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domingo, 9 de janeiro de 2011

Se você tivesse vivido na época de Jesus, teria reconhecido-O como o Messias?

“Jesus e os seus discípulos dirigiram-se para os povoados nas proximidades de Cesaréia de Filipe. No caminho, ele lhes perguntou: 'Quem o povo diz que eu sou?' Eles responderam: 'Alguns dizem que és João Batista; outros Elias; e, ainda outros, um dos profetas'. 'E vocês?', perguntou ele. 'Quem vocês dizem que eu sou?' Pedro respondeu: 'Tu és o Cristo'. Jesus os advertiu que não falassem a ninguém a seu respeito.” (Evangelho segundo Marcos 8.27-30; Nova Versão Internacional – NVI)


Esta passagem acima citada, que também aparece nos outros evangelhos sinóticos (Mateus 16.13-20; Lucas 9.18-21), mostra o que as pessoas de fato pensavam acerca da identidade de Jesus na Palestina durante os dias de seu ministério. Pedro, porém, foi decisivo em declarar o messiado do Mestre afirmando ser ele o Cristo.

As palavras Cristo e Messias, respectivamente derivadas do grego e do hebraico, são sinônimos e significam ungido. Relacionava-se com a unção dos reis da dinastia davídica que era feita com óleo pelo sacerdote (conf. com 1Reis 1.39), dando legitimidade ao sucessor do trono. Porém, após o fim do período monárquico, seguido pelas dominações babilônica, persa, grega e romana, o povo judeu passou a aguardar a vinda de um novo rei ungido da descendência de Davi, conforme as promessas feitas através dos profetas. E, nos tempos de Jesus, desejava-se muito a chegada de um messias que fosse capaz de libertar Israel da opressão estrangeira.

Pode-se dizer que, do século II a.C. até o século II E.C., os judeus enfrentaram uma das épocas mais difíceis de sua história em que foi preciso defender a cultura nacional do helenismo. Depois que os romanos anexaram a Palestina, passando a governar a província com o apoio do reinado vassalo de Herodes, a população começou a sofrer uma forte opressão tributária que, juntamente com as condições ambientais da região, agravavam o empobrecimento das camadas sociais mais desfavorecidas. Constantemente surgiam revoltas que eram sufocadas pelo exército imperial e uma maneira de Herodes conquistar a adesão das massas foi promovendo uma reforma do Templo e, com isto, buscar o apoio religioso.

O quadro político da Palestina naqueles tempos mostrava-se como um campo fértil para o aparecimento de homens reivindicando ser o Messias prometido pelas Escrituras. Assim, tornou-se corriqueiro revoltosos e líderes religiosos usurparem tal posição.

Sustenta Israel Knohl, com base em estudos feitos nos Manuscritos do Mar Morte, que existiu um representante da comunidade religiosa de Qumran proclamando ser o Messias na época de Herodes, o Grande. Segundo o pesquisador, catedrático do Departamento Bíblico da Universidade Hebraica, tratava-se de um precursor messiânico de Jesus que, após ter sido morto no ano 4 a.C., teria sido associado pelos integrantes da seita como o servo sofredor do Livro de Isaías, conforme alguns hinos descobertos nas cavernas em que o autor exaltava a si próprio na primeira pessoa do singular:


"Em alguns hinos encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto e publicados recentemente, esse Messias anterior [a Jesus] descrevia-se sentado sobre um trono celestial, cercado de anjos. Considerava-se o 'servo sofredor' que trazia uma nova era, uma era de redenção e absolvição, na qual não haveria pecado nem culpa. Essas idéias audaciosas levaram à sua rejeição e excomunhão pelos sábios encabeçados por Hilel. Esse Messias acabou sendo morto em Jerusalém e seu corpo foi deixado exposto por três dias. Seus discípulos acreditavam que ele havia ressuscitado após aquele período e ascendido ao céu. A humilhação, a rejeição e o assassinato do Messias provocaram uma crise de fé entre os seus seguidores. A fim de controlar a crise, procuraram na Bíblia passagens que pudessem ser entendidas como profecias da humilhação e da morte do Messias. Assim, pela primeira vez na história do judaísmo, surgiu um conceito de messianismo 'catastrófico' no qual a humilhação, a rejeição e a morte do Messias eram consideradas como parte inseparável do processo de redenção.” (O Messias antes de Jesus: o servo sofredor dos Manuscritos do Mar Morto. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, págs. 16 e 17)


Achei interessante o referido autor ter descoberto a existência de uma concepção anterior a Jesus que inclui o sofrimento e a humilhação do Messias, o que, no meu entender, atinge até as bases do cristianismo atual. Isto, inclusive, evidencia um dos motivos pelos quais o Vaticano possa mesmo ter buscado impor atrasos na divulgação do conteúdo do inestimável achado arqueológico. Principalmente porque o catolicismo sempre tentou se manter pelas suas tradições que hoje estão sendo cada vez mais questionadas pelas evidências históricas.

Entretanto, vamos tentar mergulhar no interior de um judeu do século I. Pergunto: qual era o tipo de Messias que aquele povo desejava? E como as pessoas poderiam acreditar na ressurreição de mais um Messias já que o anterior, que se auto-proclamava o Cristo, evidentemente, não ressurgiu dos mortos?

Sem dúvida que se Jesus não tivesse iniciado o seu ministério com manifestações do Pode de Deus, curando enfermos e expulsando os demônios, talvez ninguém tivesse compreendido que era chegado o Treino de Deus. Não que tais milagres fossem capaz de gerar a fé, mas eram sinais do verdadeiro Messias, o único capaz de destronar Satanás, “amarrando o valente” e vencer a morte. Para isto, ele ressuscitou mortos antes de ser morto.

Havia autoridade nas palavras de Jesus, o que não ocorre nas referências a exorcismos nos Manuscritos do Mar Morto em que os escritores de Qumran apenas dirigiam-se aos espíritos malignos empregando expressões do tipo “repreender”, “assustar” ou “aterrorizar” (Geza Vermes). Já nos Evangelhos, Jesus silencia os demônios e lhes dá ordens diretas para saírem das pessoas.

Além, Jesus era modesto ao referir a si mesmo. Enquanto o usurpador da seita de Qumran gostava de se auto-glorificar, os Evangelhos sinóticos mostram Jesus falando sobre o “Filho do Homem”, usando a terceira pessoa do singular e não a primeira. E, nos dias de seu ministério, os discípulos foram proibidos de testemunharem a respeito de seu messiado.

Por outro lado, temos no ensino sapiencial de Jesus algo surpreendente. Embora se utilizando dos ensinos de Filo e do ancião Hillel, que representava um ramo mais aberto do farisaísmo, o Senhor Jesus deu uma nova formulação à Regra de Ouro. Até então, Hillel tinha proclamado “não faças aos outros o que não queres que te façam” (bShab 31a). Já Filo de Alexandria escreveu que “aquilo que alguém não quer sofrer, não deve fazer a outros” (Hipotética 7.6). E, antes de Filo e de Hillel, tem-se na literatura judaica a passagem de Tobias 4.15 bem semelhante às citações acima e G. Vermes ainda levanta a hipótese de uma origem mais anterior nos “Ditos de Aicar”, mencionando ainda o livro “Eclesiástico” de Ben Sirac, um deuterocanônico assim como Tobias que não constam na Bíblia Protestante e nem no cânon judaico.

Pois bem. Jesus foi mais além de todos os seus antecessores quando deu uma peculiar formulação positiva à Regra de Ouro que se lê no Sermão da Montanha: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7.12; conf. com Lucas 6.31). E ainda surpreendeu quando ensinou o amor pelos inimigos (Mt 5.43-48; Lc 6.27-28, 32-36), dando a melhor interpretação de Levítico 19.18 sobre amar ao próximo que não foi alcançada pela comunidade de Qumran cuja regra era “amar todos os filhos da luz” e “odiar todos os filhos das trevas” (Q. 1.9-10).

Como se pode notar, Jesus sempre foi o Messias humildade e que sempre desejou ser conhecido pelo incomparável amor demonstrado pelas suas obras, sem precisar de demonstrações de poder, muito embora estivesse sobre ele o verdadeiro Poder de Deus. Com uma personalidade igual a do Pai, o Filho sempre esperou ser encontrado na simplicidade pelas almas sinceras e deixou que os próprios discípulos um dia descobrissem o nobre príncipe que andava com aqueles pescadores pelas águas do mar da Galileia. Um rei que jamais seria achado fazendo barganhas políticas no suntuoso palácio de Herodes e não precisava de uma falsa aparência de piedade como os religiosos.

Sem dúvida, seria muito difícil para um judeu no século I reconhecer o verdadeiro Messias. Ainda mais no meio de pessoas de fina estirpe ou entre aqueles que queriam respostas para os seus problemas imediatos. E muitos, assim como os discípulos de Emaús (Lc 24.13-35), certamente ficaram decepcionados com a morte de Jesus.

Igualmente, penso que não somos muito diferentes daquela geração, pois somos muito influenciáveis pela aparência e nos deixamos seduzir pelo poder e pela satisfação rápida das necessidades. Por termos nascido numa cultura cristã, não acho muito difícil uma pessoa aqui no Ocidente confessar que Jesus é o Messias e segui-Lo como um mito da tradição do cristianismo. Porém, somos lentos em compreender o propósito de sua obra e aquilo que o Senhor quer que façamos no nosso tempo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A fé para lidar com o ateu que existe em cada um de nós


Nós, os que confessamos ser crentes em Deus, muitas das vezes cometemos o engano de achar que somos mais dignos do que os ateus ou seguidores de outras religiões diferentes do cristianismo (ou de alguma de suas variantes). Confundimos erroneamente a fé com o verbo acreditar como se crer em Deus dependesse de uma inabalável convicção literal em todos os acontecimentos bíblicos ou nos pontos principais de uma doutrina eclesiástica.

Por sua vez, muitas das pessoas que estão dentro das igrejas e que passam por algum tipo de dúvida ficam sofrendo os mais infernais conflitos quando não se consideram convictas a respeito de um ponto relevante da “fé cristã”. Uns acham que podem não estar salvos, no sentido de jamais terem se convertido, ou que seus nomes acabaram de ser riscados do Livro da Vida. E muitos preferem permanecer fechados dentro de si mesmos deixando de compartilhar suas dívidas com algum irmão capaz de ajudá-lo e acabam agindo como se estivessem escondendo do próprio Deus onisciente a incredulidade.

Eu considero que a fé está relacionada a algo muito mais profundo do que meramente acreditar. É um estado de confiança e que inclui entrega, dependência e obediência, manifestando-se nas posições tomadas pelo crente em relação aos fatos da vida, os quais podem exigir escolhas radicais. Ou do contrário, como ensinou Tiago, a fé “é morta” (em outras palavras talvez uma fé inexistente).

Não há como negar que todo crente tem em si um pouco de ateu. É um ateísmo presente em nossa velha natureza e que ainda opera em nossa mente mortal, a qual precisa ser renovada a cada dia pela obediência à Palavra.

No entanto, este ateísmo trata-se de uma descrença que nem sempre irá se manifestar pela negação confessional da fé, ou no sentido de questionar a existência de Deus, mas principalmente nas horas de decidir cumprir aquilo que deve ser feito nas mais conflituantes situações.

Eu diria que é devido á incredulidade que muitos homens permanecem trabalhando desonestamente porque não confiam suficientemente em Deus a ponto de deixarem um negócio que lhes rouba a espiritualidade. Por causa dessa falta de fé, muitas pessoas preferem contar uma mentirinha para evitar situações de desconforto. E o mesmo ocorre no momento de ofertar, pois o incrédulo teme que amanhã passará necessidades se der aquela contribuição de modo que o ateu enrustido vive mais por medo do que por fé.

Ora, mesmo as lideranças dentro da Igreja podem ter a fé abalada e isto não as torna piores do que ninguém, mas tão somente humanas. Aliás, por várias vezes Jesus repreendeu didática e amorosamente os seus discípulos chamando-os de “homens de pequena fé”. E ainda assim o Mestre não perdeu a fé no que aqueles rudes pescadores da Galileia poderia se tornar de modo que a história mostrou o quanto tais homens simples e falhos foram capazes de crer em Deus.

A melhor maneira de lutarmos contra a nossa incredulidade não será encobrindo-a, fingindo que a dúvida não existe e que somos os super crentes. Pois o que deve ser feito é o homem assumir diante de Deus a sua necessidade de fé e descansar na graça.

Os três primeiros evangelhos um interessante caso em que os discípulos de Jesus, na ausência deste, não tinham conseguido expulsar o demônio de uma criança. Então, quando o Senhor conversou com o pai do menino, ele respondeu que seu filho, desde pequenino, quando ficava possesso, era atirado no chão, passando a ranger os dentes e espumando. Com isto, o espírito imundo tentava jogá-lo no fogo, ou na água, afim de matar a criança.

Entretanto, a narrativa de Marcos (9.14-29) mostra uma particularidade deste episódio sobre a fé que não encontramos em Mateus e Lucas. Durante o diálogo, o pai da criança pediu a Jesus, se “caso ele pudesse”, que os ajudasse. Admirado com a resposta daquele homem dúbio, Jesus afirma=lhe que “tudo é possível ao que crê”. Então, em sua réplica, o pai do garoto manifestou fé reconhecendo a própria incredulidade e reiterando com isto o seu pedido de socorro:

“Imediatamente o pai do menino exclamou: 'Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!'” (Marcos 9.24; Nova Versão Internacional - NVI)

O final daquela história pode ser lido na Bíblia onde os escritores dos três primeiros evangelhos contam que o menino ficou liberto. E depois Jesus responde aos discípulos porque eles não puderam expulsar Satanás ao dizer-lhes que aquela casta de demônios só sai com oração (e jejum segundo alguns manuscritos).

Tal explicação de Jesus infelizmente é mal interpretada como se tratasse de uma fórmula para exorcismos e curas, sendo que, na verdade, o Senhor nunca orava para expelir um demônio. Quando aparecia um endemoniado, Jesus simplesmente ordenava com autoridade para que o espírito imundo saísse da pessoa da mesma maneira como determinava que uma tempestade se acalmasse, ou que os ouvidos do surdo se abrisse, ou que o morto se levantasse. Logo, quem precisava orar (e talvez jejuar) eram os discípulos, provavelmente para que tivessem mais relacionamento com Deus, o que é importantíssimo para o exercício da fé de qualquer pessoa (as orações dos salmos são puras expressões de fé).

Ainda assim, não é pela oração e nem pelo jejum que o homem adquire fé. Esta é frutificada pelo Espírito Santo nos nossos corações. É um dom gracioso de Deus de modo que nenhum homem é salvo por fé e sim pela graça. Ou seja, porque Deus é misericordioso a sua palavra torna-se revelação para nós e aí decidimos seguir a Jesus.

Ora, se somos salvos por graça e não por fé, nada temos a temer se, por algum motivo, a nossa fé vier a vacilar. Nestas horas devemos agir como o pai do menino endemoniado que clamou pela ajuda de Jesus quando reconheceu a própria incredulidade ao invés de se achar um super crente.

Nos momentos de falta de fé devemos nos lembrar de Pedro ao duvidar quando estava andando sobre as águas para encontrar-se com Jesus e acabou afundando. Aí, o apóstolo reagiu com fé gritando “Senhor, salva-me” (Mt 14.30) e Jesus tirou-o das águas colocando-o de volta ao barco.

Precisamos admitir que ninguém na Igreja é um super crente achando que a fé seja resultante de um esforço pessoal, erro que, no fim das contas, acaba sendo uma negação da graça. E, infelizmente, dentro de várias congregações evangélicas há pessoas com terríveis traumas de fé que se sentem bloqueadas para se abrir na comunidade porque temem serem rotuladas como mundanas, incrédulas, desviadas ou fracas.

Quando Paulo falou que nada de bom habitava nele (Rm 7.18), obviamente que isto inclui também a incredulidade de modo que todo crente é também um ateu em potencial

Que tenhamos fé! Nem que seja do tamanho do átomo de um grão de mostarda para pedirmos socorro a Deus nas horas mais difíceis. Aliás, a verdadeira força do homem está em admitir sua própria fraqueza.


Oração pela Fé

Senhor, dá-me fé!
Mesmo quando as circunstâncias em minha volta fizerem-me desacreditar na tua permanente companhia.
Mesmo se os recursos faltarem, a fome bater e as preocupações com o meu sustento surgirem, dá-me fé.

Nas enfermidades e na hora da dor, dá-me fé.
Na escolha pelo caminho estreito e apertado, quando na minha frente há uma estrada larga e pavimentada para trafegar, dá-me fé para te obedecer.
Se a perseguição, a dúvida ou a incerteza vierem me cercar, sustenta a minha fé. E venha depressa me socorrer.

Que eu tenha fé para não pecar.
Fé para ao mundo renunciar sem me ensoberbecer.
Fé para servir e amar.
Fé para me arrepender se errar e, com graça, continuar.

Com fé não vou me desesperar diante da morte porque sei que, quando tua voz me chamar, eu vou ressuscitar.
Tu estarás para sempre comigo. Não importa o que acontecerá.
Então, quando o coração parar de bater, um novo fôlego de vida em mim vai entrar e a ti eu vou para sempre louvar.

Sim, Senhor. Dá-me fé!

Muito obrigado pela tua graça.
Amém.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O rei que preferiu montar num animal de carga...


Muitos entendem a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém como algo que teria se cumprido mística e involuntariamente para dar validade à citação de uma profecia de Zacarias pelos evangelistas com a finalidade de confirmar o seu messiado.

No entanto, considero superficial não investigar os motivos do acontecimento registrado nos quatro Evangelhos (Mt 21.1-11; Mc 11.1-11; Lc 19.28-38; Jo 12.12-16) pois o fato de Jesus entrar na Cidade Santa transportado por um jumentinho certamente ultrapassa a mera prescrição das Escrituras a respeito do Cristo prometido.

Segundo o Talmude palestino, era comum os peregrinos entrarem em Jerusalém montados num burro antes da Páscoa, o que alimentava negócio dos condutores de jumentos (yBer 13d). Por sua vez, a profecia de Zacarias, datada de uns 400 anos antes de Jesus, faz menção ao uso de uma aparato modesto pelo Messias que significa renúncia aos ornamentos dos reis históricos (comentários da Bíblia de Jerusalém – BJ).

Na sucessão de Davi, enquanto o usurpador Adonias apresentou-se com carros e cavalos afim de tentar se impor como rei perante o povo de Israel (1 Reis 1.5), seu irmão Salomão, o herdeiro escolhido por Deus, montou na mula do pai (verso 38) afim de ser ungido pelo sacerdote Zadoque e pelo profeta Natã ao toque do Shofar. E, com isto, todo o povo seguiu o novo rei (v. 40).


“Ora, Adonias, cuja mãe se chamava Hagite, tomou a dianteira e disse: 'Eu serei o rei'. Providenciou uma carruagem e cavalos, além de cinqüenta homens para correrem á sua frente”. (1 Rs 1.5; Viva Versão Internacional – NVI)

“Então o sacerdote Zadoque, o profeta Natã, Benaia, filho de Joiada, os queretitas e os peletitas fizeram Salomão montar a mula do rei Davi e o escoltaram até Giom.” (1 Rs 1.38; NVI)


De modo semelhante, a decisão de Jesus em apresentar-se montado sobre um jumentinho foi uma escolha planejada e que tinha por objetivo transmitir sua mensagem para aquela geração, usando uma imagem que já estava no pensamento coletivo do seu povo. Com aquele gesto, Jesus estava colocando-se numa posição de inegável humildade tal como fizera Salomão quanto às pretensões ambiciosas de Adonias.

Ora, da mesma maneira que Adonias precisava demonstrar força para esconder sua ilegitimidade quanto ao trono de Davi, Satanás também busca seduzir os homens através de um falso poder ao passo que o Messias preferiu esconder-se na simplicidade. O uso de um animal de carga contrapõe-se ao transporte por cavalos e carruagens tal como faziam os antigos egípcios, sendo que o 611º preceito da Torah diz que o rei não deve ter muitos cavalos (Deuteronômio 17.16), justamente para que sua confiança estivesse baseada em Deus, conforme muito bem detalha este Salmo:

“Nenhum rei se salva pelo tamanho de seu exército; nenhum guerreiro escapa por sua grande força. O cavalo é vã esperança de vitória; apesar de sua grande força, é incapaz de se salvar.” (Salmo 33.16-17; NVI)

Assim, Jesus chegou em jerusalém sem nenhum exército para expulsar o invasor romano, mas sim para ser morto e derramar o seu sangue numa cruz. Ou seja, ele veio lavar suas vestes “no sangue das uvas”, conforme fora previsto muitos séculos antes pelo patriarca Jacó ao profetizar sobre o filho Judá, do qual descendem Davi e o Messias salvador de Israel:

“Ele amarrará seu jumento a uma videira e o seu jumentinho ao ramo mais seleto; lavará no vinho as suas roupas, no sangue das uvas, as suas vestimentas.” (Gênesis 49.11; NVI)

Pensando na aplicação prática deste estudo, creio que podemos tirar como lição a importância de anunciar o Evangelho de Cristo com simplicidade, como se estivéssemos também montados sobre um jumentinho.

Vivemos hoje um tempo em que várias denominações cristãs buscam novos adeptos através de recursos que causam falsas impressões de poder nas mentes das pessoas. Enquanto o papa apresenta-se ao público em finos trajes, líderes de igrejas evangélicas também agem da mesma forma e parecem confiantes nos seus mega-templos, no marketing religioso e nas técnicas de comunicação em mídia. Parece até que foi esquecida a recomendação dada por Jesus aos seus discípulos quando os enviou a pregar nas cidades de Israel:

“Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus contos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento.” (Mateus 10.9; NVI)

Que também possamos montar sobre o nosso jumentinho e voltarmos a pregar a Evangelho com toda a humildade que a Bíblia determina, lembrando-nos do exemplo simples deixado por Jesus.

Exaltando a fidelidade de Deus

É maravilhoso saber que Deus é fiel à sua Palavra. Mesmo que sejamos infiéis, Ele não pode negar-se a si mesmo e mantém firme a sua aliança.

A seguir, compartilho mais um vídeo do cantor Asaph Borba, disponibilizado no Youtube pela Adorarnet:


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A medida com que medimos os outros


“Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês.” (Evangelho segundo Mateus 7.1-2; Nova Versão Internacional – NVI)

Esta citação bíblica acima que aparece no tão festejado “Sermão da Montanha” e também em outras passagens dos três primeiros Evangelhos, os sinóticos, mostra a aplicação por Jesus de um antigo ditado judeu cujo significado é “medida por medida” (hebraico middah keneged middah).

A primeira impressão que temos é que Jesus esteja falando de um juízo escatológico no qual o homem será “medido” por Deus na mesma proporção em que ele tratou os seus semelhantes quanto aos julgamentos.

De fato, não se pode negar que há uma vinculação da citação de Mateus com o conceito de julgamento. Ainda mais se fizermos um estudo comparativo com o Evangelho de Lucas (ver Lc 6.37-38 e 8.18), o que, por sua vez, não se distancia da ideia de um julgamento conforme a consciência de cada um.

No entanto, prefiro utilizar a aplicação da medida por medida mais no âmbito da convivência humana do que em relação a julgamentos futuros e acho que Jesus também teve este objetivo quando usou por pelo menos umas três vezes aquele ditado popular. Isto porque este basilar princípio tem por finalidade a tolerância incondicional do outro com seus erros e falhas afim de todos sermos igualmente aceitos aqui na comunidade dos vivos com os incorrigíveis defeitos que temos. É o que Tiago nos ensina indagando em sua epístola:

“Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo?” (Tg 4.12; NVI)

De acordo com este mesmo ensino de Tiago, quem julga o outro usurpa o lugar de Deus, o que significa também uma quebra da lei régia do amor.

O certo é que deixamos de compreender mais do Reino de Deus quando nos colocamos na posição de juiz das pessoas, pois ficamos sem contemplar o reto juízo do Onipotente para tentar impor nossa própria (in)justiça, excluindo homens e mulheres do convívio comunitário.

Ora, se eu me mostro compassivo, paciente e perdoador dos meus irmãos, posso contribuir para que haja no meio social dívidas de bondade e atos de misericórdia que se multiplicam, o que serve de ajuda para os incrédulos entenderem o amor divino. Pois, assim como Deus me perdoa sempre, lançando meus pecados no mar do esquecimento, sinto-me constrangido a perdoar também o meu próximo cujas faltas em seu relacionamento para comigo jamais vão superar aquelas que já cometi (e ainda faço) no tocante à Vida e seu Autor.

Minha conclusão é que o santo ensinamento de Jesus estudado neste despretencioso artigo destina-se mais para o aperfeiçoamento das relações entre os homens do que para nos apavorar com um rigoroso julgamento futuro (quem é que nunca julgou injustamente o seu próximo?).

Acredito que todos os que se colocam debaixo da graça de Deus estão salvos e o resultado deste perdão imerecido é o reconhecimento de que não temos moral alguma para condenar as outras pessoas pelos decepcionantes erros cometidos por elas por mais que sejam atitudes reiteradas.

Portanto, se queremos promover uma convivência harmoniosa, capaz de trazer para a Terra uma experimentação do Reino de Deus, devemos nos abster de julgar, praticando o auto-conhecimento que nada mais é do que o exame pessoal de nós mesmos. Aliás, este ensino encontra-se também no Sermão da Montanha como continuação da primeira passagem bíblica citada neste texto:


“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Deixe-me tirar o cisco do seu olho', quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.” (Mt 7.3-5; NVI) - conferir com o Evangelho de Lucas 6.41-42 e o Evangelho apócrifo de Tomé 26

Um começo de verão não muito quente, porém chuvoso


Muitos falam que em Nova Friburgo faz as quatro estações do ano num mesmo dia. Porém, mesmo havendo uma certa dose de exagero neste comentário, de fato o tempo daqui é bem instável. E, com o aquecimento global e as mudanças que vêm ocorrendo no planeta, a tendência do nosso clima na região serrana é oscilar também.

Nestes primeiros dias do ano, tem chovido cotidianamente e isto faz cair um pouco a temperatura. Eu e Núbia temos dormido de cobertor até agora e, quando estou em casa, às vezes fico de meia e até chego a colocar um casaco simples. Já a minha sogra, que veio de Niterói com minha cunhada Sandra passar o Reveillon conosco aqui na serra, passa uma boa parte do tempo enrolada na coberta enquanto assiste TV na sala.

Não vou dizer que estranho este acontecimento pois me recordo razoavelmente dos verões passados de Nova Friburgo e sei que esfriamentos como este podem muito bem acontecer em épocas do ano como esta. Inclusive, já houve vezes em que o verão só chegou mesmo lá para meados de fevereiro e março, prolongando os dias de calor até o mês de abril.

Entretanto, os dias frios de verão não se comparam com aquelas madrugadas geladas do inverno. Recordo quando era preciso aquecer a cama com quatro cobertores, mas ainda assim o corpo demorava para se ressentir do frio. E, se no inverno tinha vezes que nem a calça de moletom era suficiente, certamente que nada se compara a este calorzinho tímido do verão em que posso ficar tranquilamente de bermuda, embora passe a maior parte do tempo de meia e agasalhando o peito.

Em que pese a friagem que a chuva trás, não seria tecnicamente correto afirmar que a temperatura estaria mais baixa porque seria um grande equívoco. Na verdade está é mais quente pois, mesmo que os termômetros marquem menos dos 20ºC aqui na cidade, deve-se considerar que o aumento dessas chuvas de verão está relacionado justamente com o aquecimento global.

Mês passado (dezembro/2010), houve dias em que a minha rua chegou aficar inundada por alguns instantes durante as chuvas fortes. E, segundo já me contaram, seria por causa de uma suposta obstrução nos bueiros causada pela companhia telefônica de modo que as águas que vêm de dois bairros acima não seriam totalmente absorvidas pela rede e chega a inundar as calçadas entrando nas lojas e nas portarias dos edifícios. Aí, quando a chuva diminui, as coisas voltam ao normal em alguns minutos.

Entretanto, a situação da minha rua em nada se compara com os problemas dos moradores das áreas de risco que são sujeitas a enchentes nas margens de rios e deslizamentos de terra em locais próximos às encostas dos morros.

No mês de janeiro de 2007, Nova Friburgo passou por maus pedaços com as chuvas de verão. Houve mortes, alagamentos e muitos desabamentos. Naquele ano, um cliente meu teve destruída a casa onde residia no bairro Vale dos Pinheiros e, por pouco, ele não se encontrava no morro que foi levado pela avalanche de terra que desceu morro abaixo atingindo a casa. Então, por causa disto, ele perdeu parte de sua mobília e do material de trabalho que necessitava para trabalhar, de modo que até agora ele está processando a Prefeitura pela omissão do Poder Público.

Por estes dias assisti na TV a mais uma tragédia ocorrida em Petrópolis e desejo que, em 2011, os episódios de quatro anos trás não se repitam aqui em Nova Friburgo e nas outras cidades. Só que não podemos negar a nossa falta de adaptação a uma região originalmente coberta pela úmida floresta tropical de altitude, com altos índices de pluviosidade (um dos motivos da exuberância de nossas matas), mas que sofreu supressão da vegetação nativa para a construção de cidades e estradas.

Com tantas mexidas no meio ambiente, é de se esperar que as constantes quedas de barreiras e as cheias dos rios sejam uma resposta da natureza à ignorância do homem, o que acaba trazendo enormes prejuízos econômicos e a inestimável perda de vidas humanas. E, infelizmente, os governos ainda não lidam com a natureza de maneira harmônico e fazem dos desastres ecológicos um motivo para gastar mais dinheiro com coisas ineficazes.

Enquanto que os alemães estão quebrando os muros de concreto dos rios, afim de revitalizar as suas margens, os governos municipal e estadual têm gastado rios de dinheiro desde o final do século XX para violentar o nosso rio Bengalas que corta Nova Friburgo com o pretexto de resolver os problemas das enchentes que são registrados desde o início da cidade nos anos de 1820 (ver o excelente artigo da historiadora Janaína Botelho foi publicado no seu blogue*). Porém, é uma obra que só gera gastos sem fim, sangrando os bolsos dos contribuintes e transtornando a vida dos moradores localidade de Conselheiro Paulino, situada à jusante da sede do município, devido ao inevitável aumento da vazão.

Nesta guerra climática são geralmente os mais pobres aqueles que mais sofrem e nisto não vejo outro responsável maior do que o próprio homem. A cada ano, nossos políticos e autoridades preferem culpar as chuvas pelos desastres ambientais sendo que é a a ganância dos poderosos, juntamente com a falta de políticas habitacionais eficientes e a maneira como lidamos com a natureza que têm contribuído de forma decisiva para estas situações de calamidade pois, afinal, não é a natureza que precisa se adaptar a nós, mas sim o contrário.

Mesmo indignado com o descaso das nossas autoridades e sabendo que o meu poder de ação é limitado, vou vivendo meus dias de verão atípico com temperaturas amenas, reconhecendo na chuva a generosidade de Criador. Um Deus que nos entregou uma terra perfeita e nós a estragamos.


(*) O texto da historiadora encontra-se em: http://historiadefriburgo.blogspot.com/2011/01/as-enchentes-do-velho-sao-joao-das.html

OBS: A data da foto está errada. Ainda não consegui programar a câmera digital...

Rodrigo Phanardzis Ancora da Luz

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Graciosamente novo


Foi mais um ano que passou e eis aí um outro que começa seguindo o calendário solar da civilização do Ocidente.

Geralmente, nesta época, as pessoas costumam fazer suas reflexões e elaborar planos para um novo período de suas vidas, às vezes com futuras metas a serem alcançadas. Também é comum elas desejarem boa sorte umas às outras para que os seus sonhos se concretizem, sendo que alguns têm o hábito de fazer simpatias, enquanto outros dão três pulos para frente na hora dos fogos, ou acreditam que serão bem sucedidos se comerem romã ou uva à meia noite, dentre outras superstições.

Ao lado das comemorações de feliz ano novo, creio ser indispensável refletirmos permanentemente sobre o bem e o mal que praticamos, removendo do nosso comportamento tudo aquilo que é capaz de gerar desconexões com a vida. Ou seja, precisamos arrancar coisas que só envenenam o nosso ser, as quais trazem tristezas, solidão, separação, amargura, inimizades, desilusões e morte.

A Bíblia nos ensina sobre todos esses contrastes, usando figuras como “luz” e “trevas”, “bem” e “mal”, “vida” e “morte”. Seus autores também nos falam no “novo” e no “velho” que se aplica a diversas situações, sob pontos de vista diferentes em cada passagem, mas que conduzem numa mesma direção: a vida, a eternidade, a união, a reconciliação, a paz, o amor, a alegria, a compreensão, a aceitação, a verdade, o nosso próximo e Deus.

Num mundo onde todos envelhecem, a Bíblia diz sobre sermos algo que inova (ou se renova), mesmo que, aparentemente, morra. Sua proposta é que internamente sejamos sempre jovens e revitalizados, não deixando que as situações do cotidiano façam de nós pessoas frustradas e que carregam consigo infelicidades. Porém, ao invés de sermos desgastados pelo tempo, somos convidados por Deus para nos tornarmos crianças novamente “porque o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas” (Mateus 19.14; NVI).

“Como alguém pode nascer, sendo velho?” - perguntou o mestre Nicodemus a Jesus, quando o Senhor havia lhe declarado que “ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. E, nesta passagem do Evangelho, Jesus estava dizendo a um notável estudioso das Escrituras que ele e os demais doutores da Bíblia precisavam nascer outra vez.

Todavia, a verdade é que o nosso estado de desconexão requer uma radical desconstrução afim de podermos enxergar a Vida, o que Jesus chamou de “novo nascimento”. E, certamente, aqui o Senhor não se referiu à re-encarnação, sobre alguém passar pela experiência ritual do batismo ou muito menos a pessoa tornar-se membro de uma igreja evangélica. Pois, estudando João 3.3 no seu idioma original (o grego koiné), pode-se verificar que o editor do quarto Evangelho tentou transmitir aquele ensino através da palavra “anóthen” que também significa “do alto” que, por sua vez, representa um nascimento que vem de Deus, conforme uma citação anterior que se acha logo no início do livro:

“Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural (gr. de sangues), nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus.” (João 1.12-13; NVI)

Certamente que o nascer de novo não depende do nosso próprio esforço. É fruto gerado pelo Espírito Santo através da santa semente plantada em nossos corações – a Palavra de Deus. Logo, o novo nascimento só pode decorrer da mais pura graça, sendo um presente dos céus dado aos homens, os quais, mesmo envelhecendo na idade, resolvem retornar para a escola da vida e serem alunos outra vez. São homens que deixam o Espírito agir em seus corações sem oferecer resistência a Deus.

O segredo do novo nascimento está no acolhimento da Palavra de Deus como uma criança, conforme nos ensinou Jesus:

“Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam. Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: 'Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele'. Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou”. (Marcos 10.13-16; NVI)

Com a mesma inocência humilde de um pequenino, Jesus, o Verbo encarnado, foi recebido em seu tempo pelas prostitutas, publicanos e pecadores. Porém, os religiosos, os caras cultos, os estudiosos das Escrituras e os homens poderosos tornaram-se cegos à presença do Messias. Só que a tais pessoas a escola da vida reprovou.

Finalmente quero compartilhar que o novo nascimento não pode ser compreendido como algo pronto e acabado a ponto do homem gerado pela semente espiritual não precisar submeter-se mais a um processo de desconstrução e reconstrução.

Muito pelo contrário!


O novo nascimento é também o contínuo processo que, figurativamente podemos comparar a um rio cujo mover das águas não cessa. É o que Paulo nos ensina nestes versículos da carta à Igreja em Éfeso para que os seus destinatários se revestissem do “Homem Novo”:

“Assim, eu lhes digo, e no Senhor insisto, que não vivam mais como os gentios, que vivem na inutilidade dos seus pensamentos. Eles estão obscurecidos no entendimento e separados da vida de Deus por causa da ignorância em que estão, devido ao endurecimento do seu coração. Tendo perdido toda a sensibilidade, eles se entregaram à depravação, cometendo com avidez toda espécie de impureza. Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo. De fato, vocês ouviam falar dele, e nele foram ensinados de acordo com a verdade que está em Jesus. Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade prevenientes da verdade.” (Ef 4.17-24; NVI)

Este Homem Novo do qual Paulo fala é ao mesmo tempo o Messias e o protótipo da nova humanidade recriada. Uma nova criação que se faz na pessoa de Jesus, em sua morte e ressurreição, de modo que nos tornamos também a “nova criatura” de 2 Coríntios 5.17, sendo chamados para viver em justiça e santidade da verdade.

Ninguém que ainda se encontre neste mundo está imune ao pecado. Porém, aí está a grande diferença da nova criatura para a velha. Pois, mesmo sem alcançar perfeição, quem é nascido de novo edifica-se em santidade através da verdade, abrindo o seu interior para o tratamento de Deus porque nada pode ser ocultado aos olhos do Eterno. Assim, a autêntica santificação deve ser buscada pela sinceridade sem o fermento da religiosidade que é a hipocrisia, conforme ensinou Jesus:

“Nesse meio tempo, tendo-se juntado uma multidão de milhares de pessoas, ao ponto de se atropelarem umas às outras, Jesus começou a falar primeiramente aos seus discípulos, dizendo: 'Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido. O que vocês disseram nas trevas será ouvido na luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados'”. (Lucas 12.1-3; NVI)

Deus quer que sejamos uma nova massa sem o nocivo fermento da religiosidade, a qual corrompe o homem impedindo-o de ser sincero e de apresentar-se sem máscaras. Pois, enquanto a pessoa esconde-se por trás de um falso comportamento religioso, o seu interior permanece fechado em trevas e ela mesma impede a iluminação da Divina Luz. Então, tal homem não se encontra mais num estado de permanente renovação e volta a envelhecer espiritualmente, fingindo apenas ter a aparência de quem um dia brilhou. E seu verdadeiro rosto passa a ficar encoberto para que os outros não vejam mais suas humanas expressões.

Não é por menos que Jesus exortou seus discípulos a ficarem atentos quanto ao fermento dos fariseus (leia-se hoje em dia a realidade). Conhecendo a natureza humana mais do que ninguém, o Senhor sabia o quanto somos capazes de transformar o seu Evangelho numa perniciosa doutrina legalista e que nega a graça salvadora. E a história do cristianismo está aí para provar o quanto a injustiça da Igreja excedeu em muito a dos fariseus, dos saduceus e dos herodianos juntos. Uma Igreja que até hoje vem assassinando de diversas maneiras os seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus, pelos quais Cristo morreu, mas se vangloria em de intitular a si mesma como “santa”. E tais homicídios ainda ocorrem quando tentamos impor sobre as pessoas um evangelho de culpas, ensinando mandamentos de homens e roubando a verdadeira adoração ao Eterno, a qual deve ser celebrada com a sinceridade de João 4.23-24, como o louvor das pequeninas crianças.

Seremos uma nova massa se tirarmos de nós o velho fermento, tornando-nos aquilo que de fato somos. Pois, em sua essência, o homem foi criado puro como um pão asmo e ficou levedado pela adição do corruptível ingrediente do pecado. Mas agora, em Cristo, somos chamados para uma nova vida de pureza interior sem nada a ocultar, sabendo que estamos amparados pela graça salvadora de Deus, o qual aceita-nos como somos, não pelo que temos ou fazemos.

Ora, é no caminho da graça que devemos sempre estar para que sejamos renovados a cada momento. Compreendendo o que é a graça, o homem pode sempre continuar sua trajetória, corrigir rotas, levantar-se de cabeça erguida, retornar ao seu ministério e adorar o Eterno Criador com total liberdade, sem nenhuma culpa.

Que neste 2011 que se inicia possamos verdadeiramente andar assim, amparando-nos na divina graça e permitindo que o Eterno nos ilumine interiormente.

Caminhemos na novidade da graça! E, como dizem os judeus, Shanah Tovah Umetukah.