Páginas

Mostrando postagens com marcador educação integral. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador educação integral. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de agosto de 2026

Educação em tempo integral: um direito das crianças e um compromisso com o futuro do Rio de Janeiro



"A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto." — Darcy Ribeiro


A provocação de Darcy Ribeiro continua atual porque nos obriga a fazer uma escolha: aceitar esse diagnóstico como definitivo ou trabalhar para transformá-lo.

Toda criança nasce com potencial para aprender, criar e transformar o mundo. O que muitas vezes diferencia seu futuro não é o talento, mas as oportunidades que recebe ao longo da vida.

Foi pensando nisso que decidi conhecer e assinar o manifesto em defesa da educação em tempo integral e da revitalização dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). 


assina.org/emdefesadociep


Mais do que uma campanha ou uma iniciativa política, a proposta me levou a refletir sobre uma questão que deveria unir toda a sociedade: que educação queremos oferecer às futuras gerações?

Independentemente das preferências partidárias de cada cidadão, a educação pública é um tema que diz respeito a todos nós. O futuro do Rio de Janeiro será construído, antes de tudo, nas salas de aula.


Educação não é favor. É um direito!

A Constituição Federal de 1988 não trata a educação como um benefício concedido pelo Estado. Ela a reconhece como um direito fundamental de todos e um dever do poder público e da família, devendo ser promovida com a colaboração da sociedade, conforme previsto no artigo 205 da Lei Maior do nosso país:


Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.


Quando a própria Constituição determina prioridade absoluta aos direitos das crianças e dos adolescentes (art. 227), isso significa que investir na infância não é uma opção política entre tantas outras. É uma obrigação constitucional.

Nesse contexto, a educação em tempo integral deve ser compreendida como um instrumento para tornar esse direito mais efetivo, especialmente para crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade social.

Vale ressaltar que essa compreensão foi incorporada também pelo Plano Nacional de Educação (Lei Federal nº 13.005/2014), que, há doze anos atrás, estabeleceu entre suas metas a ampliação da educação em tempo integral. 

A Meta 6 do PNE prevê que o país busque oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, atendendo pelo menos 25% dos estudantes da educação básica. 

Embora o período original do plano tenha se encerrado em 2024, o Congresso Nacional ainda discute um novo Plano Nacional de Educação para a próxima década, mantendo a expansão da educação integral entre os temas centrais das políticas educacionais brasileiras.


O legado dos CIEPs

É impossível falar de educação em tempo integral no Rio de Janeiro sem recordar a visão de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Darcy Ribeiro costumava afirmar que a crise da educação brasileira não era uma crise propriamente dita, mas um projeto histórico de exclusão social. Em sua visão, negar educação de qualidade às camadas populares significava perpetuar desigualdades e limitar o desenvolvimento nacional. Por isso, defendia uma escola pública capaz de acolher integralmente a criança, oferecendo não apenas ensino, mas também alimentação, cultura, esporte, saúde e proteção social. Essas ideias estão presentes em obras como O Livro dos CIEPs, nas quais o autor apresenta a educação como prioridade estratégica para o país.

Os CIEPs nasceram da compreensão de que muitas crianças brasileiras não precisavam apenas de mais horas de aula. Precisavam de uma escola capaz de acolher integralmente seu desenvolvimento.

A proposta reunia ensino, alimentação, atividades culturais, esportivas, acompanhamento social e um ambiente seguro durante grande parte do dia.

Não se tratava apenas de construir prédios projetados por Oscar Niemeyer. Tratava-se de construir oportunidades.

Décadas depois, muitos desses prédios continuam espalhados pelo Estado. Alguns permanecem cumprindo sua função educacional, outros foram adaptados para diferentes usos e diversos necessitam de investimentos em infraestrutura e modernização. Isso demonstra que o debate atual não se limita à preservação de um patrimônio arquitetônico concebido por Niemeyer, mas envolve a recontextualização de uma ideia de educação integral para as necessidades pedagógicas do presente.

Mais do que discutir o passado, talvez seja o momento de perguntar: como atualizar esse legado para os desafios do século XXI?


Educação integral não significa apenas permanecer mais tempo na escola

Existe um equívoco frequente quando se fala em educação em tempo integral.

Não basta aumentar o número de horas que o aluno permanece dentro da escola.

Educação integral pressupõe qualidade.

Significa oferecer ensino consistente, alimentação adequada, atividades esportivas, cultura, acesso à tecnologia, incentivo à leitura, formação cidadã, acompanhamento pedagógico e, quando necessário, integração com políticas públicas de saúde e assistência social.

O objetivo não é apenas ocupar o tempo da criança.

É desenvolver plenamente suas capacidades intelectuais, físicas, culturais, sociais e emocionais.

Essa concepção dialoga diretamente com o entendimento contemporâneo de educação integral, segundo o qual a formação da criança deve contemplar dimensões cognitivas, culturais, físicas, sociais e emocionais. A ampliação da jornada escolar somente faz sentido quando acompanhada de um projeto pedagógico capaz de promover o desenvolvimento humano em sua integralidade.

Vale ressaltar que a própria realidade fluminense demonstra que a ampliação da educação integral continua sendo um desafio. Levantamentos recentes do Panorama de Dados Educacionais indicam que cerca de 39% das escolas públicas que oferecem Ensino Médio no Estado funcionam em regime de tempo integral, evidenciando que ainda existe espaço significativo para expansão dessa modalidade, especialmente em regiões socialmente mais vulneráveis.


Um investimento que beneficia toda a sociedade

Os benefícios da educação integral vão muito além da aprendizagem.

Quando uma criança permanece em uma escola estruturada durante todo o dia, sua família também é beneficiada.

Pais e responsáveis conseguem trabalhar com maior tranquilidade, sabendo que seus filhos estão em um ambiente seguro.

A escola torna-se espaço de convivência, proteção e desenvolvimento humano.

Ao mesmo tempo, reduz-se a exposição de crianças e adolescentes às situações de vulnerabilidade existentes nas ruas, especialmente em comunidades marcadas por profundas desigualdades sociais.

Naturalmente, a violência não será resolvida apenas pela educação. Segurança pública exige políticas integradas, geração de empregos, assistência social, urbanismo e fortalecimento das instituições.

Mas também é verdade que investir na infância costuma produzir efeitos positivos duradouros para toda a sociedade.

Diversos estudos em educação demonstram que escolas de tempo integral contribuem para reduzir a evasão escolar, fortalecer os vínculos entre escola e comunidade e ampliar as oportunidades de aprendizagem. 

No caso dos CIEPs, sua proposta inovadora influenciou políticas públicas posteriores em diferentes esferas de governo, tornando-se uma das principais referências brasileiras sobre educação integral


O que os números revelam sobre a educação no estado

O debate sobre a educação pública não pode ser conduzido apenas por impressões ou discursos. É preciso olhar para os indicadores.

Um dos principais instrumentos de avaliação da educação básica brasileira é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), elaborado pelo Inep. O índice reúne dois fatores essenciais: o desempenho dos estudantes nas avaliações nacionais e a capacidade das escolas de garantir sua permanência e progressão escolar.

Os resultados mais recentes mostram que o Estado do Rio de Janeiro ainda enfrenta desafios importantes. No Ensino Médio da rede estadual, o IDEB de 2023 foi de 3,3, abaixo do resultado obtido em 2021 (3,9) e suficiente para colocar o Estado na penúltima posição entre as unidades da Federação.

Evidentemente, esse resultado não significa que todas as escolas estaduais apresentem baixo desempenho. Existem excelentes experiências na rede pública fluminense e profissionais altamente comprometidos com a educação. Também merece destaque a evolução observada na rede municipal da cidade do Rio de Janeiro em diferentes etapas da educação básica.

Os indicadores, porém, revelam que ainda há muito espaço para avançar. Eles reforçam que investir na qualidade da escola pública, na valorização dos educadores, na infraestrutura escolar e na ampliação da educação integral continua sendo um desafio para toda a sociedade.


A importância da participação cidadã

Nenhuma política pública se sustenta apenas pela vontade de um governante.

As grandes transformações acontecem quando a sociedade demonstra que determinado tema merece prioridade.

É justamente nesse contexto que surge o manifesto em defesa dos CIEPs e da educação em tempo integral.

Assinar um abaixo-assinado, por si só, não resolverá os desafios da educação fluminense.

Mas representa uma forma legítima de participação democrática e de demonstração de apoio a uma pauta que merece permanecer no centro do debate público.


Um compromisso com as próximas gerações

Discutir educação é discutir o futuro.

As crianças que hoje ocupam as salas de aula serão, em poucos anos, os profissionais, pesquisadores, professores, empreendedores, trabalhadores e governantes responsáveis pelos rumos do Estado do Rio de Janeiro.

Por isso, investir na educação pública não deve ser visto como despesa, mas como um dos investimentos sociais mais importantes que uma sociedade pode realizar.

Os CIEPs representam um capítulo importante dessa história. Mais do que preservar um patrimônio arquitetônico, o desafio consiste em atualizar a ideia de educação integral para as necessidades do século XXI, fortalecendo escolas capazes de ensinar, acolher, proteger e preparar nossas crianças e adolescentes para a vida.

Independentemente das preferências políticas de cada cidadão, acredito que a educação pública de qualidade deve permanecer como uma política de Estado, construída com planejamento de longo prazo e participação da sociedade.

Foi por essa razão que decidi assinar o manifesto em defesa da educação em tempo integral.

Se você também acredita que a escola pública merece voltar ao centro das prioridades do Rio de Janeiro, convido-o a conhecer essa iniciativa:


assina.org/emdefesadociep


Toda sociedade escolhe diariamente onde investir seus recursos e suas esperanças.

Escolher a educação é escolher o futuro.

🌹📚



Saiba mais — O que prevê a Meta 6 do Plano Nacional de Educação

A Meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE) prevê oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% (vinte e cinco por cento) dos (as) alunos (as) da educação básica, tendo como estratégias:

6.1) promover, com o apoio da União, a oferta de educação básica pública em tempo integral, por meio de atividades de acompanhamento pedagógico e multidisciplinares, inclusive culturais e esportivas, de forma que o tempo de permanência dos (as) alunos (as) na escola, ou sob sua responsabilidade, passe a ser igual ou superior a 7 (sete) horas diárias durante todo o ano letivo, com a ampliação progressiva da jornada de professores em uma única escola;

6.2) instituir, em regime de colaboração, programa de construção de escolas com padrão arquitetônico e de mobiliário adequado para atendimento em tempo integral, prioritariamente em comunidades pobres ou com crianças em situação de vulnerabilidade social;

6.3) institucionalizar e manter, em regime de colaboração, programa nacional de ampliação e reestruturação das escolas públicas, por meio da instalação de quadras poliesportivas, laboratórios, inclusive de informática, espaços para atividades culturais, bibliotecas, auditórios, cozinhas, refeitórios, banheiros e outros equipamentos, bem como da produção de material didático e da formação de recursos humanos para a educação em tempo integral;

6.4) fomentar a articulação da escola com os diferentes espaços educativos, culturais e esportivos e com equipamentos públicos, como centros comunitários, bibliotecas, praças, parques, museus, teatros, cinemas e planetários;

6.5) estimular a oferta de atividades voltadas à ampliação da jornada escolar de alunos (as) matriculados nas escolas da rede pública de educação básica por parte das entidades privadas de serviço social vinculadas ao sistema sindical, de forma concomitante e em articulação com a rede pública de ensino;

6.6) orientar a aplicação da gratuidade de que trata o art. 13 da Lei nº 12.101, de 27 de novembro de 2009, em atividades de ampliação da jornada escolar de alunos (as) das escolas da rede pública de educação básica, de forma concomitante e em articulação com a rede pública de ensino;

6.7) atender às escolas do campo e de comunidades indígenas e quilombolas na oferta de educação em tempo integral, com base em consulta prévia e informada, considerando-se as peculiaridades locais;

6.8) garantir a educação em tempo integral para pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na faixa etária de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos, assegurando atendimento educacional especializado complementar e suplementar ofertado em salas de recursos multifuncionais da própria escola ou em instituições especializadas;

6.9) adotar medidas para otimizar o tempo de permanência dos alunos na escola, direcionando a expansão da jornada para o efetivo trabalho escolar, combinado com atividades recreativas, esportivas e culturais.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Privatização das Escolas Públicas via PPP: Desafios, Experiências e o Futuro da Educação Integral no Brasil



Nos últimos anos, a discussão sobre Parcerias Público-Privadas (PPPs) em escolas públicas se intensificou no Brasil, especialmente em São Paulo, mas também em outros estados e municípios. O tema envolve questões jurídicas, pedagógicas, políticas e financeiras, e se conecta diretamente à tradição histórica da educação integral e democrática, exemplificada pelos CIEPs criados por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro.

Este artigo analisa amplamente o debate, destacando experiências estaduais e municipais, impactos no ensino integral, desafios de gestão democrática, mitos sobre eficiência e a relevância política do tema no contexto eleitoral de 2026.


1. O caso de São Paulo: PPPs e judicialização

O governo do Estado de São Paulo lançou recentemente PPPs para construção, manutenção e operação de serviços não pedagógicos em novas escolas estaduais. Segundo o modelo:


  • A concessionária privada é responsável pela construção e reforma de unidades escolares;
  • Pela manutenção predial e infraestrutura;
  • Por serviços de apoio não pedagógicos, como limpeza, alimentação, vigilância e tecnologia;
  • Pela gestão de insumos, utilidades e espaços físicos.


O ensino e a gestão pedagógica permanecem sob responsabilidade do Estado, incluindo professores, currículo, avaliações e atividades educativas.


Judicialização em São Paulo

O projeto gerou ampla judicialização que foi a Ação Civil Pública nº 1082708-91.2024.8.26.0053, movida pela APEOESP contra o Estado:


  • A Justiça Estadual de São Paulo, através de decisão da Desembargadora Marcia Dalla Déa Barone, suspendeu os leilões e editais, alegando risco à autonomia pedagógica, à gestão democrática e ao princípio da indisponibilidade do interesse público. O tribunal destacou que a transferência de funções administrativas e de infraestrutura para empresas privadas poderia interferir indiretamente na educação, afetando o uso de espaços escolares e a participação da comunidade.

  • O STF, na apreciação do Suspensão de Segurança (SS) nº 1.805-MC/SP, da relatoria do então ministro Luís Roberto Barroso, reverteu a suspensão, argumentando que:

    • As PPPs não configuram privatização do ensino, pois a responsabilidade pedagógica permanece com o Estado;
    • base legal para parcerias público-privadas em serviços públicos não pedagógicos;
    • Suspender os contratos prejudicaria a política pública de ampliação de vagas e melhoria de infraestrutura.


2. Experiências em outros estados e municípios



Enquanto São Paulo concentrou o debate judicial, outros entes federados também implementaram PPPs em educação, cada um com características próprias:


  • Minas Gerais: contratos semelhantes para 95 escolas estaduais, abrangendo obras e serviços de apoio. Os debates focaram na eficiência operacional versus riscos de privatização encoberta.
  • Paraná: o projeto “Parceiro da Escola” buscou terceirizar a gestão administrativa de mais de 200 escolas. Consultas públicas revelaram forte rejeição comunitária, com críticas sobre a limitação da participação da comunidade e impacto na gestão democrática.
  • Belo Horizonte: experiência mais antiga, com PPPs para construção e manutenção de unidades escolares municipais da capital mineira. O controle pedagógico permaneceu com o município, e indicadores apontaram melhoria na infraestrutura e liberação do foco pedagógico, embora o impacto sobre aprendizagem ainda seja difícil de medir.


Síntese das experiências:


  • PPPs tendem a melhorar infraestrutura e serviços de apoio;
  • Impacto direto sobre aprendizado e qualidade pedagógica é incerto;
  • A gestão democrática e participação da comunidade escolar podem ser afetadas se não houver supervisão adequada;
  • A promessa de maior eficiência da gestão pública não necessariamente se concretiza, especialmente em contratos de longo prazo com lucro privado e financiamentos.


3. Educação integral e o legado dos CIEPs



Os CIEPs, criados por Brizola e Darcy Ribeiro, são um ícone da educação integral brasileira, caracterizados por:


  • Permanência do aluno em tempo integral;
  • Oferta de atividades pedagógicas, culturais, esportivas e de saúde;
  • Infraestrutura robusta para múltiplas atividades;
  • Participação da comunidade escolar na gestão.


O desafio para governantes que assumirem estados com contratos de PPPs vigentes por décadas é compatibilizar essas parcerias com a visão de escola integral:


  • Compatibilidades: PPPs podem manter e melhorar a infraestrutura necessária e liberar professores para se concentrarem em atividades complementares;
  • Tensões potenciais: contratos privados podem limitar o uso de espaços, horários e flexibilidade para atividades multidisciplinares, reduzindo a autonomia pedagógica e a participação democrática.


Estratégias de conciliação para não desfazer contratos vigentes:


  • Revisão e negociação de cláusulas contratuais;
  • Indicadores de desempenho voltados à integralidade;
  • Conselhos escolares fortalecidos;
  • Fiscalização e auditoria constante pelo Estado.


4. Eficiência e mito da privatização



Apesar da retórica de que PPPs aumentam a eficiência, a experiência brasileira mostra que esse efeito não é automático e, em alguns casos, pode ocorrer justamente o contrário.

As PPPs tendem a gerar ganhos claros e mensuráveis em infraestrutura e serviços de apoio, como manutenção predial, limpeza, alimentação e vigilância.

No entanto, o impacto sobre aprendizagem e desempenho escolar é indireto e ainda não plenamente comprovado. Em termos de custo-benefício, contratos de longo prazo podem resultar em despesas superiores à gestão direta do Estado, devido a lucro privado, financiamento e reajustes contratuais. Por isso, PPPs não substituem o investimento público planejado nem garantem, por si só, uma educação melhor.

Além disso, dados empíricos de experiências brasileiras ajudam a contextualizar esses resultados. Em Belo Horizonte, estudos sobre escolas municipais sob PPP mostraram que o tempo de construção das unidades foi reduzido em cerca de 45% em comparação ao modelo tradicional, permitindo entrega mais rápida de infraestrutura adequada e liberando diretores para se concentrarem em atividades pedagógicas. Indicadores de desempenho do SAEB apontaram melhorias modestas em algumas disciplinas, especialmente matemática, sugerindo que a infraestrutura e a organização escolar influenciam parcialmente o aprendizado, embora o efeito pedagógico não seja uniforme nem conclusivo. Avaliações econômicas, seguindo metodologia de Value for Money, indicaram que a PPP pode apresentar vantagens no uso de recursos públicos ao longo do tempo, desde que haja fiscalização constante e gestão eficiente. Ao mesmo tempo, a literatura brasileira destaca que tais resultados são contextuais, heterogêneos e limitados, e que a eficiência ou os ganhos em aprendizagem não são garantidos automaticamente, reforçando a necessidade de supervisão rigorosa e políticas complementares de ensino para que a parceria contribua efetivamente para uma educação integral e de qualidade.

Dessa forma, embora as PPPs possam melhorar infraestrutura e liberar recursos humanos para atividades pedagógicas, elas não substituem políticas públicas robustas nem garantem, por si só, a qualidade educacional, sendo imprescindível o planejamento, a fiscalização e o alinhamento com objetivos pedagógicos claros.


5. Democracia nas escolas



A participação democrática na gestão escolar é central, presente desde os CIEPs:


  • Conselhos escolares e participação da comunidade são essenciais para manter decisões pedagógicas alinhadas às necessidades locais;
  • As PPPs devem respeitar e integrar essa participação, evitando que a gestão privada sobreponha interesses comerciais à educação integral.


6. Relevância do debate em 2026

Não podemos esquecer que 2026 é um ano eleitoral, em que governadores e deputados estaduais definirão políticas educacionais para os próximos anos nos entes federados regionais. O debate sobre PPPs é estratégico porque:


  • A continuidade ou expansão de PPPs dependerá da visão política de cada gestão;
  • Projetos inspirados nos CIEPs podem ser afetados por contratos existentes;
  • É necessário decidir se se prioriza infraestrutura e serviços terceirizados ou investimento direto em educação integral, democrática e de qualidade;
  • A compreensão crítica dos riscos e benefícios permitirá à sociedade exigir transparência, fiscalização e respeito à autonomia escolar.


7. Conclusão e base legal



A Constituição Federal de 1988 estabelece a educação como direito de todos e dever do Estado e da família (Art. 205), assegurando igualdade de condições de acesso e permanência na escola (Art. 206, I). E, por sua vez, o Art. 214 reforça a obrigação do poder público de oferecer educação básica de qualidade, priorizando políticas de universalização e redução de desigualdades. A gestão democrática integra esse conjunto de princípios e garantias constitucionais.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996) regulamenta esses princípios, detalhando direitos, deveres e organização do sistema educacional, sendo que a Lei nº 14.644/2023 reforçou a gestão democrática, instituindo Conselhos de Escola e Fórum de Conselhos Escolares, ampliando a participação da comunidade nas decisões da unidade de ensino.

No âmbito administrativo, a LDB define escolas públicas como aquelas “criadas ou incorporadas, mantidas e administradas pelo Poder Público” (Art. 19, I), e o Art. 77 reforça que os recursos públicos devem ser destinados às escolas públicas, consolidando a necessidade de gestão responsável e transparente, especialmente quando se discutem PPPs.

No Rio de Janeiro, onde os CIEPs marcaram a história, contratos de PPPs longos podem limitar a flexibilidade educacional, contrariando o Art. 214 da Constituição Federal. Aliás, a legislação regional também impõe restrições: o Art. 68, §6º da Constituição fluminense veda concessões de bens públicos a privados com fins lucrativos quando há destinação social específica, enquanto que o Art. 65 permite convênios com entes públicos, mas não parcerias privadas diretas sem lei específica. E, dentro desses limites, a Lei Estadual de PPPs (Lei nº 5.689/2010) regula o tema infraconstitucionalmente.

Portanto, uma proposta de privatização de escolas no Estado do RJ tensiona com o legado dos CIEPs, pois contratos longos podem limitar a flexibilidade estatal para priorizar atividades educativas integrais.

Em síntese, o debate sobre PPPs, CIEPs e educação integral é central para o futuro da educação brasileira, exigindo que gestores públicos, comunidades escolares e sociedade civil busquem equilibrar eficiência operacional, qualidade pedagógica e democracia escolar, em consonância com a Constituição e a legislação vigente.


OBS: Créditos das imagens das escolas atribuídas à Rovena Rosa/Agência Brasil. Fotos dos protestos extraídas de sites de sindicatos sem indicação de autoria.