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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Quatro Liberdades de Roosevelt: da Segunda Guerra ao ataque à Venezuela de 2025



Em 6 de janeiro de 1941, pouco mais de um ano antes da entrada formal dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, o presidente Franklin Delano Roosevelt proferiu um dos discursos mais emblemáticos da história americana. Conhecido como o Discurso das Quatro Liberdades, ele delineou uma visão moral e estratégica que transcenderia o conflito imediato e influenciaria o desenho do Direito Internacional pós-guerra.

Roosevelt identificou quatro liberdades essenciais que deveriam ser universais:


  1. Liberdade de expressão e opinião – a garantia de que cada indivíduo pudesse falar e debater sem temor de repressão;
  2. Liberdade de culto – a liberdade religiosa, sem imposições nem perseguições;
  3. Liberdade de viver sem necessidade – a segurança econômica mínima, garantindo alimentação, moradia e acesso a bens essenciais;
  4. Liberdade de viver sem medo – a proteção contra agressões externas e guerras arbitrárias, assegurando a paz e a segurança de todos os povos.


Esses princípios não se limitaram a palavras de efeito: eles inspiraram a formulação da Carta das Nações Unidas, em 1945, e se tornaram pilares da ordem internacional baseada em soberania, autodeterminação e respeito às normas jurídicas. A liberdade de viver sem medo, em particular, tornou-se um norte moral contra o intervencionismo militar indiscriminado, estabelecendo que a segurança global depende de limites claros ao uso da força.

Mais de oito décadas depois, os ecos do discurso de Roosevelt ainda ressoam, mas, tragicamente, foram desafiados de forma explícita. A operação conduzida pelos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2025, com a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, levanta sérias questões sobre o respeito às normas internacionais.

Ao violar a integridade territorial e a soberania de um Estado, mesmo sob pretextos políticos ou humanitários, a ação contraria a própria lógica das Quatro Liberdades. A liberdade de viver sem medo é particularmente atingida: não apenas para os líderes envolvidos, mas para toda a população venezuelana, que se vê submetida à instabilidade e à ameaça de força externa.

O episódio lembra que princípios universais, consagrados há 85 anos, não são garantias automáticas: dependem da observância coletiva das normas internacionais e do compromisso ético das potências globais. O legado de Roosevelt, da Segunda Guerra à Carta da ONU, não é apenas histórico, mas um alerta sobre os riscos de normalizar ações unilaterais que atropelam o direito e aumentam o medo.

A lição permanece atual: a liberdade de viver sem medo não é uma abstração, mas uma responsabilidade concreta de Estados e instituições internacionais, cujo respeito deve orientar decisões políticas e militares em todos os tempos.


📷: Entalhe das Quatro Liberdades no Franklin Delano Roosevelt Memorial em Washington, D.C.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Lembrar para não repetir


Prisioneiros libertados em 27/01/1945


Há exatos 80 anos, mais precisamente em 27 de janeiro de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército Vermelho libertava os prisioneiros dos campos de concentração de Auschwitz. Entre os artefatos do genocídio encontrados pelos russos estavam 348.820 ternos de homem e 836.255 vestidos de mulheres, além de montanhas de óculos, cabelos humanos e calçados, muitos deles em tamanhos infantis. 

Segundo o relato de Anatoly Shapiro, primeiro oficial soviético a abrir os portões e entrar no complexo de Auschwitz, no dia da libertação:


"Não tínhamos a menor ideia da existência daquele campo. Nossos superiores não disseram coisa alguma sobre ele. Entramos ao amanhecer de 27 de janeiro. Havia um cheiro tão forte que era impossível aturar por mais de cinco minutos. Meus soldados não conseguiam suportá-lo e me imploraram para que fôssemos embora. Mas tínhamos uma missão a cumprir. Vimos algumas pessoas de pé em roupas listradas - eles não pareciam humanos. Eram pele e osso, somente esqueletos. Quando dissemos a eles que o Exército soviético os havia libertado, eles sequer reagiram. Não conseguiam falar ou mesmo mexer a cabeça. Os prisioneiros não tinham calçados. Seus pés estavam envoltos em trapos. Era janeiro e a neve estava começando a derreter. Até hoje não sei como conseguiram sobreviver. Quando chegamos ao primeiro pavilhão, estava escrito que era para mulheres. Entramos e vimos uma cena horrível. Mulheres desnudas e mortas jaziam perto da porta. Suas roupas tinham sido removidas pelas sobreviventes. Havia sangue e excrementos pelo chão. Nos alojamentos infantis, havia apenas duas crianças vivas. E elas começaram a gritar 'Não somos judias! Não somos judias'. Elas eram judias, mas estavam com medo de serem levadas para as câmaras de gás. Nossos médicos as tiraram dos alojamentos para serem limpas e alimentadas. Abrimos as cozinhas e preparamos refeições leves para os prisioneiros. Algumas das pessoas morreram porque seus estômagos não podiam mais funcionar normalmente. Vi os fornos e as máquinas de matar. As cinzas (dos mortos) eram espalhadas pelo vento." https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/01/150127_gch_auschwitz_fd 


O nazismo foi a maior atrocidade do século XX e jamais deve ser esquecido. Por isso, precisa ser lembrado para a humanidade não repetir. Nem mesmo aquele gesto de saudação que faziam os genocidas...


Óculos de vítimas, 1945

Jovens sobreviventes de Auschwitz

Que tenhamos uma semana reflexiva.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Em memória dos nossos pracinhas que lutaram contra o nazifascismo



Há 64 anos, mais precisamente em 15 de dezembro de 1960, uma comissão liderada pelo marechal Oswaldo Cordeiro de Farias chegava ao Rio de Janeiro trazendo os corpos dos soldados brasileiros mortos na segunda guerra mundial e que tinham sido exumados num cemitério na cidade de Pistoia, Itália. Os restos mortas se encontravam em caixas individuais de zinco, encerradas em urnas de madeira. 


Em solenidade uma semana depois, as urnas foram transportadas para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial e depositadas nos respectivos jazigos no Mausoléu. Uma das urnas de mortos não identificados passou a simbolizar o "Soldado Desconhecido" e foi entregue pelo marechal Mascarenhas de Moraes ao então Presidente da República, Juscelino Kubitschek, que a depositou na base do Pórtico Monumental, onde se encontra até hoje.


📷: Fernando Dallacqua, 2005, Flickr.

terça-feira, 18 de junho de 2024

O Apelo de 18 de Junho



Há exatos 84 anos, mais precisamente em 18 de junho de 1940, o general Charles de Gaulle (1890 - 1970) discursava na rádio de Londres, na qual apelava à continuação dos combates contra a Alemanha nazista e previa a mundialização da guerra. Esse discurso - pouco ouvido na época, porém publicado na imprensa francesa no dia seguinte, e divulgado pelas rádios estrangeiras - é considerado o texto fundador da resistência francesa:


"Os líderes que, por muitos anos, estiveram à frente dos exércitos franceses, formaram um governo. Este governo, alegando que nossos exércitos seriam desfeitos, concordou com o inimigo em parar de lutar. Claro, fomos subjugados pelas forças mecanizadas, terrestres e aéreas do inimigo. Infinitamente mais do que seu número, foram os tanques, os aviões, as táticas dos alemães que nos fizeram recuar. Foram os tanques, os aviões, as táticas dos alemães que surpreenderam nossos líderes. o ponto de trazê-los onde estão hoje.

Mas a última palavra foi dita? A esperança deve desaparecer? A derrota é definitiva? Não!
Acredite em mim, falo com você com pleno conhecimento dos fatos e lhe digo que nada está perdido para a França. O mesmo meio que nos superou pode nos levar a um dia de vitória. Pois a França não está só! Ela não está sozinha! Ela não está sozinha! Ela tem um vasto Império por trás dela. Ela pode se aliar ao Império Britânico que mantém o mar e continua a lutar. Ela pode, como a Inglaterra, usar sem limites a imensa indústria dos Estados Unidos.
Esta guerra não se limita ao infeliz território do nosso país. Esta guerra não se acaba com a batalha da França. Esta guerra é uma guerra mundial. Todas as faltas, todos os atrasos, todo o sofrimento, não impedem que haja estar, no mundo, todos os meios necessários para um dia esmagar nossos inimigos. Vencidos hoje pela força mecânica, seremos capazes de superar no futuro por uma força mecânica superior. O destino do mundo está aqui. Eu, General de Gaulle, atualmente em Londres, convido os oficiais e os soldados franceses que se encontrem em território britânico ou que aí venham, com ou sem armas, convido os engenheiros e os trabalhadores especiais das indústrias de armamento que se encontram em território britânico ou quem viesse lá, para se colocar em contato comigo.
Aconteça o que acontecer, a chama da resistência francesa não deve ser apagada e não será apagada."

Lendo hoje essas encorajadoras palavras que foram ditas numa época tenebrosa e refletindo sobre a covarde invasão russa da Ucrânia, sem dúvida não é mera coincidência a possibilidade de repetição de alguns fatos nos dias atuais, tendo em vista que a guerra tende a se tornar europeia e, talvez, mundial.

Em todo caso, espero que o condenado Trump não volte nunca mais à Casa Branca e que Zelenski jamais fique só.

Que todo o Ocidente apoie a Ucrânia!