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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Proteja o seu sentimento e o do seu próximo

"Se é a razão que faz o homem, é o sentimento que o conduz". (Rousseau)

Vivemos num mundo administrado pela razão e manipulado pelas emoções. Os nossos governantes são racionais. O povo, porém, é sentimental, capaz de tomar as mais importantes decisões existenciais através do impulso.

Não considero errado a maioria das pessoas ter sentimentos. Ruim e antiético é alguém querer manipulá-los conforme seus próprios interesses, aproveitando-se da inocência alheia.

"Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham os escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!" (Mateus 18.7; ARA)

O termo skandalon, utilizado pelo escritor do evangelho para expressar comparativamente em grego as mensagens de Jesus, tinha o significado de "pedra de tropeço" (Mt 16.23), o que não encontra um correspondente exato dentro do nosso idioma. Pode-se dizer que seria causar uma "queda", induzir a outra pessoa em erro.

"A palavra grega originalmente designava o alimento colocado na haste de uma armadilha; veio a significar, depois, qualquer coisa que faz tropeçar e cair numa armadilha." (Comentários da Bíblia de Estudo de Genebra ao verso 1 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas)

Aproveitar-se da inocência alheia é uma conduta que foi hiperbolicamente reprovada por Jesus. Se seguirmos o texto bíblico, encontraremos a agressiva figura da mutilação de órgãos cujo sentido choca tanto os valores de hoje quanto os da sociedade judaica da época do Segundo Templo. Ali o Senhor chega a dizer que é melhor a pessoa entrar na Vida sem a mão, o pé ou um dos olhos do que ser jogado inteiramente no "inferno" (Mt 18.8-9).

Na história eclesiástica, houve gente que, não compreendendo o ensino de Jesus, chegou a levar tais versículos ao pé da letra, mutilando partes do próprio corpo. Alguns homens, a exemplo de Orígenes, praticaram até a autocastração genital, provavelmente porque não se conformavam com o fato de sentirem o natural desejo pelo sexo, numa absurda deturpação de Mt 19.12.

Mas afinal, o que a mensagem do Evangelho quer dizer com o arrancar um olho ou cortar a mão?

Dentre várias explicações possíveis e não excludentes, tenho pra mim que tanto a ideia da automutilação corporal quanto o "fogo eterno" são igualmente figuras de linguagem, pois Jesus parecia até zombar da existência de um castigo infernal. O que na certa estava sendo demonstrado contextualmente em Mateus seria o mal que alguém pudesse causar a si mesmo plantando "escândalos" afim de causar tropeços ao seu irmão, conduta esta que gera desconexão com a vida e torna vazia a existência de quem age assim. Logo, é mais sensato afastar o mal hábito de colocar "cascas de banana" no caminho dos outros.

E quais seriam os tipos de tropeços que costumamos armar contra as pessoas?

Ao meditar sobre isto, vejo inúmeras possibilidades, sendo que tudo parece começar com maliciosas palavras capazes de envenenar a mente do outro. Palavras que não edificam, mas destroem relacionamentos causando feridas.

Além de palavras, colocamos escândalos nos caminhos de alguém através de condutas fraudulentas. Sem nada dizermos, podemos influenciar a decisão do outro apenas pelo que aparentamos ser. Os gestos, a maneira de vestir ou de olhar não deixam de ser expressões da comunicação humana.

Em regra, o sujeito enganador busca despertar bons sentimentos na outra pessoa. Ele sabe que está tentando manipular alguém que é sincero, de bom coração, capaz de valorizar sua honra, praticar prontamente a caridade, nutrir expectativas, agir com fidelidade na relação afetiva e não consentir com o mal. Então, como nem sempre os honestos são suficientemente prudentes a ponto de perceberem a maldade humana, eles acabam sendo vítimas das mentiras.

Quantos tropeços não existem hoje em dia no meio religioso em geral?!

E o que dizer da política nacional? Sem palavras...

Para vivermos neste mundo cheio de lobos ferozes temos que aprender a proteger nossas emoções. Jesus recomendou que fôssemos "simples como as pombas e prudentes como as serpentes" (Mt 10.16 e Evangelho de Tomé 39), o que significa preservarmos o bom caráter e, simultaneamente, termos percepção sobre a malícia por trás dos argumentos de uma conversa mole. Principalmente diante de apelos sentimentais.

Assim como o aforismo da pomba e da serpente serve para ilustrar o comportamento sábio que precisamos ter diante das situações da vida, pode-se afirmar que há um grande segredo implícito na conciliação entre a razão e a emoção. É que, embora seja a emoção aquilo que nos permite desfrutar plena e diretamente dos bens da existência, a razão serve como uma excelente armadura protetiva. E, deste modo, quem sabe investir juntamente na razão e na emoção torna-se apto para compreender o universo com maior amplitude e alcança o desejado discernimento.

Que possamos não só deixar de criar skandalon para o próximo, mas também ficarmos atentos contra as armadilhas emocionais que colocam no nosso caminho e livrarmos o nosso irmão de tropeçar em coisas que vão afetar seus sentimentos.


OBS: Ilustração acima extraída do site http://www.propheticrevelation.net/the_sin_of_adam.htm