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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Protestos sem máscaras



Durante a primeira semana de setembro, vários Tribunais de Justiça dos estados brasileiros proferiram decisões autorizando a identificação das pessoas mascaradas nas manifestações de rua. Aqui no Estado do Rio de Janeiro, por determinação da 27ª Vara Criminal da Comarca da Capital, quem estiver com máscara e se recusar a retirá-la quando abordado por um policial, poderá ser conduzido a uma delegacia afim de que seja tirada sua fotografia e colhida as digitais. Trata-se, pois, de uma medida que considero bem positiva para o desenvolvimento da nossa marcha democrática e que foi aprovada pelo presidente da OAB/RJ Dr. Felipe Santa Cruz:

"Acho uma medida correta. A máscara pode ser alguma forma de expressão, mas tem servido para esconder o rosto de pessoas que se infiltram nas manifestações para fazer arruaça. Se lutamos para que os policiais sejam identificados, por que os manifestantes não deveriam seguir o exemplo?"

O texto constitucional é claro quando declara a liberdade de manifestação do pensamento mas proíbe o anonimato (art. 5º, IV, CRFB/88). Toda e qualquer expressão de caráter evidentemente política precisa ter uma assinatura/identificação. E, neste sentido, quem comparece a um protesto precisa ao menos mostrar o rosto. Seja por motivo de segurança pública ou mesmo de coerência e de transparência perante à sociedade na qual vivemos. Do contrário, o movimento será uma atitude covarde de apunhalar o opositor.

A meu ver, seria bom que o Congresso aprovasse uma lei proibindo a presença de pessoas mascaradas nas passeatas e estabelecendo penalidades pecuniárias e disciplinares para determinados comportamentos potencialmente nocivos, mesmo que não configurem vandalismo. Isso já serviria para inibir a ação dos arruaceiros porque permitiria à polícia deter os elementos não identificados. Assim, os baderneiros encontrariam dificuldades para juntar-se aos manifestantes com o rosto coberto. E, se a PM estiver filmando tudo desde o início, ficará mais fácil descobrir quem jogou pedra ou quebrou o ponto de ônibus usado pela coletividade. Além da aplicação de multas, deveria a legislação suspender a participação do cidadão que tiver demonstrado um comportamento agressivo da mesma maneira como vem ocorrendo hoje nos estádios de futebol.

É certo que tais medidas preventivas e repressivas não serão suficientes para por fim à onda de violência nos protestos, mas poderão contribuir muito para promover u processo de pacificação. Muitas pessoas, inclusive eu, têm se ausentado das manifestações de rua por causa da ação dos baderneiros. E aí, se houvesse menos episódios de vandalismo e de confrontos com os PMs, os movimentos sociais ganhariam muito mais expressão de modo que os gestores públicos e os legisladores poderiam conhecer melhor as insatisfações populares.


OBS: A imagem acima foi produzida pela Agência Brasil sobre os protestos do 7 de Setembro, no Rio de Janeiro, com atribuição de autoria Mídia Ninja, conforme consta em http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/09/no-rio-19-detidos-nos-protestos-sao-liberados-e-um-continua-preso

domingo, 8 de setembro de 2013

Entrar no Reino de Deus

"Os fariseus que eram avarentos, ouviam tudo isto e o ridicularizavam. Mas Jesus lhes disse: Vós sois os que justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus. A lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele. E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da lei. Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério; e aquele que se casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério." (Lucas 16:14-18; ARA)

As igrejas evangélicas deveriam pregar mais sobre o problema da avareza que, segundo o apóstolo Paulo, é "idolatria" (Cl 3:5; Ef 5:5). Nos estudos que tenho feito sobre o Evangelho de Lucas aqui neste blogue, eis que o capítulo 16 é praticamente todo dedicado para tratar dessas questões sobre o trato das riquezas, como abordado no ensino anterior, sendo certo que há diversas outras passagens igualmente pertinentes. Aliás, o nascimento de nosso Senhor foi concebido dentro dessa visão revolucionária conforme consta no Magnificat de Maria (ver Lc 2:52-53).

Explicando a parábola do mordomo infiel, Jesus recomendou que seus discípulos empregassem as riquezas em favor da promoção do Reino de Deus, atendendo as necessidades do próximo como amigos (16:9). Deveriam ser fieis nesse ministério (versos 10-12) e se desapegarem do dinheiro (v. 13). Do contrário, como estariam servindo a Deus?

A narrativa prossegue. No versículo 14, diz o evangelista que os fariseus zombavam de Jesus porque seriam avarentos. A resposta do Mestre, porém, teve um caráter inicial mais genérico, indo além da análise específica da questão dos bens materiais, para somente então retornar à temática que será vista na parábola do rico e do Lázaro (vv. 19-31), a qual pretendo comentar posteriormente e evitar que este texto não se torne mais longo ainda.

A primeira reprovação feita aos fariseus aqui diz respeito ao comportamento de auto-justificação. Diante dos homens é fácil um religioso dizer que fez isto ou aquilo, mas somente Deus conhece o nosso interior. Nos arquivos do Onisciente estão registradas todas as nossas motivações e o Eterno vê além das aparências. Disso nenhum homem consegue fugir:

"Nada há encoberto que não venha a ser revelado; e oculto que não venha a ser conhecido. Porque tudo o que dissestes às escuras será ouvido em plena luz; e o que dissestes aos ouvidos no interior da casa será proclamado dos eirados." (Lc 12:2-3)

Deve-se considerar ainda que a atitude de alguém querer justificar a si próprio (julgar-se aceitável pela prática de boas obras) pode chegar a ser abominável diante de Deus, tal como é o pecado da idolatria. Desejar que os homens nos reconheçam como a nata moral da sociedade e fiquem louvando a nossa reputação torna-se algo que muitas das vezes é uma usurpação dos atributos divinos já que, como na resposta que será dada ao jovem rico, somente Deus é bom (Lc 18:19).

Tenho pra mim que a grande maioria dos fariseus nem fosse formada por homens ricos, diferentemente dos saduceus/sacerdotes já que estes recebiam os dízimos e as ofertas de toda a nação israelita pela arrecadação do Templo. Logo, aqueles seriam pessoas pessoas provenientes de uma classe média, provavelmente trabalhassem com algum ofício tipo o pai de Jesus, e, no máximo, receberiam parte das contribuições das congregações sinagogais pela prestação de serviços. Contudo, corriam o risco de fazerem do moralismo um ídolo nas suas vidas.

Isto é o que muitas das vezes ocorre com várias pessoas que, por não terem alguma elevada quantia em dinheiro para idolatrarem, buscam uma compensação apegando-se à reputação que possuem diante dos homens. Geralmente problemas assim ocorrem com que é muito religioso, o que dificulta muito a compreensão da graça divina nas nossas vidas e a total dependência do homem em relação à justiça de seu Criador.

Interessante quando ouço muitos dizerem que a reputação moral seria o único bem que o pobre possui, mas acho esta ideia um tanto conservadora e aprisionadora. Além de ser uma maneira de compensar as frustrações da pobreza, lembra um pouco aquilo que Napoleão Bonaparte (1769-1821) teria dito certa vez da religião como algo "que impede os pobres de assassinar os ricos". Uma frase que, em parte, concordo quando vejo os pastores conduzindo as ovelhas para um conformismo ao invés de incentivá-las a construírem o revolucionário Reino de Deus no cotidiano vivenciado comunitariamente. Por outro lado, o Evangelho pode não pregar a matança dos ricos, mas sua mensagem é capaz de neutralizar/esvaziar o poder das riquezas pelos novos valores que propõe.

A riqueza moral, todavia, jamais vai se adequar à elevada ética proposta por Jesus cuja base não se encontra numa observância externas dos mandamentos ou de regras inventadas pelos homens. O Mestre sempre pregou algo de base principiológica e que deve vir de dentro, tendo por motivação o amor e a compaixão. Algo que não só resume a Lei de Moisés e o ensino dos profetas bíblicos como também vem completar/atualizar/traduzir.

Em momento algum Jesus teve a pretensão de revogar os mandamentos do Monte Sinai. Muito pelo contrário! Porque, enquanto houver céu e terra, todas as gerações precisarão considerar os ensinos antigos (v. 17), reverenciando toda a tradição bíblica. Assim, o Evangelho anunciado pelo Mestre, e também por João Batista, veio justamente resgatar a essência da Torá judaica, dando o devido tratamento aos problemas daquele tempo tal como precisamos fazer hoje em dia diante dos desafios do presente. Esta tarefa precisamos executá-la de olho nas necessidades sociais e não com base numa moral enrijecida que é capaz de afrontar o amor e a dignidade do ser humano.

É dentro deste contexto que Jesus tocou no assunto do divórcio, o qual era um tema controvertido entre os fariseus. Isto porque havia uma divergência entre as escolas dos mestres Hillel e Shamai acerca dos motivos que autorizem o fim do vínculo conjugal. Enquanto uns interpretavam de maneira ampla o termo "coisa indecente" (Dt 24:1), outros restringiam a autorização para o marido divorciar. Só que Jesus não entre nesse debate e prova as atitudes de desamor do homem em relação à sua mulher.

O problema sobre o divórcio é tratado com mais abrangência nos dois primeiros evangelhos (Mt 19:3-12; Mc 10:2-12), quando os fariseus vieram tentar Jesus e não acho que seja possível formarmos uma doutrina a partir desses ditos atribuídos ao nosso Senhor. Aqui em Lucas, o tema é abordado secundariamente num outro contexto, mais próximo, talvez, dos exemplos do Sermão da Montanha (conf. Mt 5:31-32), porém há alguma ligação com o princípio da união de almas de Gênesis 2:24 em que serão "dois numa só carne". Este, por ser norma inspiradora, deve nortear a interpretação de Deuteronômio 24 afim de não autorizar uma conduta de banalização do instituto.

Tenho pra mim que Jesus não excluiu as possibilidades de divórcio, ou tenha taxativamente condicionado às hipóteses de infidelidade conjugal.  Menos ainda teria formulado mandamento novo porque o Mestre não veio acrescentar e nem tirar nada da Lei de Deus. Pois o que nosso Senhor buscou foi dar aos mandamentos uma dimensão verdadeiramente amorosa e nunca legalista de modo que, ao proferir ais palavras, ele estava defendendo/orientando que as pessoas buscassem ser mais tolerantes nos seus relacionamentos matrimoniais. Era um recado para que os homens não pensassem só neles mesmos, reconhecessem a condição desfavorável da mulher e fortalecessem seus elos. O casamento precisa ser resistente e nada mais atual do que falarmos sobre isso nos dias de hoje em que as pessoas não resistem às primeiras briguinhas.

A ideia do homem esforçar-se para entrar no Reino, dita no versículo 16, engloba todas as condutas que devem ser praticadas ou evitadas e para mim seria a chave interpretativa da passagem bíblica em comento. Mais adiante, Jesus falará o mesmo em relação às riquezas (Lc 18:24) e aí não podemos nos esquecer que este é o assunto principal que estamos estudando sendo o papo sobre o divórcio apenas um detalhamento de algo maior. Pois quem se separa por qualquer insatisfação ainda não compreendeu a dimensão do Reino.

Assim como o dinheiro e a reputação moral do indivíduo podem se tornar ídolos na vida de qualquer um, o esmo seria possível de se dizer  quanto à compulsão sexual. O marido que deixa a esposa porque quer casar-se com outra mais novinha que corresponda melhor aos seus desejos libidinosos não está agindo amorosamente. O seu comportamento é potencialmente destrutivo, incapaz de edificar algo duradouro e reflete uma impulsiva busca por prazer e emoções, incapaz de encontrar satisfação em outros aspectos da convivência humana. Portanto, esse cara não entendeu o que vem a ser Reino de Deus.

É assim em relação às riquezas também! Quem se apega ao dinheiro, aos bens e a qualquer tipo de status não consegue vislumbrar a superioridade que há na convivência comunitária horizontalizada. O dinheiro pode até comprar a companhia das pessoas, mas nunca o amor delas. Ter muito enquanto outros não têm nada afronta a humanidade e o seu Criador que tudo nos deu de graça para usarmos coletivamente em benefício de todos conforme cada necessidade. E, se o nosso dinheiro ou meio de vida tornou-se causa das desigualdades no planeta, devemos nos desfazer dessa fonte ruim de injustiças e usarmos o que fora fruto da iniquidade para repararmos o mal combatendo a pobreza (16:9). Será o este o exemplo dado pelo publicano Zaqueu que encontraremos adiante avançando mais umas páginas nas nossas bíblias (Lc 19:8).

Vale insistir que Jesus não condenou a posse dos bens materiais, mas entendo que precisamos ser mordomos responsáveis em relação ao uso do dinheiro empregando as coisas que temos na promoção do Reino numa visão coletiva. Assim, nosso conforto deve harmonizar-se com o bem estar do próximo. Ao recebermos nossos salários, ganhos empresariais ou benefícios de aposentaria devemos pensar um pouco na repartição, não permitindo que as despesas de consumo tornem-se tão altas a ponto de compras supérfluas impedirem que sejamos participantes de ações sociais. Já as pessoas de condição humilde, vejo que elas devem ser até destinatárias dos trabalhos assistenciais de suas igrejas, muito embora sempre é bom que todos tenham a oportunidade de serem doadores.

Certamente que a nossa mesa pode ficar ainda mais apetitosa se nela houver espaço para os pobres e necessitados. Quando doamos um pouco dos nossos ganhos na medida das nossas disponibilidades/consciência/amor, descobrimos o delicioso sabor da caridade desinteressada (sem nada esperar em troca). Algo capaz de noas satisfazer melhor do que um churrasco de carne gorda e macia. Mais do que uma festa de aniversário com bolos, refrigerantes, salgadinhos e brigadeiros. Trata-se, pois, do apetitoso banquete do Reino que já podemos degustar no aqui e agora. Uma ceia maravilhosa capaz de dar um sentido real à nossa existência.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Chega de guerras: a Síria precisa é de ajuda humanitária!



Os meios de comunicação deveriam mostrar mais as posições do papa Francisco contra a intervenção militar na Síria. Tenho concordado plenamente com o líder dos católicos romanos a este respeito pois defendo que as igrejas cristãs do mundo inteiro deveriam se empenhar mais para impedirem uma outra guerra no nosso planeta.

Durante a reunião do G-20, ocorrida na Rússia, os líderes mundiais mostraram-se bem divididos sobre a guerra pretendida por Obama. E o nosso país, felizmente, não apoia uma ação militar no Médio Oriente pois, como disse o ministro Luiz Alberto Figueiredo Machado, a solução para o fim do impasse deve vir por meio do diálogo e do consenso.

Gregório III Laham, patriarca católico de Antioquia, com sede na capital síria de Damasco, mostrou preocupação com o que pode ocorrer em seu país caso Obama leve adiante o seu plano belicista:

"Haverá ainda mais vítimas e teremos uma guerra regional que envolverá o Líbano, onde já há milhões de refugiados sírios"

Também as missões evangélicas Portas Abertas têm atuado no país há um ano junto com as igrejas locais, levando para lá cestas básicas aos desabrigados, remédios, agasalhos na época de inverno, pagando aluguel para algumas famílias em dificuldades e distribuindo bíblias aos refugiados.

Sabe-se que o conflito na Síria já matou mais de 100 mil e, de acordo com as Nações Unidas, o país tem hoje 2 milhões de refugiados. Assim, se houver a guerra, a tendência é que o Oriente Médio vire um caos, afetando, inclusive, Israel que se encontra logo ao sul.

Para este sábado (07/09/2013), o papa Francisco propôs que católicos e pessoas de outras religiões participem de uma jornada de oração e jejum pelo fim do conflito sírio. E, a meu ver, mais do que nunca os cristãos de todas as denominações e segmentos devem se unir neste propósito pondo seus joelhos no chão independentemente de nossas divergências.

Que haja paz!


OBS: A imagem acima refere-se ao trabalho de distribuição de donativos feito na Síria pela missão Portas Abertas, conforme consta no seu portal na internet em http://www.portasabertas.org.br/noticias/2013/09/2684990/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Deus+tem+um+futuro+melhor+para+a+S%EDria

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Habilidade na construção do Reino e desapego das riquezas


"Disse Jesus também aos discípulos: Havia um homem rico que tinha um administrador; e este lhe foi denunciado como quem estava a defraudar os seus bens. Então, mandando-o chamar, lhe disse: Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, porque já não podes mais continuar nela. Disse o administrador consigo mesmo: Que farei, pois o meu senhor me tirar a administração? Trabalhar na terra não posso; também de mendigar tenho vergonha. Eu sei o que farei, para que, quando for demitido da administração, me recebam em suas casas. Tendo chamado cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu patrão? Respondeu ele: Cem cados de azeite. Então, disse: Toma a tua conta, assenta-te depressa e escreve cinquenta. Depois, perguntou a outro: Tu, quanto deves? Respondeu ele: Cem coros de trigo. Disse-lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta. E elogiou o senhor o administrador infiel porque se houvera atiladamente, porque os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz. E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos." (Evangelho de Lucas, capítulo 16, versículos de 1 a 9; versão ARA)

A parábola do "administrador infiel" é uma das partes dos evangelhos que causa certa estranheza e dificuldade interpretativa por não se encaixar na perspectiva religiosa do leitor de hoje. Há quem chegue a duvidar da autenticidade desse ensino como se não fosse de Jesus. Outros, porém, preferem simplesmente evitar esta passagem nas suas pregações e reflexões, fazendo, às vezes, uma abordagem parcial até o verso 8. Isso porque se trata de uma lição positiva tirada de uma ação fraudulenta que é a conduta do administrador da propriedade.

Penso que devemos sempre indagar qual poderia ter sido o entendimento dos cristãos primitivos acerca da metáfora pois, afinal de contas, o autor sagrado escreveu-a há uns 1900 anos atrás e o texto encontra-se lá nas nossas bíblias. Logo, temos mais é que nos debruçar sobre a mensagem, esforçando-nos para compreendê-la, o que é melhor do que simplesmente ignorarmos, fazendo de conta que ela não se encontra ali.

Ora, o administrador dessa história seria um homem que, no lugar do dono, controlava todos os negócios da fazenda. O patrão, talvez porque tivesse outras propriedades para cuidar, não poderia gerir pessoalmente cada uma delas. Por isso ele precisava contar com o trabalho de funcionários da sua maior confiança, para agirem igualmente a ele, sendo certo que não teria como supervisionar detalhadamente todas as atividades. Ou seja, não haveria como controlá-lo com exatidão afim de saber se o sujeito estaria desviando recursos ou agindo de maneira ociosa. Principalmente se fossem transações ilegais tipo a cobrança de juros nas vendas a prazo, o que, entre os judeus, não poderia existir.

Alguns comentaristas bíblicos supõem que, junto com o comércio financiado dos produtos agrícolas, o vendedor lançava na nota de débito uma quantidade a mais do que realmente teria sido adquirido, conforme o prazo avençado entre as partes. Seria uma maneira inteligente de se tentar burlar a legislação de Moisés. Pelos menos aos olhos humanos e diante dos magistrados, caso a cobrança viesse algum dia a ser judicializada por falta de pagamento. Assim sendo, é possível que, se, por exemplo, o primeiro comprador levou somente uns 50 barris de óleo (cerca de 2.000 litros), mas não pôde pagar à vista, constasse o dobro na sua fatura. Já o segundo devedor, provavelmente, deve ter contraído uma obrigação num prazo menor para o adimplemento.

Desse modo, o mordomo infiel torna-se ainda mais astuto. Uma verdadeira cobra criada! Ao aconselhar seus clientes a falsificarem novas notas de débito e reduzirem a soma do que deviam formalmente ao proprietário, ele deu um golpe de mestre. Pois, se o dono da gleba fizesse uma auditoria contábil e procurasse saber qual teria sido o quantitativo da produção e o total do que fora comercializado, não conseguiria provar jamais a fraude. Não teria como reivindicar a perda dos juros porque, como já dito, o ágio era uma prática ilegal entre judeus.

Por meio desse expediente, esperava o administrador cair nas graças dos clientes de seu patrão quando fosse demitido. Provavelmente seria recompensado por tirar a corda do pescoço deles e não passaria necessidades. Talvez até seria visto como um bom moço diante da comunidade porque, conforme os costumes culturais da época, prestou um favor honesto. Só não seria mais digno de confiança obviamente.

Contudo, em termos espirituais, jamais o foco da narrativa poderá estar na desonestidade do mordomo, mas, sim, na sua prudência. Notemos que o elogio do senhor da propriedade foi em relação à habilidade de seu subalterno, o qual agiu com maior sabedoria do que "os filhos da luz" (expressão que só ocorre três vezes no Novo Testamento). E aí devemos reconhecer que nem sempre os cristãos mostram-se satisfatoriamente talentosos na condução dos "negócios" do Reino de Deus.

A causa do Reino é algo eterno e de incontestável superioridade se comparado às coisas mundanas. Contudo, até que se torne uma realidade visível, há um campo minado a ser atravessado. Cabe aos discípulos de Jesus, os destinatários dessa parábola, agirem com esperteza e prudência, mas sem sem tornarem maliciosos, conservando a simplicidade (conferir com Mateus 10:16 e Tomé 39). Só que o contexto do 3º Evangelho tem a ver com as faces da riqueza e aí não podemos deixar de enfrentar a incômoda recomendação do versículo nono já transcrito acima sobre fazer amigos com as riquezas e ser recebido nos "tabernáculos eternos".

Será que o dinheiro pode comprar um lugar no céu para alguém?! Ou a referência a uma morada eterna não poderia ter outro significado além do escatológico?

Pois bem. Se retornarmos algumas páginas em nossas bíblias, iremos novamente meditar na metáfora do fazendeiro rico (Lc 12:16-20), quando nosso Senhor havia reprovado a avareza. Ali o Mestre ensinou que "a vida do homem não consiste na abundância dos bens que ele possui" (12:14), de maneira que é na realidade espiritual, com seus valores permanentes, onde devemos nos firmar. Nunca nos bens materiais que só prestam para satisfazer as necessidades do homem aqui na Terra. Há algo muito maior e indestrutível para ser considerado na nossa existência multidimensional, pelo que não podemos usar das coisas perecíveis deste mundo com um propósito egoísta. Temos que "fazer amigos" e empregarmos os recursos disponíveis nessa grandiosa atividade.

"Vendei os vossos bens e dai esmolas; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração." (Lc 12:33-34; conferir artigo Vença a ansiedade!)

Trata-se de fazer amigos e não comprá-los! Jesus não desejou que a obra assistencial da Igreja fosse usada com uma finalidade proselitista, como se a pessoa ajudada precisasse virar seguidora do segmento religioso dos apóstolos para ter direito a continuar pegando a sua cesta de alimentos. O fazer amigos deveria levar os discípulos a horizontalizarem suas relações na formação de uma verdadeira comunidade de irmãos a ponto de todos constituírem uma só bolsa, a exemplo do que se lê em Atos dos Apóstolos 2:44-45, que pode ter sido escrito ou não pelo mesmo autor do 3º Evangelho. A proposta do Salvador era revolucionária e, por isso, a lição não se esgota na parábola. O Mestre prossegue explicando:

"Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Se, pois, não vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta, quem vos confiará a verdadeira riqueza? Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos dará o que é vosso? Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas." (Lc 16:10-13)

A fidelidade "no pouco", na ótica do Reino, seria a administração dos bens materiais para suprimento das necessidades dos homens, enquanto que ao termo "muitos" podemos entender como sendo a dimensão espiritual - a "verdadeira riqueza". Aquilo que realmente os pertence!

Com isso aprendemos que a prática da caridade é uma excelente oportunidade de aprendizado sobre coisas maiores tipo exercitar o amor, aceitarmos incondicionalmente o outro e extrairmos bondade do nosso coração. Jamais será um fim nela mesma como se bastasse resolver o problema financeiro-alimentar-habitacional do outro pois, nestes casos, melhor seria a Igreja contratar assistentes sociais, deixando que o cuidado com o próximo ocorresse por meio de assistentes sociais sem nos envolvermos afetiva e espiritualmente.

A fidelidade aqui exigida não se limita a uma prova contábil da probidade gerencial dos bens terrenos. Isto é, a questão não versa sobre apresentarmos as contas dos investimentos da Igreja na área social. Seria, sim, o agir com sinceridade e boa consciência para com o Pai, cuidando amorosamente dos nossos irmãos sem abusarmos da boa-fé de quem quer que seja. Para tanto podemos e devemos até atuar no anonimato.

Concluímos que essa é uma elevada lição de discipulado dada pelo professor Jesus de Nazaré, o que exige uma tomada radical de decisão por quem pretende seguir a Cristo. Por isso não se pode devotar a Deus e às riquezas ao mesmo tempo (verso 13). A caridade feita aos pobres, bem como as demais ações sociais, pode parecer algo de pequena importância diante de outros assuntos espirituais, mas é um importante instrumento para o homem desapegar-se das coisas materiais e se iniciar no serviço divino. Através dessas boas obras será testada a nossa fé e, por sua vez, os atos externos que decidimos praticar interagem com todo o nosso ser.


OBS: A imagem acima trata-se de uma gravura do artista holandês Jan Luyken (1649-1712) utilizada para ilustrar a parábola na Bíblia Bowyer. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em que a autoria da foto é atribuída a Phillip Medhurst oriunda de Harry Kossuth, conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Teachings_of_Jesus_31_of_40._parable_of_the_unjust_steward._Jan_Luyken_etching._Bowyer_Bible.gif

terça-feira, 3 de setembro de 2013

"Este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado"



A parábola conhecida como a do "filho pródigo" (Lc 15:11-32) é uma das mais comentadas do Novo Testamento, sendo uma fértil fonte de inspiração para inúmeros romances da literatura mundial. Ela também nos mostra a visão do nosso relacionamento gracioso com Deus que, neste célebre ensino bíblico, é representado por um pai que tinha dois filhos (verso 11).

Dentro do contexto literário do capítulo 15 do Evangelho de Lucas, Jesus havia sido criticado pelos religiosos de sua época porque recebeu todos os pecadores, não se importando em sentar-se com eles à mesa para comer (versos 1 e 2). Em resposta, o Mestre conta-lhes três histórias incríveis: a da ovelha e da moeda perdidas e a do filho pródigo.

As duas metáforas já foram analisadas no artigo Deus busca o pecador arrependido. Tratarei agora de comentar apenas alguns aspectos da terceira parábola numa análise contextualizada e direcionada para este estudo sequencial do 3º Evangelho que tenho feito desde junho do corrente ano, reconhecendo que há muito mais para ser desenvolvido e aprofundado apenas sobre o filho pródigo.

O primeiro detalhe que muito me chama a atenção é o pedido de partilha antecipada do filho mais novo (v. 12). Estando o pai ainda vivo, ele requer a sua parte na herança, deixa para trás a fazenda da família e vai em busca dos prazeres numa terra distante. Tal pedido pode ser visto como uma enorme ofensa porque o rapaz trata o seu genitor como se ele já tivesse sido morto e enterrado. Em outras palavras seria como se ele houvesse falado mais ou menos assim:

"Pai, o senhor morreu pra mim e eu não vivo mais para o senhor daqui por diante. Não quero mais ser seu filho! Dê o capital equivalente à minha parte na herança para eu ir embora deste lugar."

Certamente que o pai poderia ter recusado aquele pedido do filho e o repreendido duramente. Talvez isto fosse o que muitos pais e mães fariam hoje, ainda mais no trato com crianças ou adolescentes menores de idade. Só que, conforme a história, presumimos que o rapaz já fosse homem feito. Caso negasse a partilhar os bens, o pai estaria enganando a si mesmo, perdendo a oportunidade de conquistar o coração daquele jovem obstinado. Teria-o na sua companhia, porém completamente contrariando, estagnado evolutivamente e esperando ansiosamente pelo dia em que se tornaria órfão paterno.

Creio que Deus também age assim conosco. Ele quer que sejamos capazes de descobrir a beleza de seu amor por nós. O Pai Celestial não nos obriga a amá-Lo! De jeito nenhum! Se o homem resolve afastar-se do seu Criador, Ele assim permite e os céus vão chorar pela partida de um filho.

"Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente [com esbanjamento]. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas [ou vagens] que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada." (Lc 15:13-16; ARA)

No período dissoluto de sua vida, o filho pródigo experimentou a dor longe de casa. A parábola ignora os detalhes sobre como teria sido a gastança dos bens sendo certo que, após o prazer transitório do pecado, nenhuma lembrança será capaz de saciar a nossa alma. Passamos a ter novas necessidades no meio de falsos amigos, os quais não se importarão com os nossos anseios verdadeiros e ainda sofreremos a vergonha, a exploração, a humilhação e o desprezo das pessoas nas nossas horas difíceis. Na história, até os porcos eram mais bem cuidados do que um trabalhador estrangeiro (v. 16).

Pois bem. O filho pródigo precisava conhecer a hostilidade desse mundo de ilusões para aprender a dar valor ao amor e ao caráter de seu pai. O sofrimento não serviu para puni-lo, mas veio como uma chance de auto-reflexão. Foi trabalhando num chiqueiro e desejando fartar-se da ração dos animais que ele caiu em si reconhecendo a sua indignidade e tomou a acertada decisão de voltar para a casa paterna. Mesmo se fosse para servir como um empregado na propriedade da família, ainda alcançaria uma condição melhor do que permanecer no país onde se encontrava (vv. 17-19).

Lindo e emocionante é o reencontro entre pai e filho! Ao ver o jovem retornando, mesmo estando ainda longe, o sentimento daquele pai não foi outro senão o da compaixão. Não havia nem ira, nem mágoa, nem rancor, nem soberba ou altivez no coração daquele homem bondoso. E, embora não fosse digno da época um senhor de idade levantar suas vestes e correr, tal pai não se importou com essas formalidades culturais tolas pelo que resolveu encurtar as distâncias apressando-se na direção do filho. Só interessava-lhe naquele momento estar com seu caçula para abraçá-lo e beijá-lo.

"E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou." (v. 20)

Meu amigo e minha amiga, saiba que, ao decidir-se voltar para Deus, há um caloroso abraço te aguardando. Nosso amado Pai Celestial não irá lhe pedir contas do que você fez ou deixou de fazer afim de acusá-lo(a). Ele só quer o seu coração e lhe dará um tratamento digno. Os seus pecados Deus lança no mar do esquecimento. Aleluia!

Diante da presença paterna, o filho espontaneamente confessa ter errado (v. 21), mas não interessa ao pai ficar remoendo o passado. É o presente que importa e pela primeira vez o coração daquele jovem havia se voltado para o seu genitor. Por isso, sua resposta é dada por meio de atitudes positivas em relação ao filho. O pai manda então aos servos que trouxessem depressa a melhor roupa para vesti-lo, colocassem um anel no seu dedo e sandálias para calçar os pés afim de que o retorno à casa paterna ocorresse de maneira honrosa. E para comemorar, resolve fazer uma grande festa com churrasco, preparado com carne de bezerro como jamais fizera.

Podemos ver nessa conduta paterna o seu tácito perdão de uma maneira completa. Ele se mostra disposto a restaurar o relacionamento perdido e a volta do filho torna-se um motivo de alegre celebração naquela casa. As razões são expostas no versículo 24 que inspiraram o título dessa postagem.

"porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se." (v. 24)

Entretanto, aquele pai tinha mais um filho e deste outro o Evangelho também não o esquece. O irmão mais velho encontrava-se no campo trabalhando quando o pródigo retornou e, certamente, não presenciou o reencontro. E ainda bem que estivera ausente naquele momento tão grandioso pois dizia respeito a algo que ele ainda não compreendia.

Como se pode ver pela leitura dos versos 25-32, o primogênito não havia achado sentido na música e na dança. Sentiu-se indignado e não quis participar do banquete oferecido pela volta inesperada do irmão. Tal recusa fez com que o pai se preocupasse em reconciliá-lo.

Sem dúvida que a atitude do filho mais velho serviu para ilustrar o posicionamento dos fariseus quanto à recepção dos publicanos e pecadores por Jesus. Tratava-se do mesmo comportamento dos religiosos de todos os tempos, inclusive dos cristãos de hoje e daqueles que, por já estarem numa igreja, perderam a consciência de uma prodigalidade passada, a ponto de esquecerem-se da graciosa natureza da relação entre o homem e o seu Criador. Por isso, o rapaz resolve cobrar o reconhecimento de seu mérito fazendo menção aos anos de serviços prestados, agindo mais como servo do que como herdeiro:

"Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com meus amigos; vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado." (vv. 29-30)

Ora, a crença do irmão mais velho era que seu relacionamento baseava-se numa troca. Curioso que ele fala do desperdício dos bens do caçula com as meretrizes, as quais só transam sexo se o cliente lhes der dinheiro e este só paga se receber o que contratou. Porém, o amor divino jamais pode ser comparado ao meretrício! O sentimento do nosso Criador pela sua obra-prima (o homem) é totalmente gratuito. Tudo o que Ele tem nos é dado/compartilhado. Inclusive a vida de cada um.

Ao nascermos, somos incomparavelmente amados porque passamos a existir como fruto do desejo de Deus e dos nosso pais. No pecado, continuamos sendo amados. Quando voltamos para o Eterno, seu amor permanece sem nos pedir contas dos erros cometidos. E, no serviço obediente, basta não perdermos a consciência desse amor.

Algumas pessoas chegam a achar injusta a parábola, mas tenho para mim que quem assim julga não está conseguindo compreender o ensino de Jesus e a própria gratuidade da vida. Muitos na religião não sabem porque estão servindo a Deus! Rezam, vão aos cultos, ofertam valores e até pregam sobre a Bíblia porque acreditam ser recompensados por agirem assim. Desconhecem o fato de que o serviço é algo que faz parte do nosso sentido existencial, mas nunca será uma condição para sermos mais amados pelo Pai celestial que nos criou do nada.

A resposta do pai ao filho mais velho vem repetir o que fora dito no citado verso 24. O irmão mais moço "estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado" (v. 32). Aquilo já era um motivo para celebrar e o churrasco era para ambos os filhos e toda a família, não só para um deles. Toda aquela festa só fazia sentido com a reunião dos dois sendo certo que a totalidade dos bens já pertencia ao primogênito por direito em razão do adiantamento da legítima.

Como vimos no estudo sobre o capítulo 14, Jesus não recusou comer o pão do Shabat na casa do fariseu. Ali o Mestre pregou para aqueles religiosos que também eram filhos. No capítulo 15, aprendemos que é preciso também ter compaixão, o que foi o mesmo sentimento do pai em relação ao filho mais novo. E, infelizmente, nem sempre os igrejeiros têm a visão desse relacionamento gracioso entre a humanidade e o Autor da Vida.

Nós que hoje estamos servindo a Deus devemos adquirir também esse entendimento. Não precisamos sair pelo mundão, gastarmos tudo na gandaia para depois, no fundo do poço, voltarmos arrependidos. Só temos que ter sensibilidade e abertura para a ilimitada graça restauradora do bendito Criador. Se um irmão volta para o Pai, o nosso papel será sempre o de acolhê-lo e entrarmos no banquete celestial junto com os anjos porque uma alma foi resgatada da escuridão. Aleluia!


OBS: A ilustração acima trata-se do quadro A Parábola do Filho Pródigo (1651) do artista italano Giovanni Francesco Barbieri (1591-1666), conhecido também como Guercino. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Prodigalsonguercino.jpg

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Buscando forças nas cavernas da vida



O Salmo 142, apesar de não ser encontrado nos dois primeiros livros do saltério, é considerado como um poema "histórico". Isto porque o seu título nos diz que Davi teria orado dessa maneira quando estava numa caverna (1Sm 22:1 ?), possivelmente sentindo-se exaurido por causa das perseguições de Saul como se verifica nos versos 3 e 4:

"Quando dentro de mim me esmorece [desanima] o espírito, conheces a minha vereda. No caminho em que ando, ocultam armadilha. Olha à minha direita e vê, pois não há quem me reconheça, nenhum lugar de refúgio, ninguém que por mim se interesse." (Sl 142:3-4; ARA)

Impressionante como que o autor sentiu-se interiormente solitário em sua luta! Apesar da unção recebida pelo profeta para que reinasse sobre Israel no lugar de Saul (1Sm 16:13), Davi foi tido por uns tempos como um fugitivo sem ninguém que reconhecesse seu valor e apoiasse sua luta. Faltou-lhe muitas das vezes um lugar seguro para esconder-se do perseguidor. Restavam assim as cavernas como esconderijos no meio da escuridão, entre os animais do campo e na natureza selvagem, numa época em que lobos, ursos e leões compunham a extinta fauna do Oriente Médio de três milênios atrás (antes de surgirem os grandes impérios mundiais).

Nos dias de hoje, a vida da gente pode não se desenrolar num cenário geográfico semelhante ao da narrativa sobre o rei Davi. A maioria dos brasileiros mora e trabalha em cidades sendo que não estamos acostumados mais a ter um inimigo físico procurando no assassinar usando do poder estatal. Porém, em diversos momentos, surgem fatos ou pessoas que tentam roubar nossa paz, nossa alegria, a esperança, a dignidade do ser humano no meio social, nossa auto-estima e o ânimo de viver. É aí que nos identificamos com as cavernas existenciais. É quando a alma humana esconde-se dentro de si mesma ansiando por proteção porque falta quem possa ouvir atentamente toda a história que temos para contar e se propor a defender nossa causa.

Para onde ir numa hora dessas?!

Mesmo emocionalmente abalado (afinal o salmista era humano), o autor fez de Deus o seu único refúgio quando clamou em oração. Ele não se apoiou em nenhuma outra coisa nesta vida! Reconheceu como sua herança o SENHOR. Pois mais ninguém do que Aquele quem criou todo o Universo, encheu a terra de seres e fez do homem um ser vivente poderia trazer o livramento desejado.

Por que não agimos assim quando somos mal tratados, caluniados, ofendidos, desprezados, incompreendidos e abandonados?

Onde está a nossa fé nessas horas tempestuosas?

Ou agente prefere ficar olhando para o tamanho do problema?

Entretanto, o poeta bíblico pré-anunciou a sua gratidão e celebrou antecipadamente a vitória como é característica de muitos outros salmos nas Escrituras Sagradas. Pois, ainda que não estivesse vendo um resultado favorável com os olhos naturais, a fé lhe trouxe claridade suficiente em seu espírito para transcender diante de cada situação rompendo limites:

"Tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao teu nome; os justos me rodearão, quando me fizeres esse bem" (verso 7)

Eis aí um grande segredo contido nas páginas da Bíblia! Sempre que estivermos passando por uma aflição, devemos nos lembrar das coisas boas. Não importa a dificuldade enfrentada! As bênçãos precisam ser profetizadas com a boca e no nosso coração, como um exercício de fé, cientes de que, em Cristo, já somos mais do que vencedores.

Que possamos buscar a Deus  em quaisquer circunstâncias pela via da oração. Ele nos libertará de todas as nossas prisões.

Louvemos o Nome do Eterno! Aleluia!


OBS: Imagem extraída do acervo virtual da Wikimedia Commons referindo-se ao interior de uma caverna no norte do estado do Alabama, Estados Unidos da América, onde se observam os exploradores James "Jorge" Roberts (centro) e Laerence Najjar (parte inferior à esquerda), em 24/04/2005, com atribuição de autoria ao usuário da Wikipédia Ky MacPherson. A foto foi encontrada em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Alabama_cave_2005-04-24.km.jpg

domingo, 1 de setembro de 2013

Deus busca o pecador arrependido!




O capítulo 15 do Evangelho de Lucas apresenta-nos três parábolas que falam sobre o perdão/aceitação dos pecadores. Tratam-se das metáforas da ovelha e da moeda (dracma) perdidas, bem como do filho pródigo. Todo o contexto é explicado pelos dois primeiros versos sobre a recepção dos pecadores por Jesus:

"Aproximaram-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles." (Lc 15:1-2; ARA)

Como já vimos nestes estudos sequencias sobre o 3º Evangelho, Jesus já havia sido criticado pelos religiosos de sua época por ter comido com os publicanos num banquete na casa de Levi (5:29-32), um de seus discípulos convertidos que, imediatamente, deixara a coletoria de impostos para seguir o Mestre. Aliás, o Senhor lhes respondeu na ocasião que não veio chamar os justos, "e sim os pecadores, ao arrependimento". E, novamente, a polêmica é posta em debate pelas penas do autor sagrado em que Jesus nos ajudará a entender as coisas na perspectiva misericordiosa de Deus, por meio de seus iluminados ensinamentos metafóricos, afim de que seus ouvintes abrissem o entendimento.

As parábolas da ovelha e do dracma perdidas são praticamente idênticas sendo que a do filho pródigo nos oferece um maior detalhamento ainda que trate também do mesmo tema. Por tal motivo, deixo para comentá-la posteriormente num outro tópico e falar agora apenas sobre as duas primeiras na atual postagem:

"Então lhes propôs Jesus esta parábola: Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo. E, indo para a casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la? E, tendo-a achado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido. E vos afirmo que, de igual modo, há júbilo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende." (Lc 15:3-10)

Curioso Jesus usar aqui os exemplos de um pastor e de uma dona de casa, um homem e uma mulher comuns, tal como fizera nas já estudadas parábolas do grão de mostarda (13:18-19) e do fermento (13:20) para explicar a dimensão do Reino de Deus (conferir artigo Um começo bem pequenininho...). Implicitamente podemos ver aí o papel colaborador de ambos os sexos atuando igualmente na recuperação da pessoas excluídas e marginalizadas como pastores das comunidades.

Para os mestres religiosos da época de Jesus, falar aos pecadores sobre a misericórdia divina oferecida a eles, caso se arrependessem, ainda era algo admissível. Friamente os fariseus já faziam isso. Só que a aproximação que o Mestre estabelecia com as pessoas perdidas era tão forte que nosso Senhor nem se incomodava de sentar à mesa com elas. À ceia na casa do fariseu (capítulo 14) contrapõe-se a refeição acolhedora com os publicanos.

Pode-se dizer que havia um enrijecimento por parte daqueles religiosos que não se consideravam destinatários da pregação do arrependimento a ponto de terem recusado passar pelo batismo de João (7:30). A si mesmos consideravam-se suficientemente justos praticando um auto-engano.

As parábolas de modo algum dizem que Deus apenas se preocupa com quem se encontra ao nosso ver perdido, mas, sim, com aqueles que têm a consciência da necessidade de arrependimento. Dos que não negam a condição de pecadores e preferem confiar na infinita graça do Pai Celestial para serem aceitos, deixando de lado os méritos pessoais.

Quem se encontra longe do grupo das ovelhas tem mais facilidade de ver a si mesmo como perdido. Observemos que, na parábola da ovelha, as noventa e nove estariam "no deserto" (verso 4) e não guardadas num curral. O pastor não as deixa numa região de pastagens, mas num lugar onde elas precisariam receber a orientação do cuidador para saírem de lá e voltarem para casa. Corriam o risco de serem atacadas por lobos, mas não tinham a consciência desse perigo. Talvez porque estivessem em bando tal como muitos crentes agem substituindo a Divina Presença pela congregação.

Fico a indagar se um outro título para a parábola não poderia ser escrito no plural: As ovelhas perdidas. Ou, quem sabe, A ovelha encontrada já que as demais estariam em igual situação?

Pergunto também: será que a centésima ovelha não se perdeu justamente porque percebeu que estava longe de casa, transitando por um lugar deserto, e, por isso, resolveu procurar o caminho de volta confiando no seu faro igual a muitos que deixam para trás suas congregações religiosas?

Interessante também é a parábola da dracma perdida que era uma moeda grega equivalente a um denário romano, o qual, por sua vez, correspondia à diária paga a um trabalhador. Contudo, no contexto de uma dona de casa, aquele dinheirinho possivelmente representasse a economia da vida inteira de uma mulher com seus baixos rendimentos dentro de um mundo predominantemente masculino. A condição feminina era quase igual a de um escravo! E, sendo assim, a moeda teria mais valor para elas do que para os homens que ganhavam absurdamente mais. Tanto é que são as amigas e as vizinhas que encontram sentido na comemoração da dona de casa pelo que havia sido encontrado.

Há outro detalhe na segunda parábola a ser destacado. É que a moeda é perdida dentro da casa da mulher. Provavelmente deve ter caído em qualquer lugar oculto da residência por causa de uma arrumação feita no lar pela própria dona do dinheiro. E, neste sentido, não posso deixar de lembrar sobre a existência de pessoas perdidas dentro das nossas congregações, o que também se aplicaria a algum religioso caso se arrependesse. Mesmo na Igreja alguém pode vir a sofrer de incompreensões, não se sentir à vontade para compartilhar seus conflitos sem achar um ombro amigo para dialogar. Os próprios pastores podem não ter sido atenciosos, faltado com a receptividade e usado de um moralismo excludente, afastando mais ainda a pessoa do grupo. Ou então, ela se enrijece a tal ponto dentro de um bom ambiente tornando-se legalista, amargurada e insensível. Em qualquer dos casos, é preciso lembrar que aquele membro da comunidade existe, procurar iluminadamente compreender o motivo de seu afastamento, promover com diligência uma faxina ética em todo o meio doméstico e ouvirmos pacientemente sem pré-julgamentos morais, mas agindo com o devido amor. Amarmos até calados, se preciso for.

Nos dois contos de Jesus, ele fala sobre uma alegria no céu que, na metáfora do filho pródigo, será representada por um banquete na fazenda do pai. Na história da ovelha perdida, ela é a causa de todo o júbilo já que as outras noventa e nove não reconheciam a necessidade de se arrepender (v. 7). E, na parábola da moeda, o Mestre fala nos "anjos de Deus", isto é, nos espíritos que assistem diante do Pai e enxergam a nossa realidade existencial sob uma perspectiva diferente de quem se encontra na realidade terrena. Pois, na ótica celestial, o pecador arrependido deu um passo além do que os demais em sua caminhada evolutiva passando de nível. Já as noventa e nove ovelhas permaneceram estagnadas no deserto, conformadas pela religiosidade meritória.

Para poder concluir quero compartilhar algo muito iluminado que li no livro Tenha um pouco de fé de Mitch Albom (mesmo autor de A última grande lição), publicado no Brasil pela editora Sextante. Em suas páginas, o escritor judeu nos fala um pouco sobre a história real de Henry Covington que se tornou pastor na automobilística cidade norte-americana de Detroit, tendo se direcionado para acolher moradores de rua. Ex-traficante e ex-dependente químico, ele desenvolveu o seu ministério num prédio em ruínas abandonado que pertenceu a uma rica igreja presbiteriana do século XIX, situado bem no centro urbano. E chamou a minha atenção a maneira como que tais pessoas eram incondicionalmente aceitas, sem sofrerem preconceitos ou repressão por mais que ainda estivessem presas aos vícios:

"Antes que o tempo esfriasse, ocasionalmente Henry cozinhava numa grelha do lado de fora da igreja: frango, camarão, qualquer coisa que doassem. Dava a qualquer um que estivesse com fome. Às vezes ele até pregava em cima de um pequeno muro de concreto meio desmoronado, do outro lado da rua.
- Espalhei a palavra de Deus tanto de cima daquele muro - disse Henry um dia - quanto de dentro da igreja.
Por quê?
-Porque algumas pessoas não estão preparadas para entrar. Talvez sintam-se culpadas, por causa do que estão fazendo. Por isso, vou até lá, levo sanduíches para elas.
Tipo entrega a domicílio?
-Ah, sim. Mas algumas das pessoas que vêm aos domingos até usam.
Está brincando. Durante o culto?
-Aahh, é. Eu olho direto para elas. Dá para ver aquela cabeça balançando, chacoalhando, e eu logo penso: 'Ã-hã, alguém usou alguma coisa forte.'
Isso não o incomoda?
- De jeito nenhum. Sabe o que digo a eles? Não me importa se você está bêbado ou acabou de sair da boca de fumo, não me importa. Quando estou doente, vou ao hospital. E se o problema continuar, vou de novo. Assim, independentemente do que estiver fazendo mal a você, que esta igreja seja o seu hospital. Até você se curar, não pare de vir."
(Págs. 150-151)

Temendo, não é? Pois, sinceramente, não vejo como os ensinos de Jesus deixarem de ser aplicados também aos que são ministros do Evangelho. Através de exemplos atuais tão fortes como os deste pastor, consigo entender o porquê de Jesus ter escolhido para o discipulado homens humildes, muitos deles pecadores confessos como o publicano Mateus (Levi). Dificilmente um religioso fariseu, ou um teólogo mestre da Lei, teria tanto desprendimento para ir atrás de quem se perdeu. Reconheço que eu não teria a mesma disposição/capacidade de cuidar dos viciados. Só quem viveu o problema sabe!

Talvez aí esteja um grande motivo para que nós, as noventa e nove ovelhas, venhamos a cair em nós mesmos buscando o necessário arrependimento. Podemos não beber, nem fumar, transarmos somente com nossas esposas, sermos honestos com as finanças declarando corretamente o imposto de renda, não roubarmos e darmos o dízimo até dos centavos recebidos. Só que, coletivamente, a Igreja ainda falha pela sua falta de receptividade quanto ao pecador, deixando de dar continuidade à construção do Reino. Os projetos por aí existentes e que são voltados para a recuperação de dependentes químicos nem sempre recebem a devida ajuda/atenção. Seja esta financeira ou de voluntários já que o dinheiro de muitas denominações tem ido mais para a edificação de templos e seus membros preferem esquentar os bancos, frequentando "cultos" que façam suas mentes se sentirem melhores.


OBS: As duas imagens acima tratam-se de gravuras do artista holandês Jan Luyken (1649-1712) utilizada para ilustrar as parábolas da Ovelha Perdida e da Moeda Perdida na Bíblia Bowyer. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em que a autoria da foto é atribuída a Phillip Medhurst oriunda de Harry Kossuth.