"Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus" (1João 3.1a; ARA)
Após ter perdido meu pai biológico, em setembro de 1983, quando ainda tinha meus 7 anos, a data comemorativa do segundo domingo de agosto tornou-se para mim algo vazio e desgostoso nos anos seguinte. Assistia na escola meus coleguinhas fazendo seus trabalhinhos, sob a orientação da professora, para levarem um presente aos seus pais. Eu, porém, não contava aos outros alunos a minha condição de órfão de pai porque não suportava estar em desvantagem em relação aos demais. Então mentia que o meu pai morava numa outra cidade bem distante, lá no Nordeste, para justificar sua ausência.
De fato, eu cheguei até a duvidar sobre o falecimento de meu pai. Isto porque, na época, os adultos não me contaram sobre como ocorreu seu óbito repentino de ataque cardíaco, em seu apartamento no Leme, Zona Sul do Rio de Janeiro (nesta época ele já estava separado de minha mãe). Aí, só depois é que inventaram que ele estava internado num hospital e fizeram isto comigo por uns três dias, sem que eu tivesse tido a oportunidade de me despedir dele no velório.
Aos 11 anos, resolvi então assumir a minha realidade. Tendo sido transferido de escola no meio ano, em Juiz de Fora (MG), decidi não mais esconder a perda do pai perante os colegas da 4ª série primária (outra coisa que muito me incomodava era estar um ano atrasado por ter repetido a alfabetização). E posso dizer que me senti bem mais aliviado por não carregar comigo a bagagem de uma mentira.
Anos depois, sendo já um complicado adolescente, vim a ter consciência de que havia sido adotado por um outro pai - DEUS.
A experiência da conversão fez com que eu não mais me sentisse órfão de pai e começasse a ver o mundo de uma outra maneira.
Chamar Deus de Pai, ainda que possa ser considerado mais um tipo de antropoformização da divindade, não deixa de ser uma imagem que O torna acessível, amoroso e íntimo. Isto porque representa a redescoberta de um relacionamento. Algo que para os israelitas, nos tempos anteriores a Jesus, ainda era mais ligado à eternidade do Criador e às vitoriosas batalhas militares do passado, ainda que as Escrituras hebraicas vez ou outra utilizassem a figura paterna e até materna para Deus. Porém, foi debaixo da opressiva dominação romana que o Messias revelou o Pai ao seu povo.
Creio que é neste nível de intimidade que Deus sempre desejou estabelecer um relacionamento com o homem. Tendo Ele nos criado à sua imagem e semelhança, penso que Deus quer que sejamos mais do que seus servos, mas sim filhos e amigos, tal como foi chamado o patriarca Abraão.
A Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15.11-32) mostra-nos ali um pai bem diferente dentro do antigo Oriente Médio, os quais costumavam se colocar numa posição mais distante de seus descendentes tal como um patrão que dá ordens aos empregados. Porém, na metáfora do Evangelho, o pai, ao ver seu filho voltando para casa, correu em sua direção, abraçou-o e, mesmo estando sujo e maltrapilho, foi capaz de beijá-lo.
"E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não dou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se." (Lc 15.21-24; ARA)
Que Pai maravilhoso não é o nosso Deus, capaz de nos aceitar apesar de todas as faltas praticadas contra Ele e, mesmo assim, por em nossos dedos um "anel" que simboliza a nossa filiação eterna?
Apesar de ter perdido meu pai natural precocemente, sou grato por ter encontrado um Pai que é SEMPRE presente e que me ama incondicionalmente. Um Pai que é louco de amor pela sua criação, mais até do que os nossos genitores. Pois ainda que uma mãe possa esquecer-se do filho que amamenta, como diz lá em Isaías 49.15, o Criador jamais irá nos deixar. E assim diz o profeta a Israel falando sobre Deus:
"Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente perante mim." (Is 49.16; ARA)
Ainda que esta data seja muito usada pelo comércio para promover as vendas, desejo que possamos nos lembrar este dia do nosso Pai de Amor que é onipresente e também tudo conhece, inclusive os nossos anseios e sentimentos mais íntimos. E, sendo ele o detentor de todo poder, fará o melhor por nós, infinitamente mais do que podemos imaginar.
"Como um pai se compadece dos seus filhos, assim o SENHOR se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó." (Salmo 103.13-14; ARA)
Tenha uma boa semana e aproveite para curtir seus pais terrenal e celestial!
OBS: A foto cima foi tirada no meu aniversário de 5 anos, quando eu estava abraçado pelo meu pai que deveria estar com seus 34 anos. Nascido no Rio de Janeiro, em 13 de novembro de 1946, Francisco Carlos Ancora da Luz era engenheiro mecânico e trabalhava na Companhia Estadual de Gás do Rio de Janeiro, na época de seu falecimento. Teve apenas um filho (eu). Dizia-se marxista e ateu, mas, ainda assim, dava "graças a Deus".




