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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Os vendilhões dos templos e seus sacerdotes


"Depois, entrando no templo, expulsou os que ali vendiam [e compravam], dizendo-lhes: Está escrito:
    A minha casa será chamada casa de oração.
Mas vós a transformastes em covil de salteadores."
(Evangelho de Lucas, capítulo 19, versículos 45 e 46; ARA)

Esta é uma passagem da Bíblia que requer muito cuidado em sua abordagem afim de que o ato de Jesus não venha a ser mal utilizado para justificar as violências da Igreja. Sejam as atrocidades do passado (cruzadas, inquisições e torturas) como as absurdas exclusões de pessoas feitas até hoje em nome de Cristo.

A expulsão dos vendilhões do Templo judaico é um episódio relatado nos quatro evangelhos canônicos (conferir com Mt 21:12-13; Mc 11:15-17; Jo 2:13-16), mas o texto de Lucas é o que oferece menos detalhes informando apenas uma única ação do Mestre: "expulsou". Já o livro de João narra o fato como se houvesse acontecido no começo do ministério do Senhor e faz com que o leitor viva um pouco daquela suposta cena com Jesus usando um azorrague de cordas e tocando pra fora do local todas aquelas pessoas que lá se encontravam com os seus animais, derramando o dinheiro dos cambistas pelo chão e virando as mesas.

Juntamente com os efeitos da arte sacra, não há como a cristandade apagar de sua memória religiosa esse acontecimento dos evangelhos. Seria o "dia de fúria" de Jesus, uma conduta atípica do Mestre que muitos preferem até evitar de comentar porque parece fugir de seus padrões pacifistas habituais. Aliás, suponho até que tal sentimento possa ter conduzido as penas do escritor do 3º Evangelho que, como vimos no estudo anterior, resolveu dar uma ênfase toda especial da mensagem de paz do Salvador quando aproximou-se de Jerusalém montado num humilde burrinho e, em seguida, chorou pela cidade.

Os evangelhos de Mateus e de Lucas narram o ocorrido como se houvesse acontecido instantes após à chegada de Jesus na cidade. Somente Marcos dá o espaço de tempo de um dia, inserindo entre os dois momentos a maldição da figueira sem frutos (Mc 11:12-14). Mas seja como for, qualquer uma dessas narrativas vai nos levar a considerar um comportamento humanamente ambíguo do nosso Senhor e/ou a questionarmos o tipo de paz cristã que a Igreja tem proposto à humanidade. Diferentemente da tradição dos sinóticos, o texto joanino diz ter sido aquilo uma atitude de "zelo" através de uma citação do versículo 9 do Salmo 69 dentro de uma posterior releitura dos discípulos (Jo 2:17).

Entretanto, podemos estar é perdendo tempo quando queremos estabelecer uma coerência lógica para todas as passagens bíblicas e encaixá-las nos limites da visão doutrinária que construímos. E, nestas horas, deixamos de saborear a beleza do texto pelo que sugiro encararmos as Escrituras Sagradas sempre como aprendizes que acabam de se matricular no primeiro ano de uma escola ao invés de nos portarmos como PhDs que avaliam teses.

Assim sendo, observo que o autor de Lucas escreveu em poucas linhas somente o essencial e tudo aquilo que importou para a transmissão das boas-novas aos leitores dentro de seu contexto literário. Jesus atipicamente protestou contra aquele comércio no Templo de seu povo e, embasado nas Escrituras, justificou a que deve se destinar o uso do lugar que era conhecido também como a "Casa de Deus".

Primeiramente devemos entender quem eram aqueles que vendiam e compravam e qual o objeto dos negócios ali realizados. E, nesta hora, precisamos recorrer a pelo menos um dos outros evangelhos sinóticos e buscarmos compreender como funcionava o sistema penitencial daquela época.

Segundo a legislação mosaica, os rituais de imolação de animais faziam parte do culto judaico no Templo. O livro de Levítico faz menção dos holocaustos, das ofertas pacíficas/de comunhão e do sacrifícios pelos pecados. Se alguém pecasse "por ignorância", deveria trazer um animal para expiação, o que também era exigido para várias situações das quais as de sacrilégio, purificação da mulher após o parto, cura e reintegração de um ex-leproso e nas festas sagradas. Por conta disso, formou-se no Israel antigo uma indústria expiatória e que tinha o seu ponto alto no Yom Kippur ("Dia do Perdão"), comemorado uma vez ao ano, geralmente no mês de outubro, mas sempre seguindo o calendário judaico.

Certa vez, o profeta Oseias criticou os sacerdotes porque eles se alimentavam do pecado do povo (Os 4:8). Pois, segundo Levítico 6:26, era direito do clero, quando oferecia o sacrifício pelo pecado de alguém, comer uma porção do animal no santuário do Templo. Só que, com o tempo, tais religiosos tinham passado a se alegrar com os erros cometidos pelas pessoas pois, desta maneira, eles ganhariam mais carne.

Assim também, nos tempos de Jesus, o sistema sacerdotal era sustentado pela exploração abusiva do sentimento de culpa do povo. E, com tantas regras de homens inventadas pelos fariseus e mestres da Lei, talvez fosse mais fácil alguém achar que estava em pecado do que na época anterior do profeta Oseias.

Todavia, não foi contra o sistema sacrificial em si que o Senhor Jesus havia se posicionado naquela ocasião. Do contrário, o Mestre jamais teria mandado os leprosos que curou apresentarem-se ao sacerdote e fazerem a oferta prescrita por Moisés (Lc 5:14; 17:14). Ao que me parece, o Senhor deveria estar indignado com a manipulação da fé do povo. Algo que, consequentemente, propiciava um rentável comércio num local que era considerado sagrado entre os judeus.

A fundamentação para tirar os vendilhões do Templo, conforme a justificativa de Jesus, estaria nos livros dos profetas. O Mestre teria baseado-se numa combinação midráshica de Isaías 56:7 com Jeremias 7:11 e trouxe à memória as advertências recebidas pelos sacerdotes nos últimos anos da 1ª Casa antes de Jerusalém ser destruída pelo exército de Nabucodonosor (586 a.C.). A expressão "covil de salteadores" serviu para expressar a corrupção da nação naqueles dias de perversidade, indiferença social, desrespeito para com a vida humana, apostasia, depravação sexual, roubos e outras injustiças mais. Foi quando Jeremias denunciou corajosamente o pecado de uma geração que, mesmo fazendo todas essas abominações, ainda se considerava protegida por causa do edifício do Templo.

Nos tempos de Jesus, os judeus já não queimavam mais incenso a Baal e nem andavam após outros deuses mas, ainda assim, os sacerdotes da 2ª Casa cultivavam outros vícios igualmente reprováveis. Continuavam pecando contra o essencial que era a falta de atos misericordiosos e de justiça social. Quanto a isto, toda aquela estrutura religiosa tornara-se vil pela concentração de riquezas. O clero recebia não só o dízimo da nação inteira como também muitas ofertas enquanto havia um número bem significativo de pessoas na mais absoluta miséria.

Ora, será que a atitude de Jesus não iria provocar alguma reação?! Vejamos o que diz o texto seguinte:

"Diariamente, Jesus ensinava no templo, mas os principais sacerdotes, os escribas e os maiorais do povo procuravam eliminá-lo; contudo, não atinavam em como fazê-lo, porque todo o povo, ao ouvi-lo, ficava dominado por ele." (Lc 19:47-48)

Não vejo dificuldades em compreender os motivos pelos quais Jesus morreu. A expulsão dos vendilhões do Templo, se não estivesse motivada por um ideal que fosse além de repudiar o comércio no local, talvez passaria como algo de menos importância. O acontecimento seria visto como coisa de um fanático da Galileia. Só que, de um modo até fora dos padrões, o nosso Senhor conseguiu tocar no cerne da questão. Junto com os sacerdotes estavam os escribas, isto é, os teólogos da época que criavam doutrinas para incutir culpas e atrair pessoas para a prática das penitências. Acrescentavam coisas acima do que as Escrituras diziam porque interessava ao sistema manter o povo sobrecarregado de fardos. E a maneira receptiva como Jesus tratava o pecador é que poderia de fato fazer o comércio de animais minguar.

Se o Mestre estava incomodando tanto os ricos, políticos e chefes da religião, a solução que acharam foi "eliminá-lo". Não dava para fazer uma covardia dessas na frente do povo porque as pessoas impediriam. Teriam que pensar numa maneira de prender Jesus às escondidas. Foi o que fizeram como temos visto acontecer inclusive na história recente com muitos sindicalistas, líderes de sem-terra, seringueiros, jornalistas que denunciavam a ditadura militar, ativistas de direitos humanos, etc. Assim, a morte do Salvador foi também a de muitos os que abraçaram a causa do pobre e do oprimido, ousando desafiar os podres poderes dos maiorais de ontem e hoje.


OBS: A ilustração acima refere-se à obra Jesus expulsando os mercadores do Templo (1885) do artista francês Alexandre Bida (1813-1895). Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://pl.wikipedia.org/wiki/Plik:Incidente_Templo.jpg

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A causa dos professores



Após as manifestações de junho, o governo federal tomou uma decisão importante que foi priorizar a educação e a saúde através de uma destinação maior de recursos dos royalties do petróleo. Muito bom!

No entanto, vejo certa incoerência em relação aos profissionais de ensino. Se, por um lado, Dilma resolveu começar as mudanças na saúde pela valorização dos médicos, oferecendo-lhes um satisfatório salario de R$ 10.000,00 (dez mil reais), algo bem acima da média nacional, penso que a nossa presidenta foi de algum modo omissa quanto aos professores.

É lamentável reconhecer que, na maioria dos estados e municípios brasileiros, os professores continuam mal remunerados. Pois, tendo em vista a importância social da função que exercem, nossos mestres deveriam estar recebendo salários proporcionalmente dignos e que lhes ofereçam conforto e mais tempo para se dedicarem/atualizarem, além de outros incentivos à pesquisa. E, considerando que muitos desses nobres profissionais precisam trabalhar o dia inteiro em diversas escolas, é inegável que grande parte da categoria tenha uma péssima qualidade de vida e desenvolva um forte sentimento de revolta, o que, por sua vez, acaba sendo transmitido para os alunos e contaminando a sociedade a ponto de criar um preocupante ambiente de desequilíbrio político. Isto sem nos esquecermos também da má formação dos jovens da rede pública educacional. Os donos de escolas particulares agradecem.

Vergonhosamente, políticos como o Sr. Eduardo Paes (PMDB-RJ) parecem não estar nem aí a ponto do chefe do Poder Executivo Municipal ter mantido o corte no ponto dos grevistas como informou a reportagem do Jornal do Brasil. Pois, se os nossos representantes fossem de fato comprometidos com a educação, os professores do Rio de Janeiro não precisariam permanecer por tanto tempo de greve. É graças à intransigência do prefeito da Cidade Maravilhosa que os alunos cariocas estão sendo prejudicados com uma paralisação que já dura 53 dias.

Como o problema não é exclusivo do Rio, já que Goiânia também está de greve (ver matéria do G1), penso que o governo federal deveria intervir criando um programa nacional para todos os professores afim de que haja uma plano de carreira unificado com a padronização dos salários no país todo. A administração escolar poderia permanecer com os estados e municípios, mas os profissionais do ensino passariam a receber diretamente do MEC.

Nunca a educação alcançou tanta importância em face da crise social que atravessamos e do mal desempenho do Brasil no ranking mundial, como já tive a oportunidade de compartilhar aqui neste blogue através do artigo Será preciso mais do que dinheiro para a educação melhorar, publicado em 27/06/2013. Só que os políticos parecem não querer enxergar! E, vivendo num tempo em que falta disciplina e já não há mais respeito entre as pessoas, urge reformar a educação através de um ensino integral de qualidade onde a ética possa ser bem trabalhada nas escolas de todo o país. Mas, sem o professor, como chegaremos lá?!


OBS: Foto do Sepe/Rio, extraída de uma matéria da Agência Brasil de Notícias sobre os professores estaduais, conforme consta em http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/08/justica-do-rio-impede-corte-de-ponto-de-professores-estaduais-em-greve

Um messianismo humilde e pacífico



Costuma-se chamar a chegada de Jesus a Jerusalém como sendo a "entrada triunfal" do Messias na Cidade Sagrada. É o que, por influência da teologia tradicional, consta em muitos títulos impressos nas bíblias cristãs, postos ali pelos editores, mas ausente nos textos dos evangelhos que, originalmente, nem capítulos e versículos tinham.

Dando prosseguimento aos estudos feitos aqui sobre o Evangelho de Lucas, iniciados em maio, e atentando para o comportamento discreto de nosso Senhor Jesus Cristo, considero a sua chegada a Jerusalém como algo humilde e despido de qualquer sentimento triunfalista. O ato do Mestre foi, a meu ver, revolucionário para os valores de todos e seu ato significou o anúncio de um reinado diferente daquilo que o povo esperava acontecer. Pois, como vimos no episódio anterior, o Salvador contou a Parábola das Dez Minas ensinando que a manifestação plena do Reino não ocorreria imediatamente de modo que os servos ainda precisariam aguardar fielmente pela volta do senhor. Era assim que ele encarou aquela subida quando deixou Jericó (Lc 19:28), encarando uma serra íngreme e seca até chegar ao alto do Monte das Oliveiras e avistar dali a Cidade Santa com seu Templo.

"Ora, aconteceu que, ao aproximar-se de Betfagé e de Betânia, junto ao monte das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: Ide à aldeia fronteira e ali, ao entrardes, achareis preso um jumentinho que jamais homem algum montou; soltai-o e trazei-o. Se alguém vos perguntar: Por que o soltais? Respondereis assim: Porque o Senhor precisa dele. E, indo os que foram mandados, acharam segundo lhes dissera Jesus. Quando eles estavam soltando o jumentinho, seus donos lhes disseram: Por que o soltais? Responderam: Porque o Senhor precisa dele. Então, o trouxeram e, pondo as suas vestes sobre ele, ajudaram Jesus a montar. Indo ele, estendiam no caminho as suas vestes. E, quando se aproximava da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos passou, jubilosa, a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinham visto, dizendo: Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas! Ora, alguns dos fariseus lhe disseram em meio à multidão: Mestre, repreende os teus discípulos! Mas ele lhes respondeu: Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão." (Evangelho de Lucas, capítulo 19, versículos de 29 a 40; versão e tradução ARA)

De acordo com a tradição rabínica, era comum pessoas entrarem em Jerusalém montando em animais ao invés de prosseguirem caminhando a pé. Diz o Talmude palestino que os condutores de jumentos ganhavam dinheiro antes da Páscoa fazendo o transporte de peregrinos até à Cidade Sagrada (yBer 13d). Algo possível de ser explicado por causa da topografia acidentada do lugar e o fato de que o Templo encontrava-se edificado sobre um monte.

Mas o motivo pelo qual Jesus resolveu entrar em Jerusalém montado sobre um jumento não é dito em Lucas. É o Evangelho de Mateus que, entre os sinóticos, faz a associação do evento a uma profecia messiânica fundada numa combinação de Isaías 62:11 com Zacarias 9:9, dando a entender que Jesus buscou dar uma significação ao seu ato conforme as Escrituras (Mt 21:5). E isto é confirmado também no 4º Evangelho (Jo 12:12-16), levando-me a entender que o Mestre preocupou-se também com o fato de que sua chegada a Jerusalém não fosse interpretada como uma oposição política a Roma afim de não instigar reações violentas ao dominador estrangeiro por ocasião da Páscoa.

Sem dúvida que os intérpretes dos evangelhos sinóticos acabam recorrendo às explicações do texto de Mateus apesar deste falar em dois animais ao invés de um só (a mãe junto com o filhote). Porém, como o objeto deste artigo é compreender Lucas, deixo de lado a questão louca se Jesus teria montado dois burros ao mesmo tempo. Interessa-me conhecer qual a mensagem daquele gesto simbólico, parecendo-me que o Senhor pretendeu dizer algo muito maior e mais profundo do que simplesmente apresentar provas bíblicas sobre seu messiado. Creio que nosso Mestre amado estava apontando as características da messianidade na qual a futura Igreja deveria inspirar-se bem como lembrando o povo judeu das sábias palavras do livro de Zacarias:

"Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até às extremidades da terra." (Zc 9:9-10)

É interessante notarmos que o Salvador não chegou montado num imponente cavalo como faziam os reis antigos conquistadores de batalhas. Sua proposta é a paz e não a guerra contra o dominador romano. Uma paz que precisa ser ganha primeiramente dentro de nós mesmos como podemos extrair do louvor inspirado daquela multidão de discípulos que parecem ter encarado com grande júbilo a cansativa subida da montanha que separa Jericó, situada a quase 240 metros abaixo do nível do mar, de Jerusalém que se encontra numa altitude de 760 metros positivos.

Há uma combinação do Salmo 118:26 com uma inversão do louvor dos anjos registrado no verso 14 do capítulo 2 de Lucas que foi entoado na ocasião do nascimento do Senhor. No Natal, a milícia celestial declarou "paz na terra entre os homens [de boa vontade], a quem ele quer bem". Na entrada de Jerusalém, porém, a paz encontra-se "no céu".

Sem dúvida que estamos diante da mesma paz que pode ser experimentada na Terra por aqueles cujos corações estão focados nas coisas do Reino Celestial. Para tanto, como disse o profeta, é preciso destruir os instrumentos de guerra, abolindo o uso desses meios para podermos executar a vontade de Deus aqui. Uma conquista a ser alcançada sem imposições ou coações de qualquer tipo, e muito menos dependendo do poder político dos governos. Ao invés de uma arma, deve o discípulo se valer do anúncio das boas-novas de Cristo pregando o amor, a salvação, a aceitação incondicional do ser humano pelo seu Criador e a inclusão social dos pobres através da solidariedade.

A declaração de "paz no céu" é também uma notícia de que o Altíssimo encontra-se reconciliado conosco e sempre esteve. Apesar dos acontecimentos trágicos que marcam a existência da humanidade, não se pode ver neles sinais de uma ira divina, a qual muitas das vezes não passa de mera projeção daqueles nossos sentimentos mal resolvidos a ponto de criarmos uma teologia penitencial. Algo que até hoje tem sido uma constante na história dos povos de praticamente todas as culturas como se vê nos comportamentos de oferendas e sacrifícios às divindades.

Durante a entrada de Jesus na Cidade Santa, a multidão de discípulos oferecia o louvor e expressava gratidão. Informa o texto que ali eles se lembraram dos milagres que Deus havia feito por intermédio de Jesus e deram glória. Tais acontecimentos deveriam ser vistos como sinais de um Pai Celestial amoroso que não veio pedir contas dos nossos pecados, mas que nos perdoa e quer que com Ele vivamos em comunhão tendo o relacionamento restaurado.

De algum modo, aquela cena parecia irritar os fariseus que eram legalistas e podem ter ficado incomodados com a liberdade e com a alegria do povo na companhia de Jesus desejando reprimir a festa. Há quem entenda que, pedindo para o Mestre fazê-los calar, tais religiosos pretendiam evitar uma reação dos romanos por causa da perturbação da paz em Jerusalém, talvez pelo fato da multidão de seguidores estar proclamando alguém como rei no lugar de César. Só que não consigo ver por este lado. Pois, se os fariseus estavam tramando a morte do Senhor desde a Galileia (6:11), como nos mostra todo o contexto literário do Evangelho de Lucas, atrair a atenção de Pilatos não seria um prato feito para suas acusações?

Acredito, porém, que toda aquela festa seria incapaz de despertar o sentimento de ameaça nas autoridades romanas. Afinal, que monarca seria aquele que entra em Jerusalém montado num filhote de burro e não numa mula real como fizera Salomão quando Zadoque o ungiu rei sobre Israel (1Rs 1:33-34)? O procurador do Império Romano na Judeia estava era mais preocupado com os zelotes, os revoltosos que poderiam provocar sedições e tumultos na província. Não os louvores a Deus, o que seria algo comum e pacífico naqueles dias de peregrinação antes da cerimônia da Páscoa. Aliás, o sentimento religioso devocional da população tornar-se-ia algo bem desejável num momento que corresponde ao Independence Day dos israelitas por lembrar a libertação da escravidão egípcia através de Moisés. Roma certamente ignorava ainda o método de Deus em revolucionar as coisas sem guerras de modo que, somente décadas depois, foi que os cristãos começaram a ser notados e perseguidos pelos imperadores.

Nesse momento difícil do nosso país, em que os protestos passaram a fazer parte da rotina do nosso cotidiano de notícias, vejo muita coisa em comum entre nós e a situação política da Palestina do primeiro século que acabou em insanas revoltas militares contra Roma. Pressentindo os massacres que aconteceriam dentro de poucas décadas, Jesus então chora ao aproximar-se de Jerusalém. Um episódio que, a meu ver, dá uma especial complementação à entrada do Mestre na Cidade Sagrada, marcando o sentimento de impotência humana de um sábio em face do livre arbítrio concedido às pessoas:

"Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação." (Lc 9:41-44)

Aquele clima de revolta instigado pelos zelotes e pelos falsos messias não iria acabar nada bem. Sabemos pela história judaica contada por Flávio Josefo que, no ano de 70 da nossa era, o general Tito, filho do imperador Vespasiano, invadiu a cidade com as suas tropas e destruiu o 2º Templo de modo que não restou "pedra sobre pedra". A geração de Jesus não havia compreendido o seu recado de paz e preferiu o caminho da guerra. Colheram o fruto dessa escolha errada. Não porque Jesus teria sido crucificado (é incorreto culpar o povo judeu pela sua morte), mas, sim, devido ao messianismo belicista contrário às sábias orientações de Zacarias.

Tendo vivido uns cinco séculos antes de Jesus, o profeta tinha total consciência de que, pela permissão divina, o seu povo era politicamente dominado por uma potência estrangeira (em seu tempo eram os persas e não os romanos). Ao invés de aconselhar a guerra, ele viu mais proveito em estabelecer uma boa relação com Dario, enxergando a oportunidade para o governador provincial Zorobabel e o sacerdote Josué reconstruírem a nação depois das sete décadas de exílio na Babilônia. E foi naquele clima de bem-estar, aceitando o desígnio de Deus, que os judeus conseguiram edificar novamente o maio símbolo nacional que era o Templo.

Que visão longa teve Zacarias! Mas quanta cegueira não obscurecia os olhos dos revoltosos do século de Jesus?! Assim, semelhantemente, temo que o povo brasileiro deixe de reconhecer a oportunidade de sua visitação neste tempo que se chama hoje. Confesso estar bem preocupado com a manutenção de um dos maiores bens que tem os hoje - a democracia.

Infelizmente, governantes e governados estão dilapidando esse patrimônio. Não faz nem trinta anos que o Brasil conseguiu livrar-se de seu último ditador militar e a desordem tem tomado conta das ruas das nossas cidades. A cada manifestação, surgem mascarados infiltrados atirando pedras em policiais e praticando atos terríveis de vandalismo. Num dos protestos de ontem (07/10), segundo o Jornal Nacional, chegaram a explodir um carro numa via pública e que acabou ferindo seis pessoas no local que foram hospitalizadas.

Em que ponto já estamos?!

Nós, cristãos e as pessoas espiritualizadas de outras tradições religiosas, precisamos orar muito por esse país e dizermos a essa nação ensurdecida que não será pela via da violência que obteremos as tão desejadas conquistas sociais. Hoje, dia 08 de outubro de 2013, a Revolução Bolchevique de 1917 completaria seus noventa e seis anos. Recordo que, em 1987, quando ainda era um pré-adolescente, assisti pela TV as comemorações das sete décadas do regime soviético, o qual ainda blefava triunfar até que, pouco tempo depois, a então URSS caiu de vez e nunca mais se levantou. O tão sonhado socialismo de Lênin acabou se degenerando no totalitarismo stalinista e a Rússia atual do senhor Vladimir Putin ainda vive debaixo dos resquícios desse fascismo de esquerda. Pois, como bem sabemos, este autoritário governante tem mantido injustamente presos os integrantes da ONG Greenpeace apenas porque os ecologistas haviam protestado pacificamente contra a inconsequente exploração de petróleo nas águas geladas do Ártico.

Todavia, o Reino de Deus é algo permanente e não será jamais destruído. Sua vinda não ocorre segundo a força militar e nem por meio da violência. Precisamos construí-lo pela promoção da paz por meio das nossas orações, ações solidárias para com o próximo e o uso de palavras que despertem a consciência dos ouvintes. Se preciso, devemos oferecer até a outra face bem como darmos a capa caso forem nos tomar a túnica. Portanto, façamos a nossa parte para que a nação brasileira saiba reconhecer a sua oportunidade presente e procure dialogar afim de construirmos um futuro melhor trilhando as veredas do pacifismo. Afinal, existem alternativas muito melhores do que esses protestos violentos vistos por aí. Busquemo-nas!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro cujo título em latim é Flevit super illam (1892), uma obra do artista espanhol Enrique Simonet Lombardo (1866-1927) que retrata a ocasião em que Jesus chorou por Jerusalém descrita somente em Lucas. Encontra-se atualmente no Museu de Málaga, em Andaluzia, Espanha. Foi extraída do acervo da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Enrique_Simonet_-_Flevit_super_illam_-_1892.jpg

domingo, 6 de outubro de 2013

Assumindo riscos sem medo pelo Reino de Deus



"Pois eu vos declaro: a todo o que tem dar-se-lhe-á; 
mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado." 
(Lucas 19:26; ARA)

A Parábola das Dez Minas, encontrada nos versos de 11 a 27 do capítulo 19 do Evangelho de Lucas, é muito semelhante a dos Talentos de Mateus 25:14-29, apesar de algumas diferenças bem substanciais. Só que, nem sempre, tanto uma quanto a outra não são bem compreendidas pelos leitores e intérpretes da Bíblia. Muitos fazem críticas por considerarem injustas as histórias, mas acabam ignorando pontos sobre os quais o autor sagrado deseja que reflitamos.

Ainda que Jesus tenha se utilizado de uma metáfora baseada nas desiguais relações sociais de seu tempo, a parábola nos apresenta um patrão com uma mentalidade mais avançada do que a dos senhores do passado e do presente, os quais não sabem reconhecer o potencial das pessoas que os servem.

A parábola fala de um poderoso nobre que precisava ausentar-se de sua terra para tomar posse de um reino e depois retornar tal como ocorria em muitas províncias administradas por Roma. Por serem regiões dominadas por um império estrangeiro, o futuro governante precisaria receber uma nomeação vinda do imperador, o qual decidia conforme os seus interesses políticos. Logo, tratavam-se de reis vassalos, desprovidos de soberania, tais como foram Herodes e seus descendentes depois dele. De acordo com a história judaica, Arquelau, filho de Herodes, teria viajado a Roma procurar por seu reino, mas os súditos locais enviaram uma delegação a Augusto para impedirem isso.

Contudo, ao ausentar-se em sua longa viagem, este senhor da parábola não deixa os servos de mãos vazias. Antes ele foi capaz de providenciar que um considerável recurso ficasse sob os cuidados dos homens de sua confiança e lhes dá uma ordem bem clara sobre o que fazerem com o dinheiro: "negociai até que eu volte" (verso 13).

Paralelamente, um grupo de opositores envia uma comitiva afim de impedirem que aquele senhor conseguisse o reino, o que é uma diferença importante em relação à Parábola dos Talentos assim como a distribuição de uma "mina" para cada um dos dez servos. Se no 1º Evangelho os talentos, que eram o maior valor monetário da época, são distribuídos conforme a potencialidade de cada um (gr. dynamis), eis que, em Lucas, todos vão receber a mesma quantia inicialmente. Uma mina (gr. mna) equivalia a aproximadamente o salário de três meses de um trabalhador. Não chegava a ser uma fortuna como o talento, sessenta vezes mais valoso, mas também não era pouca coisa. Podemos dizer que uma mina somaria um capital razoável para o sujeito começar o seu negócio.

O senhor parece demorar, mas ele volta. E, quando retorna triunfante, quer saber o que cada um daqueles servos teria feito com o dinheiro confiado. Um deles apresenta-se e diz que, de uma mina, fez dez. Outro informa que multiplicou por cinco a quantia inicial. E, finalmente, chega o terceiro empregado e relata ter guardado a moeda embrulhadinha num lenço:

"Veio, então, outro, dizendo: Eis aqui, senhor, a tua mina, que eu guardei embrulhada num lenço. Pois tive medo de ti, que és homem rigoroso; tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste." (versos 20-21)

Se os dois primeiros servos receberam elogios do senhor e foram promovidos passando a administrar respectivamente dez e cinco cidades, o terceiro empregado será envergonhadamente reprovado. Daí o patrão lhe dizer:

"Servo mau, por tua própria boca te condenarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tiro o que não pus e ceifo o que não semeei; por que não puseste o meu dinheiro no banco? E, então, na minha vinda, o receberia com juros. E disse aos que o assistiam: Tirai-lhe a mina e dai-á ao que tem as dez." (vv. 22-24)

Ao que me parece, este terceiro servo não soube e nem quis aproveitar a oportunidade que lhe foi dada. A sua preocupação esteve o tempo todo focada em devolver o dinheiro e não em fazê-lo render como era esperado. Não entendeu que a tarefa era um tipo de avaliação para a sua habilidade ser conhecida e ele vir a ocupar melhores posições futuramente na empresa do patrão, o qual iria agora tornar-se o rei daquela terra com autoridade suficiente para delegar poderes e funções.

É curioso notar que o senhor não quer de volta o dinheiro. Cada um dos dois servos anteriores parece ter continuado com as suas minas. Tanto é que o patrão manda dar a mina ao que tinha dez e havia recebido autoridade sobre dez cidades.

Interessante que esse patrão não investia somente para si, coisa que jamais passou pela cabeça do terceiro servo. Ele havia viajado afim de conseguir um reino onde seus empregados pudessem ser promovidos a ministros e prefeitos. Neste sentido, aquelas minas emprestadas perdem até o valor dentro da nova dimensão que é estabelecida. Os empregados que as negociaram poderiam ficar com elas afim de que, abundantemente, recebam mais e mais junto com o senhor (v. 26).

Vejamos por esse prisma o quanto o tal patrão foi revolucionário. Ao contrário da maioria dos empregadores e políticos deste mundo, os quais só querem saber de explorar a força do trabalho humano, tal senhor aplicou  a sua habilidade articuladora afim de beneficiar no porvir os que foram capazes de servi-lo com fidelidade e esmero. É nesse sentido que devemos compreender o princípio declarado por Jesus de que "a todo o que tem dar-se-lhe-á".

Amados, o Reino de Deus é abundância espiritual e somos chamados para vivermos nela! Só não podemos ter a mentalidade medíocre, covarde, preguiçosa e improdutiva do terceiro servo que preferiu guardar a moeda num lenço do que negociá-la. Menos ainda podemos cogitar em conspirarmos contra o processo revolucionário de Deus optando pelo lado errado. Pois, do contrário, toda oposição maligna será esmagada pelo rolo compressor da história. Planos contra a vontade divina não prosperarão.

De modo algum a execução dos inimigos (v. 27) pode ser associada ao proselitismo religioso. Os opositores seriam os adversários das boas-novas do Reino. São aqueles que estando dentro ou fora da Igreja querem impedir as mudanças e as transformações que precisam ocorrer no mundo. A aparente demora da volta do senhor não deveria ser motivo para descrédito num futuro melhor. O Reino já se encontra em nosso meio e se tornará pleno por mais que certos acontecimentos ocorram para nos desanimar fazendo-nos pensar que esteja havendo retrocessos ao invés de avanços.

Vencer o medo e assumir riscos pelo Reino é o que precisamos fazer neste momento presente. Se prestarmos a atenção no episódio anterior deste estudo bíblico, o qual trata da conversão de Zaqueu (vv. 1-10), Jesus falou sobre a razão do seu ministério e que deve ser o mesmo da Igreja: "buscar e salvar o perdido" (v. 10). E este precisa ser o foco dos agentes do Reino de Deus! Daqueles que receberam do Senhor um "capital" para ser "negociado" e não guardado num lenço.

Quantos cristãos não desperdiçam oportunidades enclausurando-se numa vidinha de religiosidade dentro dos templos enquanto poderiam estar se relacionando com pessoas afim de compartilharem os valores do Reino com a sociedade?! Posso entender a atitude de embrulhar a moeda num lenço como uma expressão de vida espiritual reclusa. Não falo apenas dos que se isolam fisicamente em mosteiros, coisa que Jesus buscava apenas nos momentos de oração para depois retornar ao convívio comunitário. Refiro-me principalmente na recusa de muitos religiosos em se relacionarem com quem eles consideram "mundanos" e "pecadores". Tratam-se das pessoas que não querem suportar os "riscos de um negócio", isto é, os aborrecimentos, as incompreensões, as tentações, as perseguições, as contrariedades que passamos pela causa do Evangelho e os testes de fé.

Enquanto a moeda continua embrulhadinha num lenço e guardada a sete chaves numa gaveta da casa, os riscos são mínimos. Você deixa de se expor ao convívio relacional com o outro mas também não cresce e nem evolui. A fé e o amor ficam estagnados.

Creio que Deus não está interessado no nosso volume de produção e sim na produtividade de seus filhos, isto é, no desenvolvimento da nossa capacidade de multiplicar os recursos em prol do seu Reino. Assim, fico imaginando como poderia ser o relato de um quarto servo que a parábola não conta embora o texto bíblico diga que o senhor repartiu uma mina entre dez dos seus empregados (v. 13), abrindo portas para o exercício da nossa criatividade inventado novas situações relacionadas com a passagem em comento.

Deste modo, imagino que um quarto servo possa ter obtido um resultado pior do que o terceiro e relate o seguinte ao patrão:

"Senhor, a tua mina que me confiaste eu investi honestamente em um comércio. Comprei mercadorias, vendi na feira e repeti isso por algumas vezes. Porém, certo dia, houve um ataque de ladrões na cidade onde eu estava e levaram tudo o que eu e os demais comerciantes tínhamos, bem como nos espancaram. Até os meus bens pessoais perdi. Infelizmente, nem tenho como te restituir o dinheiro. Peço que tenha misericórdia de mim."

Ora, será que esse senhor irá trucidar o fictício quarto servo por não ter alcançado êxito em seu empreendimento, ou vai perdoá-lo?

Pois bem. Creio que, no caso deste quarto servo que eu inventei, o patrão vai lhe dar uma nova chance de trabalho e não o colocará no olho da rua. Suponho que lhe dará uma outra mina para negociar e tentar novamente a sorte. Afinal, tal empregado não alcançou o resultado, mas, pelo menos, tentou acertar e nem cogitou em adotar a mesma mentalidade do terceiro serviçal. Este, sim, jamais compreendeu o amor do patrão e a chance de investimento que recebera visto não ter se aberto para a abundância da graça.

Portanto, meus queridos, esse é o momento das grandes oportunidades espirituais de trabalharmos sem medo na busca e na salvação do perdido. Somos amados de Deus e recebemos ricos dons do Pai Eterno afim de trabalharmos desde já pelo seu Reino. Basta colocarmos a fé em ação e assumirmos os riscos visto que mais importa é a nossa atitude construtiva. Afinal, nenhum trabalho é em vão quando feito no Senhor.


OBS: A imagem acima trata-se de uma gravura do artista holandês Jan Luyken (1649-1712) utilizada para ilustrar a parábola na Bíblia Bowyer. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em que a autoria da foto é atribuída a Phillip Medhurst oriunda de Harry Kossuth, conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Teachings_of_Jesus_30_of_40._parable_of_the_talents._Jan_Luyken_etching._Bowyer_Bible.gif

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Preocupações com a banalização da violência



Ontem (03/10), enquanto eu estava acompanhando a minha esposa num exame de tomografia computadorizada num laboratório de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a TV exibia cenas da violência ocorrida durante um protesto de professores da rede municipal de ensino. Fiquei impressionado como que ninguém naquela sala de espera da clínica importou-se em prestar a atenção nas notícias transmitidas pelo telejornal.

Nos meses de junho e julho deste ano, o país inteiro ainda parava para assistir as manifestações de rua que ocorreram durante a Copa das Confederações. Era o assunto do momento! Uma novidade depois de praticamente duas décadas de calmaria política quando o ex-presidente Fernando Collor tinha sofrido um processo de impeachment. Agora, porém, essas passeatas passam a integrar a nossa rotina junto com os deploráveis atos de vandalismo e de truculência policial.

Confesso que fico muito preocupado com esses reincidentes episódios de confrontos entre mascarados e PMs pelas grandes cidades do país. No nosso dia à dia, estamos assistindo a formação de um ambiente social mais agressivo e embrutecedor no qual as pessoas tendem a não se respeitar mais. Junto com as notícias de pancadaria nos protestos, a TV nos mostra ainda terríveis cenas de guerra no Oriente Médio, assaltos flagrados pelas câmeras espalhadas por aí, os acidentes de trânsito fatais nas vias públicas, as brigas nos estádios de futebol com a participação de torcidas organizadas e casos de violência doméstica.

Durante esta semana, resolvi divulgar em determinados grupos de debates do Facebook uma enquete do site da Câmara dos Deputados sobre o projeto de lei de n.º 5534/2009 do deputado José Mentor (PT/SP) que tem por objetivo proibir a transmissão de lutas marciais não olímpicas pelas emissoras de TV no país. Na ocasião, externei a minha opinião de apoio à proposta do parlamentar, escrevendo ser importante participarmos dessa consulta sobre a proibição das lutas do MMA na TV e a necessidade de se "construir no nosso país a cultura da paz". No enanto, fiquei surpreso com a reação de alguns internautas frequentadores dessas redes sociais, os quais, ao invés de discordarem com elegância das minhas posições, partiram para ofensas verbais gratuitas com o uso até de palavrões defendendo a violência. Um deles assim escreveu:

"O ser humano evoluiu do macaco como a ciencia prova, herdamos os genes do instinto animal, como o ser humano não terá violencia nele? Esse Rodrigo Ancora da Luz é uma anta, a vida é uma briga pela sobrevivência e os mais aptos sobrevivem comprovado pela ciencia, como vai ter cultura de paz e amor q essa mula defende? O MMA reflete a força do ser humano, homens fortes batendo em homens fortes pro mais forte vencer isso é a vida, e não os contos de fadas de figuras como esse Rodrigo Ancora da Luz esse ai não entende porra nenhuma de nada"

Também no mesmo grupo uma mulher posicionou-se da seguinte forma:

"Deixa de ser patético, MMA é esporte e até nós mulheres gostamos, e ridiculo falar contra esporte e dai se gera viloencia ou não? Vc vive em q mundo por acaso Rodrigo Ancora da Luz? O ser humano sempre foi e sempre será violento tendo ou não tendo lçutas, e um direito de todos que gostam poderem assistir"

A que ponto chegamos em que pessoas parecem se contentar com a banalização da violência?! Posso estar até viajando no que vou colocar, mas eu diria que as lutas de MMA e de boxe na televisão estimulam também a violência nos protestos de rua assim como na sociedade em geral. Na minha breve análise sobre o citado projeto de lei que encaminhei para a Câmara Federal, disse que:

"Não consigo ver MMA como um esporte saudável. Nas artes marciais existem princípios que ensinam o praticante a não agredir. No MMA, porém, é um tipo de vale tudo. Parece uma substituição do antigo circo romano. Triste ver a violência tomando conta das telinhas e instigando os nossos jovens... Do jeito que as coisas estão, precisamos ser bem pragmáticos na formação de um ambiente social que favoreça a paz. Chega de estímulo às agressões!"

Como um cidadão antenado com as questões políticas do país, acho que o o povo brasileiro estava precisando se despertar para tratar de questões de interesse coletivo. Porém, não tenho gostado nem um pouquinho de assistir a essa onda de violência que se repete em praticamente todo protesto. Nestas horas, prefiro ficar em casa do que ir para as ruas pois não desejo que a minha presença numa passeata oportunize a ação dos vândalos e nem dos demais tipos de baderneiros. Vejo outras maneiras até melhores de expressarmos o nosso descontentamento e a nossa indignação capazes de proporcionar um encaminhamento mais propositivo do que apenas carregar um cartaz pela praça.

Tão importante quanto lutarmos pelos direitos sociais e contra a corrupção dos políticos está a manutenção da paz, da democracia, da liberdade de ir e vir, do respeito à dignidade de outro ser humano bem como dos demais valores que já foram mais prestigiados na nossa vida nacional. Percebo que a sensatez precisa prevalecer sempre e acho que não avançaremos quebrando certos princípios que são basilares.

Finalmente, deixo o meu apelo para os dirigentes das emissoras de TV afim de que não façam tanto sensacionalismo com a violência. Tudo bem que há uma guerra feroz por audiência que é determinada também pela mediocridade do telespectador, bem como pelo anseio de rentabilidade dos acionistas de tais empresas, mas creio que, com um ideal criativo, é possível mudarmos isso. Dá tranquilamente para as TVs ganharem os seus bilhões por ano com maior responsabilidade social.

Preservemos a paz!


OBS: Foto acima extraída do site da Agência Brasil em http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-08-27/projeto-de-lei-quer-proibir-transmissao-de-lutas-de-mma

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Frutos de uma conversão autêntica


"Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade. Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico, procurava ver quem era Jesus, mas não podia por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura. Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro afim de vê-lo, porque ali havia de passar. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, [viu-o e] disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em sua casa. Ele desceu a toda pressa e o recebeu com alegria. Todos os que viram isto murmuravam [queixavam-se], dizendo que ele se hospedara com homem pecador. Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais. Então, Jesus lhe disse: Hoje houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido." (Evangelho de Lucas, capítulo 19, versículos de 1 a 10; versão e tradução ARA)

O episódio da conversão de Zaqueu, que é exclusivo de Lucas, seria uma de minhas passagens bíblicas preferidas para falar sobre os temas da conversão e da salvação. No entanto, tal passagem também ilustra e explica qual o propósito do ministério gracioso de nosso Senhor Jesus Cristo: "buscar e salvar o perdido" (verso 10).

No capítulo anterior do Evangelho, estudamos a respeito do diálogo entre Jesus e o jovem rico seguido depois pela pergunta dos ouvintes sobre "quem pode ser salvo" (18:26). Já no trecho que trata da conversão de Zaqueu, a questão será finalmente respondida e o autor sagrado vai nos mostrar também como que um rico consegue passar "pelo fundo de uma agulha" (18:25).

Jericó parece ser a última cidade na qual Jesus iria hospedar-se antes de concluir a sua peregrinação rumo a Jerusalém. No dia seguinte, haveria de subir uma enorme montanha deserta. A essa altura, o Salvador já devia ser bem conhecido de modo que tanto Zaqueu quanto o cego curado no caminho de Jericó (18:35-43) certamente sabiam de sua fama. Os moradores da localidade, por sua vez, poderiam estar se sentindo honrados com a visita e a presença do Mestre ali.

No meio de uma multidão, um sujeito baixinho e de má reputação social vai chamar a atenção de Jesus. Era Zaqueu que se esforçava para vê-lo por causa de sua pouca estatura. As pessoas naquela turba na certa se posicionavam em sua frente, mas havia nele um interesse todo especial pelo Senhor. Seu coração ansiava por algo que o preenchesse satisfatoriamente e o Mestre de um modo inexplicável lhe atraía.

Os obstáculos não foram problemas para Zaqueu. Como uma criança, ele resolve então subir num sicômoro, uma planta muito comum Oriente Médio e que produz uns figos de qualidade inferior. Suponho que um homem de sua idade não teria a coragem de se expor tanto na época de Jesus porque talvez fosse vergonhoso.

Contudo, diferentemente dos fariseus e dos mestres da Lei, Zaqueu não tinha uma reputação moral a zelar. Era mal visto por todos em sua comunidade, na mesma medida em que talvez fosse invejado, visto que exercia o trabalho indigno de publicano, coletando impostos do próprio povo judeu para o dominador romano (ler o artigo O engano de nos considerarmos suficientemente justos que fala da Parábola do Fariseu e do Publicano). Isto sem nos esquecermos de que tais funcionários costumavam levar vantagens do contribuinte exigindo valores em excesso, além de propinas. E, estando Jericó numa importante rota comercial da região, dispondo também de um famoso bosque de bálsamo, acredito que esses atrativos econômicos deveriam ter ajudado a enriquecer Zaqueu por muitos anos.

Só que o dinheiro era incapaz de dar um sentido à sua existência. Já as palavras do Mestre, sim. E, como bem sabemos, Jesus transmitia vida aos seus ouvintes, proporcionando-lhes aceitação, esperança, restauração e um novo ânimo. Quem se encontrasse com ele, estando de coração aberto, era incrivelmente transformado. Creio que seus gestos, os modos de andar e de se expressar já deveriam comunicar muita coisa permitindo que as pessoas mais atentas o ouvissem com os olhos.

Notável era a sensibilidade do Senhor. Jesus poderia caminhar no meio de uma multidão mas seria capaz de prestar a atenção em quem estava vindo a ele com vontade. Foi assim na cura da mulher com fluxo de sangue (8:42b-48) e não seria diferente no caso de Zaqueu. O Mestre viu num homem em cima da árvore alguém que pudesse receber mais dos seus ensinamentos pelo que toma a iniciativa ousada de hospedar-se em sua casa.

Os demais moradores de Jericó sentiram-se desprestigiados com aquela escolha. Por que, no meio de tanta gente "digna" na cidade, Jesus resolveu ficar justamente na casa de um publicano pecador e desprezível aos olhos de todos? Não haveria ali homens piedosos e que fossem honestos em todos os seus negócios?!

Só que Jesus veio para quebrar paradigmas. Na lógica do Reino de Deus, como o Mestre tantas vezes ensinou, nenhum homem pode barganhar com o seu Criador. O amor imensurável do Pai é por demais grandioso e não se encontra condicionado aos nossos méritos. Sendo assim, Jesus estava buscando a receptividade interior das pessoas e isto ele viu em Zaqueu como podemos observar pela prontidão e pela alegria deste em receber o novo hóspede em sua morada (verso 6).

Creio que a conversão de Zaqueu é confirmada pela atitude expressa no versículo oitavo. Gratuitamente ele havia recebido a aceitação de Jesus sem nada merecer. Após esse banho de amor, já não fazia mais qualquer sentido continuar levando uma vida errante que só prejudicava as pessoas e empobrecia a comunidade. Zaqueu decide então distribuir a metade dos seus bens aos pobres e restituir em quatro vezes mais a quem um dia ele fraudou.

Como se vê, a conversão tem a ver não somente com uma mudança de mentalidade como ela também implicará na tomada de atitudes opostas às ações erradas que foram anteriormente praticadas. Buscar a reparação do mal causado, ao invés de fugir das responsabilidades, torna-se uma escolha natural da consciência humana transformada. Não porque seja um pré-requisito salvífico, mas sim pelo fato de que a nova conduta passa a integrar o sentido existencial de quem teve um encontro real com a graça de Deus. E aí fazer o bem prioritariamente aos que antes prejudicávamos torna-se uma oportunidade de compartilharmos o amor do Pai tratando ao mesmo tempo da questão do perdão entre ofensor e ofendido.

Seria fácil para Zaqueu trilhar esse novo caminho? As pessoas por ele lesadas iriam estar dispostas a receber suas desculpas? Quantos não duvidariam de sua conversão? Independentemente do orgulho, suas vítimas não estariam com os sentimentos ainda feridos? E o que dizermos acerca dos que já teriam morrido?

Para todas essas perguntas, a graça sempre será a resposta! Com ela está o perdão e o poder para transformar o ser humano afim de que este se torne um doador de coisas boas como o nosso Criador é. Não há trocas, mas sim a construção de uma ética muito mais elevada do que qualquer busca compensatória. Se a legislação mosaica estipulava a restituição do montante fraudado acrescido de 20% (Lv 6:5; Nm 5:7), Zaqueu decide ir muito mais além. Dá 300% a mais porque o seu coração entendeu que assim seria justo.

Jesus parece comemorar ao dizer "hoje houve salvação nesta casa". Embora a multidão permanecesse bem endurecida e muitos ali se sentiam indignados pela escolha de hospedagem do Mestre, um homem abria o seu coração para entender as coisas do Reino de Deus. O perdido estava se encontrando com a vida! Despertando-se antes mesmo de seus concidadãos de Jericó num clássico exemplo de como podemos entender o dito de nosso Senhor em que "os últimos serão os primeiros".

Para muitos na cidade Zaqueu era o "maioral dos publicanos", mas o Mestre o via como um "filho de Abraão". Jesus restaura assim a sua dignidade no meio comunitário, algo que deve servir de padrão para a Igreja. Pois entre os que se convertem a Deus não há máculas do passado. Somos todos homens e mulheres restaurados, aceitos independentemente da reputação moral, o que deve nos levar a compreender melhor o alcance da graça nas nossas vidas e a caminharmos segundo o seu direcionamento no trato com o irmão. Afinal, o caído é também da mesma semente humana que nós todos. Resgatemos, portanto, o perdido.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quatro Zaqueu do pintor dinamarquês Niels Larsen Stevns (1864-1941). Extraí do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Niels_Larsen_Stevns-_Zak%C3%A6us.jpg

terça-feira, 1 de outubro de 2013

"Imediatamente, tornou a ver e seguia-o glorificando a Deus"


"Aconteceu que, ao aproximar-se ele de Jericó, estava um cego assentado à beira do caminho, pedindo esmolas. E, ouvindo o tropel da multidão que passava, perguntou o que era aquilo. Anunciaram-lhe que passava Jesus, o Nazareno. Então, ele clamou: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim! E os que iam na frente o repreendiam para que se calasse; ele, porém, cada vez gritava mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Então, parou Jesus e mandou que lho trouxessem. E, tendo ele chegado, perguntou-lhe: Que queres que eu te faça? Respondeu ele: Senhor, que eu torne a ver. Então, Jesus lhe disse: Recupera a tua vista; a tua fé te salvou [ou a tua fé te fez bem]. Imediatamente, tornou a ver e seguia-o glorificando a Deus. Também todo o povo, vendo isto, dava louvores a Deus." (Evangelho de Lucas, capítulo 18, versículos de 35 a 43; versão e tradução ARA)

A cura do cego de Jericó é considerada um dos últimos milagres operados por Jesus, conforme registrado pelos evangelistas sinóticos. Pelo menos podemos afirmar isto quanto ao seu ministério pois, no momento da prisão do Senhor, o nosso Mestre ainda vai curar a orelha direita do servo do sumo sacerdote cortada pela espada de um de seus discípulos (Lc 22:49-51).

Como havia escrito no nosso último estudo bíblico aqui do blogue, quando os doze apóstolos não tinham ainda compreendido o sentido das palavras do Senhor quanto à sua morte e ressurreição (18:34), o episódio em comento da cura do cego de Jericó vem então ilustrar a falta de percepção daqueles discípulos. O autor sagrado do 3º Evangelho narra a ocorrência do milagre logo em seguida ao tal anúncio e a sequência dos fatos ali apresentados sempre serão importantes para que possamos construir uma adequada interpretação contextual das Escrituras. E esta é uma orientação hermenêutica que não desprezo.

Entretanto, vejo mais coisas interessantes nesta passagem de Lucas que podem ser observadas somente pela leitura dos versos acima. Prestemos a atenção no comportamento das multidões e do cego! Este, embora estivesse vivendo na mendicância por causa de sua deficiência física, não parecia conformar-se com aquele estado, querendo voltar a ver. O homem desejava saber as coisas que se passavam em sua volta e foi o que fez perguntando quando a multidão estava vindo pelo caminho de Jericó.

Os que lhe respondem dizem ser Jesus, o Nazareno, quem passava. Porém, para ele, o Mestre representava ser muito mais. O cego, mesmo sem enxergar fisicamente, compreendia algo acerca do Senhor que nem toda a multidão talvez fosse capaz de perceber. Apenas com a faculdade auditiva em funcionamento, ele já tinha sido suficientemente informado sobre quem seria o tal pregador de boas-novas vindo da pequena cidade de Nazaré, lá das roças da Galileia, chegando assim às próprias conclusões de que se trataria do sucessor de Davi, o tipo de Messias esperado pelo povo judeu.

A hora era aquela! Não dava para esperar por outra chance! O cego anônimo que, em Marcos 10:46, era conhecido como Bartimeu ("filho de Timeu"), começa a gritar por Jesus no meio de toda aquela gente. Ele não se importou se seria feio ou bonito agir daquela maneira diante do público e decidiu lutar pelo que mais queria e necessitava. Teve também que escolher entre ganhar mais uns trocados pedindo esmolas, no meio da grande multidão que por ali passava (talvez juntasse até alguns denários daquela vez), ou tentar sair de vez daquela condição apostando todas as fichas na fé. Preferiu assim algo humanamente impossível de modo que a sua atitude demonstrou que ele nunca havia desistido de sonhar.

Quantas vezes não desanimamos facilmente quanto aos sonhos de Deus para nós, hein meus irmãos?!

Embora o homem estivesse com os seus olhos espirituais bem abertos, aquela multidão permanecia cega quanto às necessidades de seu próximo, mesmo seguindo literalmente os passos de Jesus. Não tiveram a mínima compaixão de um portador de necessidades especiais que se achava numa indigna situação de indigência. Queriam que o cego se calasse e ainda o repreendiam/ameaçavam. Só que para ele Jesus não era insensível como aquela turba. O Filho de Davi haveria de ter misericórdia dele!

Sob certo aspecto, podemos identificar essa multidão com a Igreja e o cego com o modelo de cristão verdadeiro. Quantas vezes a Igreja não ignora as necessidades dos mais humildes e dos que sofrem, chegando a se corromper com os poderosos desta Terra?! Sabemos pela história eclesiástica que os líderes religiosos, por inúmeras ocasiões, preferiram ficar do lado dos reis e dos ricos do que sofrerem juntos com a população miserável. Só que a atitude dos que "iam na frente" (v. 39) não foi capaz de arrebatar a fé daquele cego. Ele prestava a atenção em Jesus e não no comportamento da massa. Era um "cristão, apesar da Igreja", conforme diria o Philip Yancey, autor de um livro que leva este título e que citei no último estudo bíblico.

Na atualidade em que ouvimos falar de escândalos envolvendo padres/pastores que são ladrões, pedófilos, estupradores e até ligados ao tráfico de drogas, posso dizer que nenhuma dessas notícias consegue me afastar do discipulado de Cristo. Jamais os que estão à frente de um ministério serão capazes de substituir o modelo exemplar deixado pelo nosso Senhor. É na vida obediente de Jesus que o crente deve inspirar-se para prosseguir na sua jornada espiritual. Logo, se qualquer homem cair, devemos ter essa compreensão nas nossas mentes. Do contrário, o pecado do pastor será, na verdade, mais uma desculpa apresentada para alguém tentar justificar um erro.

Que coragem teve aquele cego! Ele não creu apenas na unção e no poder de Jesus. Confiou no seu imenso amor! Ele soube distinguir o Mestre dos demais professores de religião de sua época. O Filho de Davi não poderia ser como os demais líderes que excluíam as pessoas de seu convívio. O messias no qual ele cria seria um homem acima de tudo humano, acessível e compassivo. Como em Isaías 35, versículo 5, trecho das Escrituras que Jesus citou numa resposta dada a João Batista (ler artigo Um messias que se fez amigo dos pecadores).

Jesus atende o seu clamor e manda que lhe tragam o cego. Tal pedido por misericórdia fez com que o nosso Senhor suspendesse por alguns instantes a sua caminhada encaixando a necessidade daquele homem na sua agenda. Perguntou qual seria o seu desejo para ser realizado e o cego responde na lata sem fazer qualquer rodeio: "que eu torne a ver" (v. 41).

Transportando essa experiência para as nossas orações diárias a Deus, devemos tirar como aprendizado a perseverança do cego e a exata expressão de que ele desejava. Muitos de nós desanimamos nas nossas petições ao Pai só porque não somos atendidos de imediato. Outras vezes,  não estamos desejando com o coração aquilo que falamos com a boca. Em todo o caso, falta fé. Simplesmente ficamos alienados dentro de uma rotina religiosa que, embora ajude a construir bons hábitos, será algo sem efeitos práticos caso não aprendermos a fazer esse exercício espiritual com vontade.

Ao restabelecer a visão do cego, o Mestre lhe diz: "a tua fé te salvou". Segundo alguns comentaristas bíblicos, esta parece ser uma tradução melhor do que simplesmente "te fez bem", muito embora me pareça que ambas possam se completar sendo certo que a ideia de salvação total também corresponde à atitude posterior do homem curado em seguir a Jesus e louvar a Deus (v. 43).

Assim, como podemos constatar, a extensão do milagre foi muito maior do que simplesmente ser restaurada a visão ocular de um cego. O homem continuou ansiando por algo a mais de maneira que, quando começa a seguir a Jesus junto com a multidão, podemos ver nisto um passo rumo ao discipulado. Ao invés de sair dali e voltar para a casa, ele preferiu ir atrás do Mestre crendo em algo ainda superior ao benefício recebido.

Finalmente, quero destacar a importância da atitude de pessoas capazes de agir com a coragem do cego de Jericó mesmo diante da estupidez da maioria. Muitas vezes é preciso que alguém tenha a ousadia de gritar no meio de uma multidão e contrariar os que estão na frente dos ministérios afim de que a nossa sensibilidade seja tocada. Essa atitude que jamais deve ser confundida com a rebeldia (porque estava em conformidade com o propósito de Cristo) pode ser aquilo que a Igreja esteja  necessitando escutar. Tanto é que o resultado daquela intervenção sadia do cego foi fazer com que todo o povo prosseguisse depois rendendo louvores a Deus.

Igualmente sinto ser urgente nós nos posicionarmos com firmeza nestes dias atuais. O crente fiel não tem que se preocupar com o agrado dos homens. A falta de cuidado da Igreja para com o necessitado deve ser apontada pelos profetas que o Espírito Santo levanta. Enquanto o dinheiro dos dízimos e das ofertas continuar sendo prioritariamente destinado para a construção de prédios, o ser humano, que é o verdadeiro templo onde Deus habita, requer mais atenção. Não podemos deixar pessoas em nossas comunidades passando por necessidades! Algo tem que ser feito dentro dos grupos nos quais nos congregamos e também no ambiente onde estamos (nossos bairros e cidades). Esta é a visão que necessita ser hoje restaurada: o foco nos pequeninos.

Que possamos todos "ver" afim de seguirmos com real propósito glorificando ao nosso Deus Maravilhoso!


OBS: A ilustração acima corresponde ao quadro Jesus curando o cego perto de Jericó do pintor parisiense Eustache Le Sueur (1617-1655), o qual foi um dos fundadores da Academia de Belas Artes da França. O obra encontra-se atualmente na Galeria de Imagens de Sanssouci, em Postsdam, Alemanha, e foi extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Eustache_Le_Sueur_003.jpg