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quarta-feira, 2 de junho de 2010

O contrato e a parceria entre a CAARJ e a UNIMED precisam ser revistos pela OAB!

No final de março do presente ano, minha esposa, Sra. Núbia Mara Cilense, firmou contrato de plano de assistência à saúde, coletivo por adesão, com a UNIMED – RIO COOPERATIVA DE TRABALHO MEDICO DO RIO DE JANEIRO LTDA, através da ACCESS CLUBE DE BENEFÍCIOS e a CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS ADVOGADOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (CAARJ), cuja vigência iniciou-se em 01º/05/2010.

Em 12/05/2010, quando ela foi fazer uma ultrassonografia do abdômen, descobriu-se a presença de saco gestacional com um embrião sem batimentos cardíacos em seu útero, sugerindo um preocupante caso de uma gestação interrompida de aproximadamente oito semanas.

Durante o referido exame, o profissional de saúde que realizou o ultrassom orientou a minha esposa que procurasse seu ginecologista com urgência afim de que fossem tomadas as providências necessárias para tratar do problema.

Em 20/05/2010, por determinação do ginecologista, Dr. Noberto Louback Rocha, Núbia submeteu-se a uma ultrassonografia pélvica transvaginal, em que configurou um quadro com impressão de aborto retido, contendo o laudo imagens do útero e a seguinte análise:

“Útero gravídico, de contornos regulares, forma e dimensões normais.
Saco gestacional na cavidade uterina, de parece irregulares e contornos imprecisos.
Embrião sem batimento cardíacos, com comprimento cabeça-nádega de 21,9 mm.
Colo uterino fechado.
Ovários tópicos, de forma e dimensões normais”

Em 21/05/2010, após o ginecologista tomar conhecimento do segundo exame, encaminhou minha esposa para internação hospitalar afim de proceder o esvaziamento uterino através da curetagem, com a indicação clínica de abortamento retido baseando-se nos dois exames de ultrassonografia.

Entretanto, fomos surpreendidos na tarde daquela sexta-feira de intensa aflição psicológica quando a UNIMED negou a autorização sob a equivocada justificativa de que minha esposa estaria em carência contratual até o dia 30/07/2010, sustentando que a sua quebra só poderia ocorrer por motivos de “acidente pessoal ou morte iminente”. Tal decisão contrariou frontalmente o disposto no art. 12, inciso V, alínea c da Lei Federal n.º 9.656/98, a qual fixa o prazo máximo de 24 horas para a cobertura em casos de urgência ou emergência.

Precisando de uma solução urgente para que fosse imediatamente retirado de seu organismo o embrião morto, eis que, em 22/05/2010, Núbia internou-se no Hospital Maternidade de Nova Friburgo (HMNF), unidade municipal de saúde pertencente ao Sistema Único de Saúde (SUS), onde permaneceu até o dia 27/05/2010.

De acordo com o prontuário médico fornecido pelo hospital público, somente em 26/05/2010 foi realizado o procedimento de curetagem na minha esposa, tendo ela padecido até então de cólicas e sangramentos vaginais no leito da enfermaria, sofrimento este que poderia ter durado apenas um dia, caso a UNIMED tivesse autorizado a sua internação em sua unidade hospitalar aqui no Município de Nova Friburgo.

Em 23/05/2010, cheguei a entrar em contato com a Ouvidoria da OAB/RJ, através do site da autarquia na internet, enviando também uma mensagem ao Presidente Wadih Damous por um outro formulário semelhante que é disponibilizado virtualmente na página. Porém, a resposta recebida no meu e-mail foi insatisfatória, tendo a CAARJ apenas se limitado a encaminhar a minha mensagem à Gerência da Access Clube:

“(...)Recebemos seu e-mail com muito apreço, em atenção a sua solicitação, já encaminhamos para a Gerência da Access Clube.
À CAARJ agradece seu contato, e coloco-me à disposição no que for necessário.
Atenciosamente,
George Costa
Atendimento ao Cliente CAARJ(...)”

Ora, a conduta adotada pela UNIMED é gravíssima pois o diagnóstico de aborto retido configura um estado de inegável risco para a paciente, o que determina a cobertura de atendimento na forma do art. 35-C, inciso II da Lei n.º 9.656/98:

Art. 35-C. É obrigatória a cobertura do atendimento nos casos:
(…)
II – de urgência, assim entendidos os resultantes de acidentes pessoais ou de complicações no processo gestacional;
(destacou-se)

Recusando-se a patrocinar um atendimento de urgência, a UNIMED atentou contra a dignidade humana, o que configura um flagrante desrespeito à saúde e à vida das pessoas, pois ampliou a situação de grande aflição psicológica e de angústia em que se encontrava uma paciente, obrigando-a a se socorrer através do caótico sistema público de saúde que, notoriamente, funciona de modo bem precário no nosso país.

Entendendo a curetagem uterina como procedimento de urgência, assim se posicionou a Décima Sétima Câmara Cível do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, reconhecendo ser necessária a realização do referido tratamento em casos de aborto retido e a configuração dos danos morais no julgamento da apelação cível de n.º 2005.001.04557:

“INDENIZATÓRIA – SEGURADORA DE PLANO DE SAÚDE – DANO MORAL CONFIGURADO – Configura situação de emergência a necessidade de realização de curetagem após aborto retido. A recusa da ré em continuar no patrocínio do atendimento de urgência afigura-se atentatória da dignidade humana. A comprovação do dano moral decorre da própria natureza humana (...) Circunstâncias corretamente analisadas pela sentença impugnada. Improvimento do recurso” (TJERJ. 17ª Câmara Cível. Apelação n.º 2005.001.04557. Rel. Des. Edson Vasconcelos. Julgado em 11/05/2005. - destacou-se

Igualmente assim posicionou-se a Segunda Câmara Cível do Eg. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, ao julgar o apelo de n.º 2008.001.07903, conforme se lê na ementa a seguir transcrita:

“APELAÇÃO. Obrigação de fazer cumulada com dano moral. Plano de Saúde. Quadro clínico de aborto retido, com recomendação de internação. Procedimento de urgência, cuja carência (24 horas) já se encontrava cumprida. Negativa injustificada. Dano moral configurado, diante do agravamento da aflição psicológica e da angústia em que se encontrava a apelante. Verba arbitrada em R$ 15.000,00, por se mostrar razoável às circunstâncias do caso. Provimento do recurso.” (TJERJ. 2ª Câmara Cível. Apelação n.º 2008.001.07903. Rel. Des. Jessé Torres. Julgado em 05/03/2008) - negritou-se

Tal posicionamento dos órgãos fracionários do Tribunal Estadual vem de encontro ao entendimento de que a tentativa do plano de saúde em descaracterizar a curetagem em caso de aborto como procedimento de urgência, ou emergência, configura infração à Lei Federal n.º 9656/98, de modo que a OAB/RJ não pode deixar de repudiar com veemência a conduta praticada pela UNIMED de maneira que precisa ser revisto o contrato celebrado entre a CAARJ e a tal empresa.

A situação à qual minha esposa e eu nos submetemos a ponto de precisarmos nos socorrer do caótico sistema único de saúde não pode ser minimizada e nem desconsiderada pela OAB para fins de avaliar a relação entre a CAARJ e a UNIMED. Do contrário, nós advogados estaremos nos esquecendo de manter uma conduta fraterna e solidária, o que é fundamental entre os integrantes de uma mesma categoria do profissionalismo liberal.

Por outro lado, fico perplexo com a situação de vulnerabilidade social em que nós advogados nos encontramos hoje em dia a ponto de nossos cônjuges e familiares, bem como outros colegas, terem o atendimento negado pelo plano de saúde numa situação evidentemente de urgência. É inadmissível que a esposa de um inscrito nos quadros desta autarquia, que paga em dia não só a mensalidade do plano de saúde como a anuidade da OAB, ter que procurar o SUS numa situação de urgência.

No caso específico de minha esposa, nem era conveniente ingressar com uma ação judicial de obrigação de fazer, pois, mesmo que uma decisão antecipatória da tutela jurisdicional fosse concedida aqui na Comarca de Nova Friburgo, a citação e a intimação da parte ré teria que ser efetivada na cidade do Rio de Janeiro, o que, certamente, demoraria alguns dias até que a UNIMED procedesse a internação de Núbia no seu hospital.

Ressalto que o Tribunal Regional Federal da 2ª Região, ao julgar recentemente a apelação cível no processo n.º 2007.51.01.003490-4, no qual a Agência Nacional de Saúde (ANS) é parte, eis que a 6ª Turma Especializada do TRF2 desproveu o recurso interposto pela Santa Casa de Misericórdia, a qual tentou afastar a sua obrigação de ressarcimento ao SUS, entendendo o órgão jurisdicional ser procedimento de urgência a curetagem pós-aborto, não se sujeitando à carência de 180 (cento e oitenta) dias:

“EMENTA: RESSARCIMENTO AO SUS. CONSTITUCIONALIDADE DO ART. 32 DA LEI Nº 9.656/98. SÚMULA Nº 51 DESTE TRIBUNAL. QUESTÕES DE ORDEM CONTRATUAL. LEGALIDADE DA COBRANÇA. 1. O ressarcimento ao SUS é devido dentro dos limites de cobertura contratual, e sua imposição é prevista em lei amoldada à Carta Maior. Ademais, hoje o tema é objeto da Súmula nº 51 deste Tribunal, e as Turmas estão vinculadas a tal entendimento, por força da súmula vinculante nº 10 do Supremo Tribunal Federal. (...) 3. De outro lado, o procedimento consubstanciado no AIH nº 2720299103 (curetagem pós-aborto) não está sujeito à carência de 180 dias, por ser caso de urgência ou emergência. (...) Sentença mantida.” (TRF2. 6ª Turma. Rel. Juíza Federal Convocada Carmen Silvia Lima de Arruda. Julgado em 15/03/2010)

Conforme se lê no inteiro teor do voto proferido no julgamento do recurso da Santa Casa na Justiça Federal, obrigar que a mulher já traumatizada com a perda do filho ter que esperar o prazo de carência contratual para o procedimento de curetagem viola o princípio da dignidade humana agasalhado pela Carta da República:

“Por óbvio, não se pode exigir que a mulher, já traumatizada com a perda de um filho, fique a mercê de prazos de carência contratual e espere mais de vinte e quatro horas para a retirada dos restos do produto da concepção. Tal conduta não seria condizente com o princípio da dignidade humana, valor fundamental eleito pela Carta Maior.”

Neste sentido, entendo que cabe à OAB/RJ importar-se com a relevante questão suscitada neste texto para que nenhum dos segurados do plano da UNIMED/CAARJ, ao necessitarem de qualquer tipo de internação de urgência, fiquem submetidos a uma injusta situação de aflição psicológica e de angústia por causa da lesiva conduta adotada pelas operadoras dos planos de saúde em tais ocasiões.

Felizmente, Núbia agora está se recuperando e, apesar de tudo o que sofremos no mês passado, extraímos uma experiência de vida com toda esta situação, o que, certamente, contribui para o meu crescimento espiritual como cristão. Nas vezes em que visitava minha esposa na enfermaria do Hospital Maternidade, durante o apertado horário de meia hora, entre 14:00 e 14:30, sem que lhe assegurassem o direito a um acompanhante, aprendi um pouco mais sobre o amor ao próximo e solidariedade com as demais mulheres que se encontravam lá internadas, sendo a maioria delas de condição bem humilde. Pude mais uma vez confirmar o quanto o pobre neste país padece por causa da indiferença dos nossos políticos e fiquei perplexo quando soube através das próprias pacientes que uma gestante em trabalho de parto não conseguiu vaga ali, pelo que precisou ser levada de ambulância para ter o filho no distante município de São João de Meriti.

Entretanto, apesar do ganho de experiência espiritual, não deixo de lutar para que a OAB/RJ, através do seu presidente, Sr. Wadih Damous, não considere minha reivindicação como um mais caso corriqueiro das relações de consumo, devendo a OAB compreender que os advogados inscritos nos seus quadros, bem como os seus cônjuges e familiares, encontram-se numa preocupante condição de vulnerabilidade, sendo indispensável a adoção de medidas urgentes capazes de rever o contrato e até mesmo a parceria celebrada com a UNIMED, afim de evitar que novos casos semelhantes tornem a ocorrer.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

“E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo, a orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo mesmo desta maneira: Ó Deus, graças de dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos aos céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.” (Lucas 18:9-14)


Sempre que falho reincidentemente nas coisas que mais detesto, sou levado a reconhecer a minha própria indignidade, da qual, por diversas vezes, ainda acabo esquecendo, pensando que sou um super cristão.

A conversão exige uma sincera e permanente avaliação de si mesmo, o que, por sua vez, não ocorre sem nos reconhecermos como pecadores a exemplo do publicano citado na célebre parábola de Jesus em que, com o arrependimento, busca o convertido justificar-se tão somente na misericórdia de Deus, não nas suas ações.

Quando criança, meu pai chegou a me colocar o apelido de fariseu. Na época, eu nem sabia o que significava ser um fariseu e acho que nem ele deveria conhecer tão profundamente acerca daquele partido do judaísmo da época de Jesus, exceto pelas impressões superficiais que foram extraídas dos Evangelhos pela nossa cultura ocidental. Porém, mesmo dentro desta visão limitada, percebo que papai, um ateu que tinha uma mente altamente crítica, certamente já deveria estar observando atentamente os detalhes de meu comportamento desde os primeiros anos de minha infância.

Aproximadamente sete anos depois do seu falecimento (setembro/1983), aceitei publicamente a Cristo, batizando-me por imersão e me tornando um frequentador de igreja evangélica. Comecei a me abster de praticar determinadas condutas que passei a considerar como pecado e então, esquecendo-me que a conversão se processa diariamente nas nossas vidas, por diversas vezes cheguei a me sentir melhor do que as outras pessoas. Olhava atravessado para os demais adolescentes que estavam iniciando no sexo, tendo suas primeiras relações sexuais, lendo revistas pornográficas, experimentando álcool e fumando cigarro, de modo que os considerava imundos aos meus olhos. Achava repugnante escutar um palavrão na rua ou ouvir piadas de humor no ambiente da escola que tivessem conteúdo sexual. Queria estar sempre ofertando na igreja, supondo ser um pecado grave não dar o dízimo, o que, na minha cabecinha pequena, não só poderia trazer maldições de pobreza como me separar de Deus.

Nos tempos de Jesus, os fariseus eram homens de respeitável reputação dentro da sociedade judaica. Não podemos cometer o engano de pensar que eles vivessem apenas de aparências, pois de fato eram zelosos na guarda dos mandamentos da Torá, preservando com dedicação a correta ortodoxia das Escrituras hebraicas. Davam esmolas, jejuavam várias vezes ao ano (pela lei mosaica o jejum só era obrigatório no dia do Yom Kippur de Levítico 16), oravam com frequência durante o dia, dizimavam até nas pequenas coisas, transavam somente com suas esposas e não cometiam crime algum que pudesse ser julgado pelos homens. Há quem diga que José, esposo de Maria, teria sido um fariseu e, embora a Bíblia nada diga a este respeito, não descarto a tese. No próprio Sermão da Montanha, Jesus chegou a dizer para os seus ouvintes que, se a justiça deles não excedesse em muito aos escribas e fariseus, jamais entrariam no reino dos céus (Mateus 5:20).

Devemos lembrar que, até a conclusão da obra de Jesus, os fariseus cumpriram o papel de serem os verdadeiros guardiões das tradições judaicas. Foram usados por Deus para aquele propósito e, através deles, o judaísmo conseguiu se manter após a destruição do templo de Jerusalém na guerra romano-judaica do ano 70 d.C. E, enquanto os sacerdotes saduceus diziam com ceticismo que nem o espírito e nem a ressurreição existiam, os fariseus tinham a melhor interpretação teológica das Escrituras, a qual, sob certo aspecto, seria condizente com a linha de pensamento adotada pela Igreja a respeito do Antigo Testamento bíblico.

Não quero nesta oportunidade empreender nenhum estudo aprofundado a respeito da seita dos fariseus para não perder o foco na oração do publicano e em sua aplicação prática para nós. Porém, quando resolvi falar sobre o lado positivo do farisaísmo, foi justamente para mostrar o quanto nós cristãos religiosos corremos o risco de nos assemelharmos a eles também no aspecto negativo que tanto foi denunciado publicamente pelo Senhor em seus três anos de ministério pelas terras palestinas.

Agindo com falsa humildade, mesmo confessando que sou salvo pela graça mediante a fé, já cometi o mesmo pecado do fariseu da parábola de Jesus, quando deixei de reconhecer a minha indignidade, esquecendo-me da misericórdia divina em minha vida. Foram várias as ocasiões em que me julguei superior aos meus irmãos em Cristo. Confessava que era pecador, mas me sentia justificado pelo que fazia e deixava de fazer a ponto de não lembrar que algum dia entrei na igreja com o mesmo sentimento que o publicano teve quando decidiu corajosamente ir ao templo judaico fazer a sua oração.

Situando-se longe (provavelmente distante do Lugar Santo onde somente os sacerdotes podiam entrar), o publicano mantinha curvada sua cabeça, reconhecendo o seu pecado e clamando por misericórdia. Sua postura corporal demonstrava profunda vergonha pelos seus atos, num sinal de profunda tristeza quando batia no peito, segundo o costume oriental, sabendo que nada mais lhe restava senão implorar a Deus por compaixão.

Posso dizer que meus tropeços durante a vida cristã foram sempre muito dolorosos, mas se tornaram excelentes oportunidades para afastar-me do Lugar Santo e me por de joelhos junto à entrada do templo, ao lado do publicano.

Recordo-me que, quando desviei-me exteriormente aos 17 anos (acho que no meu coração encontrava-me afastado de Deus há mais tempo), eu já auxiliava o professor da escola bíblica dominical da Primeira Igreja Batista de Juiz de Fora. Era muito bem visto pelo pastor titular da congregação que, durante o culto, pedia que eu orasse com voz alta no meio de todos. Uma vez por semana, acompanhava a equipe de visitas aos novos convertidos que tinham ido à frente fazer a declaração de fé. E foi neste momento que voltei à vida mundana, cometendo pecados que, antes de minha conversão, nem ao menos tive a oportunidade de praticar.

Não estou afim de listar aqui todos os meus desvios e tropeços da vida cristã. Deus os conhece e não sou hipócrita em dizer que minhas falhas ficaram para trás porque a cada dia reconheço o quanto ainda preciso aprender a amar ao Senhor e ao meu próximo. Quando peco nas mesmas coisas, sinto-me profundamente abalado, decepcionado comigo mesmo e entristecido. Lembro que a velha natureza carnal ainda opera nos membros do meu corpo, atuando na minha lascívia, minha agressividade e nos meus pensamentos corruptos.

Entretanto, ao lado do reconhecimento da minha condição de homem pecador, não abandono o sentimento de depender a cada dia da misericórdia de Deus. Apesar de ficar decepcionado com minha conduta, não quero ficar distante de Deus a ponto de deixar novamente a igreja e me auto-excluir da vida cristã, mas fixo minha atenção no exemplo do publicano que, corajosamente, entrou humilhado no templo judaico, num lugar onde convém uma vida de santidade.

Mas será que a igreja é lugar de pessoas santas e perfeitas? Sem dúvida que não! E o Messias veio justamente salvar os pecadores, dentre os quais eu me incluo, de modo que ninguém nesta vida tem legitimidade para excluir do convívio comunitário cristão pessoas que sofrem constantes recaídas por causa de drogas, uso excessivo de álcool, relações homossexuais ou problemas com a violência. Quem sou eu para pensar que estou numa condição melhor do que um travesti de programas portador do vírus HIV? Posso me considerar melhor do que um filho que assassina os próprios pais?

Tendo sido encerrado debaixo do pecado (o mesmo pecado capaz de matar até o mais íntegro dos profetas da Bíblia), resta-me a opção de ficar ao lado dos homens e das mulheres que estão se socorrendo da misericórdia de Deus. Cabe a mim oferecer-lhes o pão da comunhão que simboliza o corpo de Cristo partido por todos nós, dando-lhes a beber do cálice da nova aliança feita não com o sangue de animais, mas com a vida do Filho de Deus. Devo anunciar às pessoas que em Jesus há cura, perdão, reconciliação com o Pai e vida eterna, não importando quantas vezes tenham elas caído, pois Deus não aprova o que fazemos de errado e nos ama por aquilo que somos, de modo que todos aqueles que têm esta consciência são bem vindos na santa congregação.

Concluindo, posso dizer que o que eu quero é permanecer sempre servindo a Jesus na Igreja e desejo que esta oração jamais se aparte de meus lábios, mas esteja sempre no meu coração, sem fazer aqui o uso de aspas: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

sábado, 29 de maio de 2010

Um judeu em Atenas



Na adolescência, época em que entreguei minha vida para Cristo, eu vibrava todas as vezes em que lia sobre as missões evangélicas do primeiro século no livro de Atos dos Apóstolos e sonhava em sair viajando pelo mundo ganhando almas para Jesus. Contudo, acho que nem conseguia evangelizar meus colegas de escola, ainda mais quando vivi uma terrível fase de fanatismo religioso que tanto afastava as pessoas de mim.

Anunciar Jesus às nações é algo bem mais difícil do que simplesmente convidar um vizinho ou um parente para ir conosco a algum culto, coisa que qualquer crente e até pessoa não convertida pode fazer e para evangelizarmos é indispensável estarmos em sintonia com os planos de Deus porque o resgate de uma alma trata-se de uma verdadeira batalha espiritual.

O livro de Atos fala de um judeu chamado Saulo de Tarso, fariseu da tribo de Benjamim, conhecido também como Paulo, o qual, após perseguir a Igreja de Cristo, converteu-se ao Evangelho, passando a pregar tanto a judeus quanto aos povos estrangeiros que viviam na parte oriental do Império Romano. Foi inicialmente temido pelos discípulos do Senhor Jesus, visto que muitos duvidavam de sua conversão, mas não demorou muito e se tornou mais um apóstolo, palavra esta que significa “enviado”. Empreendeu então três viagens missionárias, indo para lugares da Ásia Menor e da Península Balcânica, regiões consideradas ainda pagãs.

Nos tempos de Paulo, os gregos que, há três séculos foram os principais adversários dos judeus, povoavam boa parte da Ásia Menor, Macedônia e, obviamente a Grécia, sendo que muito ódio existia entre os dois povos.

Por sua vez, os judeus encontravam-se espalhados pela vastidão territorial do Império Romano, nas suas diversas províncias. Estima-se que, no século I, existissem cerca de 10 milhões de judeus, os quais chegaram a prosperar em cidades romanas situadas centenas de quilômetros da Palestina. Longe da terra de origem, essas comunidades judaicas mantiveram o hábito de se reunirem através das suas respectivas sinagogas, preservando suas tradições e costumes.

Quando Paulo chegava a uma nova cidade, primeiramente ele visitava a sinagoga onde seus irmãos judeus se reuniam. Com seu profundo conhecimento sobre a Torá e as Escrituras hebraicas, Paulo buscava persuadir os ouvintes a respeito do messiado de Jesus. Uns criam e outros não. Porém, quando sua pregação era definitivamente rejeitada pela comunidade judaica local, aquele corajoso rabino voltava o seu discurso para a conversão dos gentios, o que não raras vezes despertava a inveja e os ciúmes de seus compatriotas.

Em sua segunda viagem missionária, Paulo estava percorrendo as cidades da Macedônia e já sofria as perseguições promovidas pelos seus irmãos judeus que se recusavam a aceitar Cristo. A ousadia por ele demonstrada ao pregar o Evangelho era marcante, cheia do poder e da sabedoria de Deus, e incomodava a muitos que, certamente, não se conformavam em “perder” influência sobre seus seguidores, o que não é muito diferente do que ocorre hoje em dia no meio cristão disputado pelas instituições religiosas.

De acordo com os versos 13 e 14 do capítulo 17 do Livro de Atos, devido à situação exposta acima, Paulo não pôde permanecer mais tempo na cidade de Bereia para consolidar a obra evangelística que Deus havia iniciado por intermédio de sua pregação. Precisando sair às pressas do local, Paulo deixou ali seus colaboradores, Timóteo e Silas, e navegou pelo mar em direção ao sul, indo então da Macedônia para a Grécia.


Desembarcando em Atenas, Paulo ficou sozinho por uns tempos nesta importante cidade grega, enquanto aguardava em breve encontrar novamente os seus companheiros missionários para dar continuidade à obra de Deus.

Ora, Atenas foi a mais importante cidade grega da Antiguidade, berço da filosofia clássica, do conhecimento científico e da cultura ocidental. Uns quinhentos anos antes de Cristo, surgiram ali grandes filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, os quais tornaram-se influentes pensadores da humanidade, cujas ideias até hoje são estudadas nas nossas faculdades modernas e se acham presentes nos diversos ramos das ciências. E, mesmo na época da dominação romana, no século I da era cristã, os gregos impuseram-se perante os demais povos através de sua influente cultura. Tanto é que os livros do cânon do Novo Testamento bíblico foram escritos num dos idiomas gregos utilizados naquela época – o koine.

Todavia, embora fossem homens cultos, os atenienses não conheciam o Deus verdadeiro, pois se prostravam diante de imagens de escultura fabricadas pelas mãos humanas, acreditando cegamente na existência de falsos deuses inventados pela fértil imaginação de seus ancestrais.

Pode-se dizer que Paulo estava bem no centro da civilização clássica da Antiguidade. Aparentemente sozinho pela ausência de seus companheiros, mas com Deus, ele se encontrava na milenar Atenas, cidade cujo nome era uma homenagem dos gregos à deusa Atena, considerada por eles como a deusa da sabedoria.

O livro de Atos conta que Paulo, ao deparar-se com a idolatria reinante naquela cidade, indignou-se em seu espírito e começou a pregar na sinagoga judaica aos sábados e também anunciava o Evangelho todos os dias na praça de Atenas.

No entanto, as pregações de Paulo não foram aceitas por todos naquela cidade. Filósofos que seguiam duas correntes de pensamento, os epicuristas e os estoicistas, contendiam com o apóstolo ao invés de abrirem seu corações para a Verdade.

Não quero aqui me aprofundar muito sobre as correntes de pensamento filosófico da Grécia antiga. Porém, como o livro de Atos faz menção aos epicureus e aos estoicos, considero relevante para melhor entendermos a situação contextual ao menos definir quem eram tais grupos de pensadores e no que eles acreditavam.

Segundo a História, Epicuro teria vivido entre os anos de 341 a 270 a.C. e desenvolveu ideias pregadas por Aristipo, o qual, por sua vez, fora discípulo de Sócrates e dizia que o prazer seria o bem supremo da vida. Assim, para os epicureus a razão de viver do homem seria a busca do prazer que era alcançado através da ponderação e do autocontrole sobre os desejos humanos a fim de se alcançar o “prazer supremo”.

Dentro da perspectiva terrena que tinha quanto à vida, Epicuro considerava que, após morrer, o homem simplesmente deixaria de existir, de modo que para os epicureus só interessava saber viver o momento.

Quanto, porém, ao estoicismo, tratava-se de uma outra escola filosófica ateniense que também surgiu por volta do ano 300 a.C., fundada por Zenão de Cítio. Seus seguidores negavam a oposição entre o espírito e o corpo (para eles só haveria matéria) e acreditavam que a morte seria um acontecimento da natureza em que, devido a isto, caberia ao homem aceitar o destino que lhe estava reservado.

Deste modo, os estoicistas entendiam que viver conforme as determinações da natureza seria “agir dentro da razão”. E, na época de Paulo, estes pensadores eram acentuadamente religiosos, tendo se tornado praticantes de um moralismo hipócrita e adorando falsos deuses, sendo que, curiosamente, a maioria dos seus líderes, como Zenão e Sêneca, cometeram suicídio.

Mas, afinal, o que é que esses filósofos atenienses deveriam pensar a respeito das pregações que Paulo fazia todos os dias na praça da cidade?

Em Atos 17:18, o autor relata fielmente as impressões que certas pessoas em Atenas pensavam sobre Paulo, para as quais Jesus parecia ser mais um deus estranho enquanto que a ideia da ressurreição não passaria de uma loucura. Isto porque, como já foi dito, para os epicureus aceitarem a ressurreição seria negar a inexistência do homem após a morte enquanto que para os estoicos uma fé dessas só poderia significar a recusa do homem em aceitar o seu destino natural, negando sua condição de matéria.


Foi neste ambiente, onde ao mesmo tempo havia muito conhecimento quanto às coisas terrenas e uma enorme ignorância em relação aos assuntos espirituais, que o rabino Saul de Tarso fez o seu discurso no Areópago ateniense.

O Areópago era um templo a céu aberto situado na parte alta da cidade, cujo significado é “Colina dos Ares” Era um local dedicado ao deus da guerra grego, onde a sociedade ateniense costumava se reunir para fins políticos, judiciais, culturais, religiosos ou filosóficos. Sua localização ficava numa colina próxima à acrópolis (a parte alta da cidade de Atenas) e, historicamente, foi o palco de grandes julgamentos e de decisões políticas que marcaram o mundo dos gregos na Antiguidade clássica.

Segundo o texto bíblico, as pregações de Paulo pareciam ter se tornado uma novidade naquela cidade de homens cultos e cheios de conhecimento. As pessoas queriam tirar suas conclusões a respeito daquele forasteiro considerado como um “tagarela” e que anunciava “estranhas” novidades.

Com grande sensibilidade, Paulo procurou direcionar sua pregação para o público que havia se reunido a fim de julgar o seu discurso, sabendo o apóstolo que se tratavam de ouvintes sem a concepção de um único e verdadeiro Deus, embora fossem extremamente religiosos.

Sabiamente, Paulo fez uma referência a um altar dedicado ao “Deus Desconhecido” encontrado no meio de tantos outros altares erigidos para os deuses daquela cultura politeísta. Em seguida, revelou que esse Deus, o qual os moradores de Antenas verdadeiramente desconheciam, jamais precisaria de um santuário construído pelo homem e tão pouco de qualquer coisa que lhe pudesse ser oferecida. Prosseguiu explicando que esse Deus desconhecido é espiritual e não matéria, de modo que ninguém poderia encontrá-lo pelo tato, embora sua presença não esteja tão distante do homem.

Confirmando o papel de Deus como Criador não só do mundo, mas também do homem, Paulo fez menção ao verso de um poeta helenista muito conhecido pelos atenienses, a fim de enfatizar que os homens foram gerados por este Deus desconhecido.

Deste modo, pode-se dizer que, nos versos 22 a 29 do capítulo 17 de Atos, Paulo procurou estabelecer os princípios de sua pregação a partir da concepção de seu público para lhes transmitir a ideia do verdadeiro Deus a fim de que, quando apresentasse Jesus, os ouvintes não pensassem que se trataria de mais um deus para eles adorarem.

Assim, tendo então mostrado quem é o único e verdadeiro Deus, Paulo tentou direcionar a sua mensagem para a pessoa de Jesus, enfocando qual seria o propósito para o atual momento da manifestação da graça Daquele que criou todas as coisas, falando, finalmente, a respeito da ressurreição de Cristo (At 17:30-31).

Observa-se que Paulo utilizou a abordagem correta destinada ao público para o qual pregou. Ali ele não citou nada a respeito da História dos judeus, conforme costumava fazer nas sinagogas, visto que nenhuma relevância haveria para evangelização dos gregos se Paulo houvesse falado quem foi Abraão, Moisés ou Davi. E também não faria sentido informar detalhes sobre a vida de Jesus e o seu ministério na Palestina, pois se tratavam de acontecimentos desconhecidos para aquelas pessoas que pouco devem ter ouvido falar de fatos que aconteceram há aproximadamente duas décadas num lugar distante em torno de 1000 quilômetros da Grécia com o qual jamais tiveram alguma identidade.

Para que aqueles homens fossem salvos, bastaria que cressem na existência desse único e verdadeiro Deus, arrependessem dos pecados, aceitassem a salvação através de um homem chamado Jesus que veio ao mundo morrer pela humanidade e que ressuscitou. Para isto, seria suficiente que aqueles ouvintes entendessem que Jesus é o homem destinado por Deus para julgar o mundo com justiça e que para a confirmação de tal propósito este Deus o ressuscitou dentre os mortos.

Lamentavelmente, a maioria dos homens e mulheres que estavam presentes no Areópago ateniense jogaram fora a chance de aceitarem a salvação oferecida por Deus naquele dia. Tal como muitos intelectuais das universidades nos dias atuais, os sábios de Atenas deixaram obscurecer seus entendimentos pelas suas próprias convicções filosóficas, passando a ridicularizar Paulo por causa da ressurreição. O excesso de crítica fez com que eles se tornassem soberbos e deixassem de refletir. E, apesar de suas filosofias e do conhecimento científico que armazenavam, eles anularam a si mesmos quando resolveram interromper a pregação de Paulo, deixando de conhecer o Deus verdadeiro, o qual só pode ser encontrado pelo homem através da fé em Jesus Cristo porque com os nossos cinco sentidos jamais o encontramos.

Percebendo que a motivação daqueles homens era zombar da mensagem de Deus ao invés de ouvi-la, Paulo retirou-se dali. Porém, o livro de Atos que alguns homens agregaram-se ao apóstolo, dentre os quais estava um juiz chamado Dionísio e uma mulher com o nome de Damaris, sobre a qual muito pouco se sabe.

Apesar de poucas pessoas terem se reunido a Paulo, acredita-se que houve salvação nesta primeira visita do nosso irmão a Atenas, o qual prosseguiu dali para outra cidade grega chamada Corinto, onde então foi fundada uma grandiosa igreja, destinatária de algumas epístolas de autoria do apóstolos, das quais foram preservadas somente duas.

Ora, sempre que leio sobre o discurso de Paulo em Atenas, várias indagações surgem em minha mente. Inicialmente questiono por que o autor de Atos registrou um evangelismo aparentemente mal sucedido? E também passa pela minha cabeça se Paulo teria em algum momento falhado na sua pregação?

Sobre a primeira pergunta, entendo que assim como a Bíblia não esconde as falhas humanas de caráter e nem as provações, também não oculta o fracasso. No ministério de Jesus em Nazaré, os Evangelhos informam que poucos milagres o Senhor realizou na cidade onde fora criado por causa da incredulidade das pessoas de lá. E, como bem sabemos, Jesus não errou, tendo sido perfeito em todas as suas realizações.

Atualmente consigo extrair ensinamentos do evangelismo de Paulo em Atenas, hoje considerado por mim como um empreendimento espiritual muito bem sucedido apesar do pequeno número de pessoas convertidas.

Jesus mandou que seus discípulos fossem ao mundo e pregassem o Evangelho a toda criatura. Quem cresse e fosse batizado seria salvo, mas quem rejeitasse as boas novas seria condenado.

Pois bem. No próprio livro de Atos, quando Paulo já se encontrava preso e sua pregação fora rejeitada pelos judeus de Jerusalém, o próprio Senhor Jesus havia aparecido para Paulo encorajando-o com estas palavras “Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma” (Atos 23:11)

Mesmo sem os saduceus e fariseus do sinédrio judaico terem recusado a se converter (e ainda tramavam matar Paulo), Jesus demonstrou contentamento com o ministério de seu apóstolo.

Igualmente percebo que, na cidade de Atenas, Paulo cumpriu a sua missão, pregando o Evangelho para aqueles ouvintes de coração endurecido, embora fossem homens de grande cultura. Pois, mesmo que a maioria dos atenienses tivesse rejeitado Jesus por causa da loucura da ressurreição, a salvação já estava anunciada.

Da mesma maneira, penso que este deve ser o nosso papel. Devemos anunciar o Evangelho com todos os recursos que Deus nos dá, sejam armas espirituais, talentos pessoais, conhecimento científico, discurso eloquente e criando pontos e identificação com o ouvinte. Por sua vez, uma vez ganhando almas para Cristo, devemos nos preocupar com o discipulado dos novos convertidos, ensinando-lhes a doutrina cristã com sinceridade. Porém, devemos nos tranquilizar quando entregamos a Palavra de Deus aos corações, sabendo que não somos responsáveis pelas decisões tomadas pelas pessoas de modo que podemos descansar confortavelmente nos braços do Senhor, nas mãos de quem encontra-se o futuro de todos os homens.


OBS: As fotos que estou utilizando para ilustrar o artigo referem-se à viagem que minha mãe, Sra. Myrian Phanardzis, fez nos meados da primeira década do século (salvo engano em agosto de 2004) ao visitar nossos parentes na Grécia, em especial minha tia avó que vive em Atenas e sabe falar o idioma português. Esta atualização meramente ilustrativa estou complementando nesta data de 23/02/2011.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Será que precisamos sentir a presença de Deus?

Recentemente deparei-me com um sincero relato de uma mulher no site Café História que disse não crer em Deus e nem na Bíblia. Suas palavras pareceram-me bem espontâneas, levando-me a refletir sobre os erros que muitas das instituições religiosas cristãs cometem. Há vários meses, eu havia entrado num debate que tem como título “Os Evangelhos são livros históricos no sentido em que hoje conhecemos a história?” e, desde então, comecei a participar de uma envolvente discussão sem fim com o seu autor, quando então uma debatedora surpreendentemente interveio dizendo:

“Fico até constrangida, e isso não é comum em mim, a postar neste fórum, por perceber o nível de conhecimento de todos que já postaram, mas pelo interesse que tenho no assunto, gostaria de colocar minha opinião, como leiga no trato histórico, porém como leitora da Bíblia toda, desde minha infância. Preciso deixar um parênteses para que não haja dúvidas sobre meu pensamento, cresci cristã protestante, leitora da Bíblia e crente em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, criei meus filhos na mesma crença, pelo que agradeço por ter podido inculcar moral e bons costumes nos mesmos, coisa que não teria conseguido, pois venho de uma família deficitária na educação dos filhos, não más pessoas, mas sem preparo e formação. Hoje, não acredito na existência de um deus, ou um ser superior como me foi colocado pelo cristianismo, nem que exista algo além do que é comprovado pela química, pela física ou pela biologia. (…) Eu não posso me declarar com fé para acreditar em suas histórias, embora as conheça de cor e salteado, desde "no princípio criou Deus... até a graça do Senhor Jesus seja com todos", não consigo crer ou aceitar como palavras inspiradas por um ser superior, mas não vou aqui defender o ateísmo nem atacar o cristianismo ou a Bíblia, até porque aceito como conselheira, com ensinamentos importantes nos campos da saúde e na sabedoria dos conselhos no tangente às relações humanas (…) desde pequena tentei em vão sentir a existência de Deus, compreender seus motivos para assistir à humanidade e interferir apenas na vida de uns sorteados, e dentro de mim, a razão me levava a ver que ele não existe. Apesar da dificuldade em admitir isso, confesso que a consciência cristã inculcada em mim deixou um vestígio forte do medo da blasfêmia, mas minha razão não me permite mais ler a bíblia e crer no Deus que ela prega, nem mesmo lendo sobre outras doutrinas religiosas. Não sei se quero descobrir se existe uma alternativa de deus pra mim, nem sei se quero que haja, mas o que sei é que, para mim, a existência de deus é algo criado por seres humanos” - o destaque é meu

Dentro deste curioso relato, chamou-me mais a atenção quando a debatedora disse que, desde pequena, havia tentado perceber a existência de Deus, lembrando-me o desespero dramático que muitos cristãos vivem dentro das igrejas evangélicas buscando sentir a presença divina.

Desde o ano em que me converti, em 1990, cometi a infantilidade de querer sentir Deus para acreditar na minha aceitação por Ele. Durante as orações na igreja, eu ficava ansiando por receber a experiência do batismo no Espírito Santo e começar a falar na língua dos anjos igual o meu pastor orava no púlpito. Aguardava ser milagrosamente curado do defeito na visão que fora diagnosticada quando tinha cerca de nove anos de idade e também do desvio de minha coluna descoberto pelo ortopedista no começo da adolescência por causa de minha péssima postura. Só que nada acontecia instantaneamente no mundo físico enquanto eu orava e, por muitas vezes, saía frustrado dos cultos achando que me faltava fé ou que não era amado por Deus.

Lendo o relato da participante no extenso debate histórico sobre os Evangelhos, recordei-me do discurso de Paulo em Atenas, quando o apóstolo disse que Deus não está tão longe de nenhum de nós ainda que não possamos encontrá-lo pelo nosso tato (ou por qualquer outro sentido corporal), já que a divindade não é semelhante aos elementos da natureza (conferir com Atos 17:22-31)

Embora eu acredite na possibilidade de alguém ter experiências sobrenaturais, também tenho observado que, em muitas igrejas, as pessoas confundem o emocional com o espiritual, sendo que há um número de crentes buscando sentir a presença de Deus. E, lamentavelmente, há pastores de má-fé que se aproveitam das reações emocionais das pessoas utilizando-se das mais variadas técnicas que poderão proporcionar em alguns a sensação de ter sido tocado por Deus. Claro que nem todos os pregadores que fazem isso são mal intencionados, pois muito já agem inconscientemente, mas de qualquer modo o que tenho visto por aí são pessoas agindo com histeria enquanto outros saem decepcionados.

Mas será que esta ânsia de querermos sentir a Deus não seria a mesma imaturidade de alguém buscar encontrar o seu Criador através do tato? E o que dizer daqueles que ficam esperando ter visões ou ouvir vozes sobrenaturais?

De fato, ansiamos em nosso íntimo pelo toque de Deus. Não nego que gostaria de contemplá-lo com meus olhos naturais, ouvir sua voz ressoando nos meus tímpanos, abraçá-lo e sentir seu perfume suave. E acredito que tudo isso acontecerá na eternidade quando estaremos para sempre com o Senhor, vivendo através de um corpo transformado. Porém, no momento presente, não acho que este seja o caminho.

Por outro lado, foi esta ânsia mal administrada de desejar apalpar a Deus que fez o homem voltar-se para a idolatria. Junto com a ambição de se construir uma torre elevada que chegue até os céus, o homem apegou-se a objetos de pedra, madeira e metais para que pudesse suprir sua necessidade psicológica de ter a divindade perto de si. Só que nas vezes em que a Bíblia fala da manifestação de Deus no deserto, os israelitas resolveram fugir de sua presença santa, preferindo que Moisés intercedesse pelo povo.

Ora, o que podemos dizer a respeito da encarnação de Deus? Quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós, nossas mãos puderam apalpá-lo como escreveu João logo no primeiro verso de sua epístola. E não só as mãos apalparam o Filho de Deus como os olhos humanos viram seu rosto e os ouvidos ouviram sua voz, embora quase ninguém creu na sua pregação.

Atualmente, pelo tempo em que uma parte da humanidade aguarda a nova manifestação do Messias, resta-nos a oportunidade de desenvolvermos a fé quando o mundo não nos dá nenhuma razão para crermos. Se no Egito os israelitas aguardaram 400 anos pelo êxodo, a Igreja tem esperado por dois milênios a volta de Jesus, contentando-se com o silêncio de Deus enquanto crianças morrem de fome, as doenças proliferam e a violência cada vez aumenta mais.

Com toda sinceridade eu respondo à debatedora do fórum de discussões históricas da internet que não existe nenhuma explicação na Bíblia sobre os motivos da intervenção (ou das não intervenção) de Deus na humanidade, de maneira que só nos resta confiar em sua infalível soberania. Assim como Deus não respondeu a Jó o porquê de seu sofrimento, penso que, por enquanto, o Rei das Nações também não vai nos revelar em todos os detalhes como se cumprirão seus propósitos. Não ouviremos dele nada que nos leve a acreditar pela razão, através de provas racionais acerca de sua existência.

Em meio ao momento de incerteza que a humanidade atravessa, compreendo que a fé surge como uma opção que escolhemos, isto é, a decisão de servirmos ao Deus único e de nos submetermos ao senhorio do seu Cristo. Somos crentes porque resolvemos confiar em Deus, aguardar as suas promessas e obedecer a sua Palavra. Permitimos que a Palavra não fique retida pelos nossos cinco sentidos e chegue aos nossos corações, atingindo o centro de nossas motivações, amadurecendo pela meditação e se consolidando pela prática das boas obras, as quais podem comprovar que realmente estamos crendo.

sábado, 22 de maio de 2010

Lidando com a dor da ingratidão

Como é profunda a dor que sentimos pela ingratidão de alguém! A ferida causada por aqueles que amamos demora mais para cicatrizar do que quando somos previsivelmente atacados por um adversário já conhecido. Pois, com a dor, vem o elemento surpresa juntamente com a indignação, a decepção, a perplexidade e o sentimento de traição.

Contudo, quem neste mundo ainda não foi apunhalado pelas costas? Seja pelos nossos amigos, parentes, cônjuges ou pelos irmãos mais íntimos da nossa congregação religiosa, em todos estes casos de traição seremos inevitavelmente confrontados com os mais terríveis sentimentos de ira, carregados com as mais fortes emoções.

No Salmo 55, Davi chega a dizer que teria suportado a afronta praticada contra ele, caso fosse vítima do seu inimigo:

“Com efeito, não é inimigo
que me afronta;
se o fosse, eu o suportaria;
nem é o que me odeia
quem se exalta contra mim,
pois dele eu me esconderia;
mas és tu, homem meu igual,
meu companheiro e meu íntimo amigo.
Juntos andávamos,
juntos nos entretínhamos
e íamos com a multidão à Casa de Deus.”
(versos 12-14)

Igualmente, em outro salmo imprecatório, o rei poeta de Israel expressou toda a sua indignação contra aqueles que, sem motivo, investiram contra sua vida, fazendo-lhe mal:

“Pagam-me o mal pelo bem,
o que é desolação para a minha alma.
Quanto a mim, porém,
estando eles enfermos,
as minhas vestes eram pano de saco;
eu afligia a minha alma com jejum
e em oração me reclinava sobre o peito,
portava-me como se eles fossem
meus amigos ou meus irmãos;
andava curvado, de luto,
como quem chora por sua mãe.
Quando, porém, tropecei,
eles se alegraram e se reuniram;
reuniram-se contra mim;
os abjetos que eu não conhecia,
dilaceraram-me sem tréguas;
como vis bufões em festins,
rangiam contra mim os dentes.”
(Salmo 35:12-16)

Num outro lamento, em que também profetizou a respeito de Judas Iscariotes, Davi falou novamente da traição, referindo-se ao ato de “levantar o calcanhar” à mesa, até hoje uma grave ofensa no contexto cultural do Oriente Médio:

“Até o meu amigo íntimo,
em quem eu confiava,
que comia do meu pão,
levantou contra mim o calcanhar.”
(Salmo 41:9)

Lendo sobre Davi, tento compreender o drama de uma esposa dedicada que não obtém o reconhecimento de seu marido, a indignação de empregado esmerado que é dispensado com a maior frieza pela empresa onde trabalha, bem como a situação de um pai que, após sustentar o filho por longos anos, é esquecido num asilo qualquer nos tempos de sua velhice.

Como ativista dos movimentos sociais aprendi numa certa medida o que é a dor da ingratidão quando a minha militância em favor da coletividade não recebe nenhuma retribuição proporcional. Frequentemente, vejo verdadeiros heróis do povo sendo escarnecidos e injustamente criticados por aqueles que são beneficiados pelas conquistas pleiteadas, como se fossem líderes oportunistas.

Entre os que praticam a filantropia, seja doando recursos ou prestando serviços, raramente são honrados pelos seus destinatários. E muitos desses valorosos homens, quando passam por suas dificuldades, às vezes não recebem nada em troca daqueles que foram ajudados. E, inclusive, há casos em que a pessoa beneficiada chega a se voltar contra o seu benfeitor, passando-lhe a perna ou armando uma cilada para depois ingressar com algum processo judicial.

No evangelismo, tenho visto as piores retribuições. Ao receber uma palavra positiva, algumas pessoas reagem com grosseria, agressividade e indiferença, muito embora outros aceitem a mensagem de coração aberto.

Entretanto, se olharmos para a vida de Jesus, veremos que maiores afrontas e atitudes de ingratidão o Senhor suportou por nossa causa.

Nunca ninguém amou tanto o ser humano quanto Jesus de Nazaré. E também nunca ninguém sofreu tantas injustiças e traições quanto o Senhor, de modo que, ao olhar para Ele, esvazia-se todo o meu sentimento de auto-comiseração.

Certa vez Jesus curou dez leprosos, dos quais apenas um (um samaritano) retornou para agradecê-Lo. Nas cidades em que evangelizou na Galileia, em nenhuma delas foi registrado uma conversão coletiva, apesar dos muitos milagres que o Senhor realizou no meio do seu povo. Em Nazaré, cidade onde Jesus foi criado, seus concidadãos tentaram assassiná-lo após ouvirem seu discurso na sinagoga. Em Gadara, localidade situada na região gentílica de Decápolis, a população de lá pediu ao Senhor que se retirasse do território deles, após Jesus ter feito bem a um homem perturbado. E até os familiares de Jesus não o compreenderam durante algum período do seu ministério.

Mas foi nas suas horas mais difíceis que Jesus experimentou o abandono e a traição. Enquanto agonizava no Jardim das Oliveiras, chegando a suar sangue enquanto falava com o Pai, seus discípulos não aguentaram o sono e adormeceram. Após receber o beijo da traição de Judas, eis que, no final, todos os discípulos o deixaram, fugindo dos guardas. Na casa do sumo sacerdote, seu próprio povo o bateu, cuspiu em sua face e dele zombou. Perante Pilatos, a multidão ali presente preferiu que, no lugar de Jesus, soltassem a Barrabás, clamando em alta voz para que o Senhor fosse crucificado.

Olhando para Jesus, deixo de me sentir a maior vítima do mundo, passando a me colocar na mesma condição dos que o abandonaram e fugiram no momento de sua prisão. Mesmo sem ter vivido naquela época, consigo identificar as cusparadas e os açoites que dei em Jesus pelos meus pecados do tempo presente, lembrando das vezes em que o rejeitei no meu coração preferindo praticar o mal ao invés do bem. Recordo das mentiras que proferi, de minhas concupiscências sexuais, dos meus atos de injustiça com o próximo, de minhas blasfêmias, do meu apego ao dinheiro, da minha falta de amor e até das motivações ruins que não foram exteriorizadas, de modo que todas estas ofensas são como os pregos da ingratidão cravados sobre a carne do meu Senhor.

Reconhecendo isto, dou glória a Deus porque são as chagas de Jesus que hoje saram o meu coração das mais profundas dores causadas pela convivência humana, de modo que o sentimento da traição acaba servindo como aprendizado do que o Senhor sofreu por causa da humanidade, padecendo o desprezo de todos e sendo tratado pior do que um animal.

Ora, sete séculos antes de Jesus, assim profetizou Isaías a seu respeito, retratando-o como o servo sofredor:

“Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi transpassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (cap. 53:4-6)

Assim, meditando no sofrimento de Jesus, encontro a oportunidade de tomarmos posse da cura espiritual para as nossa dores mais íntimas. Ou seja, temos a oportunidade de descarregar Nele aquilo que tanto nos aflige e deixarmos as feridas cicatrizarem. E, deste modo, resta-nos a escolha de alimentar a nossa dor solitária ou aceitar o remédio dado por Deus para que sejamos sarados, pondo de lado o infrutífero sentimento de auto-comiseração.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Poucas Câmaras Municipais no país têm Comissões de Legislação Participativa

Desde 2001, no final da era FHC, a Câmara Federal em Brasília possui uma Comissão de Legislação Participativa (CLP), a qual permite que qualquer entidade da sociedade civil organizada, ONGs, sindicatos, associações e órgãos de classe apresentem suas sugestões legislativas. Tais sugestões podem incluir desde propostas de leis ordinárias e complementares, até sugestões de emendas ao Plano Plurianual (PPA) e à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

Através de tal comissão, a sociedade civil organizada tem a possibilidade de apresentar suas propostas, as quais, por sua vez, poderão ser transformadas em lei, bastando que a entidade encaminhe ao referido órgão da Câmara dos Deputados a sua sugestão legislativa acompanhada dos seguintes documentos: (i) seu registro em cartório ou no Ministério do Trabalho; (ii) um documento legal capaz de comprovar que a composição de sua diretoria; (iii) a ata da reunião que decidiu pelo envio da sugestão à CLP; e, opcionalmente, (iv) quaisquer outros documentos anexos ao requerimento sugestivo com a finalidade de dar embasamento à justificativa.

Individualmente, o cidadão pode também participar contribuindo para o “Banco de Ideias”, apresentando propostas de interesse da população em geral, as quais serão organizadas por temas, ficando à disposição para consultas tanto pelos parlamentares quanto pelas entidades da sociedade civil.

Após a iniciativa de se ampliar o acesso ao Poder Legislativo Federal, vários estados e poucos municípios no país adotaram esta brilhante ideia a exemplo das Assembleias de Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraíba e Acre. Já nas cidades, pode-se mencionar as Câmaras Municipais de Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), São Paulo (SP), Juiz de Fora (MG), Uberaba (MG), Santos (SP), Campinas (SP), Caxias do Sul (RS), Sete Lagoas (MG), Atibaia(SP), Americana (SP), Conselheiro Lafaiete (MG), São José dos Campos (SP), Poços de Caldas (MG), Tibagi (PR), dentre outros locais.

Curiosamente, nem a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e nenhuma Câmara Municipal aqui do meu estado aparecem na listagem que consta no rol do site da Câmara Federal. Nem na capital fluminense e nem nas principais cidades do interior existe a possibilidade de uma ONG apresentar sua sugestão legislativa e esta ser analisada de modo obrigatório por uma comissão especificamente organizada para atender os anseios da sociedade civil. Em 2008, logo depois que os atuais vereadores de Nova Friburgo foram eleitos, cheguei a compartilhar esta ideia publicamente escrevendo um artigo no jornal local “A Voz da Serra”, mas vi muito pouco interesse dos políticos daqui. E, quanto à ALERJ, cheguei a me comunicar via e-mail, sem receber nenhuma resposta satisfatória de qualquer deputado.

Entretanto, é no Município que a participação popular nas decisões políticas pode ser efetivamente exercida, sendo de fundamental importância que se promova nas cidades uma democracia de proximidade capaz de reforçar a influência dos cidadãos sobre o seu cotidiano e nas atividades comunitárias.

Além disso, é nas cidades pequenas que o interesse político dos cidadãos torna-se evidente, principalmente porque nesses lugares uma grande parte dos eleitores trabalham para a Prefeitura (quase sempre sem concurso público) e, portanto, dependem das próximas eleições para que eles ou os seus familiares se mantenham empregados no governo. E, embora falte uma participação política de qualidade na grande parte dos municípios de menor população, tenho pra mim que a criação de mecanismo que proporcionem o acesso do cidadão ao poder poderá contribuir satisfatoriamente para o desenvolvimento da democracia nessas cidades. Ainda mais nos centros urbanos com menos de 10 mil habitantes, nos quais acredito ser possível o exercício de uma democracia quase que direta capaz de lembrar os gregos da Antiguidade clássica.

Minha esperança é que a própria sociedade civil e os poucos políticos esclarecidos neste país compreendam a importância das CLPs em âmbito local e passem a lutar por essa conquista nas suas cidades. Infelizmente, após a redemocratização, o cidadão brasileiro virou as costas para o Parlamento. Nossos municípios ganharam mais autonomia com a Constituição de 1988, porém muitas cidades viraram verdadeiras ditaduras disfarçadas. Os distritos rurais e os bairros humildes de periferia tornaram-se currais eleitorais na maioria dos casos, sendo que quase ninguém mais acompanha o processo legislativo.

Mas será que a nossa história local deve continuar a ser escrita com tanta passividade? Os políticos estão errados, mas nós, o povo brasileiro, também precisamos agir comunicando as nossas ideias e organizando-as através de movimentos capazes de transformar o cotidiano das nossas cidades. Ou seja, não podemos nos esquecer que cada um de nós é autor das páginas políticas dos lugares onde vivemos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

"Jesus chorou"

O verso 35 do capítulo 11 do Evangelho de João é considerado o menor versículo da Bíblia e faz parte do texto que fala a respeito da ressurreição de Lázaro.

Jesus foi chamado por Marta e por Maria para que viesse curar seu amigo Lázaro, o qual encontrava-se enfermo em Betânia. Porém, quando o Senhor estava chegando na aldeia, Lázaro já havia morrido. Sabendo então que o Senhor vinha ao seu encontro, Maria foi até Ele, lançando-se aos seus pés em prantos e dizendo que se Jesus estivesse no local, o seu irmão Lázaro não teria falecido.

Aquela cena mexeu profundamente Jesus, conforme descreveu sensivelmente o evangelista:

“Jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se. E perguntou: Onde o sepultastes? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê! Jesus chorou.”

O resto da história, creio que muitos já conhecem. Jesus então mandou que removessem a pedra do túmulo e, com suas palavras de autoridade, fez com que Lázaro ressuscitasse caminhando para fora do sepulcro.

“Jesus, agitando-se novamente em si mesmo, encaminhou-se para o túmulo; era este uma gruta a cuja entrada tinham posto uma pedra. Então ordenou Jesus: Tirai a pedra (…) Tiraram, então, a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa da multidão presente, para que creiam que tu me enviaste. E, tendo dito isto, clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora!”

No entanto, durante a descrição de um dos mais espetaculares milagres do Messias, amplamente divulgado em nossa cultura cristã, o evangelista não deixou de registrar a sensibilidade de Jesus, revelando que o Senhor não escondia as suas emoções, o qual se mostrava capaz de chorar com os que choram, “agitando-se em seu espírito”.

O verbo que na nossa tradução bíblica encontra-se como “agitar-se” pode ter como significado uma pertubação profunda, de maneira que, diante daquela situação, compreendemos que Jesus angustiou-se e gemeu.

Embora sabendo o que iria acontecer (que Lázaro dentro de poucos instantes iria ressuscitar), em momento algum Jesus agiu com frieza em relação à dor de Maria. Pelo contrário, ele se comoveu (gr. tarasso), o que significa que o Senhor se agitou e se perturbou, afligindo-se, encolerizando-se e se enfurecendo com a morte do irmão de Maria de Betânia.

Atualmente, num mundo de emoções adoecidas, tem sido cada vez mais difícil encontrarmos pessoas que, verdadeiramente, são capazes de se compadecer de quem sofre. Muitos agem intimamente com impaciência enquanto ouvem educadamente o relato triste de alguém, preferindo fugir de notícias desagradáveis do que enfrentá-las. Mesmo nas igrejas cristãs, tenho observado que inúmeras vezes falhamos quando interrompemos o desabafo de um sofredor com aquelas frases prontas dizendo que tudo vai dar certo, ou que logo as coisas vão melhorar porque Deus está no controle.

Geralmente é nas igrejas onde mais se prega a respeito de milagres que menos encontro sensibilidade em relação ao sofrimento alheio. Tenho observado que, em muitas dessas comunidades, falar a respeito da própria dor é interpretado como uma ausência de fé, numa verdadeira confusão com o derrotismo. E assim, por causa de um tamanho absurdo praticado pela “ortodoxia neo-pentecostal”, tenho visto muitos cristãos reprimidos em seus relacionamentos com os irmãos e até mesmo em relação a Deus.

Entretanto, as Escrituras nos falam de um Deus que, mesmo tendo todo poder nos céus e na terra, também é capaz de derramar lágrimas. O choro de Jesus, mostra que Deus verdadeiramente importa-se com o sofrimento humano. Mostra que Deus, apesar de saber que no final tudo acabará bem com relação aos seus filhos, também se comove profundamente com as perdas, aflições, enfermidades, misérias e problemas do cotidiano.


Acredito que a ressurreição de Lázaro não apenas anuncia que a morte é algo transitório como também nos ensina, através do comportamento de Jesus, a maneira correta de agir durante o tempo de peregrinação neste planeta caótico. Pois, o período em que vivemos neste mundo aguardando a ressurreição para a vida eterna, em João capítulo 11 pode ser representado pelos momentos que antecederam a ressurreição de Lázaro, conforme escreve Philip Yancey em seu livro “O Jesus que eu nunca conheci”:

“A história de Lázaro, considerada em sua totalidade, não apenas apresenta uma pré-estréia do futuro de Jesus mas também uma visão resumida de todo o planeta. Todos vivemos os dias num período intermediário, o intervalo do caos e da confusão entre a morte de Lázaro e o seu reaparecimento. Embora tal período possa ser temporário e possa desfazer-se na insignificância do futuro glorioso que nos aguarda, agora é tudo o que conhecemos, e isso basta para trazer lágrimas aos nossos olhos – o suficiente para trazer lágrimas aos olhos de Jesus.”

Durante nossa peregrinação aqui nesta terra de aflições, devemos despertar em nós a mesma humanidade encontrada na pessoa de Jesus. Precisamos aprender a não ter medo de expor as nossas emoções e, ao mesmo tempo, acolher os sentimentos do nosso próximo. Acredito que não fará bem para a nossa espiritualidade sermos pessoas reprimidas que ficam mantendo uma aparência externa de dureza diante das situações, sendo que por dentro estamos em pedaços. E, sendo assim, uma oração que talvez se ajuste bem aos nossos dias seriam estas palavras: Jesus, ensina-nos a chorar.


OBS: A ilustração deste artigo refere-se à pintura de Juan de Flandes (1500) retratando a ressurreição de Lázaro.