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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Quando os templos das igrejas se transformam em terríveis “zigurates”...


O livro de Gênesis conta uma breve história sobre a Torre de Babel. Segundo a narrativa, depois do dilúvio, os descendentes dos filhos de Noé, quando chegaram à região de “Sinear” (sul da Mesopotâmia e do atual Iraque), decidiram construir uma enorme torre para que não se espalhassem. Deus, no entanto, não se agradou daquele projeto e os confundiu para que a humanidade se dispersasse:

No mundo todo havia apenas uma língua, um só modo de falar. Saindo os homens do Oriente, encontraram uma planície em Sinear e ali se fixaram. Disseram uns aos outros: “Vamos fazer tijolos e queimá-los bem”. Usavam tijolos em lugar de pedras, e piche em vez de argamassa. Depois disseram: “Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”. O SENHOR desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. E disse o SENHOR: “Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros”. Assim o SENHOR os dispersou dali por toda a terra e pararam de construir a cidade. Por isso foi chamada de Babel, porque ali o SENHOR confundiu a língua de todo mundo. Dali o SENHOR os espalhou por toda a terra. (Gn 11.1-9; Nova Versão Internacional – NVI)

Supõe-se que a Torre de Babel tenha sido um zigurate bem semelhantes aos que foram construídos na Babilônia durante o terceiro milênio antes de Cristo. O zigurate era um templo em forma de pirâmides terraplanadas e que tinha vários andares com adornos de possível significação cosmológica. Através do edifício, os povos da Mesopotâmia buscavam estabelecer uma conexão vertical entre a terra e os céus e, ao mesmo tempo, impunha-se uma conexão horizontal entre a cidade e as terras. Acreditava-se que, no topo do templo, a divindade descia para se encontrar com os seus seguidores.

Talvez a Torre de Babel pudesse ter sido um local de adoração a Marduque, deus babilônico considerado o protetor da cidade. Ou então, ainda não tinha qualquer ligação com a idolatria religiosa dos sumérios, mas talvez fosse o centro de um império que explorasse politica e economicamente a população já que o capítulo anterior de Gênesis conta sobre o reino de Ninrode:

Cuxe gerou também a Ninrode, o primeiro poderoso na terra. Ele foi o mais valente dos caçadores, e por isso se diz: Valente como Ninrode”. No início o seu reino abrangia Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinear. Dessa terra ele partiu para a Assíria, onde fundou Nínive, Reobote-Ir, Calá e Resém, que fica entre Nínive e Calá, a grande cidade. (Gn 10.8-12; NVI)

Não importa o que tenha sido historicamente a Torre de Babel, mas o certo é que aquela obra contrariava os propósitos de Deus e a sua ordem para que os homens se espalhassem pela superfície da terra (Gn 1.28 e 9.1,7). Por isso, o SENHOR trouxe-lhes o desentendimento afim de que o tal projeto não fosse adiante.

Mas o que a Torre de Babel tem a ver com as igrejas de hoje?

Eu diria que muita coisa. Principalmente quando nos deparamos com mega-templos sendo construídos por certas instituições religiosas que visam em primeiro lugar o lucro, os interesses políticos e o crescimento em número de membros ao invés de verdadeiramente estarem alcançando almas para viverem o Reino de Deus. E, dentro deste contexto, projetos de igrejas faraônicas tornam-se excelentes oportunidades para se gastar os recursos das ofertas, as quais são obtidas através de insistentes campanhas milionárias com ilusórias promessas de riquezas e prosperidade para aqueles que contribuírem.

Um aspecto muito negativo que vejo nesses mega-templos é a falta de comunhão entre o seus frequentadores. Tais igrejas geralmente são fortemente dominadas por um líder autoritário ou do contrário acabam se tornando uma Babel onde ninguém mais se entende (em Gênesis há um intencional trocadilho no texto do idioma original hebraico entre Babel e o vocábulo balal que significa “confusão” ou “mistura”). Os membros envolvidos com algum ministério passam a se tornar bajuladores do pastor e às vezes surge até um sentimento de divisão e de inveja entre as pessoas, ao invés de cooperação.

De modo nenhum quero me tornar preconceituoso contra as igrejas maiores como se todas elas fossem sempre erradas, manipuladoras e contrárias à obra de Deus. Porém, não me parece que muitos projetos de construção de grandes templos estejam de acordo com aquilo que os cristãos deveriam estar praticando, isto é, o “Ide” da grande comissão ordenada por Jesus.

Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”. (Mateus 28.28-20; NVI)

E disse-lhes: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”. (Marcos 16.15-18; NVI)

Ele lhes respondeu: “Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade. Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”. (Atos dos Apóstolos 1.7-8; NVI)

Infelizmente, encontra-se hoje igrejas que quase não investem em missões. Algumas enviam seus missionários para outras cidades e países mas, no meio de trabalho, suspendem a ajuda financeira. Outras igrejas gastam tempo e recursos apenas para administrarem a estrutura que criaram, tornando-se lentas demais para desenvolverem projetos evangelísticos eficientes até mesmo nos locais onde estão edificadas de modo que suas atividades acabam se restringindo na prática aos “cultos” da semana e programas nos meios de comunicação, sufocando outras iniciativas.

Ora, até que ponto a institucionalização está sendo útil à obra de Deus? Será que o excesso de estrutura já não está atrapalhando a Igreja no Brasil?

No último exemplar que recebi da revista da missão Portas Abertas (vol. 28, n.º 9), há uma interessante matéria que fala acerca da China. A reportagem é uma convocação para que os cristãos se mobilizem em projetos de doação de Bíblias para os chineses. E, no texto “Mais Bíblias para a China?”, há uma discussão sobre quantos cristãos existem de fato naquele país:

“(...) A China é o país mais populoso do mundo, e, pela graça de Deus, o número de pessoas que se convertem a cada ano também é grande. Por causa do sistema de igrejas registradas (igrejas aprovadas pelo governo) e não registradas (igrejas ilegais), fica difícil saber exatamente qual é o real número de cristãos que existe no país. E este é um fator que faz com que existam duas versões sobre a distribuição de Bíblias na China. Dietrich Bauer, membro da Sociedade Bíblica da Alemanha, diz que o número oficial de cristãos na China é de 25 milhões. A pesquisa feita não inclui os membros de igrejas não registradas no governo. Se incluísse, este número chegaria a 100 milhões. Bauer declara que a falta de Bíblias não é fruto do comunismo, mas da escolha dos cristãos em não querer fazer parte do sistema de igrejas registradas pelo governo, já que só quem é registrado pode receber uma cópia das Escrituras. A Sociedade Bíblica do Reino Unido já em outra visão. Segundo sua pesquisa, o número de cristãos chega a 27 milhões, mas afirma que pode ser que haja mais de 90 milhões se os que fazem parte de igrejas não registradas fossem contados (…)”

Achei curioso que a maior parte dos cristãos chineses se congregam em igrejas clandestinas, mesmo tendo a possibilidade de serem institucionalmente reconhecidos. Mas será que não está sendo melhor assim?

Aqui no Brasil, onde o número de evangélicos não supera a quantidade de cristãos chineses, o que não faltam são nomenclaturas de igrejas. Se bobear, diariamente um ou mais templos são inaugurados e já não se tem a conta de quantas denominações existem ao todo. Mas onde é que estão as pessoas? O que elas andam fazendo para a obra de Deus? Ou em que ministério estão realmente atuando? Quais são suas reais expectativas? O que as motivam no dia a dia?

Penso que nós, os cristãos brasileiros, deveríamos nos importar menos com o trabalho institucional e focarmos mais no amor ao próximo. Ao invés de termos como maior objetivo o aumento do número de membros da nossa denominação ou do templo onde nos congregamos, por que não passamos a cultivar a nossa comunhão com mais simplicidade, sem manipulações ou jogos de poder? E pra que tanto apego ao dinheiro e coisas materiais? Será que a Igreja de Atos dos Apóstolos viveu uma utopia?

Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um. (Atos 4.32-35; NVI)

Depois do Brasil ter enfrentado o regime militar, vive-se hoje na ditadura do individualismo. Nosso povo perdeu o senso de comunidade e isto, lamentavelmente, reflete dentro das nossas igrejas. Logo, é preciso que resgatemos a vida comunitária, o que pode ser melhor experimentado dentro das congregações menores espalhadas pelos bairros e nas células, desde que fiquem livres das pressões centralizadoras das denominações.

Como seremos cristãos na comunidade? Parece-me que este seja o grande desafio dos tempos atuais em que a Igreja (o povo de Deus) é chamado para sair da máscara dos grandes templos para levar o Evangelho a quem está no lado de fora. Ou seja, ao invés de chamarmos insistentemente as pessoas para virem nas reuniões de nossas igrejas, nós é que precisamos trazer a Igreja até elas, mostrando que nos importamos de verdade com o próximo, não nos esquecendo que há outros meios de evangelizar sem o uso da palavra.

Que Deus traga direções à sua Igreja no Brasil e que sejamos capazes de obedecê-las!


OBS: A ilustração acima sobre a Torre de Babel é uma obra do pintor Pieter Bruegel.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As tribulações e o Reino de Deus

Dias atrás estava eu lendo um trecho do livro de Atos dos Apóstolos e meditei um pouco nesta passagem a seguir destacada, em que o apóstolo Paulo encorajou os novos convertidos da Ásia Menor a suportarem tribulações:

Eles pregaram as boas novas naquela cidade e fizeram muitos discípulos. Então voltaram para Listra, Icônio e Antioquia, fortalecendo os discípulos e encorajando-os a permanecer na fé, dizendo: "É necessário que passemos por tribulações para entrarmos no Reino de Deus". (Atos 14.21-22; Nova Versão Internacional - NVI)

Sem dúvida que essa passagem não é de fácil compreensão pois, se adotarmos uma interpretação literal, poderemos concluir equivocadamente que o enfrentamento de tribulações seria uma condição para a salvação, o que não é correto. Ainda mais quando lemos nas epístolas de Paulo que somos salvos pela graça de Deus, mediante a fé:

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2.8-9; NVI)

Teria o apóstolo Paulo entrado em contradição com ele mesmo?

Embora eu acredite que na Bíblia encontramos várias visões teológicas distintas e que nem por isso seus livros deixam de ser divinamente inspirados, consigo hoje entender com tranquilidade o que Paulo estava querendo dizer aos seus novos discípulos da Ásia Menor, os quais viram-no passar por terríveis tribulações nas cidades de Listra, Icônio e Antioquia da Psídia, conforme relatado nos capítulos 13 e 14 do livro de Atos.

Em primeiro lugar, devemos observar que Paulo utilizou a expressão "Reino de Deus", a qual também foi muitas vezes empregada por Jesus nas suas parábolas registradas nos Evangelhos:

Novamente ele disse: "Com que compararemos o Reino de Deus? Que parábola usaremos para descrevê-lo? É como um grão de mostarda, que é a menor semente que se planta na terra. No entanto, uma vez plantado, cresce e se torna uma das maiores plantas, com ramos tão grandes que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra". (Marcos 4.30-32)

A palavra reino é também sinônimo de governo e domínio. Assim, numa explicação direta, simples e ao mesmo tempo satisfatória, pode-se dizer que o Reino de Deus é o governo de Deus nas nossas vidas quando nos submetemos ao senhorio (domínio) de Cristo.

O Reino de Deus não é algo que vivemos apenas depois da morte, mas se trata de uma realidade que começa aqui nesta vida. E para que outros também entrem nesse Reino, ele deve ser pregado mesmo que seja preciso enfrentar uma oposição através das tribulações que Paulo mencionou em Atos.

Mas por que existem essas tribulações?

Bem, se nem todos estão sob o domínio de Deus em suas vidas, estão sobre o domínio de um adversário que a teologia judaico-cristã identifica como sendo o diabo, Satanás. Logo, é de se esperar que existe uma batalha espiritual pelas vidas humanas em que o tal adversário, não tendo nenhuma autoridade nem na terra e nem no céu, opõe-se no mundo físico através de pessoas que, conscientemente ou não, fazem a sua vontade.

Entretando, voltando à passagem bíblica inicialmente citada neste texto (à exortação do apóstolo Paulo), vejo ali um outro aspecto da mensagem que é a possibilidade de experimentarmos o Reino de Deus em nossas vidas mesmo em meio às lutas e provações.

Quando Paulo estava confortando seus novos discípulos, ele estava concluindo a primeira viagem missionária, tendo precisado fugir de cidade em cidade desde que começou a pregar numa sinagoga em Antioquia da Psídia. Em Listra, ele chegou a ser apedrejado e dado como morto (At 14.19). Porém, ainda assim, o apóstolo ainda tinha ânimo e força para falar sobre o Reino de Deus.

Muito curiosa essa conduta de Paulo, não? Vivendo nós hoje numa época em que pessoas ficam sofrendo de depressão sem nem ao menos terem um forte motivo, Paulo enfrentava perseguições, açoites, apedrejamentos, prisões e naufrágios para anunciar as Boas Novas de Cristo e ainda assim conseguia experimentar o Reino de Deus em seu cotidiano.

Em sociedades democráticas e pluralistas como se vê no Brasil e nos Estados Unidos, nós cristãos brasileiros dificilmente passamos pelas mesmas tribulações sofridas pelo apóstolo Paulo ou pelos demais cristãos do século I. Frequentemente nos sentimos fracos e às vezes apegados às coisas materiais desse mundo. Porém, não podemos nos esquecer que, em outras partes do planeta, existem irmãos que estão sendo perseguidos por causa do Evangelho, os quais estão vislumbrando diariamente a glória do Reino de Deus nas suas vidas.

Na época das cortinas de ferro do comunismo, os cristãos que viviam na Europa do Leste e na ex-URSS não se prendiam tanto às denominações religiosas. Era uma Igreja que costumava orar mais e vivia mais unida em pelo Evangelho sem tantas divisões ou interesses pelo poder. Em outras épocas, na China de Mao Tsé-Tung, mesmo com poucas Bíblias que chegavam até lá contrabandeadas, os irmãos tinham muito mais sede da Palavra de Deus a ponto de partilharem entre si folhas soltas dos livros para que todos pudessem ter acesso às Escrituras.

E nós cristãos brasileiros? Lemos a Bíblia com que frequência?

Enfim, posso dizer que, quando experimentamos as tribulações, podemos estar bem mais próximos de compreender o governo de Deus nas nossas vidas.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Um processo exclusivo de independência

Por anos, quando ainda estavam na oposição, o PT e seus ideólogos criticaram o processo de independência brasileira. Muitos diziam que o Brasil havia conquistado apenas uma independência formal e que tínhamos deixado de ser colônia de Portugal para dependermos política e economicamente da Inglaterra e depois dos Estados Unidos. Agora, porém, dizem eles que a nação estaria agindo com soberania, gozando de uma economia forte, com a dívida externa paga e emprestando até recursos ao FMI, Cuba, Haiti e outros países pobres.

De fato, a emancipação política de um país é mesmo um processo e que deve incluir também a nossa população já que uma nação não é apenas o seu território, a instituição Estado ou o número de seu produto interno bruto. A sociedade precisa estar totalmente inclusa de maneira ativa dentro desse crescimento ou do contrário não podemos falar em desenvolvimento. Isto porque o que temos é uma nova forma de exploração interna dos poderosos oprimindo os mais fracos.

Hoje olho para a sociedade brasileira e não vejo uma gente verdadeiramente livre, mas sim um povo escravo desse modelo de economia perversa que empobrece a cada dia o cidadão, cultivando ilusões. Cada vez mais as famílias brasileiras estão endividadas, nossos aposentados não conseguem mais suportar o elevado custo de vida e por isso acabam tendo que tomar empréstimos consignados com os bancos e as financeiras que têm por aí. Ainda mais considerando que o PT passou todos esses anos reajustando as aposentadorias numa proporção menor do que o aumento de salário.

Se por um lado o governo Lula comemora o aumento do emprego e os números positivos da nossa economia, eu percebo o lado perverso da elevação do custo de vida que nem sempre permite que o cidadão acompanhe o desenvolvimento. Há situações em que a inadimplência é tanta que o trabalhador não consegue pagar em dia todos os compromissos acaba vendo seu nome indo parar nos cadastros de restrição ao crédito.

Curioso que tem gente achando que agora o pobre vive melhor porque consegue andar de avião. Mas hoje, por causa da expansão da aviação civil e do aumento do crédito, as pessoas que fazem longas viagens, quando querem visitar seus parentes, não têm outra alternativa melhor do que enfrentarem os nossos caóticos aeroportos já que a passagem de ônibus e os gastos com alimentação no trajeto podem custa mais caro em longas distâncias.

E o que dizer das nossas escolas e dos nossos hospitais?

Hoje as crianças estão sendo aprovadas sem nem ao menos aprenderem o básico e tenho visto o surgimento de uma nova geração com menos formação política do que a minha. E, se em 1992, meus colegas de escola foram mobilizados no "oba-oba" quando saíram às ruas para pedir o impeachment de Fernando Collor, ainda menos posso esperar dessa garotada que está passando de ano com sérias deficiências de aprendizado.

Já os hospitais brasileiros estão uma vergonha com péssimas condições de trabalho para os profissionais de saúde, falta de médicos, atendimento inadequado e desumano, falta de espaço, má administração e obstáculos propositalmente criados para dificultar o acesso do usuário do SUS. Os mais jovens e a classe média talvez nem tenham consciência disso, mas, se nos colocarmos no lugar de um idoso aposentado, chegaremos à conclusão de que não há sistema de saúde neste país. E, com um benefício previdenciário que jamais daria para pagar a cara mensalidade de um plano de saúde, milhões de brasileiros estão vivendo uma velhice sem dignidade.

E o que dizer da violência que só aumenta nas cidades brasileiras e hoje está se espalhando para o interior cada vez mais?

Nossa Amazônia, nossas florestas e os nossos recursos naturais estão sendo destruídos. Nesta década, o Brasil pretende extrair mais petróleo através da exploração do pré-sal, mas até hoje vejo os recursos provenientes dessa finita atividade não estão sendo adequadamente revertidos para a população. Os políticos preferem fazer obras faraônicas e menos necessárias, não corrigem os problemas habitacionais de suas cidades (o Estado do Rio de Janeiro parece que tem cada vez mais favelas), desviam verbas, criam projetos com finalidade meramente eleitoral e prestam péssimos serviços.

Além do mais, o Brasil está contribuindo para o aumento dos desastres ecológicos aqui e em todo o planeta, de modo que já sofremos com maior intensidade as enchentes e as secas prolongadas, fatores que influenciam na nossa agricultura e também no cotidiano das famílias que moram nas áreas urbanas. Todo ano assistimos inúmeras tragédias na TV com a destruição de cidades ou de bairros que não resistem às chuvas, mas o dinheiro do governo não está sendo suficiente para prevenir a ocorrência dessas situações.

Outro efeito negativo dessa exploração petrolífera é que podemos perder a nossa capacidade produtiva por causa da sobrevalorização cambial e da acomodação da sociedade de maneira que no futuro poderemos ficar mais dependentes do capital especulativo. Em 188 anos após o grito do Ipiranga, vejo que a nossa juventude universitária e as pessoas da minha geração a procura de trabalho preferem prestar um concurso público para definirem suas vidas profissionais do que encarar a iniciativa privada como se o Estado tivesse que ser o provedor de empregos para toda a população. O sonho de um estudante de Direito já não é mais advogar montando o seu escritório e sim prestar concurso. Filhos e netos de empresários vão seguindo os mesmos passos em suas carreiras porque o mercado já não é tão atrativo, sendo a carga tributária um grande desestímulo.

Mas o que será do nosso amanhã quando não pudermos explorar mais petróleo? Onde estará o aparelho produtivo do país? Continuaremos sangrando as empresas com pesados impostos para sustentar o funcionalismo? Que compensação terá obtido a sociedade brasileira pela extração de seus recursos naturais num futuro de escassez?

Nesse dia 7 de setembro não tenho muito o que comemorar. Olho para o povo e vejo uma multidão inerte que não consegue compreender o que de fato está acontecendo com o seu país. Daqui do meu apartamento escuto a cada instante um carro de som de candidatos oportunistas e fisiológicos com aquelas musiquinhas despidas de um conteúdo político. Nem ao menos são capazes de parar por um breve instante para prestigiarem o desfile militar e não respeitam o sossego público durante este precioso feriado de descanso para o trabalhador.

Enfim, iremos comemorar o que? Não temos motivos reais para festejarmos a independência do Brasil.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A propaganda eleitoral na TV deveria ser gratuita?

São 21 horas e 13 minutos no meu relógio (horário do Rio de Janeiro) quando começo a escrever este texto em que aguardo o fim da propaganda eleitoral para assistir a programação normal da televisão e nem sempre estou afim de assistir essa pajelança chamada programa eleitoral.

Acho que a maioria da população brasileira também não está muito afim e tem gente que desliga a TV nesses 50 minutos de puro tédio.

Embora eu seja um cidadão participativo da vida política, compreendo e defendo o direito dos receptores e das emissoras em não querer assistir a programação eleitoral.

Será que uma empresa emissora de TV deve ser obrigada a interromper sua programação para exibir algo que não interessa nem a ela e nem aos seus telespectadores?

Sem querer me alongar, porque a novela está quase começando, fica a minha sugestão para que algum candidato defenda como proposta o fim do programa eleitoral gratuito.

Por hoje, despeço-me pois são 21 horas e 20 no relógio e agora vou fazer companhia à minha esposa e ver se a Clara da novela será mesmo presa.

De olho no Senado

As recentes pesquisas têm mostrado uma provável vitória de Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno das eleições presidenciais com uma enorme distância da candidata governista para José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV).

Não vou dizer que já considero derrotada a oposição e acho que ambos os discursos (tanto de Serra quanto de Marina) ainda não estão atingindo as principais necessidades do eleitor.

O que tem fortalecido a candidatura de Dilma são as ilusões do povo acerca do desempenho da economia brasileira. Se antes as pessoas tinham medo de votar no PT achando que a moeda fosse desestabilizar trazendo de volta a inflação, agora o temor recai justamente sobre a perda do emprego. E aí não podemos nos esquecer que os tucanos carregam até hoje o estigma recessivo da era FHC, despertando na memória de muitos as amargas reformas previdenciária e administrativa, bem como o lado negativo das privatizações.

Nessas agonizantes semanas finais da corrida presidencial, deixo como sugestão aos candidatos de oposição que tornem seus discursos mais objetivos, focando no elevado custo de vida produzido pelos oito anos de Lula, e não percam mais tempo com escândalos sobre corrupção pois nenhum efeito prático poderá causar nas intenções de voto esse "blá-blá-blá" sobre o vazamento de informações fiscais da filha do Serra.

Mesmo assim, verdade seja dita que falta muito pouco para as eleições e acho que, dificilmente, haverá um segundo turno. Logo, a oposição deve ter como meta principal aumentar a sua presença no Senado afim de impedir que o PT ponha em prática o seu projeto chavista de poder.

Atualmente há no Congresso Nacional três grupos de políticos: os governistas, a oposição e os inertes. Estes, lamentavelmente, só estão interessados em representar seus próprios interesses e são capazes de passar para o lado governista sem questionarem a ideologia ou o quanto determinados projetos podem afetar de maneira nociva o bem estar da nação. Não reagem, exceto para negociarem as suas exigências pessoais.

Pode-se dizer que o PMDB é o partido que melhor expressa esse bando de políticos inertes do Congresso, os quais também se encontram em outras lendas. Nos tempos de FHC, o PMDB aliava-se ao governo e teve vários cargos importantes. E, mesmo tendo apoiado Serra em 2002, os peemedebistas trocaram de lado e foram ocupar ministério no governo Lula.

Com a provável vitória de Dilma e a continuidade da gastança dos recursos do país, fica evidente que o PMDB continuará ao lado do PT, o que torna indispensável a eleição de senadores suficientemente preparados para desempenhar esse importante cargo. E, tendo em vista que, nestas eleições, iremos escolher dois senadores para um mandato de oito anos, representando dois terços das cadeiras do colegiado, fica explicado o motivo pelo qual tanto o governo quanto a oposição estão dando tanta importância ao Senado. Logo, caso o PT consiga ter maioria no Senado, teme-se que, a exemplo da Venezuela, as propostas de emenda de Dilma enviadas ao Congresso acabem se tornando meros atos administrativos.

Numa época de políticos medíocres, vejo o quanto a política brasileira necessita de gente de personalidade. Falo de homens que, neste momento difícil, podem fazer diferença resistindo ao rolo compressor do PT nos próximos 4 anos, se Dilma vier a ganhar.

É uma grande pena que o povo não sabe nem o que faz um senador e poucos conhecem que o senador, dentro do federalismo, é o representante de seu estado, diferente do deputado federal que representa a população no parlamento bicameral. Tanto é que, conforme o seu número de eleitores, um estado pode ter mais deputados do que o outro. Porém, qualquer unidade federativa, seja o Acre ou São Paulo, só tem três senadores.

E quais são as funções do senador?

Bem, pode-se afirmar que o nosso Senado Federal exerce funções legislativas, fiscalizadoras, autorizativas, julgadora e aprovadora de autoridades. Durante o processo legislativo, o Senado funciona como uma "Câmara Revisora", caso o projeto de lei seja oriundo da Câmara dos Deputados. E existem também funções privativas que são determinadas pelo artigo 52 do texto constitucional.

Há quem entenda que o Senado seja uma espécie de "Câmara de Moderação", uma assembléia de homens mais velhos que, em tese, agiriam com prudência defendendo os interesses do país. E, neste sentido, considero oportuno lembrar das sensatas posições do ex-presidente Itamar Franco, candidato ao Senado por Minas Gerais, o qual dá grande relevância à experiência e à independência do senador no desempenho de suas relevantes funções (http://www.youtube.com/watch?v=t6HMohrgAJM).

Para finalizar, gostaria de parabenizar o cantor e compositor Caetano Veloso por sua feliz escolha em apoiar Marina Silva, Gabeira e César Maia. Entendo que, dentre os candidatos do Rio de Janeiro, César Maia tem um ótimo perfil para ser senador da República, tendo experiência e capacidade para opinar sobre os assuntos de interesse da nação, resistindo ao chavismo petista. Por isso, transcrevo a seguir trechos da declaração de apoio de Caetano ao ex-prefeito do Rio que foram publicados no jornal O GLOBO:

(Globo, 05) "A Cesar não lhe faltam muitas destas virtudes (de Marina, Gabeira, Freixo e Mangabeira). Mas meu desejo de dizer de público que voto nele, tem origem estritamente política: um quadro tão preparado da oposição, não pode ser descartado num momento em que esta se encontra tão debilitada. (...) E o que me leva a votar em Marina, Gabeira e Cesar é um mesmo sentimento de luta contra os aspectos sinistros do que há de atraso no Brasil. A vida brasileira precisa estar à altura do destino que se desenha para o país. (...) É a complexidade do pensamento que nasce da aproximação de Judt (Passado Imperfeito), e Saviano (Gomorra), que me leva a votar em Freixo, Cesar, Gabeira e Marina. " - trecho extraído do "ex-blog" do César Maia

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os quatro principais problemas do Rio de Janeiro e a sucessão estadual


Assisti hoje a propaganda eleitoral do Gabeira (PV) na televisão e achei que, desta vez, ele bateu no ponto certo - o caos da saúde no Rio de Janeiro.

Nenhum outro candidato de oposição no programa de hoje falou de tema mais adequado às necessidades sociais. Nem os comunistas, a exemplo dos candidatos do PCB e do PSTU, conseguiram desenvolver um discurso adequado às necessidades sociais e daí acho que o Gabeira conseguiu chegar mais perto das principais necessidades cotidianas da população humilde, embora o programa eleitoral dos verdes tenha perdido um pouco do precioso tempo na TV com outras apresentações que não despertam tanto a insatisfação do eleitorado.

Os temas mais necessários para a população fluminense, que não estão sendo devidamente tratados pelo burocrático governo estadual, seriam: filas nas unidades de saúde, trânsito congestionado, transportes coletivos super lotados e segurança pública. Logo, é indispensável pensarmos em quais seriam os motivos por trás da omissão estatal em resolver tais problemas. O que realmente está impedindo as coisas de acontecerem?

Entendo que há fortes interesses por trás prendendo o Rio de Janeiro e também o Brasil. Por exemplo, sabemos que na saúde existe uma repugnante máfia de branco que não deseja o bom funcionamento do SUS e ainda busca se aproveitar dos recursos públicos. Os planos de saúde e outros grupos privados não querem que seus interesses sejam contrariados (o maior concorrente das operadoras de planos de saúde é o SUS) e falta coragem, e quiçá interesse do governador Sérgio Cabral, para mudar esta dura realidade já que o problema não é a falta de dinheiro porque o Rio de Janeiro é um estado rico.

Já na área de transportes, que envolve também a questão do trânsito, por que o governador não incentiva um uso mais intenso da Baía da Guanabara através de novas linhas de barcas ou catamarãs que incluam estações nos municípios de São Gonçalo, Duque de Caxias e Magé e um transporte entre estas localidades? Será que os interesses da concessionária que administra a Ponte Rio-Niterói e as empresas de ônibus não podem ser contrariados?

Volto a dizer que o Rio de Janeiro hoje é um estado rico! Nesses anos todos, o governo e determinadas prefeituras de municípios litorâneos vêm captando preciosos recursos da exploração petrolífera, mas os recursos acabam sendo desperdiçados com coisas que não satisfazem verdadeiramente a população. Poderíamos ter hospitais de primeiríssima qualidade, com equipamentos super modernos, bem como médicos com excelentes salários e condições de trabalho aceitáveis. Só que não é isso o que acontece! Professores, policiais, agentes de saúde e as demais categorias do funcionalismo público continuam ganhando muito mal. Em vários hospitais encontramos pacientes idosos em estado grave mas que estão deitados em macas espalhadas pelos corredores contando com um péssimo atendimento.

Verdade é que entra governo e sai governo e ninguém tem coragem de transformar essa lamentável realidade. Aliás, o Poder Público acaba sendo o maior cúmplice da dependência excessiva do transporte rodoviário de passageiros quando promove obras caras e inadequadas como a duplicação da Alameda em Niterói visando a fluidez do trânsito. Nesses últimos quatro anos, não tivemos muita mudança significativa para a era Garotinho-Rosinha que dominou o Rio de Janeiro de 1999 até 2006. O corporativismo de matriz estatizante continua se fortalecendo cada vez mais, de modo que hoje a aliança PT/PMDB contribui para enriquecer empresas parasitárias que lucram com o governo estadual.

Além das questões da saúde, transportes coletivos e trânsito, existe o tema da segurança que é decisivo na capital, o qual não perde a sua importância aqui no interior. Nem todos percebem, mas o governo Sérgio Cabral está apenas ponto o lixo debaixo do tapete, usando muitas das vezes da truculência policial e, indiretamente, "empurrando" bandidos para o interior fluminense. Cidades como Petrópolis, Cabo Frio, Nova Friburgo, Macaé, Resende, Volta Redonda, Campos e até mesmo Niterói tendem a ficar mais violentas porque o governo estadual, priorizando "pacificar" a cidade do Rio de Janeiro com vistas nos eventos esportivos de 2014 e de 2016, poderá estar propiciando a migração de quadrilhas para outros locais.

Casos de violência policial precisam ser lembrados pelos eleitores nesse decisivo momento de campanha! Devemos pensar em candidatos que, ao discutirem segurança pública, estejam realmente comprometidos com a defesa de propostas em benefício dos agentes policiais que continuam vulneráveis na guerra contra a violência.

Há outras questões também importantes como cultura, meio ambiente, educação e turismo, mas que não fazem parte das necessidades mais imediatas da população fluminense. E aí acho que nós eleitores devemos reivindicar dos nossos candidatos as principais providências, mas sempre de olho no comprometimento dos políticos porque, como bem sabemos, esses caras prometem muito, mas quando estão no poder tornam-se uma frustrante negação.

O cristão deve votar livre de qualquer manipulação de seus líderes!

Conforme se repete a cada eleição, há sempre pastores evangélicos sem escrúpulos que tentam manipular os membros de suas igrejas para votarem em seus candidatos como se fossem homens escolhidos por Deus para governarem o país.

Mas qual(is) o(s) motivo(s) desses lamentáveis acontecimentos que ocorrem nas igrejas? Encontrei no site Monte Sião uma excelente crítica a respeito disto:

"Conseguir benefícios para a igreja, como a doação de terrenos para templos; ter linhas especiais de crédito bancário; obter concessões de rádios e TVs; ter tratamento especial perante a lei... Esses são apenas alguns tipos de barganha, "acertos", acordos e composições de interesse que costumam ocorrer nos bastidores em épocas de campanhas eleitorais, envolvendo também políticos e candidatos evangélicos." (fonte www.montesiao.pro.br/estudos/politica/decalogo_voto.html)

Um grande engano que muitos evangélicos alimentam é que crente só deve votar em crente, pensamento equivocado que muitos ainda têm, inclusive no Estado do Rio de Janeiro. Só na cidade onde moro no interior fluminense, já me deparei com inúmeros cartazes em que o conhecido pastor Silas Malafaia declara o seu apoio a dois candidatos a deputado, o que acaba sendo motivo para que pessoas definam seus votos para as eleições proporcionais só porque ficaram sabendo da manifestação de uma influente personalidade do mundo evangélico.

Não estou aqui criticando o direito de um pastor dizer abertamente em quem ele vai votar nas eleições pois isto seria um cerceamento da liberdade do cidadão. Contudo, quero focar basicamente em duas questões: a manipulação dos evangélicos por seus pastores e a ideia equivocada que muitos cristãos ainda alimentam no sentido de votar nos candidatos indicados pelos seus líderes.

O pastor Renato Vargens, em seu texto "Pastor, em quem Deus disse que devemos votar?", publicado em 02/09/2010 no blogue "Púlpito Cristão", expõe o seguinte posicionamento a respeito desta preocupante questão:

"Não creio na manipulação religiosa em nome de Deus, não acredito num messianismo onde a utopia de um mundo perfeito se constrói a partir do momento em que crentes são eleitos, nem tampouco comercializo o rebanho de Cristo, vendendo-o por interesses escusos a políticos inescrupulosos."

Por estas e outras, torna-se oportuno divulgarmos o "Decálogo do Voto Ético", composto nos anos 90 por vários evangélicos e que foi defendido na Conferência da AEvB (Aliança Evangélica Brasileira):


I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País, Estado e Município;

II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade noutra direção;

III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, a bem de sua credibilidade, o pastor evitará transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;

IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, representantes das correntes partidárias possam ser ouvidos sem preconceitos;

V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade;

VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidos com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão político-institucional. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político de fé evangélica tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um "despachante" de igrejas. Ao defender os direitos universais do homem, a democracia, o estado leigo, entre outras conquistas, o cristão estará defendendo a Igreja.

VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um evangélico político votou de determinada maneira porque obteve a promessa de que, em assim fazendo, conseguiria alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades, tratamento especial perante a lei ou outros "trocos", ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais "acertos" impliquem na prostituição da consciência cristã, mesmo que a "recompensa" seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Jesus Cristo não aceitou ganhar os "reinos deste mundo" por quaisquer meios, Ele preferiu o caminho da cruz.

VIII. Os votos para Presidente da República e para cargos majoritários devem, sobretudo, basear-se em programas de governo, e no conjunto das forças partidárias por detrás de tais candidaturas que, no Brasil, são, em extremo, determinantes; não em função de "boatos" do tipo: "O candidato tal é ateu"; ou: "O fulano vai fechar as igrejas"; ou: "O sicrano não vai dar nada para os evangélicos"; ou ainda: "O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos". É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos.

IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: "o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto", é compreensível que dê um "voto de confiança" a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. Entretanto, é de bom alvitre considerar que ninguém atua sozinho, por melhor que seja o irmão, em questão, ele dificilmente transcenderá a agremiação política de que é membro, ou as forças políticas que o apoiem.

X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.



Que nessas eleições os cristãos brasileiros possam votar conscientemente!