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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Perdoar sempre



Pode-se dizer que uma das características principais do ensino de Jesus está relacionada ao perdão. Para o Mestre, isto era mais do que uma faculdade. Seria um dever ético-existencial. Algo que precisa, inclusive, integrar a nossa vida espiritual diária nos momentos de oração como se vê no Pai Nosso.

No capítulo 17 do Evangelho de Lucas, após ter advertido sobre os "escândalos" (tropeços), conforme anteriormente estudado, nosso Senhor toca agora no assunto do perdão. Devemos perdoar a todos! Até quem armou uma cilada para nos derrubar. Inclusive aquelas pessoas que nos perseguem e pecam reiteradamente. Não importa por quantas vezes venham a errar:

"Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe." (Lc 17:3-4; ARA)

Podemos entender que tanto o perdão quanto a hostilidade seriam processos que desenvolvemos nas nossas vidas. Tudo começa a partir da nossa própria disposição em perdoar e se manifesta através das atitudes positivas que tomamos. Perdoar, sob certo aspecto, poderia ser não procurar o mal daquela pessoa que nos prejudicou, mesmo que os nossos sentimentos continuem por um tempo ainda feridos.

Tenho verificado que muitos cristãos culpam demasiadamente a si próprios pelo fato de não conseguirem apagar ressentimentos e mágoas passadas de suas memórias, ou porque continuam tendo problemas de convivência com determinadas pessoas de comportamento difícil. Assim, entendo que ninguém deve se condenar por não conseguir gostar vibrantemente do outro. Basta que se tome a atitude condizente com a escolha do perdão: não se vingar, não ficar cultivando o ódio dentro de si, não fechar as portas do diálogo construtivo, não humilhar o outro, não tratar mal, etc.

Entretanto, restringir o convívio pode ser uma atitude sábia para evitarmos novos atritos e situações que sejam fontes de aborrecimentos. Um indivíduo problemático provavelmente irá repetir os mesmos erros e aí temos que ser bem cautelosos e prudentes no trato com essa pessoa. E, se uma parceria não tem dado certo no momento, corremos o risco de que certas coisas desagradáveis venham a reincidir ou aconteçam outras piores.

Lembremos da história bíblica de Jacó e Esaú, dois irmãos que já lutavam entre si desde o ventre de Rebeca (Gn 25:22-23). Segundo a narrativa de Gênesis, Jacó teria recebido a bênção da primogenitura no lugar de Esaú fazendo-se passar por este e se aproveitando do estado de enfermidade do pai. Por isso, o irmão mais velho tentou matá-lo e Rebeca mandou então o filho fugir para as terras do tio Labão (irmão da mãe), no norte da Mesopotâmia. Lá Jacó ficou trabalhando para o homem que seria o seu futuro sogro durante umas duas décadas e, só depois disto, quando já tinha família constituída e um numeroso rebanho de animais, foi que precisou regressar à Terra Prometida. Neste retorno, o grande patriarca da nação israelita reencontra Esaú em seu caminho e ambos se reconciliam (Gn 33:4). Contudo, Jacó optou sabiamente por não conviver outra vez com o seu irmão, contentando-se apenas com o perdão recebido. Cada qual foi para o seu lado e continuaram coexistindo através de um distanciamento físico (Gn 33:16-17).

Igualmente percebo que o perdão é algo capaz de se harmonizar com posicionamentos adequados para cada situação fática. Mas, ainda assim, não temos como impedir a ocorrência de novos conflitos por conta de uma convivência que se torne inevitável no nosso cotidiano. Principalmente nos meios familiar, comunitário e até eclesiástico. Tanto é que Jesus falou no pecado do irmão. Não do estranho. E aí, em se tratando de alguém que busca a conversão e procura viver conforme a verdade, sendo transparente nas suas posições, não podemos recusar reaproximações com essa pessoa.

Alguém pecar contra nós por sete vezes num mesmo dia parece muita coisa, não?! Pelo menos seis arrependimentos mostraram-se talvez insuficientes/imperfeitos para mudar a conduta da pessoa. Significa um novo conflito a cada umas duas ou três horas! Porém, vejo neste exagero proposital do nosso Senhor um princípio de vida em que não importa por quantas vezes o outro falhou conosco, devemos estar sempre dispostos a perdoar. E, quando o arrependimento torna-se finalmente perfeito, é um sinal verde para se construir um bom relacionamento com excelente proveito para a nossa caminhada evolutiva.

Duas questões podem ser levantadas: seria o perdão condicionado ao arrependimento do irmão ou a uma quantidade de sete vezes num dia? Certamente que não! Mas eu diria que a comunhão entre irmãos depende de uma reconciliação acompanhada do arrependimento de quem cometeu o erro, ou quem sabe até de ambos.

Outrossim, creio ser necessário concedermos sempre uma nova chance. O que é o nascimento de uma criança senão a oportunidade de vivermos? Assim também penso que nada justifica riscarmos o outro das nossas vidas pois isto seria o mesmo que sentenciá-lo à morte em relação a nós. Dentro do nosso convívio pessoal, familiar ou comunitário precisamos ter sempre o foco na reintegração do indivíduo, o que deve ser o fim de toda medida de caráter disciplinar. Esta terá sempre uma duração temporária. Havendo o arrependimento, a disciplina termina.

Finalmente, a comentada mensagem de Jesus aponta para a maneira como Deus nos trata. Se pensarmos no "dia" como a duração de nossa existência terrestre e na quantidade de sete perdões como uma conta perfeita/completa, entenderemos que o Pai Celestial é capaz de nos reabilitar todas as vezes quantas forem necessárias. Pecamos muito, pedimos perdão, tornamos a errar (inclusive nas mesmas coisas) e, novamente, voltamos arrependidos para os seus braços. Em nenhum momento somos rejeitados! A graça vai sempre superar tudo. Jamais deixamos de ser amados e o fato de vivermos é uma prova incontestável  de que continuamos recebendo uma nova chance de acertar, de compreender, de melhorar e de crescer.

Assim também precisamos agir com os nossos irmãos. No Pai Nosso aprendemos sobre liberar os ofensores quando estamos em oração pedindo perdão pelos nossos pecados. E, sendo assim, se recebemos do Criador bendito a sua inesgotável graça, por que haveremos de ser incoerentes no trato com o outro? Por que agirmos com egoísmo em relação à generosidade da vida?

É preciso perdoar. Sempre!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro A reconciliação de Jacó e Esaú pintado em 1624 pelo artista barroco flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640). A obra encontra-se atualmente na Galeria Nacional da Escócia e a imagem foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Rubens_Reconciliation_of_Jacob_and_Esau.jpg

domingo, 15 de setembro de 2013

Sucesso na cirurgia de Núbia!

"Bendize, ó minha alma, ao SENHOR,
e não te esqueças de nem um só
de seus benefícios."
(Salmo 103:2; ARA)

Boa noite, amigos!

Confirmando a informação da última postagem, minha esposa Núbia Mara Cilense operou a coluna esta última sexta-feira, dia 13/09, no Hospital da Unimed, na Barra da Tijuca, Zona Oeste Rio de Janeiro.

Para quem ainda alimenta essas crendices sem sentido, de que, por exemplo, sexta feira 13 seria um dia de azar, posso dizer que para nós foi uma data de pura sorte. Ou melhor, de bênção!

Saímos de Muriqui/Mangaratiba ainda na quinta-feira (12) e pegamos umas quatro conduções até chegarmos ao hospital. Após nos identificarmos na portaria, fomos para o quarto 319, no 3º andar. Fiquei impressionado com o atendimento de qualidade que tivemos já na recepção. O local tem mesmo uma estrutura de primeiro mundo, tudo bem limpinho, novo e organizado. De fato, corresponde às expectativas do vídeo publicitário que a Unimed postou no Youtube dias antes da inauguração da unidade:



Ainda assim, ficamos um pouco ansiosos na véspera com dificuldades para pegar no sono. Afinal, somos humanos e quem é que não se sente nem um tantinho preocupado antes de uma cirurgia, não é mesmo? Custamos a dormir apesar de todo o conforto do quarto e das equipes de enfermagem, governança, faxina e nutrição, cujos integrantes, desde o começo, procuraram conhecer com detalhes as nossas necessidades.

Na manhã do dia 13, já estávamos de pé antes do cirurgião médico e da anestesista chegarem. Recebemos as devidas orientações pré-operatórias e, quando levaram Núbia na maca, tive que desocupar o quarto para outro paciente usar. Deixei nossos pertences aos cuidados da governança já que, após o procedimento, minha esposa ainda passaria um tempinho em observação no CTI do hospital.

Não havia mais nada o que poderia fazer. Resolvi dar uma caminhada ali pela avenida Ayrton Senna e passei umas horas num shopping dedicado a coisas sobre produtos para residências. Depois retornei e fui almoçar num restaurante terceirizado que há no subsolo hospital. Estava ótima a comida e tive uma razoável variedade de salada para fazer meu prato lacto-vegetariano. Mas, antes mesmo da refeição, o médico e a anestesista me viram na recepção afim de me dar as boas notícias sobre o sucesso da cirurgia. Foi um alívio!

Próximo ao primeiro horário de visita no CTI, das 14 às 16 horas, fui ver Núbia que já se encontrava em seu leito. Ao contrário da outra ocasião em que tinha operado a vesícula, em abril de 2011, desta vez ela não ficou mal humorada. O hospital estava tentando fazer contato comigo porque minha esposa queria muito me ver.

Assim, fui estar com ela pelo período de visitação tendo avisado familiares e amigos que aguardavam notícias. Saí de lá e acabei retornando para dormir em Muriqui de sexta para sábado porque não pode ficar acompanhante no CTI. Achei melhor não contrariar as normas do hospital apesar de discordar. Até mesmo porque eu estava exausto e precisava descansar.

No sábado (14), saí cedinho de casa e fui direto para a Barra pensando que Núbia sairia do CTI logo pela manhã, conforme previsão médica. Só que ainda não tinha quarto disponível e acabei encontrando-a só no horário de visita. Soube por ela que, na manhã, o fisioterapeuta fez com que já caminhasse, o que era sinal de que a cirurgia tinha alcançado bom resultado. Na ocasião da visita, sua amiga Márcia, que mora em Vila Valqueire, Zona Norte do Rio, chegou também para estar conosco lá. Em 2012, ambas se conheceram quando minha mulher precisou ficar internada numa clínica e, desde então, mantiveram contato.

Já no finalzinho do período de visitação, Núbia foi transferida para o quarto 307. Foi outro alívio! Conversamos melhor do que no CTI, assistimos TV e consegui dormir bem. Eu estava muito mais relaxado do que na primeira noite. Só não me adaptei foi ao frio do ar condicionado. Um gelo pra quem não está habituado.

Na manhã de hoje (15), seu médico Dr. Paulo José veio vê-la. Tirou o dreno e nos liberou para retornarmos para a casa na presente data. Combinamos de sair até às 16 horas. Antes disto, recebemos outra visita: minha mãe e seu namorado Márcio. Batemos papo por cerca de uma hora até que o táxi chegou.

Felizmente, Núbia suportou bem a viagem de volta da Barra até Muriqui. O motorista teve que dirigir com velocidade e cuidados compatíveis para evitar certas trepidações desagradáveis. Seguimos pela Avenida das Américas até Santa Cruz, atravessando o túnel José de Alencar, uma das mais recentes obras do governo e que beneficiou muito morador da Zona Oeste carioca encurtando distâncias. Aí pegamos a rodovia Rio-Santos que estava com um fluxo bem intenso de carros vindo no sentido oposto, de Angra dos Reis para o Rio de Janeiro. E, antes das 16 horas, agente estava na nossa casinha revendo os dois gatos de estimação: o Tigrão e a Sofia.

Confesso que até agora não tenho cessado de agradecer a Deus por esta vitória. Sem dúvida, o Senhor é fiel! Sei que muita gente orou por nós e sou grato por tanta solidariedade de parentes, amigos, conhecidos e até dos desconhecidos que jamais viram os nossos rostos, pessoas que têm contato comigo somente pela a internet. E posso dizer que foi a mão do Pai Celestial que nos guiou, nos protegeu, dando direção e força em todos os momentos. Que minha alma jamais esqueça deste e de tantos outros benefícios que o Criador graciosamente nos concede.

Aleluia!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Cirurgia de Núbia prevista para esta sexta



Está marcada para a próxima sexta-feira (13/9/2013) a cirurgia na coluna de minha esposa Núbia Mara Cilense, lá no Hospital da Unimed, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Faz tempo que ela vem sofrendo de hérnia de disco, diagnosticada após uma ressonância magnética feita no primeiro semestre do ano, a ponto de ter que tomar anti-inflamatório. O encaminhamento cirúrgico deve-se ao fato do disco ter se desidratado precisando ser substituído por uma prótese. Assim, seu médico entendeu pela ineficácia de tentar tratamentos mais conservadores como a fisioterapia.

Peço aos amigos e conhecidos que orem por nós dois, bem como pelo neurocirurgião Dr. Paulo José Pereira da Costa que vai operá-la. Peçam a Deus para que tudo dê certo. Seja na nossa ida para o hospital, no momento da internação, na aplicação da anestesia, na cirurgia em si, no processo pós-operatório e no retorno para casa. Orem ainda pelo estado psíquico-emocional dela afim de que Núbia fique calma. E por mim para que esteja firme ao seu lado lhe dando força, ânimo, atenção e afeto.

Suponho que muitos tenham se acostumado com minhas frequentes postagem no blogue que se tornaram quase diárias depois que a internet foi instalada aqui em casa no mês de maio. Às vezes são até mais de uma publicação na mesma data! Entretanto, precisarei ausentar-me da rede por esses dias. Os estudos bíblicos sobre o Evangelho de Lucas, iniciados em junho, pretendo continuar compartilhando aqui quando as coisas ficarem mais tranquilas.

Aos cuidados do Criador entrego a vida e a saúde de minha esposa! Diz a Bíblia ter Isaque orado a Deus por sua mulher Rebeca, porque esta era estéril, e suas petições foram ouvidas, de modo que ela concebeu (Gênesis 25:21). Assim também espero no poder e na graça do Altíssimo afim de que a saúde total de Núbia seja restaurada e renovada completamente. Em nome de Jesus, meu Senhor e Salvador!

As pedras de tropeço na nossa caminhada


"Disse Jesus a seus discípulos: É inevitável que venham os escândalos [pedras de tropeço], mas ai do homem pelo qual eles vêm! Melhor fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos" (Evangelho de Lucas, capítulo 17, versículos 1 e 2; versão ARA)

Grande é a responsabilidade daqueles que desempenham um papel de liderança diante do povo de Deus. Neste ensino de Jesus, dirigido diretamente aos discípulos (à Igreja), temos aí uma forte advertência do Mestre contra os "escândalos".

Primeiramente importa esclarecer aqui o que seriam os escândalos. O termo skandalon, utilizado pelo escritor do evangelho para expressar comparativamente em grego as mensagens de Jesus, tinha o significado de "pedra de tropeço" (conferir com Mt 16:23), o que não encontra um correspondente exato dentro do nosso idioma. Pode-se dizer que seria causar uma "queda", induzir a outra pessoa em erro.

"A palavra grega originalmente designava o alimento colocado na haste de uma armadilha; veio a significar, depois, qualquer coisa que faz tropeçar e cair numa armadilha." (Comentários da Bíblia de Estudo de Genebra ao verso 1 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas)

Criar tropeços para o irmão cair pode ter uma significação bem ampla! Seriam inúmeras as hipóteses capazes de se enquadrar nesta situação, todas caracterizadas pela intensão do agente em induzir o outro em erro plantando astuciosas ciladas. Logo, será sempre uma conduta dolosa, fruto da mais diabólica malícia.

Em regra, o sujeito enganador busca despertar bons sentimentos na outra pessoa. Ele sabe que está tentando manipular alguém que é sincero, de bom coração, capaz de valorizar sua honra, praticar prontamente a caridade, nutrir expectativas, agir com fidelidade na relação afetiva e não consentir com o mal. Então, como nem sempre os honestos são suficientemente prudentes a ponto de perceberem a maldade humana, eles acabam sendo vítimas das mentiras.

Logo no comecinho da Bíblia, temos um conhecido exemplo de tropeço. No assassinato de Abel, Caim atraiu o próprio irmão ao campo afim de poder matá-lo  num local que presumimos ser deserto onde ninguém poderia impedir sua conduta como se lê em Gênesis 4:8. Certamente conseguiu isso aproveitando-se da ingenuidade e da confiança da vítima. E outra situação semelhante vai ocorrer no episódio do extermínio dos siquemitas pela traição de Simeão e de Levi para vingarem a defloração de Diná (Gn 34).

Mais adiante, ainda na própria Torá de Moisés, lemos sobre o conselho que o profeta Balaão deu a Balaque, rei de Moabe, para fazer tropeçar os filhos de Israel (Nm 25:1-4). Já que havia sido impedido de amaldiçoar o povo pelo Anjo do SENHOR, ele ensinou como o perverso monarca atrairia a ira divina em seu favor. Ou seja, as mulheres moabitas, com seus serviços de prostituição, induziriam os israelitas a participarem de abomináveis sacrifícios idólatras. E, agindo de tal maneira, o povo, que estava destinado para a bênção, tornaria-se a causa do problema, passando a colher pragas e malefícios pela desobediência.

Assim, com tanta fartura de exemplos bíblicos já em sua época, muito sábio foi o posicionamento de Jesus ao prever a ocorrência de futuros tropeços no meio da Igreja. Nosso Senhor, conhecendo profundamente o comportamento das pessoas, já esperava a ação de líderes que, após sua morte, armariam arapucas afim de desviarem as ovelhas do rumo certo. Homens capazes de qualquer coisa para adquirirem poder e riquezas. Nem que para isso seja necessário promover o obscurantismo religioso por meio das falsas doutrinas.

Observo que, nos dias atuais, os tropeços dentro da Igreja encontram-se muitas das vezes nos discursos sobre a prosperidade. Sendo os problemas financeiros umas das maiores necessidades das pessoas, eis que pastores mercenários iludem as suas ovelhas com promessas manifestamente contrárias ao Reino de Deus. Vendem o sonho de uma vida confortável (e até de esnobação) para os que se dispõem a ofertar valores pecuniários em suas  reuniões religiosas. Inventam inúmeras "campanhas" para o devoto achar que conseguirá alcançar certas "bênçãos" sendo que tudo não passa de charlatanismo puro com ouso deturpado dos textos bíblicos.

O pior é que condutas assim acabam afastando o povo do verdadeiro Evangelho. Ao invés das pessoas romperem com o sistema desse mundo corrompido, como propôs Jesus, elas aderem aos seus valores materialistas. Muitas até conseguem melhorar suas finanças pela determinação de um objetivo quando conseguem estabelecer metas para si. Só que, mesmo enriquecendo, o aprendizado sobre o Reino pode ser nulo. O que elas ouviram nessas "igrejas" foram meros conselhos de auto-ajuda numa área específica da vida. Nunca mensagens de transformação de caráter que incentivem o arrependimento e a nossa reciclagem interior como deveria ser.

Outros tropeços no meio cristão, a meu ver, estariam na auto-justificação pelas obras, nos métodos de coação psicológica, na idolatria propriamente dita que o catolicismo romano continua cultivando e ainda no intelectualismo teológico. Muitos deixam-se levar pelos maus líderes que, ao invés de repreenderem o pecado, sabem elogiar as posturas erradas e até mesmo encorajarem a rebeldia. Então, como o ser humano não gosta de ser reprovado, é fácil escorregar nessas cascas de banana deixadas em nosso caminho.

Nas relações pessoais também encontramos tropeços através de maliciosas palavras capazes de envenenar a mente do outro. Além das coisas que falamos, coloca-se "escândalos" nos caminhos de alguém através de condutas fraudulentas. Sem nada dizermos, pode-se influenciar a decisão do outro apenas pelo que se aparenta ser. Os gestos, a maneira de vestir ou de olhar não deixam de ser expressões da comunicação humana.

Considero inevitável que situações assim se repitam no nosso meio religioso, mas Deus tudo vê e nada ficará oculto. Aliás, antes mesmo do Juízo Final, as ações desses maus pastores já têm se revelado e as luzes do esclarecimento estão alcançando as mentes de muitos. Pois, sem dúvida, a História colocará as coisas no seu devido lugar no tempo certo de Deus.


OBS: Ilustração acima extraída do site http://www.propheticrevelation.net/the_sin_of_adam.htm

terça-feira, 10 de setembro de 2013

"Está posto um grande abismo entre nós e vós"



"Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós." (Evangelho de Lucas, capítulo 16, versículos 25 e 26; versão ARA)

A parábola do rico e do mendigo (Lc 16:19-31) nem sempre parece ser corretamente interpretada conforme o contexto literário no qual foi escrita. Muitos pregadores fazem dessa passagem bíblica uma verdadeira sessão terror criando a partir de uma metáfora equivocadas doutrinas sobre céu e inferno. Ignoram eles que Jesus apenas teria se utilizado de uma representação popularmente propagandeada em seu tempo. Algo que, possivelmente, fosse usado pelos fariseus para expressarem a recompensa por um bom comportamento terreno do homem piedoso após a morte no encontro com os ancestrais judeus.

Por outro lado, observo que muitos fizeram dessa historieta um indevido consolo conformista para o pobre anestesiar-se de seus sofrimentos provocados pelos ricos. Em diversas épocas, a Igreja, sendo ela mesma a causa das desigualdades sociais, adotou um discurso imobilista afim de que as massas de trabalhadores explorados encontrassem algum contentamento com uma possível condição futura melhor do que o presente. Para tanto, bastaria ao homem ser obediente e dócil ao sacerdote e ao seu senhor. Se o patrão comete injustiças, o pobre não precisava ficar revoltado porque tormentos estariam reservados para o ímpio no além túmulo.

Acontece que o Reino de Deus não é isso! A verdadeira Igreja jamais pode omitir-se deixando de tomar decisões éticas e políticas para combater a pobreza. Fingir estar ao lado dos desfavorecidos e reprimindo as iniciativas revolucionárias dos excluídos, significa contribuir para perpetuar uma perversa condição de desigualdade no ambiente social. E, lamentavelmente, este tem sido o papel do cristianismo dominante por muitos séculos. Aqui mesmo no Brasil, houve padres católicos e pastores evangélicos que praticam um anti-reino ao se aliarem às elites na repressão do trabalhador e muitos ainda estão ao lado do poder. Estes são os lobos que fazem da religião um instrumento de dominação das massas, retirando do oprimido as oportunidades e escolhas mais básicas para o seu desenvolvimento livre.

Entretanto, para bem entendermos a mensagem de Jesus, devemos mergulhar no contexto literário do 3º Evangelho como já foi dito. O tema do décimo sexto capítulo trata da questão das riquezas e, no versículo 14, o autor sagrado diz que os fariseus seriam "avarentos". Assim, algo me diz que, ao contar essa parábola, o Mestre estava também criticando os religiosos de sua época, os quais separavam-se do mundo pelo moralismo excludente que praticavam.

Conforme analisado no estudo bíblico anterior, os fariseus não foram necessariamente pessoas ricas como os sacerdotes do Templo. Eles teriam sido representantes de uma classe média. Porém, faziam da reputação moral um ídolo ao qual se apegavam e pretendiam justificar-se pelas obras feitas (verso 15). Logo, eles seriam também uma espécie de avarentos da moral.

Não quero afirmar com isto que o comentado ensino de Jesus tenha se restringido aos fariseus ou aos religiosos apenas. Vejo na parábola uma dimensão até bem ampla pois ela abrange as escolhas de vida dos ricos e nos permitem construir uma teologia libertadora num discurso voltado para o social. Inclusive porque nosso Senhor teria reprovado o apego aos bens materiais. Sua instrução foi que as pessoas distribuíssem as riquezas e não se preocupassem em acumulá-las (Lc 12:33; 16:9; 18:22). Tanto é que ele se recusou a julgar a controvérsia sobre a repartição da herança (12:13-14), algo que estava completamente fora daquilo que o Reino de Deus propõe (ler artigo "A vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui").

O que muito me chamou a atenção na parábola foi a separação entre o rico e o mendigo Lázaro. Tratava-se de uma realidade que já era pré-existente desde quando os dois estavam ainda na Terra. Embora o pedinte vivesse à porta daquele homem opulento, a sua presença ali era ignorada. Talvez até indesejada. E, neste sentido, quero citar aqui os comentários do teólogo namibiano Dr. Paul John Isaak, da Igreja Luterana:

"O pecado do homem rico é que ele não tinha coração. Olhava para um homem que tinha nome, mas não lhe perguntava o nome. Via a fome e a dor de Lázaro, mas não fazia nada a respeito. Aceitava a pobreza de Lázaro como parte da ordem natural das coisas e achava perfeitamente normal e inevitável que Lázaro permanecesse com fome, dor, sofrimento, doença e, finalmente, morte enquanto chafurdava no luxo. Não existe ninguém tão cego quanto aquele que não deseja ver. Após sua morte, o homem rico recebeu a punição devida àquele que não pratica ubuntu nem reconhecera que Lázaro era um ser humano semelhante a ele (16:23). Ele não reconhecera Lázaro como irmão e companheiro. Apreciando sua riqueza e saboreando a inveja que ela causava aos outros, ele não se deu conta, até que fosse muito tarde, de que a vida caracterizada pelo individualismo e pela recusa em partilhar o pão com o próximo é detestável aos olhos de Deus" (Comentário Bíblico Africano, editora Mundo Cristão, 2010, pág. 1267)

Assim, na perspectiva do Reino, opera-se uma formidável inversão de valores, mas o abismo entre o rico e o Lázaro continua. Se aquele banqueteava-se com egoísmo em sua mansão (versículo 19), há uma mesa bem farta preparada por Abraão no além para o indigente. A própria imagem de "seio" (v. 22) significa que Lázaro era convidado de honra naquela festa. Quanto às chagas do mendigo (v. 20), estas vão corresponder aos tormentos do rico no Hades, o "lugar dos mortos" em grego que, em muitas traduções, consta convenientemente como sendo o "inferno" (v. 23). E, diferentemente do rico, às vezes chamado de "Dives" em algumas versões bíblicas, eis que, na parábola, o que fora pobre nunca deixou de ter nome e o reconhecimento de sua dignidade humana por Jesus.

Na conversa com Abraão (vv. 24-31), observamos que a consciência do rico, mesmo no além, permanece cavando o abismo da separação social. Sua alma era incapaz de arrepender-se e ele continua pensando arrogantemente em benefício próprio. Supõe que pode mandar Lázaro cumprir uma ordem dele para aliviar seu sofrimento. Como não é possível haver o contato entre os dois, coisa que na Terra o rico deveria até rejeitar, o homem passa então a preocupar-se com o bem estar de seus familiares (vv. 27-28). E ainda assim sua inquietação permanece egoísta, sendo restrita aos que são do próprio sangue.

À réplica do rico, respondeu Abraão que os irmãos dele já tinham o testemunho de Moisés e dos Profetas (v. 29), isto é, as Escrituras Sagradas do Antigo Testamento que os fariseus já conheciam. Seria inútil que Lázaro ressuscitasse dentre os mortos para que se arrependessem. Se ignoravam a mensagem bíblica, que é bem clara quanto à obrigação de cuidado para com os pobres, não se deixariam convencer caso o mendigo fosse estar com eles.

Certamente que o autor sagrado estava referindo-se de algum modo à descrença dos mestres judeus de seu tempo quanto à ressurreição de Cristo pregada pela Igreja. Aí será preciso levarmos em conta o contexto histórico do leitor original que necessitava de uma explicação para o fato dos fariseus não terem seguido a Jesus, como também ter as esperanças alimentadas para prosseguir em sua caminhada espiritual, considerando que muitos cristãos primitivos deveriam passar por necessidades. Os membros das comunidades eclesiásticas dos primeiros séculos dependiam de um bom ânimo afim de revolucionarem a dura realidade na qual viviam, mesmo que não viessem a presenciar as desejadas transformações históricas.

Para os fariseus que não eram lá tão ricos como o personagem sem nome da parábola, o abismo poderia ser representação da separação construída pelos religiosos quanto aos demais homens. De acordo com o Evangelho, eles eram incapazes de conviver com publicanos e meretrizes. O grande conhecimento bíblico que possuíam não era aplicado para buscar uma aproximação com as demais pessoas. Fechavam-se em suas congregações de santos enquanto muitos pecadores necessitavam de acolhimento. Desperdiçavam, assim, a oportunidade de usarem a Bíblia para transmitirem boas novas de perdão, de inclusão social e de restauração.

Há quem diga que Jesus teria proferido a parábola referindo-se aos saduceus. Os "cinco irmãos na casa do meu pai" (v. 28) corresponderiam aos cinco irmãos de Caifás, na casa de Anás, conforme documentado pelo historiador Flávio Josefo. Ou seja, segundo este entendimento, o sumo sacerdote e seus filhos não se arrependeriam mesmo depois da notícia da ressurreição do Senhor.

Mas o que dizer de nós, cristãos que temos não só Moisés e os Profetas como também o testemunho de Jesus na nossa tradição apostólica? O que a Igreja tem feito para transformar a realidade social do planeta?

Até quando vamos preferir nos fechar dentro das nossas congregações, preferindo o distanciamento do mundo nos retiros de Carnaval, enquanto que, nesses dias de pura ilusão, há vidas se afundando nas drogas e na embriaguez precisando do nosso apoio?

Será que vamos ficar dizimando para a edificação de templos enquanto há membros nas nossas próprias igrejas e em outros lugares do mundo passando por necessidades?

Sem dúvida que a parábola do rico e do Lázaro continua sendo atual e aplicável para a nossa triste situação eclesiástica. Se o pastor Martin Luther King Jr. (1929-1968) ressuscitasse dentre os mortos e advertisse a Igreja sobre os excessos em seus shows gospel e a falta de caridade nos dias atuais, será que os líderes eclesiásticos deixariam se persuadir? Ou logo não duvidariam do sonho ou da visão que tiveram voltando-se às velhas práticas rotineiras dentro de seus templos numa conformação com o atual sistema?

Mais do que nunca é preciso por fim a esse abismo enquanto estamos aqui. A Igreja precisa ser capaz de contribuir melhor para a inclusão social do pobre, do viciado, da prostituta, do homossexual, do portador de necessidades especiais e de todo e qualquer necessitado. Não podemos permitir que nem a moral religiosa ou os compromissos de nossas agendas atrapalhem! Se preciso for e houver condições pessoais de dar esse tipo de apoio, um ministro do Evangelho deve entrar até num boteco e ouvir o drama de um dependente alcoólico!

Lembro que, enquanto eu morava na cidade serrana de Nova Friburgo (RJ), uma senhora que é deficiente visual contou-me que, quando sua congregação começou, ainda sem CNPJ e sem sede, reunindo-se na sala de aula de um colégio, havia quem se importasse com sua condição e a conduzisse até as reuniões. Depois que o grupo cresceu e se tornou uma denominação local expressiva, ela começou a ficar esquecida. Ir à igreja tornava-se uma tarefa difícil por causa dos obstáculos das ruas e faltavam irmãos que se oferecessem para pegá-la em casa. Só que, como eu bem me recordo, o próprio templo onde eles se reuniam tinha escadas da portaria até o auditório, o que constitui uma barreira para a locomoção das pessoas portadoras de necessidades especiais. Um cadeirante tinha que ser carregado e as obras feitas no local, desde que a casa fora adquirida, jamais tinham previsto uma adaptação do prédio.

Verdade seja dita que precisamos aplicar melhor as finanças em projetos de combate à pobreza. Chega de edificar templos suntuosos e termos pastores dirigindo seus carrões enquanto ainda há gente no mundo carecendo da nossa ajuda material. Está na hora da Igreja retornar às raízes do Evangelho e fazer a revolução do Reino acontecer nos dias atuais.


OBS: A ilustração acima refere-se à obra do artista francês Paul Gustave Doré (1832-1883) retratando a parábola do rico e do Lázaro. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Gustave_Dore_Lazarus_and_the_Rich_Man.jpg

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Protestos sem máscaras



Durante a primeira semana de setembro, vários Tribunais de Justiça dos estados brasileiros proferiram decisões autorizando a identificação das pessoas mascaradas nas manifestações de rua. Aqui no Estado do Rio de Janeiro, por determinação da 27ª Vara Criminal da Comarca da Capital, quem estiver com máscara e se recusar a retirá-la quando abordado por um policial, poderá ser conduzido a uma delegacia afim de que seja tirada sua fotografia e colhida as digitais. Trata-se, pois, de uma medida que considero bem positiva para o desenvolvimento da nossa marcha democrática e que foi aprovada pelo presidente da OAB/RJ Dr. Felipe Santa Cruz:

"Acho uma medida correta. A máscara pode ser alguma forma de expressão, mas tem servido para esconder o rosto de pessoas que se infiltram nas manifestações para fazer arruaça. Se lutamos para que os policiais sejam identificados, por que os manifestantes não deveriam seguir o exemplo?"

O texto constitucional é claro quando declara a liberdade de manifestação do pensamento mas proíbe o anonimato (art. 5º, IV, CRFB/88). Toda e qualquer expressão de caráter evidentemente política precisa ter uma assinatura/identificação. E, neste sentido, quem comparece a um protesto precisa ao menos mostrar o rosto. Seja por motivo de segurança pública ou mesmo de coerência e de transparência perante à sociedade na qual vivemos. Do contrário, o movimento será uma atitude covarde de apunhalar o opositor.

A meu ver, seria bom que o Congresso aprovasse uma lei proibindo a presença de pessoas mascaradas nas passeatas e estabelecendo penalidades pecuniárias e disciplinares para determinados comportamentos potencialmente nocivos, mesmo que não configurem vandalismo. Isso já serviria para inibir a ação dos arruaceiros porque permitiria à polícia deter os elementos não identificados. Assim, os baderneiros encontrariam dificuldades para juntar-se aos manifestantes com o rosto coberto. E, se a PM estiver filmando tudo desde o início, ficará mais fácil descobrir quem jogou pedra ou quebrou o ponto de ônibus usado pela coletividade. Além da aplicação de multas, deveria a legislação suspender a participação do cidadão que tiver demonstrado um comportamento agressivo da mesma maneira como vem ocorrendo hoje nos estádios de futebol.

É certo que tais medidas preventivas e repressivas não serão suficientes para por fim à onda de violência nos protestos, mas poderão contribuir muito para promover u processo de pacificação. Muitas pessoas, inclusive eu, têm se ausentado das manifestações de rua por causa da ação dos baderneiros. E aí, se houvesse menos episódios de vandalismo e de confrontos com os PMs, os movimentos sociais ganhariam muito mais expressão de modo que os gestores públicos e os legisladores poderiam conhecer melhor as insatisfações populares.


OBS: A imagem acima foi produzida pela Agência Brasil sobre os protestos do 7 de Setembro, no Rio de Janeiro, com atribuição de autoria Mídia Ninja, conforme consta em http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/09/no-rio-19-detidos-nos-protestos-sao-liberados-e-um-continua-preso

domingo, 8 de setembro de 2013

Entrar no Reino de Deus

"Os fariseus que eram avarentos, ouviam tudo isto e o ridicularizavam. Mas Jesus lhes disse: Vós sois os que justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus. A lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele. E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da lei. Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério; e aquele que se casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério." (Lucas 16:14-18; ARA)

As igrejas evangélicas deveriam pregar mais sobre o problema da avareza que, segundo o apóstolo Paulo, é "idolatria" (Cl 3:5; Ef 5:5). Nos estudos que tenho feito sobre o Evangelho de Lucas aqui neste blogue, eis que o capítulo 16 é praticamente todo dedicado para tratar dessas questões sobre o trato das riquezas, como abordado no ensino anterior, sendo certo que há diversas outras passagens igualmente pertinentes. Aliás, o nascimento de nosso Senhor foi concebido dentro dessa visão revolucionária conforme consta no Magnificat de Maria (ver Lc 2:52-53).

Explicando a parábola do mordomo infiel, Jesus recomendou que seus discípulos empregassem as riquezas em favor da promoção do Reino de Deus, atendendo as necessidades do próximo como amigos (16:9). Deveriam ser fieis nesse ministério (versos 10-12) e se desapegarem do dinheiro (v. 13). Do contrário, como estariam servindo a Deus?

A narrativa prossegue. No versículo 14, diz o evangelista que os fariseus zombavam de Jesus porque seriam avarentos. A resposta do Mestre, porém, teve um caráter inicial mais genérico, indo além da análise específica da questão dos bens materiais, para somente então retornar à temática que será vista na parábola do rico e do Lázaro (vv. 19-31), a qual pretendo comentar posteriormente e evitar que este texto não se torne mais longo ainda.

A primeira reprovação feita aos fariseus aqui diz respeito ao comportamento de auto-justificação. Diante dos homens é fácil um religioso dizer que fez isto ou aquilo, mas somente Deus conhece o nosso interior. Nos arquivos do Onisciente estão registradas todas as nossas motivações e o Eterno vê além das aparências. Disso nenhum homem consegue fugir:

"Nada há encoberto que não venha a ser revelado; e oculto que não venha a ser conhecido. Porque tudo o que dissestes às escuras será ouvido em plena luz; e o que dissestes aos ouvidos no interior da casa será proclamado dos eirados." (Lc 12:2-3)

Deve-se considerar ainda que a atitude de alguém querer justificar a si próprio (julgar-se aceitável pela prática de boas obras) pode chegar a ser abominável diante de Deus, tal como é o pecado da idolatria. Desejar que os homens nos reconheçam como a nata moral da sociedade e fiquem louvando a nossa reputação torna-se algo que muitas das vezes é uma usurpação dos atributos divinos já que, como na resposta que será dada ao jovem rico, somente Deus é bom (Lc 18:19).

Tenho pra mim que a grande maioria dos fariseus nem fosse formada por homens ricos, diferentemente dos saduceus/sacerdotes já que estes recebiam os dízimos e as ofertas de toda a nação israelita pela arrecadação do Templo. Logo, aqueles seriam pessoas pessoas provenientes de uma classe média, provavelmente trabalhassem com algum ofício tipo o pai de Jesus, e, no máximo, receberiam parte das contribuições das congregações sinagogais pela prestação de serviços. Contudo, corriam o risco de fazerem do moralismo um ídolo nas suas vidas.

Isto é o que muitas das vezes ocorre com várias pessoas que, por não terem alguma elevada quantia em dinheiro para idolatrarem, buscam uma compensação apegando-se à reputação que possuem diante dos homens. Geralmente problemas assim ocorrem com que é muito religioso, o que dificulta muito a compreensão da graça divina nas nossas vidas e a total dependência do homem em relação à justiça de seu Criador.

Interessante quando ouço muitos dizerem que a reputação moral seria o único bem que o pobre possui, mas acho esta ideia um tanto conservadora e aprisionadora. Além de ser uma maneira de compensar as frustrações da pobreza, lembra um pouco aquilo que Napoleão Bonaparte (1769-1821) teria dito certa vez da religião como algo "que impede os pobres de assassinar os ricos". Uma frase que, em parte, concordo quando vejo os pastores conduzindo as ovelhas para um conformismo ao invés de incentivá-las a construírem o revolucionário Reino de Deus no cotidiano vivenciado comunitariamente. Por outro lado, o Evangelho pode não pregar a matança dos ricos, mas sua mensagem é capaz de neutralizar/esvaziar o poder das riquezas pelos novos valores que propõe.

A riqueza moral, todavia, jamais vai se adequar à elevada ética proposta por Jesus cuja base não se encontra numa observância externas dos mandamentos ou de regras inventadas pelos homens. O Mestre sempre pregou algo de base principiológica e que deve vir de dentro, tendo por motivação o amor e a compaixão. Algo que não só resume a Lei de Moisés e o ensino dos profetas bíblicos como também vem completar/atualizar/traduzir.

Em momento algum Jesus teve a pretensão de revogar os mandamentos do Monte Sinai. Muito pelo contrário! Porque, enquanto houver céu e terra, todas as gerações precisarão considerar os ensinos antigos (v. 17), reverenciando toda a tradição bíblica. Assim, o Evangelho anunciado pelo Mestre, e também por João Batista, veio justamente resgatar a essência da Torá judaica, dando o devido tratamento aos problemas daquele tempo tal como precisamos fazer hoje em dia diante dos desafios do presente. Esta tarefa precisamos executá-la de olho nas necessidades sociais e não com base numa moral enrijecida que é capaz de afrontar o amor e a dignidade do ser humano.

É dentro deste contexto que Jesus tocou no assunto do divórcio, o qual era um tema controvertido entre os fariseus. Isto porque havia uma divergência entre as escolas dos mestres Hillel e Shamai acerca dos motivos que autorizem o fim do vínculo conjugal. Enquanto uns interpretavam de maneira ampla o termo "coisa indecente" (Dt 24:1), outros restringiam a autorização para o marido divorciar. Só que Jesus não entre nesse debate e prova as atitudes de desamor do homem em relação à sua mulher.

O problema sobre o divórcio é tratado com mais abrangência nos dois primeiros evangelhos (Mt 19:3-12; Mc 10:2-12), quando os fariseus vieram tentar Jesus e não acho que seja possível formarmos uma doutrina a partir desses ditos atribuídos ao nosso Senhor. Aqui em Lucas, o tema é abordado secundariamente num outro contexto, mais próximo, talvez, dos exemplos do Sermão da Montanha (conf. Mt 5:31-32), porém há alguma ligação com o princípio da união de almas de Gênesis 2:24 em que serão "dois numa só carne". Este, por ser norma inspiradora, deve nortear a interpretação de Deuteronômio 24 afim de não autorizar uma conduta de banalização do instituto.

Tenho pra mim que Jesus não excluiu as possibilidades de divórcio, ou tenha taxativamente condicionado às hipóteses de infidelidade conjugal.  Menos ainda teria formulado mandamento novo porque o Mestre não veio acrescentar e nem tirar nada da Lei de Deus. Pois o que nosso Senhor buscou foi dar aos mandamentos uma dimensão verdadeiramente amorosa e nunca legalista de modo que, ao proferir ais palavras, ele estava defendendo/orientando que as pessoas buscassem ser mais tolerantes nos seus relacionamentos matrimoniais. Era um recado para que os homens não pensassem só neles mesmos, reconhecessem a condição desfavorável da mulher e fortalecessem seus elos. O casamento precisa ser resistente e nada mais atual do que falarmos sobre isso nos dias de hoje em que as pessoas não resistem às primeiras briguinhas.

A ideia do homem esforçar-se para entrar no Reino, dita no versículo 16, engloba todas as condutas que devem ser praticadas ou evitadas e para mim seria a chave interpretativa da passagem bíblica em comento. Mais adiante, Jesus falará o mesmo em relação às riquezas (Lc 18:24) e aí não podemos nos esquecer que este é o assunto principal que estamos estudando sendo o papo sobre o divórcio apenas um detalhamento de algo maior. Pois quem se separa por qualquer insatisfação ainda não compreendeu a dimensão do Reino.

Assim como o dinheiro e a reputação moral do indivíduo podem se tornar ídolos na vida de qualquer um, o esmo seria possível de se dizer  quanto à compulsão sexual. O marido que deixa a esposa porque quer casar-se com outra mais novinha que corresponda melhor aos seus desejos libidinosos não está agindo amorosamente. O seu comportamento é potencialmente destrutivo, incapaz de edificar algo duradouro e reflete uma impulsiva busca por prazer e emoções, incapaz de encontrar satisfação em outros aspectos da convivência humana. Portanto, esse cara não entendeu o que vem a ser Reino de Deus.

É assim em relação às riquezas também! Quem se apega ao dinheiro, aos bens e a qualquer tipo de status não consegue vislumbrar a superioridade que há na convivência comunitária horizontalizada. O dinheiro pode até comprar a companhia das pessoas, mas nunca o amor delas. Ter muito enquanto outros não têm nada afronta a humanidade e o seu Criador que tudo nos deu de graça para usarmos coletivamente em benefício de todos conforme cada necessidade. E, se o nosso dinheiro ou meio de vida tornou-se causa das desigualdades no planeta, devemos nos desfazer dessa fonte ruim de injustiças e usarmos o que fora fruto da iniquidade para repararmos o mal combatendo a pobreza (16:9). Será o este o exemplo dado pelo publicano Zaqueu que encontraremos adiante avançando mais umas páginas nas nossas bíblias (Lc 19:8).

Vale insistir que Jesus não condenou a posse dos bens materiais, mas entendo que precisamos ser mordomos responsáveis em relação ao uso do dinheiro empregando as coisas que temos na promoção do Reino numa visão coletiva. Assim, nosso conforto deve harmonizar-se com o bem estar do próximo. Ao recebermos nossos salários, ganhos empresariais ou benefícios de aposentaria devemos pensar um pouco na repartição, não permitindo que as despesas de consumo tornem-se tão altas a ponto de compras supérfluas impedirem que sejamos participantes de ações sociais. Já as pessoas de condição humilde, vejo que elas devem ser até destinatárias dos trabalhos assistenciais de suas igrejas, muito embora sempre é bom que todos tenham a oportunidade de serem doadores.

Certamente que a nossa mesa pode ficar ainda mais apetitosa se nela houver espaço para os pobres e necessitados. Quando doamos um pouco dos nossos ganhos na medida das nossas disponibilidades/consciência/amor, descobrimos o delicioso sabor da caridade desinteressada (sem nada esperar em troca). Algo capaz de noas satisfazer melhor do que um churrasco de carne gorda e macia. Mais do que uma festa de aniversário com bolos, refrigerantes, salgadinhos e brigadeiros. Trata-se, pois, do apetitoso banquete do Reino que já podemos degustar no aqui e agora. Uma ceia maravilhosa capaz de dar um sentido real à nossa existência.