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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

🌳 Floresta não é obstáculo ao desenvolvimento — é infraestrutura econômica


Ibama/divulgação


Durante décadas, o debate ambiental no Brasil foi aprisionado em uma falsa escolha: ou se preserva, ou se desenvolve. Esse enquadramento simplista contaminou políticas públicas, radicalizou posições e produziu um resultado paradoxal: nem crescimento sustentável, nem conservação eficaz.

Hoje, a realidade se impõe com mais clareza. Sem florestas funcionais, não há economia regional estável, especialmente em países tropicais como o Brasil. Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica não são apenas patrimônios naturais ou símbolos identitários: são infraestruturas climáticas, hidrológicas e produtivas, fundamentais para regular chuvas, vazões de rios, fertilidade do solo e previsibilidade econômica.

Quando esses biomas entram em colapso, o custo não é abstrato. Ele aparece na forma de secas prolongadas, perda de produtividade agrícola, crises energéticas, conflitos pelo uso da água e queda de arrecadação municipal.

Persistir no modelo atual — baseado em expansão extensiva, baixo valor agregado e degradação ambiental — significa condenar os próprios territórios produtores à instabilidade crônica.


🌧️ Restauração ambiental não é romantismo: é política econômica

O debate precisa amadurecer. Restaurar florestas e frear o desmatamento não significa “parar de produzir”, mas produzir melhor, com menos risco e mais retorno ao longo do tempo.

A ciência climática e a experiência prática já demonstram que biomas íntegros:


  • regulam o regime de chuvas;
  • reduzem extremos climáticos;
  • aumentam a eficiência do uso da água;
  • dão previsibilidade à produção agrícola.


Em outras palavras, floresta em pé reduz incerteza econômica. E reduzir incerteza é um dos principais objetivos de qualquer política de desenvolvimento.


🏛️ O desafio da política pública: chegar ao município

O governo federal dispõe hoje de instrumentos relevantes: combate ao desmatamento ilegal, fundos de restauração, pagamentos por serviços ambientais, políticas de bioeconomia, crédito rural condicionado. O mérito é inegável.

O gargalo está na ponta.

Prefeitos e gestores locais não governam com discursos globais. Governam com:


  • orçamento apertado;
  • pressão por emprego;
  • arrecadação instável;
  • conflitos fundiários e sociais.


Se a política ambiental não fechar a conta no nível municipal, ela não se sustenta politicamente — independentemente de sua virtude técnica.

É nesse ponto que o diálogo entre o Ministério do Meio Ambiente e os gestores locais precisa avançar: menos pactos genéricos, mais modelos econômicos territoriais claros, capazes de demonstrar que conservar também gera receita, emprego e estabilidade.


📊 Um modelo econômico municipal possível (e realista)

Imagine um município médio da Amazônia ou do Cerrado, com cerca de 30 a 40 mil habitantes, cuja economia hoje depende da pecuária extensiva e de poucas commodities agrícolas.

Esse município poderia, em um horizonte de 10 anos, reorganizar sua base econômica sem ampliar o desmatamento:


1. Produzir mais onde já está aberto
A recuperação de pastagens degradadas e a adoção de sistemas integrados (lavoura–pecuária–floresta) permitem aumentar a produtividade sem avançar sobre novas áreas.


2. Remunerar quem conserva
Pagamentos por serviços ambientais, associados à manutenção de reservas legais e recuperação de áreas de preservação, geram renda previsível e reduzem conflitos com a fiscalização.


3. Transformar floresta em indústria local
O manejo florestal sustentável, aliado a serrarias e pequenas indústrias locais, gera mais valor agregado e empregos urbanos do que a extração predatória.


4. Apostar na bioeconomia de base territorial
Cadeias de frutos, óleos, sementes e produtos florestais não madeireiros diversificam a economia e integram pequenos produtores.


5. Ganho fiscal e estabilidade
Com redução do desmatamento, o município passa a acessar ICMS ecológico, transferências condicionadas e programas estaduais ou federais, fortalecendo sua capacidade fiscal.


O resultado não é uma economia “verde” abstrata, mas uma economia menos vulnerável a choques climáticos e políticos.


🌎 Floresta como infraestrutura estratégica

A recomposição da Amazônia, do Cerrado e da Mata Atlântica não deve ser vista como política setorial, mas como estratégia nacional de desenvolvimento. Assim como estradas, portos e hidrelétricas, os biomas estruturam a economia — com a diferença de que são infraestruturas vivas.

Ignorar isso é insistir em um modelo que produz crescimento de curto prazo e colapsos recorrentes no médio prazo.


🧠 Conclusão

O Brasil não precisa escolher entre floresta e desenvolvimento. Precisa escolher entre desenvolvimento inteligente ou atraso disfarçado de progresso.

Transformar restauração ecológica em política pública não é idealismo ambiental. É engenharia econômica aplicada ao território, baseada em ciência, realidade fiscal e bom senso.

A floresta não é o problema.
É parte essencial da solução.

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