"Penso nos dias de outrora,
trago à lembrança os anos de passados tempos.
De noite indago o meu íntimo,
e o meu espírito perscruta.
Rejeitará o Senhor para sempre?
Acaso não torna a ser propício?
Cessou perpetuamente a sua graça?
Caducou a sua promessa para todas as gerações?
Esqueceu-se Deus de ser benigno?
Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?
Então, disse eu: isto é a minha aflição;
mudou-se a destra do Altíssimo."
(Salmo 77.5-10; tradução ARA)
Em algum momento da monarquia davídica, ou quem sabe até no exílio babilônico, parece ter vivido o ambíguo Asafe, a quem é atribuída a autoria de doze salmos da Bíblia.
Como todo israelita, Asafe foi instruído nas escrituras da Torá. Aprendeu sobre a história de seu povo, ouvindo desde criança a versão milagrosa de como os seus antepassados teriam sido libertados da escravidão egípcia. E também deve ter recebido advertências de seus professores acerca das prevaricações daquela geração da época de Moisés, tida como ingrata, infiel, inconstante e de caráter dúbio.
Todavia, nem Asafe ou os seus ascendentes mais próximos presenciaram os mesmos eventos fenomenais registrados nos livros de Êxodo e de Josué. Jamais ele viu o Mar Vermelho se abrindo, nem a água saindo da rocha ou mesmo teria provado do maná. Ao invés de todas estas coisas, ele foi testemunha das dores humanas, do desespero, das tragédias, derrotas militares e enfermidades, dando a impressão de que o ministério de Moisés foi mais mitológico do que real.
Não muito diferente de Asafe, assim vejo hoje os cristãos do presente. Não conhecemos Jesus andando pelas cidades da Galileia e nem assistimos algum de seus milagres. As curas dos cegos, paralíticos, surdos, mudos, leprosos e lunáticos foram relatadas a nós através das penas dos evangelistas em livros conservados por séculos pela tradição eclesiástica sem qualquer prova acerca dos eventos narrados. E, com isto, aquele que é tido para as igrejas como o Cristo, o sucessor de Moisés e a encarnação da divindade, também vira um mito bem distante nos nossos momentos difíceis.
Hoje muitos neo-pentecostais tentam vender a imagem de Jesus como sendo uma entidade viva que ainda opera milagres, Na indústria da fé, prega-se constantemente que pessoas têm sido curadas de câncer e AIDS. Outras são "libertas" de supostos espíritos demoníacos (geralmente associados aos orixás das religiões afro-brasileiras para atender ao interesse proselitista dos neo-pentecostais). E, neste contexto, milhões são induzidos a acreditar que estão manifestando possíveis dons da época apostólica, "falando em outras línguas", tendo visões de anjos e se esquecendo que tudo muitas das vezes não passa de uma hipnose coletiva.
O certo é que, diante da existência de narrativas religiosas que falam em milagres, o ser humano vai ser sempre tentado a desejar uma repetição de acontecimentos que ele acredita ter ocorrido no passado afim de adoçar com ilusões a sua dura realidade. Ao invés de atentar para uma significação mais profunda do mito, as pessoas preferem ficar na espera de soluções rápidas e imediatas, desejando que as coisas se cumpram como na música O chão vai tremer do grupo gospel Toque No Altar:
"O chão vai tremer!
O Céu vai se abrir!
Os anjos de Deus vão descer e subir"
Mas não é esta a realidade! A verdade é que a alma humana vive farta de males e todos nos confrontamos com a morte. Somos consumidos pela aflição e, nestas horas, o crente sofre a inevitável dor de ser rejeitado até que se ache só, aterrorizado e sufocado. Nenhum maná cai do céu e o milagre não mais se repete.
O que fazer?! Vamos ficar nos lembrando esquizofrenicamente das memórias de um passado lendário, repetindo para nós mesmos que, na hora H, o chão vai tremer e o céu vai se abrir? Ou iremos encarar de vez a nossa situação, desconstruindo corajosamente a imagem ilusória que criamos acerca da divindade em nossas mentes para encontrarmos o Deus vivo caindo na real?
Em seu Salmo 77, o poeta parece não desistir de buscar a Deus no dia de sua angústia e, curiosamente, nem se consola com os acontecimentos relativos às origens de seu povo (verso 2). Antes, em sua meditação, ele considera que foram apagados os rastros das pegadas de seus antepassados quando atravessaram o Mar Vermelho e o Jordão como se vê no versículo 19, o trecho que considero enigmático do poema bíblico em comento:
"Pelo mar foi o teu caminho;
as tuas veredas, pelas grandes águas;
e não se descobrem os teus vestígios"
(ARA)
Já uma outra tradução, a Bíblia de Jerusalém, diz assim:
"Teu caminho passava pelo mar,
tua senda pelas águas torrenciais,
e ninguém reconheceu tuas pegadas."
(BJ)
Para a surpresa dos leitores, eis que, nos dias de Moisés, aquela geração má e adúltera não foi capaz de reconhecer o Deus que tinha salvado o povo da escravidão do faraó. De nada teria adiantado a ocorrência de prodígios como o mar se abrir e a água escorrer da pedra dura e seca. Poucos tiveram fé e muitos retornaram ao Egito em seus corações.
Mas como seria vazia a nossa existência sem o drama do sofrimento? Como que rapidamente nos esqueceríamos de coisas tão importantes da vida se tudo fosse um mar de rosas? Será que o comodismo nos faria bem? Pode a bonança do mar instruir um aprendiz de navegante?
Tenho pra mim que religiões como as seitas neo-pentecostais, que ensinam pessoas a fugirem do sofrimento fazem um grande mal ao indivíduo. A ideia que tais "pastores" passam sobre um Deus que sempre cura torna-se inegavelmente injusta e inverídica. Se a pessoa enferma não é curada, eles dizem que é preciso orar mais, fazer jejum duas vezes na semana, subir no monte, adequar-se moralmente nas regras da seita, dar dízimos e ofertas desafiadoras. E, se ainda assim nada ocorrer, a resposta final será: "é porque você não teve fé, meu irmão".
No momento, tenho buscado acompanhar durante umas poucas horas do dia o sofrimento de minha avó materna internada no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, no Rio de Janeiro. E confesso que não está nada fácil a situação dela. Desde sua internação na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da Tijuca (05/03) até agora está faltando fechar o diagnóstico e já não é mais possível conversar direito com ela.
Tendo sido ela fiel por anos à IURD, agora vovó está lá sem o apoio fraterno desta seita, tornando-se um anti-marketing do Gézuiz curandeiro dos (in)vangélicos. Membros da igreja chegaram a me dar aquela indireta de que a situação de doença dela teria sido porque minha avó, nos últimos anos, trocou a IURD do bispo Pedir Mais Cedo pela IMPD do "apóstolo" Valdomiro. E, na IMPD, certamente querem mais é abafar o caso de que assumirem que uma irmã dizimista fiel está morrendo num hospital.
Nestas horas, restam só mesmo pessoas verdadeiramente próximas e gente de alma boa sem nenhuma vinculação religiosa-institucional que, eventualmente, oferece algum apoio. Tem até uma mulher da atual igreja dela que a ajudou bastante, doando parte de seu tempo para auxiliar a família a dar banho nela quando vovó ainda estava em casa. Mas, na verdade, os pastores dessas seitas não estão nem aí. O negócio deles é tirar a grana das pessoas e alimentar ilusões que, em momentos como este, aumentam mais ainda o sofrimento do doente.
Atualmente, já sem poder conversar com minha avó visto que ela não está mais lúcida, ouço de sua boca tão somente gemidos de dor e palavras sobre morte (não sei se ela quer morrer ou se sente medo da morte). Cheguei a ouvi-la pedir socorro a Jesus e também chama pelos seus falecidos pais. Porém, o Gézuiz das seitas neo-pentecostais nada faz nestas horas. Apenas pede o dízimo das pessoas e as ameaça com um inferno abrasador...
Onde estão os tempos de milagres? Será que eles realmente existem?!
Aí que está. Penso que os milagres sempre existiram e não deixarão de existir. Só que eles fazem parte da nossa compreensão mítica e compõem narrativas bíblicas que nos levam a um despertamento da espiritualidade interior. Não para aguardarmos uma repetição de acontecimentos dentro deste mundo físico, mas sim para mergulharmos no auto-conhecimento. E aí, nestas horas, nada mais libertador para o ser humano do que o confronto com a realidade tal como fez Jesus (não o Gézuiz) em suas últimas palavras na cruz quando recitou o Salmo 22 em aramaico às três da tarde e talvez nem já estivesse tão consciente: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (ver Mc 15.34).
Assim como deram vinagre a Jesus numa esponja para prolongar o seu sofrimento afim de zombarem se Elias viria mesmo salvá-lo, não nego que hoje vivo um conflito ético em relação a minha avó. Consegui que a ambulância da SAMU a tirasse de casa no dia 05/03, sendo que a mandaram pra UPA. Depois, como a UPA não podia fazer transfusão de sangue, entrei com um processo no dia 09, durante o plantão judiciário, para que ela fosse transferida para um hospital, o que veio a ocorrer neste sábado passado (10). E assim ela tem permanecido num lugar bem distante de sua casa, passando a maior parte do tempo sem acompanhantes, podendo receber visitas só três vezes na semana e o hospital ainda cria as mais absurdas restrições de horário para o acompanhante da pessoa idosa poder entrar.
Será que eu também estaria ajudando a dar "vinagre" a ela para prolongar mais ainda seu sofrimento?
De qualquer modo, não voltaria atrás no que fiz pois meu entendimento é que devemos buscar a vida e não a morte, mas sei que Deus me perdoa porque não sei o que faço. E aí minha oração pela vovó é que se faça a vontade de Deus. Não quero enganar a mim mesmo com expectativas em falsos milagres e muito menos pregar mentiras com uso desaconselhável da Bíblia a algum paciente que sofre. Peço que ocorra o melhor para ela neste momento e acho que nenhum de nós sabemos o que é melhor, sendo que as esponjas de vinagre simplesmente ocorrem e contribuem para a história da vida de cada um.
"Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência" (Deuteronômio 30.19; ARA)
Que Deus tenha misericórdia de nós todos e nos dê uma boa semana!
Este blogue tem por objetivo divulgar aquilo que eu penso. Escrevo não somente assuntos jurídicos como também comento sobre política, religião, sexualidade, filosofia, questões locais da cidade onde moro e tudo o que me vem na cabeça. Quem desejar fazer seus comentários, fique a vontade. Aqui não tem censura!
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segunda-feira, 12 de março de 2012
domingo, 10 de julho de 2011
Lutando contra a ansiedade
"Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?" (Evangelho de Mateus 6.25-30; ARA)
No mais longo discurso de Jesus registrado na Bíblia, o Sermão da Montanha, é abordado o tema da ansiedade, o que, até hoje, é um problema bem atual e tem sido diagnosticado cada vez mais na sociedade, onde muitas pessoas estão vivendo no limite da resistência emocional, cansadas e extremamente irritadas.
Neste final de semana, após ter participado de mais um encontro do grupo Celebrando a Recuperação, na Igreja Batista da Serra, refleti sobre a relação muito próxima que existe entre o medo e o comportamento ansioso desenvolvido por nós. Ou melhor, sobre o medo ser causa da ansiedade.
Na citação bíblica acima, Jesus orienta seus ouvintes a não viverem ansiosos quanto às coisas relacionadas ao sustento diário e às vestimentas, o que tinha a ver com as mais comuns preocupações do homem da Palestina em sua época.
No entanto, se analisarmos cuidadosamente este trecho do discurso de Cristo, compreenderemos que as preocupações com a comida e o vestuário são resultado mesmo do medo. Isto é, do medo de não ter amanhã nada para comer, beber e cobrir o corpo...
Ao que me parece, este tipo mais comum de ansiedade, que não chega a ser tão patológico quanto outros casos mais graves, faz parte do drama de muita gente dos nossos dias. Tanto aqueles humildades pescadores do Mar da Galiléia, quanto o homem moderno com seus automóveis e casas cheias de produtos tecnológicos, têm em comum o desperdício inútil de energia com as necessidades e os compromissos do dia seguinte, ao invés de depositarem sua confiança na Divina Providência. Indagar se vou conseguir passar num concurso, ou, se terei dinheiro para pagar a prestação da Caixa Econômica Federal que vencerá no próximo mês, no fundo é a mesma aflição quanto ao êxito da próxima pescaria nas águas do Tiberíades.
Interessante é que, no seu discurso, Jesus nos leva a duvidar do comportamento ansioso que desenvolvemos dentro da nossa mente problemática. Ali, o Mestre fala sobre o sustento das aves, a beleza dos lírios do campo, e nos faz pensar sobre a inutilidade de se cultivar preocupações: "Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?" (verso 27)
É inútil mesmo viver com ansiedade! Não ganhamos nenhum minuto a mais na nossa existência. Só perdemos tempo!
Certamente que há outros medos além da preocupação com o sustento pessoal ou o cumprimento de obrigações, os quais o Sermão da Montanha não chegou a tratar especificamente. Uns sentem medo de ficar só. Outros de serem desmascarados por uma falta cometida no passado. E ainda existem casos de pessoas que criam dentro de si as mais absurdas fobias a ponto de não saírem mais de casa temendo que possam ser assaltadas, sofrer acidentes, passar por um aborrecimento, etc.
Mas como superar isto? Existem soluções?
Penso que, nos casos mais graves, onde a ansiedade chega a nos paralisar, sempre é importante procurar a ajuda de um profissional como o psicólogo, afim de que possamos identificar as causas do transtorno. E a pessoa que busca um tipo de ajuda dessas é de fato bem corajosa porque está disposta a se descobrirem, encarem seus medos, aceitarem a si mesmas e assumir as responsabilidades pela própria vida. E estas coisas têm a ver com um tipo de descoberta que apenas o próprio paciente pode fazer para poder se posicionar, visto que as sessões de terapia só vão ajudar no processo de tomada de consciência.
Outrossim, entendo que é muito mais difícil enfrentarmos os nossos problemas sem Deus. No conhecidíssimo Salmo 23, o poeta assim manifesta a sua fé:
"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte; não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam" (verso 4; ARA).
Em outra passagem, o autor bíblico escreve aos seus destinatários que eles devem lançar sobre Deus toda a ansiedade deles, "porque ele tem cuidado de vós" (1Pe 5.7; ARA).
Já o apóstolo Paulo, na carta dirigida à igreja de Filipos, recomenda a oração como uma prática saudável para lidarmos com a ansiedade, mediante a apresentação de pedidos, com gratidão:
"Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus" (Fp 4.6-7; ARA)
Como se vê, a fé pode contribuir em muito para que possamos levar uma vida saudável. Entregar a Deus os nossos problemas e crer nos cuidados que o Pai Eterno tem para conosco certamente proporcionará uma excelente qualidade na sua existência.
Tenha uma ótima semana, colocando-a nas mãos de Deus.
OBS: A ilustração acima trata-se do célebre quadro "Sermão da Montanha" do pintor dinamarquês Carl Heinrich Bloch (1834-1890), o qual refere-se ao longo discurso de Jesus que se encontra nos capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus. Durante sua vida, Carl chegou a ser contratado para produzir vinte e três pinturas para a Capela do Palácio de Frederiksborg, em que várias cenas sobre a vida de Cristo tornaram-se populares ilustrações. Segundo informações encontradas na Wikipédia, os originais, pintados entre 1865 e 1879, ainda estão no Palácio de Frederiksborg. Os retábulos podem ser encontradas em Holbaek, Odense, Ugerloese e Copenhague, na Dinamarca, bem como Loederup, Hoerup e Landskrona, na Suécia.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
O grande valor de caminhar com Deus
"15 E no dia em que foi levantado o tabernáculo, a nuvem cobriu o tabernáculo sobre a tenda do testemunho; e à tarde estava sobre o tabernáculo com uma aparência de fogo até à manhã. 16 Assim era de continuo: a nuvem o cobria, e de noite havia aparência de fogo. 17 Mas sempre que a nuvem se alçava de sobre a tenda, os filhos de Israel partiam; e no lugar onde a nuvem parava, ali os filhos de Israel se acampavam. 18 Segundo a ordem do SENHOR, os filhos de Israel partiam, e segundo a ordem do SENHOR se acampavam; todos os dias em que a nuvem parava sobre o tabernáculo, ficavam acampados. 19 E, quando a nuvem se detinha muitos dias sobre o tabernáculo, então os filhos de Israel cumpriam a ordem do SENHOR, e não partiam. 20 E, quando a nuvem ficava poucos dias sobre o tabernáculo, segundo a ordem do SENHOR se alojavam, e segundo a ordem do SENHOR partiam. 21 Porém, outras vezes a nuvem ficava desde a tarde até à manhã, e quando ela se alçava pela manhã, então partiam; quer de dia quer de noite alçando-se a nuvem, partiam. 22 Ou, quando a nuvem sobre o tabernáculo se detinha dois dias, ou um mês, ou um ano, ficando sobre ele, então os filhos de Israel se alojavam, e não partiam; e alçando-se ela, partiam. 23 Segundo a ordem do SENHOR se alojavam, e segundo a ordem do SENHOR partiam; cumpriam o seu dever para com o SENHOR, segundo a ordem do SENHOR por intermédio de Moisés." (Números 9.15-22; versão de Almeida Corrigida e Revisada Fiel)
A citação acima narra poeticamente a caminhada dos filhos de Israel pelo deserto num período entre a saída do Egito (o êxodo) e a conquista de Canaã. Segundo a Bíblia, os israelitas viveram por 40 anos nesta condição, acampando em lugares diferentes (oásis e terra árida). E tanto o tempo de andança sob o calor escaldante daquelas areias quentes como a permanência num local poderiam variar.
"Ou, quando a nuvem sobre o tabernáculo se detinha dois dias, ou um mês, ou um ano..." (verso 22) - destacou-se
Igualmente, podemos dizer que a nossa vida aqui nesta terra se assemelha à caminhada dos antigos israelitas pelo deserto do Sinai. Podemos encontrar momentos de refrigério às sombras da palmeira de um oásis, permanecendo nesta condição confortável por uns "dois dias", "um mês" ou "um ano", assim como estamos sujeitos a ficar por um tempo indeterminado debaixo de um sol forte sem sabermos quando aquela exaustiva travessia vai terminar.
Esta percepção é de fundamental importância para que possamos encarar a vida com entendimento e fé. E digo fé porque quem crê em Deus sabe que não está perambulando sem rumo. Pois, mesmo nas noites frias e sombrias, há uma coluna de fogo. E, quando o sol queima as nossas cabeças, uma nuvem estará sempre nos protegendo.
Lembro que, numa igreja onde eu me congregava anteriormente, o pastor pregava em púlpito que o difícil não é ser crente, mas sim ser "ímpio", o que significaria não andar com Deus. E, apesar de não gostar muito do termo "ímpio" para caracterizar os incrédulos, entendi o que ele queria dizer.
Ora, como resistir e superar os tormentos desta nossa peregrinação sem Deus?
Sinceramente acho muito difícil. Aliás, acho até impossível!
E aí não falo exatamente do incrédulo que diz ser ateu, mas também do crente que, nos períodos de dificuldades, passa pelo deserto sem se lembrar do seu Criador.
Se vivo com Deus, experimento a esperança, meus ânimos são renovados e tenho um objetivo que é a realização de um ideal - trabalhar para estabelecer o seu reino neste mundo.
Entendo que ser crente proporciona algo que eu chamaria de saúde espiritual, o que não é fácil de se administrar porque podemos nos resfriar ou nos adoentar em vários momentos. Viver pela fé não significa ser um super herói de aço, mas envolve o desafio constante da dúvida, o enfrentamento do nosso próprio medo, o esgotamento mental e a dor.
Contudo, a fé faz com que possa prevalecer aquela determinação do tipo "eu não vou desistir". Ou "caí, mas eu me levanto".
Certamente que caminhar com Deus não significa você se alienar ou tapar o sol com a peneira em relação aos seus problemas. É antes de mais nada encarar a realidade sem fazer do seu combustível a ilusão. Pois inclui o ato de promover a transformação do deserto em terra agricultável através da inteligência que o Criador nos dá, sem jamais desistirmos de viver. E, assim como a coluna de fogo nos aquece para suportarmos a adversidade, ela também ilumina a alma para que possamos aproveitar os momentos e eventos como, clareando a escuridão como se fosse dia.
Deve-se notar que, nesta longa peregrinação de quatro décadas, os israelitas caminharam sob o mandado de Deus. A luz que os iluminava durante a noite pode ser comparada com a sua Palavra. Isto significa que precisamos buscar sempre a compreensão divina, conforme a conhecida citação do Salmo 119 (o maior capítulo da Bíblia):
"Lâmpara para os meus pés é a tua palavra
e, luz para os meus caminhos."
(Sl 119.105; ARA)
Olhando para Jesus, consigo ver nele a expressão exata e autêntica desta luz de um modo humano e palpável. Em toda a sua vida, ele serviu obedientemente o Pai. Seus atos não foram escolhas independentes, mas estiveram sob a direção do Espírito Santo. E a si mesmo se esvaziou, escolhendo o caminho da não exaltação pessoal e do serviço ao próximo que atingiu o seu ponto máximo com a morte na cruz.
Que em toda a nossa travessia pelo deserto possamos olhar para Jesus e com ele aprendermos todas estas bem-aventuranças!
OBS: A imagem acima refere-se à ilustração originalmente encontrada na Holman Bible de 1890 - "O Tabernáculo no Deserto"
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O cuidado de Deus nas nossas pequenas coisas

Olá!
Gostaria inicialmente de expor aqui algo que compartilhei há pouco no blogue Vivendo em Cristo, ao comentar o artigo "A FÉ EXPLICA", dando um breve testemunho sobre como Deus cuida de nós até nas pequenas coisas.
"(...) Certa vez, perdi uma agenda quando voltava do Fórum (sou advogado) e nela tinha datas de várias audiências, compromissos, telefones de clientes, números de processos, etc. Fiquei em pânico quando soube daquela perda e então lembrei-me de orar. Instantes depois, estando mais calmo, consegui me recordar sobre onde poderia ter ocorrido a perda e aí lembrei que havia parado num telefone público para fazer uma ligação (há alguns anos atrás ainda se usavam os orelhões com maior frequência). Então, ainda naquele dia, fui caminhando até o local que fica em frente a um supermercado e aí tive a iniciativa de perguntar a um camelô que costuma vender suas mercadorias ali por perto. Pois bem. Aquele camelô era um irmão em Cristo de outra igreja e ele havia guardado aquela agenda para mim, mesmo sem saber quem seria o dono. Naquele dia, posso dizer que fiquei super feliz até porque eu vivia momentos de grande ansiedade e tensão quanto ao meu trabalho. Talvez para outra pessoa, aquele incidente nem representasse tanto porque muito não se importariam em comprar uma agenda nova e preenchê-la. Mas eu sou muito preso aos compromissos que assumo (acho que até demais) e me senti bastante aliviado pelo achado. Então, agradeci muito a Deus."
Postado originalmente em: http://davidguiomar.blogspot.com/2011/02/fe-explica.html
Na Bíblia, Jesus nos diz que não devemos andar preocupados pelo que haveremos de comer ou beber, e nem pelo que precisamos vestir. É justamente no Sermão da Montanha que o Senhor nos convida refletir com a seguinte indagação:
"Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?" (Mateus 6.27; Nova Versão Internacional - NVI)
Dentro da mesma pregação, Jesus cita as aves do céu que não se preocupam em semear, colher ou armazenar alimentos nos celeiros, mas que recebem os cuidados necessários de Deus. E, quanto ao vestuário, Ele nos manda observar os lírios do campo e diz que nem o rei Salomão, com toda a sua majestade, teria se vestido como uma dessas plantas do mato.
"Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?" (Mt 6.30; NVI)
Meus leitores, tenho vivido dias bem difíceis nos últimos meses, os quais nem se comparam com as preocupações da época em que perdi a agenda nos primeiros anos em que comecei a advogar.
Venho acompanhando minha esposa numa batalha pela sua saúde. Dentre vários problemas, ela vem sofrendo de dores reumáticas nos joelhos e no abdômen (certamente relacionadas aos cálculos na vesícula). Sobre o problema nos joelhos, até que ela vem melhorando, mas, em 2010, Núbia ficou por um bom tempo incapacitada e com enormes dificuldades para andar. Seu peso estava muito acima da média e a má alimentação comprometia bastante a saúde. Acabei pagando um plano da Unimed só para ela porque depender do SUS estava inviável e dinheiro para custear exames e consultas particulares muito menos.
Felizmente, levei-a a uma boa reumatologista que chegou a um diagnóstico clínico de lúpus com base nos sintomas apresentados de modo que passou a tratá-la com o medicamente Reuquinol (cloroquina) mais anti-inflamatórios, juntamente com duas sessões semanais de fisioterapia e orientação nutricional de outra especialista. Então, minha esposa foi melhorando das dores nos joelhos, agora já está andando melhor e, após ter se firmado numa dieta, a partir do final do ano, perdeu bastante peso.
Entretanto, ultimamente, ela vem padecendo muito com as dores abdominais que, segundo os médicos, decorrem dos cálculos na vesícula, a qual precisa ser extraída, havendo indicação cirúrgica desde 2009. Mas aí tivemos que enfrentar um teste de fé quando assinamos o contrato com a Unimed. Pelas normas da Agência Nacional de Saúde (ANS), são apenas 06 meses de carência para cirurgias e 03 para planos de adesão coletiva. Porém, no caso de doenças pré-existentes, o beneficiário só tem direito a uma cobertura parcial temporária por dois anos e só depois é que poderá fazer sua operação.
Pois bem. Tivemos que ter fé para não omitir aquela informação da Unimed (um dos motivos que nos levou a procurar o plano). Só neste ano de 2011, foram três idas ao pronto-atendimento hospitalar, tendo sido duas no Hospital de Campanha do Corpo de Bombeiros, montado durante os dias subsequentes à tragédia das chuvas na Região Serrana, e uma no Hospital da Unimed de Nova Friburgo (HUNF), onde só havia um único plantonista na madrugada da sexta-feira da semana anterior (04/02).
Confesso que pensamos em operar pelo SUS em outros locais públicos fora de Nova Friburgo onde a extração da vesícula é feita com laparoscopia, visto que o nosso Hospital Municipal Raul Sertã ainda não dispõe desta tecnologia e há riscos de infecções, bem como danos em relação à estética causada pela enorme cicatriz deixada por uma retrógrada cirurgia aberta.
Ainda assim, tenho buscado motivos para agradecer ao Eterno pelo que Ele tem feito em minha vida e por minha esposa. Sei que somos agraciados, mas não estamos isentos de lutas ou provações. Com isto, busco manter minha confiança em Deus, mas, ao mesmo tempo, não quero deixar de procurar os meios cabíveis para solucionar estes problemas de saúde de Núbia (hoje mesmo fomos conversar com um médico cirurgião que já prescreveu alguns exames e logo depois consultamos um neurologista porque ela vem se queixando de tonteiras). E, nestes dias de grande aflição, o que desejo é viver cada momento na sua vez e não me esqueço desta passagem do Evangelho que diz:
"Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal". (Mt 6.33-34; NVI)
Termino esta mensagem pedindo aos amigos que orem por nós. Afinal, somos humanos, sujeitos a problemas, provações e tentações. Nenhum seguidor de Jesus está livre das aflições deste tempo e não acredito na falsa ideia de existam super crentes imunes a tropeços, falhas ou dificuldades.
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