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sábado, 10 de outubro de 2026

Carlos Lacerda, Eduardo Paes e o direito de tentar outra vez



“Aqueles que não conseguem recordar o passado estão condenados a repeti-lo.” — George Santayana


Nesta semana, depois dos acontecimentos jurídicos que encerraram sua disputa pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, Eduardo Paes publicou uma mensagem de agradecimento pelas manifestações de apoio que vinha recebendo. Reconheceu sua tristeza por não poder realizar o projeto político que defendia, mas afirmou estar com a consciência tranquila pelo dever cumprido.

Para expressar seus sentimentos, recorreu a uma passagem de Depoimento, de Carlos Lacerda, na qual o antigo governador da Guanabara reflete sobre a ambição de chegar à Presidência da República e sobre a satisfação de reencontrar a liberdade para ler, estudar, trabalhar e aproveitar a vida depois das frustrações políticas.

Paes também anunciou que começaria a leitura do primeiro volume da nova biografia de Lacerda, Coração de tempestade, escrita pelo jornalista Mário Magalhães e publicada pela Companhia das Letras.


“Agradeço as muitas manifestações de carinho e apoio que venho recebendo desde ontem.

Estou triste por não poder fazer mais por nosso Estado e nossa gente mas com a consciência tranquila do dever cumprido e de que travei o bom combate!

Nessas horas alguns ensinamentos de homens públicos com muito história e independente de posições políticas, sempre ajudam!

Abaixo trecho do livro “Depoimento” de Carlos Lacerda.  Troquem o presidente pelo governador e vocês entenderão como me sinto.  Foram mais de 30 anos dedicados ao Rio e sua gente com muitas entregas e reconhecimento.  Nada a reclamar!  Só gratidão e alegria!  

'Nunca negarei que a idéla de ser presidente me atraía, como um dever público. Sem essa tolice de carismático, nome pelo qual os tolos que querem ser líderes chamam os líderes que não querem ser tolos. Mas, capaz de aliciar capacidades e dedicações e ter certo jeito para ver, entre as soluções impostas, a que mais convém, não tendo mêdo nem inveja de ninguém, creio que podia governar razoavelmente - pelo menos bem melhor do que os vira-copos que pousaram na sorte do Brasil.

No entanto, a alegria de estar livre é imensamente compensadora. O prazer de poder ler , estudar, conviver, trabalhar para ganhar a vida, espiar o mundo, sentir todo dia, numa infinita gratidão a Deus, a maravilha de viver, tôda essa felicidade, sem ser por culpa minha, vale muito mais do que ser apenas presidente da República - por mais honroso, glorloso e histórico que isto possa vir a ser.'

Abaixo o primeiro volume da biografia de Carlos Lacerda por Mario Magalhães que vou começar a ler hoje!”


Cabe aqui uma distinção. A passagem utilizada por Paes foi extraída de Depoimento, obra do próprio Carlos Lacerda. Já o primeiro volume da biografia de Mário Magalhães percorre os anos de 1914 a 1955, examinando a formação e as contradições políticas do personagem, mas sem alcançar os acontecimentos de 1964 e os desdobramentos que frustrariam suas pretensões presidenciais. São, portanto, duas obras distintas, que ajudam a compreender diferentes momentos de uma trajetória marcada por conflitos e reviravoltas.

Todavia, a escolha por essa lembrança histórica despertou minha atenção.

Carlos Lacerda foi um dos personagens mais importantes e contraditórios da história política brasileira do século XX. Jornalista, extraordinário orador, governador da Guanabara e protagonista de sucessivas crises nacionais, possuía uma ambição que jamais conseguiu realizar: tornar-se presidente da República.

Mas sua trajetória oferece uma lição que vai muito além da capacidade de aceitar derrotas ou da satisfação de reencontrar a vida privada.

Lacerda descobriu, de maneira amarga, que a ruptura das regras democráticas pode destruir justamente as oportunidades políticas daqueles que contribuíram para promovê-la.

Em 1964, o então governador da Guanabara esteve entre os apoiadores do movimento civil-militar que depôs o presidente João Goulart. Lacerda acreditava que aquele processo abriria caminho para uma reorganização política do país e, eventualmente, para sua própria candidatura presidencial.

Naquele momento, a próxima eleição presidencial estava prevista para outubro de 1965 e deveria ocorrer pelo voto direto, conforme o sistema eleitoral estabelecido pela Constituição de 1946.

Entretanto, poucos meses depois do golpe, o Congresso aprovou a prorrogação do mandato do general Castelo Branco até março de 1967. A medida, formalizada pela Emenda Constitucional nº 9, de julho de 1964, adiou a eleição presidencial para 1966, embora ainda preservasse a previsão de escolha direta pelo eleitorado.

Apesar dessa primeira frustração, Lacerda continuou alimentando suas pretensões presidenciais. Em 8 de novembro de 1964, sua candidatura foi oficialmente confirmada pela União Democrática Nacional (UDN).

Ao longo de 1965, suas divergências com Castelo Branco se aprofundaram. Em 8 de outubro, Lacerda comunicou oficialmente à UDN sua desistência da candidatura presidencial e rompeu publicamente com o presidente, num pronunciamento pela televisão. O afastamento, que vinha se desenvolvendo desde a prorrogação do mandato presidencial em 1964, tornava-se explícito.

Poucos dias depois, em 27 de outubro de 1965, o Ato Institucional nº 2 aprofundou o fechamento do regime, extinguiu os partidos políticos existentes e estabeleceu a eleição indireta para presidente da República pelo Congresso Nacional. Foi por esse sistema que, em outubro de 1966, o general Costa e Silva seria escolhido para suceder Castelo Branco..

O governador que havia apoiado a deposição de João Goulart percebeu que as regras do jogo político estavam sendo modificadas de maneira a impedir suas próprias pretensões.

Mais tarde, romperia com o regime e participaria da Frente Ampla, ao lado de antigos adversários, como Juscelino Kubitschek e João Goulart, em defesa da redemocratização.

A iniciativa foi proibida em 1968. No mesmo ano, após a edição do AI-5, Lacerda teve seus direitos políticos suspensos por dez anos.

O ex-governador morreu em 1977, sem realizar o sonho de disputar a Presidência pelo voto popular e sem testemunhar o restabelecimento da democracia brasileira.

Não se trata de atribuir exclusivamente a Lacerda a responsabilidade pelo golpe ou pela ditadura, mas de reconhecer sua participação naquele processo e a contradição histórica que marcou seu destino.

Ao apoiar a ruptura da ordem democrática, Lacerda contribuiu para fortalecer forças que posteriormente lhe retirariam a possibilidade de realizar seu projeto político.

É nesse ponto que a reflexão se aproxima do nosso presente.

Eduardo Paes acaba de enfrentar uma derrota particularmente difícil. A disputa pelo Governo do Estado, que inicialmente teria segundo turno, foi encerrada após a decisão da Justiça Eleitoral sobre os votos atribuídos a Anthony Garotinho e a consequente retotalização, que confirmou a eleição de Douglas Ruas no primeiro turno.

É compreensível que Paes esteja frustrado. Também é legítimo que deseje algum tempo para descansar, estar com a família e refletir sobre seus próximos passos.

Sua trajetória, construída ao longo de décadas de vida pública, não pode ser reduzida ao resultado de uma eleição.

No entanto, o Brasil continua vivendo um momento político importante.

A eleição estadual terminou, mas o pleito presidencial, não.

No próximo dia 25 de outubro, voltaremos às urnas para escolher o presidente da República. Independentemente das preferências partidárias, é uma decisão que exige atenção não apenas aos programas de governo, mas também ao compromisso de cada liderança com as instituições democráticas, o pluralismo e os limites constitucionais do poder.

A democracia precisa ser preservada inclusive — e sobretudo — por aqueles que atravessam derrotas políticas.

Isso não significa comparar automaticamente o Brasil de 2026 com o de 1964. As circunstâncias históricas são profundamente diferentes, assim como são diferentes as instituições e os instrumentos de proteção constitucional atualmente existentes.

Entretanto, devemos reconhecer que a História deve servir de advertência. Decisões políticas tomadas em momentos de conflito podem produzir consequências que ultrapassam os interesses imediatos de seus protagonistas.

E há outro personagem da política brasileira cuja trajetória oferece um contraponto interessante à de Carlos Lacerda.

Luiz Inácio Lula da Silva disputou a Presidência em 1989 e perdeu. Voltou a concorrer em 1994 e foi derrotado novamente. Tentou mais uma vez em 1998, sofrendo sua terceira derrota consecutiva.

Somente em 2002, na quarta tentativa, conseguiu chegar à Presidência.

Recordo, com alguma dose de bom humor, a antiga tradição do Fantástico de dedicar uma música ao jogador que marcava três gols numa partida. Lula também poderia ter recebido uma música pelas três derrotas presidenciais antes da vitória de 2002.

A brincadeira ajuda a lembrar uma verdade importante: numa democracia, a derrota eleitoral não precisa representar o fim de uma trajetória política.

Observem que Lula teve a oportunidade de continuar disputando eleições porque o país havia recuperado o direito de escolher seus governantes pelo voto popular.

Carlos Lacerda, porém, não teve essa possibilidade. Não porque lhe faltassem capacidade política, disposição ou ambição, mas porque o regime que inicialmente apoiara suprimiu as condições democráticas necessárias à realização de seus projetos.

Essa diferença merece ser lembrada.

Vivemos tempos em que frequentemente se confunde a defesa de determinado governante com a defesa das próprias instituições. São coisas diferentes.

Nenhum presidente, governador ou prefeito é indispensável à democracia. Nenhum partido possui o monopólio de sua defesa. E nenhum projeto político deveria depender da concentração permanente de poder nas mãos de uma única liderança.

Pelo contrário, precisamos fortalecer instituições capazes de funcionar independentemente da personalidade, da popularidade ou da força eleitoral de seus ocupantes.

Isso exige diálogo, respeito às divergências, limites efetivos ao poder e uma sociedade civil organizada e participante.

A democracia não existe para assegurar que nossos candidatos vençam. Existe para garantir que o povo possa escolher, que os governantes possam ser substituídos e que os derrotados tenham o direito de continuar defendendo suas ideias.

Por isso, a reflexão suscitada pela publicação de Eduardo Paes em suas redes sociais vai além de seu futuro político pessoal.

Sua trajetória ainda poderá reservar novas disputas, novas oportunidades e contribuições importantes ao Rio de Janeiro. Mas, para ele e para todos os demais personagens da vida pública brasileira, existe uma condição essencial: preservar as instituições democráticas que tornam essas possibilidades reais.

Carlos Lacerda aprendeu isso tarde demais.

A História não precisa se repetir para que possamos aprender com ela.

Afinal, a democracia não garante a vitória de ninguém. Garante algo muito mais importante: o direito de tentar outra vez.