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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Um ateu no confessionário




Um ateu foi a uma igreja situada ao lado de um colégio religioso e lá procurou pelo padre que estava no confessionário aguardando ansiosamente dar a hora do almoço.

Ateu: Bom dia, padre.

Padre: Bom dia, filho. Em que posso ajudá-lo? Conte-me os seus pecados.

Ateu: Primeiramente, padre, quero que saiba que não acredito em pecado. Aliás, nem em Deus eu acredito. Sou ateu!

Padre: Então por que veio a esta congregação?

Ateu: Porque preciso de alguém que me ouça e suponho que aqui seja um canal 0800. Ou seja, de graça.

Padre: No posto de saúde da outra esquina há psicólogos e lá também é 0800. Basta levar o seu cartão do SUS...

Ateu: Não é bem assim. Por enquanto, ambas as duas psicólogas lá não têm disponibilidade de vagas e uma delas já atendeu minha mãe. Sabemos como é a saúde pública no nosso Brasil com esses políticos maravilhosos mamando no poder. Atendimento terapêutico só mesmo na emergência do CAPS para casos graves de pacientes psiquiátricos em crise, com problemas de alcoolismo ou de drogas. Eu que nem fumo nem bebo simplesmente não me enquadro.

Padre: Tudo bem, filho. Você me convenceu a atendê-lo embora não sei se vou conseguir êxito em ajudá-lo porque acha que não tem pecado para contar. Diga-me então sobre as coisas que andam afligindo a sua alma, isto é, sua mente.

Ateu: Ando desgostoso da vida!

Padre: Por que? Qual seria o motivo dessa tristeza?

Ateu: É que, mesmo tendo deixado de acreditar em Deus, gostaria que a vida fosse como o cristianismo prega. Gostaria que o céu e a ressurreição dos mortos realmente existissem pois assim ninguém acabaria quando morresse. Aí todo o bem que eu fizesse ao próximo faria sentido porque os anjos do Senhor estariam anotando cada ação positiva praticada para haver depois algum tesouro para ser desfrutado na eternidade. E todo sofrimento aqui já não seria em vão e a melhor coisa pra mim seria pegar a cruz e seguir a Jesus por mais pesada que ela fosse.

Padre: Então por que você não faz isso, filho? Experimente virar um discípulo de Cristo! Na próxima semana vai abrir uma nova turma de catequese na paróquia. Venha participar!

Ateu: Não é tão simples assim para mim. É que não quero me iludir, padre. Do contrário, vou pecar contra a realidade. Realidade esta que é muito dura, amarga, solitária e triste. Porém, não é hipócrita ou fingida como são as fantasias religiosas.

Padre: O "ame o teu próximo como a ti mesmo" não diz nada para você? Será que o valioso ensino de Jesus não pode ajudá-lo a colorir essa realidade e enfrentá-la com fé?

Ateu: Essa é a maior mentira que a sua Bíblia contou até hoje! Não passa de grande utopia inventada pelos antigos padres amigos de Constantino e dos sacerdotes judeus. Posso interpretar o mandamento de Jesus como um princípio que apenas inspira solidariedade e generosidade, coisas que a ética da necessidade melhor ensina.

Padre: Como assim? Explique-me melhor.

Ateu: Se desejamos viver em sociedade, precisamos de uma dose de generosidade e solidariedade com o outro ou, do contrário, o relacionamento humano torna-se insuportável. O que Jesus, Hillel ou os escritores sagrados pregavam seriam maneiras poéticas de expressarem isso. Fora da tradição judaico-cristã, outras culturas também chegaram a conclusões semelhantes acerca da famosa Regra de Ouro. Até os índios das Américas conheceram esse mandamento antes dos jesuítas virem pra cá rezar!

Padre: Filho, vejo que você é mesmo um caso quase perdido pra Igreja. Como não é cristão e nem parece arrependido dessas palavras, não tenho como te dar uma penitência. Vá em paz e sei que, por ser ateu, pro senhor não existe o céu e tão pouco o inferno.

Ateu: O senhor está me expulsando, padre?

Por um instante o sacerdote se calou e, em seguida, o sino da paróquia bateu doze vezes sinalizando ser meio dia.

Padre: Sabe o que que é, filho? Chegou a hora do almoço e eu não consigo pensar em outra coisa senão em saborear a deliciosa macarronada feita pelas freiras do colégio. Que tal me acompanhar no rango?

Ateu: Amém!


OBS: Texto originalmente postado no blogue da Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola sendo que a imagem acima foi extraída do acervo virtual da Wikipédia referindo-se ao confessionário tradicional na igreja de Thann, França, conforme consta em https://pt.wikipedia.org/wiki/Confession%C3%A1rio#/media/File:Collegiale-Thann-p1010106.jpg



Reflexões sobre o Salmo 88




Talvez o Salmo 88 seja um dos poemas mais evitados pelos leitores das Escrituras Sagradas. Segundo um comentário correspondente na Bíblia de Estudo de Genebra, trata-se da "mais deprimida de todas as lamentações do saltério".

O autor, que seria um homem aflito por uma provável doença, expressa toda a sua dor e solidão orando. Seus sofrimentos são atribuídos a Deus sendo isto a explicação do abandono pelos seus amigos, muito embora não esteja explícito o motivo da alegada ira divina (verso 7).

Sem entrar no mérito sobre a causa divina para os males do salmista, o que para mim seria mais um reflexo da cosmovisão dos antigos judeus, prefiro focar na questão do abandono do poeta pelos seus semelhantes, conforme cito a seguir:

"Afastaste de mim os meus conhecidos e me fizeste objeto de abominação para com eles 
(...)
Para longe de mim afastaste amigo e companheiro;
Os meus conhecidos são trevas."
(Versos 8a e 18; versão e tradução ARA)

O fato é que o sofrimento muitas das vezes parece não ter solução e a única coisa que nos resta nessas horas dolorosas é contar com a presença das pessoas mais próximas. Os amigos já não podem mais salvar ou socorrer o desesperado, mas encontra-se ao alcance deles darem atenção, consolo e força para que, se for o caso, padecermos em paz até a morte.

Dentro do contexto cultural da época pré-cristã, na qual o Salmo 88 foi escrito, a sociedade ainda via na doença uma espécie de maldição. Como no Livro de Jó, as pessoas entendiam que o sujeito enfermo estaria sendo castigado porque havia cometido algum pecado ou desobediência. Logo, até um homem aflito poderia se sentir o causador de seu sofrimento muito embora não fosse o caso do personagem Jó ou do salmista em comento, o qual fez esta indagação acerca do abandono em que se encontrava:

"Por que rejeitas, SENHOR, a minha alma e ocultas de mim o rosto?" (v. 14; ARA)

Reflitamos racionalmente! O que leva um ser humano a ocultar o rosto na hora da dor de seu semelhante?

Será que a dor do outro nos faz recordar da nossa própria fraqueza que tentamos a todo instante ignorar?!

Para melhor ilustrar esse artigo, lembremos de Jesus. Pois, enquanto o Mestre andava pelas poeirentas terras da Palestina anunciando a vinda do Reino e fazendo os milagres registrados pelos evangelistas, tanto os discípulos quanto uma enorme multidão o acompanhavam. Porém, a partir do momento da sua prisão, os seguidores preferiram fugir. A fraqueza do Filho do Homem, considerado até então um herói, naquele momento só foi capaz de atrair os zombadores e as corajosas mulheres no caminho do Calvário, as quais mostraram-se mais valentes que os apóstolos escolhidos.

Sem querer criar ilusões com a humanidade de natureza errante, creio ser possível abrandarmos o sofrimento alheio através de atitudes solidárias e afetuosas. Pois, mesmo sem parar todas as nossas atividades por causa de um moribundo (realmente a vida e o sistema produtivo cobram caro quando deixamos de lado as obrigações do cotidiano), acredito na eficácia dos pequenos sacrifícios em favor do próximo através de uma amável visita ao doente.

Tenham todos uma ótima semana!


OBS: Texto postado originalmente no blogue da Confraria Teológica Logos e Mythos sendo que a ilustração acima extraída de https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh5aOZxO1A81hyTp-5iGIkzJeHd8LJjsXSgywad1FCyaadKv1dWx1MV-12vGvyGaylOnniKN2G29sgfiotd7GeEDt-KUzjKbGn3dEmVBCpvpWSZAbkNDc29V7DNQXBJggLBH19Y2N6ZFZnu/s1600/Dios+m%C3%ADo,+no+me+dejes+solo.JPG

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Será que esse país muda?!




Considero um equívoco alguém apenas querer responsabilizar os políticos inocentando a sociedade. Às vezes penso que a coletividade de brasileiros tem o que de fato merece pelas injustiças cometidas contra si mesma (do ser humano em relação ao seu próximo).

Hoje mesmo, ao sair pela rua, um conhecido me abordou perguntando se eu sabia de alguém que precisasse trabalhar. Falou que seu empregado não era pontual, costumava beber e, por isso, queria uma outra pessoa "de preferência mulher", mas que fosse "branca".

Pois é. Em pleno século XXI e quase 128 anos depois da abolição da escravatura, ainda tem patrões restringindo vagas no mercado de trabalho para negros. Porém, essa é a mais dura realidade capaz de revelar o quanto o racismo ainda é forte no país tido erroneamente por muitos como uma "democracia racial". Se bobear, somos muito piores do que os EUA da atualidade!

Nossa sociedade ainda comete muitas violações quanto aos direitos trabalhistas. Nessa republiqueta de bananas inventada por Dom João VI, as normas da CLT são constantemente burladas e as necessidades básicas não satisfeitas do empregado tornam-se motivo para que se negue eficácia às leis. Afinal, o pobre precisa comer, se vestir, morar e pagar em dia suas contas de modo que ele acaba se sujeitando aos abusos dos patrões.

E pra quem acha que o serviço público seja melhor, pouca diferença há nas corruptas prefeituras existentes nos grotões do Brasil. Em cidades onde não há respeito pelo concurso público, como acontece na maioria dos municípios, os funcionários contratados temporariamente possuem menos direitos do que os efetivos virando cabrestos eleitorais dos maus políticos nos anos pares. É o que tenho visto aqui na minha Mangaratiba em que foi necessário até uma decisão judicial para o prefeito exonerar quem não fosse concursado:

"Trata-se de ação de improbidade administrativa proposta pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro em face de Evandro Bertino Jorge, Aarão de Moura Brito Neto e Município de Mangaratiba, em que aponta a prática de atos de improbidade administrativa previsto no artigo 11, I da Lei 8.429/92, conforme consta na inicial de fls. 02a/02bo, com documentos, com pedido de antecipação de tutela. Constatada a regularidade formal da petição inicial pelo Juízo, foi determinada a sua autuação e a notificação dos Demandados para, nos termos do § 7º do artigo 17 da referida lei apresentarem manifestação por escrito, consoante decisão de fls. 642. Após as manifestações dos notificados, considero que a questão sobre a subsunção dos atos imputados aos demandados ao tipo previsto no artigo 11, I, da Lei de Improbidade Administrativa ainda demanda maior aprofundamento, já que até o presente momento processual não é possível vislumbrar a inexistência de ato de improbidade administrativa, pois o Autor descreve conduta abstratamente típica, no sentido de que os réus efetuaram contratações de servidores públicos com violação da Lei, já que não teria ocorrido o necessário e prévio concurso público para o provimento de tais cargos. Desse modo, considero adequada a ação proposta. Por outro lado, não é possível pelos elementos trazidos aos autos, reconhecer de plano a improcedência do pedido, sendo absolutamente necessária a dilação probatória para que se apure mais a fundo os fatos, concedendo oportunidade para que o Ministério Público tragas as provas que entender necessárias e para que os demandados exercitem amplamente o seu direito de defesa. Diante do exposto, RECEBO A INICIAL , na forma do artigo 17, § 9º, da Lei 8.429/92. Com relação ao pedido de antecipação de tutela formulado pelo autor, verifico ser necessária a ponderação entre o princípio do concurso público inscrito no artigo 37, II da Constituição da República e o princípio da supremacia do interesse público. De um lado, temos um Município que não realiza um concurso público amplo há vários anos, o que indica, em princípio violação ao preceito constitucional supracitado. De outro lado temos o fato que diante da falta de servidores públicos efetivos, os contratados ainda são fundamentais para o prosseguimento da prestação dos serviços públicos essenciais, especialmente na educação. O deferimento integral da liminar pretendida acarretaria em verdadeiro caos no sistema educacional do município que não possui quadro de profissionais de educação suficiente e adequado para iniciar e cumprir o calendário escolar. Assim, é evidente que a contratação de profissionais de educação em caráter temporário para o início e continuação das aulas torna-se emergencial e caracteriza excepcional interesse público, já que possibilitará que os alunos da rede pública deste Município prossigam com suas aulas, o que prepondera no presente momento, sendo certo que a interrupção seria ainda mais danosa para os cidadãos deste Município que veriam os seus filhos sem aulas. Noutro giro, considero que o prazo de seis meses é mais que suficiente para a Administração Pública Municipal realizar o concurso público necessário para o provimento dos cargos efetivos, até porque o Município apresentou a fls. 817 e seguintes documentação que comprova que já se iniciou o procedimento administrativo que resultará no certame. Desse modo, concedo parcialmente a antecipação de tutela para determinar que ao Município de Mangaratiba o seguinte: 1. A exoneração de todos os servidores contratados pela Administração Direta sem que tenham sido aprovados em concurso público de provas ou de provas e títulos no prazo de seis meses a contar da presente data, excetuando-se os servidores nomeados para ocuparem cargos em comissão. 2. A convocação de todos os concursados aprovados em concurso ainda com validade para o suprimento imediato das vagas ocupadas por contratados que, neste caso, deverão ser dispensados imediatamente. 3. A não contratação de mais nenhum servidor público de forma temporária, excetuando a contratação de profissionais para a Secretaria Municipal de Educação por meio de procedimento seletivo simplificado, uma vez que absolutamente necessário para a continuação do calendário escolar. Citem-se os demandados para dentro do prazo legal. Tal contratação tem caráter excepcional e deve se dar por um período improrrogável de seis meses, vedada a prorrogação dos contratos. Por fim, defiro a cautelar para suspender os efeitos do Decreto 1201-A/2006 e da Lei Municipal nº 846/2013. Citem-se os réus. Intime-se o Município de Mangaratiba para o cumprimento da presente decisão. Dê-se ciência ao Ministério Público. Mangaratiba, 12 de agosto de 2014. MARCELO BORGES BARBOSA Juiz Titular " (Processo n.º: 0005888-64.2014.8.19.0030 - Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro em curso perante a Vara Única da Comarca de Mangaratiba)

Analisando todos esses fatos, pergunto onde está o povo que demora para ir às ruas protestar?!

Quem foi que ajudou a eleger os atuais governantes?! E quanto aos parlamentares? Lamentavelmente o voto que essa cambada no Congresso envolvida em escândalos de corrupção recebeu do eleitor não tem desculpa. Nossos deputados são simplesmente a cara do Brasil...

E se você estivesse lá, cidadão?! Será que o seu nome não constaria entre os investigados da operação Lava Jato?

No meio dessa sociedade hipócrita e perversa encontramos também assassinos, ladrões de todos os tipos, covardes que espancam suas esposas, desmatadores, homofóbicos, racistas, gente capaz de maltratar idosos, especuladores, traficantes de armas e de drogas, etc. Até os que foram explorados se tornam exploradores excedendo os limites de seus ex-patrões.

Assim caminha o Brasil e confesso andar cada vez mais descrente com uma mudança a curto prazo. E tudo indica que terminaremos essa década com um desempenho medíocre da economia nos últimos anos que restam somado a uns retrocessos nos programas sociais. Aliás, corremos o risco de amargar o mesmo atraso sofrido pelas demais nações ricas em recursos naturais as quais simplesmente preferem desprezar o grande potencial humano de sua gente.

Brasil, nosso destino precisava ser esse?

Desculpem meu pessimismo hoje, pessoal. Tem horas que qualquer militante político se cansa...

Perder a fé...




Pode haver vantagens e desvantagens quando alguém "perde a fé". Sejamos racionais!

Se, por um lado, o ex-crente se sente aliviado por se livrar das recompensas e punições da religião, tornando-se mais conectado à realidade, eis que tal pessoa já não encontra o mesmo amparo psicológico das vezes quando costumava dobrar os joelhos em oração acreditando numa intervenção divina para os seus problemas. Diante de um desafio da vida, o descrente apenas conta consigo mesmo, isto é, com sua capacidade e habilidade para a superação dos obstáculos.

Assim sendo, já não existe mais para ele rituais que consigam dar jeito na coisa, quer sejam rezas, oferendas, leituras de cartas, banhos de erva, azeite ungido, a fogueira de Israel feita pelos pastores da IURD, os três pulinhos na festa do ano novo, jejum, etc. Trata-se de matar o leão ou ser comido pela fera, sabendo que, em qualquer dia desses, vamos acabar de algum jeito devorados pelos vermes dentro de um túmulo.

Certa vez um pregador falou em púlpito que "difícil não é ser crente", mas "ímpio", referindo-se ele aos não crentes. E, sem dúvida, ele falou de algo bem pertinente pois viver não dependendo mais de milagres requer uma enorme maturidade do indivíduo.

Obviamente que nem todas as religiões ou segmentos religiosos alimentam a crença no "sobrenatural". Dentro do próprio cristianismo, há grupos que entendem ter já se passado o tempo dos milagres, com o final da era apostólica no primeiro século, e uma minoria desses considera o aspecto meramente simbólico dos atos miraculosos de Jesus relatados nos evangelhos da Bíblia. Porém, o fato é que a grande maioria de religiosos ao redor do planeta prefere a ambiguidade de pedir ajuda aos céus e, ao mesmo tempo, procurar soluções práticas no mundo material mesmo contrariando os princípios da fé seguida. Por exemplo, conheço um comerciante, membro de uma igreja pentecostal, que justificou o seu pagamento de propinas aos agentes da fiscalização do Poder Público em defesa de suas atividades empresariais...

Mas será que um ateu "perde" a fé totalmente?

Em algum momento, ele não se sentirá tentado a falar com o Papai do Céu quando estiver diante de uma situação difícil ou praticamente impossível de resolver?

Como lidar com o sentimento de eternidade diante da inevitável morte física (do próprio corpo ou de alguém próximo)?

Tenho pra mim que um descrente acaba de algum modo encontrando os seus novos significados para a vida, caso não caia nas armadilhas da embriaguez ou da revolta ressentida contra tudo e todos. Permanece nele o desejo de se religar ou de se harmonizar com a realidade, buscando o sentido da existência. Logo, todas as desconstruções quanto à religião não importariam na "perda" da fé mas, talvez, em reencontrá-la.

E você? Qual a opinião que tem acerca do assunto?

Acredita que alguém, quando deixa a religião, "perde" a ré ou a reencontra?


OBS: Artigo publicado primeiramente no blogue da Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola conforme consta em http://cpfg.blogspot.com.br/2016/01/perder-fe.html

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Um feliz 2016




Olá, amigos.

Quem me acompanha pode ver que, ultimamente, não tenho tido muito tempo para blogar. Minha vida anda uma tremenda correria. Muito trabalho nesse final de ano e tenho ficado também absorvido cuidando da esposa que tem precisado muito de mim em dezembro.

Assim mesmo, quero aproveitar para passar rapidamente aqui e desejar um feliz 2016 a todos. Sei que há momentos em que não temos condições de redigir longos textos reflexivos (e olha que assuntos não faltariam), mas o que importa é mantermos contato mantendo os laços que estabeleci com algumas pessoas via blogue.

Portanto, recebam meus votos de um próspero 2016 e se preparem porque vem aí mais um ano olímpico e, provavelmente, mais protestos contra os nossos (des)governantes que estão afundando o país. Aliás, o que posso esperar para os próximos meses (depois que passar o Carnaval) são muitos protestos.

Um abraço e vamos juntos.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O que acho do "impeachment" da Dilma...




Em sua original e pioneira biografia sobre o impeachment, o jurista e ex-ministro do STF, Dr. Paulo Brossard de Souza Pinto, falecido em abril do corrente ano, assim considerou:

"(...) a só eleição, ainda que isenta, periódica e lisamente apurada, não esgota a realidade democrática, pois, além de mediata ou imediatamente resultante de sufrágio popular, as autoridades designadas para exercitar o governo devem responder pelo uso que dele fizeram (...)" - Em O "impeachment", Pág 09

Verdade é que a admissão da denúncia assinada pelos doutores Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, solicitando a instalação do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, não se trata de algo infundado. Afinal, as "pedaladas fiscais" podem vir a caracterizar uma conduta prevista na nossa legislação como crime de responsabilidade, consistente em irregulares manobras do governo para pagamentos usando os bancos públicos.

Mas o fato é que o processo de impeachment é algo de cunho político e isto permite dar uma interpretação de tal modo ao caso, sendo certo que a nossa Câmara Federal não goza hoje de um pingo de legitimidade moral para dar andamento a essa denúncia enquanto mantiver na Presidência da Casa o senhor Eduardo Cunha (PMDB).

Tão pouco tem o partido do referido parlamentar fluminense quaisquer condições de assumir o país visto que muitos de seus integrantes se acham envolvidos juntamente com o PT e o PP no maior escândalo de corrupção da história. Aliás, o próprio Cunha encontra-se já denunciado e vem usando dos poderes de seu cargo, bem como da influência que possui, para retardar ao máximo as ações do Conselho de Ética da Câmara.

Ora, que imparcialidade a nação brasileira poderá esperar de um julgamento desses?!

Conseguiremos confiar numa real faxina moral dentro da política do país com o simples afastamento da atual mandatária?!

Vivemos hoje um delicado momento de crise de credibilidade das instituições democráticas. Desde a época das manifestações de 2013 que ficou evidenciado o fato do povo brasileiro não mais enxergar a corrupção encarnada numa só pessoa ou num único partido. O cidadão comum compartilha do sentimento de que a safadeza generaliza-se por toda parte, nos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e nas três esferas estatais (União, Estados e Municípios).

Diante desse clamor público que grita por justiça, por seriedade, por coerência e exige respeito pela dignidade humana, não vejo outro caminho senão o Brasil vivenciar uma reforma ética coletiva capaz de impor às nossas autoridades uma nova maneira de agir. Pois somente com a restauração da decência é que fará algum sentido punirmos um governante por causa das ditas pedaladas fiscais, cuja gravidade nem se compara com os atos ilícitos imputados ao senhor Eduardo Cunha e a diversos outros deputados acusados de corrupção.

Concluo dizendo que esse não deve ser o momento de silenciarmos. Passado o Natal e as festividades de final do ano, deve a nação retornar às ruas e defender uma nova política no país em que todas as quadrilhas do Poder Público fiquem de fora. Por isso, mais do que nunca, apoio o projeto de lei de iniciativa popular defendido pelo Ministério Público Federal (ler matéria MPF COLETA ASSINATURAS PARA APOIO A MEDIDAS DE COMBATE À CORRUPÇÃO E À IMPUNIDADE). E, sendo assim, como existe a necessidade de coleta de 1,5 milhão de assinaturas, devemos incentivar as pessoas para que assinem a proposta comparecendo na unidade da Procuradoria da República mais próxima.

Outra medida que precisa ser discutida, ao invés de se falar em coisas esdrúxulas do tipo "intervenção militar constitucional", seria apostarmos numa democratização radical dos partidos eleitorais e voltarmos a debater sobre o sistema parlamentarista. Neste, poderíamos apurar a responsabilidade dos governantes com maior amplitude através de mecanismos como o voto de desconfiança ou a moção de censura, obrigando a demissão de todo um ministério insatisfatório e mantendo a estabilidade do Estado.

Sem dúvida temos que combater a bandidagem na política com mais democracia e transparência, lutando por um sistema de governo com melhor dinamismo e sensibilidade aos anseios populares. Daí a necessidade desse Congresso primeiramente lavar a sua própria suja para então iniciarmos todos juntos um processo de reforma constitucional capaz de prevenir e de combater melhor a corrupção.

Quanto ao impeachment, ele é admissível, mas será conveniente do ponto de vista ético-político? No mérito, apenas poderá ser procedente caso haja uma coerência nacional capaz de justificá-lo.

É o que penso!


OBS: A ilustração acima foi extraída de uma matéria da EBC Agência Brasil com atribuição de créditos autorais a Rovena Rosa, conforme consta em http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2015-12/pm-diz-que-manifestacao-pro-impeachment-reuniu-30-mil-na-avenida-paulista

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Conchas que as crianças de hoje só acharão em museus...




No começo da tarde desta sexta-feira (04/12), ao caminhar pelo Centro de Mangaratiba, deparei-me com a nova sede do Museu das Conchas, situada no número 109 da Rua Rubião Júnior. Cuida-se de um dos únicos voltados exclusivamente para a exibição de coleção malacológica.

Sinceramente, eu nem sabia da existência desse museu aqui no município onde moro. Já tinha visto uma coleção de conchas no histórico casarão do Solar do Sahy, a qual veio a ser transferida para esse novo endereço junto com as peças que tinham num outro local relativamente distante do Centro. Este espaço anterior confesso que não cheguei a conhecer, muito embora já tivesse caminhado algumas vezes pelo bairro da Junqueira e pela Enseada de Santo Antonio.

Ao visitar o museu nesta tarde, lembrei-me dos velhos tempos de minha infância quando frequentava a casa da minha avó paterna em Muriqui, no mesmo imóvel onde atualmente resido junto com Núbia. Recordo que, ao brincar na praia, encontrava facilmente um montão de conchinhas na areia do mar e trazia umas comigo para o Rio de Janeiro. Chegava então na escola, ou mesmo na vizinhança, e mostrava para meus coleguinhas as carcaças de moluscos que tinha achado durante o fim de semana.

Passaram-se algumas décadas e hoje já não vejo mais nenhuma concha quando ando pela praia de Muriqui. Infelizmente, a devastação do meio ambiente tem exterminado a fauna no litoral sul-fluminense e em outros lugares do Brasil também. São inúmeros os empreendimentos econômicos atualmente existentes na esquecida Baía de Sepetiba que, aliados com a falta de saneamento básico e as ações predatórias continuamente praticadas, prejudicam a vida marinha.

Ora, que direito temos de exterminar espécies e impactar de tal maneira o ecossistema aquático?!

Será esse o planeta que iremos entregar para as gerações que vão nos suceder?!

A reflexão feita hoje por mim é que, caso já fosse pai, meus filhos só poderiam ver conchas indo a um museu ou acessando a internet. Essa ruim consequência dos nossos atos já seria perceptível entre a maioria das crianças do Estado do Rio de Janeiro nascidas no século XXI.

De qualquer modo, devemos reconhecer o valoroso trabalho do colecionador e mantenedor do museu, o Sr. Carlos Bernardo Servolino, Doutor Carlitos. A grande diversidade de peças lá expostas seria resultado de anos de pesquisa desse homem! Inclusive, a coleção reúne exemplares até de outros continentes como um que é proveniente da Grande Barreira de Corais (Austrália), com seus 157 quilos distribuídos por 1 metro de comprimento, 70 de largura e 50 cm de altura.

Ao todo, o acervo conta com algo em torno de 1.200 espécies de conchas de diversos países. Além disso, o museu possui uma biblioteca com aproximadamente 400 livros de malacologia. Trata-se de um lugar que, embora pequeno, vale a pena ser visitado por ser propício para conscientizarmos as pessoas quanto à preservação da natureza.