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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Anúncio de vitória após uma angustiosa caminhada de dois meses

"Entrega o teu caminho ao SENHOR; confia nele, e ele o fará." (Salmos 37:5)

Incrível, mas eu demorei mais de um mês e meio (uns cinquenta dias) para mudar-me de vez do bairro Grajaú, na cidade do Rio de Janeiro, para Muriqui, 4º distrito do município de Mangaratiba. Só que devemos compreender e aceitar que as coisas ocorrem no tempo de Deus.

Foi no final de junho, após ter sido encontrado pelos bombeiros nas matas do Parque Nacional da Tijuca (ver artigo de 28/06), que eu e Núbia concordamos em nos mudar. Eu já gostava mais daqui do que do Rio por causa da tranquilidade, do espaço amplo da residência, do fato da habitação ser uma casa e não um apertamento, haver um quintal nos fundos para plantar, ter um jardim na frente, a proximidade de três quarteirões com a praia, uma maravilhosa vista com montanhas e ilhas cheias de verde, ar puro, dentre outros benefícios. Então, naqueles dias em que andei perdido pela floresta, já contando com a possibilidade de morrer por lá, refleti sobre qual rumo daria na vida caso ganhasse de Deus uma nova chance. E, quando fui resgatado, decidi viver da melhor maneira possível valorizando as bênçãos recebidas do Pai Celestial na breve existência que o homem tem sobre a Terra.

Em 01º/07, viemos todos para cá carregando apenas umas poucas coisas e a gata Sofia na sua gaiola. Fiquei por uns dias na nova residência e retornei sozinho para o Rio na data da independência dos EUA (04/07) afim de começar a arrumar as coisas, pagar as contas do mês e colocar o imóvel do Grajaú para alugar. E, quando foi na manhã de 07/07, resolvi passar o meu descanso sabático ao lado da esposa ao invés de permanecer sozinho lá no fim de semana.

Infelizmente, quando cheguei aquele dia na nova casa, tive surpresas desagradáveis. Núbia não estava bem. Passei o fim de tarde com ela no posto de saúde de Muriqui e fomos orientados pela médica de plantão para buscarmos tratamento pela rede de seu plano. Dessa vez não tinha mais jeito. Com reincidentes problemas, foi preciso internar minha esposa numa clínica com especialidade no seu problema.

Tive de interromper os preparativos da mudança naquela segunda semana de julho. Minha atenção ficou voltada para conseguir vaga de internação pelo plano de Núbia – o Unimed Rio Personal, cuja abrangência é propositalmente menor do que a do Alfa de modo que nem todos os médicos e estabelecimentos aceitam. Fomos na própria segunda-feira (09/07) pegar o encaminhamento para hospitalização com a sua médica Dra. Amália, na Tijuca, e dali seguimos até o posto de atendimento da operadora na Rua do Ouvidor, no Centro da Cidade Maravilhosa. Só que, ao chegarmos lá, a funcionária da Unimed confirmou não haver vagas, informação esta que eu já havia também levantado junto à única clínica especializada da rede credenciada. Por isso, teríamos que aguardar indefinidamente e eu ainda ficar preso em casa o tempo todo cuidando da esposa numa situação bem crítica.

Entretanto, não permaneci refém da situação. Abri logo uma reclamação junto ao SAC da Unimed em nome de Núbia, alegando ser uma obrigação da operadora, nestes casos, pagar até um outro hospital fora da sua rede de convênios afim de que o paciente não fique sem receber tratamento. Liguei quase que diariamente para a clínica e me dirigi junto com minha esposa à Defensoria Pública, no bairro vizinho de Vila Isabel, para processarmos o plano de saúde (mesmo eu sendo um advogado não me achava em condições de ir ao Fórum para distribuir uma ação e acompanhar o processo). Porém, a defensora não considerou suficientes os termos do encaminhamento assinado pela médica para que a Justiça concedesse a tutela antecipada visto que não estava explicitada a urgência de internação no documento. Aí tivemos que retornar ao consultório, pressionar a Dra. Amália e solicitar um novo papel, o que fizemos em 11/07.

Felizmente, não precisamos processar ninguém. A médica de Núbia já conhecia o dono da clínica especializada e ligou para ele falando em nossa frente pelo telefone. No dia seguinte (12/07), após eu ter entrado em contato mais uma vez com o hospital, retornaram-me ainda na manhã informando que já poderia trazer a minha mulher para lá. Foi um grande alívio sair daquela desagradável situação de incerteza.

Se por um lado tranquilizou-me o fato de Núbia ter obtido internação para tratamento, também entristeceu-me a ausência dela dormindo e acordando ao meu lado todos os dias. Passei a poder vê-la somente nas quatro oportunidades de visita por semana permitidas pela clínica e, ao mesmo tempo, fui preparando a nossa mudança para Mangaratiba. Todas as terças, quintas, sábados e domingos, eu fazia o cansativo percurso do Grajaú até Piedade, quase sempre dependendo dos precários serviços da viação Caprichosa nas linhas 638 e 639, cujos motoristas nem sempre gostam de parar para os passageiros nos pontos de ônibus ali na avenida Barão do Bom Retiro.

Uma das coisas que comecei a fazer naqueles dias foi restaurar a cozinha do apartamento no Rio cujo teto estava parcialmente preto por causa de uma panela de pressão que explodira quando minha avó paterna de 89 anos era viva e ainda morava ali no ano de 2011. A pintura foi feita no dia 19/07 estando eu com os pertences praticamente encaixotados para a mudança. E, em 20/07, vim junto com o caminhão fretado trazendo a bagulhada toda para a nova casa, tendo cometido a burrice de não levar o armário velho de dez portas naquela ocasião por querer economizar dinheiro. Quando os funcionários da transportadora terminaram de descarregar a mobília, retornei com eles para o Rio de Janeiro afim de continuar minhas tarefas trazendo comigo um colchonete para continuar dormindo no apartamento agora quase vazio.

Por indicação da síndica do prédio, procurei um advogado que já administrava duas unidades no condomínio e agendei uma visita dele. Ouvi atento as orientações do Dr. João sobre a importância de reformar todo o imóvel antes de alugar já que uma boa pintura com cores claras não só valorizaria a locação como também me pouparia problemas quando o inquilino viesse entregar as chaves no término do contrato. Liguei então rapidamente para o mesmo profissional que havia já emassado e pintado as paredes da cozinha e lhe pedi um orçamento.

Atualmente, os valores de mão-de-obra de um pedreiro ou pintor no Rio de Janeiro andam bem altos, algo em torno de uns R$ 180,00 ao dia. Seu Zezinho entregou-me o seu primeiro orçamento em mais de R$ 3.000,00. Chorei o preço e ele baixou para R$ 2.800,00 tudo (a mão-de-obra e o material) para por massa na área social do imóvel e pintar todos os cômodos. Precisei fazer um empréstimo consignado no ITAÚ de quase dois contos em nome de Núbia, aproveitando o fato de ela ser beneficiária do INSS por invalidez e conseguindo a compreensão da gerente de sua conta, a qual permitiu que eu levasse os papéis para ela assinar no hospital.

A obra iniciou-se no dia 01º/08 e terminou no dia 15 conforme previsto na contratação. Dormi todos aqueles dias no apartamento junto com a poeira e o cheiro de tinta. Também aproveitava as oportunidades de visita para não deixar de estar com a esposa. Pela manhã, eu tomava café com minha mãe em sua casa de vila no Grajaú (fica num quarteirão vizinho ao do apartamento) e quase sempre também almoçava lá. Vez ou outra, fazia refeições perto da clínica num restaurante simples bem ali perto onde o prato de comida custava-me R$ 7,99.

Os dias passaram, o apartamento ficou lindo e, após ter tratado novamente com o Dr. João, dei a ele uma procuração e assinei o contrato de administração do imóvel. Esvaziei as poucas coisas que ainda restavam no local (o tal armário eu acabei trazendo durante a obra na primeira quinzena do mês de agosto pagando salgados R$ 450,00 para transportá-lo e montar só a parte de baixo mais uns R$ 40,00 para outra pessoa colocar as cinco portas de cima). Precisei negociar uns pisos e azulejos numa loja de varejo a preço de banana afim de não ficar nada entulhando a área de serviço. Deixei umas roupas sujas e dois colchonetes em casa de minha mãe e vim para cá em 21/09. Cheguei em Muriqui de noite após ter visitado Núbia naquele mesmo dia na clínica.

Confesso que me sinto só muitas das vezes sem a companhia da esposa por aqui. Na manhã do dia 22/08, eu me encontrava um tanto deprimido enquanto caminhava pela praia. Mesmo olhando para as montanhas e as ilhas que compõem o cenário da bela baía de Sepetiba, quase não conseguia desfrutar com satisfação de todo aquele ambiente feito pelo Criador. E o sentimento triste ao menos serviu para inspirar-me na postagem anterior do blogue.

Graças a Deus, tenho conseguido reanimar-me. No último final de semana de agosto, trouxe Núbia de licença médica para estar com a família e retornei com ela para a clínica no domingo passando mal. Porém, tomei a decisão em procurar logo os meus irmãos em Cristo por aqui perto (tem uma igreja Batista bem em minha rua) e assim retomar o bom costume de congregar conforme orientam as Escrituras em Hebreus 10:25. Deixei de lado a vaidade de querer iniciar um ministério independente como se fosse dono da razão e sem ter antes a cobertura da Igreja, pelo que resolvi buscar a companhia de irmãos sem me prender a questões doutrinárias ou teológicas. Entendi ser mais valioso o acolhimento, o amor fraternal e a lição duramente ensinada com a experiência tida no Parque Nacional da Tijuca de que não devemos andar sozinhos pelas trilhas da vida.

Quando foi nesta última sexta do mês (31/08), Deus preparou-me uma ótima surpresa. Naquele dia, estando aflitamente preocupado com a minha vida financeira, cheguei a comentar com a sogra sobre a diferença que faria no orçamento doméstico se o apartamento do Rio fosse logo alugado. Pensei nos gastos do mês de setembro que viriam e senti-me angustiado com o fato de não ter dinheiro suficiente para pagar todas as contas a vencer. Tomei meu banho à tarde, agasalhei-me e, quando foi lá pelas 17 horas, resolvi sentar no sofá da sala e ler a Bíblia preparando o coração para a adoração no culto duas horas depois. Resolvi desligar-me dos problemas e me direcionar desde então para louvar o SENHOR. Aí, quando o relógio estava quase dando 18 horas, o telefone tocou. Era o Dr. João noticiando que tinha alugado o imóvel e que, a partir de outubro, o inquilino começaria a pagar o mês vencido.

Fiquei muito feliz com aquela ligação e, principalmente, por ter mais uma confirmação de que Deus nunca desampara os seus filhos deixando-os perecer sem nenhum propósito. Assim como fui milagrosamente ajudado em momentos passados, quando o dinheiro chegou no tempo certo em minhas mãos, eis que, desta vez, não foi diferente. O Eterno provou o seu amor, sua graça, provisão e fidelidade para comigo. E, por mais que eu ainda atravesse mares de luta, o Pai Celestial não me abandona, manifestando a sua bendita Presença nas coisas mais simples da vida. A Ele seja dada toda honra, glória, poder e louvor para sempre em nome de Jesus. Aleluia!


"Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal." (Mateus 6:25-34)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A ideia de Deus como um “pastor”

O salmo 23 é um dos mais conhecidos da Bíblia pela fé que suas palavras transmitem ao leitor, proporcionando conforto e segurança para quem espera em Deus. Em seus seus versículos, o poeta descreve a solicitude divina para com os justos através de duas imagens, apresentando o Eterno como um pastor (versos 1 a 4) e também como um anfitrião que oferece um banquete a um convidado de honra (versos 5 a 6).

A princípio, para que possamos melhor compreender a ideia de Deus como um pastor, é importante nos familiarizarmos mentalmente com o meio ambiente seco da Palestina onde o salmista teria composto o seu belo poema no idioma hebraico. Pois, aqui no Brasil, em quase todas as nossas religiões onde a vegetação e a água costumam ser abundantes para a agropecuária (exceto o sertão nordestino), pode-se dizer que as ovelhas cuidam de si mesmas ficando soltas no pasto. Porém, em lugares semiáridos como são a nossa Caatinga e mais ainda o Oriente Médio, a presença do pastor é indispensável já que, por diversas vezes, é preciso conduzir o rebanho por horas pelas paisagens desérticas até encontrar água e pasto verde para os animais.

Sem dúvida que, nestes locais secos e de criação extensiva, as ovelhas acabam desenvolvendo uma relação de confiança em relação ao pastor, passando até a reconhecer a voz de quem lhes guia e protege. Pois, sem o pastor, as dóceis e domesticadas ovelhas simplesmente vagariam sem rumo pela hostilidade do ambiente desértico até morrerem de fome, sede, frio ou serem atacadas por um predador. Por isto, esses animais indefesos não seguem a nenhum outro que não seja o verdadeiro cuidador.

Para a história do povo israelita, guiado pelo deserto do Sinai após o êxodo egípcio, a imagem de Deus como pastor torna-se algo de fácil identificação cultural. De acordo com a Torá, os filhos de Israel viveram 40 anos sob a proteção do Eterno num ambiente. Foram milagrosamente protegidos do sol forte através de uma nuvem (durante o dia) e aquecidos por uma coluna de fogo (à noite), além de receberem o maná como alimento de domingo à sexta-feira com porção dobrada neste dia da semana para que não laborassem no Shabat. É como relata poeticamente o livro de Neemias num re-exame pós-exílico da lei mosaica:

“Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir. E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede. Desse modo os sustentaste quarenta anos no deserto, e nada lhes faltou; as suas vestes não envelheceram, e os seus pés não se incharam.” (Ne 9.19-21; ARA)

Ora, ninguém precisa acreditar literalmente na ocorrência desses fenômenos. Toda a jornada de travessia dos israelitas pelo deserto é uma imagem da orientação do homem pela Torá em sua caminhada. Significa sermos guiados e cuidados por Deus na trajetória de vida através de uma experimentação mística, relacionando-se também com o aspecto coletivo e não se restringindo somente ao individual.

Voltando ao Salmo, cuja autoria é atribuída ao rei Davi, tem-se logo no começo o incentivo á confiança de que Deus irá suprir totalmente o seu “rebanho”, conhecendo as necessidades fundamentais das “ovelhas” melhor até do que elas mesmas. Então, tudo o que elas realmente precisam o Pastor irá lhes proporcionar ainda que nada Lhe seja pedido. E, como se vê, a grama não é seca, mas fresca, adequada para o animal deitar e repousar. Também as águas, ao invés de serem agitadas, são tranquilas e seguras, permitindo a ovelha saciar sua sede.

Tal cenário bíblico dos versos 1 e 2 parecem até a habitação celestial descrita no Apocalipse sobre a Nova Jerusalém. Porém, não é propriamente sobre o futuro que o salmista está falando, mas sim do conforto recebido no presente, capaz de levantar seus ânimos em meio às lutas do cotidiano. Assim, quando o versículo 3 fala em refrigério para a alma, certamente podemos entender isto como uma restauração das nossas forças espirituais em Deus. Isto porque é o Eterno quem sustenta a nossa vida pela sua Torá (orientação), dando-nos mais do que pão para o estômago.

A Palavra de Deus, a qual também podemos entender por “instrução” (vocábulo mais adequado do que “lei” para traduzir Torá no nosso idioma), é também o caminho de justiça pelo qual a ovelha é guiada. Ou seja, quando permitimos que o Eterno nos dirija, podemos alcançar a verdadeira paz através de uma tranquilidade e de uma serenidade no nosso interior.

A esse respeito, a Bíblia é riquíssima em exortações. Os mandamentos divinos são orientações dadas aos homens para que todos possam viver bem e em harmonia com o Universo. Isso encontra-se explícito nos cinco livros da Lei de Moisés, no Salmo 1º que fala dos caminhos do justo e do ímpio, além de inúmeros outros poemas, provérbios e advertência dos profetas:

“Filho meu, não te esqueças dos meus ensinos e o teu coração guarde os meus mandamentos; porque eles aumentarão os teus dias e te acrescentarão anos de vida e paz. Não te desemparem a benignidade e a fidelidade, ata-as ao pescoço; escreve-as na tábua do teu coração e acharás graça e boa compreensão diante de Deus e dos homens. Com fia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal; será isto saúde para o teu corpo e refrigério, para os teus ossos.” (Pv 3.1-8; ARA)

Assim como um homem honrado cumpre com a sua palavra, mais ainda a instrução do Eterno não pode falhar e Ele nos conduzirá em paz pelos caminhos da vida. Tal como a gravidade atrai o corpo ao chão, os mandamentos divinos são leis que regem metafisicamente o Universo. E aí, reverenciar a instrução torna-se o primeiro passo para alcançarmos a sabedoria interior.

Na sequência, o salmista fala sobre a ausência de receio ou de temor do mal caso viesse a andar “pelo vale da sombra da morte”, o que traduz o apoio de Deus nos nossos momentos de adversidade. Segundo o teólogo congolês Nupanga Weanzana, doutor em estudos do Antigo Testamento pela Universidade de Pretória, África do Sul, a referida expressão poderia ser um local de perigo onde as ovelhas fossem vítimas de animais selvagens “ou um vale íngreme que o rebanho precisava escalar ao se deslocar de um pasto para outro” (Comentário Bíblico Africano, pág. 639). Para ele, esta imagem também lembra a experiência de Israel em sua jornada espiritual pelo deserto do Sinai fazendo uma referência a um trecho do verso 6 do capítulo 2 do livro de Jeremias que assim diz: “e sem perguntarem: Onde está o SENHOR, que vos fez subir da terra do Egito? Que nos guiou através do deserto, por uma terra de ermos e de covas, por uma terra de sequidão e sombra de morte, por uma terra em que ninguém transitava e na qual não morava homem algum?”

Aduza-se que o “vale da sombra da morte” poderia significar também uma descrição negativa do reino dos mortos que os antigos hebreus construíram em seu imaginário coletivo. Tanto é que Jó, no auge do seu desespero, chegou a pedir para Deus deixá-lo em paz antes de partir “para a terra das trevas e de sombra da morte” (ver Jó 10.20-22). Só que para o salmista não importaria por onde ele caminhasse porque a presença envolvente do Eterno seria suficiente para protegê-lo e ampará-lo nas diversas situações.

Sinceramente, eu não vejo outra maneira de viver plenamente saudável senão através da fé.

Quando colocamos a nossa confiança em Deus, sem reservas, nenhuma situação vai nos amedrontar. É claro que não estamos isentos de sofrer com as más notícias, perdas e acontecimentos ruins porque somos humanos, não de ferro. Contudo, no momento em que tomarmos consciência da Divina Providência operando a nosso favor, passamos a desfrutar da doce paz do Eterno em nossos corações mesmo que tudo esteja desabando ao nosso redor.

Nessas horas precisamos nos lembrar bem do “bordão” e do “cajado” de Deus, instrumentos com os quais os pastores traziam de volta a ovelha desgarrada e protegiam o rebanho do ataque das feras do campo. Pois, caso um lobo surgisse repentinamente, o cajado seria capaz de afugentar o predador e até mesmo evitar uma aproximação.

Bendito cajado!

Quer nos desviemos ou passemos por dificuldades, certamente o Eterno não nos abandonará porque Ele ama o seu povo. A sua proteção e a sua provisão jamais nos faltarão. Logo, devemos prosseguir confiantes, sabendo que um banquete espiritual aqui e agora nos aguarda. E que bondade e misericórdia vão nos acompanhar todos os dias de nossas vidas, tendo em Deus o nosso lar eterno, com quem estaremos para sempre unidos.

Uma boa semana e que possamos deixar Deus nos conduzir e nos saciar completamente. Segue aí um excelente vídeo encontrado no Youtube com o Salmo 23 cantado na língua hebraica:

OBS: A imagem acima trata-se da obra "O Bom Pastor", mosaico no Mausoléu de Galla Placidia, Ravenna, datado da primeira metade do século V da era comum. Já a segunda ilustração seria uma retratação do Salmo 23 da versão King James de 1880 em que o provável autor talvez seja Edward Evans (1826-1905).

OBS 2: Este texto foi inicialmente postado no blogue Confraria Teológica em http://logosemithos.blogspot.com/2011/11/ideia-de-deus-como-um-pastor.html

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A fé para lidar com o ateu que existe em cada um de nós


Nós, os que confessamos ser crentes em Deus, muitas das vezes cometemos o engano de achar que somos mais dignos do que os ateus ou seguidores de outras religiões diferentes do cristianismo (ou de alguma de suas variantes). Confundimos erroneamente a fé com o verbo acreditar como se crer em Deus dependesse de uma inabalável convicção literal em todos os acontecimentos bíblicos ou nos pontos principais de uma doutrina eclesiástica.

Por sua vez, muitas das pessoas que estão dentro das igrejas e que passam por algum tipo de dúvida ficam sofrendo os mais infernais conflitos quando não se consideram convictas a respeito de um ponto relevante da “fé cristã”. Uns acham que podem não estar salvos, no sentido de jamais terem se convertido, ou que seus nomes acabaram de ser riscados do Livro da Vida. E muitos preferem permanecer fechados dentro de si mesmos deixando de compartilhar suas dívidas com algum irmão capaz de ajudá-lo e acabam agindo como se estivessem escondendo do próprio Deus onisciente a incredulidade.

Eu considero que a fé está relacionada a algo muito mais profundo do que meramente acreditar. É um estado de confiança e que inclui entrega, dependência e obediência, manifestando-se nas posições tomadas pelo crente em relação aos fatos da vida, os quais podem exigir escolhas radicais. Ou do contrário, como ensinou Tiago, a fé “é morta” (em outras palavras talvez uma fé inexistente).

Não há como negar que todo crente tem em si um pouco de ateu. É um ateísmo presente em nossa velha natureza e que ainda opera em nossa mente mortal, a qual precisa ser renovada a cada dia pela obediência à Palavra.

No entanto, este ateísmo trata-se de uma descrença que nem sempre irá se manifestar pela negação confessional da fé, ou no sentido de questionar a existência de Deus, mas principalmente nas horas de decidir cumprir aquilo que deve ser feito nas mais conflituantes situações.

Eu diria que é devido á incredulidade que muitos homens permanecem trabalhando desonestamente porque não confiam suficientemente em Deus a ponto de deixarem um negócio que lhes rouba a espiritualidade. Por causa dessa falta de fé, muitas pessoas preferem contar uma mentirinha para evitar situações de desconforto. E o mesmo ocorre no momento de ofertar, pois o incrédulo teme que amanhã passará necessidades se der aquela contribuição de modo que o ateu enrustido vive mais por medo do que por fé.

Ora, mesmo as lideranças dentro da Igreja podem ter a fé abalada e isto não as torna piores do que ninguém, mas tão somente humanas. Aliás, por várias vezes Jesus repreendeu didática e amorosamente os seus discípulos chamando-os de “homens de pequena fé”. E ainda assim o Mestre não perdeu a fé no que aqueles rudes pescadores da Galileia poderia se tornar de modo que a história mostrou o quanto tais homens simples e falhos foram capazes de crer em Deus.

A melhor maneira de lutarmos contra a nossa incredulidade não será encobrindo-a, fingindo que a dúvida não existe e que somos os super crentes. Pois o que deve ser feito é o homem assumir diante de Deus a sua necessidade de fé e descansar na graça.

Os três primeiros evangelhos um interessante caso em que os discípulos de Jesus, na ausência deste, não tinham conseguido expulsar o demônio de uma criança. Então, quando o Senhor conversou com o pai do menino, ele respondeu que seu filho, desde pequenino, quando ficava possesso, era atirado no chão, passando a ranger os dentes e espumando. Com isto, o espírito imundo tentava jogá-lo no fogo, ou na água, afim de matar a criança.

Entretanto, a narrativa de Marcos (9.14-29) mostra uma particularidade deste episódio sobre a fé que não encontramos em Mateus e Lucas. Durante o diálogo, o pai da criança pediu a Jesus, se “caso ele pudesse”, que os ajudasse. Admirado com a resposta daquele homem dúbio, Jesus afirma=lhe que “tudo é possível ao que crê”. Então, em sua réplica, o pai do garoto manifestou fé reconhecendo a própria incredulidade e reiterando com isto o seu pedido de socorro:

Imediatamente o pai do menino exclamou: 'Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!'” (Marcos 9.24; Nova Versão Internacional - NVI)

O final daquela história pode ser lido na Bíblia onde os escritores dos três primeiros evangelhos contam que o menino ficou liberto. E depois Jesus responde aos discípulos porque eles não puderam expulsar Satanás ao dizer-lhes que aquela casta de demônios só sai com oração (e jejum segundo alguns manuscritos).

Tal explicação de Jesus infelizmente é mal interpretada como se tratasse de uma fórmula para exorcismos e curas, sendo que, na verdade, o Senhor nunca orava para expelir um demônio. Quando aparecia um endemoniado, Jesus simplesmente ordenava com autoridade para que o espírito imundo saísse da pessoa da mesma maneira como determinava que uma tempestade se acalmasse, ou que os ouvidos do surdo se abrisse, ou que o morto se levantasse. Logo, quem precisava orar (e talvez jejuar) eram os discípulos, provavelmente para que tivessem mais relacionamento com Deus, o que é importantíssimo para o exercício da fé de qualquer pessoa (as orações dos salmos são puras expressões de fé).

Ainda assim, não é pela oração e nem pelo jejum que o homem adquire fé. Esta é frutificada pelo Espírito Santo nos nossos corações. É um dom gracioso de Deus de modo que nenhum homem é salvo por fé e sim pela graça. Ou seja, porque Deus é misericordioso a sua palavra torna-se revelação para nós e aí decidimos seguir a Jesus.

Ora, se somos salvos por graça e não por fé, nada temos a temer se, por algum motivo, a nossa fé vier a vacilar. Nestas horas devemos agir como o pai do menino endemoniado que clamou pela ajuda de Jesus quando reconheceu a própria incredulidade ao invés de se achar um super crente.

Nos momentos de falta de fé devemos nos lembrar de Pedro ao duvidar quando estava andando sobre as águas para encontrar-se com Jesus e acabou afundando. Aí, o apóstolo reagiu com fé gritando “Senhor, salva-me” (Mt 14.30) e Jesus tirou-o das águas colocando-o de volta ao barco.

Precisamos admitir que ninguém na Igreja é um super crente achando que a fé seja resultante de um esforço pessoal, erro que, no fim das contas, acaba sendo uma negação da graça. E, infelizmente, dentro de várias congregações evangélicas há pessoas com terríveis traumas de fé que se sentem bloqueadas para se abrir na comunidade porque temem serem rotuladas como mundanas, incrédulas, desviadas ou fracas.

Quando Paulo falou que nada de bom habitava nele (Rm 7.18), obviamente que isto inclui também a incredulidade de modo que todo crente é também um ateu em potencial

Que tenhamos fé! Nem que seja do tamanho do átomo de um grão de mostarda para pedirmos socorro a Deus nas horas mais difíceis. Aliás, a verdadeira força do homem está em admitir sua própria fraqueza.


Oração pela Fé

Senhor, dá-me fé!
Mesmo quando as circunstâncias em minha volta fizerem-me desacreditar na tua permanente companhia.
Mesmo se os recursos faltarem, a fome bater e as preocupações com o meu sustento surgirem, dá-me fé.

Nas enfermidades e na hora da dor, dá-me fé.
Na escolha pelo caminho estreito e apertado, quando na minha frente há uma estrada larga e pavimentada para trafegar, dá-me fé para te obedecer.
Se a perseguição, a dúvida ou a incerteza vierem me cercar, sustenta a minha fé. E venha depressa me socorrer.

Que eu tenha fé para não pecar.
Fé para ao mundo renunciar sem me ensoberbecer.
Fé para servir e amar.
Fé para me arrepender se errar e, com graça, continuar.

Com fé não vou me desesperar diante da morte porque sei que, quando tua voz me chamar, eu vou ressuscitar.
Tu estarás para sempre comigo. Não importa o que acontecerá.
Então, quando o coração parar de bater, um novo fôlego de vida em mim vai entrar e a ti eu vou para sempre louvar.

Sim, Senhor. Dá-me fé!

Muito obrigado pela tua graça.
Amém.