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sábado, 21 de março de 2026

Entre o veto e o vazio: a crise silenciosa da governança global e os limites da crítica à ONU



A recente declaração de Luiz Inácio Lula da Silva, proferida em Bogotá, no dia 21 de março, ao afirmar que o Conselho de Segurança das Nações Unidas “faz as guerras em vez de evitá-las”, recoloca no centro do debate uma inquietação antiga: afinal, a ONU ainda cumpre a função para a qual foi criada?

A resposta exige cautela. Não se trata de negar a crise — ela é evidente —, mas de compreendê-la em seus termos reais. O risco, aqui, não é o erro factual, mas a simplificação analítica.


1. O Conselho não faz guerras — mas tampouco as impede

O Conselho de Segurança das Nações Unidas não possui forças armadas próprias, nem iniciativa autônoma para desencadear conflitos. Seu papel jurídico, definido pela Carta da ONU, é autorizar — ou não — o uso da força em situações excepcionais.

A crítica mais precisa, portanto, não é a de que o Conselho “faz guerras”, mas a de que frequentemente não consegue impedi-las.

E isso não decorre de falha acidental. É resultado direto de sua arquitetura institucional: o poder de veto dos cinco membros permanentes.


2. O veto como condição de existência — e de limitação

O veto não é um desvio do sistema. É sua engrenagem central.

Sem ele, dificilmente as grandes potências aceitariam submeter-se a decisões potencialmente contrárias a seus interesses estratégicos. Com ele, permanecem dentro da ordem multilateral — ainda que ao custo de restringir sua efetividade.

Esse arranjo produz um paradoxo estrutural: o mecanismo que evita o colapso da ONU é o mesmo que restringe sua capacidade de agir.

Não por acaso, os conflitos mais sensíveis — como aqueles envolvendo Estados Unidos, Rússia e China — tendem a escapar da capacidade decisória do Conselho.

Desde o fim da Guerra Fria, o uso do veto não desapareceu — apenas se reconfigurou. Nos últimos anos, ele tem sido mobilizado de forma recorrente em crises centrais do sistema internacional. A Rússia vetou, em diferentes momentos, resoluções relacionadas à guerra na Ucrânia, enquanto os Estados Unidos bloquearam propostas envolvendo o conflito em Gaza. 

O resultado não é apenas a ausência de decisão, mas a cristalização de impasses que expõem os limites operacionais do Conselho justamente nos temas mais sensíveis.


3. A Assembleia Geral e a ilusão decisória

Diante da paralisia do Conselho, frequentemente se volta o olhar para a Assembleia Geral das Nações Unidas.

Ali, de fato, a maioria dos Estados se manifesta — inclusive sobre temas como o conflito no Oriente Médio. Mas há um limite jurídico incontornável: suas resoluções são, em regra, recomendatórias.

O resultado é uma dissociação crescente entre:


  • a legitimidade normativa (o que a maioria decide)
  • e a efetividade prática (o que efetivamente ocorre)


Produz-se, assim, uma forma de consenso sem consequência.

Mesmo diante dessas limitações, há mecanismos de mitigação institucional. A Resolução 377 A, conhecida como Uniting for Peace, permite à Assembleia Geral deliberar em situações de paralisia do Conselho de Segurança. 

Ainda assim, suas decisões permanecem no campo recomendatório, reforçando legitimidade política, mas sem alterar substancialmente a capacidade de execução no plano internacional.


4. O fenômeno contemporâneo: a governança fora da ONU

O dado mais relevante do cenário atual talvez não seja a paralisia interna da ONU, mas o que ocorre fora dela.

Diante das limitações do sistema, Estados passaram a operar por meio de:


  • coalizões ad hoc
  • arranjos regionais
  • iniciativas diplomáticas paralelas


Durante o governo de Donald Trump, esse movimento ganhou contornos mais explícitos, com a adoção de estratégias abertamente unilaterais no tratamento de temas do Oriente Médio, inclusive propostas alternativas de gestão para a Faixa de Gaza.

Não se trata da substituição formal da ONU, mas de algo talvez mais significativo: sua progressiva marginalização nos temas mais sensíveis.


5. Reforma do Conselho: solução ou agravamento?

A ampliação do Conselho de Segurança — com a inclusão de países como Brasil, Índia, Alemanha, Japão e África do Sul — é frequentemente apresentada como solução para a crise de legitimidade.

Mas essa proposta carrega um dilema:


  • com veto: aumenta-se a representatividade, mas amplia-se o risco de paralisia
  • sem veto: preserva-se alguma funcionalidade, mas institucionaliza-se uma hierarquia entre permanentes


Nenhuma das alternativas resolve o problema de fundo: a divergência estrutural entre interesses das grandes potências.

A dificuldade de reforma, contudo, não se limita ao desenho institucional. Há resistências políticas concretas. 

O chamado G4 — formado por Brasil, Índia, Alemanha e Japão — defende a ampliação do Conselho com novos membros permanentes. Em oposição, o grupo conhecido como “Uniting for Consensus”, ou Coffee Club, liderado por países como Itália, Paquistão, Argentina e México, rejeita essa proposta e sustenta que a ampliação deveria ocorrer apenas entre membros não permanentes. 

Esse impasse revela que a reforma do Conselho não enfrenta apenas a resistência das potências atuais, mas também rivalidades regionais que dificultam qualquer consenso.


6. A crítica de Lula: entre o diagnóstico e a retórica

A fala presidencial, nesse contexto, tem mérito ao expor a contradição do sistema internacional. Mas incorre em simplificação ao atribuir ao Conselho uma agência que ele juridicamente não possui.

Mais do que um órgão que “faz guerras”, o Conselho revela-se, hoje, como um espaço onde a impossibilidade de consenso impede a ação coletiva.

A crítica, portanto, é parcialmente correta no diagnóstico — mas imprecisa na formulação.

Essa perda de centralidade na esfera da segurança internacional, contudo, não se projeta de forma uniforme sobre todo o sistema das Nações Unidas. 

Em áreas como assistência humanitária, a organização permanece insubstituível. Agências como o UNICEF, o Programa Mundial de Alimentos e o ACNUR continuam a desempenhar papel central na resposta a crises humanitárias, deslocamentos forçados e insegurança alimentar. Trata-se de um contraste relevante: enquanto a ONU encontra limites na contenção de conflitos entre Estados, mantém elevada capacidade de atuação na mitigação de seus efeitos sobre populações vulneráveis.


7. Conclusão: entre a irrelevância e a indispensabilidade

A ONU vive uma crise silenciosa. Não de existência, mas de centralidade.

Ela permanece indispensável como:


  • fórum de legitimidade
  • espaço diplomático
  • estrutura humanitária


Mas se torna cada vez menos determinante justamente onde mais importa: na contenção de conflitos entre grandes potências.

O cenário que emerge não é o de um colapso institucional, mas o de uma transformação mais sutil — e talvez mais preocupante: um mundo em que a legalidade internacional subsiste, embora a capacidade de moldar a realidade se desloque progressivamente para fora dela.

Nesse contexto, o desafio não é apenas reformar a ONU, mas enfrentar uma questão mais profunda: como construir governança global eficaz em um sistema internacional que já não compartilha consensos mínimos sobre poder, ordem e legitimidade?

Diante desse cenário, resta a pergunta: que papel o Brasil está disposto a assumir na reorganização da ordem internacional?

Em um sistema que já não responde como antes, será o Brasil apenas observador ou protagonista na redefinição da governança global?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Lula, Trump e a geopolítica do multilateralismo: estratégia externa, dilemas da esquerda e cálculo eleitoral



As recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticando o estilo de liderança de Donald Trump — especialmente a ideia de “governar o mundo pelo Twitter” — não podem ser lidas como um episódio isolado, nem como mero gesto retórico. Elas fazem parte de uma estratégia diplomática mais ampla, cuidadosamente construída ao longo de 2025 e início de 2026, e dialogam tanto com a reorganização da ordem internacional quanto com a política doméstica brasileira.

Este artigo busca analisar essa estratégia em três planos interligados: o cenário internacional, as tensões internas da esquerda brasileira e o cálculo eleitoral de Lula diante da atual configuração política.


1. Uma estratégia internacional coerente, não episódica

Desde o início de 2025, o governo Lula vem reposicionando o Brasil como um ator previsível, institucional e multilateral, em contraste com a crescente imprevisibilidade do sistema internacional. Esse reposicionamento teve marcos claros:


  • a defesa reiterada do multilateralismo em fóruns globais;
  • a publicação de um artigo assinado por Lula em grandes jornais europeus, enfatizando a necessidade de regras, instituições e cooperação internacional;
  • o avanço decisivo do acordo Mercosul–União Europeia;
  • uma aproximação pragmática com Trump no final de 2025, voltada à contenção de riscos;
  • e, por fim, a crítica pública ao unilateralismo personalista do ex-presidente americano, já em janeiro de 2026.


Lida em conjunto, essa sequência revela um fio condutor claro: Lula não busca confronto direto com os Estados Unidos, mas tampouco aceita subordinação. Sua crítica não é à existência dos EUA como potência, e sim ao método — decisões unilaterais, personalismo e diplomacia feita por redes sociais.

Esse discurso encontra ressonância imediata na Europa, especialmente em um momento em que líderes como Macron, Scholz e Sánchez tentam reduzir a dependência europeia de Washington sem romper a aliança atlântica. A fala de Lula, nesse sentido, não é dirigida apenas a Trump, mas também — e talvez principalmente — a Bruxelas, Paris, Berlim e Madri.


2. Brasil entre EUA, UE e China: autonomia pragmática

A estratégia brasileira busca posicionar o país como um polo autônomo em um sistema triangular:


  • União Europeia: parceira normativa e institucional, ancorada no acordo Mercosul–UE, na agenda ambiental e na previsibilidade diplomática.
  • China: principal parceira econômica, com relações estruturais em comércio e investimentos, mantidas de forma pragmática e sem alinhamento ideológico.
  • Estados Unidos: parceiro inevitável, porém volátil sob Trump, com quem o Brasil tenta extrair ganhos pontuais sem dependência excessiva.


Nesse contexto, a crítica de Lula ao estilo de Trump não reduz necessariamente a margem de negociação com Washington. Ao contrário: ao demonstrar que o Brasil possui alternativas reais (Europa e China), Lula aumenta seu poder de barganha. Trump, historicamente, tende a reagir a esse tipo de movimento tentando reequilibrar sua influência por meio de acordos bilaterais.

Quanto à China, não há sinais concretos de ruptura ou tensão. O que se observa, no máximo, é um ajuste de prioridades diplomáticas nos últimos meses, com maior foco europeu. Pequim tende a valorizar estabilidade e continuidade contratual — e isso o Brasil tem mantido.


3. As divisões da esquerda brasileira diante do multilateralismo

Internamente, a estratégia de Lula não é consensual à esquerda. Há três discursos críticos principais:


  1. A esquerda socialista ortodoxa, que vê o multilateralismo liberal (ONU, OMC, UE) como instrumento de reprodução do capitalismo global e do imperialismo. Para esse campo, acordos como o Mercosul–UE são estruturalmente assimétricos e incompatíveis com um projeto de ruptura.
  2. A esquerda nacional-desenvolvimentista crítica, que aceita o multilateralismo apenas como instrumento, desde que não limite a política industrial, o papel do Estado e a soberania econômica.
  3. Uma esquerda identitária globalista, minoritária no Brasil, que critica Lula não por excesso de pragmatismo econômico, mas por considerar sua diplomacia cautelosa demais em temas de direitos humanos universais.


Lula se posiciona claramente fora da esquerda ortodoxa. Ele aposta na reforma do sistema internacional, não em sua ruptura. Isso gera críticas, mas não surpresa.


4. O paralelo com 2003–2006: a história se repete, com mais margem

O dilema atual é estruturalmente semelhante ao vivido por Lula em seu primeiro mandato. Entre 2003 e 2006, ele enfrentou forte oposição interna ao manter o tripé macroeconômico, respeitar contratos e buscar inserção global responsável. Houve rupturas, saída de quadros do PT e acusações de “neoliberalismo”.

A resposta de Lula naquela época foi clara:


  • aceitou perder a esquerda radical;
  • compensou com políticas sociais robustas;
  • construiu legitimidade internacional.


O resultado foi crescimento, alta aprovação e reeleição.

A diferença agora é que Lula atua com muito mais capital político. Ele já é uma liderança global consolidada e enfrenta um cenário em que não há adversário competitivo à esquerda. A oposição real está concentrada do centro-direita à extrema direita.

Isso explica o conforto do presidente diante das críticas vindas da esquerda radical: o custo eleitoral é baixo, enquanto os ganhos diplomáticos e econômicos potenciais são elevados.


5. Repercussão eleitoral: quem ganha e quem perde

A estratégia tende a produzir efeitos distintos no eleitorado:


  • Esquerda moderada e jovens urbanos: tendem a apoiar a defesa do multilateralismo, da cooperação e da previsibilidade.
  • Centro político: reage de forma pragmática, desde que a política externa seja associada a estabilidade econômica e geração de oportunidades.
  • Direita pró-EUA: pode rejeitar a crítica a Trump, mas dificilmente migrará para Lula de qualquer forma.
  • Esquerda radical: mantém críticas ideológicas, mas sem capacidade de ameaça eleitoral real.


Conclusão

A fala de Lula sobre Trump não é improviso, nem bravata. Ela integra uma estratégia consciente de inserção internacional, que combina multilateralismo, autonomia pragmática e cálculo político interno. Trata-se de uma escolha que desagrada setores da esquerda antissistêmica, mas que dialoga com a Europa, amplia a margem de negociação com os EUA e preserva relações estruturais com a China.

Assim como em 2003, Lula aceita a tensão interna como custo de governabilidade. A diferença é que, agora, ele o faz com mais experiência, mais prestígio internacional e menos riscos eleitorais.

Em um mundo cada vez mais fragmentado, o Brasil tenta ocupar um espaço raro: o de país que fala com todos, sem se submeter a ninguém.

domingo, 23 de novembro de 2025

Um Passo Histórico com os Pés no Chão: Por que o Acordo Mercosul–União Europeia importa



A mensagem de Lula anunciando a assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia no dia 20 de dezembro marca um daqueles momentos em que a política externa brasileira volta a dialogar com o mundo de cabeça erguida. 

Trata-se, sem exagero, de um dos passos mais ambiciosos da nossa diplomacia recente: conectar 722 milhões de pessoas e integrar economias que somam US$ 22 trilhões em PIB não é apenas um dado impressionante — é a demonstração de que o Brasil entende seu papel no cenário global.

Contudo, é importante olhar para esse otimismo com responsabilidade. Louvar o acordo não significa ignorar os desafios que virão. A assinatura, por si só, não despejará desenvolvimento instantâneo: haverá um longo caminho de ajustes, negociações internas, disputas no Parlamento europeu e — sobretudo — trabalho técnico para que os benefícios cheguem à economia real. Lula reconhece isso quando afirma que, “depois da assinatura, começa o trabalho”. É um recado maduro e necessário.

E ainda assim, vale celebrar!

O Mercosul que, por anos, foi acusado de estagnação, volta a mostrar vitalidade. E a União Europeia, apesar de pressões protecionistas internas, aceita renovar pontes com a América do Sul em um momento em que o mundo precisa mais de cooperação do que de barreiras. Assim, ao assumir a liderança política desse processo, o nosso país reafirma seu compromisso com o multilateralismo, com o diálogo internacional e com uma visão de desenvolvimento que não se fecha em fronteiras.

Do ponto de vista econômico, o acordo abre portas para a modernização industrial, aumenta previsibilidade para investidores, favorece exportações brasileiras — especialmente de produtos manufaturados e do agronegócio — e sinaliza que estamos prontos para competir de maneira mais integrada. Do ponto de vista político, mostra que é possível costurar consensos complexos sem abrir mão de compromissos sociais, ambientais e democráticos.

Todavia, a grande virtude dessa negociação está no equilíbrio: o Brasil não chega como um ator submisso, mas como parceiro. Não busca concessões a qualquer custo, mas defende condições justas. E compreende que um acordo dessa escala só faz sentido se beneficiar de fato o povo — do agricultor familiar ao exportador industrial, do trabalhador às empresas que irão se modernizar para competir no mercado global.

Por tudo isso, a assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia deve ser vista como um marco positivo, mas não como ponto de chegada. É o início de uma nova etapa que exigirá vigilância, competência técnica, negociações firmes e políticas internas capazes de transformar potencial em realidade.

O entusiasmo é legítimo. O realismo, indispensável.

E, se ambos caminharem juntos, este acordo pode se tornar um divisor de águas na inserção internacional do Brasil — e na capacidade do Estado brasileiro de transformar oportunidades globais em desenvolvimento concreto aqui dentro.