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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pedro e Cornélio: afinal quem evangelizou quem?

Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.” (Atos dos Apóstolos 10.34-35; ARA)


É curioso como que muitos dos que se autoproclamam evangelistas arrogam-se em querer converter as outras pessoas não seguidoras de suas doutrinas ou costumes religiosos.

Posso fazer essa crítica porque já fui um cara assim. Um tremendo “mala”! E sei muito bem o que significa ter esta pretensão, alguém achando-se o dono da verdade e da razão, como se fosse o proprietário das “chaves do reino dos céus”.

Na passagem bíblica que fala sobre Pedro e Cornélio (cap. 10 de Atos dos Apóstolos), encontramos um belo exemplo de que o anúncio das Boas Novas do Reino não são propriedade de nenhum homem, seita, grupo étnico ou povo exclusivo. O Evangelho é nada mais do que a pura revelação da mensagem de Deus à humanidade, indicando o Caminho rumo ao conhecimento da Verdade e à promoção da Paz, tratando-se de algo acessível a todos. Um conhecimento que qualquer um é capaz de produzir.

Deus sempre nos leva mais além do nosso cotidiano para que possamos romper com as nossas limitações pessoais. E o episódio de Pedro e Cornélio mostra que aquela comunidade dos discípulos de Jesus, em Jerusalém, precisava vencer alguns preconceitos, afastando o etnocentrismo judaico e, assim, entender qual a dimensão da obra de Deus que fora profetizada há muitos séculos pelos profetas de Israel.

Segundo o livro de Atos, nesta época, Pedro permanecia firme no contexto do seu dia a dia, visitando as comunidades dos irmãos, curando e até ressuscitando pessoas. Contudo, Pedro necessitava de uma outra experiência para ir mais além das suas limitações e, deste modo, cumprir o glorioso chamado de Deus em sua vida.

O texto diz que, enquanto Pedro estava na cidade portuária de Jope (atual Haifa), eis que, em Cesareia, sede do governo provincial na região da Palestina, também marítima, morava um alto oficial do Império Romano chamado Cornélio.

Embora fosse estrangeiro, Cornélio residia entre os judeus e tinha um comportamento íntegro diante de Deus juntamente com toda a sua família. Pois, ao invés de oprimir o povo em nome do dominador romano, ele preferia praticar a caridade e, frequentemente, orava a Deus. Porém, por ser estrangeiro, Cornélio só deveria ser respeitado pelos moradores locais em razão de sua alta posição como autoridade e das boas ações que praticava. Isto porque, naquela época, os estrangeiros eram vistos como invasores, sendo que havia uma histórica briga entre judeus e gregos.

Apesar de sofrer todo este preconceito, Cornélio teve uma experiência sobrenatural numa certa tarde quando viu um anjo. Este, ao lhe aparecer, mandou que Cornélio enviasse mensageiros até Jope onde estava Pedro e conduzisse o apóstolo para Cesareia (At 10.5-6). Temente a Deus, Cornélio dispôs-se a obedecer prontamente a ordem transmitida pelo mensageiro.

Ocorreu que, no dia seguinte, por volta do meio dia, quando os homens enviados por Cornélio estavam a caminho de Jope, Deus falou com Pedro através de uma visão. Nosso irmão vê descer do céu, num lençol, vários animais considerados pela Lei de Moisés como impuros para a alimentação e para o sacrifício. Pedro, então, ouviu uma voz com uma ordem expressa para que ele comesse a carne de vários bichos considerados dieteticamente impuros para a alimentação de acordo com a lei mosaica (Levítico 11). Porém, por três vezes, o apóstolo recusou-se a obedecer o que lhe estava sendo falado na visão, mesmo advertido para que não considerasse como coisa comum aquilo que Deus purificou.

Sem ainda entender o significado daquela experiência, eis que chegaram os homens enviados por Cornélio à casa onde Pedro estava hospedado, quando então o apóstolo recebeu uma direção do Espírito Santo para acompanhá-los (At 10.19-20). Pedro, desta vez, obedeceu à ordem de Deus e, no dia seguinte, partiu com aqueles homens (At 10.23).

Ora, Cornélio estava com o coração totalmente aberto para compreender a Palavra de Deus e convidou seus parentes e amigos para ouvirem o que Pedro teria para compartilhar. E, embora fosse ele um homem piedoso que, continuamente, orava a Deus, não sabemos se de fato Cornélio tinha a concepção sobre a existência de uma única divindade ou se deveria adorar somente a Deus, visto que dificilmente deveria recitar a confissão monoteísta do Shema (Deuteronômio 6.4). Por ignorância, ele chegou a se prostrar diante de Pedro a fim de adorá-lo, tão logo o nosso irmão chegou (At 10.5).

Entretanto, erros ingênuos como esses jamais seriam imputados por Deus aos homens, visto que Cornélio estava com o seu coração completamente aberto para ouvir o Evangelho, aguardando apenas que alguém lhe anunciasse uma mensagem que lhe acrescentaria bastante coisa pra a sua experiência de vida.

Quebrando um forte preconceito existentes entre os judeus comuns daquela época, na região da Palestina, Pedro entrou na casa de um estrangeiro e faz ali um breve discurso sobre Jesus, mas que foi suficiente para salvar a vida daquelas pessoas que estavam presentes e com os seus ouvidos atentos para qualquer ação de Deus, a ponto de todas elas receberem instantaneamente o dom do Espírito Santo como os primeiros discípulos no dia de Pentecostes (At 10.44-46, conferir com Atos 2).

Lendo os versos 36 a 43 do capítulo 10 de Atos, percebe-se que Pedro fez menção do ministério de Jesus ocorrido entre os judeus alguns anos antes, pois se tratava ainda de um fato ainda recente na memória do povo e, na certa, conhecido por Cornélio bem como pelos demais ouvintes (At 10.37-38). Prosseguindo, Pedro falou da morte de Jesus (At 10.39), sua ressurreição (At 10.40-41), da missão recebida para pregar ao povo (At 10.42) e do perdão dos pecados (At 10.43).

Sem que fosse necessário Pedro fazer alguma citação das Escrituras hebraicas, diz o texto que o Espírito Santo foi derramado sobre aqueles receptivos ouvintes enquanto o apóstolo ainda discursava. E, mesmo sem os receptores terem ainda experimentado o ritual do batismo em águas, começaram a falar em línguas e a glorificar a Deus, confirmando que, realmente, estavam experimentando a conversão.

Reparem que não foram necessárias muitas palavras (nem “apelos pastorais”, ida numa igreja evangélica, curso pra “novos convertidos” ou imposição de mãos) para que Cornélio e aquelas pessoas experimentassem Deus. Seus corações estavam verdadeiramente abertos na expectativa de compreenderem a Palavra de Deus. E, quando receberam o dom do Espírito Santo, estava mais do que confirmado que aqueles homens, mesmo estrangeiros, poderiam ter acesso ao sagrado da mesma maneira que os primeiros discípulos, Jesus ou os antigos profetas de Israel. E, inclusive, tinham também um a mensagem para evangelizar Pedro e a Igreja.

Acredito que, com isto, Deus estava quebrando todo e qualquer preconceito étnico ou racial que pudesse existir naquela época dentro da Igreja, a qual foi formada a princípio por judeus, considerados como guardiões de uma tradição milenar dada por Moisés. Até então, é possível que muitos pensassem que a salvação fosse apenas para os israelitas que aceitassem a Cristo (At 11.18), não visualizando ainda a extensão ilimitada do plano de Deus.

Pode-se dizer que Pedro experimentou um considerável crescimento na sua vida espiritual como apóstolo e pregador da Palavra de Deus. Uma experiência que, assim como as anteriores em sua vida, levou-o a romper com suas limitações pessoais, sendo conduzido pelo Espírito Santo para alcançar um grau superior de maturidade espiritual para aperfeiçoamento seu e da Igreja. Aliás, nesta altura de sua caminhada, Pedro já não era mais aquele homem inconstante descrito nos Evangelhos. Agora, além da coragem para enfrentar multidões e autoridades, Pedro estava se tornando mais compreensivo quanto aos propósitos de Deus para a humanidade.

Ora, esta história da Bíblia nos ensina que precisamos remover de nossas mentes o preconceito, seja ele qual for. Evangelizar é, antes de mais nada, um compartilhar de ideias e de experiências. Pois, quando comunicamos ao outro o nosso aprendizado de vida, não podemos ter ouvidos de mercador para os relatos das outras pessoas, pensando de maneira pretensiosa que só nós estamos anunciando as Boas Novas.

Para quebrar mais um paradigma ainda forte na Igreja do século 21, digo que muito nós podemos aprender com pessoas de outras religiões ou que não sigam a nenhum credo. Pois certamente que o budista, o taoísta, o hinduísta, o judeu e até o muçulmano dispõem de valiosos ensinos sapiençais provenientes de suas respectivas culturas e que nos acrescentarão bastante. Mesmo as religiões de origem mais tribal como as tradições afro e indígena muito presentes na sincrética umbanda, além do candomblé que é 100% de origem negra.

Quanto aos não religiosos, nós, os seguidores de Jesus, devemos igualmente estar atentos para dialogar com aqueles que nos trazem um discurso mais científico. Precisamos neste ponto abrir nossas mentes e percebermos que Deus também fala através dos físicos, médicos, historiadores, filósofos, sociólogos, filólogos, biólogos e até sexólogos, mesmo que estes pesquisadores não frequentem igrejas e uns até se declarem ateus. Pois, nestas horas, precisamos ter humildade para recebermos através deles orientações e esclarecimentos, considerando suas experiências de vida tão importantes quanto as nossas.

Para completar, quero incluir neste rol de evangelistas os poetas, os cantores, os atores de TV (mesmo os que trabalham na Globo), os escritores e todos aqueles que se aventuram no campo das artes seculares explorando o subjetivismo. E ainda menciono os desconhecidos, as pessoas simples, o homem do campo, a dona de casa, o catador de material reciclável, a pessoa portadora de necessidades especiais e até os animais. Pois todos já têm dentro de si uma percepção do Evangelho e uma riqueza de experiências, de modo que aquilo que precisamos fazer é contribuir para que o outro também some conosco na construção de um mundo melhor. Ou seja, serem participantes da construção ou vivência do Reino de Deus aqui na Terra, conforme Jesus Cristo muito pregou.

Um abraço a todos e tenham um excelente final de semana com muita paz e descanso!


OBS: A primeira imagem acima trata-se do quadro "Pedro batizando o centurião Cornélio" (1709) do artista italiano Francesco Trevisani que viveu entre os séculos XVI e XVII. Já a segunda cuida-se de uma obra anônima da arte bizantina que mostra "Pedro e o galo", lembrando a experiência da negação do discípulo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tenha uma quarta-feira de muita alegria e graça!

Terminou ontem o feriado carnavalesco, mas não acho que isto seja motivo para tristezas.

É momento de alegria e de graça! Principalmente para quem aproveitou o feriado de maneira sadia e agora vai retornar às suas atividades laborais ou estudantis, visto que a vida continua e deve ser celebrada em múltiplas ocasiões distintas.

Para os católicos, a quarta-feira de cinzas é considerado o primeiro dia da Quaresma e simboliza a conversão do crente. Nas missas, os padres colocam cinzas na testa do cristão que, por tradição religiosa, permanecem na cabeça da pessoa até o sol se por. E, a partir de então, algumas pessoas ficam se privando de comer carne até à Páscoa.

Ave Maria! Ainda bem que decidi seguir a Cristo livre das amarras doutrinárias do institucionalismo católico e evangélico!

Contudo, pelo fato da quarta-feira de cinzas corresponder ao dia seguinte após o Carnaval, muitos brasileiros associam este feriado de meio dia ao luto pelo fim da maior festa popular do país. Então, quem segue o catolicismo e resolveu cair na folia, mesmo sem ter cometido excessos, muitas vezes acaba se deparando com o sentimento aprisionador de que violou um mandamento e pecou.

Por sua vez, inúmeros evangélicos, quando brincam no Carnaval, sentem-se até mais culpados do que os católicos. Pois, no evangelicalismo brasileiro, a cultura carnavalesca ainda é tida como algo pecaminoso, totalmente impura e impossível de integrar uma diversão sadia, sem necessariamente alguém ter que praticar condutas de depravação sexual, atos de violência ou enveredar pelo consumo abusivo de álcool e de drogas.

Mas será que as pessoas devem se sentir culpadas e em pecado por agirem dentro da normalidade?

Somos humanos e o homem é um animal gregário. Logo, faz parte da nossa natureza levarmos uma vida em comunidade onde as festas populares, desde o começo da civilização e as eras pré-históricas, cumpriam o papel de aproximar as pessoas de um determinado grupo. Na Antiguidade, em quase todo o mundo, celebrava-se a colheita, a vitória de uma guerra, o nascimento de uma criança, recordações de acontecimentos históricos, o ano novo, a lua nova, o início do verão ou do inverno, o nascimento de uma criança, a entrada na adolescência, o casamento e a morte. E, não raramente, tais comemorações eram enriquecidas com algum significado religioso.

Infelizmente, o cristianismo acabou se tornando uma religião de pessoas tristes e fechadas para a sociedade. Criou-se uma dicotomia entre o espiritual e o secular, em que este chega a ser terrivelmente demonizado. E conviver com amigos não crentes dentro de uma festa, mesmo num ingênuo aniversário de criança, chega a ser mal associado com um trecho do Salmo 1º quando a Bíblia fala em "assentar-se na roda dos escarnecedores".

"A alegria só pode brotar de entre as pessoas que se sentem iguais", assim disse o romancista francês Honoré de Balzac. E o que ele falou faz sentido porque, no momento em que crio distinções morais em relação às demais pessoas do gênero humano, por me achar espiritual, acabo me privando de uma alegria plena no convício coletivo.

Segundo Caio Fábio, "Jesus não fala uma única vez, nos quatro Evangelhos, a palavra 'espiritual'. Esse chavão não passou por sua boca, por uma razão muito simples: para Jesus, não havia uma vida espiritual; para Jesus, a espiritualidade era a vida. Sobre a vida ele falou muito, e o tempo todo; sobre espiritualidade, não". (destacou-se)

Verdade seja dita que é o moralismo da sociedade, ditado muitas vezes pela religião, que acaba dando uma extrema relevância a determinados comportamentos que não agradam a um grupo dominante. Com isto, construiu-se no decorrer dos séculos uma moral que reprime com rigor condutas como o pecado sexual e a embriaguez, mas toleram outras "obras da carne" tão perturbadoras quanto, a exemplo do ódio, das rixas, dos ciúmes, da ira, das dissensões, das invejas, do egoísmo e da avareza. Aliás, há pastores que seguem a herética teologia da prosperidade e chegam a incentivar um repugnante apego ao dinheiro entre os seus seguidores, exceto se forem ofertar na igreja. E, quanto à dimensão coletiva do pecado, o cristianismo é muito superficial.

Entretanto é esta visão desproporcional, torta, tendenciosa e deturpada do pecado que tanto atrapalha os cristão na compreensão do arrependimento que deve acompanhar a fé no Evangelho. Por causa disto é que muitos têm dificuldade nos dias de hoje em experimentar a Metanoia, palavra grega que significa conversão.

Por outro lado, a conversão não significa uma mudança de cultura, mas sim de postura, devendo ser algo contínuo na vida da pessoa. Trata-se de algo que, na visão hebraica, corresponderia à Teshuvá (o retorno ao caminho certo), onde o homem reconhece sua tendência ruim e se abre para a generosidade da vida, considerando as oportunidades que ela continuamente nos dá e o quanto, em si mesma, é bela, perfeita e boa.

Ora, entendo que a conversão não deve fazer de ninguém uma pessoa triste, mas sim alegre e cheia de graça. E esta graça é que nos faz livres de mandamentos dos homens inventados por padres e pastores sem graça afim de que possamos graciosamente viver para a prática do amor, sem carregar peso na consciência ou cultivar restrições comportamentais.

Para os judeus, nas seis semanas que precedem a festividade de Pessach (Páscoa), existem quatro sábados especiais dentre os quais o Shabat Shecalim é o primeiro deles, tendo sido comemorado em 2011 neste dia 5 de março (que foi o sábado de Carnaval iniciado ao por do sol de sexta-feira). Então, é comum as pessoas que seguem as tradições judaicas cumprimentarem-se com estas palavras: "Chazak! Chazak! Venit'Chazek!" (Força! Força! Que sejamos todos fortalecidos!)

Meu desejo é que, após esta semana de feriado carnavalesco, sejamos realmente fortalecidos para vivermos este ano com muita alegria e graça, com bastante energia e força do Deus Eterno.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Não arranque o joio da plantação!


A parábola do Joio e do Trigo (Mateus 13.24-30), assim como a do Semeador (Mt 13.3-9; Mc 4.3-9; Lc 8.5-8) são as únicas em que a interpretação é dada através das palavras de Jesus constantes no texto bíblico. Porém, no que se refere à alegoria do joio, há um detalhe curioso que não é explicado no Evangelho.


“Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: 'O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: 'O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então,d e onde veio o joio?' 'Um inimigo fez isso', respondeu ele. Os servos lhe perguntaram: 'O senhor quer que o tiremos?' Ele respondeu: 'Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderiam arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até a colheita. Então direi aos encarregadores da colheira: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro'”. (Mt 13.24-30; Nova Versão Internacional – NVI) – destaquei


Ao dar a interpretação da parábola aos seus discípulos (ler Mt 13.36-43), Jesus revela-lhes que: o “semeador” é ele mesmo (o “Filho do Homem”); o “campo” é o mundo; a “boa semente” (o trigo) corresponde ao “filhos do Reino” (os justos); o “joio” aos “filhos do Maligno” (os ímpios); o “inimigo” é o diabo; a “colheita” representa o fim do mundo; e os ceifadores os anjos. Então, a conclusão da história é explicada pelo castigo dos ímpios e salvação dos justos no julgamento final.

Acontece que nada é esclarecido diretamente no texto do Evangelho acerca da proibição dos servos do Semeador quanto à proposta de arrancarem o joio do campo cultivado. A tarefa da separação das duas espécies vegetais é deixada apenas para os ceifadores e no final da colheita.

Mas, afinal, por que o joio não pode ser arrancado antes da colheita? E qual seria o(s) motivo(s) de relevância espiritual da advertência dada por Jesus?

Posso dizer que este ponto de alta indagação nas Escrituras desperta em mim um certo grau de interesse para reflexões pessoais.

Como se sabe, o joio (cizânia) é uma erva daninha que, a princípio, parece muito com o trigo. As raízes de ambas as espécies chegam a se entrelaçar na terra e, apenas no momento da colheita, é que os ceifeiros terão condições de fazer a necessária distinção entre as duas para finalmente lançar o joio no fogo separando o trigo para o consumo.

Meditando sobre a parábola, tenho a impressão de que o plano astuto do inimigo em semear o joio no campo de trigo teve por objetivo justamente tentar os servos do semeador induzindo-os a danificar a lavoura. Pois estes, ao perceberem o joio misturado na plantação, propõem ao senhor arrancar a erva daninha antes do tempo da colheita, o que coloca em risco a sobrevivência dos pés de trigo comprometendo o sucesso do cultivo.

Ora, como saberemos qual é o joio e onde estará o trigo? Ou melhor, quem é “filho do Reino” ou “do Maligno” já que todos estamos vivendo um processo de formação e crescimento espiritual? Sem dúvida que julgamentos deste tipo não competem a nós, servos e plantação do Semeador, pois, do contrário, poderemos cometer as maiores injustiças contra os nossos irmãos.

Segundo Joe M. Kapolyo, teólogo batista zambiano e mestre em exegese do Novo Testamento pela Universidade de Aberdeen (Escócia), devemos ser bem cautelosos nas atitudes que tomamos na espera do cumprimento dos propósitos divinos, ensinando que:


“Sempre haverá joio na plantação. Além disso, às vezes é muito difícil distinguir entre os que fazem parte do reino e os que não fazem. Portanto, não devemos ser precipitados em julgar, pois podemos errar e danificar a boa semente. É preciso exercitar a paciência e a precaução até que Deus, o único juiz, finalmente decida encerrar a história e fazer a distinção final entre os que são dele e os que não são”. (Comentário Bíblico Africano – CBA, pág. 1165)


Recordo-me que o pastor da igreja onde congrego, o teólogo Robson Rodrigues, já pregou que a recomendação para que o joio não seja arrancado pelos servos do Semeador é para que se torne trigo. E, quanto a esta interessante visão da parábola, encontrei também um texto do monsenhor Jonas Abib, extraído do volume dois de seu livro “O Pão da Palavra”, cujo trecho pertinente à alegoria de Jesus foi publicado na internet sob o título “Só o Senhor pode transformar joio em trigo”:


O mais lindo é que aquele que é joio pode se tornar trigo. Bendito seja o Senhor! Enquanto este mundo for mundo, é possível esta transformação: o joio pode tornar-se trigo. Só o Senhor pode fazer com que isso aconteça. É por isso que Ele vai se delongando e deixando que o tempo passe, para que aquele que é joio se torne trigo. O Senhor quer converter a todos. Se em sua vida ainda há muito joio é tempo de se deixar transformar pelo Senhor. Você não pode ficar apontando o dedo para os outros e dizer: “Este é o joio; aquele é joio”. Não, pois ainda é tempo de serem convertidos.”
(http://www.cancaonova.com/portal/canais/pejonas/informativos.php?id=2134)


Está claro para mim que os servos do Semeador, justamente por não saberem distinguir com certeza entre o joio e o trigo, devem concentrar-se em ações construtivas que, no contexto da parábola, seria cuidar da lavoura, agindo sem preconceitos ou discriminação. E esta tarefa de certo modo assemelha-se com a Parábola da Rede onde o pescador não se ocupa em selecionar previamente no mar os bons dos ruins, mas sim em procurar peixes na água:


“O Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes”. (Mt 13.47-50; NVI)


Assim, podemos dizer que Jesus nos chama para sermos “pescadores de homens” e cuidarmos com amor de seu campo cultivado, colaborando com o crescimento espiritual das pessoas afim de que elas se tornem a “boa semente” de trigo e fiquem prontas para o tão aguardado dia da colheita - a volta do nosso Senhor.

Oremos pela conversão dos nossos semelhantes, não nos esquecendo que também somos plantação de Cristo, o que envolve um permanente processo de transformação do joio em trigo existente na vida de cada um.

OBS: a foto foi extraída do site da Embrapa, em http://www.cnpso.embrapa.br/index.php?op_page=376&cod_pai=1

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Não perca a maior oportunidade da sua vida!

A multidão falou: "A Lei nos ensina que o Cristo permanecerá para sempre; como podes dizer: 'O Filho do homem precisa ser levantado'?" Disse-lhes então Jesus: "Por mais um pouco de tempo a luz estará entre vocês. Andem enquanto vocês têm a luz, para que as trevas não os surpreendam, pois aquele que anda nas trevas não sabe para onde está indo. Creiam na luz enquanto vocês a têm, para que se tornem filhos da luz". Terminando de falar, Jesus saiu e ocultou-se deles. (Evangelho segundo João 12.34-36; Nova Versão Internacional - NVI)


A passagem acima mostra Jesus discutindo com pessoas em Jerusalém em sua última semana. Nosso Senhor, dentro de alguns dias, iria ser "levantado" pelos romanos, isto é, crucificado. E, ao dizer que ele iria ser morto daquela maneira pelos gentios, suas palavras contrariaram as concepções ou expectativas que a maioria de seu povo tinha acerca da obra do Messias. Isto porque os judeus aguardavam ansiosamente por um descendente de Davi que, quando se manifestasse, restabeleceria de imediato a realeza soberana da nação como nos tempos antigos.

Ao advertir seus ouvintes, Jesus estava dizendo que os judeus deveriam crer nele antes que fosse tarde. Porém, como aquelas pessoas estavam com seus corações fechados e indispostas para crer, Jesus se ocultou delas. E, ao que tudo indica, aquela geração não soube aproveitar o tempo em que fora visitada por Deus na pessoa do Filho, manifestado no forma humana.

Mesmo que as advertências de Jesus tenham se dirigido a um público daquela época, não podemos nos esquecer que tais palavras também têm aplicação para os nossos dias.

A morte de Jesus na cruz reconciliou a humanidade com Deus. Quando o Senhor foi "levantado" pelos romanos, sendo Ele inocente de toda e qualquer acusação, seu sacrifício pôde trazer perdão para todos porque o nosso pecado foi punido na sua carne. Por isso, todo aquele que crê em Jesus tem a vida eterna.

Quem crê em Jesus não é julgado pelos seus pecados, mas quem não crê já está condenado (ver João (3.18-31,36), o que significa uma escatologia já realizada, isto é, permanecer debaixo da condenação imposta ao homem pela sua queda.

Erramos quando tentamos separar o mundo do presente do mundo do futuro, no sentido de conceber apenas uma ressurreição escatológica, esquecendo-nos que Jesus é a ressurreição e a vida de maneira que todo aquele que Nele crê já vive eternamente:


Disse-lhe Jesus: "O seu irmão vai ressuscitar". Marta respondeu: "Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia". Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim não morrerá eternamente. Você crê nisto?". Ela lhe respondeu: "Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo". (João 11.23-27; NVI)


Ora, na vida todos perdem grandes oportunidades. Seja a chance de fazer um bom negócio, conseguir um grande emprego, visitar belíssimos lugares ou de conhecer pessoas maravilhosas. Porém, a maior oportunidade que um homem pode ter em toda a sua existência é crer em Jesus, entregando sua vida para Ele.

Quando cremos em Jesus de todo o nosso coração, isto é, aceitando com obediência a sua Palavra, nascemos de novo e ressuscitamos espiritualmente. Mesmo que venhamos a enfrentar a morte física, esta não terá poder nenhum sobre nós porque a partir da nossa conversão passamos a gozar da vida eterna.

Peço a Deus que não percamos o tempo da nossa visitação. Ainda há "luz" e, se você está hoje ouvindo a Mensagem do Evangelho, é porque existe oportunidade para sua alma. Abrace-a. Não deixe que ela passe. Caminhe enquanto há luz!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Escolha a vida!

Pode-se dizer que abraçar a fé cristã é uma atitude bem simples, pois não exige grau de escolaridade, uma formação cultural específica ou elevado conhecimento bíblico. Porém, é algo que requer uma escolha bem radical – decidir deixar o pecado.

Na minha leitura matinal de hoje (estou estudando mais uma vez Atos dos Apóstolos), refleti sobre a infeliz escolha de Félix que, vencido pelo medo, recusou-se a aceitar Cristo:

Alguns dias depois, veio Félix com sua mulher Drusila, que era judia. Mandou chamar Paulo e ouviu-o falar sobre a fé no Cristo Jesus. Mas, como Paulo se pusesse a discorrer sobre a justiça, a continência e o julgamento futuro, Félix ficou amedrontado e interrompeu: “Por agora, retira-te. Quando tiver mais tempo, mandarei chamar-te”. (Atos 24.24-25; versão e tradução da Bíblia de Jerusalém).

Segundo o contexto da narrativa, Paulo estava preso em custódia no palácio de Herodes, na cidade de Cesareia, isto é, no Pretório, que, naqueles tempos, era utilizado como residência oficial do procurador romano. O apóstolo sofria a injusta acusação de ter profanado o templo, mas o governador recusava-se a julgar sua causa para colocá-lo em liberdade e o mantinha encarcerado com más intenções de obter ganhos financeiros (propinas) e vantagens políticas.

Marco Antonio Félix, nomeado pelo imperador Cláudio para ser procurador na província romana da Judeia, governou aquela complicada região por quase uma década, entre os anos de 52 e 59 no primeiro século. Foi casado ilegalmente com Drusila, a qual era uma linda mulher da influente família de Herodes, filha do rei Herodes Agripa I e ex-esposa do rei Aziz de Emesa, da Síria. A união com uma bela jovem da nobreza local certamente beneficiava a sua gestão, além de satisfazer seus desejos sexuais. Segundo o historiador romano Cornélio Tácito, Félix “ocupava a posição de um rei, enquanto tinha a mente de um escravo, saturada com crueldade e lascívia” (História 5.9)

Lendo atentamente o texto bíblico, parece-me que, por alguns instantes, Félix teve o desejo de ouvir Paulo pregar acerca de Jesus. Até então, o governador apenas conhecia o cristianismo como uma seita do judaísmo, mas faltava-lhe conhecer Cristo. Porém, quando o apóstolo expôs sobre “a justiça, a continência e o julgamento vindouro”, Félix deixou ser dominado pelo medo e a pregação foi por ele interrompida.

Ora, quantas pessoas um dia chegaram a assistir um culto numa igreja, ou escutaram pregações pelo rádio, mas, quando foram confrontadas com o pecado, resolveram logo se afastar para não se sentirem incomodadas!

Abraçar a fé cristã não significa mudar de religião como se estivéssemos trocando de time de futebol ou de um partido político. É preciso que também haja arrependimento, isto é, conversão das trevas para a luz.

Pode-se perceber que a atitude de Félix assemelhava-se com a de Herodes, o qual, vivendo uma relação adulterina com Herodias, esposa de seu irmão Felipe, após ter sido confrontado com as firmes pregações de João Batista, determinou a prisão do profeta e o seu posterior assassinato. Entretanto, os Evangelhos contam que Herodes teve um certo respeito temeroso por João e penso que ele até mesmo o admirasse:

Assim, Herodias o odiava e queria matá-lo. Mas não podia fazê-lo, porque Herodes temia João e o protegia, sabendo que ele era um homem justo e santo; e quando o ouvia, ficava perplexo. Mesmo assim gostava de ouvi-lo. (Marcos 6.19-20; Nova Versão Internacional - NVI)

Que infeliz escolha faz o homem quando recusa arrepender-se e aceitar a salvação de Cristo para continuar se alimentando das migalhas de prazeres oferecidos pelo pecado! Pessoas deixam de experimentar a vida no Reino de Deus porque preferem continuar com um relacionamento ilícito, um trabalho desonesto ou se apegando a posições sociais que de nada lhe adiantarão quando descerem às sepulturas e muito menos poderão acrescentar algum significado às nossas vidas.

Que fim levaram Félix e Drusila? E quais benefícios eles fizeram em favor da humanidade? Uma nota na “Bíblia da Mulher” que dei de presente para a minha esposa conta que o seu final foi trágico:

“A vida de Drusila foi vergonhosa e desperdiçada. Antes de completar 41 anos, teve uma morte horrível e violenta. Enquanto estava com o único filho, Agripa, em Pompéia, o Vesúvio entrou em erupção, sepultando debaixo de toneladas de lava incandescente as cidades de Pompéia e Herculano, assim como Drusila e seu filho.”

Contudo, ao lado dos equivocados exemplos de vida, encontro não só na Bíblia como na vida real pessoas que, corajosamente, resolveram deixar o pecado para andarem com Deus. Recordo-me de um homem que, após frequentar várias reuniões de um grupo de estudo bíblico, abriu o seu coração e compartilhou conosco que tinha um relacionamento duplo com duas mulheres. Uma era sua esposa e a outra a amante. Em seu coração, ele já não se sentia mais satisfeito em permanecer com aquela situação, mas temia que a verdade viesse à tona a ponto de destruir seu casamento. Então, após o ouvirmos, oramos por ele. Dias depois, ele abriu o jogo com a amante e decidiu ficar só com a esposa, desfrutando a cada dia a incomparável aventura de caminhar com Jesus.

A maior dificuldade de tomar a decisão certa está dentro de nós e creio ser este o único obstáculo que precisamos superar na nossa escolha diária de seguir a Cristo. No livro de Deuteronômio, Moisés transmite a orientação sobre optar por obedecer a Deus encorajando os israelitas com estas palavras:

“O que hoje lhes estou ordenando não é difícil fazer, nem está além do seu alcance. Não está lá em cima no céu, de modo que vocês tenham que perguntar: “Quem subirá ao céu para trazê-lo e proclamá-lo a nós a fim de que lhe obedeçamos?” Nem está além do mar, de modo que vocês tenham que perguntar: “Quem atravessará o mar para trazê-lo e, voltando, proclamá-lo a nós a fim de que lhe obedeçamos?” Nada disso! A palavra está bem próxima de vocês; está em sua boca e em seu coração; por isso poderão obedecê-la (…) “Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e seus filhos vivam,” (Dt 30.11-14,19; NVI)

Será que vale a pena continuar vivendo sob o domínio do pecado e separado de uma vida com Deus? Certamente que não!

Em sua última noite na terra, após ter ceado, Jesus disse aos seus discípulos: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6; ARA). Também no mesmo Evangelho, o autor nos fala a respeito de Jesus: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (João 1.4).

Mesmo que o homem tenha feito as mais erradas escolhas, ele tem a grande chance de voltar-se para Deus através da fé em Jesus, o qual morreu em nosso lugar, levando os nossos pecados. Quando foi pregado na cruz, Jesus cumpriu a nossa pena e morreu e nossa morte afim de que todo aquele que o aceitar possa restaurar o relacionamento com o Criador.

Que possamos a cada dia escolher a Vida e nos convertermos a todo instante, exercendo nossa fé em Jesus!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O caminho do amor

Por mais que eu tenha enormes pontos teológicos de divergências em relação ao catolicismo, exemplos como os que foram deixados por Madre Teresa de Calcutá, ou pela brasileira Irmã Dulce na Bahia, são capazes de refrear o meu sectarismo e abrir os olhos para contemplar o agir de Deus através das pessoas que resolvem seguir a Jesus com a sinceridade de seus corações.

Desde que recebi uma sólida formação doutrinária entre os batistas, no começo dos anos 90, até hoje eu me identifico teologicamente com esta denominação do protestantismo, apesar de ter me congregado cinco anos na Igreja Evangélica Maranata. Porém, tenho aprendido que Deus age bem acima das nossas concepções de vida, ora nos confrontando e às vezes interagindo conosco independentemente de ainda nos mantermos arraigados aos valores de uma cultura.

Iremos compreender toda a Verdade durante nossa breve existência sobre a face da terra?

Partiremos daqui perfeitos e andando na estatura espiritual de Cristo?

Conheceremos todos os mistérios divinos e toda a teologia?

Conseguiremos fazer o bem a todos os pobres?

Será que vamos ter oportunidades para reparar todos os males praticados no passado contra as pessoas que algum dia magoamos?

Embora Deus não rebaixe o seu elevado padrão moral, Ele sabe que jamais chegaremos ao seu nível nesta vida. Creio também que Ele sabe que uns poderão ir mais longe do que os outros em suas caminhadas. Porém, Ele nos pede que guardemos os seus mandamentos através da prática do amor.

A base do ensino de Jesus em seu breve ministério entre os israelitas foi o amor. Em sua última semana na cidade de Jerusalém (suponho que na terça-feira), um escriba lhe questionou qual seria o maior dos mandamentos da Torá e recebeu a seguinte resposta do Senhor sobre o amor, ligando o Shema de Deuteronômio 6.4-5 a Levítico 19.18:

Respondeu Jesus: “O mais importante é este: 'Ouça, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças'. O segundo é este: 'Ame o seu próximo como a si mesmo'. Não existe mandamento maior do que estes. (Evangelho segundo Marcos 12.29-31; Nova Versão Internacional - NVI)

O escriba então aprovou a resposta dada por Jesus, acrescentando com sua sabedoria teológica que amar a Deus e ao próximo como a si mesmo “é mais importante do que todos os sacrifícios e ofertas”, provavelmente baseando-se no profeta Oseias. Porém, em seguida, Jesus disse que aquele homem não se encontrava “longe do Reino de Deus”.

Analisando este último detalhe da conversa que encontramos apenas no Evangelho de Marcos, podemos perceber que o escriba, embora não estivesse “longe”, ainda precisava experimentar e viver no Reino de Deus, mesmo conhecendo amplamente com o intelecto a Torá e os profetas. Isto é, a Bíblia que tanto Jesus quanto os fariseus liam.

Então o que realmente estava faltando ao escriba?

Lendo um comentário na minha Bíblia de estudos, verifiquei que a resposta dada por Jesus ao escriba também faz lembrar os diálogos que teve com o jovem rico e com Nicodemos, quando o Mestre deixou-os perplexos com estas afirmações:

Jesus olhou para ele e o amou. “Falta-lhe uma coisa”, disse ele. “Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me.” (Marcos 10.21; NVI)

“Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo.” (João 3.7; NVI)

Ora, nas três situações Jesus estava lidando com israelitas que conheciam os mandamentos da Lei de Deus desde criança. Foram educados conforme os preceitos da Torá, eram capazes de recitar trechos da Bíblia (até então só tinha sido escrito o Antigo Testamento), cultuavam um único Deus e talvez até praticassem atos de caridade. Observem que o jovem rico chegou a declarar que observava o 5º, o 6º, o 7º, o 8º e o 9º mandamentos do decálogo, bem como o “não enganarás a ninguém”, mas ainda assim estava preocupado em “herdar a vida eterna”. Contudo, apesar do conhecimento e da formação religiosa que tinham, faltava-lhes vivenciar o governo do Pai Celestial em seus respectivos cotidianos.

E nos dias de hoje? Será que as pessoas nascidas e educadas dentro de uma cultura cristã vivem no Reino de Deus?

Tanto os evangélicos quanto os católicos são ensinados desde cedo sobre as palavras da oração do Pai Nosso pronunciado repetidas vezes que “venha a nós o vosso reino”, porém sem compreender no coração qual o significado disto. E enquanto muitos católicos acham que têm a vida eterna só porque passaram por um batismo infantil deixando de ser "pagão", evangélicos escondem-se atrás da confissão de fé que algum dia fizeram numa igreja ao levantarem as mãos e repetirem com a boca a oração do pastor.

Penso que não somos chamados para alimentarmos vãs preocupações se iremos de fato herdar a vida eterna quando morrermos pois carregar um fardo como este demonstra até falta de fé no amor de Deus e desconhecimento da obra de Cristo. Jesus em seus ensinamentos simplesmente nos convida para seguir um caminho de amor afim de que vivamos para Deus e para o próximo, o que significa estar no Reino de Deus e experimentar a diariamente Vida.

Agnes Gonxha Bojaxhiu, mais conhecida como a Madre Teresa de Calcutá, mesmo rezando o Credo e a Ave Maria, entendeu o que significa o amor. Aquela mulher viajou para um país dividido em castas que até hoje é cheio de desigualdades, fomes, misérias e tragédias, mas ainda assim decidiu amar o seu semelhante.

Certamente que ela poderia ter trilhado uma carreira mais cômoda e tranquila dentro do catolicismo, talvez passando seus dias dentro de um convento como fazem muitas das freiras. Porém, Madre Tereza preferiu amar os moribundos e os leprosos da Índia, dando sentido à sua vida e sendo também sal e luz de um século cheio de ódio que foi manchado por duas guerras mundiais.

De igual modo, também no Nordeste do Brasil, terra de secas, famílias miseráveis e coronéis poderosos, Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, a Irmã Dulce, foi chamada de “anjo bom da Bahia” por dedicar sua vida à caridade dando abrigo a mendigos e trabalhando com doentes, idosos, pobres e menores carentes. Com persistência e mobilização social, ela fundou um hospital e um orfanato na região metropolitana de Salvador, fazendo o bem a milhares de pessoas.

Nos tempos atuais, muita gente não tem falta de bens materiais de primeira necessidade, mas carece de atenção, reconhecimento, paz, felicidade e, principalmente, de uma vida com significado de maneira que vivem sempre frustradas, sendo isto uma das explicações para tantos casos de depressão e desejos de suicídio. Tornamo-nos uma sociedade que coloca o “eu” acima de tudo, valorizando mais o dinheiro e o status do que as pessoas ao nosso redor. E o pior é que tal comportamento também pode incluir pessoas religiosas e que foram formadas dentro de uma cultura cristã evangélica ou católica como a grande maioria dos brasileiros.

O que posso dizer de muitos dos meus compatriotas no presente? Somos uma nação em que desde pequenos aprendemos ser Jesus o Cristo e o Filho de Deus, mas ainda não estamos vivendo de fato o Reino de Deus. Perguntar para um brasileiro se ele “aceita Jesus” parece piada porque, certamente, as pessoas dirão que sim, o que apenas as coloca perto do Reino mas não dentro.

Ao ser confrontado por Jesus, o jovem rico foi convidado a amar seu próximo e isto implicava em morrer para si mesmo, abrindo mão de tudo o quanto possuía. Ali o Senhor colocou uma condição de mudança de conduta para que o rapaz pudesse segui-Lo – dar tudo aos pobres. Com isto, Jesus deixou claro que não queria discípulos que conhecesse seus ensinos apenas com a mente, mas que fossem capazes de experimentar a prática do amor, exercitando a fé.

Quantas vezes lemos a Bíblia e compreendemos apenas o texto, mas não a Mensagem?

Sempre que oramos estamos expressando a Deus aquilo que sentimos e nos abrindo para Ele, ou a nossa oração é apenas uma repetição mecânica de palavras sem nenhum sentido?

Que religiosidade capenga é essa em que precisamos nos isolar, evitar a conflituosa convivência humana e fugirmos de qualquer tipo de interferência capaz de nos desconcentrar?

Será que não podemos nos conectar a Deus mesmo em meio aos conflitos, ao desespero e às tempestades da vida?

Quando olho para Jesus e leio os relatos dos Evangelhos mostrando que o Mestre acolheu as crianças, vejo o quanto ainda me falta para aprender os ensinos de Jesus. Numa passagem que encontramos em todos os sinóticos (Mt 19.13-15; Mc 10.13-16; Lc 18.15-17), os discípulos não queriam que trouxessem as crianças para Jesus, mas o Senhor indignou-se e lhes disse que deixassem vir a Ele os pequeninos porque “dos tais é o reino dos céus”.

Imagino que, nesta situação, talvez Jesus estivesse exausto de suas andanças pela Palestina assim como todos nós caminhamos fatigados pelos mais variados problemas. Só que o Mestre, mesmo gastando suas energias para ajudar pessoas, junto com as perseguições que sofria, ainda tinha disposição para receber as agitadas crianças e quem sabe até brincar com elas. E, por incrível que pareça, Ele estava nos apontando o caminho para termos uma mente e um espírito saudável, isto é, como entrarmos no Reino de Deus.

Precisamos receber o Reino de Deus como uma criança (Mc 10.14), o que, inegavelmente, exige a experiência de um novo nascimento, um esvaziamento de nós mesmos, despindo-nos do orgulho, das mágoas, dos ressentimentos e das preocupações com as coisas desta vida. Então, quando praticamos isto, entramos verdadeiramente debaixo do governo de Deus, passando a ter prazer em estar aos pés de Jesus para ouvir sua Palavra.

Bem, de acordo com o meu editor de texto, acho que já escrevi o bastante até aqui e acho que me faltarão palavras para descrever o que significa o caminho do amor. Mesmo que eu venha a publicar um livro sobre o assunto, de nada adiantará porque estarei expressando nada mais do que uma doutrina, coisa que os teólogos poderão fazer com muito mais conhecimento bíblico. Porém, com toda a minha limitação, só posso pedir a Jesus que me ensine a amar como Ele amou, ajudando-me a sair da virtualidade dos sermões para a realidade dos gestos de amor, coisa que só a experiência do dia à dia pode ensinar. Logo, termino com uma oração como uma resposta positiva ao mandamento dado pelo Senhor:


Jesus, eu quero amar!

Não sei ainda expressar com a minha mente o que é o amor. Vivo a maior parte do tempo no meu mundo intelectual, tentando elaborar conceitos e regras através de seus ensinamentos. Porém, quando me deparo com a dura realidade, vejo o quanto ainda preciso aprender.

Jesus, eu quero amar!

O Senhor não nos escreveu livros diretamente de suas penas, mas deixou gravada nos corações dos homens a sua Mensagem de modo que muitos não cessaram de falar de seu amor. Então, que possamos expressar este amor pelas nossas ações, as quais valem mais do que mil palavras.

Jesus, eu quero amar!

O mundo oferece tantos atrativos de poder, prazeres e bens materiais que podem nos levar a perder o foco. Só que, quando soo embriagado pelo engano do pecado, percebo que viver sem o teu amor não faz sentido e aí retorno correndo para ti.

Jesus, eu quero amar!

Que eu seja capaz de abrir mão de mim mesmo e suportar o meu próximo com suas necessidades, defeitos ou diferenças, tendo como alvo servir ao invés de ser servido, dar sem nada esperar receber em troca.

Jesus, eu quero amar!

Como uma criança, que eu possa receber o Reino de Deus no meu coração, confiando sem pedir provas, agindo com espontaneidade, pedir com simplicidade e aceitar ser amado, acolhendo a Divina Presença em qualquer circunstância da vida.

Jesus, eu quero amar!

Maravilhosos são os Teus ensinamentos, Senhor, e quero que a tua Palavra, que perto está de mim, seja realidade em minha vida. Que o meu coração não Te esqueça e que a cada dia eu possa banhar-me no teu perfume, renovando a minha esperança, dispondo-me a fazer a Tua vontade, perdoando e pedindo perdão, sabendo que minha vida está em Tuas mãos.

Jesus, eu quero amar!

Amém!