Este blogue tem por objetivo divulgar aquilo que eu penso. Escrevo não somente assuntos jurídicos como também comento sobre política, religião, sexualidade, filosofia, questões locais da cidade onde moro e tudo o que me vem na cabeça. Quem desejar fazer seus comentários, fique a vontade. Aqui não tem censura!
domingo, 16 de junho de 2013
Como resolver o problema dos transportes urbanos nas cidades brasileiras?
Em que pese o direcionamento partidário-ideológico dado às manifestações de rua contra os reajustes nas tarifas dos transportes das principais cidades do país, os protestos evidenciam uma situação muito mais profunda - a maneira inadequada como o serviço está sendo prestado.
Atualmente, o que se vê nos transportes urbanos são monopólios ou oligopólios privados. Não raramente os donos dessas empresas são ligados a políticos e "almoçam junto com o prefeito". Também é comum que parte da arrecadação seja destinada às prefeituras, alimentando o interesse dos governantes por reajustes abusivos. Ou então, quando se quer reduzir/congelar o preço da passagem para beneficiar a população, os vereadores (ou os deputados estaduais em se tratando de linhas intermunicipais) aprovam vergonhosos subsídios ao particular em que, no final das contas, todos pagamos para a iniciativa privada continuar lucrando.
O regime de concessões nos transportes públicos possui vantagens e desvantagens em termos administrativos, mas não se presta para atender às demandas de uma nação cuja renda per capta do usuário ainda é baixa. Em algumas cidades, só de ida e de volta o trabalhador gasta mais de 1% do salário mínimo no deslocamento diário casa-em presa-casa. No mês, essas despesas podem muito bem ultrapassar 25% do valor de sua renda líquida. E, mesmo que o patrão pague a passagem, sabemos que, na contabilidade de uma empresa, tal variável vai influenciar na contratação de novos funcionários e no total da remuneração que poderia ser maior para o bolso do empregado.
Infelizmente, não dá para estimular uma livre concorrência nos transportes urbanos como muitos pensam. Isto porque não se trata de uma atividade econômica comum e sim de um serviço público que deve atender todas as localidades de um município. Assim, ainda que determinadas linhas causem prejuízos por causa do longo percurso, ou da pequena quantidade de passageiros, é preciso oferecer condições de mobilidade às pessoas, promover a expansão imobiliária das cidades e manter o produtor rural no campo onde o povoamento é baixo. Logo, não é possível que algo tão estratégico desenvolva-se ao mero sabor do mercado sem cumprir com sua função social.
Por outro lado, não proponho que haja um estagnante monopólio estatal. Penso que municípios e estados deveriam ter suas empresas públicas sem impedirem o funcionamento de cooperativas de vans e de companhias privadas, as quais prestariam um serviço complementar opcional ao cidadão com maiores recursos. Por exemplo, ônibus de luxo fariam o trajeto concorrente entre um bairro da classe média e o centro urbano, ou da rodoviária ao aeroporto. Aí, se o usuário quisesse pagar alguns reais a mais para ter um conforto extra, seria por pura escolha dele porque o governo lhe disponibilizaria a locomoção por meio de um transporte público, integrado, economicamente acessível e com horários previamente determinados. Tudo isso sem esquecer logicamente da inclusão dos idosos, das crianças, dos estudantes de baixa renda, das gestantes e das pessoas portadoras de deficiência em todos os veículos que circularem. Algo que seria rigorosamente observado desde o início com a aquisição de uma frota totalmente nova por meio de um processo transparente de licitação.
Vale lembrar que as empresas públicas não são necessariamente "elefantes brancos". Elas não precisam dar lucros porque esta não é a finalidade delas e, no caso dos serviços de transportes, estes destinam-se a pessoas de baixa renda em que a lógica da atividade diferencia-se, por exemplo, da exploração do petróleo. Entretanto, a prestação de uma atividade de caráter mais social não significa acúmulo de altos prejuízos comprometedores das contas municipais a ponto da entidade tornar-se um "cabide de empregos", coisa que só ocorre quando falta transparência, há um excesso de corporativismo e abusos político-eleitorais da máquina estatal.
Em minha proposta de empresas estatais de transportes, defendo uma exceção dentro desse sistema de economia de mercado e que contemple não só os anseios do usuário como os direitos do trabalhador. A abertura de concursos públicos para a contratação de funcionários admitirá não somente motoristas como trocadores. Este cargo, que as empresas de ônibus estão praticamente extinguindo pelo uso da bilhetagem eletrônica, sempre teve a função de desocupar o condutor para este trafegar com maior atenção e segurança. Sem a ajuda de um auxiliar, as viagens têm demorado mais porque os veículos ficam um tempo maior parados nos pontos das vias públicas já que nem todo mundo paga a sua passagem com cartão. Aí se torna necessário conferir dinheiro, separar o troco, depositar as quantias em excesso no cofre e o embarque condicionado acaba impondo a criação de desumanas filas externas.
Assim, com a presença direta dos municípios e dos estados na execução dos serviços de transporte urbano, toda essa lógica de exploração mudaria e a atividade seria acompanhada por uma participação democrática da sociedade. Ao invés de cometermos os erros do passado, em que os governantes administravam com exclusividade as estatais, sugiro que os velhos presidentes das empresas sejam substituídos por um conselho gestor com representantes dos sindicatos dos trabalhadores, das associações de moradores e dos diversos tipos de ONGs (de defesa do consumidor, dos deficientes, ambientalistas), além da própria prefeitura. Com isto, o coordenador geral do organismo, mesmo sendo nomeado pelo chefe do Poder Executivo, passaria a submeter determinadas decisões de interesse coletivo ao colegiado. Este teria o poder de contribuir com seus pareceres, sugestões, encaminhamentos de demandas e, caso necessário, convocaria audiências populares afim de informar o público promovendo um amplo debate democrático.
OBS: Foto acima extraída do Blog da Ubes.
A importância das tentações na formação de um líder
"Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito, no deserto, sendo tentado pelo diabo" (Lucas 4:1-2a)
É curioso este episódio sobre a tentação de Jesus em que o próprio Espírito de Deus o leva para o deserto, para o lugar da tentação.
Por que estaria nos planos divinos enfrentarmos as tentações? E qual a razão daquele desafio vencido pelo Salvador?
O texto bíblico de Lucas vem nos falar de três propostas diabólicas feitas a Jesus que são relatadas na seguinte ordem:
1) que as pedras fossem transformadas em pães e Jesus saciasse a sua fome visto que estava em jejum (versos 3-4);
2) que Jesus adorasse o diabo a autoridade e a glória dos reinos do mundo (vs. 5-8);
3) que Jesus se lançasse do "pináculo" do Templo e fosse seguro pelos anjos para não cair (vs. 9-12).
O primeiro tipo de tentação lembra as provas que a geração do êxodo egípcio passou no deserto sob a liderança de Moisés, quando foram testados para confiarem na Divina Providência e não se desesperarem diante das situações.
No deserto, tendo jejuado durante os simbólicos quarenta dias (mesmo número de anos suportados pelos antigos israelitas), era natural que Jesus sentisse fome. No entanto, ele resistiu à tentação de ceder imediatamente aos seus impulsos e lidou com aquela dificuldade baseando-se num trecho do livro de Deuteronômio, capítulo 8, versículo 3, cujo texto completo e traduzido da versão hebraica, segundo João Ferreira de Almeida, seria este:
"Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem" (ARA)
Ao passar pela falta de recursos, um líder precisa firmar-se nos ideais elevados que crê e resistir com firmeza mesmo tendo necessidades materiais.
Quantos políticos neste país não comprometem seus valores negociando posições para terem cargos públicos num governo qualquer afim de garantirem o sustento pessoal?
E quantos religiosos não fazem o mesmo dentro das instituições que pagam seus salários?!
Já a oferta de entregar "todos os reinos do mundo" seria um tremendo atalho enganoso. Isto me faz lembrar sobre a conquista do poder usando os velhos métodos manipuladores dos políticos que até hoje governam as nações. Para subirem na vida, eles não precisam conquistar a consciência das pessoas, pois basta enganá-las com falsas promessas, clientelismo e outras mentiras mais. Entendo que a adesão a essas práticas, de certa forma, equivale a prostrar-se em adoração a Satanás.
Ora, se Jesus tivesse enveredado por esse caminho, qual seria resultado de seu valoroso ministério? Pois, tendo já refletido outras vezes a este respeito, chego à conclusão de que, quando um líder se vende, o seis é trocado pela meia dúzia. Os nomes apenas mudam (sai João e entra José), mas o sistema opressor permanece o mesmo com tudo aquilo que há de exploratório, danoso e diabólico.
Assim, Jesus responde ao diabo novamente se valendo das Escrituras Sagradas. Ele se baseia em Dt 6:13 e 10:20 que assim dizem na versão hebraica dos massoréticos, respectivamente, segundo Almeida:
"O SENHOR, teu Deus, temerás, a ele servirás, e pelo teu nome jurarás".
"Ao SENHOR, teu Deus, temerás; a ele servirás, a ele te chegarás e, pelo seu nome, jurarás".
Jesus combate então aquela tentação apoiando-se na fé exclusiva em Deus. Ele não se permite ter outro senhor na sua vida. Trata-se de por em prática a obediência prestada na adoração do Deus único e que deve nortear todos os nossos demais atos.
Quanto à última tentação, eu a vejo como algo bem metafórico. Jogar-se do alto do muro do Templo para ser seguro pelos anjos não seria bem uma tentativa de suicídio e sim um convite para demonstrar poder publicamente. Tal conduta, se Jesus a adotasse em seu ministério, tornaria nulo todo o trabalho que teve porque não despertaria a fé das pessoas.
Apesar das curas e milagres que fez, Jesus muitas das vezes pediu ao agraciado que não espalhasse a benção recebida. Não fazia parte de seus planos conquistar seguidores dando uma de messias He-man. Aliás, quando chegou a hora de sua provação maior, isto é, na cruz, nosso Senhor permitiu ser levado pelos seus inimigos e, como uma ovelha dócil, seguiu para o matadouro.
Pode-se dizer que, na atualidade, muitos líderes sucumbem à tentação de mostrarem ao público que são "poderosos". Não raras vezes, a propaganda religiosa se utiliza da divulgação de supostos testemunhos de curas contados por pessoas que comparecem aos programas de rádio ou de TV mantidos por determinadas denominações evangélicas. Não raramente, os pastores corrompem seus ministérios porque querem ser reconhecidos logo como "homens de Deus" e conquistarem seguidores para as suas igrejas, ao invés de semearem pacientemente a Palavra nos corações das pessoas.
A essa terceira tentação, Jesus combaterá o sentimento diabólico apegando-se em Deuteronômio 6:16, sobre não colocar Deus à prova. Vejamos o que diz o texto que vem do hebraico correspondente à citação da lei mosaica:
"Não tentarás o SENHOR, teu Deus, como o tentaste em Massá".
Em sua prova, Jesus re-significou todo o aprendizado que tinha das Escrituras. Mostrou ali que a Palavra de Deus era de fato o seu verdadeiro alimento, nutrindo-se dela para dar enfrentamento às situações que surgiam. Passar por aquelas tentações tornou-se um teste necessário para que o futuro ministério fosse bem sucedido e o Mestre, em sua missão messiânica, aprendesse a vencer primeiramente a si mesmo.
Da mesma maneira, penso que as nossas tentações devam ser encaradas como testes de caráter. O maior adversário que temos somos nós, o próprio ego. Não há nada mais diabólico do que eu desejar fazer a minha vontade em detrimento do que Deus me manda. E, no comando de um ministério, isto chega a ser mais catastrófico do que falhar diante de problemas pessoais porque se trata da condução de uma obra que envolve a direção espiritual de muita gente. Basta dar um passo em falso e um líder arrasta uma multidão para o abismo.
Aprovado no teste, Jesus inicia o seu ministério nas terras da Galileia que é uma fértil região do norte da Palestina. Informa o autor bíblico que o diabo apartou-se dele "até o momento oportuno", dando a entender, pelo conhecimento sobre o restante do Evangelho, que o Senhor será novamente tentado na ocasião de sua prisão, julgamento e crucificação. No Gólgota, ele se mostrará como um messias fracassado, morto pelos seus opositores, tornando-se, portanto, uma pedra de tropeço para aqueles que aguardavam a chegada de um líder aparentemente vencedor.
OBS: A ilustração do texto refere-se ao quadro A Tentação de Cristo (1854) do pintor francês de descendência neerlandesa Ary Scheffer (1795-1858). A obra encontra-se num museu de belas-artes de Liverpool, Inglaterra, conhecido como Walker Art Gallery. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Walker_Art_Gallery
sábado, 15 de junho de 2013
O batismo de Jesus e a humanidade do líder
"E aconteceu que, ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus" (Lucas 3:21a; ARA)
Considero exemplar a atitude de Jesus em submeter-se ao batismo de João.
Como havia exposto na postagem anterior, o ato praticado por João era um "batismo de arrependimento" (Lc 3:3). Um ritual aplicado ao estrangeiro convertido à religião judaica mas que João resolveu direcionar aos próprios compatriotas, dando a entender que também o israelita precisava de uma mudança interior para fazer parte de verdade do povo de Deus.
Certamente quem aceitasse o batismo de João estava assumindo publicamente a sua condição de transgressor, de não ter sido um israelita merecedor de sua filiação ao patriarca Abraão (v. 8). Porém, quanto ao Messias esperado, aquela voz que clamava no deserto nem se considerava digna "de desatar-lhe as correias das sandálias" (v. 16).
Ao apresentar-se para o batismo, Jesus identificou-se com os pecadores. O desempenho do papel messiânico, de ser um líder espiritual para a sua geração, não seria motivo para distanciar o nosso Senhor do restante do povo. Ainda que o Cristo tivesse vindo com a missão de ensinar, ali Jesus colocou-se na condição de aprendiz e inteiramente dependente da graça de Deus igual a todos os homens.
Quantos líderes hoje em dia cultivam essa compreensão em seu íntimo?
Quantos não se esquecem de sua vulnerabilidade, chegando a perder a consciência da natureza humana que têm, quando passam a se esconder por trás de um cargo ministerial?
Não sigo o catolicismo romano, mas gostei muito quando, neste ano, o atual papa se declarou pecador. Pois, embora Francisco I não tivesse falado para mim nenhuma novidade (papas, padres, pastores e freiras são gente de carne e osso), sei que muitos devotos idealizam excessivamente seus líderes. E, entre os evangélicos, também não é muito diferente a ponto de vários pregadores ocultarem suas fragilidades diante do público. E, se comentam algo sobre erros do passado, não ousam expor as dificuldades que passam no presente.
Só que com nosso Senhor Jesus Cristo não foi assim!
"e, estando ele a orar, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea como pomba; e ouviu-se uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo" (Lc 3:21b-22)
Humilhando a si mesmo, Jesus estava disponibilizando o seu coração para receber a unção divina. Seu ato tornou-se agradável a Deus que o chamou de "filho". O ministério messiânico pôde então começar e tudo o quanto Jesus fizer a partir daí será na dependência da direção do Espírito Santo. Com isto, o evangelista nos mostra como os líderes de todas as épocas deverão se portar quando estiverem fazendo a obra do Senhor.
OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Batismo de Cristo, pintado por volta de 1623 pelo artista italiano Guido Reni (1575-1642). A obra encontra-se no Museu de História das Artes de Viena, Áustria.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
"Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem"
O ministério de João Batista foi, sem dúvida, algo revolucionário. Os evangelhos nos falam do surgimento de um profeta tão corajoso quanto Elias, com características tão semelhantes, que veio sacudir a sua geração pregando ousadamente as Boas Novas e enfrentando até mesmo os reis.
Dando prosseguimento a minha leitura sequencial do Evangelho de Lucas, detive-me nas motivações do ato praticado por João que era batizar pessoas, bem como no seu apelo sobre fazermos obras sociais.
A que se destinava o batismo nas águas? Qual o seu significado?
O texto bíblico nos fala de um "batismo de arrependimento" (Lc 3:3). Há quem afirme que, antes de João, os judeus já conheciam esse ritual aplicado aos novos prosélitos. Ou seja, se um estrangeiro decidisse seguir a religião judaica, ele deveria passar pelas águas purificadoras e, desta maneira, seria aceito como parte do povo de Deus cujos descendentes se integrariam através de futuros casamentos com israelitas da gema.
Curioso, mas João resolveu aplicar esse ritual justamente para os próprios israelitas. O público alvo dele eram as pessoas de seu povo, dando a entender o quanto é necessário o homem passar por uma mudança interior.
"Produzi, pois, frutos de arrependimento e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão." (Lc 3.8; ARA)
Deus sempre se agradou da sinceridade que vem do coração, do arrependimento verdadeiro e da transparência dos atos praticados. Caminhando pelas localidades circunvizinhas ao rio Jordão, aquele incômodo profeta dizia para seus compatriotas se despirem da arrogância nacional-religiosa, tratando-os como se não fizessem parte do povo de Deus, mas propôs a todos que se convertessem.
Hoje, dois mil anos depois daqueles acontecimentos, o rito praticado por João chega a ser utilizado por muitos cristãos como pretexto de fuga à conversão. Já ouvi pessoas dizerem que já aceitaram Jesus quando foram batizadas e outras que chegam a valorizar em excesso algo que é meramente simbólico, como se Deus tivesse feito das águas batismais uma condição salvífica.
Por vezes, cheguei a questionar se ainda seria necessário e conveniente os cristãos da atualidade perpetuarem o ritual do batismo já que o seu significado era diverso no passado e estava intimamente ligado ao contexto da época. Por que manteríamos algo por mera tradição da Igreja? Porém, prefiro deixar de tratar desse assunto agora porque não seria o essencial e penso ser mais importante focar nessa mensagem dada por João quando ele explica sobre o que deve ser colocado em prática:
"Então, as multidões o interrogavam, dizendo: Que havemos, pois, de fazer? Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo" (Lc 3:10-11)
Seguindo os mesmos passos dos antigos profetas bíblicos que clamaram contra as injustiças sociais cometidas em Israel, João propôs a repartição dos nossos excedentes com os necessitados como um princípio de vida. Ele não estava pregando mais uma dessas campanhas filantrópicas promovidas por igrejas, ONGs e governos que muitas das vezes só mascaram o problema da pobreza, servindo mais para aliviar a consciência de quem se omite. Esmolas os fariseus distribuíam até com frequência naqueles dias, mas poucos abraçavam realmente a causa de combate à miséria por uma permanente ação solidária.
É fato que o acúmulo de bens cria uma situação de afastamento de uma vida comunitária sadia que sempre foi o desejo de Deus. A própria legislação mosaica já prescrevia isso com eis a favor do pobre. De Levítico 25:35-36, tiramos o preceito principiológico "viva o teu irmão contigo" que, como escrevi neste blogue há exatamente dois anos atrás (14/06/2011), seria "o leitmotiv bíblico do pensar socialista".
Certamente que dividir com o outro não é empobrecer e nem alimentar a vagabundagem alheia. Aliás, eu diria que a missão da Igreja vai muito além do programa oficial do Bolsa Família porque a assistência que precisamos prestar é integral e envolve também o acolhimento ético-espiritual. Só que, se fizermos vistas grossas para as necessidades materiais do irmão, faltará em nossos corações o amor divino.
"Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?" (1Jo 3:17)
A lógica da caridade cristão parece-me bem simples. A pessoa convertida já não tem como objetivo principal na sua existência ficar rico. Ela trabalha para satisfazer suas necessidades, as dos seus familiares e, sendo abençoada com mais, compartilha o excedente por meio de ações coletivas e individuais. Ela não deixa de aproveitar a vida, mas tem prazer em ver o outro participando da sua alegria.
Ao mesmo tempo a Igreja não deve alimentar a pobreza como se dela dependesse. Havendo condições, devemos promover as potencialidades de quem está sendo assistido para que o sujeito trabalhe, estude, faça cursos, abra seu próprio negócio, construa uma casa segura e depois passe a contribuir também. Haverá casos em que um empréstimo sem juros e sem prazo dignificará mais o nosso irmão do que simplesmente darmos esmolas.
É uma pena, mas muitos religiosos hoje em dia andam esquecidos de que a vida cristã vai muito mais além do que colaborar com mais uma campanha do agasalho. Acho até vou mudar de ideia em relação ao que penso sobre o batismo e chamar às águas quem alega ter recebido o tal "sacramento".
Que se torne completa a nossa conversão!
OBS: A ilustração utilizada neste texto refere-se ao quadro João Batista no deserto do artista italiano Cristofano Allori (1577-1621) e que se encontra localizado no Palazzo Pitti, cidade de Florença. Capturei a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Allori_C_San_Giovanni.jpg
quinta-feira, 13 de junho de 2013
"Filho, por que fizeste assim conosco?"
A passagem bíblica que mostra Jesus entre os doutores da lei, exclusiva do Evangelho de Lucas, causa-nos uma certa inquietação sobre a maneira como os seus pais lidaram com aquele fato.
Anualmente, os judeus tinham que ir a Jerusalém para celebrarem a Páscoa no Templo. O Pessach era uma das três festas de participação obrigatória, conforme determinava a legislação mosaica (Ex 23:14-17; 34:23), sendo também uma espécie de Indenpendence Day dos israelitas porque relembra até hoje a libertação dos antigos ancestrais do povo quando as doze tribos ainda eram escravas no Egito.
Entretanto, quando Jesus tinha seus 12 anos, ocorreu uma situação diferente. Terminada a Páscoa, José e Maria partiram para Nazaré sem o filho e, no caminho, deram falta dele. Supondo que estivesse entre os companheiros de viagem, procuraram entre os parentes e conhecidos. Sem êxito, voltaram para Jerusalém. E, somente três dias depois, acharam-no no Templo, no meio dos teólogos judaicos da época, "ouvindo-os e interrogando-os".
"Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura. Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai. Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração." (Lc 2:48-51; ARA)
Que pânico aquele casal não passou?! Como você se sentiria caso seu filho sumisse por três dias? Saberia por onde começar a procurá-lo?
Há quem diga que Jesus teria permanecido em Jerusalém por ocasião de seu Bar Mitzvá ("filho do mandamento"), uma outra cerimônia dos judeus feita quando o menino, por volta dos treze anos, passava a ser considerado um membro adulto da comunidade. Só que o texto bíblico não confirma nada a respeito disto e, dificilmente, José e Maria não atentariam para este ritual de passagem, segundo os costumes de seu povo. Porém, não há dúvidas de que andassem desatentos quanto à vocação missionária do filho. Algo que não conseguiam compreender.
Apesar da admiração daqueles mestres religiosos quanto à inteligência do adolescente Jesus, percebe-se nas palavras de Maria uma certa reprovação ou um descontentamento com o sumiço do filho (v. 48). E o motivo, se prestarmos a atenção no verso 50, teria sido porque os pais não estavam entendendo. Algo que parece ter persistido até na época de seu ministério quando a família tentou afastá-lo do serviço de Deus (Lc 8:19-21), o quando nosso Senhor precisou estabelecer limites quanto ao assédio da mãe e dos irmãos.
A família pode ser importante para o desenvolvimento da pessoa, mas ela também atrapalha. Muitas das vezes os pais querem limitar os filhos dentro da habitualidade. Pensando no bem do jovem, cometem o erro de cortar suas asas temendo que se machuque no primeiro voo (sentimento excessivo de proteção). Com isso, talentos são reprimidos e surgem adultos frustrados.
Jesus, no entanto, tinha certeza de sua vocação e consciência de um relacionamento íntimo com Deus. Na resposta dada a Maria, ele se referiu ao Templo como a casa de seu próprio Pai (v. 49) e a mãe parece não ter lhe replicado. Também nosso Mestre querido não insistiu em permanecer ali e desceu com os pais para Nazaré, permanecendo obediente a eles. Só por volta dos trinta anos foi que ele iniciou o seu ministério depois de ser batizado por João no rio Jordão.
Quantas vezes os pais também não desconhecem a missão do filho?
Penso ser impossível saber com todos os detalhes tudo aquilo que futuro reserva aos nossos descendentes. Mesmo quando Deus revela algo, como foi com Maria na época do nascimento de Jesus, costuma ser mais um breve vislumbre que ocorre na forma de sentimentos e em conformidade com a subjetividade dos pais. Nota-se no Magnificat (Lc 1:46-55) que o inspirado cântico de Maria também refletia as expectativas dos judeus do primeiro século em relação à promessa de vinda do Messias, considerando o momento opressivo em que a nação vivia. Surpresas ainda aguardavam a sagrada família.
Aprendemos com a lição do episódio O menino Jesus entre os doutores sobre a necessidade de prestarmos mais a atenção no comportamento das crianças e dos adolescentes. Por não conhecermos o dia de amanhã e nem todas as coisas que Deus faz, é preciso buscar compreensão. Sob nossos cuidados, o Senhor pode ter colocado futuros missionários. Ou cientistas, ou artistas, ou atletas, ou escritores, ou simples pessoas de bem. Cabe aos pais dar o devido espaço para o jovem desenvolver sua vocação mantendo também a devida disciplina com amor.
OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro A Descoberta do Salvador no Templo (1860), pintado pelo inglês Willian Holman Hunt (1827-1910). É encontrado atualmente no Birmingham Museum and Art Gallery, Inglaterra. Capturei a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:William_Holman_Hunt_-_The_Finding_of_the_Saviour_in_the_Temple.jpg
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Reajustes e protestos abusivos
"Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo loca, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente." (Constituição Federal, artigo 5º, inciso XVI)
O que temos visto ultimamente pela TV senão o extremismo sectário de grupos radicas esquerdista arrastando sua militância jovem para as ruas das principais cidades brasileiras?!
Sinceramente, não me agrada a maneira como esses protestos estão sendo conduzidos já que vivemos numa democracia onde todos podem se reunir pacificamente.
Lutar contra o aumento abusivo das passagens é uma causa legítima. Precisamos nos mobilizar em relação a isto e não permitirmos um inflacionamento tão nocivo em nossa economia.
Atualmente, andar de ônibus está caro pra chuchu. Ou melhor dizendo, está caro pra tomate. E esta realidade se reflete em inúmeros municípios brasileiros. Só aqui em Mangaratiba, no litoral sul fluminense, a tarifa no transporte urbano está custando R$ 3,60 (três reais e sessenta centavos) e pode sofrer um aumento este ano. No Rio de Janeiro (capital), se o trabalhador andar de metrô mais ônibus, ele pode gastar quase R$ 10,00 de ida e volta. Um absurdo!
Entretanto, protestar com violência e quebra-quebra torna-se tão abusivo quanto a majoração da passagem nos transportes públicos. Um absurdo ainda maior porque não respeita o Estado Democrático de Direto e que contribui para prejudicar o movimento.
Ora, que cidadania é essa em que manifestantes incendeiam as ruas e jogam pedras nos policiais que são trabalhadores dignos como todos nós?! Por que tanta agressão e desrespeito?
Acredito que, dentre os que participam dessas passeatas, também se encontram pessoas de bem e gente que não promove tumultos. Penso que não podemos jamais generalizar e a mídia deveria também mostrar os protestos ordeiros ao invés de focarem com maior ênfase os que fazem baderna.
Pois é, meu caro internauta. Infelizmente a TV não mostra tudo. Só o que interessa ao sensacionalismo. E, enquanto isso, o movimento contra o aumento das passagens enfraquece.
OBS: Foto atribuída a Pablo Capilé / Fora do Eixo, extraída do site da Agência Brasil em http://www.ebc.com.br/cidadania/galeria/imagens/2013/06/fotos-da-manifestacao-contra-o-aumento-da-tarifa-de-onibus-em-sao
Crentes que aguardaram com fé e paciência
Segundo o Evangelho de Lucas, a apresentação do menino Jesus no Templo foi marcada pelo encontro com dois profetas: Simeão e Ana. Esta, de acordo com o texto bíblico (Lc 2:37), era uma viúva idosa de seus 84 anos enquanto que as palavras de Simeão, em seu cântico conhecido como Nunc Demittis, dão a entender de que ele talvez fosse também avançado em dias.
Provavelmente, tanto Simeão quanto Ana viveram mais da metade do século I a.C, em que teriam testemunhado o fim do período hasmoneu, quando os judeus ainda gozavam de uma relativa independência política, bem como presenciaram a ocupação romana da Palestina pelo general Pompeu, o reinado vassalo de Herodes, o Grande, e o domínio de César Augusto. Embora fossem assíduos frequentadores do Templo, não se iludiram com aqueles líderes políticos e nem com as revoltas armadas dos zelotes. O texto nos permite dizer que ambos esperavam a redenção de Israel e de Jerusalém (versos 25 e 38).
Quanta paciência aqueles dois velhinhos não tiveram?
Quanta fé?!
Para Simeão e Ana, o Messias não era Herodes e muito menos César Augusto. Buscando a direção divina, foram orientados pelo Espírito Santo para prestarem a atenção numa pobre criança cujos pais ofereceram o mais humilde dos sacrifícios para cumprimento do ritual de purificação após o parto. Isto porque, a lei mosaica prescrevia que, pelo fato da mãe tornar-se cerimonialmente impura, deveria ser ofertado um cordeiro mais uma pomba, ou uma rola, após aguardar os 33 dias de sua "purificação" pelo nascimento de um menino (se fosse menina, o prazo era cotado em dobro). Caso a família não tivesse condições, a oferta seria de duas pombas ou de duas rolas (Lv 12:6-8).
Quantas famílias pobres não deveriam existir na Judeia daqueles tempos de dores e de exploração sócio-econômica? Quantos primogênitos da descendência de Davi não eram apresentados diariamente no Templo conforme as exigências de Êxodo 13:2? De que maneira Simeão e Ana poderiam descobrir o Messias no meio de tantas criancinhas judias que eram trazidas ali? E o que podemos dizer da elite religiosa da época que deve ter ignorado a presença do casal e do menino? O sumo sacerdote soube que José e Maria estavam ali? Ou será que prestar a atenção nos bebês ricos de famílias abastardas não fosse mais tentador?
Entretanto, Simeão e Ana perseveravam em suas buscas, não se guiando pelas aparências. Ele era homem "justo e piedoso" e enquanto que ela, uma velhinha dedicada, não saía do Templo, adorando a Deus "noite e dia em jejuns e oração".
Pela idade que tinham, penso que nenhum deles chegou a ver Jesus já crescido evangelizando pelas cidades da Galileia e fazendo milagres por intermédio do Espírito Santo. Poucos devem ter crido no testemunho que deram, talvez reputando-os como pessoas senis, fanáticas ou sem embasamento teológico. Por educação devem ter sido escutados por alguns religiosos, mas somente os que tinham sensibilidade puderam compreender a comunicação da boa notícia.
Ainda sem ver a conclusão dessa grandiosa obra de Deus, Simeão e Ana contentaram-se por testemunharem uma pequena parte do processo redentor da humanidade. Tranquilizaram-se em seus corações, cientes de que os acontecimentos futuros estavam nas mãos do Senhor. Bastava terem olhado para aquela frágil criancinha de um mês de vida.
"Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo,
segundo a tua palavra;
porque os meus olhos já viram a tua salvação,
a qual preparaste diante de todos os povos:
luz para revelação aos gentios,
e para glória do teu povo de Israel"
(Lc 2:29-32; ARA)
Que assim como Simeão e Ana, possamos esperar confiadamente a ação de Deus na história. O plano redentor já foi iniciado e cabe a nós tomarmos parte na sua execução. Portanto, deixemos o Espírito Santo dirigir nossas vidas.
OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro do artista russo Alexey Yegorov (1776-1851), pintado entre 1830-40, que mostra Simeão, o Justo, segurando o menino Jesus nos seus braços, quando os pais apresentaram a criança no Templo. Imagem extraída do acervo virtual da Wikipédia e oriunda de http://bibliotekar.ru/Kartiny1/13.htm
Assinar:
Postagens (Atom)






