Os acontecimentos de 03 de janeiro recolocaram a Venezuela no centro de uma velha encruzilhada latino-americana: como enfrentar crises políticas profundas sem sacrificar a soberania nacional nem normalizar soluções impostas pela força externa. Mais do que discutir vencedores imediatos, o desafio que se impõe agora é pensar como construir estabilidade política com legitimidade interna e reconhecimento internacional — condição indispensável para qualquer saída duradoura.
A experiência histórica da região mostra que mudanças abruptas induzidas de fora raramente produzem estabilidade. Ao contrário, tendem a aprofundar fraturas internas, alimentar disputas por recursos estratégicos e prolongar ciclos de dependência. Por isso, o debate central não deveria ser apenas “quem governa”, mas como o poder será reorganizado, sob quais garantias institucionais e com que grau de autonomia decisória.
A armadilha da estabilidade sem soberania
Há um risco evidente de que a busca por “ordem” se traduza em um arranjo político tutelado, no qual decisões estratégicas — especialmente sobre petróleo, finanças e política externa — sejam deslocadas para fora do país. Esse modelo, já visto em outros contextos, pode gerar uma estabilidade aparente, mas profundamente frágil, sustentada por dependência econômica e vigilância permanente.
Para um país com a centralidade geopolítica da Venezuela, isso significaria trocar um impasse interno por uma subordinação estrutural, algo que dificilmente seria aceito por amplos setores da sociedade venezuelana e que manteria o país em tensão constante.
O papel da diplomacia como alternativa à força
É nesse ponto que a diplomacia regional e multilateral se torna decisiva. Uma estabilização com soberania passa, necessariamente, por:
- Mediação internacional plural, que não seja monopolizada por uma única potência;
- Reativação de canais institucionais, inclusive eleitorais, com garantias verificáveis;
- Suspensão gradual e condicionada de sanções, vinculada a compromissos políticos concretos;
- Participação ativa de países da região, especialmente aqueles com credibilidade histórica na defesa da não intervenção.
O Brasil, pela sua posição geográfica, peso diplomático e tradição de solução negociada de conflitos, pode desempenhar um papel relevante — não como tutor, mas como facilitador de um processo venezuelano, respeitando tempos internos e evitando soluções artificiais.
Cenários possíveis no curto e médio prazo
Três cenários se desenham no horizonte:
- Endurecimento e isolamento prolongado, com aumento da pressão externa e deterioração interna — o pior dos mundos, tanto para a Venezuela quanto para a região.
- Estabilização tutelada, com governo dependente de apoio externo, ganhos econômicos concentrados e soberania limitada.
- Transição negociada, lenta e imperfeita, mas sustentada por acordos internos, acompanhamento internacional e reinserção gradual no sistema multilateral.
Entre eles, apenas o terceiro oferece estabilidade real, ainda que não imediata.
Uma lição para a América do Sul
O que está em jogo não é apenas o futuro da Venezuela, mas o tipo de ordem regional que a América do Sul aceita construir. Normalizar intervenções como solução para crises políticas abre precedentes perigosos, sobretudo para países médios que dependem do direito internacional como proteção contra assimetrias de poder.
A estabilidade que ignora a soberania pode ser rápida; a estabilidade que a preserva é mais difícil — mas é a única que se sustenta no tempo.
Conclusão
Após 03 de janeiro, a Venezuela enfrenta uma escolha histórica que não será resolvida por discursos beligerantes nem por soluções de curto prazo. A reconstrução da estabilidade passa menos pela força e mais pela diplomacia, menos pela imposição e mais pela negociação.
Para o Brasil e para a região, apoiar uma saída que combine ordem política, soberania nacional e reinserção internacional não é apenas uma posição ética — é uma escolha estratégica.

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