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domingo, 11 de fevereiro de 2018

A questão dos assédios no Carnaval



Um tema que tem sido muito debatido nessa época festiva diz respeito aos assédios dos quais muitas mulheres se queixam, havendo hoje um forte movimento feminista a respeito. Tão importante quanto os governos alertarem à população sobre a necessidade das pessoas fazerem sexo seguro e de moderação no consumo de álcool, é conscientizar os foliões acerca da liberdade sexual alheia.

Inegável é que, durante o Carnaval, tornam-se frequentes tanto os registros de violência doméstica, envolvendo brigas conjugais, quanto os relacionados aos assédios. Durante os quatro dias de Carnaval de 2017, as denúncias de violência sexual contra as mulheres subiram quase 90% em todo o país!

Além das mulheres, sofrem também os LGBTs já que nem sempre há um total respeito pelas minorias sexuais. E, em matéria de homofobia, diga-se de passagem, que o Brasil é um dos campeões desse ranking vergonhoso, sendo um dos países que mais agride gays, o que acaba se manifestando numa maior proporção durante os tenebrosos dias de Carnaval.

Certamente que esses acontecimentos lamentáveis têm a sua origem na cultura machista ainda dominante na educação familiar de muitos rapazes que, por sua vez, é truculenta, intolerante e preconceituosa. Por mais que a mídia e alguns professores tentem passar novos conceitos, os pais pouco ensinam os filhos a respeitar a vontade da mulher e a conviverem com quem é diferente deles.

Neste sentido, há que se ampliar campanhas como Não é não que a TV tem facilitado a sua divulgação, as quais propõem uma reprovação da sociedade diante de condutas onde o homem começa a incomodar a mulher tentando, por exemplo, forçar um beijo, segurá-la ou passar a mão em seu corpo, o que já configura assédio. Pois, a partir daí, torna-se cabível a Polícia e as pessoas próximas intervirem em defesa da vítima a fim de que o agente cesse de imediato a sua atitude inconveniente e abusiva.

Vale lembrar que, recentemente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também se manifestou acerca do tema. Na semana passada, o órgão lançou uma campanha sobre direitos e deveres do folião nas redes sociais com a hashtag #carnavalmaisjusto em que cada dia será dedicado a um tema: do assédio sexual à importância do uso de camisinha e os cuidados com a criança. E, em primeira postagem, o CNJ faz um alerta especial às mulheres com esta orientação: 

"É sempre bom lembrar que depois do 'NÃO' é tudo assédio! E não se esqueça: em qualquer situação de violência contra a mulher, disque 180".


Apesar das condutas de assédio, em diversos casos, caracterizarem crime, considero muito mais importante que se invista na conscientização da sociedade em geral. Daí fazermos com que o agressor consiga repensar as suas atitudes e valores terá efeitos muito mais eficazes do que uma atuação estatal repressiva. Esta precisa existir, porém nunca separada de uma abordagem pedagógica e que também dê um apoio correto à vítima, sem culpá-la de qualquer ato provocador.

Que tenhamos um Carnaval mais justo em 2018!

OBS: Imagens acima atribuídas á Agência CNJ, conforme extraído das redes sociais de internet em https://www.facebook.com/cnj.oficial/ 

Apesar do Carnaval, somos ainda um povo muito reprimido...



Quem pouco conhece sobre a realidade brasileira do cotidiano e/ou acerca da sexualidade humana, poderá chegar a equivocadas conclusões de que somos um povo liberado pelo simples fato de uma parcela da população brincar no Carnaval a ponto de sambarem quase nuas. Daí tanto os estrangeiros como os próprios brasileiros podem construir essa falsa impressão. Uns por não saberem como de fato é o Brasil e outros por acharem que liberdade sexual se explique pelo comportamento permissivo que muitos têm no Carnaval.

Mas se você acha que "não existe pecado do lado de baixo do equador", como diz a música feita em 1973 por Chico Buarque e Ruy Guerra, enganou-se. Aliás, diga-se de passagem que a principal frase do frevo, que vez ou outra ainda se ouve no Carnaval dos nossos dias, não foi uma invenção original dos compositores. Pois cuida-se de um antigo ditado europeu surgido ainda na primeira metade do século XVII, como bem explica Natália Pesciotta numa postagem feita no site Atrás da música:

"Chico encontrou o antigo ditado europeu no livro do seu pai, Raízes do Brasil. Sérgio Buarque de Holanda observa, na obra, que a máxima corria pela Europa e foi registrada pelo cronista Barlaeus em 1641. O holandês explicava: “É como se a linha que divide o mundo em dois hemisférios também separasse a virtude do vício”. Claro. Ocupado por desbravadores com espírito de aventura, este trópico era visto no Velho Mundo como verdadeiro antro de perdição. Já para os estrangeiros exploradores, estas terras sem instituições sociais nem religiosas eram o paraíso da utopia e liberdade, onde nada era proibido." - extraído de http://atrasdamusica.tumblr.com/post/93062884100/não-existe-pecado-do-lado-de-baixo-do-equador

Pode ser que, nos velhos tempos da colonização das Américas, a liberdade sexual ainda fosse maior no lado de cá da linha do Equador. Até porque o nosso índio e o negro cativo, este trazido para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar, ainda não tinham assimilado os valores distorcidos de uma cultura adoecida. E a Europa daqueles tempos, profundamente religiosa, nada tinha a ver com o brilhante continente no qual ela foi se tornando a partir do pós-guerra, onde hoje a ética decorre da racionalidade, não mais da moral eclesiástica.

Fato indiscutível é que a moral dominante por aqui (e em outros países latino-americanos também) encontra-se bem distante do racional. Para muitos, o desejo sexual está relacionado ao "pecado" ou à "safadeza", não como uma expressão natural e positiva do próprio ser humano. É como a psicóloga Regina Navarro Lins acertadamente expôs em seu blogue no UOL ao comentar sobre a empobrecida educação sexual das crianças dentro de casa capaz de causar uma distorção nos valores:

"O sexo é ainda tão reprimido, tão cheio de tabus e preconceitos, que ninguém tem muita clareza do que realmente gosta ou deseja. Desde cedo, as crianças aprendem a associar sexo a algo sujo, perigoso. E dentro das famílias essa ideia ainda ganha um reforço. Por conta de todos os preconceitos, se vive como se não existisse sexo, e ninguém fala com tranquilidade sobre o assunto. Sem ser percebida, a repressão sexual vai se instalando e condiciona o surgimento de valores e regras para controlar o exercício da sexualidade. Tudo isso passa a ser visto como natural, fazendo parte da vida (...) Não é de admirar, portanto, que tanta gente renuncie à sexualidade ou que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura seja de tão baixa qualidade. Na maioria das vezes ela é praticada como uma ação mecânica, rotineira, desprovida de emoção, com o único objetivo de atingir o orgasmo o mais rápido possível." - in https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2013/11/23/consequencias-do-sexo-reprimido/

Dentro desse contexto, não é muito difícil compreender o que realmente ocorre nessa época onde o ser humano, que é ambíguo por natureza, pode experimentar algo diferente do que habitualmente faz nos demais dias. Para algumas mulheres, por exemplo, o Carnaval torna-se um momento único, aguardado ansiosamente durante 360 dias do ano, tornando-se uma chance de viajar, fantasiar-se, sentir-se livre, conhecer novas pessoas, beijar na boca… e transar.


Não é por menos que, como escrevi na postagem do último sábado (10/02) em meu blogue (clique AQUI para ler), os governos precisam investir de maneira ampla e sem preconceitos na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, tendo em vista a incidência maior do sexo casual por esses dias de festa. Daí não há como um gestor público, seja qual for seu pensamento quanto à sexualidade, negar o fato social porque as coisas não vão mudar de uma hora para a outra como gostaríamos que fosse.

Todavia, há que se investir na educação sexual dos futuros jovens a fim e que os mesmos não criem tantas expectativas nos curtos dias de folia. Pois as pessoas que se relacionam causalmente nesta data, em regra, não tendem a estabelecer algo proveitoso para as suas vidas de modo que poderiam lidar melhor com o Carnaval caso, durante todo o resto do ano, soubessem ter vivências prazerosas que as equilibrassem melhor em relação ao sexo.

Que nesses dias de festa, possamos encontrar um significado proveitoso no Carnaval, no sentido de agirmos com mais moderação em todas as atitudes (inclusive no consumo do álcool) e extraindo o melhor da cultura sambista. Algo que, aliás, está se perdendo ano após ano diante dos horrorosos funks proibidões e de outros gostos musicais de má qualidade. Mas aí já será assunto para um novo texto...

Feliz Carnaval!

sábado, 10 de fevereiro de 2018

As pessoas (e os governos) não podem esquecer do sexo seguro no Carnaval!



O Carnaval está aí e, junto com a festa, muitos são os que praticam o chamado sexo casual ao invés de divertirem-se com o(a) companheiro(a). Porém, longe de mim a pretensão de me meter na vida particular das pessoas ou de ficar dando lições de moral acerca de algo, a meu ver, com baixo potencial de prejudicar terceiros não envolvidos numa relação a dois.

Sendo assim, pensando como se estivesse no lugar de um gestor público, prefiro repassar orientações voltadas para o fato social estabelecido, tendo em vista que, por esses dias, muitas pessoas vão transar pra valer com sérios riscos de contraírem uma gravidez não planejada e/ou uma moléstia sexualmente transmissível, inclusive AIDS. E, deste modo, nunca se pode negar a realidade de que, segundo a OMS, surgem cerca de 12 milhões de casos de DSTs só no Brasil...

Para que as pessoas não entrem nessa lamentável estatística e nem se arrependam pelo resto de suas vidas por causa de uns instantes passageiros de prazer, nunca é demais elas levarem consigo a popular camisinha. Pois, como se sabe, é um objeto que, praticamente, não pesará na bolsa e tão pouco no bolso. Aliás, se for usada de maneira correta, importará numa enorme economia financeira bem como num alívio para a mente, poupando o corpo de vários sofrimentos indesejáveis.

Na atualidade, em que o sexo já não é mais destinado apenas para fins reprodutivos e a maioria das pessoas tem o prazer como sendo o maior foco nas suas relações com o(a) parceiro(a), o uso de pílulas e de preservativos se faz mais do que obrigatório em termos éticos. E, em se tratando de algo casual (sem estabilidade e confiança), mesmo sendo com conhecidos, a camisinha não pode ser dispensada, independentemente da mulher fazer uso de alguns anticoncepcionais, tipo as pílulas, ou o homem haver feito uma vasectomia. E vale dizer que muitos, por haverem se tornado incapazes de gerar filhos por razões cirúrgicas, acabam não se cuidando mais e contraem HIV, sífilis, herpes genital ou gonorreia.

Todavia há que se usar o preservativo corretamente! Daí a importância de que, além de uma ampla distribuição da camisinha nas unidades de saúde, sejam transmitidas orientações para ambos os sexos sobre como fazer uso dessa proteção. Até mesmo porque muitos jovens e adolescentes poderão estar oportunizando o momento permissivo do Carnaval para terem as suas primeiras relações sem a experiência necessária quanto a isso, desconhecendo a maneira como vão colocar...

Sendo assim, quem fizer uso do preservativo, principalmente nós homens, devemos nos certificar do seu prazo de validade, se há o selo do INMETRO, ou se existe alguma danificação capaz de causar o seu rompimento durante o ato. Não podemos guardá-lo em lugares inadequados como no porta luvas do carro ou na geladeira porque, em se cuidando de locais muito quentes ou frios, a segurança do produto pode ficar comprometida.

Deste modo, deve-se entender que o aprendizado sobre como colocar a camisinha é fundamental, sendo algo que não pode deixar de ser ensinado tanto em casa quanto na escola. Inclusive, até as mocinhas adolescentes e que pretendem se casar virgens (ou virar freiras) precisam saber disso visto que poderão mudar de ideia a qualquer dia e nem sempre vão contar exclusivamente com os cuidados preventivos do rapaz por elas escolhido. Logo, é importante informar todas as mulheres acerca da opção pelo preservativo feminino e como usá-lo em seu corpo.


É certo que há vantagens e desvantagens quanto à camisinha feminina e uma delas é o preço que acaba sendo mais caro que o do preservativo masculino. Só que, dependendo do caso, tendo em vista ainda existirem homens obtusos e que se recusam a usar camisinha, a mulher precisa exercer um certo comando num momento que as coloca numa situação de vulnerabilidade. Sem esquecermos de que, na hipótese de alergia ao látex, o poliuretano não causa reações no corpo da usuária, além de abranger uma área maior de contato genital. 

Obviamente que há muitas outras orientações práticas que os órgãos de saúde e educadores precisam repassar sobre essas questões, tipo como proceder se a camisinha estourar ou vazar, a necessidade de não demorar a retirar o preservativo após a ejaculação (antes que o pênis perca a ereção) ou de trocá-lo, caso um outro orifício seja penetrado. Sem esquecer de que, sem a proteção do preservativo, nenhum ato penetrativo deve ser praticado, sendo a masturbação a dois mais aconselhável do que o sexo oral nesse contexto de casualidade. Ou então, se não houver entendimento, o imediato encerramento do ato para que ninguém venha a cair na tentação ou se expor ao assédio de ceder a algo contra a sua vontade.

Certamente que já entramos aqui numa complexa questão cultural, muitas das vezes de caráter machista, a qual também se manifesta nesse período do Carnaval juntamente com o consumo desenfreado do álcool. E aí o fato das pessoas beberem demais, propicia um comportamento sexual de risco. Principalmente quando alguém se embriaga sozinho e acaba entrando de cabeça na curtição a ponto de não tomar os devidos cuidados.

Por último, ninguém pode se esquecer de que hoje em dia, com a popularização dos celulares com câmeras de vídeo e acesso à internet, os tempos de privacidade acabaram. Deste modo, sem que o homem ou a mulher percebam, eles poderão estar sendo filmados em seus atos de intimidade e, quando menos esperam, terão as suas imagens indevidamente divulgadas no meio eletrônico pela iniciativa de indivíduos mal intencionados.

Portanto, quem for pular Carnaval, brinque com moderação e segurança, sendo certo que a alegria da festa independe do álcool nem do sexo casual. Porém, se for sair para transar, então que vista corretamente a camisinha ou use a imaginação.

Quanto aos governantes, que deixem de lado as suas falsas questões morais e promovam uma ampla campanha em favor do sexo seguro. Afinal, o SUS gasta muito menos distribuindo camisinhas do que fornecendo medicamentos para portadores do HIV, além da vida humana não ter preço... 

Ótimo domingo a todos!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Finalmente um ato de justiça histórica à população quilombola!



Pode-se dizer que a sessão de ontem (08/02) do Supremo Tribunal Federal (STF) poderá ser lembrada como histórica pelos remanescentes quilombolas de todo o país. É que, por maioria de votos, os nossos ministros declararam a validade do Decreto 4.887/2003, garantindo, com isso, a titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades quilombolas. Tratou-se, pois, da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239, julgada improcedente in totum por oito dos onze ministros que compõem a nossa mais alta Côrte.

A demanda fora ajuizada pelo então Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM). A agremiação alegou diversas inconstitucionalidades, dentre elas o critério de autoatribuição fixado no decreto para identificar os remanescentes dos quilombos e a caracterização das terras a serem reconhecidas a essas comunidades.

No entanto, o STF julgou integralmente improcedente essa demanda reacionária com os magistrais votos da ministra Rosa Weber e dos ministros Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, Luiz Fux, Marco Aurélio e Celso de Mello, além da presidente, ministra Cármen Lúcia. Também o ministro Luís Roberto Barroso votou pela improcedência, mas com a diferença que, além das comunidades remanescentes presentes às terras na data da publicação da Constituição Federal de 1988, deveriam ter direito à terra aquelas que tiverem sido forçadamente desapossadas.

Quanto a esse marco temporal, Barroso entendeu que, além das comunidades que estavam presentes na área quando da promulgação da Constituição de 1988, também fazem jus ao direito aquelas que tivessem sido vítimas de esbulho renitente, cujo comportamento à luz da cultura aponta para sua inequívoca intenção de voltar ao território, desde que a relação com a terra haja sido preservada. E, com a maioria de seus pares, votou pela validade do Decreto, pois o ato presidencial disciplina e concretiza um direito fundamental, previsto no artigo 68 do ADCT da Constituição Federal.

Somente os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes votaram pela parcial procedência da ação, dando interpretação conforme a Constituição ao dispositivo para também dizer que têm direito às terras, além das comunidades presentes na data da promulgação da Constituição, os grupos que comprovarem a suspensão ou perda da posse em decorrência de atos ilícitos praticados por terceiros. Só que, felizmente, os dois magistrados foram votos vencidos pois tal exigência dificultaria muito a comprovação da terra antes de 1988 já que, por longos anos, essas causas não obtiveram a devida visibilidade nos meios de comunicação.

Com a decisão desta quinta-feira, proferida ainda que tardia, tornou-se juridicamente definida a situação de inúmeras comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil. Inclusive aqui mesmo em Mangaratiba, no litoral sul fluminense, onde temos famílias descendentes dos antigos escravos vivendo até os dias atuais debaixo de opressão dos proprietários nas fazendas de Santa Justina e de Santa Izabel. São moradores tradicionais do Município que há tempos lutam não só pela titulação de suas terras como também pelo direito de plantar e colher, ir e vir com a sua mobília, de edificar, de receber visitas e de contratar serviços públicos essenciais como o fornecimento de energia elétrica, telefonia e internet. Isso sem esquecermos da recente ameaça de expansão urbana intencionada pelos proprietários das glebas com o apoio de políticos locais, através de um futuro condomínio na área.

Com a manutenção das regras para a demarcação de quilombos, finalmente viramos uma importante página da nossa História, fazendo Justiça para milhares de famílias que, por gerações, vinha sofrendo as consequências dos sombrios tempos da escravatura cuja abolição, em 1888, apenas concedeu um livramento formal à população negra brasileira, condenando-a a um inegável abandono social. Mas agora, porém, os remanescentes quilombolas, legítimos herdeiros das terras ocupadas por seus antepassados, tiveram o reconhecimento garantido e se encontram a salvo da ameaça jurídica levantada por um partidinho retrógrado e defensor dos interesses da repugnante bancada ruralista.

Ótimo final de semana a todos!

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Estaremos diante de uma nova "Idade das Trevas"?!



Muito interessante a postagem A IDADE MÉDIA, A ANTIGUIDADE E O PRIMITIVISMO DE NOSSA PSIQUE ─ FRENTE AOS “NOVOS TEMPOS”, publicada hoje no blogue Ensaios & Prosas do médico paraibano Levi Bronzeado. Em seu texto, o autor elabora uma interessante reflexão sobre o pensamento exposto numas das páginas do livro Memórias, Sonhos, Reflexões do célebre psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875 — 1961), fundador da psicologia analítica.

"O que concluir enfim, senão que somos incapazes de cancelar o conteúdo primitivo de nossa psique. Tentar reprimir esse conteúdo seria um mecanismo de defesa para se evitar o desprazer; sublimá-lo, por sua vez, seria alcançar um nível de satisfação a que, por exemplo, os poetas, em seus versos, estão acostumados a experimentar. As metáforas representativas de seus afetos paradoxais, o artista retira de suas próprias profundezas mentais, tal qual uma bordadeira o faz com a agulha e seu novelo de linha: o intrincado bordado, fruto do exercício de memória, acaba por deixar impresso no tecido toda a expressão de sua divina arte. Do mesmo modo, acontece com o músico que, ao organizar ou criar a partir dos elementos arcaicos ou primitivos de sua psique, presenteia-nos com sua expressiva e divinal sinfonia; sinfonia que ao reverberar nas cordas de nossos corações nos contagia de alegria e beatitude.

Mas o que nos reserva o futuro diante do fulminante progresso tecnológico? Para evitar o que se considera “desperdício de tempo”, em nome de um hipotético futuro, o mercado procura tudo massificar, visando exclusivamente o lucro. “Tempo é Ouro!. Aqui, você tem tudo de bom sem a necessidade de demorados momentos de reflexão e esforço mental” —, diz o lema estampado e oferecido em suas atraentes embalagens." 

Conforme lhe respondi na área de comentários do referido blogue, eis que a humanidade tende a atravessar um período indeterminado de alienação. Isto porque, hoje em dia, com as novas tecnologias da informação bem à disposição de todos, que é uma das "brilhantes descobertas da ciência", citando palavras de Jung em nosso contexto, perde-se longas horas do dia diante de uma virtualidade de sítios de relacionamentos, bem como nos aplicativos multiplataformas de mensagens instantâneas e de chamadas de voz para smartphones, tal como o popular WhatsApp. Logo, poucas oportunidades têm sobrado para o homem moderno pensar e refletir, assim como poder conviver qualitativamente com os seus verdadeiros amigos, parentes e o próprio cônjuge.

Ora, consideremos também que as pessoas andam lendo cada vez menos! Pois, enquanto na década de 60, quando Jung despediu-se desta vida, ainda se adquiria livros numa proporção muito maior do que hoje, se levarmos em conta a população global da época e o número de seres alfabetizados, fico impressionado em ver como uma grande parte dos antigos leitores do século XXI foi capaz de jogar fora algo tão instrutivo para alimentar-se de mensagens curtas nas redes sociais. E, por mais que a acelerada interatividade na internet proporcione um instigante partilhar de ideias, os debates acabam empobrecendo-se quando nos afastamos da fonte do conhecimento, o qual é adquirido no silêncio reflexivo da alma.

Fato é que ainda não soubemos como lidar com as novas tecnologias que surgiram no instável terreno da comunicação. Por exemplo, quando um grande número de pessoas passou a acessar o e-mail e depois os sítios de relacionamento (Orkut, Facebook e Twitter), tais internautas ficaram maravilhados. Uns por contactarem pessoas que há muito tempo não se encontravam presencialmente. E outros pelo simples fato de fazerem novos "amigos", criando uma rede paralela de contatos que, por sua vez, lhes permitia fugir da dura realidade cotidiana. E, antes que os smartphones chegassem ao mercado de consumo, os computadores tornaram-se por cerca de dez anos um meio de entretenimento caseiro em que muitos desejavam a chegada da sexta-feira para se divertirem diante de uma máquina fria.

Nesta década que já vai findando, em que a internet invadiu de vez as nossas vidas, fato é que o smartphone nem sempre traz alegrias para alguns que anseiam por uns minutos de sossego. Por meio do WhatsApp, patrões e clientes perturbam desregradamente o descanso dos trabalhadores que precisam ficar o tempo todo conectados. Só que, ainda assim, a maioria continua mantendo o seu lazer no meio virtual, mesmo se for comprando outro número para bater papo com os amigos, se é que de fato existe amizade profunda nesses relacionamentos.

Hoje em dia, quando olho para as crianças/adolescentes nascidos depois de 2000, dos quais creio que a maior parte poderá viver pelo menos até os anos 80 e muitos chegarão bem velhinhos ao século XXII, lamento por não saber como lhes transmitir ao menos o legado de experiências que estou produzindo e que recebi diretamente das gerações que me antecederam. Aliás, hoje com meus 41 para 42 anos, recordo que cheguei a conhecer gente cujo natal se deu ainda no século XIX, tendo ouvido de meu saudoso avô paterno, Sylvio Ancora da Luz (1917 — 2005), histórias do tempo de Getúlio Vargas, da 2ª Guerra Mundial, das revoluções que o Brasil passou, de sua incomparável infância numa bucólica fazenda em Formoso (localidade rural entre as cidades paulistas de Bananal e de São José do Barreiro) pertencente à sua avó, de sua vida dura por 35 anos e meio no Exército brasileiro, quando ainda se andava a cavalo na fronteira gaúcha com a Argentina, além das memórias sobre o pai dele que não conheci e do seu bisavô que ele também não chegou a conhecer.

Se na Idade Média, tida como uma época de "trevas", poucas pessoas tinham acesso à leitura devido à predominância do analfabetismo, eis que as novas gerações poderão ser privadas também dos benefícios da convivência humana. Aceleradamente está se criando um mundo cada vez mais distante e separado daquele que conhecemos no século XX. E, quando já não restar ninguém lúcido e sábio dentre os que nasceram até vinte anos antes do surgimento do domínio da emburrecedora TV colorida, quem poderá passar adiante algum legado filosófico e cultural senão uma minoria que ainda estuda História?!

Entretanto, como também comentei lá no Ensaios & Prosas, a análise de Jung me trouxe uma pontinha de esperança. Pois, segundo o meu amigo blogueiro concluiu em seu brilhante post, "somos incapazes de cancelar o conteúdo primitivo de nossa psique". E, deste modo, mesmo que a humanidade venha a se "perder" por um tempo na sua alienação, é possível que um lapso de consciência num futuro indeterminado venha a questionar os valores vigentes e, de alguma maneira, tentar mudar essa nova realidade de ignorância que está se formando no mundo.

Se essa oportunidade haverá, não sei. Eu, todavia, talvez por instinto de sobrevivência psíquica, prefiro nunca sepultar as esperanças de um futuro melhor, mesmo que seja no dia depois de amanhã. E, se acredito estar transmitindo algo de útil é porque ainda considero possível passar adiante boas ideias, desejando compor um grupo de remanescentes lúcidos até meados deste século, conforme a expectativa de vida estimada para a minha geração a qual, na atualidade, comanda o planeta.

Bom descanso a todos!

Refletindo sobre os votos de um casamento tradicional



"Prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel em todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe" (votos de um casamento tradicional)

Quase todo o mundo no Ocidente que já mudou o seu estado civil deve ter proferido as palavras acima durante a celebração do casamento.

Quando formalizei o meu matrimônio com Núbia, há quase 12 anos atrás, casei-me dentro do contexto de que "serão dois uma só carne" (Gn 2:24), com inspiração na literatura bíblica. E hoje, embora eu tenha uma visão meio que agnóstica da vida, procurando analisar as coisas racionalmente, continuo a considerar tal valor oriundo de um texto sagrado, tendo em vista a ideia do aliançamento (algo mais forte do que um mero contrato comercial) que é pactuado entre o marido e a esposa.

Acredito que pessoas íntegras quando celebram uma união verdadeiramente compromissada, elas devem se ajudar nos momentos difíceis a exemplo desses votos que tanto os católicos quanto os protestantes celebram. E, quer se questione ou se interprete de vários modos essa tradição matrimonial do cristianismo, a qual nossa cultura herdou, penso que, ao menos enquanto uma união matrimonial durar, os cônjuges devem manter entre si tal compromisso recíproco. Ou seja, cuidando um do outro, com total cumplicidade e transparência.

Atualmente, divirjo tão somente da duração do casamento pois entendo, com uma mente mais aberta, que, em diversas situações, a separação passa a ser preferível do que, por exemplo, duas pessoas se matarem (ou viverem profundamente infelizes por causa da união). Posso dizer que o exercício da profissão de advogado e a experiência contribuíram para que eu me tornasse favorável ao divórcio quando a vida em comum torna-se impossível bem como potencialmente danosa para o ser humano.

Todavia, enquanto um matrimônio durar, os cônjuges precisam se amar verdadeiramente, prestando um ao outro a devida assistência tanto financeira quanto afetiva. E, por mais "modernos" que se tornem os casamentos, considerando o fato de algumas pessoas estarem aderindo a algo que, erroneamente, denominam de "poliamor", o compromisso básico precisa permanecer no relacionamento extra-sexual até que, por algum motivo, os dois se separem. 

Ótimo domingo a todos!


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Será mesmo necessário um governante "comprar" deputado?



Uma frase dita num programa de rádio pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, um pré-candidato ao Palácio da Guanabara nas eleições gerais de outubro, está sendo alvo de uma investigação eleitoral pelo Mistério Público. Segundo declarou o político,

"Faça o seguinte: não vote só em mim. Vote num deputado que está do meu lado. Porque olha só: o cara vai votar em mim e vai votar num deputado estadual contrário? Sabe o que vai acontecer? Depois eu vou ter que gastar dinheiro para comprar esse deputado. Como é que vai fazer?" (clique AQUI para assistir o vídeo numa matéria do portal de notícias do G1)

Segundo a reportagem, será aberta uma investigação administrativa pela Procuradoria Eleitoral do MP, o que, por sua vez, pode levar à propositura de uma ação judicial eleitoral. Ou seja, mais um processo contra quem já é réu em muitos.

Fato é que o ex-governador evidenciou uma prática corriqueira da política brasileira, dando a entender que, caso eleito e deixe de alcançar apoio espontâneo com a futura composição da Assembleia Legislativa, não terá escrúpulos para "comprar" os parlamentares estaduais a fim de que estes possam dar governabilidade à sua gestão. E, em seguida acrescentou o seguinte:

"Que eu vou mandar uma lei, o cara vai no meu partido e vai dizer assim: 'Ah, não! Eu, para votar isso aí, eu quero, tanto'. E que é isso que acontece hoje aqui no estado. De onde nasceu o mensalão? Nasceu disso!"

Não pretendo perder tempo analisando se o ex-governador é pessoa idônea ou se ele é mesmo capaz a praticar esses atos de corrupção. Até porque não sinto a mínima confiança em Garotinho por considerá-lo um ser indigno de receber o nosso voto nas urnas. Porém, a sua fala nos leva a refletir acerca da viabilidade do atual sistema político (o presidencialismo de coalizão) onde o Chefe do Executivo pode ser eleito sem fazer a maioria no Legislativo, obrigando-o a cooptar potenciais opositores através do pagamento em dinheiro que, por sua vez, será fruto da corrupção.

Por outro lado, devemos observar que o ex-governador não levou em conta que os deputados a serem eleitos no mesmo partido que o dele também poderão fazer suas respectivas exigências ao Chefe do Executivo. Isto porque é impossível empregar na Administração Pública todos os apadrinhados desses deputados a fim de satisfazer as demandas espúrias de seus respectivos sub-grupos. Pois, imaginando-se esse quadro na Assembleia Legislativa, logo se formaria de um lado um "centrão" governista e, de outro, apoiadores descontentes que, por sua vez, começariam a barganhar fazendo suas chantagens.

Que a reforma o sistema político brasileiro é importante, não nego. Por exemplo, acho que tudo caminharia melhor com o Parlamentarismo. Só que, enquanto não houver uma reforma ética em toda a nossa sociedade, dificilmente haverá solução. E a prova disso é que tivemos em 2017 três ex-governadores na cadeia. Inclusive o próprio senhor Anthony Garotinho que responde a diversos processos na Justiça e foi preso em novembro por suspeita de fraudes nas eleições de 2014.

Para um candidato decente que vier a ser eleito em outubro e o deixarem vivo para então assumir o Estado do Rio de Janeiro no ano que vem, o jeito será jogar com a total transparência ao invés de ceder às pressões de deputados maldosos. E para tanto um governador pode contar com os órgãos de investigação da sua Polícia Civil, gravar eventuais conversas em seu gabinete que evidenciem tentativas de extorsão (todas as audiências do Chefe do Executivo deveriam ser transmitidas em via de regra), ter uma agenda bem transparente para o público saber das suas atividades e expor, através dos meios de comunicação oficiais, tudo aquilo que ocorre nessa Assembleia Legislativa.

Portanto, mesmo considerando a hipótese de que Garotinho não intencionasse "comprar" deputados caso eleito governador, mas, sim, que desejasse expor como é o sistema político brasileiro para convencer os seus eleitores a votar nos candidatos a deputado que lhe apoiam, a sua argumentação não se sustenta. Pois, como coloquei, mesmo diante de um parlamento corrupto, é possível ao governante agir de outro modo e procurar o apoio da opinião pública sempre que vier a prestar contas de um modo transparente, tendo ao seu lado a Polícia e o Ministério Público para combater a corrupção.

Chega de tolerarmos bandidos na política! O Brasil tem que mudar!