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| Ibama/divulgação |
Durante décadas, o debate ambiental no Brasil foi aprisionado em uma falsa escolha: ou se preserva, ou se desenvolve. Esse enquadramento simplista contaminou políticas públicas, radicalizou posições e produziu um resultado paradoxal: nem crescimento sustentável, nem conservação eficaz.
Hoje, a realidade se impõe com mais clareza. Sem florestas funcionais, não há economia regional estável, especialmente em países tropicais como o Brasil. Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica não são apenas patrimônios naturais ou símbolos identitários: são infraestruturas climáticas, hidrológicas e produtivas, fundamentais para regular chuvas, vazões de rios, fertilidade do solo e previsibilidade econômica.
Quando esses biomas entram em colapso, o custo não é abstrato. Ele aparece na forma de secas prolongadas, perda de produtividade agrícola, crises energéticas, conflitos pelo uso da água e queda de arrecadação municipal.
Persistir no modelo atual — baseado em expansão extensiva, baixo valor agregado e degradação ambiental — significa condenar os próprios territórios produtores à instabilidade crônica.
🌧️ Restauração ambiental não é romantismo: é política econômica
O debate precisa amadurecer. Restaurar florestas e frear o desmatamento não significa “parar de produzir”, mas produzir melhor, com menos risco e mais retorno ao longo do tempo.
A ciência climática e a experiência prática já demonstram que biomas íntegros:
- regulam o regime de chuvas;
- reduzem extremos climáticos;
- aumentam a eficiência do uso da água;
- dão previsibilidade à produção agrícola.
Em outras palavras, floresta em pé reduz incerteza econômica. E reduzir incerteza é um dos principais objetivos de qualquer política de desenvolvimento.
🏛️ O desafio da política pública: chegar ao município
O governo federal dispõe hoje de instrumentos relevantes: combate ao desmatamento ilegal, fundos de restauração, pagamentos por serviços ambientais, políticas de bioeconomia, crédito rural condicionado. O mérito é inegável.
O gargalo está na ponta.
Prefeitos e gestores locais não governam com discursos globais. Governam com:
- orçamento apertado;
- pressão por emprego;
- arrecadação instável;
- conflitos fundiários e sociais.
Se a política ambiental não fechar a conta no nível municipal, ela não se sustenta politicamente — independentemente de sua virtude técnica.
É nesse ponto que o diálogo entre o Ministério do Meio Ambiente e os gestores locais precisa avançar: menos pactos genéricos, mais modelos econômicos territoriais claros, capazes de demonstrar que conservar também gera receita, emprego e estabilidade.
📊 Um modelo econômico municipal possível (e realista)
Imagine um município médio da Amazônia ou do Cerrado, com cerca de 30 a 40 mil habitantes, cuja economia hoje depende da pecuária extensiva e de poucas commodities agrícolas.
Esse município poderia, em um horizonte de 10 anos, reorganizar sua base econômica sem ampliar o desmatamento:
O resultado não é uma economia “verde” abstrata, mas uma economia menos vulnerável a choques climáticos e políticos.
🌎 Floresta como infraestrutura estratégica
A recomposição da Amazônia, do Cerrado e da Mata Atlântica não deve ser vista como política setorial, mas como estratégia nacional de desenvolvimento. Assim como estradas, portos e hidrelétricas, os biomas estruturam a economia — com a diferença de que são infraestruturas vivas.
Ignorar isso é insistir em um modelo que produz crescimento de curto prazo e colapsos recorrentes no médio prazo.
🧠 Conclusão
O Brasil não precisa escolher entre floresta e desenvolvimento. Precisa escolher entre desenvolvimento inteligente ou atraso disfarçado de progresso.
Transformar restauração ecológica em política pública não é idealismo ambiental. É engenharia econômica aplicada ao território, baseada em ciência, realidade fiscal e bom senso.

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