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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

"Quem vai querer picolé?"




Um vendedor de picolé saiu de casa para trabalhar. Pegou a sua caixinha de isopor, busuntou a cara de protetor solar e foi até à loja de seu fornecedor que era um depósito de sorvetes situado umas duas quadras da praia onde trabalhava. Ali já estavam dois colegas de profissão aguardando o atendimento que começava a partir das nove da manhã.

Colega 1: Bom dia, Artur.

Vendedor: Bom dia.

Colega 1: E aí? Vendeu muito ontem?

Vendedor: Não vim.

Colega 2: O sábado estava horrível! A chuva atrapalhou um mocado. Melhor era ter ficado em casa. Consegui vender apenas vinte e sete palitos.

Colega 1: Também você só chega tarde. Só no domingo é que resolve aparecer a essa hora. Olha que o Reinaldo já começa vendendo nessa época de calor antes da loja abrir.

Colega 2: Tá bom. Ele pode estocar picolé em casa e mora logo ali na comunidade. Eu venho lá da Baixada Fluminense para trabalhar aqui e ando todos os dias nesses ônibus lotados.

Colega 1: Deixa eu ir. Boas vendas para vocês!

Colega 2: Vai lá! Acho que só saio daqui lá pelas dez. Já estou vendo mais vendedores chegando e agora as crianças ainda não estão com  muita vontade de chupar. Passa na minha frente, Artur.

O nosso vendedor aproxima-se do balcão onde é atendido pelo dono da loja:

Fornecedor: Vai levar a placa (de gel) ou o gelo seco?

Vendedor: Só a placa. Se mais tarde estiver vendendo mais, compro o gelo seco.

Fornecedor: Quantos de coco?

Vendedor: Sete.

Fornecedor: Chocolate?

Vendedor: Cinco.

Fornecedor: Maracujá e limão?

Vendedor: Quatro e três...

Minutos depois, Artur já estava com o seu isopor abastecido, carregando cinquenta picolés nas costas e saiu gritando pelas ruas indo em direção à praia:

Vendedor: Olha o picolé! Quem vai querer picolé? Teno coco, chocolate, morango, milho verde, graviola, uva, maracujá, limão... Picolé de goiaba e picolé de brigadeiro! Olha o picolé! É o picolé cremoso. Picolé do verão carioca! Olha o picolé...

Aparece então o primeiro comprador antes mesmo de chegar á praia. Era uma mulher com o filho portador de necessidades especiais, o qual ela conduzia na cadeira de rodas:

Cliente: Ei, moço. Quanto esta o picolé?

Vendedor: Um é quatro, três são dez.

Cliente: Vê dois.

Vendedor: Qual sabor, senhora?

Cliente: Um de milho verde e o outro de coco. Quanto dá?

Vendedor: Oito reais.

Cliente: Aqui! Está tudo trocadinho em notas de dois. Obrigada.

Vendedor: Obrigado a senhora. Tenha um bom dia!

Cliente: Um bom dia pra você também, querido.

Ao atravessar a avenida Litorânea, a qual acompanha a praia, outro cliente que acabara de parar o carro indevidamente numa vaga de idosos chama o vendedor com assovio fazendo-o retroceder até o estacionamento público de veículos no lado da calçada.

Cliente: Picolé, venha cá!

Vendedor: Pois não, senhor.

Cliente: Quanto está o picolé?

Vendedor: Quatro reais.

Cliente: Que picolé caro! É de ouro?

Vendedor: É o preço de todos os camelôs da praia...

Cliente: O que você tem aí?

Vendedor: Coco, chocolate, leite condensado, morango, uva, maracujá, graviola, milho verde...

Cliente: Graviola! Mim querer um. Troca um galo? Só tenho notas nesse valor e três moedinhas de um real.

Vendedor: Troco.

Cliente: Vai trocar cinquenta reais por causa de um picolé?!

Vendedor: Já venho prevenido para não negar vendas, coisa que nenhum comerciante pode fazer se tem produto no estoque. Aqui o troco. Um bom dia para o senhor.

Embora fosse cedo, já havia um considerável número de banhistas na areia. Mesmo com a crise econômica, o pessoal não deixava de tomar banho de mar ainda que deixando de consumir a habitual cervejinha nos quiosques trazendo toda a bebida de casa junto com a comida. Só não costumavam levar sorvete pra praia. 

Para Artur, a areia era o seu ganha pão. Se não chovesse, ele vinha quase sempre trabalhar seis dias por semana e folgava um. Até no inverno o nosso vendedor não deixava de comparecer ao trabalho. E, no verão, era preciso ganhar o suficiente para terminar de pagar as contas e sobreviver o resto do ano depositando o que pudesse na poupança. Só que muitas das vezes a atividade era ingrata de modo que ele penava na areia, tendo um dia quase desmaiado. E, naquela manhã, embora quente e abafada, não tinha o sol brilhando no céu para ajudar nas vendas. Vários banhistas perguntavam o preço e não compravam:

Cliente: Moço, vem cá.

Vendedor: Pois não.

Cliente: Quanto está o picolé?

Vendedor: Um é quatro, três são dez. Vai querer qual?

Cliente: Obrigado. Depois você passa aqui.

Caminhar com peso nas costas já não era indicado pelo ortopedista que o acompanhava por causa do problema que Artur tinha desde jovem na coluna. Porém, era preciso encarar as dificuldades do cotidiano do jeito como podia. Havia solicitado na Prefeitura uma licença para empurrar um carrinho, mas as autoridades municipais ficaram enrolando seu processo protelando a apreciação do pedido. Apenas renovaram a autorização que ele já tinha na modalidade móvel sem veículo. Logo só lhe restava seguir com a caixinha de isopor. Afinal, no Brasil, manda quem pode...

Vendedor: Olha o picolé! Quem vai querer picolé? Olha o picolé! Picolé cremoso...

Cliente: Ei, picolé!

Vendedor: Em que posso ajudar?

Cliente: Quero um de limão. Tem?

Vendedor: Tem sim.

Cliente: Sabe dizer se por aqui tem casa pra alugar?

Vendedor: O ano inteiro. Depois do Carnaval aparecem mais ofertas.

Cliente: E quanto deve estar uma quitinete perto da praia?

Vendedor: Se for para todos os meses do ano, cerca de mil. Já na temporada, os proprietários andam pedindo uns três contos. Até lá no morro os preços ficam caros.

Cliente: Esse é o meu telefone. Sabendo de alguma coisa baratinha me avise. Quanto está o picolé?

Vendedor: Um é quatro, três são dez.

Cliente: Toma cinco e pode ficar com o troco. Se conseguir uma quitinete ou um quarto e sala pra mim por menos de oitocentos mensais, dou cem reais para você de presente.

Vendedor: Lá na comunidade tem uma senhora que fez umas suítes e cobra setecentos. Fica no alto do morro.

Cliente: Não quero nada na favela. Tem que ser perto da praia.

A conversa é então interrompida por outro cliente. Tratava-se de uma família representada pela mãe com várias crianças:

Cliente novo: Moço, vem aqui rapidinho.

Vendedor: Com licença. Oi! Aguarda um momentinho.

Cliente antigo: Vai lá. Depois conversamos. Pode ligar pra mim a cobrar quando achar a casa.

Nosso picolezeiro afasta-se e vai até a barraca da mulher que o chamara.

Vendedor: Bom dia, amiga.

Cliente: Quanto está o picolé?

Vendedor: Um é quatro, três são dez.

Cliente: Três é dez? E cinco? Quanto o senhor faz? Sai por doze?

Vendedor: Cinco picolés eu faço por quinze.

Cliente: Poxa, moço. É muita criança...

Vendedor: O menor preço que posso fazer é o de três reais por unidade.

Cliente: No trem eu pago um real pelo picolé...

Vendedor: No trem é diferente. Na praia tenho que pagar a Prefeitura para trabalhar e enfrento as condições de sol e de temperatura de janeiro a janeiro carregando esse peso nas costas. Aliás, não são todos os dias que podemos vir aqui. Pois, se chove, não temos venda. Quando chega o inverno, a orla fica vazia e o movimento cai.

Cliente: Perto de casa eu pago setenta centavos nesse picolé. Moro bem ao lado da fábrica e, se você fosse lá, compraria mais barato e poderia vender por dois reais.

Vendedor: Já não é mais esse preço no distribuidor. Aqui o meu fornecedor cobra um real por picolé no atacado acima de cinquenta, mas não compensa ir longe buscar por causa da longa demora no trânsito. Na praia, todos os camelôs têm que praticar o mesmo preço para um não atrapalhar o outro senão dá briga. E, se a gente não lucrar pelo menos uns dois reais em cada picolé, torna-se difícil viver com dignidade. Caso os ambulantes resolvam abaixar demais o seu preço, os comerciantes da orla reclamam, a Prefeitura revoga as nossas autorizações e a fiscalização expulsa os vendedores todos daqui.

Cliente: Num sei disso, não. Mais tarde o senhor passa...

Uma das crianças, o mais novinho, começa a chorar fazendo a mãe mudar de ideia:

Criança: Mãe, compra o picolé!  

Cliente: Depois!

Criança: Eu quero agora!

Cliente: Moço, me vê só quatro picolés. Vou comprar só para os meus filhos.

Vendedor: Que sabor eles vão querer?

Criança: Brigadeiro!

Posicionando-se ao lado da mãe, a filha mais velha optou por recusar, porém os outros dois irmãos pediram o mesmo sabor do caçula de modo que só restou um brigadeiro na caixinha.

Cliente: Aqui seus dez reais. Ela não vai mais chupar. Pode meter o pé!

Vendedor: Obrigado e boa praia.

Mais adiante, um casal de idosos pediu dois picolés (a esposa de milho e o marido de graviola). Veio um rapaz alto e comprou um picolé de maracujá. Em seguida, três amigas levaram um de morango e dois de uva. Ao lado delas estava um senhor diabético que, embora não costumasse comprar sorvetes, fizera amizade com Artur. Semanalmente ele lhe trazia os frutos de uma árvore exótica chamada noni que cultivava em seu sítio na região de Guapimirim, próximo à serra de Teresópolis. Ambos sempre conversavam sobre assuntos de política:

Senhor: E aí? Acha que a presidanta cai este ano?

Vendedor: Duvido! Com o Eduardo Cunha e um bando de parlamentares encrencados, como que a Câmara vai fazer o impeachment dela? Além disso, se a Dilma cai, quem assume é o vice de modo que fica mais difícil para o PSDB conseguir vencer em 2018.

Senhor: O Temer está na pica também! Seu nome já anda aparecendo em gravações e nos depoimentos dos delatores da Lava-Jato. Acho que a Federal deve ter várias provas contra ele que não sabemos.

Vendedor: Tem que mudar é o sistema! O certo seria haver novas eleições como acontece num país parlamentarista. Imagina se caem a Dilma, o Temer, o Cunha e o presidente do senado? Quem fica no lugar do Renan será o Tiririca!

O homem cai na gargalhada e responde:

Senhor: Aí pior não fica. 

Vendedor: Acho que fica bem pior, mas vai mostrar a piada que é a politica desse país.

Senhor: As Forças Armadas tinham que intervir, botar o PT pra correr e fechar logo esse Congresso que não serve para nada. Não foi o Figueiredo quem falou "vocês ainda terão saudades de mim"?

Vendedor: Eu não tenho nem um pouco de saudades dos generais e nem de FHC. Prefiro ver os milicos no quartel.

Nisso aproximou-se uma criança sozinha perguntando o preço do picolé:

Criança: Quanto tá o sorvete?

Vendedor: Um é quatro, três são dez. Tem que chamar o papai ou a mamãe.

Criança: Vem comigo.

Senhor: Vai lá! Mais tarde me liga pois trouxe o noni e umas ervas medicinais para você lá do sítio. Aparece!

Vendedor: Valeu! Amanhã eu passo na sua casa.

Sentado num quiosque com um copo de cerveja na mão, o pai fez um sinal negativo com o dedo para que Artur não vendesse o picolé para o seu filho, causando-lhe o sentimento de frustração por não ter concretizado a venda. Naquele momento, passou caminhando pelo calçadão da praia o colega de profissão Reinaldo, o qual precisava que alguém trocasse sua nota de vinte reais por dinheiro miúdo:

Colega: Artur, você tem bastante notas de dois reais e moedas?

Vendedor: O suficiente.

Colega: Não pode trocar para mim esses vinte reais?

Vendedor: Seis notas de dois e oito de um alivia?

Colega: Tá ótimo! Me diz uma coisa. A renovação da sua licença já saiu?

Vendedor: Paguei a taxa na lotérica semana passada e apresentei o comprovante lá na Prefeitura. A carteirinha de ambulante de 2016 ainda não ficou pronta. No meu caso, tive que pedir à minha advogada que consignasse o pagamento na Justiça assim que terminou o recesso do Fórum porque não queriam emitir o boleto alegando problemas de sistema. Felizmente o juiz concedeu a liminar e resolvi o problema. Só não arrumei o carrinho.

Colega: Até agora não deram a minha carteirinha também. Todo ano é assim e a Prefeitura só libera pra fazer pagamento mesmo depois do Carnaval.

Vendedor: Eles fazem isso porque querem que paguemos o agrado do fiscal

Colega: Quando trabalhava na outra praia, resolvemos não pagar mais a propina e todo sábado tínhamos que fugir do fiscal para não levarem a mercadoria. Foi então que, depois de uma covardia do prefeito, fizemos um protesto e a TV foi lá. Em retaliação, o fiscal não fez mais nada, o lugar encheu de camelôs piratas e ninguém mais conseguia ganhar dinheiro. Saí, vim pra cá e agora soube que os vendedores voltaram a contribuir semanalmente com os agentes da Prefeitura. Inclusive os legalizados.

Vendedor: Isso tinha que ser gravado e denunciado! Mais do que nunca precisamos criar a nossa associação de ambulantes a fim de lutarmos contra esses abusos. Depois da Semana Santa vamos nos reunir?

Colega: Pode contar comigo, Artur. Mas você sabe que o pessoal é desunido, né?

Vendedor: Essas convocações temos que fazer fora da temporada e chamarmos só aqueles que trabalham o ano todo. Precisamos nos organizar antes da campanha eleitoral para não falarem que estamos trabalhando pra algum candidato.

Colega: E você não vem com ninguém?

Vendedor: Fique certo de que este ano não voto em nenhum vereador apoiado pelo prefeito. É hora de renovarmos a política nessa cidade! Chega de figurinha marcada!

Colega: Se um deles me der uma moral, faço campanha pro sujeito.

Vendedor: Aí você vende o seu voto e acaba pagando muito mais caro quando, por exemplo, precisar do hospital e não conseguir atendimento.

Colega: Deixa eu ir. São todos eles safados. Vamos trabalhar! 

Escutando a conversa aproximou-se um homem de uns sessenta anos e se dirigiu a Reinaldo:

Cliente: Quanto está o teu picolé?

Vendedor: Um é quatro, três são dez.

Cliente: Quero um de leite condensado.

Vendedor: Aqui.

Cliente: Me diz uma coisa. Quantos picolés você costuma vender num dia?

Vendedor: Depende de como está a praia e da época. Agora é verão, mas houve vezes, no inverno, que não fiz nem vinte. Se chover, pára tudo.

Cliente: E você anda a praia toda?

Vendedor: Sim.

Cliente: Que saúde você tem! Pretendo ficar tomando sol até às duas da tarde. Se interessar, volta e passa o resto do dia comigo. Pago seu almoço, chupo todos os picolés que estiverem sobrando e ainda deixo uns duzentos reais de caixinha.

Vendedor: Com licença, senhor. Tenha um bom dia.

Deu onze horas e Artur já tinha conseguido vender quase todos os picolés restando na caixa apenas cinco, sendo dois de flocos, um de goiaba, um de limão e outro de chocolate. Uma senhora então resolveu abordá-lo para lhe trazer uma mensagem religiosa:

Senhora: A paz do Senhor, meu rapaz.

Vendedor: Bom dia! Em que posso ajudá-la? No momento eu tenho flocos, goiaba, limão e...

Senhora: Não vou querer picolé, não, pois estou fazendo jejum de consagração. Porém, tenho um recado de Jesus para você, filho. Leve contigo esse folheto!

Vendedor: Obrigado. Com licença.

Senhora: Espere! Hoje, na minha igreja, teremos um culto evangelístico. Aparece lá! Jesus ama você e a sua vida vai prosperar.

Vendedor: Mais uma vez agradeço. Um bom dia pra senhora.

Senhora: Ei! Acabo de ter uma visão! Um anjo está me dizendo que fizeram um trabalho de macumbaria para destruir sua família.

Vendedor: Já tenho a minha fé. Agora preciso voltar ao trabalho.

Apesar dos clientes chatos e outros legais, dos assédios sexuais (tanto de mulheres como de homens), das inconvenientes abordagens, dos maus colegas e da picaretagem dos agentes da Prefeitura, Artur mantinha o bom humor quase sempre. Pouco antes de sair da praia, tendo vendido só mais três palitos, uma adolescente gordinha junto com sua turma de banhistas resolveu pará-lo estando todas elas bêbadas:

Cliente: Moço, você tem picolé de cerveja?

Vendedor: Não tenho permissão de vender nada alcoólico para as crianças ou então a fiscalização me pega. Além de tudo, se for feito de Skol, não vai descer redondo e aí a fábrica pode ser processada no Procon por motivo de propaganda enganosa.

Cliente: Então me arruma um picolé de cachaça.

Vendedor: Eu tenho de caipirinha. Só que é sem álcool...

Cliente: Sério, moço? Que picolé é esse?

Vendedor: É o de limão. Já vem com todos os ingredientes para misturar na cachaça e fazer a caipirinha. Ou, se preferir, mergulha na vodka.

Cliente: Eu fico com esse mesmo! Kátia, você vai querer o de morango?

Vendedor: No momento, só vou ter um de limão e outro de flocos.

Cliente: Pode ser. Ela não quer, mas eu chupo os dois. Preciso de glicose senão vou passar mal. Volta aqui depois. Toma esses dez reais e fica com o troco.

Assim que retornou ao fornecedor, trovejou e não demorou a pingar.

Fornecedor: E então? Vai voltar pra praia?

Vendedor: Por hoje chega. Vai chover. Aqui sua placa.

Fornecedor: Sobrou quantos aí?

Vendedor: Nenhum.

Fornecedor: Se resolver voltar, lembre-se de que hoje fecho às duas.

Vendedor: Ok! Mas acho que hoje vou almoçar com a minha família, coisa que não faço há vários domingos porque tem feito tempo bom. Bendita chuva!

Fornecedor: Como é que é?! Não acredito que ouvi isso de um vendedor de picolé! Vê se pára de acender vela pra São Pedro e se concentra no trabalho porque, no próximo mês, precisarei aumentar o preço do produto para um real e quinze.

Vendedor: Caramba! No início do ano passado eu pagava oitenta e oito centavos.

Fornecedor: É a inflação... Você votou na Dilma, não foi?

Vendedor: Só no segundo turno e não me arrependo. Era a menos pior das opções.

Fornecedor: Então reclame com ela agora. O próximo da fila venha cá.

Debaixo da chuva, Artur foi para casa descansar. Sabia que, naquela semana, precisaria compensar o que esperava vender no domingo. Ainda assim, suas contas de janeiro já estavam pagas graças ao que juntou com o início da temporada de verão. Com a renda do picolé, ele não ficava rico. Porém, conseguia sustentar sua família sem dever nada a ninguém. De modo algum deixaria de ser camelô para trabalhar formalmente de carteira assinada por um salário mínimo ou dois. Até no brando inverno tropical do Rio de Janeiro a praia rendia mais dinheiro do que ficar sentado na portaria de um edifício. Era formado em Geografia, não exercia mais o magistério e poucos sabiam disso. Aliás, nem precisavam saber.

O respeito ao comércio numa localidade turística




Desde o dia 20 de novembro de 2012 que venho me dedicando ao comércio em Muriqui, trabalhando com a venda de sorvetes na praia. Não se que seja esta a minha vocação, mas, sim, por uma circunstancial questão de necessidade.

Nesses 38 meses de contínuo labor, tenho aprendido muita coisa e passado a compreender o outro lado de uma profissão. Senti na pele e no bolso o que é depender de uma economia sazonal bem como de um público que nem sempre sabe reconhecer os serviços prestados pelo comércio local. As pessoas que vêm curtir o feriado numa cidade praiana trazem de casa quase tudo o que consomem e ainda reclamam dos preços, achando que devemos entregar a nossa mercadoria pelos mesmos valores massificados da região metropolitana.

Num lugar pequeno e sem outro aparelho produtivo que não seja o turismo, nem sempre se aplica a lógica de que, com a redução da margem de lucro, o comerciante ganhará mais aumentando o volume de suas vendas. Pois, se o consumidor fica satisfeito comprando uma certa quantidade de mercadorias baratinhas (geralmente produtos de alimentação), tendo condições de pagar um preço um pouquinho mais elevado, obviamente que ele não precisará momentaneamente do mesmo tipo de produto. E ainda assim reclamará dos preços porque estes dificilmente serão competitivos em relação a uma grande loja nos centros urbanos. 

O fato é que qualquer comerciante tem os seus custos operacionais, além do direito ao ganho do próprio trabalho. Desde o dono de uma barraca de cachorro-quente até o proprietário de um super mercado, todos pagam algo para abrir as portas. E, num lugar essencialmente turístico como é Mangaratiba, o empresário necessita ganhar num dia movimentado aquilo que irá manter o seu negócio funcionando na maior parte do ano, quando então só será possível contar com a diminuta população residente cujo poder aquisitivo costuma ser baixo.

Penso que o visitante deve sempre ser bem tratado, receber produtos/serviços de qualidade, mas também precisa ter responsabilidade eco-social quando viaja para uma zona turística. Trata-se, pois, de uma questão de ética porque tem a ver com o sustento e a dignidade da população do lugar. Daí impactar o modo de vida dos moradores locais e explorar o trabalho alheio acaba se tornando uma atitude vil capaz de perpetuar a pobreza nas comunidades ao invés de contribuir para melhorar as condições de vida do ser humano.

Acredito que esse deva ser um dos motivos pelo qual o turismo não se desenvolve tanto em Mangaratiba quanto na maior parte do país. Pois, juntamente com a inércia do Poder Público, temos a má educação do brasileiro durante as suas viagens. Porém, se as pessoas passarem a ser instruídas e conscientizadas para respeitarem os direitos do comerciante/morador de uma localidade visitada, pode ser que, em algum dia, a situação mude. E, neste sentido, os governos federal, dos estados e dos municípios podem contribuir decisivamente por meio de campanhas comunicativas nas épocas de temporada.

Portanto, fica aí minha sugestão para que, na nossa querida Mangaratiba, tenhamos uma campanha de valorização do comércio local a fim de que a qualidade dos serviços prestados melhorem e estes sejam satisfatoriamente remunerados.

Um ótimo final de semana a todos!


OBS: Esse texto foi originalmente postado no blogue Propostas para uma Mangaratiba melhor no dia 22/01 do corrente ano, sendo que ilustração acima trata-se de uma foto da Praia de Muriqui, a qual encontrei no portal da Prefeitura de Mangaratiba.

domingo, 24 de janeiro de 2016

O pão de cada dia




Esperar por um pão quente e fresquinho pela manhã (ou à tarde) tem sido um hábito até hoje mantido por boa parte dos brasileiros. Vejo frequentemente essas cenas quando vou às compras no supermercado Costa Verde em Muriqui.

Enquanto eu prefiro levar para casa um pão integral industrializados, a maioria dos clientes do mercado resolve se espremer na fila enquanto o alimento assa no forno. Para abrir as portas de vidro da geladeira na qual ficam estocados os iogurtes, preciso pedir licença aos consumidores ali instalados, todos à espera do desejável produto que a minha sogra Nelma apelidou de "pão venenoso".

Nos últimos 17 anos, aprendi a gostar de variedades. Além do pão integral comum, aprecio aqueles que levam sementes, ervas ou castanhas misturadas na massa. Vez ou outra, substituo o alimento à base de trigo pelas deliciosas tapiocas, as quais ficam ótimas quando acompanhadas por queijo mais aquela xícara de café fresquinho. E, se descascar raízes não desse tanto trabalho, confesso que comeria muito mais aipim, inhame ou cará pela manhã.

Apesar disso, dizer que deixei de me interessar pelo tradicional pãozinho de sal seria uma inverdade. Pois, nas oportunidades que tenho para degustar esse alimento ainda popular, faço uma festança de lamber os beiços. Mesmo se o produto estiver frio ou "dormido".

Quando criança, o meu cafe da manhã era quase sempre com o pão francês. Também nas casas de meus avós era assim, embora o vovô Sylvio costumasse comprar também o pãozinho de milho para diversificar os gostos. Só que, naquela época, por ser uma criança enjoada, ficava removendo a erva-doce sismando que fossem bichos. Hoje, porém, de modo algum dispenso uma delícia dessas se a colocam na minha frente.

Se me perguntarem por que não como mais o pão de sal com a mesma frequência dos tempos de infância, digo que tenho razões variadas. Um dos motivos seria o gosto por variedades como já expus. Outro para cuidar da saúde (principalmente por causa da dieta de minha esposa Núbia que fez sua cirurgia bariátrica no ano passado). Mas a maior razão deve-se ao fato de que detesto as filas. Pois, como sou um cara muito prático, não quero perder tempo indo todas as manhãs à padaria, esperar o produto sair quentinho do forno para somente então tomar o café. Até porque tem dias que acordo antes das seis e o comércio daqui ainda se encontra fechado. 

Com toda sinceridade, prefiro levantar da cama e comer logo a primeira refeição do dia. E aí vai o que tiver em casa. Mesmo se forem só aqueles velhos biscoitos de água e sal com alguma coisa quente para beber.


OBS: Ilustração acima extraída de uma página da EBC com atribuição de autoria a Roosewelt Pinheiro da Agência Brasil, conforme consta em http://www.ebc.com.br/infantil/voce-sabia/2016/01/conheca-historia-do-pao

Desespero




Alguma palavra definiria melhor o cotidiano da maioria dos brasileiros do que o vocábulo desespero? Duvido!

Quando assisto nos telejornais as frequentes matérias sobre o caos na saúde pública, as más condições dos meios de transporte, a violência nas preferias das grandes cidades, a precariedade dos serviços de saneamento básico e o abandono das escolas pela idolatrada e gentil "pátria educadora" (só aqui no meu município de apenas 40 mil habitantes existem centenas de mães aguardando vaga na creche para o filho), percebo o quanto é desesperadora a vida do pobre. Trata-se de um sofrimento que pouca gente das classes média e rica percebe na mesma dimensão. Uma realidade da qual só conseguimos dar conta quando passamos a vivenciá-la também em seus variados detalhes e condicionamentos.

Alguém tem ideia do que vem a ser o chamado ciclo de pobreza?

Se pensarmos nas condições em que as pessoas muito pobres vivem, veremos o quanto é difícil para elas terem alguma mobilidade social. Suponho que, se não fossem os programas assistenciais, a exemplo do Bolsa Família, diversas regiões do país teriam até hoje os seus bolsões de miséria em dimensões mais profundas, com a exploração do trabalho infantil em proporção ainda maior e agricultores recebendo uma renda mensal inferior a meio salário mínimo, conforme era bem frequente nas décadas do século XX.

Todavia, falta muito para quebrarmos esse maldito ciclo! 

São diversas as condicionantes e as políticas públicas permanecem deficientes. Pois, se até para o pobre desfrutar de uma vida razoavelmente digna está difícil, mais distante ele se encontra da tão sonhada mobilidade social. E os poucos que a alcançam acabam passando por sacrifícios e privações consideráveis que marcarão irreversivelmente suas vidas nesta sofrida terra.

Apesar da acessibilidade em relação à escola básica, um longo deserto precisa ser cruzado para o pobre entrar numa faculdade, conseguir sair dela com diploma e, finalmente, colocar-se profissionalmente no mercado de mão-de-obra qualificada. Ao se formar, um aluno de condição humilde já não costuma ser tão jovem quanto o filho de papai e isso conta muito para o sujeito ficar empregado e se aperfeiçoar.

Como se não bastassem as condicionantes materiais, o pobre também enfrenta desafios no campo das emoções. Um deles seria quanto à auto-estima muitas vezes rebaixada. Trata-se de uma dificuldade surgida desde a infância da pessoa mas que pode ser novamente retroalimentada por outros problemas que vão surgindo, os quais envolvem a vida pessoal e a família. Basta um parente adoecer, um irmão ser preso ou ocorrer uma perda considerável para as coisas ficarem abaladas a ponto de comprometerem o sucesso das metas traçadas.

Penso que não será fácil a superação coletiva dessa crônica situação desesperadora do Brasil sem haver um esforço coletivo e solidário dos membros da nossa sociedade. Junto com as políticas públicas, as pessoas precisam se apoiar mutuamente criando assim um ambiente propício para que construamos um futuro melhor dentro de duas ou três gerações. E aí o primeiro passo consiste em alargarmos a nossa compreensão, colocando-nos no lugar do outro, e evitando os julgamentos morais improdutivos.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro O Grito, pintura em óleo sobre tela feita em 1893 pelo artista norueguês Edvard Munch (1863 - 1944). Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Saudade das cartas




Sou do tempo em que as cartas e os telefonemas eram os principais meios de comunicação à distância usados pelas pessoas do planeta. Até à década de 1990, a maioria dos brasileiros nem tinha e-mail e menos ainda redes sociais. Caso eu desejasse entrar em contato com parentes de outras cidades, deveria fazer da maneira convencional, sendo os serviços dos Correios financeiramente mais acessíveis do que os prestados pela antiga TELERJ cujas tarifas para chamadas DDD e DDI eram exorbitantes para o padrão atual da telefonia.

Comecei a escrever cartas logo nos primeiros anos do ensino fundamental quando morava com o meu avô paterno Sylvio na mineira Juiz de Fora em meados dos anos 80. Passei a corresponder-me de lá com minha mãe, tios e demais avós. Recordo da vez em que apreendi a preencher o envelope dando ao destinatário o tratamento de "ilustríssimo", com a sua respectiva abreviação, antes de por o nome da pessoa na linha seguinte. Ao final, tinha que pesquisar o CEP que até então era de apenas cinco algarismos. Na agência dos Correios que ficava na rua Marechal Deodoro, eu pesquisava um livro bem grosso, cheio de orelhas e com algumas folhas arrancadas para tentar localizar qual o código do endereço pois nem sempre os funcionários da ECT mostravam-se dispostos a pesquisar para o consumidor.

As correspondências demoravam alguns dias ou semanas para serem respondidas. Quando entregues no apartamento onde vovô morava na Avenida Rio Branco, em cima de um saudoso cinema de rua chamado Excelsior, o porteiro seu Moacir logo interfonava e eu, imediatamente, descia os catorze andares para buscar a esperada cartinha. Esta já se encontrava separada numa caixinha individualizada de cada unidade habitacional do condomínio. Ansiosamente, abria o envelope e começava a leitura já no elevador.

Não tardou, passei a escrever também para algumas instituições, jornais e revistas infantis. Na época, havia vários clubes de correspondência e estabeleci diversos contatos com outras crianças da minha faixa etária mas que não soube transformar em amizades. Na verdade, aquilo era algo que eu fazia mais pelo sabor da experiência.

Em fevereiro de 1993, quando participei de um congresso da juventude batista mineira, ocorrido na tórrida Governador Valadares, passei depois a trocar correspondências com um rapaz da região metropolitana de Belo Horizonte chamado Ademir. Foram várias cartas que um mandou para o outro até que, numa tarde, recebi uma mensagem de sua irmã noticiando o falecimento dele num trágico acidente de moto, tornando-se mais uma vítima da sangrenta guerra do trânsito.

Seis anos depois, fiz amizade com outro rapaz através de uma seção da revista Globo Rural. Ele era do interior do Rio Grande do Sul e, na época, eu já vivia na serrana cidade de Nova Friburgo onde cursava Direito no campos da Estácio de Sá. Nas cartas tratávamos de temas mais aprofundados do que nos contatos que tive com Ademir. E as mensagens do Carlos mexiam um pouco com as minhas crenças sendo ele um ex-luterano que havia se tornado esotérico. Tinha ele também um estilo de vida nada comum pois passava dias viajando nas estradas do Brasil na companhia de um amigo caminhoneiro.

Também naqueles anos finais do século XX, graças à tal revista, recebi cartas de uma jovem de Rondônia. E, se já não estivesse namorando a Núbia, provavelmente aquele contato acabasse virando algo mais do que amizade. Aliás, dava para perceber pelas palavras da moça qual o seu interesse em relação a mim sendo que até um papel marcado com batom ganhei...

Numa era de mensagens instantâneas trocadas pelas alienantes redes sociais (e agora através desse horroroso WhatsApp que ainda não tenho), acho que a comunicação à distância tornou-se descaracterizada. Eu diria que as cartas perderam a graça pra muita gente devido à facilidade de acesso permitida pela internet, afetando terrivelmente as relações presenciais até numa mesma comunidade. Hoje, na rede mundial de computadores, você fica conectado o tempo todo com dezenas, centenas e até milhares de pessoas a ponto e nem conseguir dar mais atenção a quem está perto bem do seu lado. E, caso reveja algum parente ou amigo de longe, o reencontro já não é mais acompanhado pelas mesmas emoções de antigamente. Passam alguns instantes e o telefone celular apita sinalizando um novo recado trazido pelo Messenger.

Será esse um caminho sem volta?!

Suponho que, nas próximas décadas, precisaremos explicar para os nossos netos e bisnetos o que eram as cartas pois duvido que a ECT, junto com o monopólio estatal dos serviços postais, consiga sobreviver até 2050. Hoje em dia, os Correios são mais procurados para adimplemento de contas na qualidade de sub-agência do Banco do Brasil, servindo de opção para o grande número de pessoas não habituadas a efetuar pagamentos por telefone ou na internet usando a numeração do código de barras. Dependendo da época do mês, as enormes filas desafiam os ânimos de qualquer missivista persistente.

Atualmente, os serviços dos Correios para mim aplicam-se mais às entregas de notificações, sendo a maioria delas do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Como vivo oferecendo representações contra os constantes erros da Prefeitura de Mangaratiba, perante as Promotorias de Justiça de Tutela Coletiva situadas no município vizinho de Angra dos Reis, costumo receber solicitações de esclarecimento ou ofícios informando o desfecho final dos procedimentos investigatórios. Dificilmente chega algo de parente ou de amigo e quem ainda manda uma carta pra mim é o último dos avós vivos, seu Georges, que, aos 82 anos, reside sozinho na capital da Costa Rica. Por não usar email e nem ter conta nas redes sociais de internet, apenas consigo acessá-lo por carta ou telefonando.


OBS: Imagem acima extraída de http://www.ebc.com.br/cultura/2013/04/correios-divulgam-vencedores-estaduais-de-concurso-de-cartas

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Avós e netos




Quem hoje tem netos e não guarda lembrança dos avós com os quais chegou a conviver?!

Eu, embora ainda não possua filhos, já teria idade suficiente para ser pai de um jovem adulto e, consequentemente, avô de pelo menos um ou dois netos. Afinal, faço quarenta em abril, sendo que me restou um avô vivo por parte de mãe com seus respeitáveis 82 anos.

Nascido no Egito e de nacionalidade grega, seu Georges seria o avô com quem menos convivi. Veio ele para o Brasil trazendo a família em meados do século passado e se casou com a minha avó Marisa na década de 50. Separou-se, contraiu novas núpcias no exterior e acabou deixando o país por motivo de trabalho pois era funcionário da multinacional suíça SGS. Teve um casal de filhos do primeiro casamento e uma única filha do segundo. Atualmente, reside em San José, capital da pacata Costa Rica.

No entanto, fui criado pelo meu outro avô, seu Sylvio, pai do papai, o qual, assim como as avós, era carioca da gema. Nascido em 1917, no bairro Todos os Santos, Zona Norte do Rio, seguiu carreira militar na arma da artilharia, pegando o tempo em que os canhões do Exército eram puxados a cavalo. Casou-se nos anos 40 com minha avó Darcília, tendo com ela também um casal de filhos. Igualmente veio a se divorciar da primeira esposa e contraiu novas nupcias em Juiz de Fora, cidade mineira onde entrou para a reserva na patente de coronel. Com o falecimento de papai, em setembro de 1983, fui morar com esse avô um ano e alguns meses depois.

Posso afirmar que não há ninguém melhor do que um neto criado pelos pais de seus pais para falar sobre como é essa relação avoenga. E, no meu caso específico, morei com os avós paternos em casas diferentes, incluindo o final da infância, a adolescência e o início da juventude, quando fui então viver sozinho até casar-me com Núbia em março de 2006.

Ora, quem considera os avós super protetores está coberto de razão. Pois eles costumam ser demasiadamente preocupados com o bem estar do neto a ponto de logo quererem agasalhar a criança ao escutarem um simples som de tosse ou de espirro. Na presença de seu Sylvio ou de dona Marisa, eu jamais poderia andar descalço que eles já pediam para que colocasse nos pés os chinelos.

Suponho que, atualmente, haja uma proporção maior de crianças cuidadas pelos avós do que na minha época de infância. E muitos avós parecem até que são os pais do pentelho de tão novos que são assim como acontecia com a minha avó Marisa quando ela me levava para passear em sua companhia pelo Rio de Janeiro. Frequentemente as pessoas perguntavam "ele é seu filho?", quando nos conheciam pouco.




Não acho ideal uma criança ou adolescente ser criado pelos avós. Em casos excepcionais, pode um juiz entregar a guarda do menor a outra pessoa da família que não sejam os pais. Porém, posso dizer que essa convivência predominante com os avós paternos trouxe-me experiências extras em relação a maioria de meus colegas, embora incapazes de compensar os benefícios do relacionamento do filho com a mãe na época necessária.

Penso que a presença dos avós na vida dos netos deva ser dosada para que não ocupem o lugar dos pais na educação da criança. Os avós devem dar suporte para que os pais desempenhem o papel que lhes cabe e jamais assumirem responsabilidades que não são deles. Pois, no fim das contas, acabam sacrificando inutilmente os últimos anos da maturidade e o melhor da velhice, prejudicando também o desenvolvimento do neto.

De qualquer modo, sou grato aos meus saudosos avós paternos por terem contribuído da maneira deles com a minha criação, levando em conta o que fizeram de positivo por mim e perdoando suas falhas. Orgulho de tê-los vivos até o início do presente século, tendo despedido primeiro do velho soldado em maio de 2005 e depois da avó paterna no mês de setembro de 2011. Já a vó materna, ela se foi pouco depois da outra, em março de 2012. Mas quanto ao seu Georges, pretendo reencontrá-lo em abril do corrente ano, na próxima viagem dele ao Rio (da última vez em que veio ao Brasil ele foi direto visitar minha mãe no Distrito Federal).

Para concluir, lembro que, segundo a Bíblia, há poucas passagens contando sobre a relação avoenga. Por exemplo, praticamente nada sabemos sobre a convivência de Jacó com Abraão. Contudo, as Escrituras relatam ter José visto os descendentes de seu filho Efraim até a terceira geração e que "tomou sobre seus joelhos" os bisnetos, os quais eram filhos de Maquir, netos de Manassés (Gn 50:23). E acho que esse deve ser o grande barato de alguém poder curtir os netos e bisnetos sem o estresse de se tornar pai pela segunda vez.

Uma ótima quarta-feira a todos!


OBS: As ilustrações acima referem-se aos quadros do artista grego Georgios Jakobides (1853 - 1932), ambas extraídas do acervo virtual da Wikipédia.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Humanidade que se abandona




Não está nada fácil viver neste mundo. Pelo menos essa é a realidade para a grande maioria dos seres humanos que não têm a dignidade respeitada. Principalmente nessa grande porção territorial do planeta chamada Brasil...

Para quem possui uma boa quantia em dinheiro, a dor é mais suave. Se a pessoa fica doente, não precisando do SUS e nem dos precários planos de saúde, podendo pagar pelos melhores médicos e se internar num Albert Einstein, com a melhores tecnologias ao seu dispor, tal sujeito adquire o direito de morrer num CTI de primeira classe com a família dando o último adeus.

Se o dinheiro não cura a dor, ao menos ajuda a enxugar as lágrimas. Porém, nas unidades de saúde do SUS, o paciente mal tem o direito a chorar como aconteceu certa vez com uma mulher internada numa maternidade pública onde perdera o bebê. Ao relatar seus sofrimentos, ela me contou sobre o reprovável comportamento de um enfermeiro que, por várias vezes, mandou-a calar a boca. Entre os médicos que se revezavam nos plantões, uns a tratavam bem, enquanto outros cuidavam dos pacientes como se fossem animais cometendo a tão falada violência obstétrica. O marido mal podia estar com ela e a maternidade nem respeitava as duas horas de visita diária impedindo as mulheres internadas de terem ao menos um acompanhante.

Eu poderia gastar palavras e mais palavras descrevendo os descasos na saúde pública do nosso Brasil, coisa que a TV mostra diariamente sem haver até hoje uma solução para esse caos. Então, prefiro ir logo ao diagnóstico da responsabilidade e procurar o(s) causador(es) dessa desgraceira toda.

Ora, os maiores cretinos que detonam a saúde no país são os gestores a começar pelos senhores prefeitos e governadores de estado, sem excluir também a tal da presidenta. Se as condições de trabalho dos profissionais são ruins, faltam materiais, há poucos leitos disponíveis e os salários andam baixos, não seria porque os parcos recursos do orçamento são mal administrados? Pior dizendo, são geridos conforme os interesses da chamada máfia de branco em que uma boa fatia do dinheiro é usada em contratos superfaturados e/ou desnecessários, obras inacabadas, medicamentos que "somem" antes da distribuição aos pacientes (isto quando não são nem entregues de fato nos almoxarifados), convênios injustificáveis com empresas privadas e até a absurda concessão dos serviços a ONGs suspeitas.

Acontece que, como tenho dito em postagens passadas, a canalhice não está só na cúpula. Um enfermeiro que manda uma paciente em prantos calar a boca numa maternidade, ou um cidadão que negocia o seu voto para candidato picareta se eleger, é também responsável pelos descasos ocorridos hoje em dia. Tanto na saúde quanto em outras áreas.

Até pouco tempo atrás, o trabalho infantil tinha diminuído e, em breve, iria se tornar uma página virada na história brasileira. Só que, segundo as últimas notícias dos jornais, voltou a aumentar o número de crianças que deixam a escola para trabalhar ajudando na renda da família. Um retrocesso!

Brasil, quando você vai acordar desse seu sono letárgico?! Um dia você já não estará mais deitado nesse berço esplêndido porque até suas matas, seus rios, o solo e o ar já estarão totalmente degradados. Um simples mosquito tem derrotado a nação e espalhando três doenças graves, dentre as quais o terrível zika vírus...

Assim, dividida em nações, classes econômicas, grupos políticos e religiões, vai caminhando a nossa espécie e a nossa população de brasileiros. Sem um amparo suficiente de seus semelhantes, pessoas vão sendo esquecidas e abandonadas sem políticas públicas eficientes e sem a assistência privada. Litros de lágrimas são derramados pelos aflitos nas suas orações não respondidas, as quais refletem problemas humanos e que deveriam ser resolvidos por nós humanos.

Nesse ano de 2016, em que teremos eleições municipais, não me iludo com grandes mudanças, as quais desejaria muito ver acontecer. Porém, trata-se de uma oportunidade para as pessoas de bem tentarem influenciar a política local ao elegerem um ou dois vereadores que resolvam fiscalizar de verdade as safadezas dos prefeitos e de seus pares na Câmara. Por isso, desde já precisamos ficar bem atentos quanto às pré-candidaturas que vão surgindo para separarmos do joio as poucas sementes de trigo que germinam nesse meio de ladrões oportunistas que tem sido a nossa política.

Desculpe uma certa dose de mau humor neste artigo, meu caro leitor. Tem horas que a gente fica sem paciência com tanta coisa errada se repetindo por aí e precisamos desabafar.


OBS: A imagem acima refere-se a uma cena do trabalho infantil em nosso país sendo os créditos autorais atribuídos a Marcello Casal Jr da Agência Brasil, conforme extraído de http://www.ebc.com.br/2012/08/unicef-alerta-para-trabalho-infantil-como-causa-significativa-do-abandono-escolar