando o retiraram da cruz e o puseram no túmulo dentro da rocha.

Antecipadamente, o profeta Simeão, descrito no Evangelho de Lucas, bem consciente do significado da vinda do Messias, foi capaz de reconhecer sua morte e sua vida através da atitude de grata adoração, aceitando também a própria morte:


“Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo,
segundo a tua palavra;
porque os meus olhos já viram a tua salvação,
a qual preparaste diante de todos os povos:
Luz para revelação aos gentios,
e para a glória do teu povo de Israel.”
(Lc 2.29-32; ARA)


Certamente aquela foi uma autêntica maneira de se comemorar o Natal! Contemplando o Messias ainda bebê, o idoso Simeão estava compreendendo a amplitude do plano de Deus e o cumprimento de promessas feitas há séculos para o seu povo pelos antigos profetas. Naquele momento, ele pôde enxergar além de seus próprios dias e tocar na eternidade. Ele poderia morrer em breve, mas o tão desejado reino de Davi seria restabelecido pelo novo ungido que seus olhos tinham acabado de ver.

Contrariando as expectativas do povo judeu do primeiro século, Jesus não estabeleceu o reino messiânico de imediato com as aparências físicas que estavam no imaginário das pessoas. A obra do Messias mostrou-se muito mais complexa, tendo como uma primeira etapa a conquista dos corações dos homens pela pregação do Evangelho. Assim, com a morte de Jesus e seu respectivo sepultamento, foi-se a esperança de muitos quanto ao homem que viria libertar Israel do domínio estrangeiro. É o que disseram os discípulos no caminho de Emaús: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (Lc 24.21; ARA).

Sem que os dois discípulos percebessem, Jesus estava caminhando ao lado deles e explicou que o Messias precisaria padecer antes de entrar na sua glória, pois ambos estavam com os olhos do coração ainda fechados para a obra feita por Deus, ignorando a ressurreição.

Mas por que o Messias precisava morrer?

Quando criança eu não me conformava com a morte do Senhor. Ficava triste quando lia os textos dos Evangelhos e chagava na parte em que aquela pessoa maravilhosa que foi Jesus era retirada do convívio humano. Alegrava-me brevemente com a sua ressurreição, mas a seguir sentia novamente a dor da perda quando, passados os quarenta dias, Jesus deixava os discípulos e ia para os céus. Mesmo a promessa de Mateus 28.20b, de que Ele estará sempre conosco até o fim do mundo, era incapaz de me consolar porque eu sentia necessidade de sua presença física.

Por outro lado, hoje sei que proveito algum haveria para o nosso crescimento espiritual se Jesus tivesse usado seus super poderes para neutralizar os soldados que vieram prendê-lo e, através de algum tipo de mágica, vencido os romanos tornando-se o rei de Israel de onde passaria a governar todo o mundo. Se tivesse seguido este atalho, que lhe fora proposto pelo diabo durante a tentação, faltaria aprendizado aos seus discípulos e aos demais homens que continuariam cometendo as mesmas injustiças, as mesmas que foram praticadas nos tempos de Davi e pelos monarcas posteriores.

Acontece que não é neste mundo onde encontraremos uma felicidade perfeita e Jesus mostrou para todos nós que o caminho da eternidade passa pela cruz. Com sua morte, ele sofreu toda a punição referente aos nossos pecados e mostrou que o sentido da vida está na prática do amor ao próximo.

Ao ressuscitar, Jesus apresentou-se com um corpo transformado que não temos condições de descrever. Novamente o Messias podia ser tocado, mas aparecia e desaparecia misteriosamente na frente de todos. E, após a ascensão, houve ocasiões em que outros tiveram o privilégio de vê-lo novamente, seja por sonhos ou visões, como foi com o apóstolo Paulo (At 9.3-6; 1Co 15.8) e com o João do Apocalipse (Ap 1.17-18), além de vários testemunhos de aparições atuais que ouvimos até nos nossos dias sem que se dê tanta credibilidade.

Sem dúvida que a fé não é gerada nos corações por causa de uma aparição sobrenatural de Jesus. É por quem Ele é (pelo seu caráter) que o Messias quer ser reconhecido pelos homens. E, nos nossos dias, não vejo outra maneira de apresentarmos o Messias senão pela presença de seu amor em nosso comportamento, ou do contrário a nossa evangelização não passará de mais uma lenda no meio de uma geração cética que se baseia nos pareceres da ciência.

Os cristãos de hoje precisam compreender que o caminho é a cruz! Pois, assim como Jesus veio parar morrer, nós também aprender sobre o que é dar a vida. Temos que começar a amar o nosso próximo, principalmente os que estão perto como as pessoas da família, da nossa vizinhança e da nossa cidade. Também temos que morrer para os nossos desejos carnais egoístas. Afinal, se o grão de trigo não morrer, ele fica só. Porém, isto só pode ser compreendido pela fé ou do contrário não teremos estímulo para crucificar a nossa natureza carnal.

Que neste Natal a vida possa renascer em seu coração e o Espírito do Messias encha você com seu amor, sua alegria e sua doce paz.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Não perca a maior oportunidade da sua vida!

A multidão falou: "A Lei nos ensina que o Cristo permanecerá para sempre; como podes dizer: 'O Filho do homem precisa ser levantado'?" Disse-lhes então Jesus: "Por mais um pouco de tempo a luz estará entre vocês. Andem enquanto vocês têm a luz, para que as trevas não os surpreendam, pois aquele que anda nas trevas não sabe para onde está indo. Creiam na luz enquanto vocês a têm, para que se tornem filhos da luz". Terminando de falar, Jesus saiu e ocultou-se deles. (Evangelho segundo João 12.34-36; Nova Versão Internacional - NVI)


A passagem acima mostra Jesus discutindo com pessoas em Jerusalém em sua última semana. Nosso Senhor, dentro de alguns dias, iria ser "levantado" pelos romanos, isto é, crucificado. E, ao dizer que ele iria ser morto daquela maneira pelos gentios, suas palavras contrariaram as concepções ou expectativas que a maioria de seu povo tinha acerca da obra do Messias. Isto porque os judeus aguardavam ansiosamente por um descendente de Davi que, quando se manifestasse, restabeleceria de imediato a realeza soberana da nação como nos tempos antigos.

Ao advertir seus ouvintes, Jesus estava dizendo que os judeus deveriam crer nele antes que fosse tarde. Porém, como aquelas pessoas estavam com seus corações fechados e indispostas para crer, Jesus se ocultou delas. E, ao que tudo indica, aquela geração não soube aproveitar o tempo em que fora visitada por Deus na pessoa do Filho, manifestado no forma humana.

Mesmo que as advertências de Jesus tenham se dirigido a um público daquela época, não podemos nos esquecer que tais palavras também têm aplicação para os nossos dias.

A morte de Jesus na cruz reconciliou a humanidade com Deus. Quando o Senhor foi "levantado" pelos romanos, sendo Ele inocente de toda e qualquer acusação, seu sacrifício pôde trazer perdão para todos porque o nosso pecado foi punido na sua carne. Por isso, todo aquele que crê em Jesus tem a vida eterna.

Quem crê em Jesus não é julgado pelos seus pecados, mas quem não crê já está condenado (ver João (3.18-31,36), o que significa uma escatologia já realizada, isto é, permanecer debaixo da condenação imposta ao homem pela sua queda.

Erramos quando tentamos separar o mundo do presente do mundo do futuro, no sentido de conceber apenas uma ressurreição escatológica, esquecendo-nos que Jesus é a ressurreição e a vida de maneira que todo aquele que Nele crê já vive eternamente:


Disse-lhe Jesus: "O seu irmão vai ressuscitar". Marta respondeu: "Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia". Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim não morrerá eternamente. Você crê nisto?". Ela lhe respondeu: "Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo". (João 11.23-27; NVI)


Ora, na vida todos perdem grandes oportunidades. Seja a chance de fazer um bom negócio, conseguir um grande emprego, visitar belíssimos lugares ou de conhecer pessoas maravilhosas. Porém, a maior oportunidade que um homem pode ter em toda a sua existência é crer em Jesus, entregando sua vida para Ele.

Quando cremos em Jesus de todo o nosso coração, isto é, aceitando com obediência a sua Palavra, nascemos de novo e ressuscitamos espiritualmente. Mesmo que venhamos a enfrentar a morte física, esta não terá poder nenhum sobre nós porque a partir da nossa conversão passamos a gozar da vida eterna.

Peço a Deus que não percamos o tempo da nossa visitação. Ainda há "luz" e, se você está hoje ouvindo a Mensagem do Evangelho, é porque existe oportunidade para sua alma. Abrace-a. Não deixe que ela passe. Caminhe enquanto há luz!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Escolha a vida!

Pode-se dizer que abraçar a fé cristã é uma atitude bem simples, pois não exige grau de escolaridade, uma formação cultural específica ou elevado conhecimento bíblico. Porém, é algo que requer uma escolha bem radical – decidir deixar o pecado.

Na minha leitura matinal de hoje (estou estudando mais uma vez Atos dos Apóstolos), refleti sobre a infeliz escolha de Félix que, vencido pelo medo, recusou-se a aceitar Cristo:

Alguns dias depois, veio Félix com sua mulher Drusila, que era judia. Mandou chamar Paulo e ouviu-o falar sobre a fé no Cristo Jesus. Mas, como Paulo se pusesse a discorrer sobre a justiça, a continência e o julgamento futuro, Félix ficou amedrontado e interrompeu: “Por agora, retira-te. Quando tiver mais tempo, mandarei chamar-te”. (Atos 24.24-25; versão e tradução da Bíblia de Jerusalém).

Segundo o contexto da narrativa, Paulo estava preso em custódia no palácio de Herodes, na cidade de Cesareia, isto é, no Pretório, que, naqueles tempos, era utilizado como residência oficial do procurador romano. O apóstolo sofria a injusta acusação de ter profanado o templo, mas o governador recusava-se a julgar sua causa para colocá-lo em liberdade e o mantinha encarcerado com más intenções de obter ganhos financeiros (propinas) e vantagens políticas.

Marco Antonio Félix, nomeado pelo imperador Cláudio para ser procurador na província romana da Judeia, governou aquela complicada região por quase uma década, entre os anos de 52 e 59 no primeiro século. Foi casado ilegalmente com Drusila, a qual era uma linda mulher da influente família de Herodes, filha do rei Herodes Agripa I e ex-esposa do rei Aziz de Emesa, da Síria. A união com uma bela jovem da nobreza local certamente beneficiava a sua gestão, além de satisfazer seus desejos sexuais. Segundo o historiador romano Cornélio Tácito, Félix “ocupava a posição de um rei, enquanto tinha a mente de um escravo, saturada com crueldade e lascívia” (História 5.9)

Lendo atentamente o texto bíblico, parece-me que, por alguns instantes, Félix teve o desejo de ouvir Paulo pregar acerca de Jesus. Até então, o governador apenas conhecia o cristianismo como uma seita do judaísmo, mas faltava-lhe conhecer Cristo. Porém, quando o apóstolo expôs sobre “a justiça, a continência e o julgamento vindouro”, Félix deixou ser dominado pelo medo e a pregação foi por ele interrompida.

Ora, quantas pessoas um dia chegaram a assistir um culto numa igreja, ou escutaram pregações pelo rádio, mas, quando foram confrontadas com o pecado, resolveram logo se afastar para não se sentirem incomodadas!

Abraçar a fé cristã não significa mudar de religião como se estivéssemos trocando de time de futebol ou de um partido político. É preciso que também haja arrependimento, isto é, conversão das trevas para a luz.

Pode-se perceber que a atitude de Félix assemelhava-se com a de Herodes, o qual, vivendo uma relação adulterina com Herodias, esposa de seu irmão Felipe, após ter sido confrontado com as firmes pregações de João Batista, determinou a prisão do profeta e o seu posterior assassinato. Entretanto, os Evangelhos contam que Herodes teve um certo respeito temeroso por João e penso que ele até mesmo o admirasse:

Assim, Herodias o odiava e queria matá-lo. Mas não podia fazê-lo, porque Herodes temia João e o protegia, sabendo que ele era um homem justo e santo; e quando o ouvia, ficava perplexo. Mesmo assim gostava de ouvi-lo. (Marcos 6.19-20; Nova Versão Internacional - NVI)

Que infeliz escolha faz o homem quando recusa arrepender-se e aceitar a salvação de Cristo para continuar se alimentando das migalhas de prazeres oferecidos pelo pecado! Pessoas deixam de experimentar a vida no Reino de Deus porque preferem continuar com um relacionamento ilícito, um trabalho desonesto ou se apegando a posições sociais que de nada lhe adiantarão quando descerem às sepulturas e muito menos poderão acrescentar algum significado às nossas vidas.

Que fim levaram Félix e Drusila? E quais benefícios eles fizeram em favor da humanidade? Uma nota na “Bíblia da Mulher” que dei de presente para a minha esposa conta que o seu final foi trágico:

“A vida de Drusila foi vergonhosa e desperdiçada. Antes de completar 41 anos, teve uma morte horrível e violenta. Enquanto estava com o único filho, Agripa, em Pompéia, o Vesúvio entrou em erupção, sepultando debaixo de toneladas de lava incandescente as cidades de Pompéia e Herculano, assim como Drusila e seu filho.”

Contudo, ao lado dos equivocados exemplos de vida, encontro não só na Bíblia como na vida real pessoas que, corajosamente, resolveram deixar o pecado para andarem com Deus. Recordo-me de um homem que, após frequentar várias reuniões de um grupo de estudo bíblico, abriu o seu coração e compartilhou conosco que tinha um relacionamento duplo com duas mulheres. Uma era sua esposa e a outra a amante. Em seu coração, ele já não se sentia mais satisfeito em permanecer com aquela situação, mas temia que a verdade viesse à tona a ponto de destruir seu casamento. Então, após o ouvirmos, oramos por ele. Dias depois, ele abriu o jogo com a amante e decidiu ficar só com a esposa, desfrutando a cada dia a incomparável aventura de caminhar com Jesus.

A maior dificuldade de tomar a decisão certa está dentro de nós e creio ser este o único obstáculo que precisamos superar na nossa escolha diária de seguir a Cristo. No livro de Deuteronômio, Moisés transmite a orientação sobre optar por obedecer a Deus encorajando os israelitas com estas palavras:

“O que hoje lhes estou ordenando não é difícil fazer, nem está além do seu alcance. Não está lá em cima no céu, de modo que vocês tenham que perguntar: “Quem subirá ao céu para trazê-lo e proclamá-lo a nós a fim de que lhe obedeçamos?” Nem está além do mar, de modo que vocês tenham que perguntar: “Quem atravessará o mar para trazê-lo e, voltando, proclamá-lo a nós a fim de que lhe obedeçamos?” Nada disso! A palavra está bem próxima de vocês; está em sua boca e em seu coração; por isso poderão obedecê-la (…) “Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e seus filhos vivam,” (Dt 30.11-14,19; NVI)

Será que vale a pena continuar vivendo sob o domínio do pecado e separado de uma vida com Deus? Certamente que não!

Em sua última noite na terra, após ter ceado, Jesus disse aos seus discípulos: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6; ARA). Também no mesmo Evangelho, o autor nos fala a respeito de Jesus: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (João 1.4).

Mesmo que o homem tenha feito as mais erradas escolhas, ele tem a grande chance de voltar-se para Deus através da fé em Jesus, o qual morreu em nosso lugar, levando os nossos pecados. Quando foi pregado na cruz, Jesus cumpriu a nossa pena e morreu e nossa morte afim de que todo aquele que o aceitar possa restaurar o relacionamento com o Criador.

Que possamos a cada dia escolher a Vida e nos convertermos a todo instante, exercendo nossa fé em Jesus!